Transição: Rosinha pede e adia novamente primeira reunião

Rosinha e Rafael
Rosinha e Rafael (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Depois de pedir para adiar a primeira reunião de transição entre os governos Rosinha Garotinho (PR) e Rafael Diniz (PPS), marcada incialmente (aqui) para última quinta-feira (03), mas transferida (aqui) para hoje (07) a pedido da atual prefeita, esta acabou de solicitar e conseguir mais um adiamento.

Da primeira vez, Rosinha adiou porque alegou querer marcar presença no encontro, hoje o adiamento se deu por sua ausência, que estaria no Rio de Janeiro. Assim adiada inicialmente para às 15h de hoje, a primeira reunião de transição foi novamente adiada para amanhã (08), às 15 h.

Confira abaixo a explicação na nota gerada pela equipe de transição de Rafael:

 

No final da manhã desta segunda-feira (07) o Procurador Geral do Município de Campos, Matheus José, entrou em contato para solicitar que a reunião da transição, marcada para às 15h de hoje, fosse remarcada para amanhã, no mesmo horário. De acordo com ele, trata-se de um pedido da prefeita Rosinha Garotinho, que pretende estar presente. Na última quinta-feira, primeira data marcada para a reunião entre as esquipes, a prefeita já havia solicitado que fosse remarcada para esta segunda-feira. 

Logo após a vitória no primeiro turno o prefeito eleito Rafael Diniz deixou claro que esperava uma transição técnica, transparente, e sem revanchismo. A equipe de transição do prefeito eleito, que protocolou ofício solicitando informações ao atual governo desde o último dia 20, espera pela reunião desde a semana passada. Por solicitação da prefeita, este encontro passou da última quinta-feira para esta segunda-feira. Hoje, mais uma vez por solicitação da prefeita, a reunião foi remarcada com a promessa de que não haverá mais alterações. “Neste momento a cidade está acima de qualquer diferença partidária e a maturidade deve prevalecer. Fomos informados que amanhã, com ou sem a presença da prefeita, a reunião será realizada”, diz o advogado Fábio Bastos, coordenador da equipe de transição do prefeito eleito.
0

Lições de outubro — Aos que chegaram ao poder e nasceram nos anos 1980

 

Crise + oportunidade

 

 

 

Vários foram os fatores que levaram à vitória acachapante de Rafael Diniz (PPS), nas sete Zonas Eleitorais, ainda no primeiro turno, pela Prefeitura de Campos:

  • A contagiante campanha do vitorioso na democracia irrefreável das redes sociais e na propaganda de TV, concebida por profissionais locais, que compensou pouco tempo com dinamismo e criatividade;
  • A articulação e o desassombro de Rafael nos debates, aliado ao desempenho claudicante do candidato governista Dr. Chicão (PR), sobretudo no último, de maior e decisória audiência, da InterTV Planície;
  • A atuação firme do Ministério Público e Justiça Eleitorais, além da Polícia Federal (PF), certamente inspirados na Operação Lava Jato, a provar que a cidade, como o país, não aceitam mais determinadas práticas dos seus governantes;
  • A diarreia verbal (aqui e aqui) do marido e secretário de Governo da prefeita Rosinha Garotinho (PR), no microfone da sua rádio, com contornos de surto psicótico, sobretudo na última semana de campanha, quando desidratou de vez a candidatura governista.

Mas talvez nada tenha definido os rumos da eleição quanto a surpreendente posição do ex-prefeito Arnaldo Vianna (PMDB). Ao romper (aqui e aqui) com a candidatura do filho único Caio Vianna (PDT), questionando publicamente (aquiaqui) o preparo deste, para apoiar (aqui, aqui e aqui) a de Geraldo Pudim (PMDB), há quem tenha dito, talvez não sem razão, que Arnaldo teria assassinado não dois, mas três coelhos numa cajadada solitária e trapalhona: a pretensão de Caio em ser prefeito, quando ainda liderava (aqui) as pesquisas de intenção de voto, a de Pudim e o próprio arnaldismo — outrora popular derivação do populismo garotista, em sua oposição carbono.

A opinião de que a atitude de Arnaldo e suas consequências, mais que quaisquer outros fatores, definiram a eleição de Campos, ainda no primeiro turno de 2 de outubro, ganhou reforço sobretudo na análise, Brasil afora, do resultado final das eleições municipais, findo o segundo turno do dia 30. Como observou o jornalista Paulo Celso Pereira:

— Em quatro das cinco maiores capitais, a disputa foi marcada pela ascensão de candidatos que se apresentavam como outsiders ou representantes de uma “nova política”. Foi assim no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Fortaleza.

Assim, por mais distinções que Rafael possua, respectivamente, dos também eleitos Marcelo Crivella (PRB), João Doria (PSDB) e Alexandre Kalil (PHS), além do ex-PM Capitão Wagner (PR), derrotado por pouco na capital do Ceará, o que os uniu e impulsionou foi a busca do eleitor pelo novo, diante de um modelo tradicional de fazer política cuja falência é outra consequência inequívoca da Lava Jato.

Foi esse desejo de ruptura que definiu as urnas de Campos e São Paulo ainda no primeiro turno, e do Rio e de Belo Horizonte no segundo. Como elegeu, por exemplo, o jovem Nelson Marchezan em Porto Alegre (RS), ou o azarão Dr. Hildon, em Porto Velho (RO), outras duas capitais do total de sete que serão governadas pelo PSDB — vencedor nacional do pleito municipal, cujo maior perdedor foi o PT. De terceira maior legenda do país em número de prefeituras, o partido dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff desceu a ladeira à 10ª posição.

E quem tem dúvida local sobre os danos ao PT da sua associação, eviscerada na Lava Jato, ao que sempre houve de pior na tradição fisiológica da política brasileira, que se pergunte quantos votos faria o vereador Marcão (Rede), merecidamente reeleito com a maior votação legislativa de Campos, caso tivesse permanecido no partido pelo qual conquistou seu primeiro mandato.

Antes de qualquer particularidade regional, Rafael foi eleito na esteira de um fenômeno nacional, por quem buscou novidade, mudança. E a esperança chegou a ser endereçada a Caio, antes do seu pai extraviar a correspondência, assumida com competência pelo destinatário final da maioria nas urnas.

Se nenhum prefeito a partir de 1º de janeiro de 2017 terá vida fácil na crise econômica legada pelos 13 anos de governo federal do PT, tanto pior no Estado do Rio condenado à insolvência pelo PMDB, uma oitava abaixo pela bancarrota na qual os oito anos do governo Rosinha afundaram Campos. Isso, lógico, enquanto quem bateu a carteira agora grita “pega ladrão!”, ao eco de delírios sobre anulação das eleições, Pátio Norte e outras manjadas variantes da sua ideação persecutória.

O jovem prefeito eleito, como a maioria dos nomes da sua equipe, antecipados (aqui, aqui e aqui) pela coluna “Ponto Final”, são de uma geração nascida nos anos 1980. E amanhã eles terão (aqui) a primeira reunião de transição com a atual administração, possivelmente na presença de Rosinha, mais seu secretário de Governo. Estes, por sua vez, de uma geração que chegou ao poder nos mesmos anos 1980 — década na qual também se conjugou crise com esperança.

Trinta anos depois, neste domingo de Enem, a lição parece simples: quem não aprender a sua é posto para fora da sala.

 

Publicado hoje (06) na Folha da Manhã

 

0

Fabio Bottrel — A poesia mais bonita que Deus escreveu

 

Sugestão para escutar enquanto lê: Cinema Paradiso – EnnioMorricone

 

 

 

 

Bottrel 05-11-16

 

 

— Está vendo esse mar pintando o horizonte de vermelho, iluminando lá no céu a estrela que saiu do seu peito? É a vida nos dizendo que nem tudo está perdido para quem acredita no amor, como se fôssemos os ossos de um mundo que está morrendo, perdendo em cada suspiro suas últimas pétalas de esperança. – Disse o rapaz com os olhos marejados com o reflexo mar adentro.

— Você fala diferente.

— Diferente como?

— Parece que cada palavra foi escrita. – A moça gostava quando seus dizeres faziam o rapaz refletir e ficava a observar o rosto dele divagar. — Quem fala “somos os ossos de um mundo que está morrendo”? É diferente.

— Mas é bom?

— É, mas não é romântico.

— Mas e o mar iluminando lá no céu a estrela que saiu do seu peito?

— Essa parte é, podia ter parado aí.

Os dois continuaram sentados nas areias de Atafona, ainda não haviam trocado a roupa do dia anterior, passaram a noite na casa dos amigos do rapaz, cujos foram os primeiros que a moça conheceu. As ondas do mar faziam um barulho estranho quando encontravam as ruínas como se alguém quisesse lhes dizer algo, o céu bem claro formava desenhos simétricos nas nuvens como se alguém os tivesse observando e quando o jovem escutou o zunir do vento forte no seu ouvido enquanto eriçava os pequenos grãos ao seu redor, levantou de um pulo.

— Está na hora!

— Está na hora de quê?! Que susto!

— De ler a poesia mais bonita que Deus escreveu.

— Oi?

— Vamos!

— Pra onde?!

 

***

 

Desde que chegara a Campos o jovem escutava falar sobre a ligação mágica entre Atafona e os poetas, no encontro do mar com o rio encontravam-se também as palavras levadas pelos ventos para ouvidos e bocas poetisas. Lá no pontal, quando o sol se esconde sob as águas acalmadas, pintando o céu das cores que vêm de dentro d’a gente, Deus escreve sua poesia nos sorrisos de quem ama.Ansiosa a moça acompanha seu amado correndo pelas areias guerreiras, sobre os lares soterrados sentindo na pele cada grão da vida que vale a pena ser vivida. Os ventos fortes levitavam seus cabelos e debaixo de seus caracóis sedimentavam o sal do mar doce, levitavam como levanta a vida ao escutar as primeiras notas do abraço entre duas almas, florido vestido abrindo-se em sorrisos voa, longe, para dentro de si. Voa, menina, merecestes toda a felicidade de uma vida amada!! – Grita o coração dentro de si, transbordando pelos olhos brilhantes que acompanhavam o balançar dos braços unidos além dos corpos.

Quando a respiração se tornou ofegante a moça percebeu os passos do rapaz se tornarem mais lentos e a corrida se tornou uma caminhada com marcas mais profundas na areia, deixando na praia os primeiros passos de uma grande história, estavam lado a lado, olhando para o infinito, ao longo do oceano, onde o amor não tinha fim. Os pés pararam, sentiram o formigamento das pernas, a dormência no peito, a pele contra a pele ao abraçar, abrasar. O sol estava se pondo sobre o encontro do mar com o rio, a união entre duas águas, sal e doce, corpo e alma, e ao se unir com as águas se fez luz entre dois oceanos iluminando o sorriso mais bonito que a moça tinha para dar.

— É aqui que Deus escreve sua poesia? – Pergunta a menina.

— É…

— E onde está? Eu quero ler.

As palavras soltavam-se de seus lábios e se uniam ao vapor das águas, aos grãos de areia levitados pelo vento forte misturando no céu vermelho toda a poesia que o rapaz, com um aceno delicado,lia no sorriso pueril da menina que sorri da maneira mais bonita de sorrir.

— E o que ela diz?

— Te amo, Keettlynn.

 

0

Linda Mara sai do Presídio Feminino no fim da noite de sexta

Linda Mara (Foto: Rodrigo Silveira - Folha da Manhã)
Linda Mara (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

Presa (aqui) pela Polícia Federal (PF) no último dia 31, a vereadora eleita Linda Mara da Silva (PTC) foi posta em liberdade no fim da noite de ontem, quando saiu do Presídio Feminino Nilza da Silva Santos, em frente à ponte Gal. Dutra. O motivo foi o fim da sua prisão temporária de cinco dias.

Decretada no dia 26, quando foi desencadeada a operação Chequinho II, a prisão de Linda Mara só cumprida no dia 31 porque ela ficou foragida por cinco dias, até ser presa após uma denúncia anônima. Ela estava num hotel de Copacabana, no Rio de Janeiro.

A equipe da Folha ligou na tarde de ontem para secretaria estadual de Administração Penintenciária (Seap), mas a a informação foi de que, até aquele momento, Linda Mara continuava presa. Diferente da tarde da última seunda-feira, quando chegou presa do Rio à delegacia da PF em Campos, no final da noite de ontem ela não foi recebida na saída do Presídio por dezenas de populares, em meio a gritos, aplausos e selfies.

 

0

Pasta mais esperada no governo Rafael, Saúde fica com Fabiana Catalani

Ponto final

 

 

Recomeço na Saúde: Fabiana Catalani

“Recomeçar”. Numa palavra, foi assim que a médica pediatra Fabiana Catalani, com especialização em Auditoria de Sistemas de Saúde e em Gestão Hospitalar, falou com exclusividade à coluna sobre a missão que vai encarar a partir de 1º de janeiro de 2017. Ela aceitou ontem o convite do prefeito eleito Rafael Diniz (PPS) para assumir a pasta que o campista não tem dúvida ao apontar como principal problema de Campos: sua Saúde Pública. O anúncio da nova secretária foi adiantado ontem (aqui) pelo blog “Opiniões”, da Folha Online.

 

Amostra na transição

Fabiana terá uma prévia do que vai encontrar a partir das 15h da próxima segunda-feira (07), quando participará da primeira reunião de transição entre os governos Rosinha Garotinho (PR) e Rafael. Marcada inicialmente para ontem (03), o início da transição foi adiado a pedido da própria Rosinha. Ela disse querer participar pessoalmente do encontro, o que motivará a presença também de quem de Rafael, eleito para suceder a atual prefeita desde o primeiro turno de 2 de outubro.

 

Leonardo Wigand

Como esta coluna adiantou (aqui e aqui), sempre em primeira mão, além de Rafael e Fabiana, comporão a equipe de transição do governo eleito o novo procurador municipal José Paes Neto, Brand Arenari (Educação), Fábio Bastos (Governo), Felipe Quintanilha (Controle Orçamentário e Auditoria) e André Oliveira (Gestão de Pessoas e Contratos). Completará ainda a equipe o encarregado da transição na pasta de Fazenda: o advogado e empresário Leonardo Wigand.

 

Formação

Há mais de 20 anos atuando como empresário na iniciativa privada, Leonardo é advogado por formação, com MBA em gestão empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Por sua vez, Fabiana se formou pela Faculdade de Medicina de Campos (FMC) e se especializou em pediatria, antes de cursar seus dois MBA’s: em Auditoria de Sistemas de Saúde e em Gestão de Saúde, também pela FGV.

 

Vasta experiência

Além da formação acadêmica, a nova secretária de Saúde de Campos possui vasta experiência no serviço público. Concursada do município de Campos, trabalhou na UTI Pediátrica do Ferreira Machado (HFM), antes de passar ao Núcleo de Controle e Avaliação do hospital. Depois, foi diretora administrativa do Hospital Geral de Guarus (HGG), antes de assumir a secretaria de Saúde de São João de Barra, de agosto de 2010 até o final de 2012, no último governo Carla Machado (hoje PP). Fabiana atuou ainda como concursada no Controle e Avaliação do Hospital Municipal de Quissamã.

 

Apertando o cinto

O Governo do Estado anuncia, hoje, às 10h, no Palácio Guanabara, um conjunto de medidas para equilibrar as contas públicas. Estarão presentes o governador Luiz Fernando Pezão, o vice-governador Francisco Dornelles e os secretários de Fazenda, Gustavo Barbosa, de Planejamento, Francisco Caldas, e da Casa Civil, Leonardo Espíndola.

 

“Andando”

O secretário de Desenvolvimento Humano e Social, Henrique Oliveira, afirmou, ontem, que a comissão da Prefeitura para investigar possíveis irregularidades no Cheque Cidadão está “andando”. Ele pediu à Justiça mais 15 dias para enviar listagem do recadastramento.

 

Com a colaboração da jornalista Suzy Monteiro

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

0

Fabiana Catalani será a secretária de Saúde do governo Rafael Diniz

Fabiana Catalani (Foto: Ascom Quissamã)
Fabiana Catalani (Foto: Ascom Quissamã)

 

 

Depois de antecipar aqui e aqui os primeiros nomes da equipe de transição do governo Rafael Diniz (PPS), o blog teve confirmado agora há pouco quem responderá por uma das pastas mais importantes do município. A médica Fabiana Catalani será a secretária de Saúde de Campos a partir de 1º de janeiro de 2017. Ela já foi secretária de Saúde de São João da Barra na gestão Carla Machado (atual PP).

 

Leia amanhã (04) a cobertura da definição da secretaria de Saúde de Campos na coluna “Ponto Final”

 

0

Guilherme Carvalhal — O dono do tempo

Carvalhal 03-11-16

 

 

As lembranças em torno do Maduim não remetiam a grande coisa. Sujeito franzino, desprezível, insignificante. Muita gente nem dava conta da sua existência. Tanto que quando sumiu, ninguém sentiu falta. Quando voltou (ninguém lembrava há quanto tempo partiu) não parecia muito mudado. Permanecia magro, baixinho, não assustava ninguém. O mesmo aspecto de sempre.

De diferente, só o relógio. Trazia no bolso do casaco e o sacava exibido a um ou outro, explicando sobre essa magnífica invenção que permitia saber com precisão as horas, minutos e segundos. A geringonça causou assombro, mas de início ninguém deu muita importância.

A primeira a procurá-lo foi uma mãe. Após a recomendação médica de dar um remédio ao filho de doze em doze horas, pediu para que lhe informasse o horário exato. Ele concordou em notificá-la, mas cobrou. E assim as pessoas enfermas compuseram em peso sua clientela.

Aos poucos muita gente começou a pagar pelos serviços de tempo com diversas finalidades. Queriam saber a hora de embarcar no trem, de rezar a novena das três da tarde, de iniciar uma festa. O padre mesmo lhe pagava para que o sino badalasse exatamente no horário das funções religiosas.

O lucro de Maduim extrapolou e ele formou uma rede de funcionários, a maioria meninos trabalhando como estafetas. Corriam na casa de um para informar a hora da colherada de xarope, corriam ao sacristão para convocar o povo para a missa. E todos se tornaram dependentes do tempo de Maduim.

O ápice de sua influência se deu quando o coronel Clemente o procurou. O homem mais rico e poderoso da cidade desejava implantar em sua fazenda um sistema de controle mais funcional e o pretendia determinando todos os horários. Estabeleceria hora de entrada, a duração do almoço, hora de saída, e para isso precisava dos ponteiros a seu favor.

Maduim se tornou o segundo mais rico da cidade e assumiu o comando de todo funcionamento da fazenda. O começo da labuta na lavoura e os quinze minutos de refeições dependiam de seu aval, estendendo a duração para além do que os funcionários imaginavam. Os trabalhadores reclamavam e o capataz justificava, todos trabalham oito horas por dia e cumprem uma hora de almoço. Indignados, mas sem argumentos, se calaram e não mais protestaram.

Como não havia mais quem dispensasse seus serviços, Maduim decidiu ampliar seu predomínio. Lentamente, começou a sabotar os horários. Bebês choravam de fome e casais se desencontravam por conta das diferenças impostas por ele. O marido chegava em casa e a comida estava fria, gerando briga com a esposa. Pouco a pouco, conseguiu implantar o caos entre os moradores, que se queixavam sobre sua prestação de serviços.

Assim, ele lançou sua proposta: caso o aclamassem prefeito, o serviço do tempo se tornaria de utilidade pública, contanto que ele dispusesse de plenos direitos. O povo assustado e ao mesmo tempo embasbacado o aplaudiu e carregou nos braços. Demoveram o prefeito e o colocaram no lugar.

Com sua influência, lançou os lavradores contra o coronel, contando sobre as falcatruas envolvendo as jornadas de trabalho e alegando que com seu relógio seriam capaz de gerar produções mais satisfatórios e melhorar as condições gerais, até aumentando os ganhos dos colonos. Um grupo de revoltados insurgiu-se contra Clemente e o enforcou. Logo o tabelião passou a propriedade para o  nome de Maduim e o delegado se pôs a seu serviço para quaisquer necessidades.

Dominando as horas, o novo prefeito teve poder absoluto naquela cidade pelo restante de seus dias. Ele andava pelas ruas com seus fardão e sua cartola de peito empinado, com todas as pompas possíveis. Muitos chegavam perto e perguntavam as horas. Ele sorria e respondia, oferecendo a esses pobres coitados uma migalha de sua fortuna.

 

0

Reunião de transição com Rosinha, Rafael e muitos novos nomes

Ponto final

 

 

Rosinha e Rafael frente a frente

Conforme adiantado ontem na Folha Online (aqui) pelo blog “Opiniões”, a primeira reunião de transição entre os governos Rosinha Garotinho (PR) e Rafael Diniz (PPS) foi adiada a pedido da atual prefeita. No lugar de se dar às 13h de amanhã (3), como inicialmente marcado, acontecerá às 15h da próxima segunda (7). O motivo: Rosinha quer estar presente, o que motivará a presença também de Rafael.

 

José Paes

O adiamento e o motivo foram conversados ontem, por telefone, entre o atual procurador geral de Campos, Matheus da Silva José, e seu substituto a partir de 2017: José Paes Neto. Este também ponderou que não teria sentido o atual governo pretender limitar em cinco os representantes de quem o campista elegeu em 1º turno para mudar os rumos da cidade. Até porque, como José argumentou com Matheus, foram sete as áreas que a própria gestão Rosinha escolheu para dar início à transição: procuradoria, Controle Orçamentário e Auditoria, Gestão de Pessoas e Contratos, Governo, Fazenda, Educação e Saúde.

 

Brand, Bastos e Quintanilha

Assim, além de Rafael, caso realmente se confirme a presença de Rosinha na reunião de segunda, o novo governo tem alguns nomes já confirmados na primeira reunião da transição. Não só de José Paes, na condição de novo procurador, como do professor e sociólogo Brand Arenari, que coordenará a Educação — conforme esta coluna adiantou (aqui) na última quarta (26). Uma semana depois, as novidades desta quarta ficam por conta das pastas de Governo e Controle Orçamentário, que terão suas transições comandadas, respectivamente, pelos advogados Fábio Bastos e Felipe Quintanilha.

 

André Oliveira

Outro nome confirmado, na transição da Gestão de Pessoas e Contratos, é um velho conhecido da Prefeitura de Campos: André Oliveira, servidor municipal concursado há 17 anos. Atual presidente municipal do PT, ele é formado em administração de empresas e tem MBA, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), em gestão ambiental e em tecnologia da informação. Por sua vez, Fábio Bastos é pós-graduado em Direito na Cândido Mendes do Rio e professor da universidade em Campos, além de responsável, com seu escritório, pela gestão de todos os processos trabalhistas da Petrobras na Região dos Lagos, Norte e Noroeste Fluminense.

 

Experiência pública

Já Felipe Quintanilha partiu da formação em Direito à especialização em licitação e contratos e ao MBA em gerenciamento de projetos, ambos pela FGV. Atualmente, é doutorando em ciências jurídicas e sociais pela Universidade de Buenos Aires (ARG). Além do currículo acadêmico, tem vasta experiência no setor público. Ocupou a chefia do Departamento de Orçamento, a presidência da Comissão de Licitação e Contratos, a subsecretaria de Planejamento e a secretaria de Transportes, no governo Carla Machado (hoje, no PP) em São João da Barra. Foi também procurador geral da Câmara de São Francisco de Itabapoana.

 

Raphael Thuin

Embora não vá participar dessa primeira reunião de transição, um nome confirmado não apenas na equipe, mas na presidência da Fundação Municipal dos Esportes a partir de 1º de janeiro de 2017, é um velho conhecido do setor em Campos: o ex-nadador e empresário Raphael Tuin. Formado em Business pela Universidade do Tenesse (EUA), foi campeão de quatro Copas do Mundo, dois sul-americanos, 19 brasileiros e 6 nacionais dos EUA de natação. Recentemente, ele esteve à frente da secretaria de Esportes de Rio das Ostras.

 

Rodou a baiana

Um dia após sua ex-assessora particular e amiga, Linda Mara Silva, ser capturada no Rio, a prefeita Rosinha partiu para o ataque e fez eco às acusações de seu marido contra Ministério Público Estadual, Justiça e Polícia Federal. Demonstrando estar extremamente irritada disse que respeitava membros destas instituições, mas não aqueles que estão na linha de frente das investigações do Cheque Cidadão: “Não posso respeitar quem quer me destruir”, afirmou, esquecendo a confortável posição de deixar o papel de “mau” para o marido.

 

Com a colaboração dos jornalistas Suzy Monteiro e Rodrigo Gonçalves

 

Publicado hoje (02) na Folha da Manhã

 

Atualização às 23h42 de 04/11/16 para correção de data

 

0

Transição: Rosinha pede para adiar e diz querer ir. Se for, Rafael vai

Rosinha e Rafael
Rosinha e Rafael

 

 

Marcada para às 13h da próxima quinta (3), a primeira reunião entre as equipes de transição dos governos Rosinha Garotinho (PR) e Rafael Diniz (PPS) foi remarcada, a pedido da atual prefeita, para às 15h da próxima segunda (7). O motivo: Rosinha quer estar presente. O que levou Rafael a fazer o mesmo, caso a aual prefeita realmente confirme a presença.

Assim, quem governou Campos nos últimos oito anos e quem o fará pelos próximos quatro, a partir de 1º de janeiro de 2017, ficariam frente a frente para acertar a transição.

O adiamento e a comunicação do pedido de Rosinha foi feito numa ligação, hoje à tarde, entre atual procurador geral do município Matheus da Silva José, e o próximo, José Paes Neto. Este ligou ao colega para se opôr à limitação dos reprsentantes do governo eleito em apenas cinco, como o governo derrotado nas urnas pretendeu fazer num decreto publicado (aqui) em Diário Oficial.

O objeção de José Paes ser deu porque foram sete os representantes estipulados (aqui) pelo próprio governo Rosinha para dar início à transição:

  1. Procuradoria Geral do Município;
  2. Secretaria de Controle Orçamentário e Auditoria;
  3. Secretaria de Gestão de Pessoas e Contratos;
  4. Secretaria de Governo;
  5. Secretaria de Fazenda;
  6. Secretaria de Educação, Cultura e Esportes;
  7. Secretaria de Saúde.

O atual procurador municipal concordou com a ponderação lógica do seu sucessor pela paridade na primeira reunião da transição, com sete integrantes de cada lado. Assim como este aquiesceu com o pedido de adiamento para que a prefeita possa estar presente, gerando a presença também de quem foi eleito nas urnas do primeiro turno de 2 de outubro para substituí-la.

 

Leia a cobertura completa amanhã (02) da transição dos governos de Campos na coluna “Ponto Final”, da Folha da Manhã

 

0

Carol Poesia — Aos 30: poderosa e desencantada

(Capa do romance “A mulher de trinta anos”, de Honoré de Balzac)
(Capa do romance “A mulher de trinta anos”, de Honoré de Balzac)

Romper um romance aos trinta não é como romper aos dezoito. Em cada fase da vida ama-se de um jeito, é sabido por todos. Aos dezoito se é mais romântico e todo amor é pra sempre. A finitude se torna um drama, do qual se faz logo refeita.

Aos vinte e pouco, supera-se. Ainda não foi dessa vez. Dói, mas passa. O romantismo é menor e geralmente consegue-se ver com clareza os benefícios de ser s-o-l-t-e-i-r-a.

Aos trinta e pouco é que “o bicho pega”, trata-se de desengano. O buraco é mais embaixo porque o objetivo era acertar. Aliás, havia um objetivo. Além de lidar com toda a decepção e solidão, que já é familiar, tem-se que superar o insuperável: o tempo não vai voltar!

Aos trinta e pouco, geralmente, já se tem aquelas conquistas materiais básicas, o necessário pra se sustentar. Aquela vontade de promiscuidade que ia passar passou, foi saciada já. E os primeiros sinais “da idade” começam a aparentar. É o ponto mais alto da curva no gráfico. Estamos no auge, a um passo de declinar. Estamos? Quem disse? Seu corpo. Ah tá.

Começamos a olhar a vida com mais objetividade e a olhar os homens assim também. Não temos problemas morais em trepar por trepar, mas o que queremos mesmo é ir além. Não temos tanta disposição pra festas, em pé, de madrugada. E preferimos, sem sombra de dúvida, uma boa conversa de bar. Revivemos, saudosas, a “MPB da boa”. E não cultivamos, diga-se de passagem, esperança na MPB que virá.

Temos assunto, somos bonitas… Particularmente, a mulher depois dos trinta é uma delícia! Somos mais resilientes, independentes, sem frescura, nos viramos bem. Conseguimos. Vamos em frente. Só tem um porém…

Esses dias, na casa de uma amiga, ouvi uma frase de que não esqueci. Ao ler nossos textos, a esposa de um radialista amigo disse: Ah! Mas vocês são muito poderosas, muito desencantadas.

Eu achei engraçada essa observação dela… Não sei se ela percebeu, mas ela relacionou poder ao desencanto, ao se referir a nossa “escrita feminina”. Fiquei pensando nisso… Será mesmo que existe essa relação? Será que os desencantos amorosos, atravessados pela cultura machista-opressora-misógina em que vivemos, leva a mulher, de alguma forma, ao poderio que exibimos hoje? Existe essa relação com os relacionamentos fracassados? E que poder é esse de que ela falava? O poder da escrita? O poder da lucidez? O poder de decidir? De querer? De não querer? O poder de foder sem culpa? De assumir os desejos? De ser o que quisermos, na cama que escolhermos, com quem decidirmos fazer? Nossa… Falando assim rs… Pareço poderosa mesmo… rs… Quanto poder há nas palavras… Por isso gosto delas.

Acabo de terminar mais um relacionamento. Aparentemente tinha muito potencial. Aquela dor conhecida de quem se desencantou… Engraçado, mergulhada em desencanto eu não sinto nenhum poder… Sinto o que todo mundo sente, homem, mulher, quando recém-separado – desolação.

desolação

substantivo feminino

  1. destruição arrasadora; ruína, devastação.
  2. estado ou condição de um lugar devastado, transformado em deserto; desertificação, despovoamento.

Aquele vazio de quem amou. Você sabe. Então…

O fato é que acabo de sair de uma relação. E assim como aos dezoito, a dor é infinita; mas diferente dos dezoito, sei o que fazer com ela.

Enxergo as possibilidades em estar s-o-l-t-e-i-r-a, mas diferente dos vinte e pouco, esse vislumbre perdeu o viço.

Tenho trinta e pouco. Sei quem eu sou. E quero ser mãe, esse é “o porém”.

Eis a questão.

Depois dos trinta, a cada relacionamento fracassado, ocupa-nos o seguinte pensamento “por que eu não engravidei logo?”. E por que essa vontade forte que não sei de onde vem de querer ser mãe? De onde vem isso? Logo eu, tão ocupada. É uma vontade esquisita, vem das vísceras.

Já é difícil lidar com o fim de um relacionamento em qualquer fase da vida, mas aos trinta e pouco, para as mulheres que querem ser mães, há mais esse “agravante” – a cada relacionamento desfeito parece que também foram desfeitos os filhos. Reflito e percebo logo que esse pensamento deve ser mais um boicote da nossa psique. Aí eu lembro que a despeito de toda a psicologia, os óvulos realmente envelhecem e não adianta conversar com eles. Sim, sim, sim, podemos fazer uma inseminação artificial e termos os filhos sozinhas. Sim, eu sei, não precisamos Deles.

Mas independente da forma que se chegue à fecundação, é estranho assumir essa incompletude. É difícil lidar com a vontade de gerar, com a vontade de ser mais de um. É estranho dizer para o seu organismo que você já é várias – nos textos, nos palcos, na arte e na vida; e aí o seu organismo contraria toda a sua fé feminista e diz “não”. “Você pode ser várias, mas é só você”.

É confuso chegar a esse momento da vida – o momento em que o grito da sociedade, empurrando papéis sociais contra os quais você sempre lutou (e venceu!!!) se confunde com a sua própria voz dizendo pra si mesma “tem que ser agora”. Tem? Quem disse? Seu corpo. Ah tá.

É a imposição mais dolorosa, sobretudo para nós – “poderosas e desencantadas”.

 

0

Artigo do domingo — O voto em Freixo e a eleição de Crivella

Freixo e Crivella

“Voto nulo não favorece ninguém”. “O voto é meu, minha obrigação é comigo e com mais nada. E se eu soubesse quem é o menos ruim, votaria nele”. “O que me dá o direito de reclamar do meu prefeito é o fato de morar na cidade, pagar ISS e IPTU. Votar não dá superioridade moral a ninguém”. São todos argumentos respeitáveis para anular o voto hoje na eleição a prefeito do Rio de Janeiro, elencados (aqui) por um dos mais respeitáveis opinadores da democracia irrefreável das redes sociais: Ricardo Rangel, diretor de produção da Conspiração Filmes.

Com algumas pesquisas projetando a abstenção de até 50% do eleitorado da capital fluminense nas urnas de hoje, o discurso do nulo se ergue diante das duas candidaturas que definirão a sucessão do prefeito Eduardo Paes (PMDB): os Marcelos Crivella (PRB) e Freixo (Psol). Do paradoxo, à feição irreverente do carioca, talvez não haja definição melhor que a dada (aqui) em artigo do último domingo (23), pelo jornalista e ex-deputado Fernando Gabeira:

— O Rio é uma cidade surpreendente. Na Olimpíada, lançou a mensagem universal de diversidade e tolerância. Nas urnas levou dois candidatos ao segundo turno cujas campanhas são sacudidas pelos fantasmas do obscurantismo político e religioso.

No lamento pela falta que fez um Gabeira na disputa atual da Prefeitura do Rio, cujo segundo turno disputou e perdeu por muito pouco, em 2008, na primeira eleição de Paes, fica a certeza dos vários erros alheios que conduziram ao afunilamento entre Crivella e Freixo. O primeiro, do próprio prefeito carioca que, oito anos depois, entregará o cargo em 20017.

Tivesse abandonado a estranha obsessão em fazer como seu sucessor o deputado federal Pedro Paulo (PMDB), logo na primeira denúncia deste por agressões físicas assumidas contra a ex-esposa, o “Nervosinho” das planilhas da Odebrecht poderia pavimentar, com seu governo de tantas obras, um acesso tranquilo ao segundo turno. Nele, por motivos igualmente contrários à lógica eleitoral, também ficaram de fora os candidatos Índio da Costa (PSD) e Osorio (PSDB).

Com propostas e perfil de eleitor semelhantes, bastaria somar os 16,12% de votos válidos obtidos por Pedro Paulo aos 8,99% de Índio e aos 8,62%, de Osorio, para constatar que a união dos três (33,73%) no primeiro turno colocaria um único candidato no segundo, à frente não só de Freixo (18,26%), como de Crivella (27,78%). Verdade que, no caso do psolista, merece destaque a divisão dos votos de esquerda, no turno inicial, com Jandira Feghali (PC do B) e Alessandro Molon (Rede).

Todavia, mesmo que fosse agraciado com os 3,34% dos votos conquistados pela senadora comunista, mais o 1,43% do deputado federal do partido de Marina, Freixo não iria além dos 23,39% nessa recontagem hipotética do primeiro turno. Ou seja, a esquerda carioca reunida S.A. ainda ficaria atrás de Crivella e da equação Pedro Paulo + Índio + Osorio.

São por contas parecidas que o sobrinho e herdeiro de Edir Macedo, dono da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), da Rede Record e de uma série de rádios espalhadas pelo país, tem considerável vantagem em todas as pesquisas. E como Crivella lidera, sobretudo, nas comunidades de morro e periferia da cidade do Rio, é antropologicamente curioso constatar: a mensagem pentecostal que condena a criminalidade e aponta a religião como porta de saída faz mais sucesso com quem mais sofre pelo crime, do que quem pretende relativizá-lo como consequência da injustiça da sociedade capitalista.

Em contrapartida, em outra curiosa ironia, é entre a burguesia da Zona Sul carioca que Freixo e a esquerda pregam ao seu eleitorado mais fiel.

Pelos sucessivos erros do envelhecido líder do garotismo — cuja exclusão do seu eventual governo, Crivella foi obrigado a assinar em documento — Campos foi privada da “graça” do segundo turno. Muito embora, com a nova cassação (aqui) na sexta (28) da prefeita Rosinha Garotinho (PR) — sua quinta, em quase oito anos de mandato — pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), e a prisão (aqui) do vereador Thiago Virgílio (PR), ontem (29), pela Polícia Federal (PF), por sua participação naquilo que o Ministério Público Eleitoral (MPE) denunciou como “escandaloso esquema”, o tom da pós-eleição goitacá venha sendo diariamente ditado ao eco de Roberto Carlos: “São muitas emoções!”

Em relação ao segundo turno carioca, tudo que o eleitor campista pode fazer é opinar. Com todo o respeito que merecem os defensores (respeitáveis dialeticamente) do voto nulo, concordo com a surrada, mas veraz sentença do velho Otto Von Bismarck (1815/98), arquiteto daquilo que o mundo chama de Alemanha: “Política é a arte do possível”.

Não por outro motivo, se votasse no Rio, o faria em Freixo, na condição de menos pior. Até porque, quando se fala da mistura de religião e política, sempre me vem à lembrança aquilo que os soldados e oficiais da SS nazista da mesma Alemanha levavam inscrito na fivela dos seus cintos, durante a II Guerra Mundial (1939/45), enquanto transformavam a Europa numa linha de montagem para matar gente e queimar seus corpos em campos de extermínio: “Gott mit uns” (“Deus está conosco”).

Mas como as eleições (e guerras) geralmente são ganhas por quem é capaz de enxergar além do próprio umbigo, não há constrangimento em afirmar: Crivella vencerá a eleição.

 

Publicado hoje (30) na Folha da Manhã

 

0

Fabio Bottrel — Os Perigos da Literatura

 

Bottrel 29-10-16

 

 

Desde que a sociedade burguesa francesa sentiu a força do ataque da literatura, e seus representantes trataram de punir o escritor Gustave Flaubert sob a acusação de imoralidade feita pela censura da época, que percebemos a literatura como instrumento de uma guerra abstrata nos idos modernos. Para muito além dissoGilgamesh, primeira fábula a que se tem notícia oriunda da primeira cidade já construída há 6.000 anos atrás,Uruk, onde hoje é o sul do Iraque, fora usado pelo rei da Assíria Ashurbanipal em 645 a.c. hoje norte do Iraque. Ashurbanipal usou as qualidades heroicas de Gilgamesh para se promover na mente de seus súditos contando a história através de figuras com ele próprio e não Gilgamesh atuando no papel principal, atingindo não só o seleto grupo que podia ler os ideogramas cuneiformes, mas todos que podiam vê-lo, criando assim, a primeira história visual do mundo.

Em 1857, Flaubert vai a julgamento por parir o símbolo depreciador dos valores burgueses de sua época, Emma Bovary na obra Madame Bovary, sendo absolvido pela Sexta Corte Correcional do Tribunal do Sena em Paris com a emblemática frase “Madame Bovary c’est moi” (Eu sou Madame Bovary). Essa aproximação entre autor e personagem de uma narrativa fictícia sempre foi algo a me causar pausas para reflexão, como o autor de O Pacto Autobiográfico, Philippe Lejeune, ao lançar o desafio se um personagem de um romance poderia ter o mesmo nome do autor e ainda continuar a ser uma ficção, recebendo como resposta o livro Fils de Serge Doubrovsky, que com esse romance criou um termo que definiu o novo gênero literário em ascensão, Autoficção, concebida por ele como uma “variante pós-moderna da autobiografia na medida em que ela não acredita mais numa verdade literal, numa referência indubitável, num discurso histórico coerente e se sabe reconstrução arbitrária e literária de fragmentos esparsos de memória” como afirma Philippe Vilain.

Com a prática da autoficção Serge Doubrovsky foi acusado de ter matado sua esposa por amor à literatura, e afirma ter usado a literatura para se vingar em Le Livre Brisé, aproveitando da vantagem de ser escritor. “O francês conta sobre a publicação e o sucesso de Livre Brisé (Doubrovsky, 1989). O sucesso, nesse caso, teve um preço alto. Ele foi acusado de ter matado a sua mulher por amor à literatura. Depois de ler o capítulo sobre seu alcoolismo, a esposa do autor bebeu vodca até morrer. Doubrovsky escreve uma longa autodefesa para o caso, mas mesmo assim afirma que não se sente perdoado pelo sucesso obtido, e que vive em profunda depressão desde que sua mulher morreu. A conclusão de Doubrovsky é que somente o escritor e o juiz podem, “em sua alma e consciência”, decidir os limites do que pode ou não ser dito/publicado, ou de como será dito. De um lado, temos o escritor e seu direito de liberdade de expressão, do outro temos a “vítima” com seu direito de privacidade. Sobre a publicação de Livre Brisé, o escritor francês diz que legalmente não é culpado de nada e que a mulher estando morta não poderia processá-lo. Outra informação relevante para pensarmos a delicada questão é o fato de ele dizer que se trata de uma “autobiografia (ou autoficção) autorizada”, já que ele ia mostrando os capítulos para ela e recebendo o aval para publicação. Nos soa problemático pensar 1) no uso das palavras autobiografia e autoficção como sinônimos pelo próprio Doubrovsky, depois de todo esforço que ele, “o pai da autoficção”, teve em estabelecer as devidas diferenças; 2) pensar numa “autoficção autorizada”, uma vez que o emprego da palavra ficção, em sua definição original, funcionaria justamente para aliviar o seu autor das censuras.” (Anna Faedrich).

No Brasil, o romance Divórcio publicado em 2013 pela Alfaguara o narrador e também autor fala do término traumático de seu casamento com uma famosa jornalista de cultura em São Paulo ao encontrar o diário que ela escrevia enquanto ele dormia, contando suas aventuras sexuais fora do relacionamento: “Lembrei-me de uma conta que precisava pagar naquele dia. Abri a gaveta da minha ex-mulher e vi o boleto no meio de um caderno. Li uma frase e minhas pernas perderam a força. Sentei no lado dela da cama e por um instante lutei contra mim mesmo para tomar a decisão mais difícil da minha vida. Resolvi por fim ler o diário da primeira à última linha de uma só vez.” (Ricardo Lísias)

Lísias afirma que a sua obra foi escrita “sem uma palavra de ficção” e em outro momento argumenta que “Divórcio é um livro de ficção em todos os seus trechos”, deixando o leitor confuso quanto a definição do que é, afinal, Divórcio. O autor explica que é um romance sobre o trauma, onde usou a literatura para expurgar as dores: “Sem saber, fui apresentado ainda para quatro ex-amantes dela e descobri há um mês que vivi a constrangedora situação de ter tomado café em Paris com um fotógrafo francês com quem ela tinha transado anos antes. (…) Não sei se algum dia vou entender o que faz uma mulher de trinta e sete anos escrever um diário como esse e, ainda mais, deixa-lo para o marido com quem acabara de se casar.”

Certo de que a autoficção pode trazer prejuízos para a vida de ambos os agentes, autor e personagens, em vista que escrever de si é, inevitavelmente, escrever sobre outros, diante das questões éticas e morais envolvidas na exposição de maneira tão sórdida da vida da jornalista, Lísias foi ameaçado de processo judicial pela ex-mulher, mas tornou o julgamento num fato ridículo quando respondeu: “Não estou tratando de uma pessoa particular. Minha ex-mulher não existe: é personagem de um romance. (…) O que faz então com que Divórcio seja um romance? Em primeiro lugar, Excelência, é normal hoje em dia que os autores misturem à trama ficcional elementos da realidade. Depois há um narrador visivelmente criado e diferente do autor. O livro foi escrito, Excelência, para justamente causar uma separação. Eu queria me ver livre de muita coisa. Sim, Excelência, a palavra adequada é “separar-me”. (…) Enfim, Excelência, o senhor sabe que a literatura recria outra realidade para que a gente reflita sobre a nossa. Minha intenção era justamente reparar um trauma: como achei que estava dentro de um romance ou de um conto que tinha escrito, precisei criá-los de fato para ter certeza de que estou aqui do lado de fora, Excelência.

Tal como Ricardo Lísias, outros autores brasileiros trabalham Autoficção e enfrentam situações peculiares, como CristovãoTezza em O Filho Eterno. Caso você, leitor, tenha interesse nesse tema, em novembro transformaremos a sala do Sesc Campos num tribunal literário para discutir os limites da literatura entre defesas e ataques contundentes, as inscrições já estão abertas.

 

0