Advogado de Garotinho fala em “lei da mordaça”

 

O blog recebeu por e-mail uma comunicação da assessoria do advogado Fernando Augusto Fernandes (aqui), sobre o que ele considera “imposição da mordaça” pelo juiz Ralph Machado Manhães Júnior. Abaixo, em respeito ao contraditório, segue a nota:

 

Advogado Fernando Augusto Fernandes (Foto: Reprodução)
Advogado Fernando Augusto Fernandes (Foto: Reprodução)

 

O advogado de Anthony Garotinho, Fernando Augusto Fernandes, denunciou nesta segunda-feira (26/12) ao Ministro Gilmar Mendes, que o juiz Ralph Machado Manhães Júnior, que já consta na reclamação por descumprir ordens do TSE, prepara mais um descumprimento aquela Corte. Segundo o advogado, a “imposição de mordaça” ao ex-governador e jornalista Anthony Garotinho, agora resvala a outros jornalistas.

A imprensa tem noticiado que a Polícia Federal intimou os repórteres Maycon Morais e Ralfe Reis por terem destacado (…) a decisão do Ministro Gilmar Mendes, que atendeu ao pedido de informação solicitado em reclamação de Anthony Garotinho e vereadores investigados por compra de votos. O juiz Ralph Manhães que foi nomeado, por um único dia, na 99ª Zona Eleitoral e acumulou a 100ª Zona Eleitoral, também afastou seis vereadores e pretenderia prender o ex-governador porque outros jornalistas teriam reproduzido a mesma reclamação.

“Estamos vivendo um estado de sítio em Campos de Goytacazes, e o juiz Ralph Manhães que já descumpriu várias decisões do TSE, vem abusando do poder, impôs censura a Garotinho e interfere no legislativo. Mas, os advogados não são censuráveis e estão denunciando tais absurdos. Há notícias de que o juiz prepara uma prisão ilegal em razão das censuras impostas” alerta Fernandes.

 

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George Michael — Da fé dos anos 80 ao Natal do ano que não acabou

 

George Michael Faith

 

 

Só hoje (26), pelo comentário (aqui) de uma leitora no blog, na postagem do artigo (aqui) no qual já me despedia de 2016, descobri que o ano ainda não havia acabado. Ontem (25), dia de Natal, morreu aos 53 anos o cantor e compositor inglês George Michael. Nascido Georgios Kyriacos Panayiotou, era filho de um restaurador cipriota de origem grega e de uma dançarina britânica.

Quem foi brasileiro e adolescente nos anos 1980, não precisou ir muito além da produção nativa para cantar, dançar e descobrir a vida tendo o pop-rock como música fundo da sua geração. Afinal, com Blitz, Lulu, Marina, Lobão, Barão, Legião, Paralamas, Capital, Plebe Rude, Titãs, Ira, vivia-se o auge do BRock.

Ainda que achasse meio açucarado o som da dupla inglesa Wham, formada em 1981 pelos ex-colegas de escola George Michael e Andrew Ridgeley, era inevitável se ouvir pelo ar músicas como a dançante “Wake Me Up Before You Go-Go” (“Acorde-me ante de você ir-ir”), ou a balada “Careless Whisper” (“Sussurro descuidado”). Tratavam-se do que o jornalista e crítico brasileiro Maurício Kubrusly classificou de “música chiclete”: gruda no ouvido.

 

 

 

 

Querendo-se ou não, as duas faziam parte necessária da trilha das rádios FM, festas na casa de amigos e noites de rebeldia cabocla sem causa na saudosa boate Metrô — aos fundos do antigo Fórum e atual Câmara Municipal de Campos, formosa e intrépida amazona.

E vai daí que era 1987. Naquele ano do último Campeonato Brasileiro de Zico pelo Flamengo, foram lançados os discos “D”, com a gravação ao vivo do show do Paralamas no Festival de Jazz de Montreaux, na Suíça; além de “Vida Bandida”, que o sempre polêmico Lobão gravara após passar três meses preso por porte de drogas.

E, não fosse mais nada, o Legião ainda traria “Que País É Este”.

Mas 87 foi também o ano no qual, após ter desfeito o Wham, George Michael lançou seu primeiro disco solo: “Faith” (“Fé”). Sem perder seu público cativo, o artista o ampliou num mergulho mais profundo no Rhythm and Blues (R&B) e no Soul, para compor, tocar e cantar mega-sucessos dançantes como “I Want Your Sex” (“Eu quero seu sexo”), em cuja letra pregava o sexo casual; além da música que batizou o álbum.

 

 

A bem da verdade, foi depois de conferir a exibição do videoclipe da música título de “Faith”, que me interessei em comprar o primeiro álbum do artista. Era como assistir ao Elvis Presley (1935/77) jovem do final dos anos 50, com a mesma guitarra nas mãos e botas de cowboy nos pés, mas repaginado pelos cabelos oxigenados e o casaco de couro negro rockabilly já customizado pelo punk — sem contar os jeans rasgados e o brinco solitário de crucifixo, que a partir dali se tornariam referências de uma época.

Quem quiser matar as saudades dessa indumentária típica, que dita moda até hoje, uma boa dica é (re)assistir a “Os Garotos Perdidos”, misto de comédia, terror e filme sobre jovens dirigido por Joel Schumacher, também lançado naquele profícuo ano de 1987.

Para além do movimento frontal dos quadris, que chocou a “moral” e os “bons costumes” dos meados do século 20, pelo qual Elvis ficou também conhecido como “The Pelvis”, George Michael acrescentava a ousadia de virar de costas para também requebrar as nádegas ao público — talvez numa antecipação da homossexualidade que ainda não havia assumido.

E, o que importa, a música era muito boa, assim como o clipe, inciado com o refrão de “I Want Your Sex” numa jukebox — outra reminiscência física dos tempos do Rei do Rock:

 

 

Considerado até nossos dias como um dos maiores discos da história da música pop, fui comprá-lo na saudosa Caiana Discos, do meu tio Dionísio Barbosa (1934/94), no cruzamento da esquina da Santos Dumont com 21 de Abril. Lá chegando, o atendente da loja era o Léo Zanzi, que me sabia apreciador de música mais “séria”, como Blues e Jazz.

Meio sem jeito, perguntei pelo novo LP do George Michael. No lugar de estranhar, lembro que ele endossou: “Esse inglês tem um suingue muito bom!”

Talvez antecipado pelo julgamento de Léo e meu, “Faith”  foi o primeiro álbum de um artista branco a chegar ao topo dos chats de R&B, voltados à música negra dos EUA. Em todo o mundo, foram mais de 20 milhões de cópias vendidas.

Em 1990, George Michael lançou seu segundo disco solo, na pretensão de se tornar um cantor mais sério. “Listen Without Prejudice Vol. 1” (“Ouça sem preconceito”) teve boa acolhida da crítica, mas não repetiu o estrondoso sucesso popular de “Faith”, vendendo “apenas” 8 milhões de cópias.

Ainda assim, o novo álbum trouxe uma música que até hoje transcende os limites geralmente efêmeros do pop. “Fredom! ‘90” (“Liberdade 90”) tratava do descompromisso de relações mais fluídas de um novo tempo. E em seu sensualíssimo clipe, no qual a jaqueta e a jukebox de “Faith” eram emblematicamete destruídos, trouxe a participação de cinco supermodelos de então: Naomi Campbell, Tatjana Patitz, Linda Evangelista, Christy Turlington e Cindy Crawford.

 

 

Nos anos 1990, a partir do suicídio de Kurt Cobain (1967/94), do Nirvana, parei de acompanhar as novidades do pop-rock, sobretudo o internacional. Mas não deixei de atentar, até pela concordância política, ao provocante clipe do single “Shoot The Dog” (“Atire no cão”), de 2002.

Feito em animação, nela a estupidez do então presidente estadunidense, George W. Bush, sofreu dura sátira. Assim como a subserviência do primeiro ministro britânico à época: Tony Blair, trabalhista (esquerda na GRB) que apoiaria incondicionalmente a invasão do Iraque, em 2003, numa aventura dos republicanos (direita dos EUA). A causa seriam armas de destruição em massa desenvolvidas pelo ditador Saddam Hussein (1937/2006) que nunca existiram.

 

 

Além da sua música, George Michael ficou também conhecido pela ativa militância LGBT. Embora os mais próximos sempre soubessem de sua sexualidade, só a revelou publicamente em 1998. Na ocasião, foi preso ao tentar seduzir, num banheiro público de Bevelly Hills, em Los Angeles, um policial disfarçado na indisfarçável hipocrisia do puritanismo que a Inglaterra degredaria a bordo do navio May Flower, no início do séc. XVII, para fundar os EUA.

No litoral de outros mares e tempos, a lembrança de George Michael que levo pela vida num estojo, foi sua participação no Rock in Rio II. Era o verão de 1991.

Em frente ao Grussaí Praia Clube, no lado oposto da rua, jogava totó — aquilo que os paulistas chamam de pebolim — numa das muitas mesas de jogo e de bar espalhadas no entorno de um trailer de sanduíches (e cervejas). Nele, uma TV exibia a transmissão ao vivo, pela Globo, do grande evento de rock na Cidade Maravilhosa.

Tinha 18 anos. Lembro que meu adversário no totó era o Juliano Vilela, um ano mais novo e conhecido por “Whisky”, mais por uma brincadeira fonética juvenil do que por seu gosto pela bebida. Então, em meio ao burburinho das pessoas, a maioria jovens como nós, George Michael começou a cantar ao vivo na TV uma arrepiante interpretação de “I’m Calling You” (“Eu estou te chamando”).

A música foi composta por Bob Telson para o filme cult “Bagdad Café”, de Percy Adlon, lançado nos cinemas naquele mesmo ano de 1987, de “Faith”, de “D”, de “Vida Bandida”, de “Que País é Este”, de “Os Garotos Perdidos”, do último Brasileiro de Zico no Flamengo.

Sem que meu adversário de totó entendesse nada, simplesmente abandonei o jogo, dei as costas e fiquei parado de pé, diante à TV. Foi assim que ouvi a música até sua estrofe final:

 

A hot dry wind blows right through me

The baby’s crying and I can’t sleep

But we both know a change is coming

Coming closer, sweet release

 

“Um vento quente e seco sopra através de mim

O bebê está chorando e eu não posso dormir

Eu sinto que a mudança está próxima

Chegue mais perto, doce libertação”

 

 

 

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“Entre a piada e o ridículo”

 

Ridículo - Caio Fernando Abreu

 

 

Revelador o desespero demonstrado nos últimos dias por quem ainda se presta ao papel de ecoar os delírios de Anthony Garotinho (PR), degredado de Campos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). De fato, a atitude dos servos a soldo faz lembrar a do próprio líder, na patérica cena (aqui) em que este foi transferido do Hospital Souza Aguiar ao Complexo Penitenciário de Bangu.

Aos áulicos — como bem os definiu o ex-governador Leonel Brizola (1922/2004) —, além da contagem regressiva de cinco dias para perderem a boquinha custeada pelas verbas públicas de uma Prefeitura falida, o cerco aperta ainda mais com as investigações da Polícia Federal (PF) e Ministério Púbico Eleitoral (MPE) sobre quem se permite ser usado para tentar burlar as determinações impostas pela Justiça a Garotinho.

E o mais lamentável é que parecia até haver gente aproveitável nesse bolo, cujo futuro ora é tragado pelo eco do fluir ao eixo do ralo.

Na democracia irrefreável das redes sociais, esse último ato de ópera bufa foi melhor resumido aqui pelo advogado tributarista Carlos Alexandre de Azevedo Campos, ex-assesor do Supremo Tribunal Federal (STF):

— Fica entre a piada e o ridículo. Passar vergonha é pouco!

 

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Artigo do domingo — Adeus, ano velho!

 

Luís Alberto e seu filho Pedro, Toca dos Amigos, 22/12/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Luís Alberto e seu filho Pedro na Toca dos Amigos, 22/12/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Adeus, ano velho!

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Não lembro se era época de Natal, ou fim de ano. Talvez não. Mas guardo nítido o registro de quem acabara de descobrir o significado da palavra: tio-avô.

Saía da casa ampla da minha bisavó materna, Noêmia Rangel da Silva. A bela construção da Salvador Corrêa, que hoje abriga um curso de Inglês, continua de pé e conservada. Mas como sua ex-dona morreu em 1981, minha memória é anterior aos 9 anos de idade. A partir dela, na cabeça da criança ao adulto que a sucedeu, tio-avô passou a ser sinônimo de alguém necessariamente velho, que ficara para trás no passar das gerações: o irmão de um avô.

Do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) à eleição de Rafael Diniz (PPS) a prefeito, ainda no primeiro turno, em todas as sete Zonas Eleitorais de Campos, 2016 foi um ano movimentado — do Planalto Central à Planície Goitacá. No desvelar da corrupção generalizada na política nacional, eviscerada a partir da operação Lava Jato, enquanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fecha o ano como réu, por enquanto, em cinco ações, ganharam destaque as prisões do ex-presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha (PMDB) e dos ex-governadores fluminenses Sérgio Cabral (PMDB) e Anthony Garotinho (PR).

Preso por interferência nas investigações da Polícia Federal (PF) sobre a denúncia de crime eleitoral na eleição perdida em Campos, o guloso “Bolinha” (aqui) da delação do fim do mundo da Odebrecht, agora investigado na Lava Jato, acabaria liberto pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que, no entanto, degredou o político da sua cidade natal. Mas antes disso rendeu, segundo eleição do jornal O Globo, a cena mais patética do ano: a encenação familiar (aqui) que conferiu caráter tragicômico à transferência de Garotinho do Hospital Souza Aguiar ao Complexo Penitenciário de Bangu.

Entre comédia pastelão e terror trash — onde o monstro se levanta em mais uma investida, depois de dado como morto —, o ato foi encerrado tão logo se fecharam as portas da ambulância que o levou a Bangu, segundo revelou (aqui) relato da própria PF.

Mas o ano que se encerra gerou apreensões muito além das fronteiras de Campos, do Rio ou do Brasil. A imensa maioria que se surpreendeu negativamente com a vitória de Donald Trump ao cargo mais importante do planeta Terra, talvez ainda não tenha se apercebido que seu maior cabo eleitoral foi o ocupante do segundo cargo mundialmente mais relevante, pelo menos belicamente: o ex-chefe da KGB (serviço secreto da extinta União Soviética) e atual presidente vitalício da Rússia, Vladimir Putin.

Para quem quiser saber o que isso pode querer dizer, que (re)assista (aqui) as dramáticas cenas da reconquista recente de Aleppo, maior cidade da Síria, pelas forças de Bashar al-Assad, na guerra civil que desde janeiro de 2011 devasta aquele país — berço da civilização. Sem compaixão e com o apoio de Putin tão aberto quanto o recebido por Trump, o ditador sírio estrangulou o último suspiro da “Primavera Árabe” que sacudira o mundo islâmico, a partir de dezembro de 2010, com ampla mobilização popular através da democracia irrefreável das redes sociais.

Quem conhece um pouco de História e sabe que a Guerra Civil Espanhola (1936/39) serviu como “tubo de ensaio” à II Guerra Mundial (1939/45), que torça para estar errado no que de mais grave a Guerra Civil Síria parece prenunciar. Quem conhece um pouco mais, que lamente pelo destino de Aleppo, uma das primeiras cidades do mundo, habitada continuamente, por gente como você e eu, há 7 mil anos. E se indague: nestes 70 séculos, quantas vezes os pais de família da velha cidade consultaram seus sacerdotes para saber se seria pecado matar esposas e filhas, como única forma de evitar que fossem estupradas pelos invasores?

Já para quem não conhece nada de História, mas adora ricochetear a própria ignorância sobre seus discordantes políticos, que continue a bravatear infantilmente “Não passarão!” à cada nova contrafeita. Criado pelos republicanos espanhóis, o slogan foi por estes ecoado diante às forças do generalíssimo Francisco Franco (1892/1975), que os esmagaram com o apoio de um tal Adolf Hitler (1889/1945) — embevecidos da mesma “candura” que Assad agora demonstra ao mundo, com o apoio de Putin.

Sem saber o que será de 2017, com o início do governo Trump, enquanto o de Michel Temer (PMDB) fica cada vez mais encurralado politicamente, pelo julgamento das contas da eleição presidencial de 2012 no TSE e o avanço inexorável das investigações da Lava Jato, 2016 teve no seu encerramento particular a praxe múltipla das confraternizações. Numa delas, na última quinta (22), entre os integrantes do Cineclube Goitacá — ilha de resistência durante a ruinosa gestão de Rosinha Garotinho (também) na cultura do município —, fui o primeiro a chegar, por ter feito a reserva na Toca dos Amigos.

Enquanto os demais não apareciam, divisei numa das mesas meu sobrinho Luís Alberto, filho da minha irmã Ana Maria. Ele estava com seu filho, Pedro, menino mais ou menos com a idade de outro que, décadas atrás, descobria o significado das palavras na casa da bisavó. “Criança bonita de riso e natural” — como descreve seu menino Jesus, pela pena de Alberto Caeiro, o poeta português Fernando Pessoa (1888/1935) —, descobri que Pedro, torcedor do Flamengo, gosta de futebol, de vídeo game e, como todas da sua geração, mexe no iPhone do pai com uma destreza que este ou eu jamais possuiremos.

À medida que os cineclubistas foram chegando, fui apresentando um a um ao pai e ao filho com quem estava sentado: “Estes são Luís Alberto, meu sobrinho, e Pedro, meu sobrinho-neto”. Na conexão súbita entre os meninos do passado e presente, só então percebi como, a exemplo de 2016, eu também tinha ficado velho.

 

Publicado hoje (25) na Folha da Manhã

 

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Fabio Bottrel — Esperança natalina

 

Bottrel 24-12-16

 

 

Ao conferir as notícias diárias, como sempre faço logo após acordar, entre a hora do café, revi hoje o vídeo de uma entrevista do filósofo Mario Sergio Cortella para Otávio Mesquita, concedida já algum tempo. Nele, o entrevistador pergunta ao professor o que ele diria para uma pessoa que chegará ao natal cansada e escassa não só de todas as farturas culinárias costumeiras dessa data, mas de todo o restante para uma vida saudável. A resposta é interessante:

 

 

A esperança como fonte de vida é o manancial mais importante que há dentro de nós, local onde a água se origina, nascente ou fonte que jorra ou corre de maneira ininterrupta como explica a maioria dos dicionários. Cícero – cônsul e um dos maiores escritores da Roma Antiga – definiu a esperança como a força que nos liberta da infelicidade e nos abre uma perspectiva para o futuro, enquanto para Tomás de Aquino a esperança surge das qualidades humanas sobre a bondade e ambição por algo elevado.

Lembrei-me do livro Sem medo de voar: uma filosofia para o cotidiano, do padre Beto, quando em um capítulo conta ter recebido uma ligação no meio da noite sobre uma senhora em estado terminal desejosa de receber a Unção dos Enfermos – ou Extrema Unção como era dito antigamente – num hospital da Alemanha. Beto, cansado após um longo dia de trabalho, se aprontou, caminhou até o local e encontrou a senhora inconsciente, mantida viva apenas pelos aparelhos. O padre ministrou o sacramento e ao término, quando a palavra “amém” foi proferida, o aparelho sinalizou a morte da senhora. Voltou meditando para casa por ter presenciado um momento intenso: a esperança de receber uma benção a fez lutar até o último momento para se manter viva. Assim como ele presenciou, sabemos que toda esperança provoca momentos intensos, seja de ruínas ou de conquistas, mas sem dúvida, de vida. Talvez a grande tragédia dita por Albert Schweitzer e citada por Cortella no vídeo seja resumida por morte da esperança: “A tragédia não é quando um homem morre, a tragédia é aquilo que morre dentro de um homem enquanto ele ainda está vivo.” Albert Schweitzer, primo de Jean Paul Sartre, foi também teólogo, músico e filósofo, e sobre o primo deixou uma célebre frase: “todas as opiniões são respeitáveis quando são sinceras, e por conta disso Deus seguramente perdoará.”

Ainda sem medo de voar, no livro, padre Beto escreve “A verdadeira esperança convence-nos de que somos capazes e mostra-nos que os limites são, muitas vezes, abstrações subjetivas que impedem a nossa realização como pessoa. Quem não alimenta a sua esperança perde a dignidade e é responsável da sua própria miséria. Como escreveu certa vez Kant, “Aquele que anda de rastros, como um verme, nunca poderá queixar-se de que foi pisado por alguém.”

Mas que nesse natal a esperança se mantenha de uma vida e de um Brasil melhor.

 

 

Juízo Final – Nelson Cavaquinho

“O sol há de brilhar mais uma vez, a luz há de chegar aos corações, do mal será queimado as sementes, o amor será eterno novamente.”

 

Feliz natal.

 

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Na dúvida do que seria, se Chicão vencesse, a dúvida do que será

Ponto final

 

 

O que seria?

O que seria de Campos se Anthony Garotinho (PR) ganhasse mais um mandato para brincar de títere na Prefeitura que dominou por 28 anos? Por mais que seu candidato derrotado a prefeito, Dr. Chicão Oliveira (PR), seja um pediatra com carreira brilhante e homem de bem, custa a crer que teria força ou temperamento para conter não só os desmandos do primo, como a herança maldita que este, após governar por oito anos em nome da esposa Rosinha (PR), deixou à cidade que um dia chegou a projetá-lo à política nacional.

 

Como é

Assim, enquanto o secretário municipal de Saúde Geraldo Venâncio declarou ontem à Folha que vai hoje ao Rio, tentar uma audiência com Rosinha, para saber como pagar mais de R$ 1,1 milhão a Clínica Pró-Rim, ninguém em Campos tem dúvida que, se aceitar tratar do assunto, quem vai fazer a mágica de aparecer o dinheiro, ou não, será o próprio Garotinho. Por mais que Geraldo, assim como Chicão, também seja um médico de carreira exemplar e homem correto, dizer que vai tratar de questões de governo com Rosinha, para falar na verdade com Garotinho, já se tornou um eufemismo. Talvez tragicômico, mas, por sorte, a 10 dias do fim.

 

O que será?

O que chegou ao fim foi a paciência da Pró-Rim em receber as quatro parcelas que o governo Rosinha prometeu pagar em setembro, acertando uma única em novembro, pelo serviço prestado entre outubro de 2015 e julho deste ano. Sem o dinheiro, as cerca de 500 hemodiálises/mês dos pacientes nas UTIs dos dois hospitais públicos e quatro conveniados da rede municipal de Campos, deixarão de ser feitas a partir da próxima segunda (26). No dia seguinte ao Natal, são cerca de 50 doentes que correrão risco de morte, em mais um presente de Garotinho à cidade da qual foi degredado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

 

Pagou, mas…

O prefeito Neco (PMDB) pagou ontem a primeira parcela do 13º salário dos servidores do município. Na região, municípios como Campos, São Francisco de Itabapoana e Macaé já pagaram a segunda parcela, como previsto na lei trabalhista que limita o dia 20 de dezembro para quitação. É claro que existe a crise no país e no Estado, como o governo sanjoanense tanto enfatiza, mas as receitas do Porto do Açu não seriam um diferencial para SJB? Campos “vendeu o futuro” três vezes, SJB não conseguiu nenhuma. E Neco ainda diz que se conseguisse o empréstimo, tudo poderia ser diferente. O que não se sabe é se é para melhor ou pior.

 

Ceia ainda salgada

O Procon elaborou a 2º pesquisa de preços com os produtos da ceia de Natal em Campos. Se comparados com valores levantados entre 07 e 08 de dezembro, os preços diminuíram 5%. Rosangela Tavares, superintendente do órgão, observa que os preços ainda estão altos. Quem deixar para compra mais perto do Natal pode encontrar preços mais baixos. Contudo, a oferta não é tão grande e os produtos podem não ter a mesma qualidade. Foram encontradas diferenças de preços de mais de 100% entre um mesmo produto, portanto o consumidor deve pesquisar bem antes de finalizar sua compra.

 

Morre Carlinhos Manhães

O rádio de Campos está de luto. Morreu ontem, no Prontocárdio, aos 74 anos, vítima de infarto fulminante, Carlinhos Manhães. Seu corpo está sendo velado numa das capelas mortuárias do Cemitério do Caju, onde será sepultado hoje. Carlinhos atuou nas principais emissoras de rádio de Campos, notabilizando-se nos plantões esportivos, na apresentação de programas de samba e carnaval. Era profundo conhecedor da parte técnica do rádio. Irreverente e bem humorado, teve como último trabalho no rádio a co-apresentação do “Programa Nilson Maria”, na Rádio Absoluta (AM 1470), sendo inclusive participante fixo do “Frente a Frente”, o mais tradicional espaço de debates do rádio campista.

 

Com a colaboração dos jornalistas Arnaldo Neto e Antunis Clayton

 

Publicado hoje (21) na Folha da Manhã

 

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Calote de Rosinha na Saúde pode matar 50 no dia seguinte ao Natal

 

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Todos os pacientes com insuficiência renal internados nas UTIs dos dois hospitais públicos e quatro conveniados da rede municipal de Campos correm risco de morte a partir de segunda-feira (26). No dia seguinte ao Natal, este pode ser o próximo presente ao povo de Campos dado pelo governo Rosinha Garotinho (PR), que só pagou uma das quatro parcelas de uma dívida de R$ 1.517.550,00 com a Clínica Pró-Rim. Após enviar três avisos extrajudiciais ignorados, ela não vai mais prestar o serviço de hemodiálise móvel aos pacientes internados em tratamento intensivo nos hospitais Ferreira Machado (HFM), Geral de Guarus (HGG), Plantadores de Cana (HPC), Álvaro Alvim (HAA), Santa Casa de Misericórdia de Campos (SCMC) e Beneficência Portuguesa (BP).

Médico nefrologista (especialista em rins) e diretor técnico do Pró-Rim em Campos, Raymundo Santiago revelou que comunicou hoje à secretaria municipal de Saúde e a todos os hospitais da rede pública municipal que, na próxima segunda, o atendimento irá parar por falta de pagamento. A dívida corresponde aos serviços de hemodiálise móvel prestados nas seis unidades da rede pública e conveniada, entre outubro de 2015 e julho de 2016. Em setembro, a Prefeitura assumiu a dívida e acordou fazer o pagamento em quatro parcelas de pouco mais de R$ 379 mil. Mas só honrou a primeira, em novembro, com dois meses de atraso:

— Prestamos dois tipos de serviço. Para pacientes crônicos, prestamos o serviço na Pró-Rim e viemos recebendo normalmente pelo SUS (Sistema Único de Saúde). E àqueles internados nas UTIs das redes pública e conveniada, levamos nossos equipamentos e profissionais para fazer a hemodiálise nos hospitais. Nestes, fazemos uma média de 500 procedimentos/mês, para uma cerca de 50 pacientes — disse Raymundo, quantificando os que passam a correr risco de morte a partir de segunda.

O secretário de Saúde Geraldo Venâncio assumiu a dívida e o descumprimento do acordo de pagamento da Prefeitura. Ele informou que estará amanhã no Rio, para tentar despachar sobre o grave assunto com a prefeita. Rosinha acompanha o marido Anthony Garotinho (PR), solto do Complexo Penitenciário de Bangu, mas proibido de voltar a Campos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para não atrapalhar as investigações da Polícia Federal (PF) e Ministério Público Eleitoral (MPE) na operação Chequinho.

Apesar de assumir a dívida e o não pagamento do acordo que assinou, Venâncio lembrou:

— Isso é um débito contraído num período anterior a mim na secretaria de Saúde. Há o reconhecimento da dívida. Mas se eles interromperem, vão colocar em risco uma série de pessoas. E interromper um serviço essencial à vida, não deveria caber discussão. Estamos tentando de todas as maneiras resolver isso.

Diretor do Pró-Rim, Raymundo informou ainda que, como vence em 31 de dezembro o contrato descumprido pela falta de pagamento do atual governo, seria deste a obrigação de recontratualizar o serviço 90 dias antes do final do mandato. Mas isso também não foi feito por Rosinha.

Página 7 Folha 21-12-16

Publicado hoje (21) na Folha da Manhã

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Calote de Rosinha na Saúde pode matar no dia seguinte ao Natal

 

Saúde doente 1

 

Todos os pacientes com insuficiência renal internados nas UTIs dos dois hospitais públicos e quatro conveniados da rede municipal de Campos, correm risco de morte a partir de segunda-feira (26). No dia seguinte ao Natal, este pode ser o próximo presente ao povo de Campos dado pelo governo Rosinha Garotinho (PR), que só pagou uma das quatro parcelas de um dívida de R$ 1.517.550,00 com a Clínica Pró-Rim. Ela executa o serviço de hemodiálise móvel, com equipamento e profissionais, aos pacientes internados em tratamento intensivo nos hospitais Ferreira Machado (HFM), Geral de Guarus (HGG), Plantadores de Cana (HPC), Álvaro Alvim (HAA), Santa Casa de Misericórdia de Campos (SCMC) e Beneficência Portuguesa (BP).

Médico nefrologista (especialista em rins) e diretor técnico do Pró-Rim em Campos, Raymundo Santiago revelou que comunicou hoje à secretaria municipal de Saúde e a todos os hospitais da rede pública municipal que, na próxima segunda, o atendimento irá parar por falta de pagamento. A dívida corresponde aos serviços de hemodiálise móvel prestados nas seis unidades da rede pública e conveniada, entre outubro de 2015 e julho de 2016. Em setembro, a Prefeitura assumiu a dívida e acordou fazer o pagamento em quatro parcelas de pouco mais de R$ 379 mil. Mas só honrou a primeira, em novembro, com dois meses de atraso.

O secretário de Saúde Geraldo Venâncio assumiu a dívida e o descumprimento do acordo de pagamento da Prefeitura. Ele informou que estará amanhã no Rio para tentar despachar sobre o grave assunto com a prefeita Rosinha. Ela acompanha o marido Anthony Garotinho (PR), solto do Complexo Penitenciário de Bangu, mas proibido de voltar ao Campos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para não atrapalhar as investigações da Polícia Federal (PF) e Ministério Público Eleitoral (MPE) na operação Chequinho.

Diretor do Pró-Rim, Raymundo informou que, como vence em 31 de dezembro o contrato descumprido pela falta de pagamento do atual governo, seria deste a obrigação de recontratualizar o serviço 90 dias antes do final do mandato. Mas isso também não foi feito por Rosinha.

 

Com os detaques do blog, confira abaixo o ofício no qual o governo Rosinha assumiu a dívida com a Pró-Rim, prometendo pagá-ka em quatro parcelas iguais e mensais, a partir de setembro, mas só honrou a primeira em novembro:

 

Dívida Pro-Rim

 

 

Com os destaques do blog, confira abaixo a terceira e última notificação extrajudicial da Pró-Rim, advertindo que o descumprimento do acordo de pagamento levaria à suspensão do serviço de hemodiálise:

 

Dívida Pro-Rim 1

 

 

Confira a cobertura completa na edição de amanhã (21) da Folha da Manhã

 

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Ocinei Trindade — Rosíssima Garotíssimo

 

Ocinei 20-12-16

 

 

“Quando a festa estiver no auge, é hora de ir embora”. Ouvi da cantora Tina Turner a frase anterior durante entrevista quando ela se despedia dos palcos em grandes shows. Fiquei pensando, pensando, e acho que faz sentido mesmo, pois quando a festa está se arrastando até o dia clarear, quase sempre há bêbados, decadentes e decrépitos além da conta pelo salão. A festa fica com cara de baile dos horrores ou com alegria forçada. Rosinha Garotinho, a bela, teve tudo para sair de cena no auge da festa, mas creio que não será bem assim neste fim de mandato como prefeita de Campos dos Goytacazes.

Rosinha poderia ter saído de cena com algum prestígio após deixar o cargo de governadora do Rio de Janeiro (foi a primeira mulher eleita na história estadual para a função), um dos estados mais importantes do Brasil. Apesar de acusações e críticas por parte da sociedade, da elite e setores da imprensa à época, ela tinha popularidade suficiente juntamente com seu marido, o ex-governador Anthony Garotinho, para ajudarem a eleger o seu sucessor, Sérgio Cabral Filho. E assim foi. Depois, como se sabe, tornaram-se inimigos políticos. O poder de Cabral espalhou-se bem mais, como também sabemos.

Rosinha queria ser atriz, cantora, artista, apresentadora de televisão. E foi assim, apesar dos desvios e fracassos nessas áreas. Seus melhores desempenhos na dramaturgia até hoje foram ser esposa e matriarca, além de dublê de governante. Sempre linda, certamente. Para mim, ela e o ex-governador Anthony Garotinho não são políticos provincianos como muitos cariocas preconceituosos adoram desdenhar de quem vem do interior fluminense, mas são personagens que já fazem parte da história política, do imaginário popular, além do anedotário que costuma render todo tipo de piada e críticas.

O casal Garotinho parece mesmo um par perfeito. Eles são muito inteligentes, apesar dos vícios do poder. Um casal mais próximo dos Kirschner do que dos Clinton, e anos-luz distante dos Obama. Se comparados a outros casais de políticos brasileiros, os Garotinho diferem do casal Amin, do casal Camata e do ex-casal Suplicy.  Os Garotinho costumam causar mais comoção por onde passam. Basta lembrar a cena da ambulância em frente ao hospital público que levaria preso o ex-governador para o presídio de Bangu. Cena histórica, apesar das atuações terem dividido opiniões. Uns acreditaram, de fato, mas outros consideraram fingimento e nada convincentes, faltando um diretor mais competente (quem sabe o Luiz Fernando Carvalho). Esta cena em particular, para mim, foi a típica situação de gente que preferiu ficar até o fim da festa, quando poderia ter ido embora  na melhor parte. E se assim fosse, não precisariam ser vistos em situação vexatória ou serem alvo de fofoca e intrigas. Ninguém quer ir para Bangu, seja bandido ou gente de bem, a não ser em casos extremos (há quem se sinta mais seguro dentro do que fora da cadeia). E ter dois ex-governadores presos em Bangu ao mesmo tempo é quase um atentado à segurança nacional, como chegou a ser um tremendo risco quando Cabral e Garotinho estiveram no local naquela mesma semana surpreendente.

Muitos amam Rosinha e Garotinho. Já outros querem ver sua condenação máxima (seria ódio, inveja ou desprezo?). Há muitos anos, uma amiga vidente teve um sonho terrível com o casal. Sonhara que as cabeças de Rosinha e Garotinho estavam decapitadas e expostas em vidros como se fossem troféus em praça pública. Não sei se ela associou o casal a outro casal histórico: Lampião e Maria Bonita. Fiquei chocado também com a suposta imagem que ela narrara. Na semana passada, quem teve sonho ruim fui eu. Sonhei que Garotinho me telefonou me fazendo uma série de questionamentos sobre o que escrevo. Ele não se identificou, não reconheci sua voz e perguntei quem era. Quando disse seu nome, respondi: “quanta honra receber sua ligação”. Acordei assustado, mas voltei a dormir e tive outro sonho ruim. Passei a língua por toda a boca e dei por falta de três dentes. Um pesadelo, na verdade. Qual será o significado dos sonhos? Acho que os políticos brasileiros têm nos aterrorizado cada vez mais. Dormir tranquilo é para os fortes.

As ambições do casal Garotinho às vezes lembram aquelas que o casal Macbeth aspiraram em um reino não tão distante daqui. Vale tudo para chegar e se manter no poder? Alguns falam que nenhum político sobrevive sem sujar as mãos ou sem mentir. Há políticos que dão um jeito de matar seus adversários de uma maneira ou de outra (desconstroem, caluniam, criam fatos, fazem a mentira se tornar verdade e vice-versa, minam a existência dos oponentes, envenenam a alma, adoecem, aniquilam, jogam pesado, mas se um dia for preciso abraçar o inimigo e se tornarem aliados, assim o farão). Matam também seus eleitores e seguidores, pois eles nos enchem de esperança e promessas de uma vida mais digna, justa e melhor, mas não dão conta, nos deixando ainda mais vulneráveis, inseguros e mais empobrecidos: o dinheiro púbico é desviado em obras por empreiteiras de grande porte como a Odebrecht, além daquelas de fundo de quintal ou empresas fantasmas. Conseguem nos tirar o melhor que possuímos. Roubam-nos dinheiro e dignidade. Até quando?

Todos nós sempre soubemos dos esquemas de propinas que envolvem políticos, empreiteiros e fornecedores em todo o Brasil, mas como provar e acabar com essa prática criminosa sem juízes, promotores e policiais suspeitos ou acima de qualquer corrupção? É difícil cobrar índole e decência das autoridades quando a população pratica também tantas mentiras e desonestidades (das menores às enormes). Somos nós que elegemos políticos com fichas sujas, suspeitas de crimes ou condenados pela justiça. A imprensa tem noticiado uma lista enorme de políticos de todo o país que receberam algum tipo de ajuda em milhões de reais de executivos da Odebrecht. Entre eles, Rosinha, Garotinho e Clarissa, além de tantos outros do estado do Rio de Janeiro como Francisco Dornelles, Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão, Lindberg Farias, e outros nomes menos expressivos. Todos negam envolvimento, pois admitir um crime desses é sentença garantida. E por aí vai esgoto abaixo nossa moral política brasileira. Triste, muito triste esse fim de festa.

Quando Rosinha se candidatou à reeleição para a prefeitura de Campos dos Goytacazes, eu estava fora da cidade e quis escrever uma crônica sobre ela. Desisti. Pessoalmente, eu tinha uma mágoa e queixas com o seu governo que devia a mim e à minha mãe dinheiro de aluguéis referentes ao Programa Saúde da Família iniciado nas gestões passadas, e que fora extinto pela gestão da prefeita. Outras cerca de sessenta famílias que alugaram suas casas para o PSF se viram na mesma situação, além de terem seus imóveis depredados, sem devolução ou aluguéis em atraso.  Foram mais de quatro anos sem receber pagamentos (quando por fim pagaram, foi sem correção e sem juros) e as obras de reparação do imóvel não foram concluídas. Um prejuízo financeiro e emocional, pois minha mãe dependia desse imóvel para se manter, e morreu sem ter o caso solucionado. Este é um exemplo do que é a má-gestão pública com o dinheiro público. Pedi a todos os seus assessores próximos uma solução, e apenas recebia tapas nas costas e promessas: “vamos resolver”. E olha que eu era uma pessoa relativamente conhecida, trabalhava na imprensa (imagina um anônimo sem contatos dentro do governo?). A festa já tinha terminando para mim e eu fui obrigado a esperar até o final, sem nenhum sorriso nos lábios, nem música, nem comida ou bebida. Algumas pessoas do governo nem me cumprimentam mais. E outros, mais ofendidos, me excluíram do Facebook (quase uma ciberinquisição, vejam só).

Não sei se a lista de delações de executivos da Odebrecht envolvendo os membros da família Garotinho é verdadeira, mas as denúncias já são investigadas pelos agentes da operação Lava-Jato. Não sei que apelidos lhes foram dados pelos executivos da mega-construtora, já que eles já são naturalmente apelidados ou em nome ou em sobrenome, Não sei se eles chegaram ao fim da carreira política com tantas denúncias e inimizades em toda a parte como verificamos.

Não sei se daqui a dois anos, Rosinha, Clarissa ou Garotinho se candidatarão ou se conseguirão serem eleitos para qualquer cargo ou mandato político. Não sei se uma nova festa será programada por eles e seus aliados e quem irá aos bailes da família. Não sei se o próximo governo que sucederá Rosinha conseguirá recuperar a auto-estima e a esperança da população de Campos. Não sei se Rosinha que agora usa cabelos longos e lisos retomará sua carreira de atriz iniciada nos palcos do Teatro do Sesi e Teatro de Bolso de Campos; se fará novelas bíblicas na TV Record como A Terra Prometida; ou se gravará um álbum com os cantores Elymar Santos e Joanna; se vai se dedicar apenas à família e aos netos; se vai escrever um novo livro de memórias ou de denúncia sobre quem quer prejudicar e eliminar seu marido, a ela e os seus (o estilo Truman Capote poderia inspirar a narrativa, quem sabe) como ela relatou sofridamente sobre o homem-bomba ao jornalista Roberto Cabrini no programa Conexão Repórter, do canal SBT.

Não sei se os Garotinho se converterão à uma nova fé, e quem sabe, se repetirão a antiga tradição judaica de mudar de nome quando uma nova vida se iniciar, como Abraão, Sara, Paulo e Jacó o fizeram. Só sei que a festa de 2016 está acabando. No dia 31 de dezembro, o último a sair da Prefeitura de Campos deve apagar a luz. Não desejo o mal a nenhum de nossos governantes. Ao contrário. Que sejam abençoados. E que, se forem condenados pela justiça dos homens ou divina, que paguem, pois “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois eles serão fartos” (Matheus 5:6). Acho que este fim de festa não foi feliz nem para os Garotinho, nem para as pessoas que vivem nesta cidade, e também no estado do Rio de Janeiro e em todo o Brasil. Perdemos muito. Estamos com a imagem bastante desgastada. Melhor seguirmos a sugestão de Tina Turner ao sair de cena. É hora de ir embora para a casa. Por enquanto, não há nada mais para festejar.

 

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Nesta quarta, na Villa Maria, teatro e poder sobem ao palco

 

 

Tese TB

 

 

Invenção grega de antes de Cristo, como a democracia, o teatro é o palco em que será defendida a partir das 9h a manhã desta quarta-feira, na Villa Maria, a tese de doutorado do campista Glauber Matias em Sociologia Política pela Uenf: “Palco e resistência: a geração do Teatro de Bolso”. Ciente da importância do trabalho de Glauber, com foco entre o final das décadas de 60 e 80 do séc. 20 — chegando ao “Muda Campos” que levou Anthony Garotinho (atual PR) pela primeira vez ao poder — o professor da Cândido Mendes José Luis Vianna da Cruz, convidado à banca de análise, criou aqui, na democracia irrefreável das redes sociais, uma página para convidar ao evento.

Como orientadora da sua tese, Glauber teve a professora de Sociologia da Uenf Luciene Silva. Sobre o trabalho do orientando, ela disse:

— A tese fez uma retomada da atividade teatral em Campos, através dos seus principais grupos, partindo do final dos anos 1960, mas principalmente dos anos 1970, acompanhando os vários movimentos que vão confluir no “Muda Campos” (que elegeu Garotinho prefeito da cidade pela primeira vez em 1988). Era um teatro de vanguarda, crítico, em diálogo com coisas importantes que estavam acontecendo no Brasil da época. Com isso, poderia ter gerado uma mudança cultural na cidade. Mas a questão temática foi o teatro, as peças, os grupos a recepção popular; não a política. Tentamos fugir da armadilha que seria centrar a análise na figura que, a partir de certo momento, fez tudo girar em torno de si: Garotinho.

Por sua vez, o próprio Glauber confessa que o ocupação recente do Teatro de Bolso Procópio Ferreira em maio deste ano (aqui), pelos artistas e coletivos culturais da cidade, foi o que determinou o foco em seu trabalho de pesquisa:

— Quisemos descobrir o papel social que o teatro representou na história do município, na luta pelo poder. Pesquisamos desde as primeiras experiências de resistência cultural e política, a partir de 1968, sobretudo do teatro amador. E fomos dali até o contexto histórico do qual emergiu Anthony Garotinho, quando o processo de luta criou uma ruptura na ordem vigente. Ela vai emergir de uma luta pela hegemonia do Teatro de Bolso e, dali, pela cidade. No final dos anos 1970, muitos deles eram jovens que vinham do movimento estudantil, ligados à política. E criaram o que chamamos na sociologia de “estruturas de sentimento”: foram se aproximando, se conhecendo nos bares, ruas, no Teatro de Bolso, quando este estava aberto, problema que se repetiu desde a sua fundação, em 1968, até hoje. Era a luta contra a Ditadura Militar (1964/85), contra as forças conservadoras. Essa disputa pela hegemonia vai gerar o “pé na porta” (do qual Garotinho se catapultou à política) no Teatro de Bolso. E levou até o “Muda Campos”, em 1987 e 88. Mas não entramos na parte política, quando os arranjos de força se tornaram outros.

 

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Fabio Bottrel — O ajuste do tempo e do sentimento

 

Bottrel 17-12-16

 

 

Na cozinha iluminada à vela pela falta de luz com a chuva torrencial que caia afora a janela, vi minha amada sorrir sozinha enquanto cortava alguns legumes e eu os refogava. Gotas de chuva se misturavam a suaves melodias, preparando o ambiente perfumado pelo aroma do jantar enquanto nos distraíamos cozinhando.

— Está rindo sozinha? – Perguntei.

— Essa música me abre o sorriso.

Parei o que estava fazendo para prestar atenção à música e ela também me abriu o sorriso. Era Raindropskeepfallingonmyhead, de Billy Joe Thomas ou B. J. Thomas, trilha sonora do famoso faroeste americano de 69 estrelado por Paul Newman e Robert Redford:Butch Cassidy andthe Sundance Kid. Além de ter sido escrito por um dos roteiristas mais consagrados do mundo, William Goldman, que levou o Oscar de melhor roteiro original, e ganhou outro Oscar em 76 por AllthePresident’sMen. Fazia tempo que não escutava a música, mas como toda boa obra ela sempre se ajusta ao tempo e aos sentimentos, cabendo perfeitamente no clima da cozinha e na vida. Aprendi que sempre há uma maneira leve de levar a vida dura, e assim seguir, com graciosidade através das tempestades. Segue o vídeo com a música, letra, tradução e algumas imagens do filme:

 

 

 

 

 

Raindrops Keep Falling On My Head

Raindrops keep falling on my head
And just like the guy
Whosefeet are too big for hisbed
Nothingseemstofit
Those rain drops keep falling on myhead
They keep falling

So I justdid me some talkingtothesun
And I said I didn’tlike
The wayhegotthingsdone:
Sleepingonthejob
Thoseraindropskeepfallingonmyhead
Theykeepfalling

Butthere’sonething, I know
The blues theysenttomeet me
Won’tdefeat me
It won’tbelong
Tillhappinessstepsuptogreet me

Raindropskeepfallingonmyhead
Butthatdoesn’tmean
Myeyeswillsoonbeturningred
Crying’snot for me
‘Cause I’mnevergonna stop therain
Bycomplaining
BecauseI’mfree
Nothing’sworrying me!
It won’tbelong
Tillhappinessstepsuptogreet me.

Raindropskeepfallingonmyhead,
Butthatdoesn’tmean
Myeyeswillsoonbeturningred
Crying’snot for me
‘Cause I’mnevergonna stop therain
Bycomplaining
BecauseI’mfree
Nothing’sworrying me!

 

Tradução de Murilo no site Letras.mus.br.

Gotas de Chuva Continuam Caindo Em Minha Cabeça

Gotas de chuva estão caindo em minha cabeça
E igual ao sujeito
que já não cabe mais em sua cama,
Nada parece se ajustar.
Esses pingos de chuva estão caindo em minha cabeça
Eles continuam caindo

Então eu bati um papo com o Sol,
E falei que não gostava
Do modo que ele fazia as coisas:
Dormindo no trabalho
Esses pingos de chuva estão caindo em minha cabeça
Eles continuam caindo

Mas há uma coisa, eu sei,
Tristeza que eles me enviaram
Não me derrotarão;
Não vai demorar muito
Para a felicidade me encontrar

Pingos de chuva continuam caindo em minha cabeça,
Mas isso não significa
Que meus olhos logo ficarão vermelhos.
Eu não sou de chorar
Porque eu nunca vou parar a chuva
Reclamando
Porque eu sou livre,
Nada está me preocupando!
Não vai demorar muito,
Para a felicidade me encontrar

Pingos de chuva continuam caindo em minha cabeça,
Mas isso não significa
Que meus olhos logo ficarão vermelhos.
Eu não sou de chorar
Porque eu nunca vou parar a chuva
Reclamando
Porque eu sou livre,
Nada está me preocupando!

 

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Votação inócua após Justiça vetar uso de imóveis para pagar rombo de Rosinha

Ponto final

 

 

Após liminar, votação inócua

Diante da pressão da população, que lotou as galerias da Câmara nas sessões de terça (13) e ontem (15), o governo Rosinha Garotinho (PR) não conseguiu aprovar seu projeto de lei, mais duas emendas do presidente do Legislativo Edson Batista (PTB), que comprometeriam todos os bens imóveis, créditos e direitos creditórios do município, para pagar o rombo rosáceo no Previcampos. E, depois da decisão liminar de ontem do juiz da 4ª Vara Cível de Campos, Eron Simas, vetando a dação de imóveis nos termos propostos por Rosinha, mesmo que seja aprovada pelo vereadores rosáceos na sessão extraordinária de hoje, o projeto será inócuo.

 

Com e sem coincidências

Por coincidência, Eron responde também pela 99ª Zona Eleitoral de Campos, que julga as 38 Ações de Investigação Judicial Eleitoral (Aijes) daquilo que o Ministério Público Eleitoral (MPE) denunciou como “escandaloso esquema”, na suposta troca de Cheque Cidadão por votos na eleição de outubro. Destes, 11 foram eleitos ou reeleitos à Câmara Municipal. Sete já ocupam assento no Legislativo. Sem coincidência, votarão hoje a favor de se usar os imóveis do município para pagar o rombo de Rosinha no Previcampos, estimado em mais de R$ 400 milhões: Jorge Rangel (PTB), Kellinho (PR), Magal (PSD), Thiago Virgílio (PTC), Ozéias (PSDB), Cecília Ribeiro Gomes (PT do B) e Miguelito (PSL).

 

Articulações reveladas

Para conseguir a maioria que não tinha na sessão de terça (13), mesmo proibido pelo Tribunal Superior Eleitoral de pisar em Campos, para não atrapalhar as investigações da Polícia Federal (PF) na operação Chequinho, Anthony Garotinho articulou em videoconferências na quarta (14) para ter o voto de três vereadores que estavam indecisos: Jorge Magal (PSD), Abdu Neme (PR) e Álvaro César (PRTB). Na quarta (14), no blog “Opiniões”, hospedado na Folha Online, e ontem (15), nesta mesma coluna, foram reveladas as articulações de Garotinho, atuando como “prefeito de fato” do município, como já havia antecipado o juízo da 100ª Zona Eleitoral.

 

Previsível

O resultado, revelado na tensa sessão de ontem, que adiou novamente a votação para hoje, foi que Abdu e Álvaro César apresentaram uma nova emenda governista, na qual limitavam os imóveis que pretendem utilizar para pagar o rombo rosáceo na previdência dos servidores. Seriam eles o prédio do próprio Previcampos, na av. Alberto Torres; a nova Rodoviária do Shopping Estrada; o novo prédio do Procon, na av. José Alves de Azevedo; além de três terrenos do Fudecam: em Mineiros, Travessão e no Pq. Nogueira. O prédio do Previcampos e o Shopping Estrada também já tinham sido adiantados, ontem, nesta coluna.

 

A causa de tudo

Foi também no “Ponto Final” que se revelou o verdadeiro motivo dessa busca desesperada nos últimos 15 dias de um governo que administrou o município por oito anos. Distante da insustentável explicação de “cálculo atuarial” que Garotinho quis vender ainda na terça (13), a causa real do seu nervosismo é que, sem a efetivação da draconiana proposta de lei, Rosinha corre o sério risco de se tornar inelegível já a partir de 1º de janeiro de 2017.  E graças à liminar da 4ª Vara Cível, em ação do advogado e vereador eleito Cláudio Andrade (PSDC), a (ainda) prefeita está mais perto disso. Independente do que seus vereadores votarem hoje.

 

No prejuízo

Há quase três anos na estrutura provisória do parque Alberto Sampaio, os camelôs perderam as contas de quantas vezes viram suas mercadorias se perderem por causa de alagamentos. À espera da nova estrutura, que ainda parece estar longe de ser inaugurada, eles amargam mais um prejuízo às vésperas do Natal. Muitos investiram em mercadorias justamente para a ocasião. Ontem, ao invés de vender, eles passaram o dia tirando a sujeira e contabilizando as perdas.

 

Resposta nas urnas

O que se espera agora é que depois tantas mancadas dadas pelo atual governo municipal, inclusive com a construção da nova estrutura do Camelódromo em área inadequada por conta do valor histórico do Mercado Municipal, os camelôs sejam tratados com mais respeito e não como massa de manobra para eleger candidatos. Não só os camelôs, mas milhares de campistas têm entendido que não dá mais para suportar esse tipo de política e a resposta já veio nas urnas.

 

Publicado hoje (16) na Folha da Manhã

 

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