Cientista político aposta em 2º turno entre Wladimir, Caio, Calil e Rafael

 

Cientista político, sociólogo e professor da UFF-Campos, George Gomes Coutinho projetou hoje, no Folha no Ar, as urnas goitacá daqui a apenas quatro dias (Foto: Divulgação)

 

 

“A lógica, o desenrolar dos acontecimentos, leva (Campos) a um segundo turno. Pela seguinte razão: há um quantitativo de chapas (11) para a Prefeitura que é algo que nós não tínhamos em outras eleições. Para que não tivéssemos primeiro turno, nós teríamos que ter um grande favorito. E o grande favorito, nessas circunstâncias, poderia ser o candidato da situação, seria o prefeito Rafael Diniz (Cidadania), que neste momento tem a máquina. Mas o grande favorito teria que estar muito bem avaliado para que levasse no primeiro turno. Em um cenário em que não há grandes favoritos e, com o quantitativo de candidaturas que nós temos, é lógico e natural que exista a pulverização dos votos, que leve ao segundo turno. A não ser que, com esse grande quantitativo de indecisos, aconteça a migração dos mesmos para algum nome, que pode ser o Rafael Diniz, o Wladimir Garotinho (PSD), o Bruno Calil (SD), o Caio Vianna (PDT), pelo que tem dado nas pesquisas. Eu arrisco esses quatro nomes com possibilidade numérica de chegar ao segundo turno. Dado que esse grau de indecisão, você tem mais de 40% de indecisos, ele pode promover reviravoltas, pode desmentir pesquisas no domingo (15)”. A quatro dias das urnas, foi o que projetou na manhã de hoje o cientista político e sociólogo George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos. Ele falou em entrevista ao vivo no programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3.

O cientista político também analisou cada um dos 11 candidatos a governar Campos a partir de 1º de janeiro de 2021:

Wladimir Garotinho — “Wladimir Garotinho é o herdeiro do maior capital político que Campos conseguiu gerar pós-1988 (ano da promulgação da atual Constituição Federal). E não estou fazendo nenhum alinhamento automático de filho com os pais; traz traços genéticos, mas não é a mesma pessoa”.

Caio Vianna — “Caio Vianna me parece uma liderança bastante jovem ainda e, em termos comparativos com Wladimir, me parece com menos experiência. E, neste momento, para a imaginação política local, ele representa as boas memórias que eu acho que parte da população tem do governo Arnaldo Vianna”.

Dr. Bruno Calil — “Bruno Calil me parece um agente político bastante ambicioso. E não estou dizendo ambição negativa ou positiva, não; estou dizendo do agente político que se apresenta neste pleito com bastante ambições. Mas, politicamente, me parece um artefato muito recente ainda, para que eu faça qualquer apontamento”.

Rafael Diniz — “Rafael Diniz, eu acho que é um agente político que teve uma experiência no Legislativo, assumiu a Prefeitura de Campos. Teve pontos de acerto, não vou aqui enumerá-los, mas existem pontos de acerto; eu acho importante que se faça justiça. Nem todas as críticas dão conta da complexidade que foi o governo Rafael Diniz. Mas, ao mesmo tempo, eu acho que ele assumiu demais uma postura gerencialista, demasiadamente gerencialista. Que, sem dúvida alguma, é pauta de parte da classe média e dos grupos empresariais de Campos, mas não é pauta majoritária da população. Campos precisava de algo mais do que um excesso de gerencialismo”.

Professora Natália — “É difícil, pela seguinte razão: ela foi com quem eu tive mais contato profissional. Eu tive o prazer e a honra de ter Natália como estudante na UFF, na graduação; eu fui professor dela. Primeiro, ela é uma excelente estudante, aplicadíssima, apaixonada pelo conhecimento. Ela me parece uma liderança ascendente, uma liderança popular sensível e ascendente, na minha perspectiva”.

Odisséia — “Odisséia é uma liderança também do campo popular. É uma mulher que tem longa tradição sindical no Sepe, ela conhece as questões, os desafios da educação regional. E, neste momento, assume, acho que muito corajosamente, a tarefa de levar o nome do Partido dos Trabalhadores em um momento em que o partido está se reconstruindo nacionalmente. Acho que é um nome, uma interlocutora, assim como todos os outros. Espero que quem venha a levar o pleito, quem for o vencedor, convide vários desses nomes como interlocutores nos próximos quatro anos, porque Campos não tem poucos desafios. E eu acho que a Odisséia é um nome a contribuir também”.

Tadeu Tô Contigo — “Eu acho que o Tadeu Tô Contigo é uma das faces da direita. Do que se chama de bolsonarismo. do que se chama de fenômeno da direita no Brasil, de 2018 para cá, ele é multifacetado, tem vários aspectos. E Tadeu, não o conheço em profundidade, mas me parece que ele faz um pouco da linha dos comunicadores que se lançam, que têm um apelo popular importante e se lançam como nome político. Como o Celso Russomano, por exemplo, em São Paulo, mas com menos capital político que ele. O Russomano vinha com uma trajetória política formal. E Tadeu se lança. Vamos ver o que ele vai angariar”.

Roberto Henriques — “Roberto Henriques é um político profissional. É um remanescente do Muda Campos (movimento político que levou Anthony Garotinho a e eleger prefeito de Campos pela primeira vez, em 1989), é um político experiente, tem uma trajetória de ter circulado em diversos partidos. É um homem que conhece a política local e, assim como eu falei no caso da Odisséia, eu acho que ele seria um interlocutor importante em qualquer governo”.

Cláudio Rangel da Boa Viagem — “Eu acho que ele também é um sintoma desse movimento da direita brasileira. Você criou os comunicadores, você criou a ideia do empresário/político. Eu acho que o Cláudio se apresenta como um nome da ideia: ‘olha, nós temos aqui um empresário e ele vai, necessariamente, vai ser um bom governante’. Eu sempre lembro o eleitor: pode ler Maquiavel, pode ler ‘O Príncipe’, você vai ver que ele não morde, e que não tem nada a ver uma coisa com a outra. Às vezes o cara pode ser muito bem sucedido no âmbito privado e ser um desastre na vida pública”.

Jonathan Paes — “Está aí um nome que eu tenho muito pouca informação. Aí ele me parece um pouco o representante do bolsonarismo avant la léttre (“antes do estado definitivo”). Porque é o tipo de nome que poderia acontecer mesmo, para surfar uma onda. Mas me parece que não colou, não vingou.

Dra. Carla Waleska — “A Carla é um nome muito recente. Mas eu acho que o PSDB e o PT local têm desafios que ainda não conseguiram responder totalmente, dado o tamanho dos dois partidos nacionalmente. Em âmbito local, Campos, o PSDB tem uma agenda ainda a apresentar à altura do tamanho do partido nacionalmente. Isso não é uma crítica destrutiva, é uma reflexão. Tanto o PSDB, quanto o PT, precisam pensar e construir localmente”.

 

Confira abaixo os dois blocos da entrevista com o cientista político George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos. O primeiro dedicado ao resultado às eleições presidenciais dos EUA. O segundo, que compôs a matéria acima, sobre as eleições municipais de Campos:

 

 

 

Roberto Dutra entre eleições dos EUA e Campos, no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Entre as eleições presidenciais dos EUA e as municipais de Campos, o convidado do Folha no Ar, a partir das 7h15 desta quinta (12), é o sociólogo Roberto Dutra, professor da Uenf. Ele falará sobre a eleição do democrata Joe Biden a presidente dos EUA e suas consequências ao Brasil de Jair Bolsonaro (sem partido). E analisará as possibilidades ao pleito deste domingo, 15 de novembro, a prefeito de Campos.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Reitor da Uenf vê 2º turno a prefeito de Campos entre Wladimir e Caio

 

Professor Raul Palacio, reitor da Uenf, ao microfone do Folha no Ar (Foto: Folha da Manhã)

 

“Eu projeto (a eleição a prefeito de Campos) em dois turnos. Nós temos um percentual muito grande de pessoas que ainda não se decidiram. Mas os candidatos que estão à frente hoje, é inegável, em todas as pesquisas estão aparecendo, são o Wladimir (Garotinho, PSD) e o Caio (Vianna, PDT). Mas a gente não pode esquecer da força que o Rafael (Diniz, Cidadania) está tendo nos últimos momentos, do convencimento de algumas lideranças que poderiam estar ressentidas. Então, talvez, parte desses indecisos possa vir com Rafael. Eu, sinceramente, acho que vamos ter um segundo turno entre esses três candidatos, com uma porcentagem maior entre o Wladimir e o Caio. No segundo turno (em 29 de novembro), vai ser pouco tempo para essa decisão, mas eu acho que vai ser muito acirrado, vai contar mais a rejeição. Neste processo, os candidatos vão ter que ter a capacidade de poder somar. E eu vejo Caio com capacidade de somar mais gente à sua campanha do que Wladimir”. Foi o que projetou para a eleição a prefeito de Campos, em dois turnos o professor Raul Palacio, reitor da Uenf. Ele falou em entrevista ao vivo no programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3.

O reitor da maior universidade de Campos e região analisou cada um dos 11 candidatos a governar Campos a partir de 1º de janeiro de 2021:

Wladimir Garotinho — “Está no segundo turno. Tem grande possibilidade de ser o prefeito de Campos”.

Caio Vianna — “A mesma coisa (que Wladimir). Mas é o candidato que eu acho que pode somar todas as outras forças. Pela experiência que tivemos anteriormente na cidade, os Garotinho polarizam isso. Tem gente que gosta muito deles, tem pessoas que não gostam. E eu acho que o Caio, no caso de ir para o segundo turno, vai se colocar como o candidato que pode somar todas aquelas forças”.

Dr. Bruno Calil — “É um candidato que tem um futuro muito promissor na política. Ele agora está, digamos, sendo apoiado por um grupo político, mas ele tem se mostrado uma pessoa muito presente, muito trabalhadora, com propostas. Talvez não seja este o seu momento, mas é uma pessoa que tem futuro na política”.

Rafael Diniz — “O Rafael é, como ele coloca, o prefeito da coragem. Eu concordo com ele. O prefeito que eu acho que todo mundo deveria avaliar o que ele fez. E realmente, em algum momento, entender a situação (financeira) em que está a cidade. Hoje, certamente, é o cara que melhor conhece a cidade. Eu acho que um grupo dos indecisos deve ir para ele, talvez um grupo grande. E daí a possibilidade de Rafael estar no segundo turno”.

Professora Natália — “A Natália talvez seja a melhor candidata que tem neste momento; eu não posso deixar de falar isso. É uma mulher e a cidade precisa de uma prefeita mulher. Infelizmente, o número de votos que tem é muito pequeno. Mas, de fato, é uma pessoa extremamente preparada e que você sente realmente que está com vontade de fazer. Vai ter um futuro político tremendo dentro da cidade. Não vai ser nesta eleição, infelizmente, mas ela vai ter um bom resultado nas próximas eleições. Precisa construir esse caminho, entender que eleição não é só o momento do voto. Ela precisa construir o caminho ao longo dos próximos quatro anos, para na próxima eleição ter um momento bem melhor do que agora. Mas é uma excelente candidata”.

Odisséia — “Ela representa o PT e talvez, no meu ponto de vista, o que o pessoal denomina como a ‘política velha’. Eu a considero uma professora muito boa, uma candidata boa, mas eu teria gostado que o PT trouxesse nomes novos. E esses nomes novos talvez tenham agora os quatro anos para poder se formar para a política de Campos”.

Tadeu Tô Contigo — “Tadeu representa o grupo da Record. Embora ele tenha as suas propostas, eu acho que não tem um futuro político. E acho, sinceramente, que ele já foi vereador e não conseguiu se reeleger. Então, ele está fazendo seu trabalho, a sua responsabilidade social, mas eu não o vejo com futuro na política de Campos dos próximos anos”.

Roberto Henriques — “O Roberto Henriques talvez seja o mais conhecido de todos eles. Eu diria que é o ‘camaleão’ entre todos os candidatos. É uma pessoa excelente de conversa, eu já tive muito relacionamento com ele. Mas, talvez, já tenha passado o tempo dele. Ele poderia colaborar muito em qualquer governo. É isso que está fazendo, se mostrando, se apresentando, para que as pessoas entendam que ele ainda está ativo e que vai contribuir para qualquer governo que venha a ganhar”.

Cláudio Rangel da Boa Viagem — “Como empresário, eu acho que ele demonstra capacidade. Mas, como político, eu acho que ele não se preparou. Mas, de qualquer jeito, eu acho que é um direito de qualquer um se apresentar, de representar um grupo político, e bola para frente. Mas eu não vejo ele participando da política nos próximos anos”.

Jonathan Paes — “Representa, talvez, o pior candidato de todos. É o candidato do ódio, o candidato da agressividade e ele se esforça para poder colocar isso. Ele chega ao ponto de incongruências, quando ele defende o presidente Bolsonaro e, ao mesmo tempo, tenta defender o funcionalismo público. Ou uma coisa ou outra, não tem como fazer as duas coisas. É o que a gente não quer para a política de Campos. Digamos que, pela comparação, poderia ser o Trump de Campos”.

Dra. Carla Waleska — “Ela entrou no último momento, então eu tenho pouca referência em relação a ela. Ela, inclusive, é a esposa de um funcionário que a gente tem contratado na universidade, com o qual eu tenho um certo grau de relacionamento, mas com ela não tenho nenhum. Foi muito conturbado o processo do PSDB: primeiro não tinha (candidato a prefeito), depois tinha, depois não tem mais e, agora, colocaram a Carla Waleska. Se ela quiser ter futuro na política, não sei se ela quer, vai ter que construir esse futuro. Não se faz uma imagem política assim, aos 45 minutos do segundo tempo fica muito difícil”.

 

Confira abaixo os dois blocos da entrevista com o professor Raul Palacio, reitor da Uenf. O primeiro dedicado ao resultado às eleições presidenciais dos EUA. O segundo, que compôs a matéria acima, sobre as eleições municipais de Campos:

 

 

 

Bolsonaro comemora morte para deixar de salvar vidas de brasileiros

 

(Foto: Rafapress – Shutterstock)

 

Nesta madrugada, o presidente Jair Bolsonaro comemorou nas redes sociais a morte de um voluntário como motivo para a Anvisa suspender os testes da Coronavac. É a vacina contra a Covid-19 desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac e o instituto brasileiro Butantan, capaz de salvar a vida de dezenas de milhares de brasileiros. Com o país à beira da segunda onda da doença, sem ainda ter saído (confira aqui a situação em Campos) da primeira.

Pois hoje à tarde, poucas horas depois, o IML de São Paulo divulgou que o voluntário, de 33 anos, morreu de suicídio. O que assina o atestado de óbito de qualquer traço de inteligência ou caráter não só do atual presidente do Brasil, caído da mudança na derrota eleitoral nos EUA que (confira aqui) fez sua, como de qualquer um que ainda se preste a apoiar um tipo desse de ser humano:

— Mais uma que Jair Bolsonaro ganha — escreveu o presidente.

E se você não é capaz de enxergar com toda a clareza quem perde, meus pêsames!

 

(Reprodução do Facebook)

 

George Coutinho entre eleições dos EUA e Campos, no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Entre as eleições presidenciais dos EUA e as municipais de Campos, o convidado do Folha no Ar, a partir das 7h15 desta quarta (11), é o cientista político e sociólogo George Gomes Coutinho, professor da UFF. Ele falará sobre a eleição do democrata Joe Biden a presidente dos EUA e suas consequências ao Brasil de Jair Bolsonaro (sem partido). E analisará as possibilidades ao pleito deste domingo, 15 de novembro, a prefeito de Campos.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Hamilton Garcia: “Não se governa mais Campos com o ‘meu grupo político’”

 

Cientista político e professor da Uenf, Hamilton Garcia analisou os candidatos e a eleição a prefeito de Campos neste domingo (Foto: Folha da Manhã)

 

“Eu andei acompanhando várias entrevistas que vocês fizeram na Folha da Manhã, e o que a gente vê são candidatos (a prefeito de Campos) falando do ‘meu grupo político’. Então eles passam diretamente do seu grupo político para a municipalidade, sem mediação. Isso aconteceu com o próprio Rafael (Diniz, Cidadania), que governou com o grupo político dele. Não é negociar com a Câmara, é negociar com as lideranças políticas da cidade. Isso Rafael não foi capaz de fazer e acho que ele nem se apercebeu disso. E os candidatos alternativos a ele tampouco percebem que a dimensão política da cidade exige uma coalizão de forças. Rafael conseguiu tirar Campos das páginas policias para colocar nas páginas políticas, mas isso ele não conseguiu fazer. Olhando para as lideranças locais, elas ainda estão no tempo do ‘meu grupo político resolve’. Não se governa Campos com o ‘meu grupo político’, é preciso dar um passo além”. Foi o que disse o cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf, em entrevista na manhã de hoje no Folha no Ar, da Folha 98,8 FM.

— Por que que eles (Wladimir Garotinho, PSD, e Caio Vianna, PDT) estão lá em primeiro lugar (nas pesquisas eleitorais)? Por causa das oligarquias familiares. Mas se elas são importantes para ocupar o espaço político que foi deixado com o fracasso do governo Rafael, não são suficientes para se instituir um governo. Sobretudo nos dois primeiros anos do próximo governo, você vai ter que distribuir sacrifícios. Para que as pessoas aceitem, se coloca a questão do pacto: sacrifício para quê? Sacrifício para o “meu grupo”? Não faz sentido. Ou sacrifício que você faz é para todos, ou o que você vai ter são greves, sabotagens, uma Câmara baseada em ‘Chequinho’. E não funciona mais, até porque o ‘Chequinho’ murchou. Ou então vai afundar um pouco mais na crise (financeira) e nas consequências da crise. Porque a gente acha que a situação está muito ruim, mas não há ruim que não possa piorar. A questão é se as pessoas vão correr para um falso porto seguro do passado, que as oligarquias representam. É aquela ideia de que ‘o passado era bom’. Mas, votando nas oligarquias, o passado não volta, não voltam as condições econômicas; voltam só as oligarquias — advertiu o cientista político.

Ao final do Folha no Ar, o professor Hamilton respondeu a um pinga-fogo, com um resumo do seu pensamento sobre cada um dos 11 candidatos a prefeito de Campos para as urnas de 15 de novembro:

 

Wladimir Garotinho — “É o desafio da mudança geracional. Nem sempre a gente tem bons sinais disso. Sérgio Cabral também foi uma mudança geracional importante na política do Estado do Rio do Rio de Janeiro, e deu no que deu”.

Caio Vianna — “Da mesma maneira. Só que tenho a impressão que Caio Vianna também tem o problema da inexperiência política. Wladimir teve a experiência parlamentar (como deputado federal), está mais apetrechado que o Caio Vianna, que me parece muito arrogante”.

Dr. Bruno Calil — “Eu conheço pouco o candidato, mas acho que ele não se preparou adequadamente para essa eleição”.

Rafael Diniz — “Um prefeito que enfrentou a crise, não foi bem sucedido, mas pelo menos ele sabe o tamanho do pepino que ele tem que administrar. E me parece que tem que avançar muito em termos da compreensão do quadro político regional e sair da bolha; porque ainda não furou a bolha onde ele está”.

Professora Natália — “Parece uma candidata conceitual, que mostra essa ideia da possibilidade de um governo mais popular, mais aberto à sociedade, mais dialogal. É uma promessa interessante, mas que ainda não galgou o lugar de uma alternativa política”.

Odisséia — “Uma liderança experimentada no sindicalismo, na Câmara de Vereadores, uma pessoa com a capacidade de interlocução ampla. Mas ainda muito presa à pauta sindicalista e também pouco projetada numa candidatura política ampla da cidade”.

Tadeu Tô Contigo — “Um grande comunicador, que ainda se vale dessa possibilidade da comunicação. Pode vir a surfar ondas como comunicador, com as suas promessas. Mas acho que está distante de entender o que está acontecendo com a cidade”.

Roberto Henriques — “Talvez seja o único candidato com uma consciência muito clara, essa visão; eu não vejo nos outros. Pode ser um cacoete de linguagem, mas eu desconfio que não, que é uma consciência profunda da política. Que, no entanto, vai ter que ser refeita nas condições atuais”.

Cláudio Rangel da Boa Viagem — “Ele me surpreendeu nas entrevistas com vocês (no Folha no Ar). Porque apesar do pouco preparo escolar, de expressão, de mídia, ele surpreendeu pelas boas ideias, pelo entendimento que ele tem da realidade. É um candidato que tem muito pouca chance, pela sua forma, mas é bastante compromissado com a cidade”.

Jonathan Paes — “Esse é o candidato que eu menos observei nesse cenário. É muito impetuoso, mas talvez não tenha condições de assumir responsabilidades maiores”.

Dra. Carla Waleska — “Eu comentaria sobre o antigo candidato (a prefeito do PSDB, que desistiu). Beethoven parecia ter se preparado muito para disputar essa eleição, parecia ser o candidato com chances de, se eleito, fazer alguma coisa. Ela, eu não tenho grandes informações, não saberia dizer. Entrou no final do segundo tempo e não fez aquecimento”.

 

Confira abaixo os dois blocos da entrevista com o cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf. O primeiro dedicado ao resultado às eleições presidenciais dos EUA. O segundo, que compôs a matéria acima, sobre as eleições municipais de Campos:

 

 

 

Crescimento da Covid ainda não preocupa, mas Unimed suspendeu cirurgias

 

 

Campos vem registrando aumento de casos de Covid-19 nas últimas quatro semanas. Diante do crescimento, o Hospital da Unimed suspendeu na semana passada suas cirurgias eletivas desde o último dia 4. Mas, diferente do que foi divulgado em áudios anônimos de WhatsApp, que viralizaram nas redes sociais locais, o avanço da doença ainda não preocupa. E, por enquanto, não é nada que tire o município da Fase Verde do plano de enfrentamento ao novo coronavírus. A informação é da chefe da Vigilância em Saúde de Campos, a médica infectologista Andreya Moreira. E foram em parte endossadas pelo diretor-médico do Hospital Dr. Beda, o médico oncologista Diogo Neves.

 

Hospital da Unimed suspendeu cirurgias eletivas desde o dia 4, por conta do aumento dos casos de Covid-19

 

Os áudios falavam de uma suposta superlotação da rede privada do município. Andreya explicou que, apesar do aumento de casos, a Unimed abriu em seu hospital seis novas vagas de UTI específicos para Covid. Onde tem hoje dois infectados pela doença, com outros 14, em casos menos graves, internados em leitos clínicos. Em relação ao Dr. Beda, Diogo informou que existem hoje quatro doentes de Covid em leitos de UTI, e outros 13 em leitos clínicos. O médico esclareceu que, pelo menos no Beda, o aumento de casos ainda não preocupa e está longe de atender mesmo número de casos de dois meses atrás.

 

Andreya Moreira, Diogo Neves e Cintia Ferrini (Montagem: Eliebe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Na rede pública, Andreya informou que o Centro de Controle e Combate ao Coronavírus (CCC), instalado na Beneficência Portuguesa, tem hoje 15 doentes de Covid internado na UTI, em um total de 29 leitos, além de outros 25 em leitos clínicos, setor que conta ao todo com 60 leitos. “Na rede pública, não temos aumento de ocupação até o presente momento”, refirmou a secretária de Saúde de Campos, Cintia Ferrini.

Devido à viralização dos áudios anônimos de WhatsApp dando conta de uma suposta superlotação de pacientes de Covid na rede privada de Campos, o Gabinete de Crise do município emitiu uma nota, para desmentir a notícia e evitar alarmismos. Confira abaixo:

 

“O Gabinete de Crise de enfrentamento ao Coronavirus está monitorando o aumento de internações na rede particular e informa que na rede pública, até a presente data, 09/11, tem se mantido uma média de 50% de ocupação, com pouca oscilação. Não procede a informação de lotação dos leitos do Centro de Controle, tampouco de unidades hospitalares municipais.

Cabe lembrar que a decisão de mudança ou permanência de fase (Verde) é tomada a partir de avaliação técnica criteriosa da Prefeitura, somada à análise do Departamento de Vigilância em Saúde sobre o cenário epidemiológico.

O modelo matemático e estatístico desenvolvido para avaliar como está a pandemia no município considera os números da última semana no que tange à propagação da Covid-19 e à capacidade do sistema de saúde, além de outros dados, incluindo a ocupação de leitos.

O Gabinete de Crise lembra que é importantíssimo que a população entenda a responsabilidade de permanecer atenta às medidas de enfrentamento à Covid-19 e seguir as orientações”.

 

Reitor da Uenf entre eleições dos EUA e Campos, nesta terça no Folha no Ar

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Entre a eleição presidencial dos EUA e a municipal Campos, no próximo domingo (15), o convidado do Folha no Ar, a partir das 7h15 da manhã desta terça (10), é o professor Raul Palacio, reitor da Uenf. Ele falará ao vivo na Folha FM 98,3 sobre a eleição do democrata Joe Biden a presidente dos EUA e seus reflexos sobre o Brasil de Jair Bolsonaro (sem partido). E projetará suas perspectivas ao pleito a prefeito de Campos, dentro do conexto da grave crise financeira do município.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Entre eleições dos EUA e Campos, Hamilton Garcia nesta 2ª no Folha no Ar

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Na semana seguinte à eleição presidencial dos EUA e anterior ao domingo de eleições municipais em Campos e no Brasil, quem abre o Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf. Ele falará sobre a vitória do democrata Joe Biden e suas consequências ao Brasil de Jair Bolsonaro (sem partido), que tinha o presidente derrotado Donald Trump como principal referência política. Analisará também a crise financeira de Campos e dará suas perspectivas sobre o pleito municipal de domingo, 15 de novembro.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Confirmado oficialmente o que a Folha adiantou: Joe Biden é o presidente dos EUA

 

(Infográfico: Associated Press)

 

A Associated Press acabou de oficializar o que o blog havia adiantado (confira aqui) desde o início da manhã de ontem: Joe Biden foi eleito como 46º presidente dos EUA. Ele venceu o atual presidente Donald Trump tanto no voto popular, quanto no que vale: o do colégio eleitoral dos estados. O que decretou a oficialização foi o estado da Pensilvânia, onde Biden nasceu e bateu Trump por 49,7% a 49,2% do voto popular. Com isso o democrata levou os 20 delegados do estado, somando 284 — 14 a mais que os 270 necessários para definir o ocupante da Casa Branca, a partir de 20 de janeiro de 2021. A vantagem de Biden, no entanto, deve chegar ainda a 306 votos no colégio eleitoral, confirmadas suas vitórias também nos estados da Geórgia (16 delegados) e de Nevada (6 delegados).

 

 

—  (Estados Unidos da) América, eu estou honrado por você ter me escolhido como líder do nosso grande país. O trabalho à nossa frente será duro, mas eu prometo: serei um presidente para todos os americanos, tenham vocês votado em mim ou não. Com o fim da campanha, é hora de colocar a raiva e a retórica dura para trás e nos unir como uma nação. É a hora de se unir e se de curar. Somos os Estados Unidos da América. E não há nada que não possamos fazer, se fizermos isso juntos — declarou Biden no Twitter sobre a sua vitória, pregando a união de um país dividido nas urnas. Após ser eleito em 1972 como o senador mais jovem dos EUA, aos 29 anos, ele foi confirmado hoje como o presidente mais velho a ser eleito no país.  Tem atualmente 77 anos e assumirá a democracia mais longeva do mundo aos 78, após aniversariar no próximo dia 20.

 

Joe Biden e sua vice, Kamala Harris (Foto: Twitter)

 

Político moderado em seus 47 anos de vida pública, oito deles como vice-presidente dos dois mandatos de Barack Obama, Biden conseguiu a candidatura após comandar a maior virada da história (relembre aqui) nas convenções do Partido Democrata, onde bateu o socialista Bernie Sanders. Com a confirmação oficial da sua vitória hoje, ele traz na chapa eleita outra novidade: a primeira mulher e primeira negra a ser eleita vice-presidente, Kamala Harris, ex-senadora pela Califórnia, estado em que já tinha atuado como promotora de Justiça.

 

https://twitter.com/SamPancher/status/1324515716222115841?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1324515716222115841%7Ctwgr%5Eshare_3&ref_url=http%3A%2F%2Fopinioes.folha1.com.br%2F2020%2F11%2F06%2Fbiden-e-o-novo-presidente-dos-eua-trump-esperneia-e-bolsonaro-fica-mais-so%2F

 

Derrotado, Donald Trump é o primeiro presidente dos EUA a não conseguir se reeleger desde 1992, quando o também presidente republicano George Bush foi derrotado pelo democrata Bill Clinton. Sem apresentar uma única prova, o atual presidente vem denunciando “fraude” desde antes do pleito de 3 de novembro. Na quinta (05), já ciente da vitória de Biden nas urnas, Trump voltou a denunciar (relembre aqui) “fraude” sem provas. Sem precedente na história dos EUA, mas que deve servir como padrão à mídia do mundo, o pronunciamento presidencial teve a transmissão interrompida pelas principais redes de TV, por conta da divulgação de informações falsas. Assim como vem acontecendo as postagens de Trump no Twitter. Ainda assim, promete recorrer à Suprema Corte contra sua ordem de despejo da Casa Branca emitida pela vontade popular.

 

Ernesto Araújo, Jair Bolsonaro e Ricardo Salles, emparedados pela derrota de Donald Trump

 

Com as apostas encerradas sobre o novo presidente dos EUA, outras serão abertas do lado de cá do Equador. Quais serão os reflexos da derrota do trumpismo ao Brasil de Jair Bolsonaro (sem partido)? E quanto tempo mais durarão nos cargos seus ministros Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, e Ricardo Salles, do Meio Ambiente? O primeiro se referia a Trump como “enviado de Deus” para salvar o Ocidente. Já Salles é considerado o principal responsável pelas queimadas na Amazônia, criticadas por Biden no debate presidencial de 29 de setembro. Por sua vez, Bolsonaro endossou publicamente as denúncias de “fraude” sem provas de Trump, a quem tem como ídolo. Cujos pés de barro foram erodidos pela democracia, deixando orfã a extrema-direita do mundo.

 

Fotos de Trump com o bordão “You’re fired!” (“Você está demitido!”) do talk-show de sucesso que ele comandou na TV antes de se eleger presidente em 2016, viralizaram nas redes sociais dos EUA, do Brasil e do mundo, desde a oficialização da sua derrota nas urnas para Joe Biden

 

Enquanto as dúvidas se instalam no governo Bolsonaro com a derrota de Trump, outras autoridades da República tomaram a frente do Palácio do Planato para saudar a vitória do novo presidente dos EUA e da democracia, com recados velados a Brasil:

A vitória de @JoeBiden restaura os valores da democracia verdadeiramente liberal, que preza pelos direitos humanos, individuais e das minorias. Parabenizo o presidente eleito e, em nome da Câmara dos Deputados, reforço os laços de amizade e cooperação entre as duas nações — twitou o presidente da Câmara Federal, deputado Rodrigo Maia (DEM/RJ).

 

 

 

— Democracia significa eleições limpas, alternância no poder e respeito aos resultados. E, também, civilidade. Cumprimento Joe Biden, presidente eleito dos Estados Unidos, e a vice Kamala Harris, primeira mulher eleita para a função no país — disse também no Twitter o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso.

 

 

Eleição a presidente dos EUA por Campos dos Goytacazes

 

Joe Biden espera apenas a confimação oficial da sua viória eleitoral sobre Donald Trump na disputa à presidência dos EUA (Montagem: The Wall Street Journal)

 

Embora hoje dispute com a China a posição de economia hegemônica no mundo, a atenção que a humanidade dedica desde terça (03)  às eleições presidenciais dos EUA evidencia a nação que ainda é sua maior referência. No Brasil e em Campos, não foi diferente. E a atenção foi reforçada pelo suspense da apuração lenta da única democracia que elege seus governos há mais de 230 anos. Isto e o fato do seu atual presidente, Donald Trump, ser capaz de atacar essa mesma democracia por não aceitar a ordem de despejo da Casa Branca emitida pelas urnas, inventando “fraudes” e prometendo levar a questão à Suprema Corte dos seu país. Além da celeuma, o que o Brasil governado pelo trumpista Jair Bolsonaro (sem partido) pode esperar dos EUA governados pelo democrata Joe Biden? E, em especial, o Estado do Rio e Campos? Em busca de respostas, a Folha fez perguntas ao advogado Carlos Alexandre de Azevedo Campos, ao cientista político Hamilton Garcia e à socióloga e advogada Sana Gimenes, professores, respectivamente, da Uerj e Isecensa, da Uenf, e da Uniflu e Candido Mendes.

 

Professores Carlos Alexandre de Azevedo Campos, advogado; Hamilton Garcia, cientista político; e Sana Gimenes, socióloga e advogada (Montagem: Elaibe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Folha da Manhã – Após a vitória nos estados da Flórida e no Texas na eleição presidencial dos EUA, o mundo que foi dormir na madrugada de quarta (04) com a perspectiva da vitória de Donald Trump, acordou no final da manhã do mesmo dia com as esperanças acesas para Joe Biden, após a conquista do estados do Arizona e da liderança em Nevada, além da virada em Winsconsin e Michigan. Que se confirmariam na sexta com as viradas democratas também na Geórgia e na Pensilvânia? Foram muitas emoções? O que esperar pela razão?

Carlos Alexandre de Azevedo Campos – Sim, anseio pela derrota de Trump. Essa resposta inicial é sintomática: menos do que a vitória de Biden, me alegra o significado do que seja a derrota de Trump. Tenho o dever da sinceridade intelectual em minhas respostas. Daí essa resposta inicial. Vale para o resto de minhas respostas. Porém, por conta dos números, e por conhecer um pouco, por pesquisa, da prática estadunidense de votar, não dormi com a vitória de Trump, e sim com a esperança, sem certeza, da virada de Biden. Por acreditar na razão dos americanos, hora nenhuma dei como marcada a vitória de Trump.

Hamilton Garcia – No contexto de uma sociedade dividida e polarizada, como os EUA deste século, das seis eleições realizadas, somente duas foram resolvidas com folga maior que 3,8%: as que sagraram Barack Obama. É de se esperar eleições disputadas urna a urna e, sob o trumpismo, com muita retórica e algum tensionamento.

Sana Gimenes – Certamente foram muitas emoções e também muita incredulidade diante do fato de que uma das maiores democracias do mundo tenha um sistema eleitoral tão complexo e, ao mesmo tempo, arcaico. Simbolicamente, faz todo o sentido que as eleições talvez se definam pelo Estado das grandes, e arriscadas, apostas que é Nevada. Pelo lado da razão, o resultado vai ser muito apertado, mas acho que com o atual cenário já dá para acreditar na vitória dos democratas.

 

Suprema Corte dos EUA

 

Folha – Desde antes da eleição, Trump alegava fraude. E declarou que vai questionar o resultado da eleição até a Suprema Corte, onde garantiu maioria conservadora. O motivo é o voto pelos correios, que existem nos EUA desde a Guerra de Secessão (1861/1865). Os democratas também recorreram à Suprema Corte em 2000, mas não conseguiram reverter a derrota de Al Gore para George W. Bush. Dá para esperar resultado diferente agora?

Carlos Alexandre – Em meu primeiro livro, que foi acerca do ativismo judicial, dediquei um capítulo só para os Estados Unidos, e um espaço grande para a decisão Bush vs. Gore (Bush vs. Gore, 531 U.S. 98 [2000]). A doutrina majoritária chama a decisão, que favoreceu Bush, de partidária, portanto, ilegítima. Não concluí dessa forma. Nas eleições de 2000, houve um impasse na contagem de votos na Flórida, haja vista a primeira apuração ter apontado vitória de Bush, por uma margem menor que 0,5%. Essa margem ínfima, segundo a legislação estadual, autoriza a recontagem manual dos votos. Al Gore pediu essa recontagem nos municípios que normalmente votavam com os Democratas, e à medida que a recontagem ocorria, a margem de vitória de Bush era ainda mais reduzida, com tendência ao final de ser revertida. O problema era que o prazo legal de anúncio do resultado iria expirar. A Suprema Corte da Flórida autorizou que esse prazo fosse estendido. E foi acusada por muitos de praticar ativismo judicial. Mas a Suprema Corte suspendeu a decisão, paralisando a recontagem. Com isso, a Suprema Corte decretou a vitória de Bush. E foi acusada de praticar ativismo judicial. Prazos, por segurança jurídica, deveriam ser respeitados. Hoje, a Suprema Corte ainda tem uma “maioria republicana”. Mas um democrata, Biden, está à frente. Será que a Corte terá o capital institucional para afirmar uma “suposta fraude” para, manifestamente, reverter a eleição em favor de um republicano? Não há base para tanto, e a mesma segurança jurídica que norteou Bush vs. Gore deve hoje iluminar a Corte para sacramentar a derrota do desespero infundado de Trump. É o que se espera do Tribunal Superior mais respeitado do mundo.

Hamilton – Nos EUA, a contestação eleitoral passa pelo sistema judiciário normal, de longa tradição, de modo que é de se esperar que hajam provas para se invalidar votos, o que pode atrasar a proclamação do resultado, mas não deve embaralhar o jogo como se tem especulado.

Sana – Não acredito que a Suprema Corte vá reverter o resultado, seja ele qual for, não apenas porque não me parece haver lastro jurídico para tanto, mas também porque no atual nível de polarização em que a nação se encontra isso seria como apagar um incêndio com querosene e poderia ameaçar a estabilidade institucional de um país que, historicamente, respeita as instituições. Apesar das divisões internas, creio que haveria até algum consenso dentro do Partido Republicano contra alegações totalmente infundadas de fraude que apenas satisfazem ao ego infantil e autoritário de Trump.

 

Donald Trump e Jair Bolsonaro (Foto: Jim Watson – AFP)

 

Folha – A alegação de fraude de Trump foi ecoada publicamente pelo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (sem partido). Após ele ter tentado se meter e contribuir na eleição da Argentina e contribuir para a derrota de Mauricio Macri, a quem apoiou, o que o Brasil tem a ganhar com a nova tentativa de interferência? E a perder, com a vitória de Biden?

Carlos Alexandre – Acho, com toda a sinceridade, que Bolsonaro não é um personagem relevante no cenário internacional. Ele não é levado à sério como liderança, ainda mais considerado o seu ministro das Relações Exteriores. Para mim, a sua opinião é nula sobre a eleição discutida. Não obstante, acredito que Biden é inteligente, e, como os Democratas, de todo sempre, não são os radicais que Trump e sua “trupe” pintam, vai abrir o diálogo com nosso presidente. Bolsonaro, que só pensa em reeleição, não vai se fechar ao diálogo com o mais importante país do mundo. Mudança, se vier, só vai ser simbólica para os radicais e cegos bolsonaristas.

Hamilton – Nada a ganhar: só demonstra o despreparo do atual presidente brasileiro, incapaz de entender um sistema jurídico-político de aparência similar ao nosso, mas radicalmente distinto em seu “espírito”, baseado num individualismo autonomista estranho à nossa tradição do favor/dependência. A possível vitória de Biden deve desestabilizar a política de alinhamento automático com os EUA, inaugurado no governo Bolsonaro, reforçando as vertentes soberanistas majoritárias em nossas elites, inclusive militares.

Sana – O Brasil não tem nada a ganhar com essa interferência, mesmo no caso de uma vitória de Trump. O presidente dos EUA já deixou bem claro, em mais de um episódio, que o “viralatismo” de Bolsonaro só serve, e quando serve, para a concessão de migalhas que em nada alteraram nossa posição geopolítica. Muito ao contrário. Quanto a uma vitória de Biden, isso enfraquece a pessoa do presidente brasileiro e, consequentemente, a sua governabilidade, mas não creio que isso atinja, a princípio, o Brasil enquanto nação, a não ser que Bolsonaro resolva assumir uma postura ainda mais radical, e kamikaze, e se alinhe de forma claramente contrária aos EUA.

 

Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro, e Ricardo Salles, do Meio Ambiente, têm cabeças a prêmio com a vitória de Biden (Foto: Arthur Max – AIG – MRE)

 

Folha – Depois das declarações de Bolsonaro em apoio às teorias da conspiração de Trump, o vice-presidente brasileiro Hamilton Mourão tentou consertar as coisas. Antes da eleição presidencial dos EUA, analistas diziam que, em caso de vitória de Biden, dois ministros olavistas do governo brasileiro estariam com os dias contados: Ricardo Salles, no Meio Ambiente, e Ernesto Araújo, das Relações Exteriores. Como você projeta?

Carlos Alexandre – Essa pergunta é excelente, e só reflete a sensibilidade intelectual do entrevistador. Penso que, para manter boa relação com a maior nação do mundo, faz-se necessário se livrar de imbecis em posições estratégicas de decisão. Os dois ministros citados já demonstraram estar na contramão do que o mundo relevante pensa, sem grande oposição dos Estados Unidos. Agora terão essa oposição, sem dúvidas. Bolsonaro, que já se mostrou pragmaticamente infiel, não terá saída, senão se livrar desses pesos. É uma questão de pragmatismo, sem culpa com o eleitorado doentio.

Hamilton – O filoamericanismo e, mais recentemente, o negacionismo ambiental têm tido dificuldades de aceitação no país devido a vários fatores, o mais notável deles a ortodoxia ideológica que os sustenta e é estranha à nossa cultura. O ministro Araújo, um intelectual preparado, embora desprezado pelas elites acadêmicas, tem sua ascensão na carreira ligada ao bolsonarismo, de modo que deve se adaptar às oscilações táticas exigidas pela política externa. Já o ministro Salles, com problemas na Justiça e suplantado pelo vice Mourão na questão amazônica, parece menos capaz de sobreviver à pressão que está por vir.

Sana – Faz sentido na medida em que estamos falando de um país da magnitude dos Estados Unidos e, independentemente do alinhamento ideológico entre Bolsonaro e Biden, esses ministros dificultariam ainda mais o diálogo entre as duas nações. Por outro lado, é bom lembrar que Bolsonaro vem sistematicamente atacando a China, a despeito da importância que essa relação tem para o Brasil. O problema de governantes bufões como Bolsonaro, ou o próprio Trump, é justamente esse: não dá para esperar razoabilidade.

 

Incêndio na Amazônia em 2020 (Foto: Mario Tama – Getty Images)

 

Folha – No debate presidencial de 29 de setembro, Biden chegou a criticar os incêndios criminosos na Amazônia. Que já tinham gerado pesadas críticas de uma Europa com sua cena política cada vez mais dominada pelos Partidos Verdes. Isso sem contar o desgaste brasileiro com a China, de quem Bolsonaro se recusa a comprar as vacinas contra a Covid-19, desenvolvida com o Butantan. Sem Trump no poder, o Brasil vira um pária internacional?

Carlos Alexandre – Bolsonaro perde o seu aliado negacionista mais importante. Na verdade, para o mundo, mais do que um aliado, perde sua base de legitimação. Em relação à Covid, sem Trump, Bolsonaro vira para o mundo aquilo que ele é, para muitos brasileiros como eu: uma piada de mau gosto. E isso porque, para agradar seus eleitores sensacionalistas e nacionalistas, ele sempre insistiu que a crise sanitária fosse uma invenção, talvez uma armadilha dos imaginários “inimigos da esquerda”. Espero que a sua hora de enfrentar a verdade também chegue.

Hamilton – Não, uma nação-pária tem que ter um histórico significativo de maus-feitos à sociedade e ao mundo, o que está longe de ser nosso caso. O que temos é um governo isolado internacionalmente, mas os governos passam.

Sana – Não acho que chegue a esse extremo, mas, de fato, o país ficaria cada vez mais isolado no cenário internacional. De todo modo, isso também faria com que setores menos extremistas da própria base aliada do governo pressionassem Bolsonaro para que determinadas políticas, como a ambiental, por exemplo, fossem revistas. Já vimos isso acontecer antes.

 

Viktor Órban e Andrzej Duda, presidentes da Hungria e da Polônia, são a extrema-direita no poder que restou a Bolsonaro no mundo, após a derrota de Trump nos EUA

 

Folha – A eleição presidencial dos EUA foi e é apontada como a mais importante em décadas, pela capacidade de determinar os rumos do mundo. Como analisa isso e o fato dela ter gerado tanto interesse entre os brasileiros? Consumada a derrota de Trump, restará ao Brasil de Bolsonaro o diálogo só com a extrema-direita no poder na Hungria e na Polônia, países menos importantes da Europa?

Carlos Alexandre – É importante, como foi e sempre será, para o Brasil e para o mundo, porque os Estados Unidos são a mais importante nação do mundo, sob todos os aspectos. Porém, considerada a aliança conservadora entre Trump e Bolsonaro, o resultado ganhou cores mais fortes entre nós. Bolsonaro é, para o terror e amnésia de seus idólatras, muito mais pragmático do que fiel às suas bravatas de eleição. Não é liberal, e seu conservadorismo extremo vai até a página dois, ou até as manchetes de carnaval, se isso lhe convier. Não vai se isolar com países desimportantes, considerado o cenário internacional, se isso vier a atrapalhar sua agenda econômica.

Hamilton – O rumo do mundo está sendo definido pela reemergência da Ásia, iniciada pelo Japão e depois engrossada pelos “tigres” e, a seguir, pela China. A ascensão chinesa tem um peso inédito, dado o tamanho de sua população, a tradição de nação fechada ao mundo e ao fato de ser uma potência dirigida por um partido único, comunista, uma combinação desafiadora em termos geopolíticos para as potências ocidentais. A China não precisa fazer muito para se consolidar como potência hegemônica: basta refrear seu ímpeto territorialista, no Sul asiático, até que as contradições inerentes às civilizações decadentes cimentem o caminho de uma nova ordem mundial onde seu poderio econômico passe a dar as cartas, com os desdobramentos militares costumeiros.

Sana – As eleições dos EUA sempre despertaram interesse no resto do mundo em razão da influência internacional que esse país tem. Nessa eleição presidencial, porém, estão à prova dois fenômenos globalmente observados nos últimos anos: a popularidade de políticos que negam a lógica e o decoro da política tradicional, sob a alegação de que seriam mais honestos e eficientes, e também a ascensão de um discurso de extrema-direita que prega a intolerância e a desigualdade. Consumada a derrota de Trump, veremos que esses dois fenômenos, apesar de barulhentos, mostraram muito precocemente os seus sérios limites até para os seus eleitores. Restará a Bolsonaro baixar o tom ou se alinhar com os países mencionados, mas essa segunda opção certamente traria ainda mais dificuldades para o seu governo.

 

Complexa cédula de votação, com várias escolhas além de presidente, usada para votar nos Correios dos EUA no estado da Carolina do Norte (Foto: Foto: Jonathan Drake – Reuters)

 

Folha – O interesse dos brasileiros gerou comparações do processo eleitoral dos EUA, com apuração lenta pelos votos em cédula de papel e do complexo sistema do colégio eleitoral, com o nosso, com urnas eletrônicas e que define o presidente pelo voto direto do cidadão. Como avalia essa comparação? Sobretudo com a possibilidade de questionamento das urnas no Judiciário, faz falta aos EUA a existência de uma Justiça Eleitoral?

Carlos Alexandre – Não faz falta. Isso é cultura institucional. Até porque, lá não são definidos apenas cargos de governo. As eleições, que são comandas pelos Estados, não envolvem apenas representantes de governo, mas vários plebiscitos sobre questões morais e políticas cruciais, como aborto, armas, drogas, casamento gay, etc. É impossível a comparação. No mais, o Colégio Eleitoral é uma prática secular que sempre foi aceita como a mais democrática, sem grandes questionamentos internos. Discussões existiram, inclusive na Suprema Corte, sobre o peso do voto em cada distrito eleitoral, mas nunca sobre o método da eleição.

Hamilton – A democracia americana é incomparavelmente melhor e mais sólida que a nossa. Não só pela perenidade de suas instituições, a Constituição deles data da fundação da nação em 1787, numa guerra independentista, enquanto nós tivemos sete delas desde nossa fundação como Estado, em 1822, a partir da cisão da Coroa lusitana. Mas tamém pelo fato dessas insituições derivarem da rica e dramática experiência de um povo majoritariamente livre, o que lhes permitiu sobreviver a uma guerra civil. A vantagem advinda de nosso vanguardismo no voto eletrônico, não nos iludamos, é fruto da corrupção endêmica que existe até hoje e nos impede, por exemplo, de votar pelo correio, o que constitui um nítido e singelo sinal de elevada cidadania.

Sana – O sistema eleitoral dos EUA não faz jus à sua democracia. São inúmeros problemas como: a inexistência de normas eleitorais unificadas em nível nacional, a sub-representação dos Estados mais populosos da Federação, além do próprio modelo de votação majoritariamente por cédulas em uma nação de dimensões continentais. Temos um sistema que também pode ter falhas, mas está muito mais próximo da compreensão popular, que é o cerne da própria democracia, além de ser modernamente operado através de urnas eletrônicas e efetivado por meio de uma estrutura jurídica própria.

 

Vala comum aberta para enterrar os mortos da Covid na ilha Hart, em Nova York (Foto: Lucas Jackson – Reuters)

 

Folha – Parece ser consenso que, mais do que Biden, foi a atuação desastrosa de Trump no enfrentamento dos EUA à pandemia da Covid-19 que definiu a eleição presidencial deles. Concorda? E, com atuação igualmente questionada na condução da crise sanitária do novo coronavírus, por que esse mesmo desgaste popular não se deu também com Bolsonaro?

Carlos Alexandre – Concordo que o negacionismo prejudicou Trump em sua reeleição. Porém, discordo que o mesmo negacionismo não tenha prejudicado a credibilidade eleitoral de Bolsonaro. E isso porque, descontando os afetados pelo bolsonarismo extremo, ainda acredito no bom senso, no sentido do ridículo dos brasileiros. Bolsonaro ainda pagará a sua conta.

Hamilton – Trump jogou fora a segurança de sua reeleição porque não tinha como “emparedar” o vírus, precisando fazer algo além da espetacularidade com a qual governou até então. Já Bolsonaro é incapaz até mesmo de qualquer espetacularidade; não só porque pilota um Estado geopoliticamente fraco e economicamente falido, mas, sobretudo, por ter uma dimensão baixo-clericalista do poder, forjada no varejo das “rachadinhas” e nos subterrâneos da corporação onde se formou.

Sana – O posicionamento anti-Trump vem crescendo. Ele reúne, inclusive, alas do próprio Partido Republicano. Essa aversão está ligada a fatores mais amplos do que a questão da pandemia, que vão desde o desprezo às suas posições sexistas, racistas e homofóbicas, até sua condução da política externa e ambiental. De todo modo, é certo que a atuação desastrosa de Trump no enfrentamento à Covid-19 acirrou esse posicionamento, lembrando que os EUA são, hoje, o país mais atingido pela pandemia. Nossa realidade é distinta porque além de termos um sistema de saúde gratuito e universal, o que mitiga os efeitos dessa crise sanitária, também há uma vinculação muito mais direta da população aos serviços de saúde municipais, ou até mesmo estaduais e, consequentemente, aos seus governantes.

 

Trump e Biden no último debate presidencial dos EUA, na noite de 22 de outubro (Foto: Morry Glass- AP Photo)

 

Folha – No último debate presidencial dos EUA, em 22 de outubro, Biden prometeu marcar seu governo pela transição da matriz energética do petróleo para alternativas limpas, como a solar e a eólica. Caso isso se cumpra, como poderia afetar diretamente Campos, municípios vizinhos e o Estado do Rio, cuja mais parte da arrecadação ainda é de receitas petrolíferas?

Carlos Alexandre – As coisas boas demoram a chegar aqui. Às vezes, mais de um século! Não vejo qualquer efeito imediato de substituição, nem mesmo a longo prazo. Mas que ótimo seria se esse discurso incentivasse os brasileiros a buscarem fontes mais limpas, e os governos locais a incentivarem essa prática, e a transformarem isso em meio de recursos tributários novos. Em vez de substituição imediata, deveríamos pensar em complementação em médio e longo prazo, e em substituição, se um dia ocorresse, como política de futuro.

Hamilton – A princípio, a saída dos EUA da oferta tenderia a melhorar o preço da commodity, o que beneficiaria os outros produtores no curto prazo. Por outro lado, no longo, aceleraria a substituição das tecnologias demandadoras de combustíveis fósseis por de outras fontes, o que nos prejudicaria.

Sana – Não acredito que haveria efeitos tão diretos, principalmente, a curto ou médio prazo. O processo de transição da matriz energética não se dá forma tão rápida e ainda tendo a achar que o discurso de Biden nesse sentido é um tanto mais retórico do que prático. Ele, de fato, tem a preservação ambiental como uma de suas bandeiras, o que, por si só, já é um grande avanço, mas se não for possível conciliá-la com o desenvolvimento capitalista, é esse último que prevalecerá sem dúvida alguma.

 

 

Folha – Goste-se ou não dos EUA, o fato histórico é que eles são a mais longeva e importante democracia representativa do mundo. E são sua principal referência ao Ocidente, por mais que a ditadura da China tenha importância econômica internacional. Como essa influência se manterá em um país que, independente do resultado final, sai de uma eleição presidencial absolutamente dividido? Como projeta o futuro dos EUA para eles e o mundo?

Carlos Alexandre – Essa pergunta vale uma dissertação. Qualquer resposta resumida é historicamente incompleta. Mas vamos lá: essa nação foi forjada em separação de poderes e bipartidarismo forte. Tirando George Washington, neutro, os EUA foram criados por gênios contrapostos: por exemplo, Jefferson e Madison, de um lado, Adams e Hamilton, de outro. Esses quatro maiores teóricos e políticos da história nos ensinaram que uma grande nação se faz sob dois pontos: forte divisão intelectual sobre o que é governar, pois democracia é oposição forte; respeito ao que decidido pelo the people themselves (“as próprias pessoas”) o que significa que, até a próxima eleição, vale a decisão do representante eleito. Essas são as bases da longevidade democrática dos EUA. Sem Trump e seus extremismos, vejo um futuro mais tolerante para todos.

Hamilton – A democracia americana está mais preparada e equipada para enfrentar a crise hegemônica do Ocidente que as demais potências, mas precisará acertar nas respostas para manter seu protagonismo; o que parece difícil a julgar por suas práticas externas desde o fim da URSS e a fixação interna de suas elites intelectuais em pautas centrífugas.

Sana – Independentemente do resultado das eleições, o fato de a disputa estar tão acirrada parece apontar que o discurso virulento e irracional da extrema-direita começa a perder força. Com a vitória de Biden, ainda que a polarização permaneça, ele pode mostrar que, a despeito do que tem prevalecido no imaginário social, uma política mais progressista também pode ser economicamente eficiente. Para que a perda de influência dos EUA sobre o resto do mundo seja realmente palpável, teríamos que ter uma crise institucional interna em níveis nunca antes vistos. Lembrando que, a despeito de qualquer resultado eleitoral, a China hoje já é a maior economia do mundo.

 

Página 5 da edição de hoje (07) da Folha da Manhã

 

Biden é o novo presidente dos EUA, Trump esperneia e Bolsonaro fica mais só

 

Joe Biden na convenção democrata que o lançou candidato democrata a presidente dos EUA, cuja vitória sobre Donald Trump foi confirmada hoje  (Foto: Kevin Lamarque – Reuters)

 

Agora é oficial: Joe Biden é o próximo presidente dos EUA. Com a virada na Geórgia, estado tradicionalmente republicano, o democrata chega a 280 delegados, 10 a mais que os 270 necessários para determinar o ocupante da Casa Branca a partir de 20 de janeiro. Antes, deve ampliar a vantagem se confirmar os outros 20 delegados da Pensilvânia, mais os 6 de Nevada, somando os 306 de uma vitória incontestável. Donald Trump, que denunciava “fraude” bem antes das urnas de 3 de novembro, sem apresentar uma única prova, voltou a dizer hoje que vai recorrer à Suprema Corte da derrota no complexo sistema do colégio eleitoral. Como é o mesmo que lhe permitiu levar a presidência dos EUA em 2016, mesmo com 2,8 milhões de votos populares a menos que Hillary Clinton, Trump exerce quatro anos depois o famoso jus esperniandi (“direito de espernear”).

 

 

Na noite de ontem, Trump usou seus últimos dias na Casa Branca para chamar de “fraude” sua ordem de despejo emitida pela vontade popular. E teve a transmissão do seu pronunciamento interrompida pelos principais canais de TV do seu país, no que deve servir de “novo normal” à mídia do mundo com outros governantes sem pudor de mentir descaradamente. Desde que promulgaram sua única Constituição em 1787, foi a primeira vez em 233 anos que os EUA viram seu presidente atacar sua própria democracia. O atual mandatário republicano foi condenado publicamente por ex-procuradores de governos republicanos, deputados e senadores republicanos. O motivo da “fraude”? Os votos pelos correios, autorizados pela Suprema Corte e prática do país desde a Guerra de Secessão (1861/1865).

 

Donald Trump e Jair Bolsonaro (Foto: Jim Watson – AFP)

 

Ao Brasil, cujo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se prestou a ecoar publicamente as denúncias de “fraude” do seu “mito”, restam duas alternativas. Ou acerta o passo em sua política externa e na proteção ao meio ambiente, demitindo os ministros olavistas Ernesto Araújo e Ricardo Salles, ou o país se tornará um pária mundial. Sem Trump, sobraram ao capitão a interlocução com a extrema-direita no poder apenas na Hungria de Viktor Órban e na Polônia, de Andrzej Duda. E, em termos de relações comerciais, as duas pequenas nações do Leste da Europa representam ao Brasil pouco ou quase nada.

 

Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro, e Ricardo Salles, do Meio Ambiente, têm cabeças a prêmio com a vitória de Biden (Foto: Arthur Max – AIG – MRE)

 

Apesar da derrota, ninguém com isenção pode ignorar: Trump foi o eixo no qual girou essa eleição presidencial. Que ele perdeu para a pandemia da Covid-19 e suas graves consequências econômicas, como o desemprego galopante nos EUA, não para Biden. Ainda assim, o eleitor estadunidense branco, de pouca instrução e classe média baixa compareceu em massa para votar na reeleição do seu presidente. Que só não conseguiu levar por conta da perda em estados que acabaram sendo decisivos, como Arizona, Winsconsin, Michigan, Geórgia, Pensilvânia e Nevada. Mas basta olhar o mapa da votação para constatar o país que saiu visceralmente dividido das urnas.

A tarefa de suturar a ferida aberta caberá a Biden, político moderado em seus 47 anos de vida pública, acusado de “socialista” em delírio coletivo que agora terá que despertar à realidade com a cara ardendo pelo tapa. O novo presidente dos EUA não é um orador brilhante como Barack Obama, de quem foi vice por oito anos, nem um comunicador histriônico, mas talentoso, como Trump. Joe Biden é um homem normal que, não por acaso, é chamado nos EUA de “regular Joe”. Mas a quem a História legou a responsabilidade de determinar o futuro do seu país e do mundo. E terá que fazê-lo talvez sem poder atender a contento a juventude que tomou as ruas do mundo no Black Lives Matter (“Vidas Negras Importam”).

 

Motivado pela morte do negro George Floyd por um policial branco, protesto Black Lives Matter em frente à Casa Branca, em 1º de junho deste ano (Foto: Olivier Douliery – AFP)

 

Abraham Lincoln, presidente que liderou os EUA em sua Guerra Civil (1861/1865) para libertar os negros da escravidão, e seria assassinado por isso

“O homem é ele e suas circunstâncias”, ressalvava o filósofo espanhol Ortega y Gasset. E as circunstâncias do homem normal, que assumirá a mais longeva democracia representativa do mundo, são enormes. Aparentam também estranhas coincidências. Após conquistar a vaga para disputar a presidência na maior virada da história das primárias do Partido Democrata, contra o socialista de fato Bernie Sanders, Biden chega ao poder após virar a apuração que, até o dia seguinte à eleição, indicava a vitória de Trump. Com a derrota deste, o Partido Republicano, que deu aos EUA a referência presidencial de um Abraham Lincoln, terá que se reinventar para além do trumpismo.

Para não fragmentar ainda mais seu país, Biden terá que buscar o equilíbrio de quem caminha sobre o fio da navalha. Onde é sempre fácil cair, ou cortar o pé. Ainda assim, suas promessas de campanha são ousadas: enfrentar a segunda onda da Covid onde ela tirou o maior número de vidas humanas no planeta Terra, revitalizar o Obama Care dilapidado por Trump em um país sem SUS, taxar as grandes fortunas para bancar a assistência social aos mais pobres e impor um salário mínimo aos EUA de US$ 15 por hora. E o democrata será tão cobrado para implementá-las, quanto se não surtirem o efeito desejado.

Sólon, legislador ateniense a quem é creditada a criação da democracia no séc. VI antes de Cristo

A democracia foi inventada na Grécia Antiga, com as reformas de Sólon na cidade-estado de Atenas, por volta de 590 a.C. Funcionaria depois na República de Roma, antes do maior poder da Antiguidade se tornar o Império Romano. O sistema de governo que significa “poder do povo” só seria resgatado, mais de mil e setecentos anos depois, com a invenção da democracia representativa pelo Iluminismo, no séc. 18. E sua primeira experiência no mundo foi justamente no regime fundado pela Revolução Americana, para unir 13 ex-colônias britânicas que se tornaram independentes à bala. E que, sob a mesma Constituição, hoje somam os 50 estados que deram a vitória a Biden no mesmo sistema do colégio eleitoral que fez George Washington seu primeiro presidente, em 1789.

De lá para cá, não são poucos os analistas que consideraram a derrota de Trump, mais que a vitória de Biden, como a sobrevivência da própria democracia. Foi um teste ultrapassado não só pelos EUA, mas pelo mundo que não enxerga na ditadura da China, apesar da sua pujança econômica, uma opção política aceitável. Algo quase se quebrou neste mundo, na sua nação ainda mais importante. O vitral resultante terá suas cores reveladas pela luz do sol do amanhã. Hoje, as sombras perderam.

 

Quem quiser saber como os destinos dos EUA e do mundo foram definidos, desde as convenções democrata e republicana, passando pelos debates até a eleição presidencial e sua apuração, pode ler ou reler aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aquiaqui e aqui. Para quem quiser saber um pouco mais desses tais de americanos, e sobre a nossa relação com eles enquanto brasileiros, seguem abaixo valiosas lições na poesia de Caetano: 

 

 

 

Americanos

 

Americanos pobres na noite da Louisiana

Turistas ingleses assaltados em Copacabana

Os pivetes ainda pensam que eles eram americanos

Turistas espanhóis presos no Aterro do Flamengo

Por engano

Americanos ricos já não passeiam por Havana

 

Veados americanos trazem o vírus da Aids

Para o Rio no carnaval

Veados organizados de São Francisco conseguem

Controlar a propagação do mal

Só um genocida em potencial

— de batina, de gravata ou de avental —

Pode fingir que não vê que os veados

— tendo sido o grupo vítima preferencial —

Estão na situação de liderar o movimento

Para deter a disseminação do HIV

 

Americanos são muito estatísticos

Têm gestos nítidos e sorrisos límpidos

Olhos de brilho penetrante que vão fundo

No que olham, mas não no próprio fundo

Os americanos representam grande parte

Da alegria existente neste mundo

 

Para os americanos branco é branco, preto é preto

— E a mulata não é a tal —

Bicha é bicha, macho é macho

Mulher é mulher e dinheiro é dinheiro

E assim ganham-se, barganham-se, perdem-se

Concedem-se, conquistam-se direitos

Enquanto aqui embaixo a indefinição é o regime

E dançamos com uma graça

Cujo segredo nem eu mesmo sei

Entre a delícia e a desgraça

Entre o monstruoso e o sublime

 

Americanos não são americanos

São os velhos homens humanos

Chegando, passando, atravessando

São tipicamente americanos

 

Americanos sentem que algo se perdeu

Algo se quebrou, está se quebrando