Márcio Malta — Conjuntura e consequências da Covid-19 no Brasil e no mundo
Após dois dias off-line, o blog retoma hoje (08) suas postagens. E o faz com uma análise do cientista político Márcio Malta, professor de Relações Internacionais do Instituto de Assuntos Estratégicos (Inest) da UFF, sobre os quadros nacional e mundial da pandemia da Covid-19, bem como das suas consequências econômicas:


O combate à Covid-19: uma análise de conjuntura para além do nacional
Por Márcio Malta
Um tema tem dominado o noticiário de forma monolítica, o avanço do vírus Covid-19. A questão central é como os Estados Nacionais têm se comportado diante de tal desafio. O esforço fundamental é compreender como as medidas adotadas em escala nacional estão entrelaçadas com um dado maior, a estrutura do sistema mundial.
O esforço de análise requer compreender como o raio-x do sistema de saúde de cada país nesse momento está relacionado à adoção de políticas públicas em um passado recente ou mesmo histórico. Países que adotaram o modelo neoliberal, sem cobertura universal, encontram-se em uma situação de maior vulnerabilidade. O preço do esvaziamento de orçamentos para essa área será cobrado duramente nesse momento, assim como os cortes em áreas essenciais como a pesquisa científica.
A presente reflexão irá se dividir em duas partes. Em primeiro lugar será feita uma observação das medidas estritamente nacionais, sendo resguardada a segunda a compreender como o comportamento na esfera das relações internacionais é decisivo para os rumos do país.
Os contornos do Brasil no combate à Covid-19
Em termos brasileiros, assim como em outras nações, o cenário que se avizinha é o do agravamento da pandemia e o contágio em massa. No que tange à atuação política, o que se tem assistido até agora são falas histriônicas de um presidente bufão em suas aparições. O contraponto no interior do próprio governo é o ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta. Com histórico de parlamentar conservador, o político tem pautado suas ações no campo estrito da ciência, sendo nítida a sua inclinação no decorrer da crise para a defesa do Sistema Único da Saúde (SUS). Neste tocante é perceptível a metamorfose sobretudo pela adoção em seu figurino do jaleco azul do SUA nas suas coletivas de imprensa. O protagonismo do Estado como provedor e ator político fundamental tem se dado em escala mundial no combate ao Covid-19 e tem sido defendido até mesmo por neoliberais empedernidos.

A relação de forças demonstra que no que tange à opinião pública, o campo científico está acumulando forças e o isolamento social conta com o respaldo de 76% da população, segundo pesquisa publicada pelo instituto Datafolha no dia 6 de abril. Porém, o que deve ser pautado por ora são os intestinos da política governamental. Afinal de contas o presidente possui verdadeira aversão a qualquer figura pública que se destaque e ameace sua suposta hegemonia. Assim foi também com o seu ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, recorrentemente fritado por ataques palacianos.
A questão que se coloca nessa queda de braço e se demonstra essencial no enfretamento do vírus é a permanência ou não de Mandetta à frente da pasta. Longe de ser unanimidade ou um paladino, sem sombra de dúvidas é a opção menos arriscada para conter os arroubos do bonapartista Jair Bolsonaro. O temor é a indicação de algum aventureiro para o posto. O dilema do posto se dá entre negacionistas e os defensores da ciência. Sendo que a história recente do combate em outros países demonstra que o segundo campo está correto ao defender medidas de distanciamento da população.
Uma análise das Relações Internacionais diante da pandemia
Para além do debate micro e restrito ao xadrex político brasileiro, no campo internacional é importante salientar a articulação entre estrutura e conjuntura. O combate ao vírus tem reforçado e deixado a nu as configurações do sistema global. Enquanto países ricos demonstram força e capital para acumular insumos no combate à doença, os países periféricos mínguam em suas quantidades mínimas de leitos por habitantes.
O exemplo maior da disparidade é a corrida por aparelhos respiradores, essenciais para manter vidas e que se tornou um marco nas relações internacionais. Dados que chegam apontam para uma estratégia desleal por parte dos Estados Unidos ao desviar cargas compradas por outros países e reter mercadorias como máscaras de proteção.
Mesmo diante de tal comportamento da nação estaduninense, o alinhamento brasileiro se mostra incondicional, parecendo fazer eco ao slogan de Donald Trump, America First. A bandeira da defesa dos interesses norte-americanos em primeiro lugar soaria natural, mesmo que egoística, por parte dos cidadãos da nação. Porém o que causa espécie e estupefação é a permanência de uma política entreguista e subordinada por parte de Jair Bolsonaro a tais interesses forasteiros.
Exemplos nesse talante abundam, como a manutenção de voos vindos dos Estados Unidos. Tendo como contrapartida o fechamento de fronteiras para países com bem menos casos registrados de Covid-19, como a Venezuela, Um comportamento meramente ideológico e sem lastro real. Um segundo indício da subalternidade pode ser acompanhado através de matéria veiculada pelo jornal Correio Braziliense que noticia a convocação de uma reunião festiva por parte do Itamaraty para dar as boas vindas ao novo embaixador dos Estados Unidos no Brasil, quando a orientação é evitar aglomerações. O convite foi visto com maus olhos e constrangimento pelas autoridades de outros países, que receberam com justificado temor o convescote.
Alguns apontamentos finais
Para concluir essa análise de conjuntura — que em como toda observação do real se encontra em aberto — se destaca mais uma vez que o combate ao Covid-19 reforça as desigualdades do sistema mundial. Os países que detém tecnologia mundial saltam à frente na proteção de suas populações e aqueles que optaram por manter um modelo de produção de commodities se veem de braços atados. O que assistimos mais uma vez é a concentração de bens de produção sob o controle de uma minoria. E em um curto prazo observaremos o empobrecimento ainda mais cruel de amplos setores da sociedade em escala local e global.
O debate sobre economia ou a prevenção da saúde tão somente reforça a lógica do capital em não priorizar a maximização do uso da ciência em prol da maior parte da sociedade, mas sim pura e simplesmente a maximização dos lucros. Mesmo que isso custe milhares de vidas.
Publicado aqui, no Blog do Márcio Malta





Em seu último livro, “A metamorfose do mundo” (Editora Zahar, 2016), ainda pouco conhecido no Brasil, Ulrich Beck avançou com aspectos essenciais de sua tese. Nele, ele chama a atenção para o fato de que a ciência procura muito mais compreender a distribuição e a não distribuição de bens do que de males. Agora se torna fundamental que compreendamos a distribuição global de males e como ela pode nos afetar de maneira geral, mas também diferencialmente. Assim, Ulrich Beck está consciente de que a distribuição de males, na sociedade global de risco, também é uma forma, talvez a mais profunda, de desigualdade. Com isso, a realidade atual é que temos territórios mais vulneráveis do que outros, nações mais vulneráveis do que outras e, o que deveria ser óbvio, classes sociais mais vulneráveis do que outras.






