Campos da gripe espanhola à Covid-19 — Defesa do lockdown da ciência ao Direito

 

 

Médico infectologista Nélio Arties, cientista da biologia Leandro Rabello e promotora de Justiça Maristela Naurath na semana do Folha no Ar (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Mãe de três filhos, Capitulina era ainda moça quando morreu naquele início de século 20. Em sua breve vida, foi uma intelectual que fazia tradução de revistas francesas ao português. Campista da gema, morava no entorno da praça do Santíssimo Salvador, em cima do prédio da Lira de Apolo. Apesar de competente boticário, função que na época equivalia a um misto de clínico geral e laboratório farmacêutico, seu marido, Francisco, não conseguiu salvá-la da gripe espanhola. Hoje mais conhecida por H1N1 e imunizada por vacina, estima-se ter matado até 100 milhões de pessoas no mundo, inclusive em Campos, entre 1918 e 1920. Foi a última pandemia enfrentada pela humanidade até 100 anos depois aparecer o Sars-Cov-2, vírus da Covid-19.

No correr desta semana avançando sobre a segunda quinzena de maio, como o novo coronavírus avançando sobre Campos, região, estado do Rio e Brasil, o programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, teve a chance de entrevistar três pessoas dedicadas, cada qual em sua área, a entender e combater a pandemia da Covid. O primeiro entrevistado sobre o assunto foi o médico infectologista Nélio Artiles. Na terça (12), ele alertou (confira aqui) sobre a necessidade de lockdown, do “fechamento total” em Campos e municípios vizinhos:

 

 

— O lockdown também vai acontecer em Campos. Eu acho que é inevitável. E qual é o critério? É estatístico, você observar a questão da internação, dos leitos que estão sendo utilizados. Isso são decisões que você tem que tomar. No Rio de Janeiro, quando você tem filas para internação, filas esperando a UTI, eu penso sinceramente que a atitude de demorar um pouco, a cada dia que demora, serão mais mortes que acontecerão. O lockdown tem que ser imediato na cidade do Rio de Janeiro. E aí você deve avaliar de acordo com o local, você deve ter a autonomia de cada gestor, a responsabilidade. O problema é que muitos gestores não têm essa responsabilidade, não têm bom senso. E aí a gente fica naquela: quem é que vai tomar a atitude pelo outro?

Adiante na entrevista, feita no sistema de home office pela Folha FM desde 30 de março, o médico infectologista falou da inutilidade de se fazer um lockdown em Campos, enquanto municípios vizinhos, como São Fidélis e São Francisco de Itabapoana, sequer fecham seus comércios. E de como a falta de responsabilidade do gestor contribui para agravar a crise na saúde. Ele citou o exemplo do presidente da República, Jair Bolsonaro, considerado pelo mundo como o pior líder de um país na gestão da pandemia da Covid-19:

 

Bolsonaro foi considerado o pior líder mundial no combate à pandemia da Covid-19 pelo jornal Washington Post e pela revista científica The Lancet (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

— O pior é que casos graves que acontecem em nosso entorno acabam sobrando para Campos. Não adianta. O lockdown da gente vai ficar quebrado pelos municípios vizinhos. Infelizmente, nem todos têm o bom senso de tomar a atitude. O ministério da Saúde vinha com o (Luiz Henrique) Mandetta numa linha. E por incompatibilidade política e de entendimento racional, se muda o ministro e entra o (Nelson) Teich. Que mantém a mesma linha, porque cientificamente ele tem que manter, não pode mudar. Mas aí o exemplo do gestor maior, que é o presidente, acaba atrapalhando muito essa questão dos outros gestores — apontou Nélio, na mesma terça em que foi anunciado que a Justiça havia determinado o fechamento do comércio em São Fidélis, irresponsavelmente mantido aberto pelo prefeito Amarildo Henrique Alcântara. Inspirado pelo presidente que quatro dias depois faria Nelson Teich, na sexta (15), pedir demissão do ministério da Saúde.

 

Até o final da manhã de sábado (16), o placar da disputa de Bolsonaro com seus próprios ministros da Saúde era de 14.817 brasileiros oficialmente mortos pela Covid-19, como os que superlotaram os cemitérios de Manaus (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Na quarta (13), o convidado do Folha no Ar foi (confira aqui) Leandro Rabello Monteiro, professor de biologia evolutiva da Uenf, à qual voltou após lecionar quatro anos na Universidade de Hull, na Inglaterra. Indagado se uma segunda onda da Covid-19 poderia ocorrer, como há suspeita de estar se iniciando na China e na Coréia do Sul, com base no que ocorreu com a gripe espanhola que matou Capitulina no começo do séc. 20, o entrevistado fez ressalvas do ponto de vista da ciência do início do séc. 21:

—  Uma coisa que os coronavírus diferem dos vírus Influenza, que é de uma outra família, é que a taxa de mutação dos coronavírus é menor. O que determina essas ondas de infecção é o parâmetro do R0, a medida de transmissibilidade média. Isso depende muito de quantas pessoas há doentes, quantas saudáveis, suscetíveis e quantas imunizadas. Essa imunização pode ocorrer porque a pessoa teve a doença e se recuperou, ou porque foi vacinada. Então, os epidemiologistas estão tentando fazer medidas para mudar esse parâmetro, para tentar evitar o espalhamento dessa doença, sem você ter a ferramenta da vacina. O número de doentes, suscetíveis e imunizados vai variando ao longo do tempo. É claro que você pode ter uma segunda onda. Mas, por enquanto, não tem nenhuma evidência que essa segunda onda seja de um vírus geneticamente diferente dessa primeira onda que está indo.

Mesmo se o Sars-Cov-2 não sofrer mutação, o que nada até agora indica, a questão do isolamento social ainda vai variar de acordo com a diminuição e o aumento do número de casos, para evitar o colapso dos sistemas de saúde do mundo. Foi o que Leandro explicou:

 

 

— Com o isolamento, as pessoas estão deixando de pegar o vírus agora e vão pegar mais para frente, numa segunda situação. É de se esperar que, com o isolamento sendo relaxado, você vá tendo outras ondas acontecendo. Mas se você não mudar grande coisa no vírus, o que parece ser por enquanto o caso, essas ondas não serão tão grandes assim. Mas vão acontecendo e esse isolamento tem que ser reimposto para você ter certeza de não sobrecarregar o sistema de saúde. Por isso os países estão pensando em relaxar, mas têm que ficar de olho para não sobrecarregar o sistema de saúde. Enquanto você não tiver como mudar a proporção de pessoas imunizadas, por vacinação, você tem que ficar fazendo esse controle para evitar o colapso.

Na sexta (15), a convidada do Folha no Ar foi (confira aqui) a promotora de Justiça Maristela Naurath. Ela é responsável do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) pela fiscalização da saúde em Campos, São João da Barra, São Fidélis e São Francisco. Até a manhã de sexta, dia em que vencia o prazo, nenhum desses governos municipais havia enviado ao MPRJ o estudo técnico pedido uma semana antes para endossar a decisão de cada prefeito em adotar ou não o lockdown. Que, na omissão dos gestores, a promotora planeja pedir na próxima semana para que seja determinado pela Justiça nos quatro municípios:

— Eu vou me basear tanto no estudo da Fiocruz (que, desde o último dia 6, alertou o governador Wilson Wiztel sobre a necessidade de decretar o lockdown em todo o estado do Rio), como outros, que foram disponibilizados pelo nosso centro de apoio operacional, para instruir uma ação solicitando ao Judiciário a adoção do lockdown. Temos recomendações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do Conselho Nacional de Saúde (CNS), instruindo para essa demanda. E tentaremos (na Justiça) uma decisão favorável. Vou levar em conta o percentual de ocupação de leitos, tantos ambulatoriais e de UTI, a inércia do poder público, o aumento geométrico do número de casos e a letalidade. Acho que na próxima semana a gente vai entrar num nível bastante crítico. Inevitável que os sistemas de saúde entrem em colapso e o sistema funerário também. A gente vê que as pessoas estão nas ruas, os comércios estão abertos. Então há necessidade de medidas mais drásticas, de fiscalização mais rigorosa. Para ter uma nova abertura, há a necessidade de que os índices de letalidade e de ocupação de leito melhorem. Temos que pensar o contrário: em isolar, em fechar, em lockdown.

Indagada sobre a perspectiva de 20% do total de infectados, que foram e serão obrigados a recorrer à internação, entrando em um hospital sem saber se sairão ou voltarão a ver seus entes queridos, a promotora revelou uma característica que falta a alguns governantes e suas seitas: empatia, capacidade de se colocar no lugar do outro. Assumindo-a, Maristela disse:

 

 

— É assustador! É assustador! Entrar no hospital com uma suspeita de Covid, olhar para os leitos ao lado e ver todas as pessoas sentindo os sintomas, a falta do ar, sendo levado para uma UTI e intubado, é uma perspectiva tão assustadora… É realmente muito complicado!… É difícil!… É difícil! É difícil! Não gostaria de estar no lugar dos médicos que estão ali, os enfermeiros, os técnicos de enfermagem, dentre outros que estão ali na ponta, correndo um sério risco de se contaminar, de estarem no mesmo lugar, ocupando o mesmo leito, passando pelos mesmos problemas… É uma emoção, uma emoção ruim!… Ah, me desculpa, é muito complicado isso — desabafou, visivelmente emocionada.

Capitulina deixou três filhos ao morrer precocemente em Campos. Filho do filho da sua filha mais velha, seu bisneto pensava nela desde que a pandemia da Covid chegou à mesma cidade, 100 anos depois da gripe espanhola. Sempre gostou de história e essa era a sua. Tentou lutar contra as sombras do obscurantismo, esterco em forma de pensamento e caráter de gente, fértil à propagação do novo vírus. E se descobriu também suspeito de o ter contraído. Pelas Capitulinas refletidas em olhos embargados de Maristelas, respirou fundo, deu graças por isso e seguiu em frente.

 

Publicado hoje (16) na Folha da Manhã

 

0

Campos define lockdown que MPRJ vai pedir na Justiça para SJB, SFI e SF

 

Promotora de Justiça Maristela Naurath foi a convidada de hoje do Folha no Ar

No Folha no Ar do início da manhã de hoje, na Folha FM 98,3, a promotora de Justiça Maristela Naurath disse que entraria na semana que vem com  ações na Justiça na próxima semana para pedir o lockdown nos municípios de Campos, São João da Barra (SJB), São Francisco de Itabapoana (SFI) e São Fidélis(SF), com objetivo conter a aceleração da pandemia da Covid-19. No final da tarde de hoje, o prefeito Rafael Diniz se antecipou e decidiu (confira aqui) pelo lockdown em Campos a partir da próxima segunda (18). Encarregada da fiscalização da saúde nos quatro municípios, pela 1ª e 3ª Promotorias de Tutela Coletiva da comarca, Maristela explicou que o endurecimento das regras de quarentena é para tentar evitar o colapso das suas redes de saúde e funerárias dos municípios:

— Eu vou me basear tanto no estudo da Fiocruz (que, desde o último dia 6, alertou o governador Wilson Wiztel sobre a necessidade de decretar o lockdown em todo o estado do Rio), como outros, que foram disponibilizados pelo nosso centro de apoio operacional, para instruir uma ação solicitando ao Judiciário a adoção do lockdown. Temos recomendações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do Conselho Nacional de Saúde (CNS) instruindo para essa demanda. E tentaremos (na Justiça) uma decisão favorável. Vou levar em conta o percentual de ocupação de leitos, tantos ambulatoriais e de UTI, a inércia do poder público, o aumento geométrico do número de casos e a letalidade. Acho que na próxima semana a gente vai entrar num nível bastante crítico. Inevitável que os sistemas de saúde entrem em colapso e o sistema funerário também. A gente vê que as pessoas estão nas ruas, os comércios estão abertos. Então há necessidade de medidas mais drásticas, de fiscalização mais rigorosa. Para ter uma nova abertura, há a necessidade de que os índices de letalidade e de ocupação de leito melhorem. Temos que pensar o contrário: em isolar, em fechar, em lockdown.

Na última sexta (08), a promotora pediu (confira aqui) aos prefeitos de Campos, São João, São Francisco e São Fidélis o envio de estudo técnico para fundamentar a decisão de decretar ou não lockdown por conta própria. O prazo venceu hoje, sem que nenhum tenha atendido à solicitação do Ministério Público. Campos porque decidiu pelo lockdown. Dos outros três, apenas São Fidélis pediu ampliação do prazo de envio para segunda-feira (18).

Por decisão própria, Rafael e Carla Machado, prefeita de SJB, decidiram fechar seus comércios desde março. O de São Fidélis, com população de 38.669 habitantes e 114 casos confirmados de Covid-19 até a tarde de hoje, é o município mais infectado de todo o Norte e Noroeste Fluminense, com índice de um caso da doença a cada 339,2 moradores. Ainda assim, por decisão do prefeito Amarildo Henrique Alcântara, o comércio fidelense se mantinha aberto. E só foi fechado na quarta (13) por decisão judicial do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ), que na segunda (11) acatou a o pedido da Defesa Pública pelo fechamento. Governado por Francimara Barbosa Lemos, São Francisco ainda mantém o comércio aberto.

Indagada no Folha no Ar de hoje sobre a perspectiva de 20% do total de infectados, que foram e serão obrigados a recorrer à internação hospitalar, entrando sem saber se sairão ou voltarão a ver seus entes queridos, a promotora revelou uma característica que falta a alguns governantes: a empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro. Assumindo-a como ser humano, Maristela disse:

— É assustador! É assustador! Entrar no hospital com uma suspeita de Covid, olhar para os leitos ao lado e ver todas as pessoas sentindo os sintomas, a falta do ar, sendo levado para uma UTI e intubado, é uma perspectiva tão assustadora… É realmente muito complicado!… É difícil!… É difícil! É difícil! Não gostaria de estar no lugar dos médicos que estão ali, os enfermeiros, os técnicos de enfermagem, dentre outros que estão ali na ponta, correndo um sério risco de se contaminar, de estarem no mesmo lugar, ocupando o mesmo leito, passando pelos mesmos problemas… É uma emoção, uma emoção ruim!… Ah, me desculpa, é muito complicado isso — desabafou, visivelmente emocionada.

 

Com os trechos da matéria extraídos do terceiro bloco, confira os três abaixo nos vídeos do Folha no Ar de hoje com a promotora de Justiça Maristela Naurath:

 

 

 

 

0

Cultura de Campos bate recorde de interatividade no Folha no Ar com Cristina Lima

 

Cristina Lima, presidente da FUndação Cultural Jornalista Oswaldo Lima

A cultura de Campos pode não ter uma torcida proporcionalmente tão numerosa quanto às dos clubes cariocas Flamengo e Vasco. Mas, como as do Fluminense e Botafogo, compensa qualquer inferioridade numérica com a paixão e o compromisso na defesa da sua bandeira. Foi o que evidenciou o Folha no Ar do início da manhã de hoje (14), com a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Cristina Lima. Através do WhatsApp e de comentários pelo streaming do programa no Facebook, a interatividade dos ouvintes e telespectadores foi intensa. Todos na defesa do Museu Histórico e do Arquivo Público de Campos, que tiveram atividades e RPAs suspensos em decreto municipal, por conta da pandemia da Covid-19, em decreto municipal de 6 de maio.

— O primeiro decreto, estabelecendo um atendimento não presencial e trabalho interno e home working, data de 18 de março. Para todos os equipamentos culturais. Nós temos o Teatro Trianon, o Teatro de Bolso Procópio Ferreira, a Casa de Cultura José Cândido de Carvalho em Goitacazes, a Casa de Cultura Poeta Antônio Silva em Conselheiro Josino, nós temos o Museu e o Arquivo. Os equipamentos culturais começaram a cumprir o primeiro decreto. E como temos neles a presença do servidor em regime de recebimento de pagamento a autônomo (RPA), o último decreto do prefeito (de 6 de maio) estabeleceu o plano de suspensão emergencial, naturalmente atingiu todas essas instituições que eu acabei de citar. Mas nunca, em momento nenhum desse processo, nós tivemos a a intenção de não voltar com esses equipamentos. O tempo todo foi dito que seria temporário. Não foi corte, foi suspensão. Que trouxe essa ansiedade muito grande, essa preocupação, até bastante compreensível e legítima. Mas em momento algum foi aventada a hipótese de não reabrir ao fim dessa pandemia — disse Cristina em sua primeira participação no programa.

Dando início à participação dos leitores e ouvintes, a diretora do Museu Histórico de Campos, Graziela Escocard, perguntou por WhatsApp:

— Como será feita a manutenção dos espaços do Museu, do Arquivo e do Trianon, lembrando que os funcionários públicos concursados, são em sua maioria da educação, cedidos e sem conhecimento técnico?

—  É uma situação que nós estamos analisando, buscando uma alternativa. Porque na verdade, na rede, nós temos os DAS, que permaneceram. Então se essa preservação do acervo não puder ser feita por essas pessoas que ficaram, que não sofreram os efeitos do plano emergencial de suspensão, nós já estamos desde ontem (13) analisando a questão. E vendo qual atitude nós vamos poder tomar (…) Estamos analisando, junto com a professora Rafaela (Machado, diretora do Arquivo Público), inclusive. E pensando numa alternativa que atenda à necessidade de manutenção do acervo. Toda essa situação é muito nova para todos nós, é muito inusitada. Nunca tínhamos experimentado uma coisa parecida com isso. É preciso que agora a gente se junte, com espírito coletivo. E busque através do diálogo, com serenidade e equilíbrio, para que se possa pensar numa alternativa para atender a essa questão, que é muito preocupante. A gente sabe que uma casa fechada se deteriora mais rápida que com ela aberta — respondeu a presidente da FCJOL.

Citada por Cristina, Rafaela Machado também se manifestou no streaming do programa. E pontuou à entrevistada do Folha no Ar:

— As demandas da cultura são legítimas e durante muito tempo não foram ouvidas ou não foram consideradas importantes. Acho que é hora de entendermos que essa questão, a manutenção e sobrevivência desses espaços, é também pauta essencial de discussão hoje — disse a diretora do Arquivo Público.

— Na verdade, as demandas hoje da cultura em Campos são muito grandes. Nós temos vários prédios municipais carentes de manutenção, como é o caso do Arquivo, da Casa de Cultura em Goitacazes, que demandam um investimento muito alto. O grande desafio do prefeito Rafael Diniz é atender às demandas mais urgentes, relacionadas ao servidor, à saúde, à educação. Então, essas demandas vindas da cultura são muito altas. A gente já fez um levantamento. Por exemplo, o Teatro de Bolso, são todos equipamentos que têm muito tempo de vida. O mais novo aí, seria o Trianon, com 21 anos, já requerendo uma série de manutenções no seu maquinário. Eu vejo hoje que nós estamos caminhando para uma situação em que as questões culturais vão ter que recorrer às parcerias público-privadas (PPPs) e às leis de incentivo. O que está acontecendo é que as prefeituras estão cada vez mais inadimplentes para suportar essa demanda. A Prefeitura vai ter que buscar essas parcerias, como já viemos buscando na cultura com a secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação, na questão da economia criativa, na questão de projetos vindos de alunos bolsistas, que focaram inclusive na questão do patrimônio histórico e cultural, no prédio do Arquivo. As prefeituras vão se tornando cada vez mais sem condições de bancar toda essa necessidade e carência.

 

Com trechos da matéria extraídos do primeiro e segundo blocos da entrevista, confira abaixo em vídeo todos os três do Folha no Ar de hoje com Cristina Lima. Em sua maior parte ditado democraticamente pelas intervenções dos ouvintes e telespectadores. Como provaram hoje seus defensores, em atuação de time grande, a cultura de Campos é capaz de gerar tanta audiência e interesse quanto jogo de futebol:

 

 

 

 

0

Promotora de Justiça Maristela Naurath fala sobre saúde nesta 6ª no Folha no Ar

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7 da manhã desta sexta (15), quem fecha a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é a promotora de Justiça Maristela Naurath. Titular da 3ª Promotoria de Tutela Coletiva de Campos e encarregada das ações de fiscalização da saúde na comarca, ela falará da atuação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) na pandemia da Covid-19. Também analisará a situação do sistema de saúde de Campos e a possibilidade de adoção de lockdown nos municípios da região.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

0

Nas crianças e nas grandes referências do passado, trabalho ganha reconhecimento

 

Enquanto há muita gente enfastiada com o ócio do isolamento social, estes tempos de Covid-19 têm sido de labuta redobrada no jornalismo. Seja para contas as histórias de quem está envolvido com a pandemia — e não há ninguém de fora —, seja para relembrar histórias de antes dela, que não podem ser esquecidas. E, apesar de muito trabalho, há recompensas.

No último sábado (09), matéria publicada aqui e na Folha da Manhã ouviu 18 crianças do ensino fundamental de Campos, das redes pública e privada, sobre a visão de mundo de quem forma a sua em meio à pandemia. E teve boa repercussão local, inclusive a registrada aqui, no perfil do Centro de Ensino pH no Instagram, uma das escolas que teve alunos como personagens.

 

 

Já na última terça (12), o blog lembrou aqui o aniversário de 19 anos do falecimento de um campista que conquistou o Brasil e o mundo com a sua arte: Waldir Pereira, que passou à história do futebol como Didi. Mesmo ao lado de Pelé e Garricha, foi considerado o grande craque na conquista da primeira Copa do Mundo pela Seleção Brasileira, em 1958, na Suécia. Título que repetiria no Bi de 1962, no Chile. Brilhou também em grandes times de clube, como Fluminense e o Botafogo de Garrincha, com passagem pelo também lendário Real Madrid de Puskás e Di Stéfano.

O texto lembrou ainda da homenagem que o gênio da bola recebeu da Folha da Manhã, em 2000. Menos de um ano antes de morrer, no Teatro Trianon, ele recebeu do jornal o prêmio que sua mais famosa jogada batizou: o Folha Seca. Para dar a dimensão do que Didi foi nos campos, o texto recorreu ao auxílio de outros três jornalistas, os campistas Péris Ribeiro e Chico de Aguiar, além do carioca Carlos Heitor Cony, já falecido. A reunião deles acabou reproduzida aqui no site Ultrajano, de outro mestre do jornalismo brasileiro: José Trajano.

 

 

 

Para retratar um presente de crise mundial, projetando nas crianças o futuro de depois da pandemia, sem esquecer de saudar as grandes referências do passado, compensa a certeza de que o trabalho está sendo feito e alcança algum reconhecimento. É o que impulsiona a seguir em frente nesta lida ancestral de contar as histórias da tribo.

 

0

Covid-19 — “A burrice é uma forma de administrar a estupidez com orgulho”

 

 

O sujeito finge que não vê os protestos pedindo intervenção militar e pelo AI-5 no Brasil. Relativiza ou apoia ataques ao Congresso e ao Supremo. Enquanto se presta a passar pano até no nazismo — no nazismo! — do ex-secretário de Cultura de Bolsonaro, em pastiche (relembre aqui) do ministro da Propaganda de Hitler. E não tece uma mísera palavra sobre os insultos verbais e a intimidação física, vestidos com a camisa da Seleção Brasileira, contra enfermeiras que protestam pacificamente em Brasília.

Aí esse mesmo sujeito chama de “ditadura” a necessidade de lockdown. Que é apontada pela Fiocruz, pela UFRJ, pelo Imperial College de Londres e todos os especialistas da Terra como única forma de tentar desacelerar a contaminação da pandemia da Covid-19. Na tentativa de não colapsar o sistema de saúde — e o funerário — das regiões mais atingidas. Como se deu na China, no Irã, na Itália, na Espanha e nos EUA. Antes do Brasil se tornar o principal epicentro da doença no mundo, como apontou estudo da USP.

Enquanto a humanidade busca uma vacina ou tratamento eficaz para a Covid-19, fica a dúvida: há cura possível para a estupidez dessa… gente?

 

0

Pandemia da Covid-19 não é surpresa e o isolamento social vai variar até a vacina

 

“É como se fosse uma crise anunciada. Em que você vê muita gente que pensa assim: ‘Ah, ninguém imaginava que isso nunca poderia acontecer’. Ninguém, porque não estão prestando atenção no que os pesquisadores estavam falando na última década, que a gente estava vivendo uma situação muito clara de que isso era uma questão de tempo. Não era questão ‘se’ ia acontecer, mas de ‘quando’ ia acontecer. E agora a gente está em uma situação de ter que lidar com isso, já que o processo de prevenção não foi feito de maneira adequada. De alguma maneira isso vai passar pela gente, o mundo inteiro está correndo atrás de tentar resolver isso. Mas existe a chance de que vai ocorrer em um curso mais logo do que a gente gostaria”. Foi assim, como algo até certo ponto esperado e evitável, que Leandro Rabello, professor de biologia evolutiva da Uenf, analisou a pandemia da Covid-19 no Folha no Ar do início da manhã de hoje, na Folha FM 98,3.

Indagado se uma segunda onda da doença pode ocorrer, como há suspeita de estar se iniciando na China e Coréia do Sul, com base no que ocorreu com a última pandemia enfrentada pela humanidade, a da gripe espanhola do Influenza do H1N1 entre 1918 e 1920, Leandro fez algumas ressalvas do ponto de vista científico:

—  Uma coisa que os coronavírus de uma maneira geral diferem dos vírus Influenza, que é de uma outra família, é que a taxa de mutação dos coronavírus é menor. O que determina essas ondas de infecção é o parâmetro do R0, que é a medida de transmissibilidade média. Isso depende muito de quantas pessoas tem doentes, quantas saudáveis, suscetíveis e quantas estão imunizadas. Essa imunização pode ocorrer porque a pessoa teve a doença e se recuperou, ou porque foi vacinada. Então, os epidemiologistas estão tentando fazer medidas para mudar esse parâmetro, para tentar evitar o espalhamento dessa doença, sem você ter a ferramenta da vacina. Então o número de doentes, suscetíveis e imunizados vai variando ao longo do tempo. É claro que você pode ter uma segunda onda. Mas, por enquanto, não tem nenhuma evidência que essa segunda onda seja de um vírus geneticamente diferente dessa primeira onda que está indo.

Mesmo se o vírus da Covid-19 não sofrer nenhuma mutação, o que nada até agora indicaria, a questão do isolamento social ainda vai variar de acordo com a diminuição e aumento do número de casos, para evitar o colapso dos sistemas de saúde do mundo. Foi o que professor da Uenf, à qual voltou após lecionar Ciência Naturais quatro anos na Universidade de Hull, na Inglaterra, explicou:

— Com o isolamento, as pessoas estão deixando de pegar o vírus agora e vão pegar mais para frente, numa segunda situação. É de se esperar que, com o isolamento sendo relaxado, você vá tendo outras ondas acontecendo. Mas se você não mudar grande coisa no vírus, o que parece ser por enquanto o caso, essas ondas não serão tão grandes assim. Mas vão acontecendo e esse isolamento tem que ser reimposto para você ter certeza que não vai sobrecarregar o sistema de saúde. Por isso os países estão pensando em relaxar, mas têm que ficar de olho para não sobrecarregar o sistema de saúde. Enquanto você não tiver como mudar a proporção de pessoas imunizadas, por vacinação, você tem que ficar fazendo esse controle para evitar o colapso. Mas o cenário mais perigoso, mais mortal, até agora não tem nenhuma evidência de que seja o caso. Pelo histórico evolutivo dos coronavírus como um todo, pode ser que não aconteça isso em um período relativamente curto. Mas a gente não tem como ter certeza.

 

Com os trechos da matéria extraídos do segundo bloco, confira nos vídeos abaixo os três da entrevista do Folha no Ar de hoje com Leandro Rabello Monteiro, professor de biologia evolutiva da Uenf. No terceiro, ele esclarece as dúvidas geradas por teorias conspiratórias no Brasil e mundo afora: qual é a origem no novo coronavírus?

 

 

 

 

0

Museu, Arquivo e cultura de Campos com Cristina Lima nesta 5ª no Folha no Ar

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quinta (14), a convidada do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Cristina Lima. Citada e instada a falar no Folha no Ar de segunda (11), quando o entrevistado foi o historiador Arthur Soffiati, Cristina respondeu no mesmo dia (confira aqui) às cobranças pela suspensão dos RPAs e das atividades do Museu Histórico e do Arquivo Público de Campos, que garantiu ser temporária. E poderá se aprofundar na questão, além de responder à pergunta: a cultura é sempre a primeira vítima da crise? Ela analisará também o que julga serem os pontos positivos e negativos do governo Rafael Diniz (Cidadania).

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

0

Covid-19 — Para especialista, lockdown em Campos, vizinhos e RJ é inevitável

 

Nélio Artiles, médico infectologista (Foto: Folha da Manhã)

 

“O lockdown também vai acontecer em Campos. Eu acho que é inevitável. E qual é o critério? É estatístico, você observar a questão da internação, dos leitos que estão sendo utilizados. Isso são decisões que você tem que tomar. No Rio de Janeiro, quando você tem filas para internação, filas esperando a UTI, eu penso sinceramente que a atitude de demorar um pouco, a cada dia que demora, eu penso que serão mais mortes que acontecerão. O lockdown tem que ser imediato na cidade do Rio de Janeiro. E aí você deve avaliar de acordo com o local, você deve ter a autonomia de cada gestor, a responsabilidade. O problema é que muitos gestores não têm essa responsabilidade, não têm bom senso. E aí a gente fica naquela: quem é que vai tomar a atitude pelo outro?” Foram o alerta e a indagação que o médico infectologista Nélio Artiles lançou no início da manhã de hoje, no Folha no Ar, na Folha FM 98,3, sobre a pandemia da Covid-19.

A indagação de Nélio, um dos mais conceituados infectologistas da cidade, seria respondida logo depois. Na ausência de responsabilidade do prefeito de São Fidélis, Amarildo Henrique Alcântara, que insistia em manter aberto o comércio do município da região mais afetado pela pandemia do novo coronavírus. Com maior responsabilidade com a vida humana, o desembargador José Carlos Paes, da 14ª Vara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ), determinou o fechamento do comércio fidelense, à exceção dos serviços essenciais, até 31 de maio. Tomada desde segunda (10) a decisão judicial, no entanto, só se tornou conhecida na tarde de hoje (confira aqui), após o Folha no Ar com Nélio Artiles.

Ainda sem saber da decisão do TJ-RJ, Nélio Artiles foi indagado na Folha FM se adiantava Campos fechar seu comércio até 31 de maio, enquanto o município vizinho de São Fidélis, com quatro mortes oficiais por Covid-19, cinco outros óbitos sob investigação, 108 casos confirmados e 13 suspeitos, mantinha seu comércio aberto. O infectologista respondeu:

— O pior é que casos graves que acontecem em nosso entorno, acabam sobrando para Campos. Não adianta. O lockdown da gente vai ficar quebrado pelos municípios vizinhos. Infelizmente, nem todos têm o bom senso se tomar a atitude. O ministério da Saúde vinha com o (Luiz Henrique) Mandetta numa linha. E por incompatibilidade política e de entendimento racional, se muda o ministro e entra o (Nelson) Teich. Que mantém a mesma linha, porque cientificamente ele tem que manter, não pode mudar. Mas aí o exemplo do gestor maior, que é o presidente (Jair Bolsonaro) acaba atrapalhando muito essa questão dos outros gestores — observou Nélio.

O infectologista seguiu falando da questão da subnotificação dos casos no país. Segundo estudo recente do Imperial College de Londres (confira aqui), apenas 10,4% dos brasileiros contaminados seriam de fato notificados. No fim de abril, o levantamento acertou a previsão de que o Brasil chegaria aos 10 mil mortos no início de maio. Oficialmente, o número foi ultrapassado no dia 9 do mês:

— É provável que esse estudo inglês mostre que a população quase toda brasileira vai acabar pegando esse vírus, se a gente considerar que é só 10% (dos casos reais que são oficialmente notificados). Será que a população toda da Itália pegou, da Espanha? Toda que eu falo, assim, grande parte, pelo menos os tais 40%, 50% da população. É provável. Porém, o problema é todo mundo pegar de uma vez só. Se trocar de novo de ministro e entrar o Osmar Terra, que preconiza a liberação a abertura total, dizendo que confinado transmite mais, isso vai totalmente contra a ciência. E pode trazer um problema muito sério, que é o adoecimento rápido de muitas pessoas ao mesmo tempo. E você sobrecarrega os leitos todos (hospitalares). Então acho que o lockdown é inevitável. Ele vai acontecer, sim. Porém, não acho que vai ser na mesma linha, ao mesmo tempo. Cada gestor público tem que ter, sim, a sua autonomia e o bom senso. Infelizmente, isso não acontece.

 

Confira nos vídeos abaixo os três blocos da entrevista com o médico infectologista Nélio Artiles, um dos mais conceituados da cidade. Os trechos destacados na matéria estão no segundo. No terceiro e último há importantes informações de utilidade pública sobre a ação de medicamentos para tentar combater a Covid-19:

 

 

 

 

0

De Campos ao mundo, Didi por Péris Ribeiro, Chico de Aguiar e Carlos Heitor Cony

 

Didi, Péris Ribeiro, Chico de Aguiar e Carlos Heitor Cony

O campista Didi foi eleito pela crônica esportiva internacional reunida em 1958 na Suécia, por conta da Copa do Mundo daquele ano, naquele país, como maior jogador da competição. O que significa dizer: do mundo. Desde garoto, ouvia sobre aquele meia direita clássico de passes longos e precisos, por meio de um grande fã e conterrâneo seu: meu pai. Que o vira jogar ainda em Campos, antes de explodir e chegar à Seleção Brasileira na Copa de 1954, na Suíça, quando atuava no Fluminense, clube do coração tricolor do velho Aluysio.

Mesmo após o craque deixar as Laranjeiras, por não aceitar mais ter que entrar pela porta de empregados do clube, meu pai continuaria torcendo por Didi. Que se imortalizaria no maior Botafogo de todos os tempos, ao lado do ponta direita Mané Garrincha, o “Anjo das Pernas Tortas”, e do lateral esquerdo Nilton Santos, a “Enciclopédia do Futebol”. Com os dois, mais um tal de Pelé, Didi comandaria a conquista da nossa primeira Copa do Mundo.

 

Em verso, o botafoguense Vinicius de Moraes escreveu no Bi do Brasil em 1962: “A um passe de Didi, Garrincha avança”

 

Na final, o placar seria aberto logo aos 4 minutos de jogo pela Suécia, dona da casa. E o Brasil sentiu bastante. Mais pelo fantasma da derrota por 2 a 1 para o Uruguai, em pleno Maracanã, apenas oito anos antes, na final da Copa de 1950, do que pelo belo gol do meia esquerda sueco Liedholm, que marcou após driblar os zagueiros brasileiros Bellini e Orlando.

Coube a Didi pegar a bola no fundo das redes, ir caminhando com ela lentamente ao meio de campo. Enquanto acalmava seus companheiros, dizendo: “Acabou a palhaçada! Agora vamos meter bola nos ouvidos desses gringos!”. Já escrevi que foi ali, naquela caminhada elegante e determinada, que o futebol brasileiro ganhou sua maioridade. A final acabaria vencida por 5 a 2 pelo Brasil, com dois gols do menino Pelé. O primeiro teve direito a chapéu sobre o zagueiro dentro da área, arrematado antes da bola tocar o chão, para colocar o gol de Liedholm no chinelo.

 

 

Di Stéfano, Didi e Puskás com a camisa merengue do Real Madrid

Apelidado naquela Copa do Mundo, pela imprensa estrangeira, de “Mr. Football”, Didi ficaria mais conhecido pelo epiteto “Príncipe Etíope de Rancho”, dado por Nelson Rodrigues. E seria Bicampeão pela Seleção Brasileira em 1962, quando jogava de novo pelo Botafogo, após passagem frustrada no Real Madrid do húngaro Ferenk Puskás e do argentino Alfredo Di Stéfano, com quem o maior jogador de futebol da história de Campos teria se desentendido.

Em 2000, no show de final de ano promovido pela Folha da Manhã, um prêmio também passou a ser entregue a um campista que tivesse elevado o nome da cidade no Brasil e no mundo. E o primeiro agraciado foi talvez o maior deles: Didi. O duplo do nome do jornal com a jogada mais famosa do craque, um chute que a bola tomava efeito, descaindo súbita ao gol, para enganar o goleiro, batiza até hoje o prêmio: Folha Seca. Não por acaso, coube à cantora Elza Soares, viúva de Garrincha, não só o show da noite, como entregar aquele primeiro Folha Seca ao seu criador.

O cronista esportivo Armando Nogueira foi quem melhor resumiu a “folha seca” de Didi. Para tanto, teve que tabelar com o maior romance de Machado de Assis: “chute oblíquo e dissimulado, como os olhos de Capitu”.

Didi herdou de Zizinho a camisa 8 e a condição de cérebro da Seleção Brasileira

Havia conhecido Didi pessoalmente em 1993, sete anos antes da sua homenagem pela Folha, no Teatro Trianon. Foi numa noite chuvosa do Rio de Janeiro, onde o jornalista campista e amigo Péris Ribeiro lançava seu “Didi — O Gênio da Folha Seca”, na livraria Argumento, no Leblon. A obra continua sendo a melhor referência literária para se conhecer a vida e a obra do gênio do futebol.

Foi naquele evento do livro em que, além de Didi, conheci tambem a sua maior referência nos campos. De quem o campista herdaria a titularidade como meia direita e cérebro da Seleção Brasileira: Zizinho, o Mestre Ziza. Grande craque da Seleção Brasileira vice-campeã de 1950, foi o único meia da história do Flamengo que geraria dúvida na comparação direta com Zico. Maior ídolo também de Pelé, quando Zizinho morreu, em fevereiro de 2002, escrevi uma crônica sobre aquele encontro, depois republicada aqui.

Guiomar e Didi

Em 2000, em contato com Didi antes da noite de homenagem, ele havia me pedido para lhe arrumar um litro de cachaça da terra. Mas, antes de entregá-la, me deu as coordenadas: “Só não pode ser quando Guiomar estiver por perto”. Nos anos 1950, Guiomar era uma vedete e cantora de rádio, que se apresentava vestida de odalisca em programa do compositor rubro-negro Ary Barroso. Depois que ela se se casou com Didi, em escândalo da época, pois o jogador já era casado e tinha filhos, reza a lenda que Ary, despeitado, compôs o samba “Risque”.

Obediente às instruções que eram seguidas em campo por Pelé e Garrincha, esperei um momento em que Guiomar afrouxasse na “marcação”. E entreguei a garrafa de cachaça embalada, dentro de uma bolsa, a Didi. Que recebeu o passe dissimulado comos os olhos de Capitu, com uma alegria nos seus tão grande quanto demonstrou ao receber o prêmio, batizado com a sua jogada, dado pelo maior jornal da sua cidade. Impecavelmente vestido de terno e gravata, emanava em cada mínimo gesto e expressão a elegância principesca que Nelson Rodrigues lhe atribuiu nos campos.

Didi morreria menos de um ano depois, em 12 de maio de 2001, aos 72 anos. Hoje completam-se 19 anos da sua perda. Que o blog homenageia publicando abaixo textos de três outros jornalistas sobre o “Príncipe Etíope”. Dois são campistas: Péris Ribeiro, biógrafo do craque, e Chico de Aguiar. O terceiro, o carioca Carlos Heitor Cony, morto em 2018, publicou o seu na Folha de São Paulo em 2001.

Confira-os abaixo:

 

 

Didi com a camisa do Fluminense, que vestiu de 1949 a 1956

 

 

Péris Ribeiro, jornalista e flamenguista

Didi, o gênio iluminado

Por Péris Ribeiro

 

Ganhou ares de pesadelo — e pesadelo com a força do mais arrebatador tango portenho —, certa desdita vivida por Messi. O ano? 2016, em uma Copa América perdida para o Chile, nos pênaltis, em decisão ocorrida nos Estados Unidos. É incrível, mas ainda me lembro bem do seu choro, de sua imensa frustração. E da dura e sofrida realidade, da impossibilidade ante o impossível.

Porém, há de ter doído bem mais, a constatação real de que ainda não seria daquela vez. Nem a jogada genial, nem o gol decisivo. Muito menos, o sorriso refletido na taça. Na subida ao pódio, o sufoco de novo contido.

Quando, em que dia, afinal, ele poderá rasgar o peito e gritar: “Argentina! Argentina campeã!”?

Livro “Didi — O Gênio da Folha Seca”, de Péris Ribeiro, lançado a primeira vez em 1993

Como os deuses da bola sabem ser matreiros, e são tantas e tantas vezescruéis, há muita gente por aí ostentando façanhas de dar inveja. Uma gente, frise-se, capaz de exibir bem pouco mais que um mínimo que seja de talento.
Em compensação, existem certos gênios predestinados. Iluminados.Aqueles para quem a sorte nunca deixou de sorrir. Como Didi, o Príncipe Etíope. Alguém com um dom mágico, capaz de obter o que poucos, bem poucos, puderam na vida. Ainda mais, no sinuoso universo do futebol.

Basta dizer que, festejado em 1962, em Santiago do Chile, como bicampeão mundial, Didi já havia conseguido uma glória particular, toda sua, alguns anos atrás. É que, lá na Suécia, fora consagrado o MaiorJogador da Copa de 1958 – justamente a primeira de todas, na qual o Brasil saiu com as honras de grande campeão.

Aliás, refletindo com serenidade e rigor sobre o tema, não é pouca coisa ser considerado o Maior Jogador de uma Copa do Mundo. Em absoluto! Muito menos, em uma Copa que tem Pelé e Garrincha em campo. E ainda convém lembrar que também havia, nos gramados escandinavos, talentos luminares como os franceses Kopa e Fontaine, o tcheco Masopoust, o húngaro Bozsic e os alemães Rahn e Fritz Walter. Ou o sueco Skoglund, o argentino Labruna, o galês John Charles e o goleiro russo Lev Yashin, já celebrado como o “Aranha Negra”.

Pois ainda assim, e mesmo com todo o tipo de honraria por aí já recebida, nem no ato da heroica conquista em estádios do Chile, Mestre Didi faria por menos. É que, nos atapetados gramados andinos, o elegante e cerebral inventor da “Folha Seca” iria imprimir, pela última vez, a sua marca genial. Particularmente, porque só a ele, e a mais dez ilustres jogadores, seria concedida a honra de um Bi em Campeonatos Mundiais. No caso, oito brasileiros  com ele, Didi, nove — e dois italianos.

— Tenho consciência, que fiz por onde chegar a algum lugar. Sei bem disso. Mas sei também que Deus foi bom demais, dando-me além. Quantos fazem por merecer, e nada conseguem? — disse-me Didi certa vez, em um ameno final de tarde. O sol morno e agradável — era início de primavera — como testemunha privilegiada.
Será Messi, um desses definitivos — e imerecidos — desafortunados da bola?

 

 

Após a conquista da Copa do Mundo de 1958, o menino Pelé chora no ombro de Didi, consolado também pelo goleiro Gilmar

 

 

Chico de Aguiar, jornalista e vascaíno

Didi, o meu rei do futebol

Por Chico de Aguiar

 

Sem essa de Pelé, Garrincha, Maradona ou Messi. Muito se discute sobre qual é o maior jogador de todos os tempos. Mas não são só esses os grandes nomes do futebol. Tem também o Didi, por exemplo, que foi eleito o craque da primeira grande conquista do Brasil na Copa do Mundo de 1958, na Suécia. E bicampeão em 1962, no Chile. Quem o viu jogar pode confirmar que digo uma verdade irrefutável.

É indiscutível que Pelé merece a coroa. Foi três vezes campeão do mundo com a Seleção Brasileira — único jogador a conseguir essa conquista — e tem vários outros títulos internacionais, tanto com a nossa Seleção quanto com o seu clube, o Santos. Nenhum outro jogador de futebol foi tantas vezes campeão. Além de ter sido o maior artilheiro dentre todos.

Garrincha é outro craque que tem lá sua claque, sua torcida apaixonada. Tem dois títulos mundiais com a Seleção Canarinho e, jogando ao lado de Pelé, conseguiu a proeza de nunca ter saído derrotado de campo. Exibia um futebol moleque, de dribles e de encanto, que o levou a ficar conhecido como Alegria do Povo, título inclusive do filme de sua vida.

Para os argentinos, por exemplo, a preferência é pelos filhos da pátria, Diego Armando Maradona e Leonel Messi. O primeiro brilhou, o outro ainda brilha nos campos do mundo. Maradona, realmente, exibiu um futebol exuberante de dribles e jogadas mirabolantes. Foi estrela de primeira grandeza na Seleção Argentina e em todos os clubes pelos quais atuou. Mas, uma única vez foi campeão mundial com a Seleção do seu país.

Messi, por sua vez, nunca foi unanimidade com a camisa azul da Seleção Argentina. Embora seja o seu maior artilheiro, várias vezes fracassou, talvez por não ter tido ao seu lado companheiros do mesmo nível técnico do seu futebol. Ao contrário, no Barcelona, o seu clube, Messi sempre esteve muito à vontade, sendo o atleta mais valorizado. No clube catalão, Messi foi várias vezes campeão, espanhol ou em outras taças europeias.

Quanto ao Didi, foi craque do mesmo nível desses que já foram citados aí em cima. A diferença era a função que desempenhava em campo, na armação das jogadas para os atacantes. Porém não se eximia da função de executar o último arremate, com a famosa folha-seca, o chute mais perigoso e temido por todos os goleiros do mundo. Didi não se destacou como artilheiro, mas foi o cérebro da Seleção Brasileira e de todos os times dos quais vestiu a camisa.

Exaltado pelos grandes cronistas de esporte que viveram sua época, Didi foi particularmente homenageado por Nelson Rodrigues — o maior dramaturgo brasileiro —, que lhe deu o título de Príncipe Etíope de Rancho, por seu toque na bola sempre bonito e elegante, pelos dribles desmoralizantes e pelos passes preciosos, curtos ou de 40 metros.

 

 

Mesmo após deixar os campos, Didi e sua maior paixão

 

 

Carlos Heitor Cony, jornalista e tricolor

Didi

Por Carlos Heytor Cony

 

Que Pelé, Garrincha, Jair da Rosa Pinto, Nilton Santos, Zico, Rivelino, Gérson, Zizinho e Romário me perdoem. Mas o maior jogador que vi jogar foi Waldir Pereira, o Didi, que conheci com a camisa tricolor do Madureira e, mais tarde, com a camisa tricolor do meu time, o Fluminense.

Vestiu outras camisas, inclusive aquela desbotada da antiga seleção nacional, quando foi bicampeão mundial. Em 1958, na Suécia, Pelé foi o herói. Em 1962, no Chile, foi Garrincha. Mas nas duas ocasiões, o maestro, o eixo sobre o qual o time girava, era Didi.

Nunca houve jogador elegante como ele. A imagem que Nelson Rodrigues criou é definitiva: o príncipe de rancho, o príncipe etíope que desfilava arrastando um manto de arminho e púrpura.

Devo a Didi o meu afastamento da torcida em campo. Quando o Fluminense vendeu seu passe para o Botafogo, jurei nunca mais assistir a jogo do meu time. Com raríssimas exceções, cumpri o juramento.

A história oficial garante que ele inventou a folha-seca num jogo da seleção contra o Peru, em busca da classificação para a Copa do Mundo. Não foi bem assim. Foi numa partida do Fluminense contra um time suíço, cujo nome, traduzido, era “gafanhoto”. A camisa dos caras era verde, daí o nome.

Foi no Maracanã, nas balizas que foram dedicadas a Ghiggia, quando deviam ser dedicadas a Didi. Ali ele marcara o primeiro gol no estádio, num amistoso Rio e São Paulo. Ali ele fizera a primeira folha-seca, o chute que fazia da bola uma pluma ao vento, tal como a mulher, segundo o Duque de Mântua no “Rigoletto”: mudava de inflexão e de pensamento.

Entrevistei-o uma vez, em sua casa na Ilha do Governador. Ele não era elegante apenas em campo. Nunca entrevistei o Aleijadinho nem o Machado de Assis. Mas acho que já entrevistei um artista genial.

 

0

O homem, o coronavírus e a ciência com Leandro Rabello nesta 4ª no Folha no Ar

 

(Arte: Eiabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h desta quarta (13), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é Leandro Rabello Monteiro, professor de Biologia Evolutiva da Uenf, após lecionar Ciências Biológicas na Universidade de Hull, na Grã-Bretanha. Ele falará das interrelações entre o homem e os vírus através da evolução, sobre a pandemia da Covid-19 pela perspectiva da ciência, além da origem e do futuro do novo coronavírus.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

0

Médico infectologista Nélio Artiles fala de Covid-19 nesta terça no Folha no Ar

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta terça (12), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o médico infectologista Nélio Artiles. Ele falará da necessidade de lockdown no estado do Rio para conter a pandemia da Covid-19, alertada desde em estudo da Fiocruz (relembre aqui) desde quarta (06). Também analisará a ampliação do fechamento do comércio de Campos e impôs restrição à prática de exercícios físicos ao ar livre, estabelecida (confira aqui) no novo decreto de hoje, até 24 de maio. E falará sobre a taxa de ocupação dos leitos de UTI da rede pública, contratualizada e privada do município.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

0