Artigo do domingo — Vitória da moral sobre o moralismo

 

“Instrui o menino no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não se desviará dele”

(Provérbios de Salomão, 22:6)

 

 

Muito se tem discutido sobre a imposição da pauta politicamente correta no Brasil. Independente da opinião pessoal que se tenha sobre cotas raciais, feminismo e questões de gênero, inegável que a reação do cidadão médio a esses temas é uma das principais causas ao avanço do conservadorismo no país. E ninguém soube surfar essa onda melhor do que o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL). Não por outro motivo, a exatos 50 dias das urnas, ele hoje detém razoável folga na liderança de todas as pesquisas ao Palácio do Planalto sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Embora as mesmas pesquisas também indiquem que Bolsonaro bateu seu teto de intenções de voto, com cerca de 20% delas, ele caminha a passos largos para tentar garantir uma das duas vagas ao segundo turno. Numa eleição pulverizada, com quatro ou cinco candidaturas competitivas, é provável que um presidenciável com 20% dos votos em 7 de outubro esteja novamente como opção ao eleitor nas urnas do dia 28 do mesmo mês. Se candidatos como Geraldo Alckmin (PSDB), João Amôedo (Novo) e Henrique Meirelles (MDB) não avançarem juntos pelo menos 10 pontos percentuais no numeroso voto conservador e antipetista, tudo indica que seu candidato final será o ex-capitão do Exército.

Para entender o que acontece agora, necessário recuar um pouco no tempo. Em 2011, junto com a bancada evangélica, Bolsonaro liderou a reação contra o projeto “Escola sem Homofobia”. Pejorativamente chamado de “kit gay”, pretendia levar a discussão, exemplificada em material didático, às salas de aula de crianças e adolescentes em todo o país. Curiosamente, quem estava à época no comando do ministério da Educação era Fernando Haddad, hoje candidato a presidente estepe do PT. E o capitão foi vencedor daquela contenda, depois que o estreante governo Dilma Rousseff (PT) desistiu de distribuir o material. Com o apoio, inclusive, de mães e pais progressistas que se acharam no devido direito de restringir aos seus lares esse tipo de debate com seus filhos.

A visão crítica do atrelamento do “politicamente correto” às esquerdas do Brasil, e do mundo, não é exclusividade da direita. Ministro dos governos Lula e Dilma, aos quais serviu como principal elo entre PT e PCdoB, Aldo Rebelo hoje está no Solidariedade. Em entrevista à BBC Brasil, em maio deste ano, ele admitiu:

— Entrei no PCdoB em busca da realização de ideias que julgava importantes na minha juventude, quando o nacionalismo era muito forte. Queria lutar por um país mais equilibrado e justo. Mas os tempos e as agendas mudaram. A questão nacional passou a ter peso pequeno na agenda das esquerdas. As agendas identitárias e o multiculturalismo passaram ter muito mais importância. Isso me levou a um afastamento dessa esquerda moderna, do politicamente correto.

O que isso significa foi bem contrastado em duas noites/madrugadas recentes. De quinta (16) para sexta (17), se deu o primeiro debate entre os candidatos a governador do Rio. Promovido pela Band, nele a petista Márcia Tiburi evidenciou como um partido que até recentemente foi o maior do cenário político nacional, hoje se reduziu a um palanque de defesa de Lula — naquilo que o presidenciável Ciro Gomes (PDT) batizou de “viagem lisérgica”. Como descrito na coluna “Ponto Final”, em sua edição ontem (18):

— Professora de filosofia, Tiburi tem boa articulação verbal, mas se revelou militante travestida de candidata. Não por usar camisa e colar com as imagens do ex-presidente Lula, mas pelo caráter meramente panfletário das suas intervenções. No último bloco resumiu as perspectivas reais da sua candidatura: “Lula vai vencer e eu também”. Depois, concluiu com sua proposta: “fazer um Rio de Janeiro feliz para as pessoas”. A petista lembrou ser a única mulher entre os candidatos. E ressalvou não haver entre eles nenhum negro. Romário reivindicou a cota e disse que o negro ali era ele. Pelo que ambos mostraram no debate, as condições para governar o Estado não dependem de gênero ou raça.

Hasteado como bandeira pelos dois candidatos a governador do Rio mais fracos do debate, o politicamente correto teve o auxílio do Rei Salomão para que Bolsonaro recebesse sua primeira enquadrada num debate presidencial. Coincidência ou não, a tarefa coube a uma mulher negra, Marina Silva (Rede), no evento da Rede TV entre sexta e sábado (18).

Talvez preocupado com a candidata que todas as pesquisas sem Lula apontam estar em segundo lugar na corrida, e projetam ser a mais difícil de ser batida num eventual segundo turno, o ex-capitão leu uma cola na palma da mão esquerda para escolher a ambientalista, chamá-la ao centro do palco e, em pé diante dela, perguntar:

— (…) Armamento, eu sou favorável que o cidadão de bem tenha posse de arma de fogo. A senhora concorda com isso ou não?

— Não. Antes que queria te dizer uma coisa, Bolsonaro. Você disse que a questão dos salários menores para as mulheres é uma coisa que a gente não precisa se preocupar porque já está na CLT. Só uma pessoa que não sabe o que significa uma mulher ganhar um salário menor do que um homem e ter as mesmas capacidades, a mesma competência (…) Porque quando se é presidente da República, a gente tem que fazer cumprir o artigo 5º da Constituição, que diz nenhuma mulher deve ser descriminada. Não fazer vista grossa (…) Tem que se preocupar, sim. Um presidente da República está lá para combater injustiça.

Visivelmente constrangido pelo “sermão” de Marina, que recebeu evitando encará-la, enquanto aparentemente buscava com os olhos a orientação de um assessor fora do plano da câmera, Bolsonaro foi ao ataque na réplica. E, finalmente olhando para a adversária, disse:

— Temos aqui uma evangélica que defende um plebiscito para aborto e para maconha. E quer agora defender a mulher. Você não sabe o que é uma mulher, Marina, ter um filho jogado no mundo das drogas. (…) Eu defendo a mulher. Inclusive defendo a castração química para estupradores. (…) No tocante a arma de fogo, eu defendo, sim, que a mulher inclusive, caso queira, a mulher de bem, a mulher preparada, que tenha a posse de uma arma de fogo dentro de casa para se defender, se assim ela o desejar.

— Você acha que pode resolver tudo no grito, na violência. Nós somos mais. (…) A coisa que uma mãe mais quer é ver seu filho ser educado para ser um cidadão de bem. Você fica ensinando aos nossos jovens que tem que resolver as coisas na base do grito, Bolsonaro. Você é um deputado, você é pai de família. Você um dia desses pegou uma mãozinha de uma criança e ensinou como é que se faz para atirar. Você sabe o que a Bíblia diz sobre ensinar uma criança? “Ensina a criança no caminho em que deve andar. E até quando for grande, não se desviará do caminho”. (…) E, numa democracia, o Estado é laico.

Dificilmente definirá a eleição, mas essa vitória da moral sobre o moralismo foi o melhor momento do debate. E lavou a alma de muitas mães e filhos Brasil afora.

 

 

Publicado hoje (18) na Folha da Manhã

 

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Hamilton Garcia — Em busca do desenvolvimentismo perdido

 

 

Se é verdade, como vimos no artigo anterior, que a social-democracia fracassou em seu intuito original de reformar a sociedade capitalista em sentido socialista — onde os arranjos produtivos fossem diversificados e institucionalizados sob a direção de novas forças sociais, quer sob a forma estatal de uma tecnocracia socialmente orientada, quer sob a forma pública de uma tecnoestrutura[i] produtiva autogerida, no nível mais alto da produtividade social —, é certo que ela alcançou um nível de democratização social inédito, no velho continente, por meio do direcionamento direto das políticas públicas em prol das necessidades sociais e não indireto por meio do mercado (lucro) como no passado.

Quem costuma minimizar a importância desse construto ecumênico entre liberais e socialistas, deveria olhar para a reação dos liberais dissidentes da nova ordem, como Joseph Schumpeter (1883-1950), e suas críticas à “Marcha para o Socialismo” na Europa, onde os assuntos econômicos emigravam “da esfera privada para a esfera pública” sob a égide de “uma vasta máquina burocrática administrando os processos (…) produtivo e distributivo” em nome de “órgãos democráticos como os que hoje conhecemos (…), escolhidos pelo voto” no seio do Estado[ii].

É nesta tradição regulacionista — hoje majoritariamente rechaçada pelos liberais ocidentais por sua necessária proteção cambial e de capitais — que podemos ancorar a possibilidade de um programa mínimo da esquerda, buscando a retomada do desenvolvimento econômico em proveito da estabilidade democrática e social.

Embora “mínimo”, tal programa, sobretudo em países da periferia capitalista, como o Brasil, está longe de ser mido ou menor, visto que em nossa história republicana tal desiderato se viu em divórcio persistente na realidade, tanto sob os governos populistas (era Vargas), como dos nacionalistas de direita (período militar), para não falarmos no recente fracasso/desastre do período lulo-petista — onde o divórcio, eludido pela exuberância do comércio internacional, de um lado, e pela capilaridade da venalidade política, de outro, mostrou-se em sua inteireza na pior recessão da nossa história.

É certo também que, para tal, precisaremos forjar um novo ecumenismo liberal-progressista em torno da nossa própria tradição regulatória (ou da superação dela), o nacional-desenvolvimentismo, cujo esgotamento não pode ser confundido com impertinência ou fracasso. Ao contrário da social-democracia, cuja origem está numa proposta radical de transformação social, o nacional-desenvolvimentismo — não obstante ter obtido a adesão comunista na Declaração de Março de 1958 — sempre foi um projeto de liberal-democrático de consolidação da “revolução burguesa”, que entre nós tangenciou a democracia política e evitou o quanto pode a social.

A dificuldade não está só no fato de que, também aqui, o apoio liberal ao desenvolvimentismo parece ter refluído depois da crise do regime militar, mas também no fato de que a esquerda latino-americana acabou tragada pelo regressismo engendrado pelo apoio acrítico à prometida e malograda transformação socialista da ilha cubana (1959) — da qual o bolivarianismo é o filho dileto —, onde a perspectiva da distribuição/equalização suplantou largamente a da produção engendrando uma estagnação que só agora, quase 60 anos depois, com a morte de Fidel Castro, parece ser admitida e, finalmente, enfrentada pela elite comunista.

Embora os herdeiros do guevarismo entre nós tenham abraçado tardiamente o nacional-desenvolvimentismo, o fizeram sem levar em conta os percalços e equívocos do populismo — do qual o nacional-desenvolvimento foi, de certa forma, refém ao longo dos anos 1950-60 —, que, ao longo da história, desperdiçou as conquistas teóricas dos pensadores nacionalistas, consolidada nos debates regionais no âmbito da CEPAL, e esterilizadas em posturas político-eleitorais inconsequentes, como a majoração de 100% do salário mínimo, em 1954, o ataque ao Plano Trienal, em 1963, e a própria radicalização (“reformas na lei ou na marra!”), em 1964, que fez a hora para a direita conservadora.

A inapetência da velha esquerda (PTB nacionalista e PCB) em elaborar programas de governo efetivos, portanto, capazes de sustentar alianças políticas e econômicas sustentáveis, à moda do reformismo europeu, não medrou entre nós mesmo com as importantes mudanças produzidas pelo aparecimento do PT no campo progressista.

Isto pode ser explicado por variados motivos, dentre eles: o desinteresse da jovem militância no debate teórico o significado das mudanças, a persistência de segmentos populares e sindicais com elevado déficit de escolaridade e sem intimidade com a linguagem literária, a renovada influência doutrinária religiosa tendente ao milenarismo, e a prioridade das elites dirigentes petistas em amalgamar correntes ideológicas e estratos sociais muito distintos — como o trotskismo e a socialdemocracia dos intelectuais, o stalinismo e o maoísmo dos quadros organizadores, e o socialismo cristão popular das CEBs e o ambientalismo da classe média verde, entre outras denominações e segmentos sociais —, ao mesmo tempo em que perseguia a conquista do poder de Estado nos velhos moldes exclusivistas do bolchevismo, embora sem revolução à vista; tudo isso afastando o PT da solução positiva da tradição programática derrotada em 1964 e antropofagicamente resgatada pelo nacionalismo de direita.

Antes de discutir, num próximo artigo, a prometeica perspectiva atualizadora do Prof. Bresser Pereira (novo desenvolvimentismo), que no PSDB, outrora, não encontrou eco, é necessário sublinhar a oportunidade perdida pelo PT, em 1989, quando se tornou o partido líder da esquerda brasileira, desbancando o nacionalismo de Leonel Brizola (PDT), sem colocar de pé a alternativa programática (reformista-democrática) que seus antecessores não foram capazes de equacionar, em termos políticos, entre 1961-1964, não obstante os alertas e esforços de San Thiago Dantas, Celso Furtado, Armênio Guedes e Marco Antônio Coelho, dentre outros — os dois últimos na semilegalidade.

O PT “resolveu” o impasse programático de 1989 elaborando uma narrativa abstrata de mudanças que, de um lado, não ofendesse a percepção anticapitalista da maioria de seus dirigentes e militantes, e, de outro, não assustasse a sociedade, as instituições republicanas e os potenciais aliados liberais-moderados, ao mesmo tempo que permitia aos dirigentes ampla margem de arbitragem em um eventual governo. Uma “solução” que manteve o partido unido e em rota de ascensão, mas o impediu de não só conquistar o governo na ocasião, como de poder exercê-lo depois da Carta aos Brasileiros (2002), quando Lula se comprometeu a seguir as linhas mestras do Plano Real tucano, numa perspectiva mais inclusiva, corrigindo apenas em parte o problema das bases materiais da inclusão sustentável — como se pode ver pela radicalização fiscal-populista do período Dilma.

 

[i] Para a discussão do papel da tecnoestrutura na moderna produção industrial, ver John Kenneth Galbraith, O Novo Estado Industrial, ed. Abril Cultural/SP, 1982.

[ii] Capitalismo, Socialismo e Democracia, ed. FC&Ordem Livre, 1961, p. 475.

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Destaques negativos e positivos no primeiro debate a governador do Rio

 

Final do primeiro debate entre os candidatos a governador do Rio, encerrado na madrugada de hoje

 

Acabou nesta madrugada o primeiro debate entre os candidatos a governador, promovido pela Band. E o desempenho dois oito presentes não foi exatamente o mesmo das intenções de voto reveladas no dia anterior. Pela sondagem estimulada do instituto Real Time Big Data, Romário (Pode) tem 25%; Eduardo Paes (DEM), 19%; Anthony Garotinho (PRP), 14%; Indio da Costa (PSD), 6%; Tarcísio Motta (Psol), 3%; Márcia Tiburi (PT), 3%, Pedro Fernandes (PDT), 3%; e Wilson Witzel (PSC), 1%. Líder na pesquisa, Romário foi pouco atacado no debate. Ainda assim, o ex-craque se juntou à petista Tiburi na disputa pelo desempenho mais fraco na Band.

Romário teve dificuldades em articular quase todas suas respostas. E mais ainda quando teve que perguntar. Quando instado a falar das finanças falimentares do Estado, demonstrou ignorar economia ainda mais que o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL). Seu incômodo e nervosismo foram fisicamente denunciados durante todo o debate, na quantidade de vezes em que teve usar a língua para molhar os lábios. Com a boca seca, o “Peixe” estava claramente fora d’água.

Professora de filosofia, Tiburi tem boa articulação verbal, mas se revelou militante travestida de candidata. Não por estar usando uma camisa e um colar com as imagens do ex-presidente Lula, mas pelo caráter meramente panfletário das suas intervenções. No último bloco resumiu as perspectivas reais da sua candidatura: “Muitos candidatos aqui falam em prender e arrebentar e daqui a pouco acabam eles presos (…) Lula vai vencer e eu também”. Depois, concluiu com sua proposta de governo: “fazer um Rio de Janeiro feliz para as pessoas”.

Tiburi lembrou ser a única mulher entre os candidatos. Mas ressalvou que entre eles não havia nenhum negro. Romário reivindicou a cota e disse que o negro ali era ele. Pelo que ambos mostraram, as condições para governar o Estado não dependem de gênero ou raça.

Se não restou dúvida dos piores desempenhos da noite/madrugada, é difícil falar em melhores. Certamente, Tarcísio, Garotinho e Indio mostraram traquejo adquirido com experiência. Que também não falta a Paes, mas ele foi a Geni do debate, por conta da ligação com o ex-governador Sérgio Cabral. Se já era de se esperar, o que surpreendeu foi a dobradinha entre Garotinho e Indio para bater no ex-prefeito carioca. Sobretudo porque, em entrevista à Folha da Manhã publicada (aqui) em 6 de agosto de 2016, repercutida na mídia carioca (aqui e aqui), Indio declarou: “a política de Garotinho é manter o pobre na pobreza”.

Na primeira oportunidade que teve no debate, Índio rolou a bola com açúcar e afeto a Garotinho, ao lhe perguntar como Clarissa tinha encontrado a Prefeitura do Rio herdada de Paes, na condição de secretária de Marcelo Crivella (PRB). O político de Campos bateu com tanta força que gerou direito de resposta. Nele, o candidato do DEM disse que Garotinho havia levado até Rosinha à cadeia, “numa das três ou quatro vezes que foi preso”. Em seu direito resposta, o ex-governador alegou que sua esposa foi desrespeitada por Paes, porque este convive com agressor de mulher, em referência ao deputado federal Pedro Paulo (DEM).

Em nível bem mais elevado, se mostrou Tarcísio. Ao ser perguntado por Pedro Fernandes sobre o destino dos palácios do governador, o candidato do Psol primeiro se solidarizou com o adversário, cujo pai desapareceu recentemente num acidente de aviação. Tarcísio foi quem melhor atingiu em Garotinho, dizendo e dando exemplos de como este, quando governador, não foi diferente de Cabral. Mas, pelo bom papel que fez como candidato a governador em 2014, seu desempenho no primeiro debate de 2018 não surpreendeu.

As novidades positivas ficaram por conta de Fernandes e Wilson Witzel. O pedetista demonstrou sinceridade ao propor austeridade e exemplifica-la nos benefícios de que abriu mão como deputado estadual. Por sua vez, com a carreira de juiz federal que abandonou para ser candidato, Witzel mostrou embasamento e, sobretudo, firmeza em suas propostas contra a corrupção. Pareceu estar falando bastante sério quando as assumiu como tentativa de estender a experiência da Lava Jato ao governo do Estado do Rio.

Com 2% de intenções de voto na pesquisa, Marcelo Trindade (Novo) não participou do debate porque seu partido não ocupa o mínimo de cadeiras no Congresso Nacional.

 

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Guilherme Carvalhal — A âncora

 

 

Durante minha infância, meus pais me levavam ao cais para apreciar a velha âncora. Tiraram-na de um antiquíssimo galeão português naufragado séculos atrás e ali a deixaram como um objeto de interesse turístico.

Chamava a atenção que, após tantos anos imersa na água salgada e agora tomando os ventos da maresia, a mesma apresentava escassas marcas de oxidação. Ganhou um caráter não apenas de estabilidade, mas também de jovialidade, como se infundisse em quem a tocasse a sensação de vida eterna.

Para as crianças, a âncora proporcionava imensa diversão. Corríamos em volta dela, pulávamos, dançávamos. Deixávamos um dízimo ali, contribuindo com alegria e recebendo em troca a promessa de prosperidade e equilíbrio.

Os anos passaram e as visitas à âncora, apesar de existentes, se tornaram mais e mais espaçadas. A correria do dia a dia impedia uma viagem à área litorânea onde me criei e a vegetação de restinga e os pés cravados na areia se convertiam mais em objetos da memória. Ainda assim, nas ocasiões de presença, eu constatava como a âncora permanecia imperturbável no remanso onde sempre repousava.

O tempo passou e a velhice vagarosamente me consumiu. O vigor se foi, os cabelos caíram, a pele murchou. O médico deu o diagnóstico, câncer de próstata. Poucos meses de vida me restaram. Portanto, fiz meus netos me levarem até a âncora para eu me despedir.

Empurraram-me pela calçada de cadeira de rodas e me pegaram no colo para atravessar a areia. Lá chegando, diversas outras pessoas de minha idade rodeavam a âncora. Eu me recordava delas: as crianças com quem eu brincava nesse mesmo local.

Atraídos por igual força, fomos render as últimas homenagens. Nossas vidas iriam, ela permaneceria. Novas crianças retornariam e brincariam e deixariam a seiva vital drenada pelas dobras metálicas. Então só depois de muitos anos se dariam conta de que a eternidade da âncora se devia à ruína e decadência de homens e mulheres.

 

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“Rainha de nossas almas” — A vida e o legado de Aretha Franklin

 

Para a Rolling Stone, o maior cantor de todos os tempos

Morreu hoje a cantora Aretha Franklin, em Detroit, cercada de familiares e amigos. Aos 76 anos, a “Rainha do Soul” foi vítima de um câncer no pâncreas, contra o qual lutava há oito anos. Para quem talvez não tenha a dimensão do que essa grande mulher tenha sido, fica sua definição pelo jornalista David Remick, biógrafo de ícones negros dos EUA (e do mundo), como o pugilista Muhammad Ali (1942/2016) e o ex-presidente Barack Obama: “Aretha foi a maior cantora da música popular do pós-guerra”. Bíblia do rock e da cultura pop, a revista Rolling Stone a ecoou uma oitava acima, incluindo do gênero: “maior cantor de todos os tempos”.

Como tantas outras crianças e adolescentes da década de 80 do século passado, conheci Aretha por sua pequena, mas solar participação no clássico do cinema “Os Irmãos Cara de Pau” (“The Blues Brothers”, 1980). O filme era dirigido por John Landis, que dois anos depois assinaria também a direção do clipe “Thriller”, de Michael Jackson (1958/2009), divisor das águas da música popular do mundo em antes e depois.

No filme, a cantora interpreta a senhora Murphy, que administra uma lanchonete com o marido (o tecladista Murphy Dunne). Ele é convocado para recompor a banda itinerante dos irmãos Jake e Elwood Blues, interpretados pelos comediantes Jonh Belushi (1949/82) e Dan Aykroyd. Antes de perdê-lo novamente para a música e a vida da estrada, Aretha convoca o marido à reflexão e canta uma composição própria: “Think” (“pense”).

 

 

Desde aquelas reprises do primeiro filme na “Sessão da Tarde” da Globo, nunca mais deu para deixar de pensar em Aretha e sua poderosa voz. Talvez tenha sido, depois de Ella Fitzgerald (1917/96), a cantora de maiores recursos vocais na história da música popular. A mezzo-soprano era capaz de alcançar os agudos mais rarefeitos, aterrissando com segurança nos registros mais graves, sem nunca perder o vibrato sedutor de grande diva da música negra. Quando aquela mulher abria a boca, libertava uma força da natureza.

As origens da voz de Aretha confluíam com sua própria vida. Filha do pastor batista itinerante Clarence LaVaughn Franklin, ela nasceu em Memphis, no delta do rio Mississipi, manjedoura do blues. Ainda bebê se mudou para Buffalo, Nova York, antes de fixar residência em Detroit. Cidade da indústria automobilística dos EUA, concentrava grande população negra, que trabalhava na construção dos veículos que revolucionaram o mundo no séc. XX.

Ainda aos 10 anos, Aretha começou cantando no coral dos cultos do pai, no chamado e resposta do protestantismo cristão impressos nos versos de Walt Whitman (1819/92), capazes de converter no arrepio da pele de qualquer ateu. Ainda criança, passou a ser conhecida como “A Voz de Um Milhão de Dólares”.

C.L. Vaughn era amigo de outro ativo pastor batista, um tal de Martin Luther King (1929/68). E junto dele, pai e filha ingressaram na militância pacifista pelos direitos civis dos negros nos EUA. Por conta disso, cresceu e foi influenciada desde cedo pelos grandes nomes da música negra que frequentavam a sua casa, como a diva do jazz Dinah Washington (1924/63), a “Rainha do Gospel” Mahalia Jackson (1911/72) e os mestres do soul Sam Cooke (1931/64) e Jackie Wilson (1934/84).

 

Aretha Fraklin e Martin Luther King

 

Com o apoio do pai, Aretha gravou o primeiro disco aos 14 anos, em 1954: “Songs of Faith”. Foi na mesma época em que teve o primeiro dos quatro filhos. Depois, se mudou a Nova York e migrou da música gospel à secular. Passou sua vida por quatro gravadoras: a Columbia, a Atlantic, a Arista e a DMI.

Na primeira, ficou entre 1961 e 1966, quando conquistou a crítica nas mãos do lendário produtor John Hammond (1910/87), que enxergava na cantora a nova Billie Holiday (1915/59), insistindo no repertório de jazz e blues. Nele, emplacou sucessos como “Today I Sing The Blues”, “Won’t Be Long”, “Cry Like a Baby”, “Sweet Bitter Love” e “Rock-a-bye Your Baby with a Dixie Melody”.

 

 

Foi nesse período que Aretha cantou junto de Mahalia para arrecadar fundos à Grande Marcha a Washington, em 28 de agosto de 1963. Ao seu final, diante de 250 mil pessoas reunidas na capital dos EUA para orar e cantar por liberdade, trabalho, justiça social e fim da segregação racial, Luther King faria diante do monumento a Washington seu mais célebre discurso: “I have a dream!” (“Eu tenho um sonho!”).

 

Martin Luther King e as 250 mil pessoas reunidas pelo fim da segregação racial,  diante do monumento de Washington

 

Cinco anos depois, Aretha cantaria “Precious Lord, Take Me Hand” no velório do grande líder negro, morto a tiros por um supremacista branco na mesma Memphis em que ela nasceu. Em tempos mais felizes, também adornou com sua voz as posses de três presidentes dos EUA, dois brancos e um negro, todos democratas: Jimmy Carter, Bill Clinton e Barack Obama. Hoje, até o republicano Donald Trump lamentou publicamente sua morte.

 

 

 

Mas foi na Atlantic, onde ficou de 1967 a 1970, mergulhando fundo no rythm and blues, no soul e na música pop, que a cantora se tornou um grande sucesso popular. Logo na estreia dessa nova fase, ela gravou “Respect” (“Respeito”). Apesar de composta por um homem, Otis Redding (1941/67), a canção se tornaria quase uma assinatura da sua maior intérprete, além de hino do feminismo e da luta pelos direitos civis mundo afora. Tempos depois, ela definiria a música: “Um hino da mulher, um grito de guerra, um mantra. Todos nós queremos respeito”.

 

 

Em julho de 1968, a primeira negra na capa da revista Time

Em 1980, já na Arista Records, ela realizou seu primeiro show no Royal Albert Hall, secular casa de espetáculos de Londres, diante da rainha Elizabeth II. Mas seus títulos nobiliárquicos eram outros: foi a primeira negra a ser capa da revista Time, a primeira mulher a entrar para entrar no Hall da Fama do Rock, ganhou uma estrela na calçada da fama de Hollywood, recebeu a Medalha da Liberdade dos EUA — maior condecoração civil daquele país —, levou 18 Grammys e, antes que os discos se tornassem peças de colecionador, vendeu 76 milhões deles.

Após a sua morte, Obama testemunhou: “Aretha ajudou a definir a experiência americana. Em sua voz, nós podíamos sentir nossa história, toda ela em todos os tons: nosso poder ou nossa dor, nossa escuridão ou clareza, nosso questionamento ou redenção e nosso respeito duramente conquistado”. Por sua vez, o ex-Beatle Paul McCartney pediu: “Vamos todos parar um momento para agradecer pela bela vida de Aretha, a Rainha de nossas almas”.

Para quem nasceu, cresceu, formou identidade e envelheceu sob o poder da voz de Aretha, impossível não contrastar seu canto e sua vida com os tempos de intolerância em que hoje vivemos. Diante da perda, talvez tudo que fique sejam os versos de um dos seus sucessos na Atlantic, em composição do sobrevivente Burt Bacharach e Hal David (1921/2012): “I say a little prayer for you/ Forever, and ever, you’ll stay in my heart” (“Eu faço uma pequena oração para você/ Para sempre e sempre, você ficará no meu coração”).

 

 

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Seis meses de intervenção militar e 149 homicídios em Campos no ano

 

 

Charge do José Renato publicada hoje (16) na Folha

 

Intervenção x homicídios

Hoje, a intervenção militar na Segurança do Estado do Rio completa seis meses. Em Campos, deu o ar da graça numa megaoperação em Guarus na última quinta (9), com 800 homens da PM, Bombeiros, PRF, PF e Exército, além de três carros blindados. Diante de tanto aparato, o resultado foi aquém do esperado: com o objetivo de cumprir 162 mandados de prisão, só 30 suspeitos foram presos. E seu residual foi nenhum: ontem (15), Campos teve mais três homicídios no espaço de apenas oito horas, dois em Guarus. Em episódios diferentes, dois jovens, de 19 e 20 anos, foram executados a tiros, assim como um trabalhador de 46 anos.

 

Guarus e Pelinca

Em sua edição de 17 de maio, esta coluna detalhou (aqui) o problema específico de Guarus, onde uma guerra entre facções rivais explodiu após a prisão, em 8 de março, de quem foi apontado pela Polícia como líder do tráfico na região: Francio da Conceição Batista, o Nolita. O Ponto Final voltaria a abordar o quadro alarmante, que deveria ser assim encarado por todos os campistas, independente em qual margem do Paraíba se resida. Em 25 de maio e 6 de junho, foi ecoado aqui (e aqui) o alerta: “a sociedade parece esperar que alguém tenha menos sorte na Pelinca, para se revoltar contra o que banaliza enquanto Guarus é o foco”.

 

Pelinca e Guarus

Por ser óbvio, o que era previsto ocorreu. Por sorte, outra ação criminosa não provocou nenhum óbito. Mas foi emblemático que, na noite do último sábado (9), o Bob’s da Pelinca sofresse um assalto. Por volta das 19h, dois bandidos entraram na lanchonete, fazendo funcionários e todos os clientes de reféns, sob a mira de armas. Pelo menos dessa vez, no lugar de vidas humanas, levaram apenas dinheiro e celulares. Mas talvez tenha servido para evidenciar às classes mais abastadas de Campos: ninguém está livre dessa explosão de violência que, em Guarus, há muito tempo ganhou contorno de guerra civil.

 

Crime mira símbolos

Além das franquias de fast-food, cuja vinda ao município já foi encarada como sinônimo de progresso, dois outros símbolos campistas também foram alvos de ações criminosas. A partir da exploração de petróleo na Bacia de Campos, os petroleiros se tornaram uma categoria importante na cidade. Na última segunda (13), enquanto sete deles estavam embarcados, seus veículos eram roubados num estacionamento particular do Farol. No mesmo dia, mais um aluno do IFF foi assaltado num ponto de ônibus, forçando a tradicional instituição de ensino a providenciar transporte particular para tentar garantir a integridade física dos seus estudantes.

 

Saldo de guerra

Apesar do golpe militar de 1964, que agora se nega ter existido, o Exército Brasileiro é uma instituição que merece o respeito da população. Mas é inegável que falhou solenemente na intervenção na Segurança do Rio. O fracasso teve o testemunho do comandante das Forças Armadas mais poderosas da Terra. Em passagem pelo Rio, o secretário de Defesa dos EUA, general James Mattis, disse ontem, após ter ouvido do seu quarto de hotel o tiroteio nos morros vizinhos: “Quando se ouve um desses tiros, a vida de alguém pode estar mudando”. É vida que não muda mais para os 149 assassinados em Campos em 2018, sete só em agosto.

 

PT, Bolsonaro e Alckmin

Enquanto isso, circulou ontem nas redes sociais: “O PT nacional pede para não reproduzir os posts e matérias sobre Bolsonaro. Está relacionado ao logaritmo do Facebook. A indicação é evitar digitar o nome para que não entre nos ‘trend topics’”. A quem não é petista, difícil não falar do líder em todas as pesquisas presidenciais sem Lula. Mas com a segurança como pleito, talvez seja necessário constatar que, pela sensível redução dos homicídios no Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) é opção consistente para quem busca fatos, não bravatas. Só que depôs ontem sobre doações de caixa dois da Odebrecht. E se aliou à quadrilha do Centrão.

 

Publicado hoje (16) na Folha da Manhã

 

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Como a esquerda e a grande mídia trabalham para eleger Bolsonaro

 

 

 

Advogado Cañadas Fernando

Porque a esquerda elegerá o nosso Trump tupiniquim

Por Cañadas Fernando

 

É impressionante o que estamos assistindo no Brasil e que muitos parecem não dar conta.

A campanha à presidência de Jair Bolsonaro está trilhando exatamente os mesmos passos da campanha de Donald Trump nos Estados Unidos, há dois anos. E o final desse filme por lá nós sabemos qual foi.

Relembrando o roteiro.

Um candidato carismático e engraçado, que “fala a língua do povo” e que, inicialmente, ninguém levou a sério.

Um candidato que aparece como uma reação dos conservadores e da direita em geral aos anos de esquerda no poder e que deixaram o país carregado de problemas.

Um candidato que carrega em seu histórico piadas e declarações homofóbicas, misóginas e racistas, as quais ofendem aos seus opositores, mas agradam parte do seu eleitorado ou, ao menos, não o ofende a ponto de fazê-lo mudar seu voto, por serem consideradas questões menores do que aquelas que mencionei acima.

Um candidato muito bem treinado, espirituoso e preparado para rebater as armadilhas fáceis que entrevistadores e debatedores tentam lhe impingir.

Agora, mais recentemente, temos a nova etapa dessa campanha, que é o ataque feroz da grande mídia. Tal como ocorreu nos Estados Unidos, vemos hoje todos os grandes veículos tentando imputar a Bolsonaro crimes de improbidade por empregar um irmão ou uma funcionária fantasma.

Exatamente como aconteceu com Trump quando pipocavam diariamente denúncias de assédio sexual, espionagem, etc.

Com todo o respeito, a imprensa brasileira, majoritariamente de esquerda, parece ser inacreditavelmente ingênua, para não dizer burra mesmo. Não percebe que esse é o tipo de campanha que só dá força ao candidato. Comparar a “improbidade” decorrente da contratação de uma empregada que ganhava R$ 1.300,00 por mês à canalhice que se sabe generalizada de toda a classe política, inclusive de alguns candidatos que com ele concorrem, é de uma infantilidade atroz.

A mim parece óbvio e ululante que, quanto mais baterem nele dessa forma, só o farão crescer.

Quem sou eu para ensinar a velha guarda do jornalismo, mas pensem bem: se o objetivo dessa grande mídia é não permitir que ele ganhe, façam o fácil, pelo amor de Deus. Façam como o volante do time de futebol que quer mostrar ao técnico que joga mais do que o meia armador: passe a bola para ele no meio campo, toque de lado. As chances de o sujeito se enrolar são grandes.

Perguntem então o que Bolsonaro provavelmente não saberá responder: sobre o seu programa de governo na área de educação, de saúde, de economia, de transportes, etc. Perguntem ainda porque ele votou a vida toda, como parlamentar, em sentido contrário ao que hoje ele apresenta em seu projeto de governo. Indaguem essa sua guinada repentina ao liberalismo, se sempre foi um estatista de carteirinha. Jair já cansou de se embananar nessas questões, porque ele simplesmente sabe muito pouco a respeito delas.

Mas não, a imprensa se comporta como o ponta-direita que cruza perfeitamente na cabeça do centroavante, fazendo questões lacradoras “polêmicas” e periféricas (ao menos para o seu eleitorado), cujas bolas ele mata no peito e manda para o fundo das redes.

Sinto uma enorme sensação de déjà vu, vendo emergir a eleição de nosso Trump tupiniquim, com a grande ajuda de seus opositores.

Porque inacreditavelmente são justamente eles, os que odeiam Bolsonaro, vide os eleitores de esquerda e a grande mídia, que provavelmente serão os principais responsáveis por sua eleição.

Sim, porque essa turma está trabalhando de tal forma nesse sentido que, cá no meu íntimo, às vezes chego a duvidar se não é exatamente isso o que ela quer.

 

Publicado aqui, nas redes sociais

 

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Bolsonaro se consolida ao 2º turno, onde só perde para Lula e Marina

 

 

Bolsonaro e Marina

A 55 dias das urnas, ontem (14) foi divulgada uma nova pesquisa ao Palácio do Planalto. O instituto RealTime Big Data ouviu 3.200 eleitores, entre os dias 10 e 12, já após o debate da Band no dia 9. Nela, sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Jair Bolsonaro liderou com 21% das intenções de voto. Apesar da grande vantagem sobre Marina Silva (Rede), segunda colocada com 11%, ela é a sua adversária mais perigosa num eventual segundo turno. Se este fosse disputado entre os dois, a ex-senadora bateria o ex-capitão por 41% a 37%. É empate técnico na margem de erro.

 

Projeções de Lula

Nas simulações feitas na pesquisa encomendada pela Rede Record, Marina e Lula são os dois únicos nomes que venceriam Bolsonaro no segundo turno. O ex-presidente também o derrotaria, por 43% a 35%. Mas o líder petista está preso desde 7 de abril, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, no caso do triplex do Guarujá. E provavelmente terá o registro da sua candidatura indeferido no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pela Lei da Ficha Limpa, que ele mesmo sancionou quando foi presidente.

 

Corrida que conta

Abaixo de Bolsonaro e Marina, mas em empate técnico pelo segundo lugar na margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou menos, ficaram Geraldo Alckmin (PSDB), com 9%, e Ciro Gomes (PDT), 8%. Eles foram seguidos por Álvaro Dias (Podemos) e Fernando Haddad (PT), virtual substituto de Lula, que alcançaram os mesmos 6%. Com 1% ficaram Guilherme Boulos (Psol) e Henrique Meirelles (MDB). Assim como João Amôedo (Novo), único que não participou do debate da Band.

 

Capitão consolidado

Na consulta espontânea, 47% do eleitorado estão indecisos, enquanto 12% declaram que votarão em branco ou anularão. Isso evidencia uma disputa ainda em aberto. Neste cenário sem a apresentação dos candidatos, Lula e Bolsonaro lideram em empate técnico, respectivamente com 15% e 13% das intenções de voto. Sinaliza como parecem consolidados os votos do ex-capitão. De fato, parece que ele caminha ao segundo turno, a não ser que Alckmin e Amôedo avancem bastante sobre o numeroso eleitorado do antipetismo.

 

Herança lulista

O fato de Marina ter ficado com 8% na pesquisa estimulada com Lula, chegando a 11% quando o ex-presidente não é posto entre as opções, evidencia também como sua ex-ministra do Meio Ambiente herda parte considerável dos seus votos. Ela ganha três pontos percentuais apenas em cima dos órfãos de Lula, metade dos 6% de Haddad, vantagem a ser considerada na briga direta com Ciro e Alckmin no primeiro turno. Mas é no segundo que parecem residir as melhores chances da candidata da Rede.

 

Rejeição

Marina apresentou a segunda menor rejeição entre todos os presidenciáveis, com 38%, atrás apenas de Haddad (37%). Mas o candidato estepe do PT já virou alvo das delações da sua ex-marqueteira, Mônica Moura, relativas a doações ilegais da Odebrecht à campanha a prefeito de São Paulo, em 2012. A maior rejeição é de Lula, com 54%, em empate técnico com Bolsonaro (51%). Os dois são seguidos no índice negativo por Guilherme Boulos (Psol) e Henrique Meirelles (MDB), ambos com 49%; Cabo Daciolo (Patri), 44%; Alckmin (43%) e Ciro (42%).

 

Segundo turno  

Nas simulações de segundo turno, além de Bolsonaro, Lula e Marina também bateriam Alckmin: o ex-presidente, por 43% a 31%, enquanto sua ex-ministra levaria por 38% a 31%. O ex-capitão também ganharia do tucano (39% a 35%), além de Ciro (38% a 33%) e Haddad (39% a 25%). Alckmin só ganharia de Ciro, por 35% a 30%. Sem Lula e com Bolsonaro, Marina parece repetir o tucano Mário Covas (1930/2001) na campanha presidencial de 1989, que tinha vitória sobre todos os candidatos projetada no segundo turno. Só que não chegou lá.

 

Publicado hoje (15) na Folha da Manhã

 

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Está na hora de dizer coisas possivelmente incômodas sobre Jair Bolsonaro

 

(Foto: Adriano Machado – Reuters)

 

 

Jornalista José Roberto Guzzo

Um espelho do Brasil

Por José Roberto Guzzo

 

A dois meses da eleição para escolher o próximo presidente da República, está na hora de dizer com franqueza algumas coisas possivelmente incômodas a respeito do deputado Jair Bolsonaro, o candidato mais discutido desta e talvez de qualquer outra eleição presidencial brasileira. Não há lembrança de nenhuma figura parecida com ele. Nunca alguém foi tão odiado pelos adversários como Bolsonaro. Nunca um candidato a qualquer coisa neste país encontrou tanta oposição nos meios de comunicação quanto ele. Nunca houve tanto esforço para implodir uma candidatura quanto o que está sendo feito contra a sua. Ninguém, antes dele, foi descrito com tanta indignação como uma ameaça à democracia, à população brasileira e à própria ideia de uma vida civilizada no Brasil. Mas em algum ponto, ao longo dessa caminhada, perdeu-se o contato com certas realidades que não irão embora só porque não se fala delas. Seria bom lembrar um pouco quais são. A primeira é que o deputado Bolsonaro não é uma ameaça, definitivamente, para os milhões de brasileiros que vão votar nele — ao contrário, acham que o homem é uma solução, e têm o direito de achar isso. É útil lembrar, também, que ninguém é obrigado a votar “certo”. A lei diz apenas que você pode votar em quem quiser, e não estabelece controles de qualidade para o seu voto; não é pecado votar em Bolsonaro, nem um ato de virtude votar nos outros candidatos, ou vice-versa. Enfim, é preciso ter em mente que Bolsonaro só chegará à Presidência da República se a maioria absoluta dos brasileiros decidir que o presidente deve ser ele.

Eis aí, mais uma vez, a questão que jamais se cala: a democracia é uma coisa perigosa. Não serve, positivamente, para quem não está disposto a conviver com a ideia de que eleições são decididas por maiorias, e maiorias frequentemente são estúpidas. Quer dizer: podem, o tempo todo, tomar a decisão de votar justo naquele que você acha o pior candidato. Não gosta disso? Então você está com um real problema. A massa do Brasil é essa aí que existe hoje; pode ser altamente insatisfatória, mas é a única disponível. Não é sua função, além do mais, fazer o trabalho de Deus Pai; não lhe cabe separar o bem do mal. É muito simples: não é a maioria dos votos que decide o que é a verdade. Maiorias servem para eleger governantes, não para estabelecer a virtude, ou para definir quem tem razão, ou para tornar as pessoas felizes. A eleição de outubro, muito simplesmente, vai mostrar qual é o Brasil que existe na vida real — se Bolsonaro ganhar, é porque o Brasil de hoje é mais parecido com ele do que com os seus adversários. Isso não transforma os eleitores do deputado em seres humanos piores ou melhores. Quer dizer apenas, caso acabe vencendo, que são mais numerosos.

Tudo isso, naturalmente, serve para qualquer outro dos candidatos com possibilidades reais de suceder ao presidente Michel Temer. Mas um eventual sucesso de Bolsonaro, ou mesmo uma simples votação em massa no seu nome, é algo que não está sendo visto apenas como um dos azares comuns de uma disputa eleitoral. Pela descrição feita até agora por quase todos os formadores de opinião, comentaristas políticos e personalidades de primeiro plano na vida pública brasileira, isso seria uma desgraça histórica — a negação, segundo asseguram, das liberdades, direitos e garantias que fundamentam os regimes democráticos, e um convite à autodestruição do país. Será realmente assim, ou algo parecido? Para saber com certeza é preciso, antes de mais nada, que Bolsonaro seja mesmo eleito presidente da República, coisa bem mais fácil de discutir do que acontecer na vida real — sabe lá Deus quanta água vai rolar até 7 de outubro, dia marcado para o primeiro turno, e dali para a frente. Uma coisa é certa. Bolsonaro pode ser o pior candidato de todos os que se apresentaram para suceder a Michel Temer. Pode até ser o pior da história. Mas a solução para o eleitor que acha isso está aberta o tempo todo: basta não votar nele.

O que seguramente não deu certo, até agora, foi o esforço para apresentar Bolsonaro como uma espécie de filme-catástrofe — ou melhor, só deu certo para ele. A simpatia pelo candidato na mídia foi e continua sendo zero. Pior que isso, na verdade: a irritação que Bolsonaro provoca nos jornalistas é algo provavelmente sem precedentes na história da imprensa brasileira. Sua situação não melhora fora da mídia. Politicamente ele continua isolado. Em quase dois anos como candidato à Presidência, conseguiu o apoio de um único partido entre os 35 que estão aí; é tudo o que tem para disputar a Presidência. Já sofreu mais de trinta pedidos de cassação de seu mandato na Câmara dos Deputados. Tem menos de dez miseráveis segundos de tempo na propaganda obrigatória da televisão. Em matéria de dinheiro para campanha, então, é mais pobre que um caça-ratos desempregado. Antes de receber o primeiro voto já se discute seriamente a hipótese de ser pedido o seu impeachment como presidente; da mesma forma, condenam-se as suas possíveis intenções de fechar o Congresso Nacional e criar uma ditadura no Brasil depois de eleito. Mas apesar de todos esses contratempos, Bolsonaro foi crescendo até chegar onde está. O que houve?

Houve, pelo jeito, que os meios de comunicação, os partidos e quem mais influi na política estão falando uma coisa e grande parte dos brasileiros está pensando outra. Ou seja, quanto mais batem em Bolsonaro, mais aumenta o número de eleitores que querem votar nele — porque muita gente acha certo, justamente, aquilo que os críticos apontam como seus piores pecados. Onde vaiam, o público aplaude.  É duvidoso, na verdade, que o eleitor esteja muito incomodado com a falta de preparo de Bolsonaro, um dos pontos mais bombardeados de sua candidatura. Num país que já foi presidido por Dilma Rousseff fica difícil, francamente, imaginar alguém que consiga ser pior — e, de mais a mais, qual é o preparo da candidata (e já ex-candidata) Manuela D’Ávila, por exemplo, e outros que valem o mesmo que ela? Também não parece, até o momento, que o eleitorado esteja sentindo a necessidade de saber, já, quem vai ser o ministro da Economia de Bolsonaro, se também não sabe os ministros da Economia de nenhum outro candidato. É mais ou menos a mesma coisa com o programa de governo. O programa de Bolsonaro, por tudo que foi possível saber até agora, é uma perfeita escuridão. Acontece que a maioria dos demais candidatos propõe a mesma charada. A ideia mais ambiciosa que apareceu até agora foi acabar com o serviço de proteção ao crédito.

O problema são as outras coisas. A artilharia verdadeiramente pesada cai em cima de Bolsonaro quando ele diz que é contra as cotas para negros, que os quilombolas vivem na vadiagem ou que o território das reservas indígenas deveria ser reduzido. O candidato desperta escândalo quando é acusado de homofobia, por negar que os homossexuais sofram mais violência do que a média dos brasileiros — ou por declarar-se contra a exposição, nas escolas, das ideias segundo as quais pertencer ao gênero feminino ou masculino não é uma realidade fisiológica, mas uma questão de livre escolha por parte dos alunos. Deixa os adversários indignados ao dizer que Lula e o PT são inimigos do Brasil. É especialmente ofensivo, aos olhos de seus juízes, quando aplaude o regime militar e a repressão aos grupos armados que agiam para derrubar o governo. Em sua visão, as duas partes estavam em guerra — e na guerra é preciso matar o inimigo. O candidato se faz detestar, também, quando apoia o agronegócio e faz pouco dos “agrotóxicos”. É acusado de ser um delinquente social quando se declara contra o MST, a “reforma agrária”, ou a invasão de imóveis nas cidades — ou contra a legalização de drogas, o desarmamento da polícia e os “programas sociais” como bolsa-família, bolsa-pesca e por aí afora. Atrai ataques exasperados quando nega que o crime seja um problema social; acha que é falta de polícia, direitos excessivos para os criminosos e impunidade geral.

O nó complicado que se formou em volta da candidatura de Jair Bolsonaro está justamente aí — os brasileiros que pretendem votar nele estão convencidos de que as posições descritas acima, que tanto estupor causam em seus críticos, são o máximo em matéria de boa política. O que a mídia apresenta como denúncia os seus eleitores tomam como elogio. Os argumentos utilizados contra ele se transformam, para milhões de eleitores, em argumentos a favor. A questão, no fim das contas, talvez não seja exatamente o candidato Bolsonaro. A questão é o tamanho desse Brasil que vê nele o seu herói, defensor e espelho. É o que a eleição para presidente vai mostrar.

 

Publicado aqui na Veja

 

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Igor Franco — A Ursal e o SPC

 

 

A última semana parece ter decretado o início da corrida presidencial — pelo menos, para a maioria do eleitorado, que teve seu primeiro contato com os candidatos em rede nacional. Considerando seu formato engessado e cansativo de longas três horas de duração, o debate da Bandeirantes reservou poucas surpresas agradáveis para seus espectadores.

Candidato líder nas pesquisas, Jair Bolsonaro vestiu suficientemente bem a carapuça de um político equilibrado e foi pouco atacado, tendo, inclusive, trocado piadas com Ciro. Enquanto Álvaro Dias mostrava um estranho sorriso rasgado, Henrique Meirelles não parava de gesticular um só segundo enquanto tinha a palavra. A dose de sonolência e monotonia, como não poderia deixar de ser, ficaram a cargo de Marina Silva e Geraldo Alckmin.

O destaque da noite ficou por conta do candidato folclórico da vez: Cabo Daciolo (Patriota), deputado eleito pelo Psol de carona nos votos de Jean Wyllys e posteriormente expulso do partido. Mesmo considerando seu histórico inusitado — comandou uma greve militar de bombeiros e exortou a deputada cadeirante Mara Gabrilli (PSDB) a levantar e andar durante uma sessão legislativa —, Cabo Daciolo adaptou a Bíblia para uma versão nacional e acusou os engravatados de corrupção enquanto vestia uma desajeitada…. gravata. Numa das cenas mais cômicas do debate, Daciolo fulminou Ciro Gomes com a acusação de participar de uma tal iniciativa Ursal (União das Repúblicas Socialistas da América Latina), que nem o mais fanático dos anticomunistas devia fazer ideia do que seria.

No dia seguinte, os memes da Ursal de Daciolo passaram a dividir espaço com uma não tão nova proposta anunciada por Ciro: limpar o nome de 60 milhões de brasileiros do SPC. Numa bisonha tentativa de fugir da agenda negativa criada pelo isolamento imposto à sua candidatura por Lula, Ciro lançou sua bala de prata, seu Bolsa Família, para tentar angariar o apoio de um segmento bastante representativo do eleitorado.

A proposta final foi divulgada esse fim de semana. Após muitas especulações sobre uso de dinheiro público diretamente na liquidação dos débitos, Ciro informou que pretende promover grandes eventos de renegociação em que teria preferência o credor que oferecesse o maior desconto sobre o valor devido. Ainda, os bancos públicos federais e estaduais financiariam a renegociação uma taxa de juros de 12% ao ano, habilitando os outrora negativados a voltar a consumir e fazer girar a economia outra vez.

Na verdade, o que Ciro propõe é, novamente, mobilizar esforços estatais para intervir no mercado perseguindo o aumento de crescimento econômico. O uso dos bancos estatais é a cereja num bolo idêntico ao da antecessora que foi preparado pela impedida ex-presidente Dilma. No fundo, a visão de mundo de ambos parte da equivocada noção de que basta vontade política e mobilização para alterar a dinâmica da economia e chegar a um resultado desejado.

Não custa lembrar que os bancos públicos foram usados há poucos anos, exatamente, para abrir a torneira do crédito e impulsionar o PIB. O resultado foi um crescimento desordenado da carteira de crédito que quase resultou na necessidade de aporte de capital público para dar conta do desembolso. Inclusive, não assustaria se parte considerável da dívida que seria financiada por BB e CEF seja detida por estas próprias instituições.

Além do mais, a medida acabaria sendo inócua. Atualmente, os bancos têm várias ferramentas para determinar a qualidade dos pagadores. Bastaria impor um marcador negativo no CPF de cada cliente que somente conseguiu a renegociação através de uma quase imposição estatal. A necessidade de atender a um chamado compulsório teria o efeito de fazer subir a taxa de juros — que, entre outras coisas, serve para fornecer um prêmio pelo risco do não-pagamento do empréstimo feito. No fim, o tiro teria grandes chances de sair pela culatra e gerar ainda mais pessimismo e retração.

Como não custa lembrar, para todo problema econômico complexo existe uma solução simples, aplicável e errada. Na disputa entre um maluco e um sedizente gênio, talvez seja menos pior preferir o inocente da história. Quem sabe na Ursal?

 

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Não use o nome de Deus em vão — Mas só se apoiou o impeachment de Dilma

 

Começou o jogo sujo na net. Após o debate da Band, a Mídia Ninja postou um meme com as fotos de Daciolo, Bolsonaro, Alckmin e Marina, com um “Glória a Deus” sobre cada. Abaixo dos quatro, há uma imagem de Jesus, aparentando contrariedade e dizendo “Aff”. Enquanto a postagem recomenda: “Não fale o nome de Deus em vão”.

Estaria tudo bem se não fosse a seletividade. Ciro também fez menções religiosas na Band. Inclusive, encerrou sua participação no debate com um “Que Deus abençoe o Brasil”. Ainda assim, a intrépida Mídia Ninja se esqueceu de inclui-lo no rol dos crentes. Por que será?

 

(Clique na imagem para conferir a postagem no Facebook)

 

Acima a postagem seletiva da Mídia Ninja, que teve 20 mil compartilhamentos e na qual a religião só parece ser pecado para quem apoiou o impeachment de Dilma. O contraste é evidenciado no vídeo abaixo, veiculado pelo perfil oficial do próprio Ciro e sem vergonha do seu pedido de benção divina ao país que pretende governar: “Que Deus abençoe o Brasil”.

 

 

A rapaziada da Mídia Ninja está mesmo certa: “Não fale o nome de Deus em vão”. E, por motivos laicos, deveria seguir o próprio conselho.

 

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Artigo do domingo — Brasil, possibilidades e suposições

 

Bolsonaro sob os retratos dos generais-presidentes da ditadura militar que diz não ter existido: Humberto Castelo Branco, Arthur Costa e Silva, Emílio Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo

 

Líder em todas as pesquisas sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Jair Bolsonaro (PSL) foi abençoado com um reforço no debate da Band, da última quinta (09). Afinal, no contraste com o Cabo Daciolo (Patri), é preciso esforço para não parecer equilibrado. Líder da greve de bombeiros e policias militares em 2011, ele foi eleito deputado federal pelo Psol em 2014. Seria expulso do partido em 2015, após propor alterar o parágrafo primeiro da Constituição, de “todo poder emana do povo” para “todo poder emana de Deus”. Mas não sem antes provar como são largas as malhas da legenda que se pretende a renovação da esquerda brasileira.

No lado aparentemente oposto, como candidato a presidente pelo partido chamado Patriota, hoje o mesmo da ex-prefeita Rosinha Garotinho, Daciolo é a prova viva do quão profética é a sentença do pensador inglês Samuel Johnson (1709/84): “O patriotismo é o último refúgio dos canalhas”. No debate da Band, primeiro entre os candidatos nas urnas de daqui a menos de dois meses, o cabo bombeiro serviu de escada para o ex-capitão do Exército. Nada que o campista não conheça, depois do que o deputado federal Paulo Feijó (PR) fez para Rosinha na eleição municipal de 2008, ou que Caio Vianna (PDT) tentou fazer por Dr. Chicão (SD), com menos êxito, em 2016.

Embora tenha sido questionado por todos os demais candidatos por sua aliança com o Centrão (DEM, PP, PR, PRB e SD), o ex-governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB) se mostrou um dos mais consistentes entre os oito presidenciáveis reunidos no debate da Band. Pela experiência na vida pública, é condição que também ostentaram Ciro Gomes (PDT), Álvaro Dias (Pode) e Marina Silva (Rede). Ainda que tenha reunido em torno de si quem admite estar encurralado pela Lava Jato na maneira de fazer política, o tucano ganhou a disputa com Ciro e Bolsonaro, que também cortejavam o Centrão.

Por conta disso, Alckmin terá 6 minutos e 3 segundos por bloco na propaganda eleitoral gratuita de TV, que começa no próximo dia 31.  É bem mais do que os 33 segundos de Ciro, os 16 segundos de Marina e os 9 segundos de Bolsonaro. Mas no Brasil que derrubou uma presidente em 2016, a partir da mobilização pelas redes sociais, é difícil crer que a TV terá a mesma importância de eleições anteriores. Na guerra clássica, o presidenciável tucano se mostrou um hábil estrategista. Ainda que a guerra de guerrilha das redes sociais prometa ser protagonista na definição das urnas de outubro. Nessa inovação tática relativamente recente, reside a vantagem do ex-capitão na disputa pelos numerosos votos do antipetismo.

Com cerca de 20% das intenções de voto do brasileiro, de pesquisa em pesquisa, Bolsonaro parece ter batido seu teto. Não é suficiente para garantir a vitória no segundo turno, mas projeta acesso a uma das suas duas vagas. Se não conseguir avançar sobre esse eleitor, dificilmente Alckmin terá chance. E a tarefa é difícil pela impermeabilidade à razão de quem relativiza até as declarações racistas do general Hamilton Mourão (PRTB), vice do capitão: “Temos uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena (…) mas a malandragem é oriunda do africano”. Após dizer que “há um certo radicalismo nas ideias, até meio boçal” nos apoiadores de Bolsonaro, o militar foi voluntário para confirmar sua própria advertência.

Filha bastarda do “nós contra eles” implantado no Brasil pelo PT, sobretudo em seu processo de derrocada do poder, a irracionalidade política nunca esteve tão em alta. É capaz de fazer com que o líder nas pesquisas seja um político carismático, mas condenado por corrupção, preso e impedido de concorrer pela Lei da Ficha Limpa que ele mesmo sancionou quando era presidente. Sendo seguido nas intenções de voto por alguém que, em seu sétimo mandato como deputado federal, se anuncia como “o novo” “contra tudo que está aí”. Em um ou no outro, cerca de 50% dos brasileiros parecem acreditar, enquanto se odeiam mutuamente.

De fato, o que aí está é a Nova República, construída a duras penas após a ditadura militar (1964/85) cuja existência agora se nega. Arrasta-se moribunda em seu presidencialismo de coalisão, ou cooptação, por conta das reformas do país que os populares governos do PSDB e do PT não fizeram. E que se o próximo presidente não fizer, talvez não termine o mandato.

Além das redes sociais, Bolsonaro tem uma grande vantagem sobre seus concorrentes: ele fala a língua do eleitor comum. Ironicamente, é uma virtude semelhante à de Lula. Para entende-los, a população não precisa da tecla SAP necessária a oradores superiores, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) ou Ciro. Mesmo que o receptor padeça das dificuldades cognitivas da também ex-presidente Dilma Rousseff (PT), as mensagens de emissores como Bolsonaro e Lula são sempre claras. Goste-se delas ou não.

Para quem se assusta com a possibilidade de Bolsonaro vencer a eleição presidencial, o espanto pode se tornar ainda maior. Apenas como exercício mental, sem juízo de valor, suponha que a terceirização da economia do país, nas mãos do liberal Paulo Guedes, consiga estancar ou reverter o fechamento de empresas e postos de trabalho. E que, a partir de uma mudança na legislação, o endurecimento policial surta efeito contra a explosão da criminalidade.

Sem aposta ou desejo, mas se essas duas coisas acontecessem num eventual governo Bolsonaro, seu teto seria muito maior do que 20%. Como o próprio Lula já admitiu, na época do “Milagre Econômico” dos anos 1970 — cuja fatura se estendeu até o Plano Real em 1994 —, o general Emílio Garrastazu Médici (1905/85) provavelmente seria eleito presidente pelo mesmo voto popular que sonegou.

 

Publicado hoje (12) na Folha da Manhã

 

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