Igor Franco — A Ucrânia, a Rússia e o Ocidente

 

(Arte: Andy Marlette)

 

Igor Franco, especialista em finanças e professor da Fafic

A Ucrânia, a Rússia e o Ocidente

Por Igor Franco

 

Em 24 de fevereiro, sob o pretexto de “desnazificar a Ucrânia”, Vladimir Putin lançava as tropas russas contra o território do país vizinho. Vinte dias depois, a OMS reporta 43 ataques a hospitais. Dez civis na fila do pão em Chernihiv, uma cidade já tomada pelos russos, também foram “desnazificados”, alvejados por soldados russos à queima-roupa. Cidades inteiras, como Mariupol, vêm sendo “desnazificadas” pelas tropas russas que bombardeiam a esmo áreas residenciais, fatos amplamente documentados pela imprensa independente e livre que cobre a guerra em território ucraniano. Nesse momento, mais de cem crianças ucranianas foram assassinadas pelo exército russo.

O ataque a alvos civis não é um efeito colateral da guerra. A prática é característica marcante nas ações do exército russo e foi exercitada com maestria em intervenções militares anteriores na Síria e na Chechênia. Na Ucrânia, porém, a covardia russa ganha contornos ainda mais dramáticos: acossados por uma campanha militar até agora desastrosa em termos dos objetivos traçados, Putin e suas tropas tentam esticar a corda em busca de abalar a moral civil ucraniana, forçando a rendição do governo Zelensky, que seria pressionado a poupar vidas da sua população.

O diagnóstico mais factível dá conta da arrogância de Putin ao decidir pela guerra: embebido pelo sucesso da rápida tomada da Criméia em 2014 e por relatos de seus generais — que jamais ousariam contestar um líder acostumado a varrer opositores —, o presidente russo acreditou que poderia encerrar a questão em poucos dias. No plano original, exército russo rapidamente esmagaria qualquer reação militar de um exército fraco, pouco treinado e pouco numeroso, impondo temor às tropas remanescentes. Como consequência, o inexperiente governo ucraniano capitularia diante de uma pressão popular simpática aos invasores.

Na prática, as tropas russas foram surpreendidas por forças ucranianas muito mais treinadas desde que perderam o território da Criméia, mais bem equipadas com armas da Otan e um sentimento de defesa da pátria que sobrepõe em muito a moral dos soldados russos enviados ao campo de batalha sem uma boa justificativa de seus comandantes. Como consequência, as baixas de tropas militares, segundo relatórios de inteligência dos EUA, estão na casa dos milhares, além de centenas de equipamentos destruídos, como tanques, helicópteros e aviões militares.

Diante do atoleiro em que afundou suas tropas e na impossibilidade de apresentar aos seus cidadãos efeitos concretos da guerra — chamada pela propaganda russa de “operação militar especial” —, Putin dobra a aposta no autoritarismo e nas ameaças crescentes. Cada vez mais parecido com uma ditadura, o regime russo aprovou leis duras contra veículos de imprensa e civis que noticiem a guerra por qualquer outra ótica que não seja a narrativa oficial do Kremlin. Forjados na escola de desinformação soviética, que levou à perfeição a disseminação de mentiras como verdades oficiais, os burocratas russos responsáveis pela propaganda do governo já elencaram a Otan, supostas armas biológicas e nucleares e nazistas como culpados pelo conflito.

Hoje, é dado como certo que grande parte da população russa não tem ideia do que ocorre além das suas fronteiras, já que a parca liberdade de expressão e independência jornalística que resistia ao autoritarismo russo foram liquidadas desde o início da guerra. Em pronunciamento recente, o presidente russo ameaçou realizar expurgos de dissidentes e colaboradores que se aproveitassem das benesses de viver numa democracia livre, enquanto mantém seus negócios na Rússia.

Outro erro crasso do autocrata russo, aparentemente, se deu fora da estratégia de guerra. Amparado na experiência histórica do pouco engajamento ocidental após as ações militares na Geórgia em 2008 e a anexação da Criméia, Putin desenhou o cenário com um fraco e impopular Biden nos EUA e o recém-empossado Scholz na Alemanha incapazes de liderar uma ação mais enérgica contra a Rússia.

A aposta de Putin na fraqueza do Ocidente tinha sua razão de ser. A conhecida ordem liberal passa por uma grande contestação além das suas fronteiras. A emergência de potências autoritárias, notadamente a China, mas da qual faz parte a própria Rússia empoderada pelo farto fluxo de recursos financeiros de uma Europa carente de gás e petróleo, faz sombra à hegemonia americana – bastião das democracias liberais. O possível surgimento de uma alternativa ao modelo que foi disseminado entre os países desde o fim da 2ª Guerra e, posteriormente, após a Queda do Muro de Berlim, é entendido pelo Ocidente como uma ameaça à estabilidade mundial. No lugar do trinômio “democracia, liberdade civil e economia de mercado”, China e Rússia propõem autoritarismo e uma espécie de simbiose entre os interesses políticos e econômicos, mas que encontra amplo espaço de crescimento entre uma população numerosa, bem escolarizada e ávida por mais conforto – ainda que isso signifique menos liberdades civis.

Para dentro de suas fronteiras, temas como xenofobia, desigualdade e identitarismo assombram os líderes políticos e abalam as estruturas tradicionais da democracia, que parecem incapazes de responder às angústias e insatisfações de cidadãos já acostumados à liberdade e à bonança material como parte da paisagem. Nesse cenário, líderes populistas e anti-estabilishment encontram terreno fértil para prosperar. Sob a justificativa de retomarem os valores tradicionais desse sistema, apenas contribuem para torná-lo ainda mais frágil e fragmentado. Para Putin, provavelmente a invasão do Capitólio no ano passado era um sinal forte de quão fraco o Ocidente estava.

A resposta das nações, entretanto, foi a maior da história em muitos aspectos, desde o fim da Guerra Fria. Rapidamente, as mais graves sanções econômicas já impostas foram aplicadas à Rússia, tornando, na prática, o país um pária internacional, desconectado das principais cadeias produtivas e financeiras do mundo. Além disso, bilhões de dólares em armas foram doados à Ucrânia e vem sendo determinante para a contenção dos agressores. Porém, o aspecto mais relevante da reação ocidental foi a condenação quase unânime da agressão russa e a reafirmação de postulados básicos de respeito à soberania, democracia e direitos humanos barbaramente e injustificadamente atacados.

Diante do maior desafio da ordem estabelecida no Pós-Guerra, entre o “otimismo temerário e a ruína final”, nas palavras de Hannah Arendt, cujas reflexões sobre a ameaça do totalitarismo tornam-se novamente atuais após quase 80 anos, que o Ocidente possa reencontrar o equilíbrio nos valores que permitiram ao mundo gozar do maior período de paz e desenvolvimento jamais vistos na história humana.

A essa altura dos acontecimentos, o horror imposto pelas tropas russas à população ucraniana só encontra apoio e simpatia nos degenerados e descerebrados que subordinam todo e qualquer valor aos objetivos políticos de sua simpatia. Que importa a vida de milhares de pessoas quando está em jogo a derrocada dos valores liberais que tanto odiamos? Desses, nada se espera ou surpreende. Pessoas com o mínimo senso moral ou de compaixão já entenderam que, nessa guerra, o papel de agressor e vítima está perfeitamente definido. O lado certo e o errado poucas vezes foram tão explícitos.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Feres ganha prazo para definir se fica na Educação

 

Secretaria de Educação de Campos (Foto: Supcom)

 

Em reunião da sua equipe com o prefeito Wladimir Garotinho (PSD), há cerca de 15 dias, o secretário de Educação de Campos, professor Marcelo Feres, ganhou mais 90 dias a contar dali para definir sua continuidade na pasta. Em 15 de fevereiro, este blog anunciou que sua saída deveria se dar após a volta às aulas hoje na rede municipal.

Segundo a mesma fonte do alto escalão da Prefeitura, os problemas do secretário seriam relativos à desorganização em processos administrativos internos, inclusive algumas licitações. Mas, nos últimos 15 dias, após a reunião entre Feres e Wladimir, as coisas teriam passado a andar melhor. Foi estabelecido entre os dois um plano de metas, que o secretário se comprometeu a cumprir em 90 dias. Se não conseguir, ele mesmo pediria para sair.

Para a melhora, segundo a fonte da Prefeitura, teria contado também a exoneração de nomes na Educação indicados pelo vereador Maicon Cruz (PSC). Ele assinou um termo de compromisso pela reeleição do governista Fábio Ribeiro (PSD) a presidente da Câmara, mas votou no oposicionista Marquinho Bacellar (SD). Sem o pessoal de Maicon, Feres ganhou mais liberdade.

 

Versos gritados por uma barricada de livros em Kiev

 

Sei que prometi dar uma pausa no blog durante minhas férias. Mas volto excepcionalmente pela poesia parida no sofrimento do povo ucraniano, invadido pela poderosa Rússia do autocrata Vladimir Putin desde 24 de fevereiro último. Como escrevi em artigo publicado dois dias depois (26) e intitulado “Invasão da Rússia à Ucrânia — O mundo nunca mais será o mesmo”, os fatos geopolíticos do final dos anos 1980 até a invasão da Ucrânia neste início de 2022 revelam uma história sem santos.

Isso devidamente posto, vi no dia de hoje, em vários sites nacionais e internacionais, uma foto impactante em seus muitos significados. Na janela de um apartamento de Kiev, capital da Ucrânia, os civis que lá residem improvisaram barricadas nas janelas, temendo o bombardeamento russo, usando livros. Deles, os autores russos, soviéticos e ucranianos que pude ler durante a vida gritaram alto. Para que sejam ouvidos, sobretudo pelos novos especialistas em Rússia que nunca os leram, achei por bem ecoá-los em versos.

 

Barricada improvisada com livros, para se proteger do bombardeamento russo, em um apartamento civil de Kiev (Foto: Reprodução/Instagram/Lev Schevchenko)

 

barricada em kiev

(ou aos especialistas em rússia)

 

pequenos burgueses do teatro encarnado de gorki

os especialistas em rússia que não leram dostoiévski

morrerão sem sabê-la irmã karamasov da ucrânia

sob as pedras de caim no holodomor e chernobyl

guerra e paz de tolstói para correr com napoleão

tchuikov a sangrar hitler de stalingrado a berlim

 

nestes tempos de vladimir, não maiakóvski, o putin

a nuvem de calças é a fumaça dos mísseis sobre civis

sem braguilha, cessar-fogo ou corredor humanitário

contra humanidade ursa de quem ignora soljenítsin

resistem atrás de livros os que nos deram lispector

agudos e necessários como um estilete pros dentes

 

atafona, 06/03/22

 

Após entrevista hoje com Doria, pausa até o início de abril

 

 

A partir de hoje (04) o blog fará uma pausa. Assim, minha participação na boa entrevista do Folha no Ar de hoje, com o governador de São Paulo e presidenciável do PSDB, João Doria, foi minha última obrigação profissional até o regresso, daqui a 30 dias. Período no qual torcerei pelo fim da pandemia da Covid-19 e da invasão da Rússia na vizinha e ainda soberana Ucrânia.

Como há outros entrevistados de peso nacional e estadual em agendamento, pode até ser que, ainda neste mês de março, eu faça alguma participação especial numa manhã da Folha FM 98,3. O que, se vier a ocorrer, será previamente anunciado aqui. No mais, é isso, caro leitor. No início de abril, se Deus quiser, a gente se vê. Abraço fraterno e inté!

 

Guerra da Ucrânia e consequências no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Joseli Mathias)

 

Após o carnaval e a quarta-feira de cinzas, o Folha no Ar retorna a partir das 7h desta quinta (03), na Folha FM 98,3, com o tema do momento, a Guerra da Ucrânia, sob análise do historiador Arthur Soffiati e do economista Alcimar Ribeiro, professores, respectivamente, da UFF-Niterói e da Uenf. Eles falarão do conflito deflagrado na madrugada da última quinta (24), com a invasão da Rússia de Vladimir Putin ao país vizinho e independente da Ucrânia.

Alcimar e Arthur também analisarão as sanções econômicas do Ocidente à Rússia também no Brasil e no mundo. Por fim, os dois falarão sobre a possível influência do conflito entre os dois maiores países da Europa nas urnas brasileiras de outubro.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Arthur Soffiati — A invasão da Ucrânia

 

Mulher ferida em explosão de edifício durante ofensiva militar russa em Chuguiv, no leste da Ucrânia, na manhã de quinta (Wolfgan Schwan/Anadolu Agence via Getty Images)

 

Arthur Soffiati, historiador

A invasão da Ucrânia

Por Arthur Soffiati

 

Não sei bem se por ter sido professor de história durante 40 anos ou por me intrometer publicamente em assuntos que me interessam, algumas pessoas estão solicitando minha posição sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia. Esclareço, para decepção dos que me procuraram, que ficarei em cima do muro. Apenas farei considerações para que as pessoas interessadas em se posicionar diante do conflito possam contar com mais base. Creio que essas considerações revelarão, de alguma forma, a minha posição para os que tiverem olhos de ver e ouvidos de ouvir. Não se trata de um postura covarde, mas de respeito às duas posições mais fáceis: sim ou não.

Em 1625, o jurista holandês Hugo de Grotius publicou “O direito da guerra e da paz”, lançando as bases do direito internacional atual. Até então, a guerra se definia por razões pragmáticas, de forma maquiavelista, embora Maquiavel fosse um ilustre desconhecido dos governantes. Não havia regras que norteassem invasões e guerras. Não havia claros motivos ideológicos. A guerra era uma arte exercida por reis e comandantes. As bases do direito internacional também não foram levadas em consideração. Grotius não passou de mais um pensador relegado a plano inferior.

Os motivos ideológicos começaram a se definir no século XVIII, principalmente com a Independência das 13 Colônias da América do Norte, que deu origem aos Estados Unidos, e com a Revolução Francesa, de 1789. Os campos conservador, liberal, progressista e anarquista começaram a ser definidos. A independência das Treze Colônias não era mais um questão do mais forte e sim o direito de uma Inglaterra fora da Europa a se tornar independente livrando-se da monarquia (ainda que a caminho do parlamentarismo) e adotando uma república com base nas ideias do europeu John Locke. A Revolução Francesa consagrava o  direito do povo de proclamar uma república progressista contra uma aristocracia monarquista retrógrada.

As guerras do século XIX na Europa assim com as guerras de conquista colonial não invocavam o direito do mais forte, mas razões ideológicas. Invocava-se o progressismo contra o conservadorismo e a civilização contra a barbárie. A conquista de uma colônia era justificada pelo dever de civilizar o bárbaro. A Primeira Guerra Mundial foi a última guerra europeia com repercussões extra-europeias. Ela foi travada por dois blocos. Inglaterra e França consideravam-se países liberais e progressistas, vendo Rússia, Alemanha e Áustria como países atrasados, ainda ligados ao Antigo Regime europeu. O Império Otomano, então, era um país atrasadíssimo por nem sequer ser europeu, mas muçulmano. Era um homem doente. O Acordo de Sikes-Picot, que dividiu o Império Otomano entre Inglaterra e França antes mesmo do fim da guerra, e a Declaração Balfour, que reconheceu o direito dos judeus a um lar nacional na Palestina, justificavam-se por expressarem o moderno contra o atraso.

A Revolução Russa de 1917 usou como justificava tratar-se de uma luta do comunismo contra o capitalismo e o imperialismo. Havia grande sinceridade nos revolucionários, mas logo percebeu-se que não seria fácil livrar-se do capitalismo. Daí a política leninista de um passo atrás para dar dois passos à frente e a política estalinista dos planos quinquenais para tornar a União Soviética competitiva num mundo capitalista. Hitler também se posicionou contra o capitalismo liberal em seu livro “Mina luta” e em seus discursos. Trata-se de criar uma nação forte, até mesmo um império em que empresários, políticos e operários se unissem contra a opressão e a exploração do capitalismo. Tudo indica que havia sinceridade em Hitler na sua luta “revolucionária”. A caracterização do nazismo e do fascismo como regimes reacionários e direitas foi desenhado posteriormente. Edgar Morin, comunista e militante durante a Segunda Guerra, escreve em “Lições de um século de vida”, que a resistência marxista chegou a acreditar que Hitler se estabilizaria na criação do seu espaço vital e terminaria a guerra. Ele escreveu que foi um grande erro da sua parte e que dele se arrepende até hoje.

O pacto nazi-soviético de 1939, dividindo a Polônia entre os dois países, assim como a invasão da União Soviética por Hitler em 1941 foram ideologicamente justificados. Jorge Amado e Joel da Silveira defenderam o pacto. Os Estados Unidos defenderam o lançamento de duas bombas atômicas sobre cidades japonesas em 1945. A Guerra Fria foi justificada por Estados Unidos e União Soviética. Atos indefensáveis contam sempre com justificativas ideológicas.

Geralmente, são mentirosas. Se vale argumentar que a Ucrânia é parte histórica da Rússia, o mesmo país pode reivindicar o Alasca. O Brasil pode reivindicar a Uruguai e a Guiana, pois são países que já integraram o país. As nações colonialistas da Europa Ocidental podem reivindicar suas ex-colônias na África. Por outro lado, podemos condenar a existência da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) porque ele foi criado durante a Guerra Fria, que não existe (ia) mais. Alega-se que a organização é o órgão de defesa da União Europeia. Neste caso, Estados Unidos e Canadá deveriam ser excluídos.

Argumenta-se também que, em pleno século XXI (como se tempo fosse argumento sólidos), não cabe mais uma guerra convencional, com invasão de um país por outro. Pode não caber na Europa, mas cabe ainda no Oriente Médio, o maior campo de guerra dos últimos cem anos. França, Inglaterra, União Soviética e Estados Unidos não hesitaram em invadir países do Oriente Médio, considerando uma área atrasada do mundo em que invasões e guerras são justificáveis. Iraque, Afeganistão, Iêmen, Síria, Líbano e Palestina podem ser invadidos e bombardeados. Já Israel, não, por se tratar de um país europeu fora da Europa.

A esquerda sente nostalgia pela União Soviética. Afinal, foi a entidade política que prometeu acabar com o capitalismo e implantar o comunismo mundial. Não conseguiu nem o comunismo num só país. Assim, fica difícil para a esquerda nostálgica admitir que Putin é um político autocrata, conservador e moralista. Fica fácil colocar o selo de nazista no presidente da Ucrânia. A simplificação é uma operação mental que facilita posicionamentos.

Com base nesses argumentos, tenho condição de me posicionar, mas não o farei.

 

Eleito presidente da Câmara, para Bacellar anulação é golpe

 

“A Câmara vai ser forte. Diferente dessa presidência (…) de hoje, que tenta jogar contra a população pautando aumento de impostos e servindo de puxadinho da Prefeitura”. Foi o que projetou para o biênio 2023/2024 o vereador de oposição Marquinho Bacellar (SD). Ele venceu a eleição a presidente da Câmara Municipal de Campos por 13 votos a 12 na sessão do dia 15. O resultado chegou a ser proclamado pelo atual presidente, o situacionista Fábio Ribeiro (PSD). Que foi derrotado no voto em sua tentativa de reeleição, junto com o governo Wladimir Garotinho (PSD). Fábio poderia ter marcado o pleito até 15 de dezembro, mas resolveu adiantá-lo nove meses.

Após o resultado adverso, definido com a traição do edil Maicon Cruz (PTC), que assinou termo de compromisso com a reeleição do atual presidente, mas votou em Marquinho, Fábio suspendeu a eleição do resto da Mesa Diretora nas sessões dos dias 16, 22 e 23. E, no dia 24, anulou a eleição do seu sucessor na Mesa Diretora que ainda controla. “Estamos vendo uma das maiores vergonhas da história da Câmara de Campos. Perderam no voto, em uma eleição que eles anteciparam, e estão criando essa cortina de fumaça (…) A maioria venceu e isso não tem discussão (…) Agora temos que seguir a votação para os outros cargos da Mesa”, pregou Marquinho. Embora às vezes tentando sobrepor narrativas a fatos públicos e noticiados à época, ele pregou a união com Caio Vianna (PDT). E não poupou críticas a Wladimir: “é um menino mimado e birrento, que só desagrega”.

 

Marquinho Bacellar, vereador de oposição eleito no voto presidente da Câmara no dia 15, em pleito anulado pela atual Mesa Diretora no dia 24 (Foto: Divulgação)

 

 

Folha da Manhã – O voto de Nildo em você a presidente da Câmara, na sessão do dia 15, não foi registrado em ata. Mas ele declarou na tribuna que era seu, na sua vitória por 13 votos a 12. No dia 24, por 3 votos a 1, a atual Mesa Diretora da Câmara entendeu que o voto dele não valia. E anulou sua eleição a presidente da Casa em 2023/2024. A judicialização agora é inevitável?

Marquinho Bacellar – Estamos vendo uma das maiores vergonhas da história da Câmara de Campos. Perderam no voto, em uma eleição que eles anteciparam, e estão criando essa cortina de fumaça. O resultado não vai mudar. A maioria venceu e isso não tem discussão. Tenho certeza de que não vai mudar. Agora temos que seguir a votação para os outros cargos da Mesa.

 

Folha – Muitos questionaram Fábio por ter adiantado a eleição da Mesa, que poderia fazer até 15 de dezembro. Em entrevista à Folha FM no dia 22, Nildo disse que Fábio adiantou porque temia não ser o candidato do governo se a eleição fosse mais à frente. Concorda?

Marquinho – O grupo de Garotinho vive um canibalismo eterno. É um querendo engolir o outro o tempo todo. Mas eles adiantaram porque são prepotentes, arrogantes e achavam que iriam vencer. Tudo foi feito na calada e com o consentimento do prefeito, que também é, desde o início do governo, um exemplo de prepotência, soberba e incompetência.

 

Folha – Com os 13 votos da oposição, a eleição do resto da Mesa ficaria com Marquinho do Transporte 1º vice, Maicon 1º secretário, Fred 2º vice e Abdu, 2º secretário. Com a suspensão da eleição nas sessões dos dias 16, 22 e 23, e a anulação da sua no dia 24, como isso fica?

Marquinho – Há um entendimento até pelo jurídico da Câmara de que essa eleição deve continuar para que a pauta, posteriormente, siga seu rumo natural.

 

Folha – A sua eleição se deu com a traição de Maicon, que assinou termo de compromisso pela eleição de Fábio, mas votou em você. Agora veio essa anulação, no tapetão, do resultado do voto dos vereadores. Quando a política de Campos vai se pautar por parâmetros mais dignos?

Marquinho – Disputei a eleição para a presidência da Câmara e venci com o apoio de (outros) 12 vereadores. Quem antecipou e perdeu foi o grupo do prefeito. Antes da votação, membros do grupo do prefeito xingaram e atacaram o vereador Maicon Cruz. E depois choram porque ele votou contra? Enquanto houver um Garotinho no poder não vamos ver parâmetros dignos em Campos. Essa é a verdade. Qualquer campista sabe que eles fazem de tudo pelo poder. E quanto à “traição”, o vereador foi colocado dentro de uma sala fechada, sem acesso ao próprio celular, sendo coagido a votar em um candidato. Ele assinou um documento sem validade alguma, por medo. Eu não trato o caso como traição. Trato como coragem de quem se coloca de frente para encarar um grupo político que já fez tanta maldade na cidade.

 

Folha – Após sua eleição a presidente da Câmara, você agradeceu por ela à articulação do seu irmão, o secretário estadual de Governo Rodrigo, e de Caio Vianna, secretário municipal de Niterói. Como se deu o trabalho deles?

Marquinho – Ao contrário de Wladimir, que é um menino mimado e birrento, que só desagrega, meu irmão Rodrigo Bacellar e Caio Vianna sabem que o momento pode união de forças. Prova disso é que temos o apoio de novas e antigas forças políticas da cidade. Já o prefeito segue cada vez mais sozinho com sua arrogância. Quem achava que ele era diferente do pai, agora está vendo. Se bobear, Wladimir é pior do que Garotinho. O nível de imaturidade dele é assustador. E cabe lembrar que, em 2021, na eleição para o primeiro biênio, tanto o Caio (que, na verdade, fez um acordo com o grupo de Wladimir para dar ao governo a vitória na Mesa Diretora no biênio 2021/2022) quanto o meu irmão orientaram os seus grupos políticos a votarem como quisessem, com o objetivo de dar governabilidade ao governo que iniciava. Mas os dois viram que o prefeito não queria governabilidade, e, sim, uma Câmara que fosse subserviente às ordens dele.

 

Folha – Rodrigo e Caio chegaram a anunciar uma aliança para 2020, que se desfez antes de começar a campanha. Se ela tivesse se mantido, o resultado daquela eleição a prefeito teria sido diferente? Refeita agora na Câmara, essa união pode durar até o pleito de 2024?

Marquinho – Nosso grupo naquela ocasião optou por uma candidatura (na verdade, após romper com Caio, o grupo dos Bacellar cogitou primeiro lançar a prefeito o juiz aposentado Pedro Henrique Alves, depois os médicos Cândida Barcelos e Eduardo Terra, além do pastor e ex-deputado federal Éber Silva, antes de se definir por outro médico, Bruno Calil), montando também nominatas fortes para a Câmara. Certamente, em uma eleição como aquela, que teve um “empate técnico” entre Wladimir e Caio, se estivéssemos juntos (de Caio) a história poderia ser diferente. Mas nada como um dia após o outro. Entendemos hoje a importância de uma frente ampla pelo bem de Campos.

 

Folha – Em 2020, a aliança com Caio teria se desfeito porque Rodrigo queria indicar o nome a vice-prefeito e, após a eleição da Câmara, o nome para presidi-la. O que tornaria o pedetista, se eleito, refém do seu grupo. Para 2024, quais termos deveriam ser buscados a um acordo?

Marquinho – A aliança se desfez porque nosso grupo optou por lançar uma candidatura (na verdade, a ruptura de Rodrigo com Caio se deu em março de 2020 e, só cinco meses depois, em agosto daquele ano, a candidatura de Dr. Bruno Calil foi lançada). Sempre tive uma excelente relação com Caio e todos amadurecemos muito. Agora temos que seguir juntos, mas sem ficar pensando em eleição de 2024. Temos eleição este ano com Rodrigo buscando a reeleição na Alerj e Caio como pré-candidato a deputado federal. O pensamento agora é no fortalecimento de um grupo para trazer recursos e ajudar o nosso município.

 

Folha – Campos saiu de 2020 dividida em três polos políticos: Wladimir, prefeito; Caio, que fez um segundo turno muito duro; e Rodrigo, deputado estadual que, em 2021, ganhou a musculatura do Segov. Se dois desses polos se unirem, o terceiro perde? Há espaço para um quarto?

Marquinho – Como eu disse, não se trata de uma união contra o prefeito. O maior adversário de Wladimir é ele, mesmo. A derrota ali é de dentro para fora. Vamos dialogar não só com Caio, mas com outros quadros que ofereçam alternativas e nos ajudem a conduzir Campos para um caminho de desenvolvimento e libertação.

 

Folha – A perda de popularidade de Rafael em 2020 impressionou tanto quanto a votação que o elegeu prefeito no turno único em 2016. O ex-prefeito pode voltar ao jogo como protagonista? Como reage às acusações de que grupo político dele hoje estaria abrigado no seu?

Marquinho – Rafael encontrou uma cidade destruída, quebrada, saqueada. E cometeu erros. Poderia ter escolhido alguns quadros diferentes e dialogado mais com a população. Sobre ele voltar ao jogo, depende dele, de forma gradual. Mas vamos pensar aqui. Garotinho foi preso cinco vezes e está aí, querendo voltar ao jogo. E Rafael, que teve seus erros, não pode voltar? Em relação aos quadros, é natural alguns que estejam não só em nosso grupo, como também na Prefeitura.

 

Folha – Dos 25 vereadores, até maio de 2021, você era a voz de oposição mais forte na Câmara. Caso você confirme na Justiça sua eleição, confirmando depois uma Mesa toda da oposição, Wladimir deve temer ser engessado ou até um impeachment?

Marquinho – Ele vai ver que não estamos aqui para perseguir. Vai ver que não precisa nos medir pela régua deles. Nosso mandato será pautado pela firmeza, mas com respeito. E por falar em respeito, foi o que faltou por parte do poder público até agora. O prefeito trata vereadores como capachos. Isso vai mudar. A Câmara vai deixar de ser um puxadinho da Prefeitura e fazer valer a sua força em defesa de Campos.

 

Folha – Após a operação Telhado de Vidro em 2008, seu pai, então presidente da Câmara, emparedou o governo Mocaiber. Entre 2019 e 2020, o G-8 liderado pelo vereador Igor, do seu grupo, emparedou o governo Rafael. Não é a mesma tática tentada agora? Por quê?

Marquinho – Essa aí é a narrativa de Wladimir e do Chucky (nome do personagem que batiza uma franquia de filmes de terror, com o qual o então vereador Marcos Bacellar apelidou o ex-governador) Garotinho. Veja como Mocaiber trata o meu pai até hoje. Com carinho e respeito. Pergunte na Câmara aos funcionários da Casa sobre o carinho que todos têm pelo meu pai. O que aconteceu ali foi que o meu pai não aceitou entrar na armação de Garotinho contra Mocaiber (mesmo com policiais federais tentando intimá-lo a não o fazer, Bacellar garantiu na Câmara a recondução de Mocaiber ao cargo de prefeito, após este ser afastado na Telhado de Vidro). Eles perderam no voto na suplementar de 2006 e tentaram tomar Campos no tapetão. Veja então quem são os que gostam de golpe e de emparedar. Quem emparedou e extorquiu alguém em Campos foi Garotinho, que mandou segurança armado na casa de um empresário para pedir R$ 500 mil (como foi denunciado na operação Caixa D’Água, derivada da Laja Lato, que rendeu a Garotinho a terceira das suas cinco prisões). Quem diz isso é próprio empresário, e isso foi amplamente divulgado. Entre nós não existe tática para emparedar o prefeito. Isso é choro de quem quer justificar o fracasso que é o seu governo.

 

Folha – O ex-governador Garotinho fez várias acusações (algumas delas seriam repetidas por Wladimir na noite de quinta, no discurso de inauguração da Vila Olímpica Valdir Pereira, no Parque Guarus) após você ter se eleito presidente da Câmara. E, por conta de Rodrigo, tem ameaçado a ruptura do seu próprio grupo com o governador Cláudio Castro, o que Wladimir, no entanto, nega. Como avalia?

Marquinho – Esse senhor tem credibilidade para falar o quê? Preso cinco vezes, alvo de centenas de processos, ficha suja e quadrilheiro. Ele só está criando desculpas para justificar seu instinto de escorpião e para fazer chantagens.

 

Folha – Além de tentar reeleger Rodrigo com uma bela votação a deputado estadual e Castro a governador, quais são os objetivos do seu grupo nas eleições de outubro? Seu pai, Marcos Bacellar, veio do sindicalismo, como Lula. E a aliança de Castro com o presidente Bolsonaro?

Marquinho – Vamos trabalhar muito para reeleger Cláudio Castro e Rodrigo. E temos que reconhecer a importância do governador para Campos e região. Fez em pouco tempo o que não fizeram em décadas. Reabriu o Restaurante do Povo, envio recursos para colocar salários dos servidores de Campos em dia, ajudou a Saúde, limpou canais, trouxe com Rodrigo Bacellar o Segurança Presente, campo do Farol, recuperou estradas, entre muitas outras ações em curso, como a reforma do HGG. Sobre a política nacional, temos aliados que pensam de uma forma, outros com outras linhas. Mas somos grupo e vamos debater com nossas lideranças.

 

Folha – Caso confirme sua eleição na Justiça, ou numa nova eleição, qual seria seu principal objetivo como presidente da Câmara?

Marquinho – Nossa eleição está confirmada. O resto é choro, jogo sujo e tentativa de golpe. Nosso objetivo é acabar com essa história de Câmara ajoelhada aos pés do prefeito. A Câmara vai ser forte e participar de debates sobre desenvolvimento, geração de empregos, Saúde, Segurança e Educação. Diferente dessa presidência da Câmara de hoje, que tenta jogar contra a população pautando aumento de impostos e servindo de puxadinho da Prefeitura.

 

Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Wladimir: “Vou mandar os vereadores para a Ucrânia”

 

Prefeito Wladimir Garotinho e os vereadores Maicon Cruz, Fábio Ribeiro, Marquinho Bacellar e Luciano Rio Lu (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

“Vou mandar vereadores para a Ucrânia”

“Vou mandar os vereadores lá para a Ucrânia. Vocês têm o Wladimir de boa e lá tem o Vladimir Putin. Mas, se precisar, a gente vira o Putin também”. Foi o que disse na noite de quinta (24) o prefeito Wladimir Garotinho (PSD), em discurso na inauguração da Vila Olímpica Valdir Pereira, no Parque Guarus. Com o mundo inteiro atento à injustificada invasão da Rússia de Vladimir Putin à nação vizinha e independente da Ucrânia, se foi uma brincadeira, foi de péssimo gosto. Gostando ou não da decisão dos vereadores, sobretudo da oposição, o prefeito é obrigado a respeitá-los. Como a democracia à qual seu xará russo tem tão pouco apreço.

 

Mais ataques a vereadores

“Quando os vereadores foram conversar comigo, nunca pediram nada para o povo; só pediram para eles. Quando (…) falei que não é bem assim, que precisamos do dinheiro para fazer obras e cuidar do povo, preferiram se unir e tentar dar um golpe na Câmara. Teve um tão cara de pau (…) que assinou um documento, deu as mãos aos vereadores em uma oração ao nome de Deus e, na hora, votou contra”, disse também Wladimir. Referiu-se ao edil Maicon Cruz (PSC), que assinou seu compromisso com a reeleição do governista Fábio Ribeiro (PSD) a presidente da Câmara. Mas votou no oposicionista Marquinho Bacellar (SD) no dia 15, por 13 votos a 12.

 

“Vereador do grau”

Wladimir falou mais: “Tem outros por aí, como o vereador do grau, que teve a chance de ouro de estar ao nosso lado para ajudar ao povo do Eldorado, mas preferiu se vender. Ele esteve na minha antessala, na véspera da eleição, pedindo dinheiro. E eu falei: ‘Pode ir, pode ir com Deus, pois o dinheiro que nós temos é para fazer obra e cuidar do povo’”. Referiu-se ao edil Luciano Rio Lu (PDT), que tem sua base no Eldorado e já apresentou requerimento para oficializar a prática do “grau”. Ou conduzir motos empinadas numa só roda. Rio Lu chamou de “esporte” o que é crime pelos artigos 291, I e 308 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB).

 

Apressado come cru

De São João da Barra, Maicon foi lá candidato a vereador derrotado duas vezes. Ganhou projeção em Campos como coordenador do secretário estadual de Educação do governo Wilson Witzel (PSC), Pedro Fernandes, preso em setembro de 2020. Aos 31 anos, Maicon talvez ainda não tenha projetado seu ato. Trair sua palavra pode ser hoje até defendido pelos beneficiados. Mas será lembrado quando o aliado virar opositor. Foi tão ingênuo e imediatista quanto o experiente Fábio Ribeiro. Por ter apostado sua eleição na palavra de alguém que foi avisado antes, por quem conhece Maicon desde criança, que não tinha motivo para confiar.

 

Ônus da prova é de quem acusa

A acusação mais grave de Wladimir, no entanto, foi ao “vereador do grau” do Eldorado. Como a referência parece clara, afirmar que o parlamentar “preferiu se vender” e que “esteve na minha antessala, na véspera da eleição, pedindo dinheiro” são gravíssimas. Ainda que a segunda versão estivesse sendo ventilada nos bastidores e redes sociais, antes mesmo da votação do dia 15, o ônus da prova é de quem acusa. Sobretudo quando tal denúncia é feita por uma autoridade, publicamente, em um ato oficial. Se tem provas do que diz, deveria ter feito a denúncia oficialmente. Se não tem, pode ter que responder judicialmente sobre isso.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Invasão da Rússia à Ucrânia — O mundo nunca mais será o mesmo

 

“Às vezes, se fala na brutalidade animal do ser humano, mas isso é incrivelmente injusto e insultante para as feras; um animal nunca poderia ser tão cruel como o ser humano, tão artisticamente cruel”

(Fiódor Dostoiévski, em “Os Irmãos Karamazov”)

 

Vladimir Putin, faixa-preta de judô, exibe sessentão o torso atlético sem camisa, como costumava fazer o ditador fascista italiano Benito Mussolini (Foto: Ria-Novosti/AFP)

 

Morto no último dia 15, o cineasta e jornalista Arnaldo Jabor definiu talvez a grande lição sobre os atentados do terrorismo islâmico às Torres Gêmeas do World Trade Center, na Nova York de 11 de setembro de 2001:

— Deus está vivo. E se chama Alá.

 

Nova York, 11 de setembro de 2001 (Foto: Reprodução de TV)

 

Arnaldo Jabor, cineasta e jornalista

Descendente de imigrantes judeus libaneses, educado em colégio de jesuítas e ateu, Jabor alertava que o ataque ao coração do novo Império Romano era a realidade esbofeteando a cara de todo o Ocidente. Soberbo na leitura porca do filósofo alemão Friederich Nietzsche, que no século 19 decretou: “Deus está morto”. Arrogante com o “fim da História” decretada pelo filósofo e economista liberal Francis Fukuyama, logo após a dissolução da comunista União Soviética em 1991.

Para quem passou por Renascimento, Reforma, colonização das Américas e Iluminismo, talvez. A quem, sem passar por nada disso, chegou às mesmas revoluções industrial e digital, não. Cada qual com suas particularidades, são os casos das civilizações Islâmica, Chinesa e Indiana. Que dividem o mesmo mundo e tempo conosco, Ocidente greco-romano-judaico-cristão. Fruto também deste, muito antes de ser a principal herdeira soviética, a Rússia é também um hibridismo geográfico e antropológico: enclave europeu espraiado por toda a latitude gigantesca da Ásia. Nela, é tão eslava, viking e católica ortodoxa, quanto mongol, tártara e islâmica.

As civilizações são diferentes. Como não são iguais os países. Prova disso foi dada na noite de ontem, quando o Conselho de Segurança da ONU, reunido na Nova York capada das Torres Gêmeas, vetou a resolução pela condenação da invasão injustificada da Rússia de Vladimir Putin, na madrugada brasileira de quinta, à vizinha e até então soberana Ucrânia. Dos 15 países votantes, 11 foram a favor, incluindo o Brasil de um Bolsonaro com medo de outubro, três se abstiveram. Como, então, foi reprovada? Simples. Só cinco têm assento permanente no Conselho e o poder unitário de veto: EUA, Grã-Bretanha, França, China e Rússia. Esta, por óbvio, vetou.

 

Embaixador da Rússia no Conselho de Segurança da ONU, Vasily Nebenzya vetou na noite de ontem a resolução pela condenação da invasão injustificada à Ucrânia

 

Glauber Rocha, cineasta baiano

A Ucrânia não é só vizinha da Rússia. É sua irmã mais velha. Está para Rússia como a Bahia ao Brasil. Foi lá que tudo começou. E para quem acha que todo baiano é brasileiro, fica a autodefinição do cineasta Glauber Rocha aos seus anfitriões no tempo de exílio em Cuba, no auge da ditadura militar no Brasil, retratada no documentário “Rocha que Voa” (2002), dirigido por seu filho Eryk Rocha: “Eu não sou brasileiro, eu sou baiano”. A primeira vez que o nome Rússia surgiu nos mapas, na Idade Média do século 9, foi como Rússia de Quieve — e Kiev, desde ontem cercada pelo rápido avanço militar russo, é até hoje a capital da Ucrânia.

 

Ucrânia e Rússia de hoje nasceram juntas na Rússia de Quieve, juntando eslavos orientais e vikings suecos no século 9 (Mapa: Wikipédia Brasil)

 

No tempo dos czares de todas as Rússias, do século 18 à Revolução Russa de 1917, Rússia e Ucrânia formaram o mesmo país. E continuaram juntas na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), que chegou ao fim em 1991. Foi justamente quando três destas repúblicas se tornaram independentes: Ucrânia, Rússia e Bielorússia (ou Belarus). Esta, hoje governada pelo autocrata tresloucado Aleksandr Lukashenko, aliado de Putin e chamado de “o último ditador da Europa”, que franqueou o caminho para os russos a Kiev. Confiante na fraternidade ancestral da sua relação com a Rússia, a Ucrânia se separou e passou a ela todo o arsenal nuclear instalado em seu território pela URSS. Quando o fez, de bom grado, a Ucrânia era a terceira potência atômica do mundo, atrás apenas da Rússia e dos EUA.

 

Após sair da União Soviética como terceira potência atômica do mundo, a Ucrânia desmontou seus silos de mísseis nucleares nos anos 1990, passando-os para a Rússia

 

Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia

Se a Ucrânia tivesse mantido seu arsenal nuclear, do qual era tão herdeira quanto a Rússia, Putin hoje desinflaria o peito de pombo, arrulhando enquanto finge rosnar. O país foi ingênuo há 31 anos. Como foi ingênuo seu ainda presidente, o ex-comediante Volodymyr Zelensky. Por acreditar que, sem pertencer à Otan, o Ocidente viria em sua ajuda na guerra contra o Golias que a Ucrânia enfrenta sozinha. Como Davi, mas sem as mesmas virtudes bélicas do rei da Antiga Israel, Zelensky é judeu. E é acusado por Putin, ex-agente da Gestapo soviética da KGB, de ser neonazista. Se a URSS perdeu 20 milhões de vidas para derrotar a Alemanha Nazista na II Guerra, 8 milhões dessas almas eram ucranianas. Foi às margens do mesmo rio Dniepre que os tanques russos cruzam agora na Ucrânia, que os avôs dos antagonistas de hoje, juntos, derrotaram os nazistas em 1943, numa das maiores batalhas de blindados da História.

 

Avôs dos soldados que hoje se enfrentam em lados opostos, russos e ucranianos atravessam juntos o rio Dniepre na Ucrânia de 1943, para vencer o nazismo na II Guerra

 

Capaz de matar dissidentes russos envenenados até na Inglaterra, de proibir que as russas deem queixa se agredidas fisicamente pelos maridos e de agora reprimir com a polícia as centenas de manifestações na Rússia contra sua invasão à Ucrânia, Putin é moralmente indefensável. A Rússia, não. Após a queda do Muro de Berlim em 1989, os EUA e a Alemanha temiam que a URSS fosse reagir militarmente, como fez na invasão da Hungria em 1956 e da ex-Tchecoslováquia em 1968. Último presidente soviético, Mikhail Gorbatchov ouviu o pedido, feito em 1990 por James Baker, então secretário de Estado dos EUA no governo George Bush pai, e pelo então chanceler da Alemanha, Helmut Kohl, de não intervir na reunificação germânica. A URSS prometeu não se meter. E cumpriu. Em troca, Gorbachov pediu que a Otan não agregasse países da área de influência soviética. Os EUA não cumpriram. Onze países do extinto Pacto de Varsóvia, feito pela URSS em resposta à Otan, hoje integram esta.

 

James Baker, secretário de Estado dos EUA, discute em 1990 a reunificação da Alemanha com o último presidente soviético, Mikhail Gorbachov (Foto: The Baker Institute)

 

Sergey Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia

Os interesses geopolíticos da Rússia são moralmente justos. Os métodos de Putin, não. Mas, ainda que seja um canalha amoral, ele também mostrou ser uma águia geopolítica nestes seus 22 anos no poder. Como seu ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, tem só meio século de experiência. Com uma aliada China para chamar de sua e o recorde de US$ 630 bilhões em reservas cambiais, a Rússia guardou gordura para sobreviver às sanções econômicas do Ocidente sem passar fome no inverno da guerra. Esta sempre tem por característica a imposição cruel da realidade esbofeteando a face das idealizações.

 

Presidentes da Rússia e da China, respectivamente, Vladimir Putin e Xi Jinping (Foto: Sputnik/Ramil Sitdikov/Kremlin via Reuters)

 

Em se tratando de um combate, olhar para Putin e Lavrov em um canto do ringue e, no outro, um Emmanuel Macron preocupado com as eleições presidenciais da França em abril, um Boris Johnson aliviado por desviar as atenções dos comes e bebes que promoveu enquanto determinava à Grã-Bretanha isolamento social na pandemia da Covid, um Olaf Scholz que acabou de assumir como chanceler da Alemanha sob a sombra densa da sua antecessora Angela Merkel, e um Joe Biden humilhado pela retirada desastrosa dos EUA do Afeganistão, quem apostaria contra os dois primeiros? Biden, que derrotou nas urnas de 2020 um Donald Trump aliado de Putin, parece ser o adversário perfeito para este. Aos 79 anos, é moderado, empático, defensor da energia limpa, das minorias étnicas e de orientação sexual.

 

Emmanuel Macron, Boris Johnson, Olaf Scholz e Joe Biden (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Assertivo, frio, exportador do gás que aquece o resto da Europa durante o inverno rigoroso deles, pragmático com as minorias étnicas e perseguidor da sua população LGBT, na defesa da “família tradicional”, Putin ainda assim consegue ser defendido por parte da esquerda mundial. Que é viúva, como a própria Rússia, do Muro de Berlim e da URSS. Na paráfrase de Jabor, a figura e os atos do autocrata russo bradam:

— O macho alfa está vivo. E se chama Putin.

 

Irmãos ucranianos e campeões mundiais peso pesado de boxe profissional, Vitali e Wladimir Klitchsko dominaram o esporte por mais de duas décadas

 

Ao se alistarem heroicamente na defesa armada do seu país contra a invasão russa, os irmãos e ex-campeões Vitali e Wladimir Klitschko dominaram o mundo do boxe peso pesado profissional entre os anos 1990 e 2010. Vitali é o prefeito de Kiev. Seja na política ou no ringue, os dois sabem bem que luta não é briga. A contagem já está aberta. Na lona, como depois do 11 de setembro, o mundo que se levantar nunca mais será o mesmo.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Helinho Nahim fecha a semana do Folha no Ar nesta 6ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta sexta (25), quem fecha a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o vereador de oposição Helinho Nahim (PTC). Ele falará sobre a anulação e a inevitável judicialização da eleição de Marquinho Bacellar (SD), no dia 15, a presidente da Câmara.

Helinho também analisará qual será agora o caminho político da oposição no Legislativo goitacá. Por fim, ele dará sua projeção às urnas de outubro a deputado estadual e federal, governador do RJ e presidente da República.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Os 98 anos de vida de Aída Siqueira pela filha Silvana

 

Dona Aída da Rocha Siqueira faleceu no último sábado, dia 19, mesmo dia em que completou 98 anos. Fez a passagem em casa, como queria e onde toda a estrutura hospitalar tinha sido instalada. Após uma infecção por Covid — para a qual tinha tomado as três doses de vacina — cerca de um mês antes de morrer, ela não resistiu à falência múltipla dos órgãos. Foi velada e sepultada na tarde de domingo (20), no Campo da Paz.

Dona Aída deixou os filhos Francisco Roberto, Sebastião José, Jayme Cézar, Silvana Dorotéa e Sheilla Siqueira; 15 netos e 16 bisnetos. E o legado de uma vida digna. Que hoje foi lembrado por sua filha Silvana, a SilSiqueira, amiga muito querida e escritora, em texto que segue abaixo na transcrição pungente do que foi e permanecerá sendo a sua mãe:

 

Silvana e Aída Siqueira (Foto: Arquivo de Família)

Mãe

Foi num dia de domingo, como cantava Tim Maia, de quem ela era fã.

Foi depois de uma vitória por 3 x 0 do Fluminense, “o melhor time”, como ela dizia.

Praticante de yoga até os seus 90 e poucos anos, colecionava imagem do Ganesha e lia sobre a vida de Yogananda. Fomos a San Diego, nos Estados Unidos, para ela visitar a casa onde o Yogue passou os seus últimos dias. Um sonho realizado.

Católica, devota de São José, contribuía religiosamente com a Canção Nova. Também lia a sorte no tarô e via o futuro na bola de cristal. Era múltipla!

Considerava o mundo um celeiro de oportunidades no qual deveríamos estar abertos ao conhecimento e às novas experiências.

Corajosa. Independente. Ousava!

Nos anos 60 montou um estúdio de beleza na casa da rua do Gás onde atendia às amigas: limpeza e tratamento da pele. Vendia Avon. Sempre foi muito vaidosa.

Academia de ginástica, musculação, pilates. Era puro movimento!

Quando menina, tinha sonho de ser bailarina. Mas a família desaprovava: moça direita não dança.

Um cafezinho era sempre bem-vindo. Só não podia ser “café rosita” — uma das expressões criadas por ela para designar um café frio. Criou outras, que somente a família entendia: chapelão, amara, catatau, caboio, balançou a roseira, Chico Russo, entre tantas.

Comia pouco. No passado foi adepta da alimentação macrobiótica e nos ensinou que açúcar e sal não são benéficos à saúde.

Não gostava de sol. Afirmava que envelhecia. E se besuntava de cremes e mais cremes, chapéu, óculos escuros para proteger e preservar a beleza da pele. Ir à praia era um sacrifício para ela.

Por onde passava deixava um rastro de alegria. Era um espírito livre de preconceitos, muito humana, sempre acolheu as pessoas sem rotular, sem julgar.

Carregava uma bondade inocente.

Tinha alma de artista! Tinha talento nato.

Começou a desenhar quando ainda era muito pequena; usando carvão queimado, ensaiava os primeiros traços. Saltou do carvão para os pincéis e deixou um acervo magnífico de porcelanas e telas assinadas com muito orgulho.

Com o passar dos anos foi perdendo a audição, mas não a vaidade. Aparelho auditivo? Apenas intra-auricular. E, contrariando todas as premissas, comprou um violão e contratou um professor particular. Sonhava tocar “Como é grande o meu amor por você”.

Ficou viúva aos 83 anos. Viveu o luto honrando o grande parceiro de vida. Deu a volta por cima dedicando-se aos filhos, netos, bisnetos e, principalmente, a si mesma.

Viajou meio mundo. Do calor de Corumbá ao frio da  Suíça, aproveitou cada oportunidade.

“Esquenta a cabeça, não!” era quase que um mantra. Muito otimista, tinha sempre uma palavra suave, um conselho sábio, uma saída certeira para um problema que nos afligisse.

Era detentora da sabedoria das crianças.

Deixou no cavalete uma tela inacabada. São rosas que não falam, mas exalam o perfume da pessoa maravilhosa que foi.

Finalizo com o trecho de uma canção que eu costumava cantar para ela:

“ Não se admire se um dia, um beija-flor invadir a porta da sua casa, te der um beijo e partir … fui eu que mandei o beijo, que é pra matar meu desejo, faz tempo que eu não te vejo, ai que saudade d’ocê”.

 

SilSiqueira, fevereiro de 2022

 

Vereador governista analisa Câmara no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quinta (24), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o vereador governista Juninho Virgílio (Pros). Ele falará sobre a eleição do oposicionista Marquinho Bacellar (SD) a presidente da Câmara e da sua confusão seguinte com o edil Maicon Cruz (PSC), que encerrou aquela sessão do dia 15.

Juninho falará também da suspensão da eleição do resto da Mesa Diretora e de como isso tem deixado a Câmara sem sessões, como ocorreu ontem (22) e hoje (23). Por fim ele dará sua projeção às urnas de outubro a deputado, governador do RJ e presidente da República.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.