Disponível em streaming pela Amazon, onde seu título brasileiro “Pegando Fogo” nem consta, “Burnt” (2015), de Peter Wells, impressiona de cara pelo elenco. É estrelado por Bradley Cooper, como um chefe de cozinha que volta do autoexílio dos EUA à Europa em busca de reabilitação pessoal e da terceira estrela Michelin. Mas traz ainda a craque inglesa Emma Thompson, o assíduo alemão Daniel Brünl, o francês Omar Sy, o galês Matthew Rhys e as estadunidenses Sienna Miller e a sumida Uma Thurman — eterna musa da fase inicial de Quentin Tarantino.
Além de revelar os bastidores de violência e competição da alta gastronomia — mais ou menos como “Prêt-à-Porter” (1994), do mestre Robert Altman, fez com o mundo da alta costura —, “Burnt” é um filme sobre redenção e arte. O politicamente correto buscou reduzir a história ao macho branco e hétero em crise. Ao qual o entorno teria que se curvar e ser complacente. Mas é gente que assistiu pouco a cinema. E talvez não conheça a frase que o grande diretor Orson Welles diz como ator no clássico “O Terceiro Homem” (1949), de Carol Reed:
— Na Itália, depois de 30 anos sobre os Borgias, onde eles tiveram guerras, terror e assassinatos, eles produziram Michelangelo, Leonardo da Vinci e a Renascença. Já na Suíça, onde eles tinham amor fraterno, 500 anos de democracia e paz, o que eles produziram? O relógio cuco.
De tempos em tempos, Hollywood tem um galã da moda. Catapultado pela popular trilogia de comédia “Se Beber, Não Case” (2009, 2011 e 2013), de Todd Phillips, Bradley Cooper parece ser a bola da vez. Mas em atuações como a de “Sniper Americano” (2014), de Clint Eastwood, o ator provou que é mais que isso. Como “Burnt”, em sua ode final à coletividade, é mais que seu protagonista.
Tempo de propaganda de rádio e TV, além de acesso ao fundo partidário do PSL. Entre os 38 candidatos a vereador do partido em Campos, só terá acesso a esses recursos de campanha quem caminhar com a candidatura a prefeito de Caio Vianna (PDT), com a qual o PSL fechou ontem aliança (confira aqui), dando a vice na chapa: a sargento bombeiro e odontóloga Gilmara Gomes dos Santos. Quem garantiu hoje foi o presidente municipal do PSL, Nildo Cardoso. E gerou resposta na sequência de Wladimir Garotinho (PSD), deputado federal e também candidato a prefeito.
Ex-vereador e candidato à Câmara Municipal, Nildo reagiu à possibilidade de liberação da nominata do PSL no apoio na eleição majoritária. Que foi divulgada informalmente hoje (confira aqui), em grupo de WhatsApp, pelo presidente estadual do partido, deputado federal Sargento Gurgel. Com quem Wladimir conversou ontem à noite em Brasília, para pedir a liberação em Campos, após a aliança entre PSL e PDT.
— É muito fácil de resolver. Uma coisa é o acordo que existia entre Gil Vianna (deputado estadual e pré-candidato do PSL a prefeito morto por Covid em 19 de maio), Bruno (filho de Gil, que após a morte do pai assumiu a presidência municipal do partido, antes de Nildo assumir) e Gurgel. Outra coisa é a aliança que nós fechamos com o PDT em Campos. É ela que vai ser homologada pela Justiça Eleitoral; é ela que vale. Nós temos tempo de televisão e rádio correspondente à segunda maior bancada da Câmara Federal. Além do fundo partidário. E temos um acordo com Caio, a quem demos a vice da sua chapa. Quem não caminhar com ela, não terá tempo de rádio e TV, nem material de campanha. E nem poderia. Como um candidato a vereador do PSL vai apoiar outro candidato a prefeito, se no rodapé de toda sua propaganda vai aparecer Caio a prefeito e Gilmara a vice? Isso não é represália, é questão de coerência — pregou Nildo.
— É típico de quem acha que pode colocar cabresto nas pessoas, imposição nunca deu certo em nada na vida. Líderes são seguidos spelo exemplo, não pela arrogância. Os candidatos do PSL que irão caminhar comigo por vontade própria, farão por acreditar em um projeto para a cidade — respondeu Wladimir, após ler a postagem do blog.
Laterça e Gurgel não se posicionam
Apesar da postura forte do presidente municipal, a orientação oficial do PSL para a nominata na eleição majoritária em Campos ainda não está clara. Procurados desde o início da tarde, o presidente e o vice-presidente estaduais do partido, deputados federais Sargento Gurgel e Felicio Laterça, não retornaram. Após lançar em convenção (confira aqui) a candidatura do tenente-coronel PM Fabiano Santos a prefeito de Campos, Laterça costurou a aliança do PSL com Caio. E, junto deste, anunciou ontem Gilmara como vice na chapa. Hoje, porém, ele preferiu não falar, após a divulgação de WhatsApp de Gurgel liberando os candidatos a vereador de Campos no apoio a prefeito.
As disputas internas do PSL não são de hoje. De partido nanico, passou à segunda maior bancada na Câmara Federal no fenômeno do bolsonarismo, na eleição presidencial de 2018. Ainda assim, foi a questão do fundo partidário, que Nildo agora promete não liberar aos candidatos a vereador que não apoiarem Caio, que levou Jair Bolsonaro e seus filhos a deixarem a legenda. Do Planalto Central à planície goitacá, Nildo também falou sobre a possibilidade de enquadrar em infidelidade partidária os candidatos a vereador do PSL que não caminharem com Caio, como aventou hoje o único edil do partido em Campos, Luiz Alberto Neném:
— Infidelidade partidária é algo que a gente vai ver lá na frente, com a análise jurídica devida. A campanha eleitoral começa no domingo (27). Aí a gente vai ver. Só tenho uma certeza: candidato a vereador que apoiar candidato a prefeito fora da aliança do partido não terá estrutura, material de campanha, ou tempo de propaganda de TV e rádio — prometeu o presidente do PSL em Campos.
Atualizado às 21h para acrescentar a resposta de Wladimir
Anunciado ontem (confira aqui), o apoio do PSL à candidatura de Caio Vianna (PDT) a prefeito de Campos produziu reações imediatas. Também candidato a prefeito, o deputado federal Wladimir Garotinho (PSD) revelou que ainda ontem se reuniu em Brasília com o presidente estadual do PSL, deputado Sargento Gurgel. Que hoje publicou em grupo de WhatsApp da bancada federal fluminense: “Uma parcela da nominata (do PSL em Campos) tem um carinho pelo Dep. Wladimir, por isso o Felício (Laterça) decidiu liberar aqueles que desejarem”. Também deputado federal, vice-presidente estadual do PSL e coordenador do partido em 18 municípios fluminenses, incluindo Campos, Felício articulou a aliança do seu partido com Caio, a quem deu a vice na chapa: a sargento bombeiro e odontóloga Gilmara Gomes dos Santos. Com ela, o pedetista terá o genroso tempo de propaganda eleitoral do PSL, que tem a segunda maior bancada da Câmara Federal.
Mas como fica a questão dos candidatos do PSL a vereador de Campos no apoio aos candidatos a prefeito?
— Vivemos em uma democracia e as pessoas têm liberdade para caminharem com quem elas quiserem. Cabe ao PSL se posicionar, pois o partido tem a vice na chapa. Mas tenho certeza de que quando a campanha for para a rua, não só os candidatos a vereador, mas a população campista vão saber escolher entre os projetos de irresponsabilidade ou de reconstrução da cidade. Entre um projeto de responsabilidade fiscal e recuperação financeira, exitoso no governo Arnaldo Vianna (PDT), ou o das gestões que desperdiçaram o dinheiro público no Cepop, na Cidade da Criança, em obras inacabadas no Mercado Municipal, de eUBS e creches até hoje não concluídas — alfinetou Caio Vianna.
— O que ocorreu é que desde lá atrás, vínhamos conversando com Gil Vianna (deputado estadual, presidente municipal do PSL e pré-candidato a prefeito, morto por Covid em 19 de maio). Ele montou a nominata do PSL em 80% e me pediu ajuda na conclusão dos outros 20%, que fiz liberando pré-candidatos a vereador nossos. Quando Gil morreu, como a aliança estava encaminhada, tive uma reunião com o Gurgel em Brasília. Ele me disse para deixar a coisa caminhar naturalmente com Bruno Vianna, filho de Gil, na presidência do PSL em Campos. Depois que Bruno perdeu o controle do partido, a coisa foi encaminhada pelo Felicio primeiro com a candidatura do coronel Fabiano (Santos, oficial da PM) e depois para uma aliança com Caio. Depois que ela foi selada, conversei ontem de novo com o Gurgel e ele me disse que tinha um acordo com Felicio para liberar o apoio da nominata em Campos, que ajudei Gil a montar — explicou Wladimir Garotinho.
E como ficam os candidatos a vereador do PSL em Campos diante desse aparente dilema?
Considerados puxadores de voto da nominata do PSL, Neném e Nildo Cardoso apostam na aliança com Caio, que Bruno Vianna questiona e diz esperar orientação oficial do partido
— Sou favorável ao fechamento do partido no apoio a Caio a prefeito. Se o PSL bateu o martelo, deu a vice da chapa, a nossa coligação é com Caio e nós somos um mesmo grupo político, entendo qualquer outro apoio a prefeito como infidelidade partidária. Hoje, mesmo, depois do anúncio na noite de ontem da aliança, fiz uma reunião com meu grupo político e deixei claro: nós vamos com Caio. Também conversei ontem com o Nildo Cardoso, presidente do partido em Campos, e ele é da mesma opinião — fechou Luiz Alberto Neném, único vereador do PSL em Campos e candidato à reeleição. O blog tentou contato também com Nildo, ex-vereador e candidato a voltar à Câmara Municipal, sem sucesso. Ontem, porém, ao confirmar a aliança entre seu PSL e o PDT, ele apostou: “Vai dar Wladimir e Caio no segundo turno e lá Caio vence a eleição”.
— Estou esperando a posição oficial do partido. Depois que eu perdi a presidência do PSL em Campos, essa questão de aliança deixou de ser tratada diretamente comigo. Wladimir me disse que conversou com Gurgel e que ele iria liberar a nominata de vereadores na questão de apoio a prefeito. Só sei de uma coisa: meu pai não iria caminhar com Caio (de quem foi candidato a vice-prefeito na eleição municipal de 2016). Essa aliança não teria acontecido se Gil ainda estivesse por aqui — apostou Bruno Vianna, também candidato a vereador pelo PSL.
Além de Nildo, o blog tentou contato com os deputados federais Sargento Gurgel e Felicio Laterça, até agora em sucesso.
Candidato a prefeito de Campos pelo PDT, Caio Vianna terá como vice a sargento bombeiro Gilmara Gomes dos Santos, do PSL
O martelo do PSL foi batido na eleição a prefeito de Campos. O partido vai mesmo apoiar a candidatura a prefeito de Caio Vianna (PDT). A novidade é o nome que a legenda dará como vice na chapa encabeçada pelo pedetista. Será a sargento bombeiro e odontóloga Gilmara Gomes dos Santos. Ela entrou no lugar do tenente-coronel da PM Fabiano Santos, que chegou a ser lançado como candidato a prefeito na convenção do PSL do dia 15 (confira aqui), foi anunciado no dia 16 (confira aqui) como vice de Caio, em aliança que ficou sob risco no dia 21 (confira aqui).
— Gilmara é uma mulher que tem raízes na ética, comprometimento com a saúde das pessoas. Especialmente em uma cidade onde a maioria da população é composta por mulheres, esse é um grande momento. A Gilmara representa o empoderamento de todas essas mulheres, valoriza a chapa e, ativa e comprometida como é, vai ser um reforço importante à nossa gestão — apostou Caio.
— Minha expectativa é de ser um instrumento para mudanças. Trazer mais efetividade aos projetos para a população. O eleitor está cansado e decepcionado com a política e eu acredito que as pessoas se enxergam em mim por eu pensar da mesma forma e por eu ter vindo de uma origem humilde e vencido — lembrou Gilmara
— Ficamos em nosso propósito e vamos apoiar a candidatura de Caio Vianna a prefeito de Campos. Nosso amigo, o coronel Fabiano acendeu a paixão política, mas decidiu permanecer em sua carreira militar. Mas ele ficou feliz com o resultado, que trouxe uma mulher e uma militar, que tem o perfil do PSL, para ser candidata a vice-prefeita. Sob a minha coordenação em 18 municípios fluminenses, cabe destacar que o PSL tem quatro mulheres nas 10 candidaturas majoritárias que integra. Além da Gilmara em Campos, temos como candidatas a vice a Renatinha do Vôlei em Macaé e a Simone Capozi, em Bom Jardim. E a Branca Motta, como candidata a prefeita em Bom Jesus do Itabapoana — elencou o deputado federal Felicio Laterça, também delegado da Polícia Federal (PF).
Caio, Gilmara e Laterça na início da noite de hoje (Foto: Divulgação)
Além de Laterça, as negociações do PSL em Campos tiveram a participação do ex-vereador Nildo Cardoso, candidato a voltar à Câmara Municipal e presidente municipal da legenda, com o pedetista Caio Vianna. O partido que deu sua vice serviu para Jair Bolsonaro se eleger presidente em 2018. E conta hoje com 41 deputados federais no Congresso. Em Campos, o PSL tinha o deputado estadual Gil Vianna, morto precocemente por Covid-19 (confira aqui) em 19 de maio, como pré-candidato a prefeito para novembro. Gil foi o vice de Caio na eleição a prefeito de 2016.
Definida a sargento bombeira Gilmara com nome do PSL para compor a chapa de Caio em 2020, o tenente-coronel Fabiano, que já comandou o 8º BPM de Campos, informou que ele volta ao cargo de chefe do estado maior operacional do 6º Comando de Policiamento de Área (CPA), no Parque São Caetano.
Bolsonaro disse hoje, na Assembleia Geral da ONU, que a culpa pela pandemia da Covid no Brasil é da imprensa, responsável por sabermos dos mais de 137 mil mortos pela doença no país. Enquanto as queimadas no Pantanal e na Amazônia seriam culpa dos caboclos e índios, que plantam para sua subsistência. Mas afirmou que o mundo precisa do Brasil, na produção de alimentos do agronegócio voltado à exportação. Aproveitou também para fazer campanha pela reeleição de Trump nos EUA, antes deste falar e acusar a China pela pandemia. Que hoje, nos EUA, ultrapassou os 200 mil mortos.
Bolsonaro falou ao mundo como se falasse ao seu público interno, visando a reeleição em 2022. Como o mundo não parece disposto a acreditar no que o capitão diz em 2020, 2021 promete. E não seria nem preciso que o governo dos EUA trocasse de mãos. Bastaria que a União Europeia dominada pelos Partidos Verdes perdesse a paciência com as queimadas dos nossos grileiros, ou que a China perdesse a sua com o serviçal de quem lhe ataca. E que, apenas adiada pelo auxílio-emergencial, a crise econômica advinda da pandemia chegasse com a força que promete ao Brasil.
Como Bolsonaro terminou sua fala à ONU reafirmando o Brasil como país conservador e cristão, talvez seja o caso de se recorrer ao Pai Nosso. Mas sem abrir mão das orações de todas as demais religiões. Nem do pensamento positivo dos agnósticos e ateus.
Márcio Malta, cientista político e professor de Relações Internacionais do Instituto de Assuntos Estratégicos (Inest) da UFF
Com que roupa que eu vou? A crítica ao liberalismo por Caetano Veloso
Por Márcio Malta
“Não sou mais esse liberalóide”. Bastou Caetano Veloso fazer tal afirmação, em entrevista para Pedro Bial na Globo, que as repercussões foram imediatas.
De fundo, o que o cantor baiano dizia era que havia mudado de opinião. Tal fato não seria inédito em sua carreira. Pois até mesmo personagens caricatos de humor foram desenvolvidos em cima de sua personalidade camaleônica. Afinal Caetano sempre terminava suas frases com uma interrogação: ou não?
O que existe de novo seria uma mudança de paradigmas por parte do cantor de Santo Amaro. Teria abandonado uma concepção liberal e abraçado um viés socialista, que segundo o qual na mesma entrevista, não enxergava mais como semelhante às ditaduras capitalistas.
Em que águas teria se banhado para chegar a tais conclusões? Em resposta a um iracundo Bial que tentava explicar o novo comportamento como uma resposta ao espírito do tempo, Caetano nega e diz que havia mudado a partir da leitura reveladora de um teórico italiano, Domenico Losurdo.
Aqui entra um pouco da minha experiência pessoal e peço vênia para relatar o meu contato com esse autor até agora relativamente desconhecido em nossas plagas.
Tive a oportunidade de assistir um minicurso com o italiano no início dos anos 2000, na Universidade Federal Fluminense. Corri para ver o certificado e confirmar o conteúdo programático dos encontros, que havia vindo na minha cabeça como um estalo. Um dos principais tópicos abordados versava justamente sobre o liberalismo.
Inclusive a obra a que Caetano faz menção como principal influência para sua “conversão”, “A contra-história do liberalismo”, foi traduzida para o português justamente por Giovanni Semeraro, professor responsável por organizar o minicurso e ser o anfitrião de Losurdo naqueles dias.
Corri para ver quais seriam os pontos cardinais da obra e constatei que não trazia grande ineditismo, mas sim a denúncia voraz de que o liberalismo e principalmente seus teóricos sempre estiveram associados a ditaduras ou ao mecanismo da escravidão.Losurdo passeia com desenvoltura sobre nomes como John Locke, dentre outros, para mostrar esse perigosa intimidade.
Qual motivo então de todo esse choque que adveio com a postura de Caetano Veloso?
Boa parte da celeuma e os ataques que sobrevieram se deram pelo fato de Caetano afirmar que conheceu a obra de Losurdo através de Jones Manoel, um acadêmico negro e influencer digital, que possui canal no Youtube e publica com regularidade em algumas revistas e editoras do campo da esquerda.
As origens das polêmicas remontam ao fato de Jones Manoel reinvindicar o stalinismo. Tanto a direita através de nomes como do jornalista da Globonews Guga Chacra, quanto a esquerda por meio principalmente de acadêmicos universitários resolveram esculhambar com o episódio da entrevista.
E também não é demais relembrar que as últimas vezes que ouvi falar de Losurdo se deram por conta de uma de suas obras que tentam ressignificar o legado de Stalin.
Porém, cumpre destacar que esse debate é de fundo e não deveria ter ganhado tanto destaque, afinal o que se constitui como mérito fundamental do debate é a bem intencionada revisão de Caetano acerca do liberalismo autoritário e o despertar para a questão que ele mesmo cantou: até quando precisaremos de ridículos tiranos?
Não há novidade em lembrar o falecido filósofo, semiólogo e romancista italiano Umberto Eco: “O drama das redes sociais é que elas promoveram o idiota da aldeia a portador da verdade”. O novo é constatar que o fenômeno da idiotização digital, representado pelo negacionismo ideológico, atinge também os pensantes da aldeia. E a causa não são nem as redes sociais, mas a acefalia da polarização política brasileira atiçada por elas e nelas reproduzida.
Os exemplos, como de hábito, são opostos e complementares. Um professor universitário progressista, após o afastamento de Wilson Witzel do governo do Estado do Rio, reproduziu nas redes sociais um meme. E nele se ufanou de que os únicos governadores fluminenses não afastados ou presos por corrupção, após a redemocratização do país em 1985, seriam o pedetista Leonel Brizola e a petista Benedita Silva. Ambos, por óbvio, de esquerda.
O meme não foi desonesto porque esqueceu que a aliança entre PDT e PT que governou o Estado do Rio acabou desde 2000. Foi quando Brizola chamou Benedita de “Rainha de Sabá”, pela fome de cargos públicos da petista. Ela era vice-governadora do então pedetista Anthony Garotinho. A quem sucedeu no Palácio Guanabara por menos de um ano, após o político de Campos se candidatar e perder o pleito presidencial de 2002. Mas, naquele ano, fez Rosinha governadora no 1º turno, dando uma coça eleitoral nos ex-aliados Bené e PT.
Benedita Silva, Leonel Brizola, Anthony Garotinho e Sérgio Cabral em 1999, celebrando na Alerj a aliança política que chegava ao poder no Estado do Rio (Foto: André Durão – AE)
Como Garotinho e Rosinha, além dos também ex-governadores do Rio Moreira Franco, Sérgio Cabral e Pezão, foram todos presos por corrupção, o meme do professor universitário queria vender Brizola e Benedita como exceções de honestidade. Por quê? Para provar que a esquerda tupiniquim, marcada pela corrupção endêmica dos 13 anos de governo do PT no Brasil, seria uma exceção na corrupção endêmica do Estado do Rio.
Marcello Alencar
Ocorre que o meme sobre honestidade, reproduzido pelo professor universitário progressista, foi desonesto. Porque sonegou que Marcello Alencar, governador do Estado do Rio de 1995 a 1998, nunca foi afastado ou preso por corrupção. Só que ele era do PSDB, que rivalizou a liderança da polícia nacional com o PT dos anos 1990 até 2018, quando Jair Bolsonaro se elegeu presidente. E a quem fica mais difícil acusar pelo uso de fake news, quando também se usa fake news para corromper a verdade por prisma ideológico.
Do professor universitário progressista, chegamos ao estudante universitário liberal. Que faz comentário na linha do tempo de outrem, em postagem sobre a canalhice que habitou tanto o vídeo cafona de 7 de setembro gravado pelo dublê de ex-Malhação e secretário bolsonarista de Cultura, quanto a votação de… Benedita. Agora como deputada federal, ela votou pela isenção fiscal de R$ 1 bilhão às milionárias igrejas evangélicas brasileiras. Com o apoio de ateia Jandira Feghali e toda a bancada do PCdoB, puxadinho do PT em seus 13 anos no poder.
Caetano Veloso e Jones Manoel (Foto: Facebook)
Domenico Losurdo
Lógico, o liberal gostou. E quis abrir o leque de como a esquerda pode ser ainda pior. Para tanto, lembrou que Caetano Veloso, no programa do Pedro Bial, deu luz nacional a um jovem historiador e youtuber neostalinista, Jones Manoel. De quem o jovem liberal printou e disparou uma série de postagens pré-Muro de Berlim, que a reboque do filósofo marxista italiano Domenico Losurdo buscavam relativizar atrocidades como os gulags e os expurgos do soviético Josef Stálin, ou a Revolução Cultural do chinês Mao Tsé-Tung.
Como deveria ser a qualquer um que sobrepõe humanismo a dogmas políticos anacrônicos, comentado e comentarista concordaram. Até que o primeiro ressalvou um fato histórico: a ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) foi a protagonista da derrota da Alemanha nazista na II Guerra Mundial (1939/1945) na Europa. Aí, pronto! Quem descia o malho nos dogmas tolos do jovem marxista, hasteou a tolice juvenil dos seus. Mais ou menos como a bandeira vermelha com a foice e o martelo sobre o Palácio do Reichstag em Berlim, a 2 de maio de 1945. Só que sem o mesmo merecimento ou verdade.
Reichstag sob a bandeira dos conquistadores de Berlim (Foto: Yevgeny Khaldei)
Talvez sem nunca ter lido um livro sobre o tema, o jovem comentarista liberal pediu fontes. E o comentado listou quatro grandes historiadores, em obras emblemáticas sobre a II Guerra, inclusive aquela considerada a biografia definitiva de Hitler. Que foram contrapostas por uma única fonte: um artigo buscado no São Google. Que não contesta o protagonismo da URSS na derrota da Alemanha. Só pretende relativizar esse papel na circunscrição ao campo industrial do que se deu no campo de batalha. Mas sem nem se dar ao trabalho de mencionar o acordo de Bretton Woods de 1944, tiro de misericórdia econômico na nuca da Alemanha nazista, ao fixar o dólar como moeda para transações internacionais.
A questão é: a URSS de Stálin teria vencido a Alemanha de Hitler sem a ajuda material dos EUA de Roosevelt e da GBR de Churchill? E, sobretudo, sem que a aviação destes dois tivesse esgotado a indústria nazista em bombardeios aéreos? É provável que não. Mas, como em toda tese, há a antítese: EUA e GBR teriam vencido a Alemanha sem a URSS? Se esta não tivesse sido traída e invadida em 1941 por Hitler, que transformou sua cúmplice na invasão à Polônia de 1939 em sua inimiga mais intestina? Também é provável que não. E que, se não fosse isso, o alvo da invasão alemã seria a GBR, que em 1940 planejava exilar sua família real no Canadá.
Na Teerã de novembro de 1943, Stálin cobrou de Roosevelt e Churchill uma nova frente contra a Alemanha na Europa, que resultaria no Dia D na França, 16 meses após a Batalha de Stalingrado
Em 31 de janeiro de 1943, magro e abatido, o marechal alemão Friederich Paulus chega ao QG soviético em Stalingrado para se render
Como “se” em História não existe, nunca saberemos. Embora sejam conjecturas instigantes, em termos práticos uma pergunta é tão inútil quanto a outra. O fato em síntese é que, com a atuação coadjuvante de EUA, GBR e até o Brasil de Getúlio na Frente Ocidental, coube à URSS virar a maré da II Guerra na Europa. Que era vencida pela Alemanha até a Batalha de Stalingrado, definida pelo Exército Vermelho em fevereiro de 1943. Só depois dela, em agosto do mesmo ano, se deu a Invasão da Itália, primeiro desembarque de sucesso dos EUA e GBR no continente europeu, que só em junho de 1944 promoveriam o Dia D na França. Após arrombar o cadeado alemão em Stalingrado 16 meses antes, a URSS só pararia em Berlim.
Mídia mais influente nos EUA do seu tempo, a revista Life exibe na sua capa, em 31 de julho de 1944, a foto do marechal russo Georgy Zhukov
Sobre o papel particular do marechal russo Georgy Zhukov em batalhas como as de Stalingrado e de Kursk, maior conflito de blindados da história, empurrando a Frente Oriental até a capital da Alemanha, levando Hitler ao suicídio a 30 de abril de 1945 e seus sucessores à rendição incondicional em 8 de maio, o comandante da Frente Ocidental da II Guerra, general dos EUA e depois seu 34ª presidente, Dwight “Ike” Eisenhower testemunhou: “To no one man do the United Nations owe a greater debt than to Marshal Zhukov” (“A nenhum outro homem as Nações Unidas têm uma dívida maior de gratidão do que com o marechal Zhukov”).
Com os fatos e suas fontes primárias traduzidos em números, o protagonismo da URSS no maior conflito armado da humanidade é ainda mais impressionante. Se em todo o mundo, incluindo Ásia, África, Oceania e litoral das Américas, a II Guerra tirou cerca de 80 milhões de vidas humanas, a URSS perdeu, só ela, mais de 26 milhões. Que cobrou ao matar mais de 4,4 milhões de militares alemães, entre os cerca de 5,5 milhões de soldados nazistas que perderam a vida entre 1939 e 1945. A ateia URSS encomendou a alma de 80% dos soldados mortos a serviço da suástica na II Guerra. Foram necessários todos os demais Aliados juntos para dar cabo dos outros 20%.
Atacante André Schürlle comemora o gol que fechou os 7 a 1 da Alemanha contra o Brasil na Copa do Mundo, em 8 de julho de 2014, no Mineirão (Foto: Matin Rose – Getty Images)
Você se lembra dos 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil, no Brasil, na semifinal da Copa do Mundo de 2014? Pois é. Contra a mesma Alemanha, das mortes militares a ela impostas na II Guerra, o placar macabro entre a URSS e todos os demais Aliados foi 8 a 2 para os soviéticos. Goleada que revela uma tragédia humana sem precedentes. Mas cujos números finais não se alteram pela indústria que fabricou as bolas, os uniformes e as chuteiras do mesmo adversário.
Com tecnologia própria, a URSS desenvolveu os foguetes Katyusha, apelidados pelos alemães de “falo de Stálin” e montandos sobre os caminhões Studebaker, fabricados e fornecidos pelos EUA
Se a questão fosse meramente industrial, alguém poderia lembrar que a URSS, com os mísseis Katyusha tão temidos pelos soldados alemães, desenvolveu por conta própria sua tecnologia de foguetes na II Guerra. Com a qual depois lançaria o primeiro satélite em 1957 e o primeiro homem ao espaço, em 1961. Enquanto os EUA, a despeito de terem desenvolvido a bomba atômica na II Guerra, roubaram ao final dela o engenheiro Wernher Von Braun dos nazistas. E, com ele, criaram a Nasa. Mas sem o trabalho escravo que o cientista membro da SS selecionou pessoalmente à construção dos foguetes V-2, para Hitler aterrorizar Londres com sua “arma secreta”.
Filiado aos nazistas desde 1938, ano anterior à II Guerra, Von Braun sorri ao lado dos seus pares fardados, enquanto usava trabalho escravo para construir os foguetes V-2, com os quais levou morte e destruição a Londres
Assim, se as baterias de foguetes Katyusha da URSS eram montadas na II Guerra sobre os caminhões Studebaker fabricados e fornecidos pelos EUA, à bandeira destes fincada no solo da Lua em 1969, no projeto Apolo desenvolvido por Von Braun para a Nasa, faltaram a suástica e o singelo adendo entre listras e estrelas: “With technology from Nazi Germany” (“Com tecnologia da Alemanha Nazista”). Morto então há 24 anos, Hitler não pôde cobrar a patente.
Von Braun coordenando o lançamento da Apolo 11, quando a tecnologia nazista levou os EUA ao solo da Lua, cumprindo a promessa de John Kennedy, a quem o ex-oficial da SS serviu e sobreviveu, assim como a Hilter
A tecnologia nazista definiria a corrida espacial. Como a Guerra Fria entre os vencedores do nazifascismo seria vencida pelo capitalismo. Que sofreria adaptação antiliberal pelo Estado a partir de 1979, com a qual a China sob controle do Partido Comunista resgataria a posição de gigante mundial que era sua desde a Antiguidade. E retomou em movimento geopolítico mais importante, embora menos famoso, que a queda do Muro de Berlim em 1989, ou a dissolução da URSS, em 1991. Como a Revolução Liberal Inglesa do séc. XVII teve reflexos estruturais mais profundos no mundo, mas foi e é menos comentada que a Revolução Francesa do séc. XVIII.
Quando seu grande adversário na Ásia era o Império do Japão, os EUA viraram a Guerra do Pacífico ao seu favor em junho de 1942, na Batalha de Midway, paralelo da Batalha de Stalingrado na Europa
Outra ironia se deu quando o comentarista liberal tentou questionar o papel protagonista da URSS no palco europeu da II Guerra, lembrando que o protagonismo na derrota do Império do Japão, aliado da Alemanha, foi dos EUA. Com o que o comentado concordou, lembrando que a Batalha de Midway marcou a mesma virada na Guerra do Pacífico da Batalha de Stalingrado, na Europa. Mas, quem pregou apego à ciência, a partir de única fonte, ignorou a contradição “causal” do próprio argumento. Como o neostalinista lembrado por Caetano no Bial. Para um, o protagonismo histórico só vale se liberal. Para o outro, todo o liberal é um assassino.
Seja na ausência seletiva do tucano Marcello Alencar entre os governadores do RJ que não foram afastados ou presos por corrupção, seja na negação seletiva do protagonismo da URSS comunista na derrota da Alemanha nazista na II Guerra, o professor universitário progressista e o estudante universitário liberal são polos opostos, mas complementares, do mesmo fenômeno. Mais experiente, o professor pelo menos não contestou quem acusou a fake news que reproduziu. E não se deu ao trabalho de questionar o inquestionável. Sobretudo depois que o próprio Facebook classificou sua informação sobre honestidade como falsa.
Vultos da República do Brasil, Ruy Barbosa e Ulysses Guimarães
Patrono dos advogados brasileiros, Ruy Barbosa é costumeiramente lembrado pela sentença: “Contra fatos não há argumentos”. Pai da Constituição de 1988, Ulysses Guimarães advertia: “Nunca subestime o fato; sua excelência, o fato”. Felizmente, para os dois vultos da nossa República, eles não viveram no tempo das redes sociais. Nele, o negacionismo dogmático emburrece até os inteligentes da aldeia. Como parece acontecer com Caetano.
A partir das 7h da manhã desta sexta (18), quem fecha a semana do Folha no Ar é a técnica em radiologia Elaine Leão, presidente do Sindicato dos Profissionais Servidores Públicos Municipais de Campos dos Goytacazes (Siprosep). Ela falará da crise financeira do município (confira a série sobre o tema aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) e alternativas, da sobreposição de funções no serviço público goitacá e uso político dos cargos terceirizados, além das suas perspectivas à eleição a prefeito e vereador em novembro.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
A partir das 7h desta quinta (17), o convidado do Folha no Ar é o advogado e servidor público municipal José Renato Duarte. Ele falará da crise financeira de Campos (confira a série da Folha sobre o tema aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) e alternativas, da possibilidade de enxugamento da máquina pública goitacá e das suas perspectivas à eleição a prefeito e vereador em novembro.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
A partir das 7h da manhã desta quarta (16), o convidado do Folha no Ar é o advogado Cristiano Miller, presidente da OAB de Campos. Ele falará sobre a crise financeira de Campos (confira a série sobre o tema aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) e alternativas, sobre as contribuições possíveis do polo universitário na busca de soluções, além de dar sua projeção da eleição a prefeito e vereador de novembro.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
A partir das 7h da manhã desta terça (15), o convidado do Folha no Ar é o promotor Marcelo Lessa Bastos, da 2ª Promotoria de Tutela Coletiva de Campos. Ele falará da pandemia da Covid-19 e as perspectivas de volta à vida normal, da crise financeira de Campos (confira a série sobre o tema aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) e das contribuições possíveis do polo universitário na busca de soluções para o município.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
A partir das 7h da manhã desta segunda (14), quem abre a semana do Folha no Ar é o professor Jefferson Manhães de Azevedo. Ele falará sobre a crise financeira de Campos (confira a série sobre o tema aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) e alternativas, sobre as contribuições possíveis do polo universitário na busca de soluções ao município, além de dar sua projeção da eleição a prefeito e vereador de novembro.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.