Artigo do domingo — Até o fim

Pedido nas passeatas de 13 de março anteviu a realidade que impôs ao país a partir das ruas (foto de El País)
Pedido nas passeatas de 13 de março anteviu a realidade imposta ao Brasil por suas ruas (foto de El País)

 

 

“Uma Revolução Francesa sem sangue”. Desde que ouvi pela primeira vez a definição do Gilberto Dimenstein sobre o atual momento brasileiro, tenho me deixado permear pelo otimismo emanado daquela conversa em vídeo (aqui) do conceituado jornalista com o historiador Leandro Karnal e os filósofos Mário Sérgio Cortella e Luiz Felipe Pondé.

Após o ministro Teori Zvascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), ter afastado (aqui) Eduardo Cunha (PMDB) do mandato e da presidência da Câmara Federal, na última quinta-feira (05), tudo indica que irão até o fim as responsabilizações dos crimes eviscerados na operação Lava Jato. Sobretudo porque, de quebra, Teori afastou não apenas Cunha, mas a tentativa de anular o processo do impeachment da presidente Dilma Rousarseff (PT). Segundo denunciou (aqui) a jornalista Eliane Catanhêde, a manobra seria tentada pelos também ministros do STF Marco Aurélio de Mello e Ricardo Lewandovski, a partir da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) impetrada pelo Rede Sustentabilidade de Marina Silva.

Apesar do julgamento das pedaladas fiscais de Dilma como crime de responsabilidade, no Senado, estar marcado para a próxima quarta (11), tudo indica que ela e Cunha, usando a expressão da primeira, já são “cartas fora do baralho”.

Quem questiona agora, o faz pelos mesmos motivos da “lógica” particular de quem primeiro pregou que os tribunais superiores anulariam as delações iniciais dos ex-diretores da Petrobras ao juiz Sérgio Moro; depois que a Lava Jato não chegaria a Odebrecht, por ser a empreiteira muito poderosa; depois não chegaria em Lula (PT), por conta de um acordo para blindar o ex-presidente; depois no senador Aécio Neves (PSDB), porque o Ministério Público protegeria os tucanos; depois que o procurador geral da República não investigaria Dilma, pois Rodrigo Janot protegeria o PT; depois que este mesmo PT costuraria um acordo com o STF para salvar a pele do senador Delcídio (sem partido) e impedi-lo de abrir o bico; depois que prevaleceria um suposto acordo para salvar Cunha em troca do impeachment.

Isso até que o último mi-mi-mi ecoado com força de arrasto nas redes sociais, dando conta que a Java Jato acabaria depois do impeachment, levasse o cala boca do afastamento de Cunha com Dilma ainda no poder.

Obsessão resumida (aqui) pelo comediante Fábio Porchat em artigo de palhaço sem aspas ou riso, o “Fora, Cunha!” deixou sem discurso quem antes já não tinha argumento para tentar defender o governo Dilma. Não foi o antagonista Cunha quem fez a Câmara aprovar o impeachment, assim como o processo não será barrado no Senado pelo aliado Renan Calheiros (PMDB), enquanto este não se torna a bola da vez da Lava Jato.

O que tirou Dilma e Cunha do poder foram as manifestações de 13 de março, maiores da história do país. Exatamente como foi Dilma quem acabou com a economia do Brasil — e o lulopetismo a reboque.

Se Michel Temer (PMDB) perder isso de vista por um único segundo após assumir o leme a partir do dia 12, será o próximo a naufragar.

 

Publicado hoje (08/05) na Folha da Manhã

 

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Arte imita a vida na ocupação de escola estadual em Campos

Ex-aluno da Escola Nelso Pereira Rebel, o professor Adriano Moura levou oficina de criação lieterária aos estuantes que hoje ocupam a instituição estadual de ensino (foto de Rodrigo Silveira - Folha da Manhã)
Ex-aluno da Escola Nelson Pereira Rebel, o professor Adriano Moura levou oficina de criação literária aos estuantes que hoje ocupam a instituição estadual de ensino (foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

Ao lado da filha Safira e colegas que ocupam a escola, dona Vanusa testemunha a ocupação e dá apoio ao movimento: “não estão fazendo isso para ninguém, mas para eles mesmos” (foto de Rodrigo Silveira - Folha da Manhã)
Ao lado da filha Safira e seus colegas que ocupam a escola, dona Vanusa deu apoio ao movimento: “não estão fazendo isso para ninguém, mas para eles mesmos” (foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

“Eles estão bem, não tem alvoroço. Apoio o que eles estão fazendo porque não estão fazendo isso para ninguém, mas para eles mesmos”. Foi o que disse dona Vanusa, mãe da jovem estudante Safira, de 17, sobre a ocupação da Escola Estadual Nelson Pereira Rebel, em Travessão, uma das oito unidades estaduais de ensino ocupadas pelos alunos no município de Campos. Em apoio ao movimento de greve dos professores, mas também com uma pauta própria de reivindicações, já são mais de 70 unidades de ensino ocupadas pelos estudantes em todo o Estado do Rio, incluindo a sede da secretaria estadual de Educação (Seeduc).

Em contrapartida pelo apoio recebido, os professores têm se mobilizado numa rede de solidariedade aos alunos, não só na forma de doação de mantimentos e material de limpeza, mas na promoção de oficinas. Um deles é o professor, poeta e dramaturgo Adriano Moura, que tem visitado algumas escolas ocupadas em Campos para levar aos estudantes uma oficina de criação literária. Depois da experiência inicial na ocupação do Liceu de Humanidades de Campos, na última quarta foi a vez do Nelson Pereira Rebel, onde o hoje professor já foi aluno.

Adriano propõe sua oficina na divisão em cinco pontos, da situação inicial ao desfecho, passando pelo que chama de “nó”, alteração da situação inicial; “conflito”, problema que precisa ser resolvido; e “peripécias”, fatos criados para que a história evolua. Com a própria ocupação da escola como ponto de partida real da narrativa supostamente de ficção, a encenação improvisada pelos alunos acaba revelando a realidade enfrentada pelos estudantes.

Na didática da arte que imita a vida, em meio às tentativas da direção e alguns funcionários da escola, além de representantes da Seeduc, de impedir ou enfraquecer o movimento de ocupação, vão se revelando os personagens, cujos hábitos e posturas são realçados na representação dos jovens alunos. Líder do movimento no Nelson Pereira Rebel, o estudante Vinicius, de 16 anos, contou com seu grupo parte da história real da ocupação iniciada no último dia 29 de abril, mobilizada através do WhatsApp e com apoio da União dos Estudantes de Campos (UEC), movimento criado pelos alunos para promover as ocupações e debater as pautas de cada escola.

No abaixo assinado do “Ocupa Nelson”, estão reivindicações para a escola, como criação de grêmio estudantil, eleição de diretor, melhoria na merenda, Internet no laboratório de informática e reabertura do laboratório de ciência, mas também pautas de interesse da coletividade, como pagamento em dia dos servidores estaduais inativos. E, no último dos 13 itens, o esclarecimento: “todos nós queremos a volta às aulas e o fim da greve. Por isso precisamos de uma maior mobilização tanto de alunos como da comunidade. Esperamos que através disso o Estado se sensibilize e atenda nossas reivindicações”.

 

Página 6 da edição de hoje (08/05) da Folha da Manhã
Página 6 da edição de hoje (08/05) da Folha da Manhã

 

Publicado hoje (08/05) na Folha da Manhã

 

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Fabio Bottrel — Passos do Passado, Frutos do Futuro

 

Sugestão para escutar enquanto lê: Frédéric Chopin – Spring Waltz

 

 

Campos dos Goytacazes, janeiro de 1847.

Espelhada no cristal das águas do Paraíba a menina do passado vê o reflexo dos seus sonhos, desejando encontrar a menina do futuro.

 

Campos dos Goytacazes, janeiro de 2016.

Espelhada nos coliformes das águas do Paraíba a menina do futuro vê o reflexo dos seus sonhos, desejando encontrar a menina do passado.

 

Junho de 1883

Maria Helenagosta de perseguir o silêncio em dias de chuva, sujando o lenço de seu vestido branco enquanto corre pela estrada de terra molhada e retorna à casa com sua mãe quase tendo uma crise ao ver a filha já com quinze anos usando modos de uma criança levada. Todos os dias galopava da rua Direita à beira-rio, desviando dos cavalos e dos proprietários,debruçava sobre as águas do Paraíba e imaginava como seria a menina do futuro enquanto observava seu próprio reflexo.

 

Rua Direita passou a ser chamada de Rua Treze de Maio
Rua Direita passou a ser chamada de Rua Treze de Maio

 

Ficava a se olhar no espelho cristalino do rio até as estrelas começarem a pontilhar o infinito tapete negro no céu. A cidade se preparava há 23 dias para um grande evento com muitas festas e estripulias, seria a quarta visita do imperador Dom Pedro II a Campos dos Goytacazes. Ouvira que a primeira vez ele tinha apenas 7 anos de diferença dela, e se imaginou chegando à cidade como uma imperatriz, com longos vestidos e longas bajulações. Estava frio nessa tarde nublada, apesar desse mês ser quente de costume, sentia o vento forte avermelhando as bochechas,que parecia o rio ser praia. Passou a manhã escutando seu pai em polvorosa com outros fazendeiros devido a chegada do ilustre a inaugurar em Campos a primeira cidade de toda a América do Sul a ter energia elétrica. Coisa do futuro, dizia o pai, e ela ficava a imaginar mais ainda a menina do futuro.

 

O Imperador Dom Pedro II (Mathew Brady e LevinCorbinHandyWikimediaCommons)
O Imperador Dom Pedro II (foto: Mathew Brady e LevinCorbinHandyWikimediaCommons)

 

— Estamos caminhando para o progresso absoluto, meus companheiros! Nossa cidade disputará entre as mais evoluídas do mundo! – Brindou o pai de Maria Helena, na sala de sua mansão, antes de caminharem para a recepção do imperador.

Maria ficava a imaginar toda aquela história, a luz surgindo de um botão, as máquinas trabalhando sem um peão. Enquanto caminhava para o centro da cidade olhava os passarinhos dançando no céu e imaginava a menina do futuro voando para todos os lugares, com tanta tecnologia e o esboço de seu pai sobre a grandeza esperada por Campos, Maria Helena acredita: a tecnologia fará a menina do futuro livre em todas as formas. Imaginava:poderia se comunicar onde quisesse com qualquer pessoa onde ela estivesse, viajaria à velocidade impressionante e poderia tornar as madrugadas claras enquanto corria por elas. Teria tanta tecnologia, tanta, tanta que poderia curar sua mãe, seu pai mal sabia, achava a tristeza normal, mas a sensibilidade de Maria não mentia, sua mãe estava gravemente enferma. Maria Helena se desvencilhou da multidão esperando o imperador no centro da cidade, correu para a beira-rio e espelhada no cristal das águas do Paraíba a menina do passado vê o reflexo dos seus sonhos, desejando encontrar a menina do futuro.

 

(Fonte desconhecida)
(Fonte desconhecida)

 

Junho de 2016

Atrás das grades da janela, Laís observa as luzes dos carros enfeitando a noite e a selva de cimento. Enquanto escutava o assobio dos automóveis imaginava como seria no passado o sussurro da natureza além dos metais. Os olhares não duravam mais de dois minutos sem serem cortados pela atenção ao celular, estava o tempo todo atenta a tudo e a todos com os mais variados aplicativos. Há pouco se apaixonara perdidamente por um rapaz sem mal saber se o nome era verdadeiro, havia conhecido num aplicativo que serve pessoas como num cardápio, olhou a foto do rapaz e já sinalizou sua aceitação, nesses tempos não há tempo para encantamento e Laís fica a imaginar a menina do passado, com todos os seus reboliços juvenis e seus encantamentos inocentes. À noite não andava sozinha, via notícias diárias de assassinatos e crimes em seu bairro iguais às cidades das histórias em quadrinhos transformadas em seriados que assistia na TV. Seu tempo era dividido entre o Facebook, com as amizades que nunca viu, e os programas de televisão, com as pessoas que nunca encontrou. E ficava a imaginar a menina do passado, que vida difícil teria sem a tecnologia para unir as pessoas.

Numa manhã fria de domingo, o Whatsapp parou de funcionar, e assim ficaria por três dias. Laís sentiu um desespero correr seu corpo dos pés aos cabelos. Dentro das grades não havia com quem conversar, sua família era um produto da alienação oriund’a supérflua contemporaneidade e ela já havia lido e relido os poucos livros que tinha. Após se acostumar à ideia de não poder alimentar a vida virtual resolveu encarar a real, caminhou um pouco da rua Treze de Maio à beira-rio, estava deserto e conseguia escutar alguns pardais cantando sobre os fios de alta tensão. Ao chegar no pequeno muro de concreto cercando o Rio, não conseguia se aproximar mais que isso, mas viu-se nas águas mortas do rio Paraíba, imaginando como seria a menina do passado. Não se concentrava tão bem, a cada minuto olhava para o celular, mesmo sabendo que o aplicativo não funcionava, havia ainda outros para lhe tirar do sofrimento da vida real. Poucos minutos atrás seus amigos haviam ligado, estavam planejando um bom programa para esquentar aquela tarde ouvindo o arrocha ‘quero ver jogar a gata no fundo da Fiorino’ e beber cerveja feita de milho. Enquanto observa no espelho da cidade a distorção de seu próprio reflexo, pensava nos eventos contemporâneos e ficava a imaginar o que se perdeu do presente e ficou no passado, com a menina do passado.

De repente escutou dois grandes estouros atrás de si, antes de olhar já sabia que eram estalos de um revólver. Espelhada no metal sujo de pólvora a menina do futuro vê o reflexo dos seus sonhos, desejando encontrar a menina do passado.

 

Rua Treze de Maio, Maio de 2016 (foto: Fabio Bottrel)
Rua Treze de Maio, Maio de 2016 (foto: Fabio Bottrel)

 

Agosto de 1883

As lágrimas de Maria Helena escorrem pela face como escorre a tristeza pela vida, desmancham no vestido branco como se desmancha a esperança diante da morte. Sua sensibilidade não erra, sua mãe estava realmente doente enquanto seu pai cego pelo progresso esquecia-se de que era gente. O médico já havia tomado uma série de cuidados, informara que a humanidade ainda não havia evoluído a ponto de curar algumas doenças, nem mesmo sabia qual era aquela, mas num tempo não muito longe a tecnologia possibilitará a cura sem sofrimento, tal como num acender de lâmpada. Maria Helena segurava a mão mole e olhava os olhos sem brilho enquanto sua mãe deixava de ser pele para ser poesia que seu coração recitaria todos os dias e sonhou ser a menina do futuro, desejou o futuro, na sua ingenuidade de que este amenizaria a existência humana. Fechou os olhos e com a sua imaginação tornou-se a menina do futuro, que já não existe mais.

 

Agosto de 2016

Laís sorria à tempestade enquanto o tempo corria em sua veia, não tinha medo do trovão, encarava o relâmpago como um cão. Há dois meses presenciou um assassinato a sangue frio bem as suas costas na beira-rio, correu tanto que conseguiu escapar de ser uma queima de arquivo. Mas os jornais não param de noticiar mais e mais crimes, mortes e mortes na cidade sem lei, escutou o assassino gritando que a encontraria enquanto ela corria o máximo que podia. E o grito estava certo, marcou seu rosto, lembrou seu corpo e no mesmo lugar encontrou Laís dois meses depois, numa noite apática ela o olhou e reconheceu, viu seus pesadelos refletidos no metal com cheiro da morte e desejou ser a menina do passado, que já não existe mais.

 

Beira-rio, Maio 2016
Beira-rio, Maio 2016 (foto: Fabio Bottrel)

 

Futuro Passa|n|do

Após enterrar sua mãe, Maria Helena viu muita gente morrer, tecnologias surgindo para guerras, para dizimar qualquer forma de amar. Logo percebeu seu pensamento infantil, tão doce e agora tão triste, sabia, não existiria mais a menina do futuro.

Não há mais história de Laís para contar, morreu muito cedo, sem saber e sem ver, como morrem as vítimas do nosso tempo.

 

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Guilherme Carvalhal — Sortudos

Trevos

 

 

A cigana profetizou ao ler sua mão ainda na gravidez:

— Nunca andou por esse mundo pessoas tão sortudas igual a seus filhos.

Realmente, não se sabia explicar a fortuna a constantemente rodear Maurício e Joaquim. Desde quando nasceram os pais notaram como pequenas eventualidades passaram a receber sua estranha influência. O pequeno comércio de utilidades do lar prosperou e um tio desconhecido apareceu do nada e deixou para a família uma herança considerável. Quando começaram a andar, achavam objetos valiosos, até mesmo carteira com dinheiro. Os pais então se lembraram do presságio da cigana e se felicitaram pelo futuro promissor prometido aos dois.

O passar dos anos gerou diferenças peculiares entre os gêmeos. Ciente de sua sorte, Maurício resolveu se empenhar para exponenciá-la. Enfiou a cabeça nos estudos e obteve notas absurdamente altas em todos os exames, chamando a atenção de bancadas de professores diante do fenômeno. Formou-se com louvores em Economia e embarcou no mercado financeiro, onde cada aplicação sua rendia volumoso retorno. Iniciou com ativos de uma companhia de derivados de fruta e no primeiro mês sequente à compra de ações intempéries atingiram as plantações concorrentes e as produções se perderam. Daí inicou sua vitoriosa carreira.

Já Joaquim enveredou pelo caminho oposto. Se tudo caía facilmente em suas mãos, pouco se preocupava em se esforçar. Na escola nunca estudava, apenas marcava aleatoriamente as alternativas e gabaritava. Podia comprar algo e não se preocupar em pagar; alguma falha no sistema de computadores faria suas prestações sumirem e quando ficava sem dinheiro jogava na loteria e usufruia do que ganhasse. Bastava caminhar sem planejamento algum e tudo indubitavelmente se ajeitava.

Enquanto Maurício começou a auferir lucros cada vez mais altos e figurar entre as pessoas mais ricas do planeta, Joaquim se casou e mudou para uma casa simples e sem luxos, em cujo quintal plantava uma horta que sempre rendia frutos. Somente ouvia o barulho dos pássaros e curtiu sua ociosidade tranquila. Maurício conquistou renome internacional e viajou pelos continentes. Joaquim ergueu seu pequeno reino em um canto isolado e por lá permaneceu. Os caminhos distintos os afastaram e anos seguiram sem se ver.

Quando a mãe idosa faleceu, encontraram-se no velório. Demoraram a se reconhecer, Maurício em suas roupas caras e com seu anel dourado, Joaquim despojado. Um trazia os cabelos bem cortados e uma aparência obtida em academia e com gastos de estética, enquanto o outro ostentava um físico preguiçoso de quem só aproveita a desídia. Abraçaram-se e, assim como na infância, passaram longo tempo juntos.

Na antiga casa materna, relembraram o convívio familiar. À medida em que um contava para o outro de sua atual vida, emergiu o mútuo sentimento de inveja. Maurício desejou por um instante distanciar-se de seu cotidiano corrido e agitado e se entregar à pasmaceira. Joaquim pensou nas múltiplas possibilidades perdidas caso associasse sua sorte com doses de força de vontade.

Assim, presenciaram como muito havia a distanciá-los de sua plena completitude. Após dois dias juntos, cada um retornou para seu próprio refúgio, abismados pela constatação de que nem toda sorte seria capaz de provi-los com todos os seus desejos.

 

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Feijó eleito presidente da comissão de Minas e Energia da Câmara Federal

Como este “Opiniões” adiantou aqui e aqui, desde a semana passada, o deputado federal Paulo Feijó foi eleito hoje (03/05) presidente da comissão de Minas e Energia da Câmara Federal. Ao blog e à Folha, o deputado já tinha dito:

— É uma comissão muito importante. O impeachment da presidente Dilma no Senado, no dia 11, é praticamente irreversível. Quando Temer assumir, vou aproveitar meu bom trânsito com o Moreira Franco (PMDB, ex-governador do Rio e cotado para ser ministro no novo governo) para tentar ajudar a resgatar essa atividade que, mesmo com a queda no preço do barril de petróleo, ainda é de longe a principal para a economia da nossa região.

Aqui, na democracia irrefreável das redes sociais, e na reprodução abaixo, o texto da assessoria de Feijó, anunciando sua eleição à presidência da comissão:

 

Feijó e o deputado Edio Lopes (PR-RR) eleitos, respectivamente, presidente e 1º vice-presidente da Comissão de Minas e Energia (foto: assessoria)
Feijó e o deputado Edio Lopes (PR-RR) eleitos, respectivamente, presidente e 1º vice-presidente da Comissão de Minas e Energia (foto: assessoria)

O deputado Paulo Feijó (PR/RJ) acaba de ser eleito presidente da Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados para 2016. Também foram escolhidos 1º e 2º vice-presidentes, respectivamente, deputados Edio Lopes (PR-RR) e José Rocha (PR-BA).

Feijó foi indicado por seu partido, o Partido da República, entre os 40 parlamentares da bancada para assumir a comissão. O deputado está no quinto mandato na Câmara Federal, e também já foi presidente da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural, no mandato anterior.

“Em meu quinto mandato de deputado federal, muito honrosamente assumo essa comissão para junto somarmos para o desenvolvimento do Brasil, principalmente nas políticas públicas voltadas para a área da Comissão de Minas e Energia, setor muito importante para a atividade produtiva e recuperação da economia do país. Ao mesmo tempo é uma oportunidade de fazer a defesa dos interesses do Estado do Rio e da nossa região, onde está localizada a Bacia de Campos, a maior e principal bacia petrolífera do Brasil”, destaca Feijó, agradecendo ainda a todos os colegas do PR que o honraram com a indicação para a presidência da Comissão.

A Comissão de Minas e Energia é um dos colegiados mais antigos do parlamento brasileiro, tendo sido criada em 1823, com o nome de Comissão de Minas e Bosques.

 

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Pudim tenta junto ao governo dar autonomia financeira à Uenf

Gilberto Gomes, represetante dos estudantes, Geraldo Pudim, o reitor Luis Passoni e o deputado Comte Bittencourt, presidente da comissão de Educação da Alerj (foto de Tércio Teixeira - Folha da Manhã)
Na audiência pública de hoje: Gilberto Gomes, representante dos estudantes; Geraldo Pudim, o reitor Luis Passoni e o deputado Comte Bittencourt, presidente da comissão de Educação da Alerj (foto de Tércio Teixeira – Folha da Manhã)

 

Ofertar independência financeira à Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), para que ela não dependa exclusivamente dos repasses do governo estadual. Foi o que o primeiro secretário da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Geraldo Pudim (PMDB), disse estar tentando junto ao Executivo fluminense. O deputado participou na manhã de hoje (02/05) da audiência pública da manhã desta segunda-feira  (02/05), para tratar da grave crise financeira pela qual passa a Uenf:

— Uma das medidas que encaminhei ao governador, através de indicação legislativa, foi um anteprojeto que lança bases para um projeto de lei que confere independência financeira à Uenf. Na mesma indicação peço que o Executivo encaminhe a proposta para Alerj, visto que, por força da Constituição, um deputado não pode formalmente apresentar um projeto desta natureza. Todas as minhas emendas ao orçamento direcionei a Uenf. Foram 10 milhões de reais que necessitam ser executados pelo governo estadual — explicou Pudim

Desde 2015 a instituição vem sofrendo com a queda nos repasses do Governo do Estado para as universidades públicas. De acordo com dados apresentados na reunião no ano de 2015, a Uenf não chegou a executar 40% do orçamento previsto para investimentos. Em 2016 com agravamento da recessão pela qual passa o Brasil, o Executivo estadual deixou de executar até mesmo os repasses referentes ao custeio da instituição, o que arrastou a universidade para uma rotina de greve e manifestações. Atualmente professores estão sem receber seus salários, terceirizados sem receber e alunos de graduação e pós-graduação estão sem suas bolsas. No caso dos alunos, os que mais têm sofrido são os cotistas que, em muito dos casos, dependem dos repasses para se manterem durante a formação.

Pudim acredita que as soluções devem ser pensadas para ter efeitos de curto, médio e longo prazo. De acordo com parlamentar a prioridade é resolver o problema dos salários, bolsas e o custeio da universidade:

— A Uenf já sofreu um duro corte em seu orçamento 2015 para 2016. Algo em torno de 46%. Mesmo com orçamento menor o governo do estado ainda encontra dificuldades para fazer o repasse do orçamento aprovado para 2016.

 

Com informações da assessoria do deputado

 

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Artigo do domingo — Campos e Quissamã perdem oportunidade histórica

Obras abandoadas onde deveria começar o futuro da região (foto de Tércio Teixeira - Folha da Manhã)
Obras abandoadas onde deveria começar o futuro da região (foto de Tércio Teixeira – Folha da Manhã)

 

 

 

Haroldo Carneiro
Haroldo Carneiro

Por Haroldo Carneiro da Silva (*)

 

É com profunda tristeza que neste mês de abril, consolidou-se uma grande perda de oportunidade que marcará para sempre a história de Campos, e, por consequência, também a de Quissamã. Vemos a notícia que a Edson Chouest, uma das duas primeiras empresas âncoras que iriam se instalar no Complexo Logístico e Industrial de Barra do Furado, de Campos e São João da Barra, conseguiu a licença de operação e licença de Navegação da Antaq, começando a operação da sua base de apoio offshore neste mês de abril no Porto do Açu, em São João da Barra.

A Chouest chegou a assinar um Termo de Compromisso com Campos e Quissamã, para montar a sua base em Barra do Furado. Em função do atraso das obras, optou pelo Açú.

É muito frustante vermos que durante seis anos do governo de Armando Cunha Carneiro da Silva, entre 2006 e 2012, com toda instabilidade política de Campos, que teve seis prefeitos neste período, com muita habilidade, nós conseguimos fazer o projeto, aprovar a licença ambiental, atrair cinco empresas de grande porte (uma delas era a Chouest), conseguir R$ 70 milhões com os Governos Federal e Estadual, licitar, iniciar a obra e, para nosso desgosto, ver tudo parar em 2013.

Em 2006, quando Campos estava às voltas com a eleição extemporânea do sucessor do prefeito cassado, Carlos Alberto Campista, sob a liderança do prefeito de Quissamã, Armando, nós conseguimos, com apoio do secretário de Energia e Petróleo do Estado do Rio, Wagner Victer, juntos articular duas empresas âncoras para se instalar no que seria o Complexo Logístico e Industrial de Barra do Furado.

Passado as eleições de Campos, com apoio do Estado, o prefeito Mocaiber se integrou no projeto de Barra do Furado. Em julho de 2006, com pompa e circunstância, a governadora Rosinha Garotinho, junto com os prefeitos Mocaiber e Armando, lançou a pedra fundamental de Barra do Furado, junto com 2 empresas âncoras: Acker Promar, estaleiro norueguês que se instalaria em Quissamã, e Edson Chouest, base de apoio offshore americana, uma das maiores do mundo, que se instalaria em Campos.

A partir daí, começou-se uma corrida contra o tempo para se conseguir o projeto para viabilizar a navegação na foz do Canal das Flexas, licença ambiental, estudos de impactos sociais das obras, feito pela UFF, convênios com o Estado e o Governo Federal, para viabilizar recursos para obras. Enfim, uma séria de ações para implantar o Complexo.

Na ocasião a Prefeitura de Campos prometeu a Chouest um terreno para a empresa se instalar. A empresa americana chegou a investir mais de R$ 200 mil reais na licença ambiental do terreno, que não foi viabilizado pela Prefeitura de Campos. Com isso, essa grande empresa, que tem cerca de 70 navios offshore no Brasil e 130 nos EUA, desistiu do projeto, e, somado ao atraso das obras, foi para o Açu.

Por seu lado, Quissamã viabilizou de forma gratuita o terreno para a STX, antiga Acker Promar.

O que mais impressiona é que Campos parece não ter se apercebido da grande oportunidade que é o Complexo, em termos de emprego e desenvolvimento, escalando sempre secretários sem apoio para tocar o projeto, e não dedicando a atenção devida a um projeto que poderá ainda mudar a história econômica da nossa região.

Acabei de conversar com o presidente da Chouest no Brasil, que me informou que o contrato com a Petrobras no Açu é por 30 anos. Isso era para ter sido em Barra do Furado. A falta de competência dos atuais governos, fez com que Quissamã e Campos perdessem uma grande oportunidade.

Mas nem tudo está perdido. Barra do Furado tem licença ambiental e projeto. Com vontade política, pode atrair bons empreendimentos, já que tem uma localização privilegiada. Apesar da crise atual, no médio prazo, a atividade do petróleo tende a se soerguer, e, viabilizar a vinda de outros empreendimentos; além da pesca, que sempre será uma atividade importante para a região.

O caminho do futuro, diante ao oceano comum de oportunidades, está apontado. A Campos e Quissamã basta a disposição de navegá-lo juntos.

 

(*) Empresário e consultor de Políticas Públicas de Desenvolvimento Econômico do Sebrae

 

Publicado hoje (01/05) na Folha da Manhã e, antes de pequenas alterações, aqui, no blog “Ponto de vista”, do Christiano Abreu Barbosa

 

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Fabio Bottrel — Meritocracia Narrativa

Marionette Y. Koval
Marionette Y. Koval

 

 

Ainda era noite quando Jeremias fez sinal, ouviu o ruído da ferrugem tilintar diante de si, esperou a poeira de terra suja cobrir a sua vista, impregnar suas narinas e colorir o mato alto de bege, era o primeiro dos ônibus quepegaria para ganhar seu pão. Sentiu a lataria tremer ao pisar, passou seu cartão ao entrar, sentou e foi a galopar para a cidade.

— Ninguém disse que seria fácil! — Disse esse narrador para o personagem.

— Fí do cabrunco, por que me criastes pobre do mato, com as calças de carrapato, trotando que nem cavalo nessa gerigonça?!

— Meritocracia narrativa, Jeremias.

— Mas me escrevestes catando latinha desde criança, fui menino bom, ajudei minha família, tentei estudar, mas minha mãe teve menina, tive que catar mais latinha. Que raios de meritocracia é essa que uns já nascem jantando enquanto nóis inda nem tomou café da manhã? Depois vem cobrar o almoço que nóis num teve nem arroz pra fazer.  Olha os calos na minha mão, seu narrador, sou gente trabaiadora, faz isso comigo não, milhora pelo menos essa coisa sobre rodas, esse troço é tão ruim que minha bunda inté sente saudade das palmadas que papai dava.

— Não dá, Jeremias. Se te escrevesse num mundo onde todos têm oportunidades perderia verossimilhança. Estamos perdendo agora mesmo, você tem de acreditar ser feliz com o cartão que acabou de passar, com o cheque que eu vou te dar e o emprego de salário mínimo foi Deus que ajudou a encontrar. Não dá para todo mundo ser feliz de verdade!

— Mas eu já sei que isso num é bão, homi!

— Então terei de refazê-lo, Jeremias, você não deu certo nesse sistema narrativo, tenho de rever a ignorância na sua construção, vai sofrer muito sem ela.

— Cê é muito ruim, fí de porco espim, deixa eu seguir assim.

— Está bem, continuemos a história…

Ao descer no centro de Campos dos Goytacazes Jeremias viu o aglutinado diário de pessoas como um formigueiro desorientado, uma esbarrando na outra, correndo buscar seu pão tal como ele. Ergueu o rosto para o céu, encheu seus pulmões com o ar poluído das vans, carros, ônibus e motos compondo com as suas buzinas nervosas uma estridente sinfonia desafinada, a qual Jeremias já se acostumara. Ajeitou seu tênis enfiando a ponta do dedo entre a meia e o pano rasgado do calçado, pois sabia o longo trajeto pela frente até chegar suado com as pernas tremendo nas longas escadas de seu trabalho…

— Ah, vai prus infernos, lamparão! Já peguei três ônibus com a bunda que nem uma paçoca e agora vou ter di andar isso tudo?! Mas nem por diacho! Fico aqui e num continuo essa história disgraçada!

— Está bem, Jeremias…

Ajeitou seu tênis enfiando a ponta do dedo entre a meia e o pano rasgado do calçado, pois sabia o longo trajeto que teria pela frente se não fosse uma boa alma montada em um fusca branco milagrosamente parar em frente ao ponto de ônibus e lhe perguntar como chegar à Praça do Liceu, estava perdida e não sabia como se encontrar. Jeremias, prestativo que é, se animou com a coincidência, trabalhava logo em frente e de pronto montou no fusca branco para guiar a alma perdida.

Sua bunda quicava ainda mais com uma mola solta…

— Óia, lamparão…

Quicava, mas era quase imperceptível… logo chegou ao seu destino. As nuvens pintavam o sol de rosa atrás das montanhas do Imbé e compunham uma obra magnífica ao iluminar a réplica autêntica do Parthenon, símbolo duradouro da Grécia e da democracia, com toda a sua imponência nas longas escadas, um dos maiores monumentos culturais da humanidade. Essa era a casa onde as pessoas representavam Jeremias.

— Seu narrador, um minuto… Há pouco tempo, logo ali no início, o sinhô disse que eu tinha di me estrupiar todo assim por cadi verossimilhança, e que disgraça é essa de quem me representa tá num negócio todo firuloso desse enquanto eu to lá no mato?! Você tá me estrupiando todo pra essa história num fazer sentido nenhum, demonho!

— Jeremias, as pessoas que estão lendo essa história vivem num mundo com um conceito distorcido de realidade, se eu for justo demais algumas coisas perdem o sentido. Permita-me continuar, por favor…

Caminhou até uma pequena sala onde ficavam suas ferramentas de trabalho, colocou seu uniforme, pegou vassoura e balde com sabão para limpar toda a sujeira daquela casa. Enquanto passava pano no chão de uma das salas junto com Sônia, sentia o cheiro forte da colônia, disfarçava e admirava suas curvas quando ela virava as costas.

— Ô Sônia, por que nóis estamos fazendo tudo trocado hoje, limpando coisa que era pra limpar depois?

— É que os que representam a gente acham que oito e meia não é hora d’eles trabalharem aqui, não. Hora de gente como aquela gente trabalhar é dez e meia.

— Uai, mai já são dez e meia, eles num tão aqui cadiquê?

— É que como tava marcado pra oito e meia, aí eles num vem.

— Coitados, eles devem ditá sofrendo com o salário igual nóis…

— Tá nada, recebe dez mil cada um!

— Uai! Mai isso é uma furtuna perto dinóis que estamos aqui! Eles devem de tá trabalhando muito mai que nóis então.

— Tá nada, dois dias da semana só!

— Mai cadiquê isso?! Essa história tá sem pé e nem cabeça!Sônia, me dá uma licencinha que eu vou dar um jeito nisso…

Jeremias larga seu material de limpeza e caminha a passos furiosos para um pequeno cômodo localizado após um grande salão, escutava o eco de suas passadas fortes enquanto certificava-se de estar sozinho pelos ambientes em que passava. Trancou a porta, a escuridão cobria sua respiração ofegante e a perna dando tremeliques. Grita para esse narrador:

— Cêtá doido, homi?! Donde já si viu personagem ter d’insinar autor a escrever?! Pois é isso que vai acontecer aqui! Como é que o sinhô bota gente que não é como a gente para representar a gente sem antes ambientar essa situação doida inté di pensar? Essa história num vai fazer sintido pra leitor ninhum!

— Jeremias, a verossimilhança é construída através da aproximação dos dois mundos, e no meu isso é algo que faz sentido.

— Isso faz sintido?

— Não é que faz sentido… as pessoas do meu mundo entendem…

— Entendem? Assim… do nada?

— Não é do nada… são mazelas de uma história de mais de 500 anos.

— Mas então… qualquer mundo que o sinhô criar pra mim vem como parâmetro esse torto seu?

— Pois é… Há certos princípios em relação ao sacrifício necessários ter em você para a construção da empatia, assim o leitor se enxerga em algumas virtudes suas e as utiliza como um álibi para não tomar a existência dele própria como vã. A arte existe porque a vida não basta, lembra-me Ferreira Gullar, um grande pensador que você não terá a oportunidade de conhecer. As pessoas do meu mundo distinguem a felicidade por conhecerem o sofrimento, terei de te humanizar em qualquer mundo que eu crie, independente da forma física dele e sua.

— Seu narrador, o sinhô mi disculpa, mai eu num tenho culpa do mundo do sinhô tá assim não, eu mereço um mundo mió. Se for pra ficar nessa estrupiação toda eu prefiro num existir.

— Tem razão, Jeremias. Você merece um mundo melhor…

— Seu narrador, o sinhô mi disculpa mais uma vez,num me fizestes com muito conhecimento, mai não é difíci di perceber que se o mundo do sinhô tá esquisito assim, o leitor veio aqui pra fugir e o sinhô escrevendo isso só piora a coisa…

Jeremias esperou que eu respondesse, ele não conseguia enxergar seu corpo no escuro, no meiodo silêncio escutava uma goteira cair lentamente enquanto sentia seus dedos enrolando a ponta da camisa como uma criança envergonhada prestes a pedir desculpas.

— Seu narrador, o sinhô deixa eu deixar de existir?

Enquanto uma lágrima caía ele me esperava impaciente…

— Deixa?

— Deix

— Dei

— De

— D

 

Essa é uma história fictícia e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

 

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Feijó na comissão das Minas e Energias projeta região no governo Temer

Paulo Feijó (foto: divulgação)
Paulo Feijó (foto: divulgação)

 

 

Num momento em que Campos e os municípios produtores e limítrofes do Norte e Noroeste Fluminense amargam repasses de royalties do petróleo cada vez menores, um representante político com base eleitoral pulverizada nessas regiões deve assumir na próxima terça (03/04) a comissão de Minas e Energia da Câmara Federal. Cacifado após votar a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), enquanto o vice Michel Temer (PMDB) conta os dias para assumir a presidência da República, o deputado Federal Paulo Feijó (PR) foi indicado por seu partido, entre os 40 parlamentares da bancada, para assumir a comissão.

O fato de ter resistido à pressão do presidente estadual do PR, Anthony Garotinho, para não comparecer à votação ou votar contra o impeachment reforçou Feijó não só com o novo governo federal que se avizinha, como dentro do próprio PR. Depois de, segundo a mídia nacional, ter forçado a filha (aqui e aqui) e deputada federal Clarissa Garotinho (PR) a tirar licença maternidade e se ausentar na votação do impeachment, Garotinho tentou fazer o mesmo (aqui) com Feijó. Neste sentido, o político da Lapa chegou a plantar uma nota (aqui) junto ao jornalista carioca Fernando Molica, de O Dia, dando conta de que Feijó havia mudado o voto, obrigando o deputado a exigir a retificação da informação.

No final, a aprovação do impeachment na Câmara, na bancada do PR, teve 26 votos a favor, 10 contra, três abstenções e uma ausência (de Clarissa). Fortalecido pela atitude pessoal em favor do resultado nacional que enfraqueceu ainda mais Garotinho dentro do PR, Feijó agora assumirá pelo partido a comissão de Minas e Energia:

— É uma comissão muito importante. O impeachment da presidente Dilma no Senado, no dia 11, é praticamente irreversível. Quando Temer assumir, vou aproveitar meu bom trânsito com o Moreira Franco (PMDB, ex-governador do Rio e cotado para ser ministro no novo governo) para tentar ajudar a resgatar essa atividade que, mesmo com a queda no preço do barril de petróleo, ainda é de longe a principal para a economia da nossa região.

 

Página 2 da edição de hoje (29/04) da Folha
Página 2 da edição de hoje (29/04) da Folha

 

 

Publicado na edição de hoje (20/04) da Folha da Manhã

 

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