Guilherme Carvalhal — Simulacro

Nove da noite. Sávio logou na realidade virtual, mais especificamente em um programa de vidas digitais. Ali ele deixava de ser Sávio e se tornava Soraia.

Soraia chamava a atenção por onde passava. Balançava seus cabelos ruivos e os homens daquele universo prestavam atenção nela. Já Sávio, com sua barriga e sua calvície, jamais conquistava o olhar de nenhuma mulher.

Ela tinha um charme inerente e conseguia sempre ser o centro das atenções. Chegava nas boates ou nos restaurantes e todos a conheciam e lhe dirigiam a palavra. Ela, sempre articulada, mantinha conversas extensas, enquanto Sávio sempre se atrapalhava em tartamudeios e mal ouvia um “bom dia” do balconista do boteco onde pendurava umas.

Soraia trabalhava como engenheira projetando redes de tubulações em grandes estruturas, como em plataformas de petróleo. Comandava uma equipe de técnicos, todos sempre prontos a acatar suas ordens e reportando-se a ela como senhora. Já Sávio entrava no escritório de administração condominial e recebia ordens do chefe, muitas vezes agressivas, e se perdia em filas de bancos e cartórios, reclamando solitariamente de sua rotina tediosa.

Portanto, ingressar no universo de Soraia sempre lhe garantia a satisfação de aspirações pessoais e profissionais. Ser cortejada, sair para dançar com grupo de amigos, apresentar aos conselho diretor o projeto desenvolvido. Cada parte da vida de Soraia lhe preenchia.

Um dia, tentou se conectar e recebeu a mensagem de erro do servidor. Ficou sem entender e pesquisou na internet o que aconteceu. Descobriu que a página do programa foi invadida por hackers e que todo o histórico dos usuários havia sido deletado. O prejuízo para a desenvolvedora foi imenso e pouco depois ela declarou falência.

Sávio chorou durante dias velando o corpo programado de Soraia, suas carnes de código binário e sua feição expressa pela interface das telas. Chegou a comprar rosas e depositá-las em frente ao computador, prestando suas homenagens póstumas.

Uns dias depois, passando por uma grave agonia, chegou à conclusão de que Soraia era importante demais para deixá-la partir. Assim, a reviveria de um jeito ou de outro. Percorreu pelas lojas e comprou vestido, saltos, maquiagem, peruca. Depilou as pernas, pintou as unhas, assistiu tutoriais para usar delineador e outros produtos. Arrumou-se, olhou-se no espelho e finalmente reviu Soraia, abrindo um imenso sorriso de contentamento.

Desceu pelas escadas logo atraindo a atenção dos vizinhos, que nunca o imaginariam nesses trajes. Saiu caminhando pela calçada, tentando imitar o passo e o rebolado sensuais de Soraia pelas ruas de Nova York. Pensava nos assobios recebidos por ela, mas encontrou apenas risos e ofensas, como um grupo de adolescentes gritando “olha a bichona”.

Começou a perceber as diferenças entre aquele seu refúgio secreto no mundo online e se envergonhou profundamente. Correu para tentar se esconder e acabou na beira de um rio. Olhou para seu reflexo nas penumbra, vendo o quão ridículo estava.

E, num passe de mágica, a imagem de Soraia real surgiu nas águas, convidando-o para chegar junto a ela, a migrar para um paraíso idílico, longe daquele mundo repleto de maldade e preconceito. Ele se deixou conduzir e caiu dentro da água, se afogando. Dessa forma, iria para o mesmo plano imaterial onde Soraia agora jazia.

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Violência explode em Campos; prós e contras de Garotinho a governador

 

 

Charge do José Renato publicada hoje (07) na Folha

 

Nem deficiente físico

Para quem ainda não entende a popularidade de Jair Bolsonaro (PSL), Campos é um bom exemplo para explicar como ele hoje pode liderar com folga a corrida presidencial. À margem esquerda do rio Paraíba do Sul, até deficiente físico virou vítima de tentativa de homicídio. Na manhã de ontem, um homem de 24 anos, mesmo sem a perna direita, foi baleado na cabeça e na coluna. O crime foi no Parque Eldorado, que integra a zona de guerra pela disputa do tráfico de drogas em Guarus — chamada pela Polícia de “Faixa de Gaza”. Detido e identificado por foto pela vítima, o suspeito é um adolescente de 15 anos.

 

Pelinca ignora Guarus?

O novo alvo da violência de Campos está internado no Hospital Ferreira Machado. Mas teve mais sorte do que os 110 assassinados no município só em 2010 — 71 deles, ou 61,5%, em Guarus. E como a coluna observou em 25 de maio, 13 dias e cinco homicídios atrás: “a sociedade parece esperar que alguém tenha menos sorte na Pelinca, para se revoltar contra o que banaliza enquanto Guarus é o foco”. Não é o caso do vereador de oposição Thiago Ferrugem (PR). Amanhã, ele organiza uma audiência pública na Câmara de Campos, em parceria com a Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa do Estado do Rio.

 

Quem Garotinho é

Da violência desenfreada à política, Ferrugem falou à coluna sobre a possibilidade do ex-governador Anthony Garotinho (PRP) trocar a arriscada pretensão de voltar a ser governador pela segurança de uma candidatura a deputado estadual. Sobre o destino eleitoral do líder de seu grupo político, o vereador disse à coluna: “Garotinho só fala no Governo do Estado. Em momento nenhum ele externa outra coisa. Além do desejo de voltar ao cargo, ele busca a exposição da candidatura para poder mostrar à população, após os processos que enfrentou, quem ele realmente é”.

 

Os processos

Nos dois processos que geraram suas três prisões, o ex-governador teve ontem uma vitória parcial na Caixa d’Água. Seus atos processuais foram suspensos 14 dias pela desembargadora Cristiane Frota, do Tribunal Regional Eleitoral (TRE). O tempo foi dado por conta da cirurgia de catarata do advogado do casal Garotinho, Carlos Azeredo. Já na Chequinho, o político da Lapa acabou beneficiado pela decisão monocrática de Ricardo Lewandowski, no Supremo Tribunal Federal (STF). Conhecido pelo garantismo para com políticos corruptos, em 16 de maio o ministro simplesmente suspendeu o julgamento de Garotinho no TRE.

 

Testar a sorte

Quem não teve a mesma sorte foram os beneficiados na suposta troca de Cheque-Cidadão por voto, na eleição municipal de 2016. Dois deles, Ferrugem e o também vereador Geraldinho Santa Cruz (PSDB), ontem perderam no TRE seus recursos na Chequinho. Quem conhece Garotinho como poucos é o ex-vereador Nelson Nahim (MDB). Ontem, ele também falou com a coluna e disse ter pouca dúvida de que o irmão tentará voltar a governar o Estado em outubro. “Se Eduardo Paes (DEM) não for candidato, diria que as chances são de 100%. Mas, mesmo com Paes, acho que Garotinho vai concorrer a governador”.

 

Contras

Nahim não discorda do que a coluna explicou ontem: “A única pesquisa até agora na disputa ao governo fluminense foi do instituto Paraná (…) nela o senador Romário (Podemos) liderou com 26,9%; seguido de Paes (14,1%); Garotinho (11,6%) e Indio da Costa (PSD, 8,8%). O político de Campos, porém, lidera na rejeição: 71,9%. Em 2014, ele não foi nem ao segundo turno da última eleição a governador, quando sua rejeição era ‘só’ de 48%. Portanto, parece impossível que consiga sê-lo agora, com uma rejeição 24 pontos maior, sem controlar a Prefeitura de Campos e após trocar um partido médio, o PR, pelo nanico PRP”.

 

Prós

O irmão, no entanto, aposta em pontos que podem favorecer Garotinho: 1) o discurso de que denunciou o ex-governador Sérgio Cabral e o deputado estadual Jorge Picciani, implodindo o MDB no Estado; 2) não terá a condição financeira de 2014, mas pode ser ainda capaz de levantar o mínimo para a campanha; 3) Romário não concorrerá a governador, repetindo a simulação para valorizar o passe que fez outras vezes; 4) apesar do apoio do prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), Indio terá dificuldades para sair da Zona Sul carioca; e 5) mesmo com Paes concorrendo, um eventual segundo turno entre ele e Garotinho seria imprevisível.

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

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Vitor Menezes — A vaga que ocupo está à sua disposição, professor Orávio

 

Ontem, em sua colaboração quinzenal com o blog, o jornalista e professor Orávio de Campos escreveu (aqui) um artigo de forte toada crítica aos rumos dados à atuação do Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico de Campos dos Goytacazes (Coppam) no governo municipal Rafael Diniz. Entre vários questionamentos, ele também personalizou uma crítica ao presidente da Associação de Imprensa Campista (AIC), Vitor Menezes.

Nas palavras de Orávio: “Causou-nos perplexidade, por exemplo, uma postagem recente do conselheiro Vitor Menezes, representante da Associação de Imprensa Campista, tecendo loas pela segunda reunião com quórum do conselho”.

Questionado nominalmente, o blog entrou em contato com Vitor, franqueando-lhe espaço para também se manifestar. O que ele fez prontamente, inclusive propondo que Orávio, como vice-presidente da AIC, assumisse a vaga que a instituição ocupa no Coppam. Confira abaixo:

 

Vitor Menezes e Orávio de Campos (Montagem: Andréa Campos)

 

A vaga que ocupo está à sua disposição, professor Orávio

Por Vitor Menezes(*)

 

O professor Orávio de Campos Soares, a quem tenho admiração profunda e a quem, não tenho dúvida, a cidade deve muito, comete um exagero retórico ao afirmar, em artigo neste blog Opiniões, que eu teria tecido loas à obtenção de quorum, por duas vezes, em reuniões do Coppam (Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico de Campos dos Goytacazes) neste ano. Como bom jornalista e pesquisador, e certamente apto a uma análise acurada do discurso, ele saberia depreender do meu registro em rede social justamente o contrário: uma crítica à ausência de quorum em todas às demais reuniões e, pior, ao abandono do Coppam durante todo o ano de 2017.

Essa mesma crítica, entre outras, é a que faço nas reuniões, com ou sem quorum, como podem testemunhar os demais conselheiros, onde tenho registrado a ausência de uma política municipal para a preservação do patrimônio, a suspeita ação de um consultor não nomeado e — como bem disse o professor Orávio — que nem mesmo foi apresentado em uma reunião do conselho.

A cidade está à deriva na questão do patrimônio histórico e cultural. Não há fiscalização, não há estrutura, e muitas decisões — sobretudo relacionadas a compensações por crimes contra o patrimônio que acabam por tornarem-se altamente vantajosas para os criminosos — estão sendo tomadas pelo Ministério Público, em razão da ausência do poder público municipal por meio do Coppam.

Nas reuniões, tenho insistido na necessidade da realização da Conferência Municipal do Patrimônio, para que as representações da sociedade se revigorem, e cobrado a atuação dos representantes do poder público, inclusive da Câmara de Vereadores (que não compareceu a nenhuma reunião).

De todo modo, registre-se que ocupo esta vaga no Conselho como representante da Associação de Imprensa Campista, entidade da qual também é diretor (vice-presidente) o próprio professor Orávio. “Minha” vaga, portanto, também é sua, e seria de grande valia para a cidade se esse meu estimado colega de diretoria na AIC se dispusesse a ocupá-la — substituição que, inclusive, o sugeri pessoalmente.

 

(*) Presidente da Associação de Imprensa Campista

 

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Silêncio de Clarissa sinaliza que Garotinho será candidato à Alerj

 

 

 

Folha, O Globo, Veja e O Dia

Segundo matéria publicada (aqui) na segunda (04) em O Globo, o racha entre o prefeito do Rio Marcelo Crivella (PRB) e o ex-governador Anthony Garotinho (PRP) foi iniciada após uma entrevista do deputado federal Indio da Costa (PSD) à Folha da Manhã, publicada (aqui) em 6 de agosto de 2017. A partir dela, afirmou o maior jornal fluminense: “Indio passou a se cacifar como candidato a governador de Crivella”. Assim, Garotinho teria sido preterido pelo prefeito do Rio. Na época, a polêmica iniciada na Folha já tinha sido repercutida pela Veja (aqui) e O Dia (aqui). Após O Globo retomar o assunto na última segunda, ele foi tratado ontem (aqui) nesta coluna.

 

Garotinho a deputado estadual

Indio foi secretário do governo Crivella. Assim como a deputada federal Clarissa Garotinho (Pros). Há 10 meses, ela respondeu duramente (aqui) as críticas ao seu pai feitas pelo então colega na entrevista à Folha. Mas preferiu não fazê-lo agora. Após O Globo dar como descartada o apoio de Crivella à pré-candidatura de Garotinho a governador, a filha deste se limitou a dizer à coluna na segunda: “não vou comentar”. O motivo parece simples: Clarissa não quer queimar pontes com Crivella, caso a disputa de Garotinho em outubro não seja o Palácio Guanabara, mas um mandato na Assembleia Legislativa do Estado.

 

Impossibilidade a governador

A única pesquisa até agora na disputa ao governo fluminense foi do instituto Paraná. Feita entre 4 e 9 de maio, nela o senador Romário (Podemos) liderou com 26,9% das intenções de voto; seguido do ex-prefeito do Rio Eduardo Paes (DEM), com 14,1%; de Garotinho (11,6%) e Indio (8,8%). O político de Campos, porém, lidera na rejeição: 71,9%. Em 2014, ele não foi nem ao segundo turno da última eleição a governador, quando sua rejeição era “só” de 48%. Portanto, parece impossível que consiga sê-lo agora, com uma rejeição 24 pontos maior, sem controlar a Prefeitura de Campos e após trocar um partido médio, o PR, pelo nanico PRP.

 

Sobrevida

Conhecido pela capacidade de interpretar pesquisas e conjunturas, se Garotinho aceitar o que elas projetam para daqui a pouco mais de quatro meses, a candidatura a deputado estadual pode ser sua chance de sobrevida. Ele ainda tem densidade para se eleger à Alerj e formar nela uma grande bancada. Assim se fortaleceria, sobretudo no vácuo de Jorge Picciani (MDB). Daí a necessidade de não queimar pontes, pelo menos por ora, com o prefeito do Rio. Mesmo desgastado com o carioca, Crivella será player na eleição estadual. Até serem presos, Picciani e Paulo Mello (MDB) eram a prova de que a Alerj pode dar mais poder que o Palácio Guanabara.

 

 

Bolsonaro e Ciro

Ontem saiu um novo retrato da corrida presidencial. O portal Poder360 é pouco conhecido como instituto de pesquisa. Mas o resultado recebeu endosso após ser publicado (aqui) pelo jornal espanhol El País. A consulta foi feita com 10.500 pessoas de 349 cidades do país, entre os dias 25 e 31 de maio, em plena greve dos caminhoneiros. A liderança de Jair Bolsonaro (PSL) foi confirmada, com 21% a 25% das intenções de voto. Foi seu maior índice até agora. Mas a novidade ficou mesmo com o Ciro Gomes (PDT) na segunda colocação. Entre 11% a 12%, foi a primeira vez em que ele ficou à frente de Marina Silva (Rede), que anotou de 6% a 7%.

 

Voto de Lula migra

Na margem de erro de 1,8 ponto percentual para mais ou menos, Marina ficou embolada com Fernando Haddad (PT), de 6% a 8%; Geraldo Ackmin (PSDB), de 6% a 7%; João Doria (também PSDB), 6%; e Álvaro Dias (Podemos), de 5% a 6%. Em relação às pesquisas anteriores CNT, Paraná e Datafolha, os crescimentos de Ciro e de Haddad sinalizam que os eleitores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estão se conformado com sua não participação no pleito e já migram para outras opções de esquerda. O próprio Bolsonaro pode ter recebido parte deles, sobretudo no voto não ideológico do Nordeste.

 

Planalto na planície

Lula não entrou na pesquisa Poder360. Após 56 dias preso, ele ontem pareceu estar bem na sua primeira apresentação pública, em depoimento por vídeo como testemunha de defesa do ex-governador do Rio Sérgio Cabral (MDB). A queda de Marina, em relação às consultas anteriores, pode ser fruto da necessidade do eleitor em ter um opositor a Bolsonaro com a mesma assertividade — como é Ciro. A liderança de ambos foi antecipada (aqui) no domingo, nas redes sociais de Campos, pelo especialista em finanças Igor Franco e o advogado Gustavo Alejandro Oviedo. Os dois são colaboradores do blog Opiniões, hospedado no Folha1.

 

Navio MV Golf

 

Recorde no Açu

Foi batido um novo recorde pelo Terminal Multicargas do Porto do Açu (T-Mult), durante a operação de descarga de carvão do navio MV Golf, para a Anglo American. A prancha atingida foi de 22 toneladas/dia, aumento de 7% sobre a operação anterior, feita com o navio MV Geraldine Manx. Prancha é o volume movimentado por dia, em média, de uma operação de carga e descarga de um navio. Quanto maior a prancha, maior o volume carregado e descarregado, gerando maior eficiência e menor tempo atracado do navio, otimizando os custos da operação.

 

Com o blogueiro Christiano Abreu Barbosa

 

Publicado hoje (06) na Folha da Manhã

 

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Orávio de Campos — A quem interessa a morte do Coppam?

 

Demolição do Casarão do Chacrinha ainda gera polêmica

 

 

Esta urbe é, geograficamente, resultado das dimensões politicas das capitanias hereditárias (1532-1534) — assunto desconhecido por desavisados, retendo uma saga que se revela no eito da própria história do Brasil. Mas, pasmem, só no governo Anthony Garotinho, em 1989, criou-se uma lei que, timidamente, tratava da preservação de sua cultura, fato que evoluiu, no governo do ex-prefeito Alexandre Mocaiber, com a criação do Coppam, sigla do Comitê de Preservação do Patrimônio Municipal.

A arrogância do governo Diniz, todavia, mostrando não entender patavinas do assunto, sem uma razão plausível e usando espaços para críticas à gestão passada, vem promovendo reuniões, sem o devido quórum, há quase dois anos. Tempo em que não assumiu qualquer tipo de ação propositiva em função do “tombamento” de valiosas peças constantes da Lei 7.972/2008 e, também, das disposições legais reforçadas pela nova Lei Orgânica do Município, instituída na excelente administração do Dr. Edson Batista.

Causou-nos perplexidade, por exemplo, uma postagem recente do conselheiro Vitor Menezes, representante da Associação de Imprensa Campista, tecendo loas pela segunda reunião com quórum do conselho. Mas, mesmo assim, não se tem notícia de decisões publicadas, como seria legal, no Diário Oficial, desconfiando-se de que se trata de uma estratégia para se caminhar por muitos rumos sem a intenção tácita de chegar a lugar nenhum. Como diz o ditado: “chovendo no molhado”.

Está tudo ilegal no Coppam, reestruturado pela ex-prefeita Rosinha Garotinho, dando-lhe um formato consultivo, deliberativo e executivo (Lei 8.487, Capítulo II, Artigo 5°). A atual representação da sociedade civil no conselho saiu da II Conferência de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural, realizada no dia 14/12/2013, convocada pelo Decreto 403/13, com a nomeação de seus membros ocorrendo no dia 13/01/2014, através da Portaria 019, para que cumprissem um mandato de quatro anos.

Dessa forma, a III Conferência, para a renovação do Conselho deveria ter sido realizada até o mês de dezembro do ano passado, deixando clara a idéia de que os atuais mandatos estão vencidos, porque o insigne alcaide, neto de Dona Zaira Barbosa, não se dignou em nomeá-los, porquanto sua assessoria não lhe convocou para tal mister. Os atuais membros, mesmo os representantes do governo, estão atuando na ilegalidade sendo completamente nula qualquer decisão, caso venham a tomá-la.

Agora, o mais grave. Os processos encaminhados ao Coppam, em todas as reuniões (com ou sem quórum) nunca estão acessíveis, confirmando a notícia de que os pareceres estão sendo feitos, monocraticamente, por um arquiteto (que nunca foi às reuniões) sem qualquer tipo de nomeação para tal, a não ser que esteja contratado por RPA. Pior, ainda: suas decisões (do arquiteto) estão sendo feitas à revelia das leis e, evidentemente, tripudiando sobre a inútil preocupação dos conselheiros.

Só para citar ligeiras atitudes espúrias desse governo, ressalta-se algumas ações compensatórias que, por serem de interesse social, deveriam ser debatidas e assumidas pelo conselho. Uma casa, (oriunda do antigo lenocínio no centro histórico), listada pelo Plano Diretor, foi demolida à Rua Boa Morte tornando-se objeto de ação no Ministério Público e com multa a ser recolhida em favor do Fundo Municipal de Cultura. Pois bem. O espaço foi liberado e hoje funciona um estacionamento de automóveis.

Na realidade, este ato, não se sabendo por qual tipo compensatório foi liberado, inclusive com perdão da multa, contraria os princípios morais dos representantes da sociedade, que, em tese, já tinham decidido por denunciar ao Ministério Público. Uma casa da Antonio Félix de Miranda, 48, antiga Rua dos Frades, estava sendo demolida, semana passada, provavelmente para um “retrofit”, com aproveitamento da fachada. Mas, quem autorizou e por qual processo, se isso seria função do Conselho?

Parece que estamos diante de uma urbe cada vez mais calada, entorpecida, e que se limita, através de poucos interessados em preservação de patrimônio, a tecer lamentações nas redes sociais. Há muito mais a se comentar sobre o assunto. Até porque desconfiamos que este governo não gosta de democratizar idéias. Porque, se gostasse, já teria providenciado há muito tempo a reestruturação dos seus conselhos: o Coppam e o Concultura, ambos carecendo de novas conferências.

Se a política da desfaçatez continuar a mesma, diante do silêncio das instituições, podemos perder o maior museu de arquitetura eclética do interior do Estado do Rio de Janeiro, resultante do projeto urbanístico do sanitarista Saturnino de Brito. Seu cenário atual, já um tanto desgastado pelo tempo, foi construído graças à ação bairrista do presidente do Estado, o preclaro Dr. Nilo Peçanha, o “Mulato de Morro de Coco”, cujos melhoramentos foram por ele inaugurados em 1916, com pompa e circunstância.

Fica no ar a pergunta do nosso título: A quem interessa a morte do Coppam?

 

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Folha referencia O Globo no racha de Crivella com Garotinhos

 

 

Charge do José Renato publicada hoje (05) na Folha

 

 

Folha referencia O Globo

Em sua edição de ontem (04), O Globo considerou (aqui) praticamente descartada a aliança entre o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), e o ex-governador Anthony Garotinho (PRP) para as eleições de outubro. O jornal carioca lembrou uma entrevista publicada na Folha da Manhã (aqui) no último dia 6 de agosto, na qual o deputado federal e então secretário de Crivella Índio da Costa (PSD) afirmou: “a política de Garotinho é manter o pobre na pobreza”. A partir dela, segundo O Globo: “Índio passou a se cacifar como candidato a governador de Crivella”.

 

Índio seguro de Crivella

A coluna falou ontem com Índio da Costa. Ele disse não ter lido a matéria d’O Globo. Mas parecia bem seguro do apoio de Crivella à sua pré-candidatura a governador: “Estou tranquilo quanto a isso, 100% seguro”. Quem também foi secretária da atual gestão carioca foi outra deputada federal: Clarissa Garotinho (Pros). No mesmo 6 de agosto em que a Folha publicou a entrevista com Índio, ela usou as redes sociais para (aqui) defender o pai e responder ao então colega no governo carioca: “Índio, se você pensa tudo isso do Garotinho por que foi buscar o apoio dele na sua derrotada eleição para prefeito do Rio? (em 2016)”.

 

Clarissa muda o tom

Ontem, porém, Clarissa foi mais cautelosa. Além de lembrar da entrevista da Folha de agosto de 2017, a reportagem d’O Globo também revelou que “a aliança entre Crivella e Garotinho começou a implodir de vez em uma reunião no Palácio da Cidade (sede do governo carioca), em 6 de abril (de 2018)”. Dela, participaram Clarissa e Garotinho, além de Crivella e quem herdou sua vaga no Senado Federal, o presidente estadual do PRB Eduardo Lopes. Procurada pela coluna para poder dar sua versão dos fatos mais recentes, Clarissa se limitou a dizer: “não vou comentar”.

 

Outra fonte

Sem posição de Clarissa, a coluna buscou outra alta patente do grupo dos Garotinho. E com ela confirmou a reunião na Prefeitura do Rio em 6 de abril, como sua extensa duração: cerca de quatro horas. Essa fonte também certificou o que parece ter azedado a conversa entre Crivella e a dinastia campista: os cargos que esta ocupava no governo carioca, mesmo após a saída de Clarissa. A informação confirma o que O Globo revelou em sua matéria: “Crivella e Lopes se recusaram a se comprometer com a candidatura de Garotinho, até que o prefeito citou os cargos que a família tinha em sua administração. ‘Isso é uma ameaça?’, perguntou Clarissa”.

 

Fome de cargos

Pelo menos no discurso, essa fome de cargos parece ser um trunfo de Índio sobre Garotinho pelo apoio do prefeito do Rio: “Minha conversa com Crivella e o PRB é política, não ocupação de cargos. Temos um objetivo comum: acabar com o modelo de governo instalado pelo PMDB no Estado. Isso que começou com Garotinho e Rosinha no partido, quando os dois foram governadores. Foi ali que (Jorge) Picciani começou a dominar a Alerj. Para Garotinho, dívida de governo não se paga, se rola. Fez isso no Estado e fez isso em Campos. E o resultado é o que vemos: a conta chega! Ele nem saber fazer política de outra maneira”, disse Índio.

 

Fontes cruzadas

Se mesmo sem querer a fonte do grupo dos Garotinho confirmou os cargos ocupados por seu grupo na mesa de negociação com Crivella, o cruzamento das informações acabou também revelando por onde Índio constrói sua aliança com o prefeito do Rio para tentar chegar ao governo do Estado. “Eduardo Lopes tem saído com Índio a tiracolo, nas caravanas com os pastores (o PRB é fortemente ligado à Igreja Universal, de Edir Macedo, tio de Crivella)”, apontou a fonte. Também sem querer, Índio acabou confirmando seus caminhos: “a aliança com o PRB é pela pré-candidatura de Eduardo Lopes a senador e a minha, a governador”.

 

Wladimir

A coluna também ouviu o pré-candidato a deputado federal Wladimir Garotinho (PRP). Se não queria comentar, ele não resistiu à analogia com a fracassada chapa de 2012 à Prefeitura do Rio, que trazia Rodrigo Maia (DEM) e Clarissa: “nós espantamos o eleitor dos Maia e o nosso correu deles. Vai ser o mesmo se Crivella apoiar Índio”. Para Wladimir, o critério deveria ser as pesquisas antes das convenções. Na única feita até agora, de 4 a 9 de maio, pelo instituto Paraná, Garotinho teve 11,6% das intenções de voto, contra 8,8% de Índio. Só que o político da Lapa tem 71,9% de rejeição. Em 2014, ele tinha 48% e não foi nem ao segundo turno.

 

Publicado hoje (05) na Folha da Manhã

 

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O Globo: racha de Crivella e Garotinho após entrevista de Índio à Folha

 

Crivella, Índio, Garotinho e Clarissa (Montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

No último dia 6 de agosto, a Folha da Manhã publicou (aqui) uma entrevista de duas páginas com Índio da Costa (PSD), deputado federal e então secretário municipal do governo Marcelo Crivella (PRB) na cidade do Rio. A manchete foi uma declaração contundente do entrevistado:

— A política de Garotinho é manter o pobre na pobreza.

No mesmo dia (06), também deputada federal e então secretária de Crivella, Clarissa Garotinho (Pros) usou as redes sociais para (aqui) atacar Índio e defender o pai. Ela fustigou o colega no governo da cidade do Rio:

—  Índio, se você pensa tudo isso do Garotinho por que foi buscar o apoio dele na sua derrotada eleição para prefeito do Rio?

No dia seguinte (07/08), quem também repercutiu a Folha da Manhã foi (aqui) a revista Veja. Em nota assinada pelo jornalista Gabriel Mascarenhas, a coluna Radar Online tratou da entrevista de Índio e da reação de Clarissa. A abertura foi bastante irônica:

— Marcelo Crivella parece não ter conseguido levar a paz de Cristo para dentro da Prefeitura.

Passou-se mais um dia e, em 8 de agosto, quem também repercutiu a polêmica iniciada na Folha foi (aqui) o jornal carioca O Dia. Em sua coluna Informe, trouxe a resposta de Crivella às farpas trocadas entre seus então secretários:

— Lamento que antecipem o processo eleitoral — disse o prefeito do Rio, se referindo ao fato de que Índio e Garotinho já tinham anunciado suas pré-candidaturas a governador do Estado, em outubro deste ano.

Passados quase 10 meses, quem hoje trouxe o assunto de volta à tona foi outro grande jornal carioca, O Globo. Em matéria assinada pelo jornalista Thiago Prado e intitulada “Racha entre os clãs Crivella e Garotinho”, a entrevista de Índio à Folha foi novamente citada. A partir dela, diz o jornal carioca, “Índio passou a se cacifar como candidato a governador de Crivella”.

A reportagem de O Globo segue relatando um encontro, em 6 de abril, entre Crivella, Garotinho, Clarissa e o senador Eduardo Lopes. O último é presidente estadual do PRB, ex-partido de Clarissa, e ganhou a vaga ao Senado aberta pela eleição de Crivella a prefeito. De acordo com o jornal:

— A reunião terminou e os presentes jamais estiveram juntos novamente.

Confira abaixo a reprodução da matéria d’O Globo:

 

 

Leia a cobertura completa na edição da Folha desta terça (05)

 

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Igor Franco — Sigam bem, caminhoneiros!

 

(Foto de Vitor Jubini)

 

Começa o mês de junho e, aparentemente, o país volta à normalidade (?) após duas semanas de passar por uma grave crise de abastecimento. Do que ficou conhecido como “Greve dos Caminhoneiros” pela imprensa sobrou, entre outras consequências, uma pequena conta pendurada de R$ 9,5 bilhões.

Numa coletiva impagável, o ministro Eliseu Padilha disse que o governo “pagaria (parte do subsídio) do próprio bolso”. Como bem sabe qualquer pessoa que não tenha nascido anteontem, uma vez que o Estado não gera riqueza, há a certeza que a fatura tem endereço certo para chegar: nosso bolso. A única dúvida é se o moço do guichê vai passar no débito (aumento de impostos) ou no crédito (emissão de dívida).

Como sempre ocorreu na história do Brasil, uma corporação (do transporte rodoviário) se organizou e espremeu o governo contra a parede em busca da obtenção de privilégios legais em detrimento do restante da sociedade. Não há nada de inovador na tentativa de socializar prejuízos e apropriar-se de parte da renda da população através de reservas de mercado, preços tabelados ou tendo parte de seus custos bancados pela Viúva. Na verdade, a busca por fatias do orçamento público é uma expressão da nossa brasilidade e tem raízes coloniais.

A inovação ficou por conta do inédito apoio popular à mobilização que, até certo momento, crescia na velocidade com que faltavam produtos nas prateleiras e combustíveis nos reservatórios. Mensagens compartilhadas nas redes sociais incentivavam os caminhoneiros a “continuarem firmes de lá, que continuaríamos firmes daqui”. Falta de combustível? Estamos firmes. Cirurgias remarcadas? Firmes. Verduras e legumes em falta? Não arredamos o pé. Mais impostos e dívida para bancar a conta dos caminhoneiros? Pois não! Definitivamente, o comprimento do rolo de papel de trouxa do brasileiro parece infinito.

A incapacidade dos brasileiros de entender quem ficaria responsável por pagar a conta só encontrou paralelo na palermice do governo que, após ter anunciado o fechamento de um acordo com lideranças do movimento, precisou voltar à mesa para conceder ainda mais benefícios pois, aparentemente, havia negociado com líderes fake da primeira vez.

Além de conceder subsídios para os combustíveis, o governo irá tabelar preços de fretes, reonerar folhas de pagamento de diversos setores, isentar do pedágio eixos suspensos de caminhões e reservar parte das cargas para motoristas autônomos. Como também sabe qualquer um, já que não existe almoço grátis, essa parte da conta virá na forma de produtos e pedágios mais caros e aumento (ainda que marginal) no já alto desemprego. Numa só tacada, Temer resolveu repetir todos os erros de política econômica da antecessora.

A desgraça é que o período de testes no Venezuela Simulator nos custará muito mais que os bilhões de gastos públicos. Os prejuízos privados de ainda não podem ser calculados. Enquanto produtores deixavam vazar milhões de litros de leite pela falta de transporte, vazavam do Brasil bilhões de reais de investidores assustados com o que se passava e, principalmente, com a ingerência do governo na Petrobras.

Eleito inimigo número um dos brasileiros por políticos da envergadura de Eunício Oliveira, Ciro Gomes, Jair Bolsonaro, Rodrigo Maia e outros, o executivo Pedro Parente pediu demissão do cargo de presidente da companhia na última sexta-feira. Após ter atingido o maior valor de mercado em sete anos, a Petrobras afundou nas duas últimas semanas. Como desgraça pouca para pagador de impostos é bobagem, além do custo mais elevado dos combustíveis nas bombas, quem tornou-se acionista da estatal no último dia 16 até hoje, a perda patrimonial acumulada supera 40%. Perde o acionista direto, perdemos você e eu, leitor, acionistas indiretos obrigatórios.

Muito se podia argumentar a respeito da política de preços da companhia — uma bandeira da gestão Parente que se dedicou a recuperar uma empresa colossal que respirava por aparelhos após mais de uma década de espoliação e uso político para mascarar índices inflacionários. Entre a crítica qualificada e o anticapitalismo tacanho, mais uma vez, ficamos com o segundo. Entre a discussão institucional do papel da estatal e o oportunismo político, ficamos com esse.

Num país continental tão carente de infraestrutura ferroviária, o único trem que não perdemos é o do atraso.

 

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Guiomar Valdez — Desconhecido mundo novo: quem são os caminhoneiros brasileiros?

 

 

 

Pois é, muitas coisas ficaram da ‘greve dos caminhoneiros’. Destaco a que mais me afligiu: o desconhecimento tácito da maioria de nós sobre o perfil desses trabalhadores (autônomos ou contratados). Um desafio imenso para a área da sociologia do trabalho em decifrar este enigma para além do senso-comum, que é importante, mas, não suficiente. É claro que muitos e muitos estudos já existem, explicando as mudanças contemporâneas no mundo da produção e do trabalho. É claro que a partir da consistência desses estudos já se desenvolveram formas explicativas dessa nova realidade, onde não caberia mais as ideias da sociedade do trabalho, da História, das classes, dos direitos coletivos, etc. É o que eu costumo resumir em 3 ‘Ds’ as políticas hegemônicas: a DESREGULAMENTAÇÃO (da economia), a DESESTATIZAÇÃO (da economia) e a DESUNIVERSALIZAÇÃO (dos direitos sociais)! Características de algo, para mim muito difuso, denominado de ‘Sociedade do Conhecimento’.

Mas, a lacuna explicativa, neste mundo da produção e do trabalho reestruturado, está em compreender mais profundamente, a situação, a condição, o perfil dos trabalhadores numa sociedade ‘periférica’ neste sistema mundo em que vivemos, onde, ‘tudo que é sólido se desmancha no ar’! O drama, por exemplo, do desemprego estrutural, eu sei que é geral no mundo. Mas aqui, periféricos e provincianos que somos, características das nossas elites políticas e econômicas, a dramaticidade desse fenômeno é muito maior e mais perversa. Por aqui, o ‘atraso’ se combina com o ‘moderno’ em todas as áreas e dimensões, não são opostos! Não há aqui uma incompatibilidade interna nos modelos de crescimento e desenvolvimento já experimentados, entre campo/cidade, centro/periferia, caos/segurança, legal/ilegal, justo/injusto, e, por aí vai! Esta é uma característica fundante da nossa modernidade, urbanidade e industrialização. Lembro do sociólogo Chico de Oliveira, ao fazer contraponto à ideia de atraso no Brasil a partir da visão de uma ‘razão dualista’, que separava estes ‘binômios’. Ao contrário, defendia ele, há é uma relação dialética, uma combinação/articulação, no nosso jeito de ser ‘crescido e desenvolvido’ até aqui. Daí a famosa metáfora ele que faz sobre nós nessa história: somos um ornitorrinco.

Ora, a partir desse contexto caracterizado, algo de específico também, possibilita pensarmos que se passa com o histórico e com a condição da classe trabalhadora brasileira. Isso é que me aproxima para conhecer quem é este trabalhador-caminhoneiro em meu país. Sobre a importância, a dependência e o domínio da logística do transporte rodoviário de cargas na cadeia produtiva do Brasil, não há dúvidas. Em tempos de gestão de ‘não-estoques’ (just-in-time), qualquer ‘parada desse trabalho’ agrava a dependência, e, portanto, os riscos de desabastecimento muito mais rápido. Sobre isso também nenhuma dúvida. O que trago para pensar, é o comportamento dito ‘político-sindical’ dos caminhoneiros (autônomos e contratados). Ele traz novidades, autonomia em relação à hierarquia organizativa ‘tradicional’; pensamentos e ações difusos; e, em especial, uma crítica intensa ao status-quo, onde nada e ninguém está a salvo. Importante ressaltar o distanciamento dessa categoria (e existem muitas mais!) do sindicalismo ‘clássico’. Ou, como ela foi desconsiderada ao longo do tempo da ‘modernização-conservadora’ pelos atores e instituições político-sindicais, num outro provável outro ‘binômio combinado’ em nosso país.

É disso que trata o sociólogo Ruy Braga[1], há pelo menos uma década, em sua investigação para compreender a classe trabalhadora brasileira diante do contexto já explicitado e dos desafios e comportamentos diante da severa crise política e econômica que vivenciamos, em especial, a partir de 2008. É uma ‘luz’ que diminuiu minha aflição diante da greve dos caminhoneiros. Não me conformo, nem nunca me conformarei, com rótulos, ‘palavras de ordem’, discursos e comportamentos que beiram a irracionalidade como forma explicativa da realidade, fatos e de fenômenos sociais. Não dava para ser simplista no desafio de entender o enigma dos caminhoneiros…

Este autor, inicia ressignificando o conceito de PRECARIADO (de tradição francesa) a partir de ‘nós’, onde se vê a possibilidade de contemplar, dentre outras, a categoria dos caminhoneiros neste estudo[2].

Eis alguns destaques:

  1. É parte da classe trabalhadora não é um ‘amálgama’, mas se diferencia dos setores mais qualificados e melhor remunerados. Desde os anos de 1950 já é possível afirmar sua existência no contexto da ‘modernização-conservadora’. Uma ‘fração de classe’ urbana e do campo, portanto, mais mal paga e explorada. Não é quantitativamente pequena, é altamente significativa;
  2. É ‘flutuante’ (entram e saem rapidamente das empresas, marcada pela insegurança), é ‘latente’ (não-industriais à espera de oportunidade para deixar os setores tradicionais), e ‘estagnada ou pauperizada’ (de funções deterioradas, degradadas)
  3. Eles estão no ‘coração’ do próprio sistema, não são subprodutos; SUA PRECARIEDADE É UMA DIMENSÃO INTRÍNSECA AO PROCESSO DE MERCANTILIZAÇÃO DO TRABALHO;
  4. No tempo contemporâneo, apesar de muitas críticas relativas existentes a sua passividade, percebe-se claro descontentamento desses trabalhadores com suas condições de trabalho e um ‘instinto difuso’, ora reformista, ora até reacionário (não predominante), presentes em suas mobilizações, pressionando o ‘sindicalismo lulista’ a “atender suas demandas e romper com o conformismo e a passividade política”.

Eles respondem, também como vítimas, ao possível abandono ou à condição de ‘invisibilidade’ relegada pelo novo sindicalismo às suas questões, em especial, à hegemonia do lulismo, que, ao chegar ao poder, combinou ‘consentimento passivo e ativo’, gerando profunda despolitização e fragmentação dos movimentos sociais. Não é fácil compreender rapidamente, eu sei. Sair do ‘conforto das certezas e das convicções como cárceres’, não é fácil. E no mundo da informação ‘on line’ e on time’ das redes sociais, fica pior ainda! Mas precisamos estar atentos. Um ‘desconhecido mundo novo do trabalho’ está se descortinando e tomando a cena das lutas sociais contra a desigualdade.

“Esse embrião de reformismo plebeu já ameaça mostrar-se impaciente com o conformismo daqueles que se deixaram transformar em instrumentos do atual modelo de desenvolvimento”. A hegemonia lulista destruiu “os músculos da sociedade civil brasileira com uma plataforma internacional de valorização financeira.” (p.226)

É necessário e urgente conhecer este ‘enredo’!

 

[1]  BRAGA, Ruy. A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista. São Paulo: Boitempo, 2012.

[2] Sugiro assistir a entrevista de Ruy Braga, no dia 24/05/18, dada ao Programa ‘Diálogos com Mário Sérgio Conti’ na Globonews.

 

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Paula Vigneron — Luzia

 

Campos, pôr do sol de 20/05/18 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Às oito da manhã, o desjejum estava sobre a mesa. Diariamente, os alimentos eram consumidos a essa hora. Pães, bolo, suco e café, arrumados pelas mãos habilidosas de Luzia, eram devorados por seu filho e marido com uma pressa característica da família. Eles conversavam animadamente enquanto a mulher lavava as louças, com um leve sorriso no rosto, captando frases soltas e risadas escandalosas. Não sabia sobre o que os dois falavam, mas gostava de ver a união deles. Mesmo que sempre se mantivesse distante para não incomodá-los, admirava-os em silêncio.

Luzia, em sua aparência cansada, não negava pedidos dos seus. Sufocava suas vontades para satisfazer os outros, mas não lamentava. Nunca levantara a voz para contestar o que era dito pelos homens da casa: Paulo, o marido, e Leonardo, o filho. Autoritários, raramente eles abriam mão de seus desejos para satisfazê-la. Mas, resignada, Luzia entendia que a vida era exatamente assim. Fora criada para servir, não para contestar. Embora, em certos momentos, tentasse modificar a sua situação, era contrariada pela família.

Ainda menina, gostava de correr pela casa. Enquanto o pai trabalhava, ficava observando-o de longe, concentrado em seu escritório. “Não faça barulho. Já mandei você ficar quieta e não vou repetir”, gritava diariamente. Ele não sabia, mas a filha era a sua maior admiradora. No entanto, ela evitava dirigir a palavra àquele homem sempre ocupado para dizer a ele as suas verdades. A mãe de Luzia vivia para cozinhar e agradar ao marido. A garota tinha herdado suas características, e a forma de viver de ambas era semelhante. Desde pequena, Luzia respeitava quaisquer sinais enviados pelo pai para que ele não perdesse a paciência e a repelisse mais do que o normal.

Na adolescência, tornou-se companheira de atividades de sua mãe. Sempre com um sorriso leve no rosto e um traço confuso no olhar, ora feliz, ora pesaroso, ela vivia para auxiliar no que fosse possível. Acreditava que, dessa maneira, poderia afastar de si a alcunha de estorvo, dada pelo seu pai, ainda mais impaciente. Por mais que a jovem tentasse agradá-lo, era afastada com repulsa.

Casou-se com Paulo. Encontrou no rapaz a oportunidade de sair de uma vida em que fora jogada sem escolha. Via no noivo, que a tratava com um carinho atípico, a chance de ter uma vida mais próxima da que era descrita pelos romances narrados por suas amigas. Ao encarar a realidade do convívio diário, percebeu o engano e viu as ilusões se esvaírem diante de seus olhos. Luzia se tornou a sombra do que costumava ser a mãe. O silêncio em que era obrigada a viver a sufocou. Em algum pequeno espaço dentro de si, ela estava escondida e trancafiada. As chaves tinham se perdido entre uma lágrima e outra.

Sem se despedirem, Leonardo e Paulo saíram de casa, conversando animadamente. Mecanicamente, Luzia foi até a mesa e retirou as sobras do café da manhã. Agia sem sentir. Vivia sem perceber e entender para onde se dirigia. Evitava pensar e arrumava trabalhos que exigiam esforço físico para não se concentrar em suas idéias angustiadas. Por trás do perfeito desempenho do papel de dona de casa, sua verdadeira identidade teimava em vir à tona. Quando se via sozinha, sentava-se em uma cadeira na varanda e encarava seu passado. Lembrava-se da infância, dos maus tratos e desprezo e da falta de iniciativa da mãe para ajudá-la a mudar a realidade. Guardava rancor, medo, mágoas e tristeza. Vivia com um esboço de sorriso. Lutava para ocultar o que se passava em sua alma. Trouxera da infância o medo de atrapalhar a família. Sentia que deveria ser grata ao marido e ao filho e não lamuriar a vida. Mas estava enfraquecida e com maior dificuldade para manter a máscara de mulher perfeita e mãe dedicada. Gostaria de vê-los preocupados verdadeiramente com ela ao invés de enxergarem-na como uma máquina.

Mas sabia que a culpa era sua. Acostumou-os assim. Como sempre, havia feito tudo errado. Seus conflitos eram cada vez maiores e mais intensos. Percebia que presenciava um desmoronamento dentro de si e não conseguia mais reconstruir o que fora perdido. Estava velha. Suas mãos fracas, embora mantivessem a agilidade, doíam muitas vezes e eram trêmulas. A sensação de solidão a seguia por onde fosse. O ventre, outrora ocupado, abrigava um enorme vazio, que crescia cada vez mais. Se o parisse, tudo mudaria. E sabia que o parto se aproximava.

Acenava esporadicamente para vizinhos que passavam animados. O que os fazia sorrir? Não compreendia os motivos. Não entendia o porquê de as pessoas estarem sempre felizes. Escondia seus sentimentos mais uma vez para que todos a vissem em sua falsa perfeição. Sabia que os maridos da redondeza invejavam Paulo pela mulher dedicada. A mãe de Leonardo era usada como exemplo na roda de amigos. Mas ninguém conhecia Luzia.

Levantou-se da cadeira e caminhou até a cozinha. Pegou uma xícara de porcelana e encheu-a de café. À bebida, acrescentou algumas gotas de morte e tomou-a lenta e silenciosamente. Optara, mais uma vez, por não atrapalhar quem estava por perto.

 

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Gustavo Alejandro Oviedo — Notas inflamáveis

 

 

 

Pedro Parente, o presidente da Petrobras, está sendo atacado por sanear as contas da empresa, reverter a situação deficitária em que se encontrava e posicioná-la novamente como a maior companhia do Brasil. A lógica por trás das criticas é que nada disso é importante se os combustíveis não são vendidos a preços mais camaradas. Afinal, para que é a Petrobras uma empresa estatal, se não pode renunciar ao lucro e à eficiência em favor dos motoristas? Por que ela tem que ser uma empresa de economia mista, com sócios privados minoritários e com ações na bolsa de Nova Iorque, quando poderia ser uma decadente e generosa empresa pública – como os Correios, por exemplo?

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Muitos aproveitaram os eventos dos últimos dias para alertar, nas redes sociais, do perigo da ‘mão invisível do mercado’ e do livre comercio, tomando como base os aumentos expressivos dos produtos que ficaram escassos.  Convém recordar aqui que Adam Smith defendia o livre mercado, mas não o caos. “O exercício da liberdade natural de algum indivíduo que faça perigar a segurança de toda a sociedade é e deve ser impedido pelas leis de todos os governos”, escreveu em A Riqueza das Nações. Quando alguém impossibilita um produtor de comercializar seus produtos sob a ameaça de queimar o caminhão que os transporta, tal atitude não parece se enquadrar num ambiente de liberdade.

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Tenho pavor a uma fila. Por isso, me recusei a perder tempo perto dum posto quando a falta de gasolina começou semana passada,  e me recuso agora, quando a lenta normalização provoca tumultos ao redor das bombas. A necessidade locomoção está sendo resolvida com o álcool de limpeza 92,8º, adquirido na mercearia da esquina, que o meu pequeno carro flex aceita sem reclamar.

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Falando de etanol, não deixa de ser irônico que a nossa região, que já foi e poderia voltar a ser uma das maiores processadoras de cana de açúcar, dependa dos caminhões pipa que vem de Duque de Caxias para suprir a necessidade de combustível. O deputado Mendonça Filho (DEM) apresentou nesta segunda um projeto de lei que libera a venda de etanol pelas usinas, sem a intermediação das petroleiras/distribuidoras.  Segundo Mendonça Filho, isto poderia significar uma redução de 10% no preço do produto.

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Acrescentaria a essa boa ideia outra que venho matutando há algum tempo (desculpem insistir): a desvinculação da venda de etanol dos postos que vendem gasolina. Se uma usina puder ter seu próprio posto, por exemplo, poderia vender seu produto ao preço que quiser, e não necessariamente a 70% do preço da gasolina, como acontece hoje.

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A greve/locaute dos caminhoneiros demonstrou como a população acompanhou com simpatia um movimento que provocou desabastecimento, encareceu produtos, coagiu aqueles que não queriam aderir ao protesto e clamou por uma intervenção militar. O balanço foi positivo, ao menos, do ponto de vista do estudo sociológico.

 

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Saulo Pessanha — Morte na redação

 

Jornalista José Cunha Filho

Anos 1980.

A noite é trevosa e má. Chove sapos.

José Cunha Filho, editor-chefe da Folha da Manhã, já está com o jornal fechado, mas aguarda, na redação, que a chuva passe, já que o seu veículo de locomoção é a Matilde, uma motocicleta Honda 125.

Eis que o telefone toca. Do outro lado, uma voz dorida informa que acaba de morrer o professor Áureo, do Liceu, e pede que a Folha registre o óbito.

Cunha então pergunta:

— Que professor? O de latim?

A voz confirma. Uma hora da manhã e Cunha, que tinha sido aluno de Áureo Azevedo, redige a nota de falecimento. Antes, tomado de dúvida, tenta encontrar o seu telefone no catálogo. Inútil. Liga para o hospital onde, segundo o informante, um fulminante infarto liquidara o professor.

— O professor que morreu era o Áureo? O do Liceu, um baixinho simpático?

— Era. Só que o corpo já foi removido e não tem mais ninguém da família para dar informação — responde a pessoa.

Cunha inclui a nota na única página ainda não fotolitada e pronta para a impressão. No dia seguinte, de volta ao jornal, já pela manhã, para fazer a pauta, é avisado que um senhor quer lhe falar.

Entre a distribuição de uma matéria e outra e eis que…

— Bom dia… Aliás, lindo dia, não é verdade? Sou o professor Áureo, lembra? Aere perennius, no dizer do nobre Horácio, mais durável que bronze…

Cunha pole o latinório de sacristia e responde no mesmo nível. Diz que não fora movido por anims laedendi, ao, para a sua alegria, ter barrigado a edição do jornal com a nota da morte do mestre.

Sorridente, Áureo o abraça e diz que continua caminhando. O finado é um homônimo, professor de colégio estadual em São Fidélis. Por ser Áureo acreditaram que se tratava do latinista emérito e jubilado.

De qualquer forma, a nota de falecimento serve para que Áureo teste a sua popularidade.

— Valeu pelas demonstrações de carinho. Estou com a casa repleta de coroas e flores que irei doar ao legítimo dono, ad majorem Dei gloriam pois, afinal, a cada um o seu, cuique suum…

 

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