Campos foi uma das 167 cidades brasileiras em que bolsonaristas saíram às ruas no 7 de setembro para apoiar o presidente, que na av. Paulista revelaria o real motivo das manifestações (Fotos: Reprodução de vídeo e Genilson Pessanha/Folha da Manhã — Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Após dois meses de organização, Bolsonaro apostava suas fichas nas manifestações em Brasília e São Paulo. Esteve e discursou em ambas. Na capital federal, pela manhã, não nominou. Mas pediu que o presidente do STF, ministro Luiz Fux, enquadrasse seu colega Alexandre de Moraes. E ameaçou: “ou esse Poder pode sofrer aquilo que não queremos”. Deixou no ar a ameaça da decretação de um estado de sítio ou de defesa no país: “Amanhã estarei no Conselho da República (…) com essa fotografia de vocês mostrar para onde nós todos devemos ir”. Conseguiu a fotografia, mas dificilmente conseguirá algo mais.
Victor Queiroz, promotor de Justiça
Análise de Bolsonaro (I)
“No art. 2°, inciso II, da Lei 8.041/90, uma das atribuições do Conselho da República é pronunciar-se sobre questões relevantes para a estabilidade das instituições. Atualmente, a única utilidade seria se pronunciar sobre eventual desejo de renúncia. Embora a renúncia seja ato unilateral, caracterizaria iniciativa de rara compostura do Sr. Presidente da República. Quanto a pretender que o Sr. Presidente do STF enquadre outro ministro da Corte, provavelmente, o Sr. Presidente da República tem alguma dificuldade de compreender o que lhe tem dito sua assessoria jurídica”, ironizou o promotor de Justiça Victor Queiroz
Priscila Marins, advogada
Análise de Bolsonaro (II)
“Aquele que deveria defender a democracia e a estabilização dos Poderes, resolve dar um ‘ultimato’ ao presidente do STF para que este ‘enquadre’ o ministro Alexandre de Moraes. O art. 52, II da Constituição diz que compete ao Senado julgar os ministros do STF, não o STF. Em outra demonstração de autoritarismo, Bolsonaro anunciou a convocação do Conselho da República, que tem suas competências fixadas no art. 90 da Constituição. Mas, para decretar o estado de sítio, por exemplo, precisa primeiro da autorização do Congresso Nacional, conforme determina o art. 49 da Constituição”, ressaltou a advogada Priscila Marins.
Carlos Alexandre de Azevedo Campos, advogado e ex-assessor do STF
Análise de Bolsonaro (III)
“Bolsonaro faz nova ameaça ao STF, dizendo que se Fux não enquadrar Moraes, impedindo-o de tomar decisões contrárias ao governo, o STF sofrerá. É mais um crime de responsabilidade, tipificado no artigo 85, inciso II, da Constituição: atentar contra o livre exercício do Judiciário. Já o Conselho da República é órgão de consulta e pode ser convocado pelo presidente da República para manifestar-se sobre intervenção federal, estado de defesa e ou de sítio. Não há situações que autorizam intervenção, nem estados de sítio e defesa, que dependem do Congresso”, analisou o advogado Carlos de Alexandre de Azevedo Campos, ex-assessor do STF.
João Paulo Granja, advogado
Análise de Bolsonaro (IV)
“Há quase duzentos anos, tivemos nossos vínculos quebrados com nossos colonizadores, fato efusivamente celebrado. Após quase dois séculos, o Brasil assiste, apreensivo, ao conflito entre o seu governante e o STF, responsável pela guarda da Constituição. Parece que o sucessor do Dom Pedro I confunde os mais básicos conceitos legais, transformando divergências com um ou dois dos 11 componentes do STF em um conflito entre os dois Poderes constituídos. E assaca normas que só deveriam viger sob o estado de exceção, como o artigo 142 da Lei Maior e o pouco conhecido Conselho da República”, resumiu o advogado João Paulo Granja.
Da Paulista à Copacabana
À tarde, em São Paulo, Bolsonaro subiu mais o tom. Nominou Moraes, buscando personalizar sua ameaça de não cumprir decisões do STF. E voltou a atacar a urna eletrônica, rompendo acordo com quem segura seus mais de 100 pedidos de impeachment: o presidente da Câmara de Deputados, Arthur Lira (PP/AL). Que conduziu o sepultamento do voto impresso em 2022. Foi também na av. Paulista que o capitão revelou o real motivo das manifestações: “Dizer aos canalhas que eu nunca serei preso”. Na incerteza sobre os “canalhas”, Fabrício Queiroz, investigado por corrupção com os Bolsonaro, prestigiou o ato bolsonarista de Copacabana.
Em Campos
Em Brasília, o jornal Valor Econômico revelou que a presença de público, não contabilizada pela PM, teria sido apenas 5% do esperado. Na Paulista, a PM contou 125 mil bolsonaristas, onde eram esperados dois milhões. Em Campos, foram cerca de 300 manifestantes. Entre eles o edil Raphael Thuin (PTB). No ato, ele disse: “O movimento de hoje de 7 de setembro vai muito além das questões políticas de lado A ou B. Nós estamos brigando pela independência do Brasil. E atitudes como STF estava tomando, ser contra o voto auditável”. Com o voto eletrônico e auditável, Thuin foi eleito vereador. E Bolsonaro, presidente.
A partir das 7h da manhã desta quarta (08), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o historiador e professor Arthur Soffiati. Ele analisará os oito primeiros meses do governo municipal Wladimir Garotinho (PSD). Também avaliará os governos federal de Jair Bolsonaro (sem partido) e estadual de Cláudio Castro (PL), projetando as eleições de 2022. Por fim, o historiador dará sua visão das manifestações do 7 de setembro, em Campos e no país.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Ronilso Pacheco, pastor e teólogo formado pela PUC/RJ
O cristofascismo dos púlpitos e do armário
Por Ronilso Pacheco
O teólogo e historiador Fábio Py tem popularizado no Brasil a categoria de “cristofascismo”, com a qual identifica o grupo cristão que, integrando-se ao governo Bolsonaro diretamente ou dando-lhe apoio incondicional, fortalece seu uso da religião e de uma teologia do domínio como escudo para seu caráter autoritário.
Py empresta a expressão da teóloga alemã Dorothee Solle, que a usou no contexto do nazismo para se referir à íntima relação entre líderes cristãos e o partido de Adolf Hitler. Solle cunha a expressão em 1970 no livro “Além da Mera Obediência”, no qual trata dos rumos de uma ética cristã para o futuro.
O cristofascismo pode ser uma categoria ainda em construção no Brasil, mas seu sentido e sua estética são perfeitamente identificáveis. E, nesta semana do 7 de Setembro, eles irão querer mostrar que definitivamente estão dispostos a levar o país ao limite da radicalidade, pregando uma manifestação pacífica enquanto estão plenamente conscientes de que pacifismo e bolsonarismo não se alinham em nenhuma realidade.
Porém o que não pode ser dito ou ignorado sobre esse grupo diz respeito à sua “fidelidade” ao bolsonarismo. Eles mantêm a cara exposta para ser vista, reconhecida e rechaçada. Três anos depois, o bolsonarismo levou o país ao caos, à mediocridade, ao aumento da pobreza e da fome e aos piores índices na qualidade da educação e em investimento em pesquisa e cultura. É um país politicamente mais violento e ameaçador. Mas a ascensão do bolsonarismo tem muito mais do que a adesão fundamentalista e reacionária evangélica.
Se há uma intensa responsabilização dos evangélicos pentecostais e neopentecostais pelo apoio a Bolsonaro e suas aspirações totalitárias e violentas, é hora de olhar para a responsabilidade do mercado financeiro, de grande parte dos grandes banqueiros brasileiros, de parte significativa dos grandes empresários, dos donos da grande mídia brasileira e até dos descolados ideólogos dos movimentos da “nova política” no país, que ignoraram o sujeito Bolsonaro, desde que ele “barrasse a esquerda” e deixasse a economia fluir segundo a cartilha do neoliberalismo.
Neste 7 de Setembro, só um grupo estará majoritariamente nas ruas, convocando seu rebanho para a “guerra”. O outro ficará em silêncio, fingindo-se chocado e surpreso, mesmo sabendo que não sentiu nenhum desconforto (e provavelmente ainda não sente), em ver o país ser governado por quem elogia torturadores, ofende gays, ridiculariza a comunidade negra, zomba do direito dos povos indígenas, despreza as políticas de proteção ambiental e tem uma tara em agredir verbalmente mulheres jornalistas e parlamentares. Adoram todos o mesmo deus.
A partir das 7h da manhã desta terça (7), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf. Ele falará da parceria entre a Fundação Astrojildo Pereira e o Grupo Folha em debates virtuais, sob sua coordenação, para tentar compreender o momento do país. Avaliará também o governo Jair Bolsonaro (sem partido) e tentará projetar as eleições de 2022, a presidente da República e governador do estado do Rio.
Por fim, Hamilton tentará responder à pergunta que mais tem sido feita pelos brasileiros nos últimos dias: o que esperar das manifestações programadas ao 7 de setembro? Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Na quinta (02), foi a vez de 300 empresários da Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas), no estado governado pelo bolsonarista Romeu Zema (Novo), darem o seu recado:
Na mesma quinta, após o tiro no pé de Paulo Guedes ao tentar conter a manifestação da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), esta mandou às favas o ministro da Economia e a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), que urinou para trás. A Febraban não defecou à defecção e foi em frente, junto a outras 200 entidades, entre elas entre elas a Associação Brasileira de Agronegócio (Abag), o Instituto de Desenvolvimento do Varejo (IDV), a Fecomercio e a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Riscaram sua linha no chão:
Sem nenhum arremedo de solução aos problemas reais do Brasil, o presidente reage criando outros, para tentar mascarar o que não sabe, nem quer resolver. E abriu uma crise com os demais Poderes da República, sobretudo o Supremo Tribunal Federal (STF), unido contra os arroubos autoritários do chefe do Executivo. Que são personificados nos chamamentos ao 7 de setembro “patriótico”, de camisa amarela e fralda geriátrica:
Marcado pelo “Independência ou morte!” de Dom Pedro I, que pelo menos pôde abdicar do trono em favor do filho, o 7 de setembro do atual governante do Brasil, no lugar de golpe contra a democracia, tende a ficar marcado por outra frase: “Acabou, porra!”.
Novidade à parte, a jornalista registrou também o óbvio aparente: se Mourão confirmar sua candidatura a governador do RJ, o principal afetado seria o atual, Cláudio Castro (PL), pré-candidato a ficar no cargo que assumiu com o impeachment de Wilson Witzel (PSC). Pelo menos aos seus adversários na corrida ao Palácio Guanabara, Castro é tão ligado ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) quanto o general se distanciou do capitão no governo federal.
— O governador e o ex-presidente Lula tem muitos amigos em comum que já estão trabalhando na construção deste movimento — disse Pamplona. Ele adiantou que sairá do PDT, caso o ex-prefeito de Niterói Rodrigo Neves confirme sua candidatura a governador pelo partido. Caso ela não vingue, o secretário de Castro trabalhará para levar a legenda de esquerda, que tem Ciro Gomes como pré-candidato a presidente, para apoiar o governador.
— Não sou de participar de eventos oficiais, nem quando era prefeito gostava, mas hoje fiz questão de ir prestigiar a vinda do governador Cláudio Castro. Para quem chegou sem que ninguém levasse muita fé, ele tem demostrado imensa capacidade de diálogo e ao mesmo tempo de vencer a crise administrativa do Estado — pregou um dos grandes nomes do PT fluminense.
Fabiano Horta, Cláudio Castro, Washington Quaquá, Rodrigo Bacellar e Zeidan em Maricá, em 24/08 (Foto: Instagram)
Junto a Quaquá e Castro, no encontro da semana passada em Maricá, estavam o atual prefeito petista do município, Fabiano Horta, a deputada estadual do PT Zeidan e o secretário estadual de Governo, o deputado campista Rodrigo Bacellar (SD). Cujo pai, o ex-vereador Marcos Bacellar (SD), egresso do movimento sindical dos eletrecitários em Campos, sempre foi admirador confeso do ex-sindicalista dos metalúrgicos Lula.
— Todos esses nomes (a governador) estão querendo colar no Lula, no Bolsonaro ou no Ciro. Mas os eleitores do RJ querem algo diferente, o RJ precisa de algo diferente.
A partir das 7h da manhã desta sexta (03), quem fecha a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o vereador Fábio Ribeiro (PSD), presidente da Câmara Municipal de Campos. Ele falará sobre a novela da proposta do novo Código Tributário, que se arrasta desde 25 de maio, e da polêmica da cobrança retroativa do IPTU. Falará também sobre a encruzilhada política entre a pré-candidatura a deputado estadual e a eleição na nova Mesa Diretora da Câmara.
Por fim, Fábio falará das suas perspectivas para as manifestações bolsonaristas de 7 de setembro, assim como da sua projeção para as eleições de 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Geraldo Hayen Coutinho, presidente do Sindicato da Indústria Sucroenergética do Estado do Rio de Janeiro
Agronegócio de Campos (II)
O apoio integral a Bolsonaro não foi comungado por outros representantes do agronegócio goitacá. Que bateram na ferradura, mas também no cravo do capitão. “O texto (do agronegócio) é um chamamento aos três Poderes e não uma carapuça para único personagem. Todos são responsáveis no tensionamento que desassossega a todos nós. As bravatas diárias do presidente não são o que se espera de um chefe de estado. Como não pode o Supremo fazer avisos do tipo ‘mexeu com um, mexeu com todos’”, ponderou Geraldo Hayen Coutinho, presidente do Sindicato da Indústria Sucroenergética do Estado do Rio de Janeiro (Siserj).
Tito Inojosa, presidente da Associação Norte Fluminense dos Plantadores de Cana
Agronegócio de Campos (III)
As críticas também foram divididas entre os Poderes da República pelo presidente da Associação Norte Fluminense dos Plantadores de Cana (Asflucan). Que se manifestou pelo seu presidente, Tito Inojosa: “Concordamos integralmente com a manifestação de entidades do setor agroindustrial ao afirmar que ‘o desenvolvimento econômico social do Brasil, para ser efetivo e sustentável, requer paz e tranquilidade’. O caminho está claramente expresso no parágrafo primeiro, do artigo primeiro da Constituição: ‘Todo o poder emana do povo e em seu nome é exercido’. E não por tresloucados, com ou sem togas”.
Alcimar Chagas, economista e professor da Uenf
Visão da economia
Economista e professor da Uenf, Alcimar Chagas também optou por dividir as responsabilidades pela crise institucional que atravessa o país: “O Brasil não pode se curvar às dualidades direita x esquerda, vermelhos x amarelos. Invasões públicas e práticas nocivas ao fortalecimento da democracia precisam ser definitivamente eliminados. Que não se repitam atos de invasão a órgãos públicos, como em 2014 pelo MST, como quaisquer atos que temos presenciado recentemente de ataques às instituições. O grito das lideranças do setor de agronegócio precisa ser ecoado por outras instituições públicas e privadas deste país”.
Igor Franco, especialista em finanças e professor do Uniflu
Visão das finanças
Especialista em finanças e professor do Uniflu, Igor Franco considerou a posição do agronegócio um alerta à possibilidade de ruptura do mercado com o governo Bolsonaro: “A nota de segunda pode ser um ‘ponto de não-retorno’ dos principais atores do PIB a um desembarque do apoio a Bolsonaro, que insiste em polêmicas que não interessam à nação. Com a disparada dos juros, a péssima imagem internacional e o desempenho sofrível dos ativos brasileiros, o presidente ganhou também antipatia dos principais agentes econômicos. A percepção é a de que abandonou qualquer compromisso com a estabilidade econômica”.
George Gomes Coutinho, cientista político, sociólogo e professor da UFF-Campos
Ciência política
Cientista político, sociólogo e professor da UFF-Campos, George Gomes Coutinho foi ainda mais crítico, não só a Bolsonaro, como ao setor do agronegócio brasileiro que agora ameaça abandonar o presidente: “Foi uma crítica dentro do conservadorismo. Pelo que entendi, Bolsonaro está sendo ruim para os negócios. Mas não há uma crítica estrutural, até porque foi esse setor, do agronegócio, que bancou o governo Bolsonaro. E agora reconhece que o funcionamento das instituições é importante. O que é um consenso, pela opção que se fez no Ocidente da junção entre economia de mercado e democracia representativa liberal”.
Por fim, o médico infectologista analisará os trabalhos da CPI da Covid no Senado Federal, além das atuações dos governos federal e estadual na pandemia. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
“A Constituição de 1988 definiu o Estado Democrático de Direito no âmbito do qual escolhemos viver e construir o Brasil (…) Mais de três décadas de liberdade e pluralismo, com alternância de poder em eleições legítimas (…) O Brasil é muito maior e melhor do que a imagem que temos projetado ao mundo. Isto está nos custando caro e levará tempo para reverter”. O puxão de orelhas ao governo Jair Bolsonaro (sem partido) foi feito hoje publicamente. Mas não pela oposição. E, sim, por um dos setores tradicionalmente mais ligados ao bolsonarismo: o agronegócio.
Em defesa da harmonia entre os Poderes, sempre posta à prova pelos ataques de Bolsonaro ao Judiciário e ao Legislativo, assinaram o manifesto sete entidades do setor agroindustrial: 1) a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), 2) a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), 3) a Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal (Abisolo), 4) a Associação Brasileira de Produtores de Óleo De Palma (Abrapalma), 5) a CropLife Brasil (entidade ligada a pesquisa, desenvolvimento e inovação nas áreas de germoplasma, biotecnologia, defesa vegetal e agricultura), 6) o Instituto Brasileiro do Algodão (Ibá) e 7) o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg).
Na dúvida, leia abaixo a íntegra da advertência do agronegócio, pilar das exportações e da balança comercial do país:
Manifestação de entidades do setor agroindustrial
As entidades associativas abaixo assinadas tornam pública sua preocupação com os atuais desafios à harmonia político-institucional e, como consequência, à estabilidade econômica e social em nosso país. Somos responsáveis pela geração de milhões de empregos, por forte participação na balança comercial e como base arrecadatória expressiva de tributos públicos. Assim, em nome de nossos setores, cumprimos o dever de nos juntar a muitas outras vozes responsáveis, em chamamento a que nossas lideranças se mostrem à altura do Brasil e de sua História agora prestes a celebrar o bicentenário da independência.
A Constituição de 1988 definiu o Estado Democrático de Direito no âmbito do qual escolhemos viver e construir o Brasil com que sonhamos. Mais de três décadas de trajetória democrática, não sem percalços ou frustrações, porém também repleta de conquistas e avanços dos quais podemos nos orgulhar. Mais de três décadas de liberdade e pluralismo, com alternância de poder em eleições legítimas e frequentes.
O desenvolvimento econômico e social do Brasil, para ser efetivo e sustentável, requer paz e tranquilidade, condições indispensáveis para seguir avançando na caminhada civilizatória de uma nacionalidade fraterna e solidária, que reconhece a maioria sem ignorar as minorias, que acolhe e fomenta a diversidade, que viceja no confronto respeitoso entre ideias que se antepõem, sem qualquer tipo de violência entre pessoas ou grupos. Acima de tudo, uma sociedade que não mais tolere a miséria e a desigualdade que tanto nos envergonham.
As amplas cadeias produtivas e setores econômicos que representamos precisam de estabilidade, de segurança jurídica, de harmonia, enfim, para poder trabalhar. Em uma palavra, é de liberdade que precisamos —para empreender, gerar e compartilhar riqueza, para contratar e comercializar, no Brasil e no exterior. É o Estado Democrático de Direito que nos assegura essa liberdade empreendedora essencial numa economia capitalista, o que é o inverso de aventuras radicais, greves e paralisações ilegais, de qualquer politização ou partidarização nociva que, longe de resolver nossos problemas, certamente os agravará.
Somos uma das maiores economias do planeta, um dos países mais importantes do mundo, sob qualquer aspecto, e não nos podemos apresentar à comunidade das Nações como uma sociedade permanentemente tensionada em crises intermináveis ou em risco de retrocessos e rupturas institucionais. O Brasil é muito maior e melhor do que a imagem que temos projetado ao mundo. Isto está nos custando caro e levará tempo para reverter.
A moderna agroindústria brasileira tem história de sucesso reconhecida mundo afora, como resultado da inovação e da sustentabilidade que nos tornaram potência agroambiental global. Somos força do progresso, do avanço, da estabilidade indispensável e não de crises evitáveis. Seguiremos contribuindo para a construção de um futuro de prosperidade e dinamismo para o Brasil, como temos feito ao longo dos últimos anos. O Brasil pode contar com nosso trabalho sério e comprovadamente frutífero.
Abag
Abiove
Abisolo
Abrapalma
CropLife Brasil
Ibá
Sindiveg
Por George Gomes Coutinho(*) e Aluysio Abreu Barbosa(**)
— Eric Clapton deu uma pirada nos últimos tempos. Mas uma coisa não anula a outra, né? O que ele fez com o Cream, o que ele fez em carreira solo são pedras fundamentais da música anglo-saxã na segunda metade do século 20, com certeza! — abriu Jorge o diálogo virtual, que se estenderia entre arte, humanidade dos gênios e Covid, nos dias seguintes.
— Não concordo com as opiniões dele sobre a pandemia. Mas há contextos para a “pirada” de Clapton, como suas graves reações à AstraZeneca. E, ainda que não houvesse, não arranha o que ele foi, é e será para a música do mundo. Na certeza de que, felizmente, o politicamente correto é como laticínio em sua datação de validade, só espero que seu patrulhamento neostalinista não nuble em vida o reconhecimento que o grande artista terá depois da morte! — respondeu Aníbal, iniciando meio de sola sua participação no debate.
— Patrulhamento neostalinista? — queixou-se Jorge da entrada mais ríspida do velho amigo de data recente.
— É como eu e gente muito melhor julgamos ser esse binarismo radical e pequeno-burguês!
— Eu acho que fiz foi crítica a posicionamentos públicos feitos por uma figura pública na comunicação de massa. Nada mais condizente com sociedades de massa e capitalistas. E se Clapton não desejar ouvir críticas ao que diz publicamente, talvez seja mais inteligente não participar de nenhum debate ou questão pública até o fim dos seus dias. É sim, para mim um gênio pelo que fez. E pura decadência no que é no presente!
Lady Day, Billie Holyday
— Não estou falando da sua posição pessoal, Jorge. Falo da esquizofrenia de se condenar em vida um artista do tamanho de Clapton, pelo que concordo ser um erro, mas contextualizo. Lembra o que fizeram com Billie Holiday, morta algemada a uma cama de hospital, por suposta posse de narcóticos. Condeno essa mistura de udenismo com jacobinismo. Seja dos “homens de bem” dos anos 1950, que roubaram a dignidade da morte da maior cantora que já existiu, seja dessa lacração de espectro político oposto, mas igualmente pequeno-burguesa de hoje.
Paul McCartney
— Ah, sim, sim. Mas isso aí é um problema do moralismo, cara. Que está nos dois lados do espectro político, tanto na esquerda, quanto na direita, isto é certo. Mas, cara, sem dúvidas: sem “vacas sagradas”. Porque, se não, o debate não avança. O cara pode ser fantástico no âmbito da música e ser um imbecil no âmbito das relações humanas. E o trabalho de Clapton durante a pandemia foi um desfavor. Tanto que foi “ostracizado” por todos os caras tão grandes quanto ele no mundo da música contemporânea, até Paul McCartney, etc. Clapton? Que pena, né? Que pena!
Richard Wagner, Charlie Parker e Chico Buarque (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
— Não se trata de “vaca sagrada”. Mas de reconhecer que Richard Wagner foi um canalha antissemita, que confessamente inspirou Hitler na sua concepção do nazismo. Que Charlie Parker pegava o dinheiro da sua banda, privando seus colegas de subsistência em regime de trabalho escravo, para comprar heroína. Que Chico Buarque defendeu o PT e o governo de Dilma acriticamente, quando já não havia mais defesa. Nunca deixei que isso contaminasse os gênios da música que foram e são. Tanto ou pior que os erros que eles e Clapton cometeram, é juntar alhos com bugalhos pelo moralismo da moda. Mas, enfim, pensamos diferente. E concordamos no essencial: são gênios da música. Este, para mim, é o ponto. Não o que Clapton disse ou fez durante a pandemia.
Martin Heiddeger
— Pois é, bom, vamos lá. Eu também penso a mesma coisa, vide, por exemplo, o Heidegger, um dos maiores filósofos alemães do século 20 e aderiu, de pleno, ao nazismo. Agora, a grande questão é que isso aí mostra a inflexão na biografia daquela personalidade. E eu acho que conta. Que fala tanto daquele personagem, quanto fala daquele momento histórico. E evidencia o mais importante: gênios são humanos! E, invariavelmente, são capazes, enquanto humanos, até mesmo de cometer as piores coisas. Que esses exemplos, que acontecem durante a biografia desses sujeitos, funcione como uma espécie de alerta para nós, os comuns. Se eles são capazes, que a gente redobre a vigilância em termos das atrocidades que podemos cometer.
Erza Pound e Fernando Pessoa (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
— Sim, como Erza Pound apoiou em vida o fascismo e Pessoa, o salazarismo. E continuam a ser dois dos maiores poetas do século 20 e da literatura universal. E, sim, continuam sendo humanos. O que me leva a confessar: tanto quanto pela elegância do seu futebol, admiro Zidane pela humanidade da sua cabeçada no peito de Materazzi, na final da Copa de 2006.
Após provocar Zidane, zagueiro italiano Materazzi é nocauteado com cabeçada do craque francês, custando a este a expulsão da final e o título da da Copa de 2006
— Talvez, aí, neste caso, eu admire ainda mais Zidane por causa da cabeçada! — pontuou, entre risos, Jorge.
— Enfim, chegamos a um consenso!
— Pois é, cara, esse lance aí, do Fernando Pessoa com o salazarismo, eu admito que é algo que me incomoda profundamente. Depois ele fez uma revisão disso, fez um mea culpa. O que que deu? Uma das mentes mais avançadas da língua portuguesa de todos os tempos, né, cara? Mas os consensos sempre são possíveis dentro de determinados elementos civilizatórios! — aquiesceu Jorge, novamente entre risos.
— Como guitarrista, Clapton é deus. Como homem, é homem. Abraço fraterno!
— É, é isso, é isso. E mais uma vez, os deuses nunca foram tão humanos, dado as criaturas que são dos próprios homens. Abraço, nego véio!
— Adendo rápido. No consenso sobre a humanidade de Zidane, só agora fui notar a coincidência em versos escritos, 10 anos antes da final da Copa de 2006, para Clapton. Que usei ao escrever sobre o Dia do Rock. Mas que não deixam de dialogar também com a nossa discordância: “falo de encruzilhadas de vida/ atravessadas a cabeçadas/ nas convenções/ mesmo a que convenciona não tê-las”.
— É, cara, esse debate todo está merecendo virar um texto, sabe? — propôs Jorge, em meio a mais risos.
— Rapaz, sabe que é uma boa ideia? — concluiu Aníbal, rindo pela primeira vez.
(*)Sociólogo, cientista político, professor da UFF-Campos e músico
(**)Poeta, jornalista e diretor de redação do Grupo Folha
Por Aluysio Abreu Barbosa, Cláudio Nogueira e Matheus Berriel
Pré-candidato a governador que vem até aqui liderando as pesquisas, a pouco mais de um ano das urnas de 2022, o deputado federal Marcelo Freixo deixou recentemente o Psol para ingressar no PSB. No que analistas consideram uma tentativa de contornar a rejeição que o fez perder o segundo turno da eleição a prefeito do Rio, em 2016, para Marcelo Crivella (Republicanos). A ida ao novo partido foi articulada com outros nomes de expressão nacional, como o bem avaliado governador do Maranhão, Flávio Dino, que foi do PCdoB para o PSB, na tentativa de formar um leque mais amplo de aliança. Nela, Freixo não descarta nem o PDT, que tem como pré-candidato a governador o ex-prefeito de Niterói Rodrigo Neves.
Muito crítico à gestão estadual Cláudio Castro (PL), a quem deu nota 0, ele considera que a pré-candidatura do governador está atrelada ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Falou do diálogo que pretende abrir com municípios da região, como Macaé e Campos. E foi mais generoso na avaliação do governo Wladimir Garotinho (PSD), com quem tinha programado almoçar ontem (27), em sua visita à cidade, junto do também deputado federal Alessandro Molon (PSB) e do prefeito de Maricá, Fabiano Horta (PT). Um dia antes, na quinta (26), em entrevista ao programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, Freixo deu nota 7 aos oito primeiro meses de gestão do prefeito campista.
Marcelo Freixo (Foto: Antonio Leudo/Folha da Manhã)
Marcelo Freixo – Eu daria nota 7 ao Wladimir. Vou ouvi-lo bastante sobre as suas dificuldades e sei que são grandes. O Rio passou por uma situação muito grave de decadência da economia do petróleo. Começa a se recuperar a partir de 2018, mas chegamos a uma situação de crise muito profunda. A região Norte Fluminense inteira é muito dependente dessa economia, então você tem ainda as consequências dessa crise. E, queira ou não, é um início de governo ainda na pandemia. Tem gente falando em pós-pandemia, mas a pandemia não passou. Então, é evidente que, por essas dificuldades de um reerguimento econômico ainda no início e uma situação de saúde, de crise sanitária, muito profunda, eu dou nota 7, porque é uma nota com que você passa, mas, evidentemente, ainda tem muita coisa a fazer. Não tenho dúvida de que ele acha isso também. Mas, eu vou ouvi-lo.
Folha – Por que saiu do Psol ao PSB? Em Campos, o Psol teve uma das revelações da eleição para prefeito de 2020: a Natália Soares, professora universitária como o senhor e o Molon, ficou em quinto lugar na eleição, quase ultrapassou o então prefeito Rafael Diniz (Cidadania). O senhor espera ter apoio dela e do Psol na sua pré-candidatura a governador?
Freixo – Sem dúvida alguma. O desempenho da Natália foi extraordinário. Eu conversei bastante com ela, a apoiei. E a minha saída do Psol foi muito conversada, muito amadurecida. Sou muito grato por tudo o que eu vivi no Psol. Foram muitos anos. Ajudei a construir ali um espaço que elegeu muita gente boa, muita gente importante. Elegeu Marielle, elegeu uma bancada de sete vereadores no Rio de Janeiro, vereadores em outros municípios, elegeu uma bancada de cinco deputados estaduais, quatro deputados estaduais. Então, tenho muito orgulho do que fiz ali. Mas, na vida, os desafios vão sendo colocados, e a gente não deve ter medo da mudança. A minha ida para o PSB foi muito amadurecida, muito conversada, e, para nós superarmos a dificuldade que a gente está enfrentando hoje, o preço da gasolina, o preço do arroz, preço do feijão, dificuldade para pagar um aluguel, o desemprego, fome; nós voltamos a ter fome! Eu moro no Flamengo, não há um viaduto no Aterro do Flamengo que não tenha famílias inteiras morando embaixo. É muito triste o que a gente está vivendo hoje no Brasil, pertinho da gente, no alcance dos nossos olhos. A gente tem que encarar esse desafio. E, nesse sentido, a gente precisa disputar o governo do Rio de Janeiro. O Rio tem que ser refeito, tem que sair das mãos de uma máfia. O crime governando o Rio de Janeiro é o que a gente está assistindo hoje. Quem governa o Rio é o crime. E enfrentar isso não pode ser sozinho. Tenho certeza que a minha ida para o PSB corresponde a isso: à possibilidade da construção de uma frente que tenha bastante gente, que tenha, inclusive, o Psol. Tenho certeza que vão estar juntos com a gente nessa frente. Fiz esse movimento junto com o governador do Maranhão, Flávio Dino, quem aliás, é o melhor governador em relação ao combate à pandemia. Lá é o lugar com os melhores resultados. Então, eu e o Flávio Dino (PSB) amadurecemos muito essa decisão. O Flávio Dino saiu do PCdoB, eu saí do Psol, para a construção de uma frente que mude o destino do Brasil, que tire o Brasil do fanatismo, dessa seita que hoje governa o Brasil. E, no Rio de Janeiro, que enfrente a máfia que levou o Rio ao fundo do poço. Agora, até acordo com traficante eles fazem. Eu sempre denunciei acordo com milícia, mas, realmente, eles se superaram, estão fazendo acordo com o tráfico. A minha ida ao PSB é com muito respeito ao Psol, contando com o Psol nesse leque de aliança.
Folha – De 0 a 10, qual sua nota ao governo Cláudio Castro? E por quê?
Freixo – Nota 0. Eu não posso dar um décimo. E olha que fui um professor generoso na minha vida. Já dei muita aula para alunos de Campos quem iam fazer pré-vestibular em Niterói ou no Rio de Janeiro. Sempre fui um professor muito amigo dos alunos. Mas, o Cláudio Castro, como aluno da política, é 0, porque não pode ter um governo que faça acordo com milícia e acordo com o tráfico. O que aconteceu com o (ex-)secretário de Administração Penitenciária (Raphael Montenegro), a pessoa que é responsável pelas prisões, sair do Rio de Janeiro, pegar um avião, ir para outro estado, visitar líderes do Comando Vermelho para fazer acordo. Não sou eu que estou dizendo, isso foi reportagem do “Fantástico”. As gravações foram mostradas. O secretário dizendo para o líder de uma facção que ele é a pessoa mais importante do Rio de Janeiro, mais importante que o secretário de Segurança. Em que mundo vivemos? O que é isso? Eu não posso dar um décimo para uma coisa dessa? Em 2008, eu fui presidente da CPI que investigou as milícias e levou à prisão mais de 200 milicianos. Ali, eu coloquei a minha vida em risco, com muita consciência do que estava fazendo. E não me arrependo, faria novamente. Aquela CPI que virou filme, o “Tropa de Elite 2” (2010, de José Padilha). Tem que ter um governador que tenha comando, que tenha moral. Não pode ser um governador que não consegue explicar o que está dentro da mochila, não pode ser um governador que faz acordo com tráfico, com milícia. Tem que ser um governador que tenha moral para ter um plano de segurança que envolva o Governo Federal, envolva a sociedade. E que discuta um destino. O Rio precisa de segurança e desenvolvimento, e uma coisa está atrelada à outra.
Freixo – Se forem compromissos que a economia local, a sociedade e os prefeitos considerem prioridades, ótimo. Quando se fala de posto do Detran, eu sempre fico preocupado. Acho ótimo que tenha um posto do Detran em Guarus. Precisa saber se ele vai entregar o posto do Detran para algum aliado político, como eles fazem sempre, o que, aliás, gerou a prisão de muitos aliados do Cláudio Castro. A investigação Furna da Onça, na Alerj, era justamente isso. Está certo em atender a demanda de prefeito e da economia local. Mas, por exemplo, me estranha ele não falar sobre a Ferrovia Centro-Atlântica. São 650 quilômetros de ferrovia, houve uma concessão para o Governo Federal, o investimento não foi feito. O Rio tem que ser indenizado, inclusive. Há uma indenização pelo não investimento. O governo Bolsonaro está anunciando que o valor dessa indenização vai ser usado para construir o metrô de Belo Horizonte. Tem um trecho dela, inclusive, que passa por Campos, Vitória. Por que esse dinheiro não vem para o Rio de Janeiro? É um dinheiro que tinha que ser investido aqui. Aí você vai ter que enfrentar o Governo Federal. E me parece que o governo Cláudio Castro não consegue muito ter coragem para falar um pouco mais alto com o Governo Federal na hora de defender o Rio de Janeiro, é muito submisso ao governo Bolsonaro.
Folha – Perguntado sobre os compromissos do Cláudio Castro, o Molon disse que não poderia ficar contra, mas que resta saber se vão ser cumpridos. Mas ele, que também é pre-candidato ao Senado, também falou que quando chegar o momento do PSB fazerem as propostas, Campos e o Norte Fluminense poderiam se surpreender. O que o senhor e Molon pensam para o município e a região?
Freixo – Primeiro, é uma região estratégica, muito importante pela economia do petróleo e pela necessidade de superar a dependência da economia do petróleo. A primeira coisa que eu acho que um governador tem que fazer é chamar o prefeito de Maricá, que, aliás, vai me acompanhar nessa visita a Campos. O Fabiano Horta é um extraordinário prefeito, morador de Maricá não paga passagem de ônibus, tem um hospital público e uma rede de educação de grande qualidade. Isso é com dinheiro público, com política pública. Uma moeda local que aqueceu a economia, o Mumbuca, que eles criaram em Maricá. Quero chamar o prefeito de Maricá, chamar o prefeito de Macaé e o prefeito de Campos e criar um grupo de trabalho em cima das questões dos royalties, para atingir com investimento toda uma região. As estradas estaduais que ligam os municípios da região estão abandonadas há muito tempo. Com investimento nessas estradas, você atinge mais de 900 mil pessoas. Você tem, hoje, uma quantidade enorme de caminhões, por causa da BR 101, que cruzam por dentro de Campos todos os dias, provocando um inferno na cidade. Quando você fala que vai chamar três prefeitos e dizer que o Governo do Estado quer, junto com eles, dar um destino para os royalties que atinja a uma quantidade enorme de municípios e qualifique, melhore a vida das pessoas de toda uma região. Quantas vezes os prefeitos de Campos, Macaé e Maricá sentaram para o governador com um projeto para uma região mais extensa? Não falo só da região Norte, estou falando de um projeto que possa ser mais amplo e possa ser de estado, com políticas públicas de estado. Porque governador passa, você tem que criar políticas públicas que vão ficar ali. Então, acho que esse é um caminho importante a se pensar.
Folha – Pesquisas apontam que, no estado do Rio, o antibolsonarismo é menor, como o antipetismo maior do que as médias nacionais. Em 2016, o senhor perdeu a eleição de segundo turno a prefeito do Rio para Marcelo Crivella. E é considerado um candidato de piso alto, o que é bom no primeiro turno, mas de teto baixo, por conta da rejeição, o que é ruim no segundo turno. Como encara essas condições eleitorais?
Freixo – Os números das pesquisas, hoje, não mostram isso. Mostram o contrário. E 2016 não pode ser comparado com 2022. Em 2016, nós tínhamos o pior momento possível da política para qualquer candidato do campo progressista. Eu fui um dos poucos que cheguei ao segundo turno. Dos candidatos progressistas, todos perderam no Brasil inteiro. Foi o pior momento. Tinha uma conjuntura em 2016, que era a conjuntura de ascensão do bolsonarismo, uma conjuntura de uma extrema direita e um momento muito crítico de toda uma esquerda, de todo um pensamento progressista. O que a gente tem, hoje, é uma outra situação. Hoje, o governo Bolsonaro está derretendo e a extrema direita precisa ser superada. A rejeição maior no Brasil, hoje, é ao Bolsonaro. O governador do Rio, hoje, é um candidato do Bolsonaro. Ele só tem vida do lado do Bolsonaro, todas as pesquisas indicam isso. A gente está fazendo uma aliança, como não fizemos em 2016. A gente vai ter uma possibilidade de disputar o Governo do Estado junto com o Governo Federal. Eu não tenho nenhuma denúncia contra mim, em tantos anos de vida pública. Hoje, a gente está na frente de qualquer pesquisa e consegue chegar ao segundo turno. Mas, nós vamos ter uma realidade de segundo turno muito mais favorável do que em qualquer eleição anterior. Não dá para pensar em 2022 à luz do que aconteceu em 2016. E, mesmo assim, em 2016 eu cheguei a 42% dos votos. Eu acho que, agora, a chance de a gente chegar ao segundo turno e vencer a eleição é muito maior.
Freixo – A gente tem uma vantagem de ser muito mais conhecidos do que outros candidatos. A eleição é curta, a lei mudou. É uma eleição de 45 dias. Então, quem tem rede social e capacidade de comunicação mais fortes antes da eleição, cresce e chega numa eleição mais forte. Hoje, nós temos o PSB, o PT, o PCdoB, Psol e a Rede muito próximos dessa aliança. E eu estou conversando com outros setores, outros partidos fora desse campo, com conversas já bastante avançadas, mas que ainda não posso dizer. Mas, a gente pode ir com um leque de aliança grande. Ou seja, nós temos uma capacidade de comunicação na pré-campanha que é grande. A gente tem 3 milhões de seguidores somando todas as redes, uma visibilidade grande, e a gente vai ter uma campanha estruturada, com tempo de televisão. Eu quero muito contar com o PDT com a gente. Quero muito. Sempre converso com o (Carlos) Lupi (presidente nacional do PDT), e a porta está aberta. Em 2022, há o cenário de Bolsonaro de um lado, e quem quer derrotar Bolsonaro, do outro. Esse é o leque de aliança. Eu vejo o PDT, hoje, muito isolado. E tem uma questão muito séria. Em todas as pesquisas que estou fazendo, e estou fazendo muitas, pesa muito no Rio a questão da corrupção. Mais do que em qualquer outro estado. Corrupção e violência. E a gente entende, por ter governadores presos, enfim. O fato de o Rodrigo Neves já ter tido muitos problemas é um peso contra ele, e o fato de ele não conseguir fazer uma aliança ampla também dificulta muito. Mas, eu tenho muito respeito pelo PDT e quero muito o PDT com a gente. O Rio vai exigir um governador que seja ficha limpa, não tenha dúvida disso. O Rio já teve um monte de governador preso, não quer mais um.
Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã
Confira nos três blocos abaixo, em vídeo, a íntegra da entrevista de Marcelo Freixo ao Folha no Ar, na manhã de quinta (26):