Maldição da polarização entre mitos de Lula e Bolsonaro

 

Com Arnaldo Neto, Cláudio Nogueira e Matheus Berriel

 

Jair Bolsonaro (PL) faz “o pior governo da história brasileira”. Mas “não houve um complô” para elegê-lo em 2018, quando Lula (PT) foi preso por corrupção. E saiu para recuperar seus direitos políticos sem “um atestado de inocência”. As afirmações foram feitas na manhã de ontem ao Folha no Ar, na Folha FM 98,3, pelo historiador Alberto Aggio, professor da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e especialista em História da América Latina. A aparente contradição na visão crítica sobre os dois nomes que lideram todas as pesquisas presidenciais de 2022 se dá em oposição àquilo que o historiador definiu como maior “maldição” da democracia no país: a polarização política, o “nós contra eles”.

Candidatos a tentar furar essa bipolaridade em outubro, João Doria (PSDB), Ciro Gomes (PDT) e Sergio Moro (Podemos) também receberam críticas por suas respectivas “maldições”. Ainda que Aggio as tenha feito após ressaltar: Doria e Moro não são iguais a Bolsonaro. Ele também questionou as “cabeças de paralelepípedo” da esquerda brasileira que, integradas à democracia sem abandonar o “paradigma da revolução”, ainda relativizam ditaduras latino-americanas como Cuba, Venezuela e Nicarágua. Usou exemplos do Chile, disse não acreditar que Lula vença no Brasil em primeiro turno, lembrou que Bolsonaro aprovou o Auxílio Brasil e, citando também a presidenciável Simone Tebet (MDB), pontuou que “Moro é a novidade na conjuntura”.

 

Alberto Aggio, historiador, professor da Universidade Estadual de São Paulo e especialista em História da América Latina (Foto: Divulgação)

 

 

“Governo Bolsonaro como um dos piores governos da nossa história” – Desde que venceu as eleições e assumiu o governo, a expectativa em relação ao Bolsonaro não era das melhores. Numa entrevista já em 2019, no início do governo, eu lembrava o general (Eurico Gaspar) Dutra, logo depois do Estado Novo (1937/1945), que considerado por muitos estudiosos da história contemporânea brasileira como o pior presidente até então. Era a época da Guerra Fria (1947/1991), logo depois da II Guerra (1939/1945). Mas o general Dutra, efetivamente, não conseguiu colocar nada de grande expectativa. Logo depois, na eleição seguinte, o Getúlio Vargas é eleito. Então, no início do governo Bolsonaro, eu criei a hipótese de que talvez o Bolsonaro ultrapassasse o Dutra. O governo Bolsonaro seria marcado como um dos piores governos da nossa história republicana. E acho que, infelizmente, acertei, porque do governo Bolsonaro há mais coisas ruins para a sociedade e dificuldades cada vez maiores. Em termos sintéticos, é um governo que tinha um discurso, uma retórica de mudanças liberais na economia, na relação Estado e sociedade, e nenhuma dessas propostas vingou. O que foi aprovado no governo Bolsonaro era aquilo que já vinha sendo discutido, especialmente no Congresso, como a reforma da Previdência, por exemplo.

Ameaça de golpe e “desastre” na pandemia – A tentativa do Bolsonaro foi retroagir. Mais do que retroagir, foi destruir instituições que vinham sendo construídas na sociedade brasileira, no Estado brasileiro, desde o momento da redemocratização (1985). O começo do governo foi tenso, cheio de ameaças. Ficou-se até imaginando se os militares iam aderir ao perigo de um golpe. Quer dizer, coisa que nós já tínhamos ultrapassado há algum tempo. Nos governos do Fernando Henrique, do Lula, não se imaginava poder ter um golpe no Brasil novamente. Então, essas ameaças foram muito ruins, de desagregação do país. Imagina a ameaça de um golpe, voltar aos tempos da ditadura (1964/1985). Depois disso, o governo Bolsonaro tenta militarizar integralmente as instituições a partir dos ministérios. E aí vem a pandemia, e aí vem o desastre da gestão do governo Bolsonaro com a pandemia, ceifando mais de 600 mil vidas. Isso não é pouco num país em que a população segue as orientações (de Saúde Pública). O SUS é uma grande marca da Constituição de 1988. Então, o desastre do ponto de vista sanitário é enorme. O ministério da Saúde sequer formou uma força-tarefa para informar à população. Foram necessários grupos de comunicação, que se articularam para informar à população de como é que estavam andando os casos, os hospitais. Então, a mínima noção republicana de informar a população, o ministério da Saúde não fez. E, pior, enveredou para o caminho da cloroquina na gestão Pazuello.

Vacinação veio “de pressão” – Claro que a vacinação avançou. Por conta do governo Bolsonaro? Não, porque veio em termos de pressão. O governador aqui (em São Paulo), João Dória (que passou a produzir a primeira vacina utilizada no Brasil, a Coronavac). Isso fez com que o Governo Federal se mexesse, fosse atrás, comprasse vacina do exterior, e aqui, do Butantan, como deveria ser. Deveria ser de maneira tranquila, com capacidade de gestão. Então, Bolsonaro se colocou contra tudo isso. Nós temos aí um processo eleitoral, mas esse primeiro período, espero que seja o único período do governo Bolsonaro, é muito ruim para o Brasil.

“O pior governo da história brasileira” – Citei só duas coisas: as ameaças à democracia e o desastre em termos de gestão por conta da epidemia. E agora, por fim, a economia. Por fim, entramos numa viela em que é difícil ver a saída, com os juros Selic batendo já nos 10%, com a inflação ultrapassando esses 10%, as dificuldades salariais e de emprego. Nada disso tem mostrado que o país melhorou, muito pelo contrário, ele piorou. Eu acho que vai ganhar do Dutra, é o pior governo da história brasileira.

“A antipolítica não serve de nada” – A eleição do Bolsonaro é, efetivamente, a eleição de um personagem da antipolítica. Ele não é um outsider, mas se fez de outsider. Ele representa a antipolítica, porque ele assumiu um discurso de que tudo aquilo que era político era negativo. Tudo: partidos, Parlamento, lideranças, etc. E, até agora, se vê claramente que era um discurso oportunista, instrumental e negativo. Se a gente for pensar do ponto de vista da democracia, não há democracia sem política, seja qualquer política de convivência, de discussão, de debate e de diferenciação entre os atores políticos. Esse movimento do 7 de setembro, que era o auge da estratégia que eu chamei de movimento, que o Bolsonaro levava no seu governo (de tentativa de golpe). Não chegou ao 7 de setembro como algo que imaginávamos, que os militares iam junto com o Bolsonaro para dar o golpe no dia seguinte. Isso, depois, com a presença do Temer (MDB) para jogar panos quentes na situação, mostrou que aquele discurso lá do Bolsonaro era farsesco. Eu espero que se tire essa lição. A antipolítica não serve de nada. Não serve para coisa alguma na democracia imaginar que algum líder, algum setor apareça fora do espaço da política, da sociedade política, tentando moralizar, tentando sanar os males da política. E não há democracia no mundo que não tenha os seus próprios males. A democracia americana é cheia de problemas; a democracia nos países escandinavos também tem inúmeros problemas. Não há democracia com essa imagem e ilusão da pureza, de que todos os atores são santificados, de que a democracia é um espaço de santos. Essa é uma visão absolutamente equivocada, que ganha força em países com uma cultura política democrática reduzida, como o Brasil, de compreender a democracia. Então, o Bolsonaro vem nesse momento. Ele aciona esses canais da chamada antipolítica.

“A antipolítica não é uma invenção de Bolsonaro” – Veja que essa antipolítica não está só no Bolsonaro, só no Doria, por exemplo, que assumiu aquela coisa de que “eu sou um gestor, eu não sou político”. Quando o PT surgiu, lá no final dos anos 1970, início dos anos 1980, também levava essa ideia de que todos eram corruptos. Eu me lembro da Erundina sendo eleita aqui, na capital de São Paulo, e ela dizia assim: “Todos são iguais”. Aqueles que vinham do regime ditatorial e aqueles que vinham do processo de democratização, todos eram iguais, o PT era o único ator que iria resolver todos os problemas. Então, o discurso da antipolítica não é uma invenção do Bolsonaro. É, até mesmo, uma expectativa que existe na sociedade brasileira, que está entranhada, de que a política não serve para nada, que a política é só um jogo de ladrões. E nós sabemos que não. Nós sabemos que existiram momentos no Brasil bastante virtuosos, como um momento de construção da nossa Constituição de 1988.

“Não houve complô do Judiciário” – Os setores do Estado brasileiro, como o Judiciário, também não são infalíveis. Há erros que se cometem, que se cometeram, e eu queria enfatizar esse último aspecto: não houve nenhum grande complô. Quer dizer, quando o Lula é julgado, quando o Lula é preso, afastado, não há um complô de que tudo isso estava sendo feito para o eleger o Bolsonaro, porque o Bolsonaro não era absolutamente nada nesse contexto. Então, não há um complô. O que há são ações de atores políticos, num determinado contexto de crise, de perda de referências. E alguns atores conseguem se sair bem, porque conseguem se apropriar de certas imagens, de certas demandas da sociedade, e eles dão respostas retóricas para isso, demagógicas, que acabam vencendo. Então, nós vimos claramente que o petismo, o lulismo começa a entrar em declínio na crise do governo Dilma (PT), e é aí que o Bolsonaro vai aparecer. Ninguém acreditava muito nisso. Alguns dizem até que, antes da facada, era uma coisa, e depois da facada, passou a ser outra do ponto de vista da crença da sociedade.

Sem “atestado de inocência do Lula” – Assim como o petismo estava em declínio, agora nós estamos vendo que o retorno da figura do Lula, essa soltura do Lula, que também é polêmica. Acreditar que o Lula saiu da cadeia, garantindo seus direitos políticos, é um atestado de inocência em tudo o que aconteceu isso também, convenhamos, é uma linguagem para aqueles que acreditam no Lula efetivamente. Não dá para imaginar que tudo se resolveu. Não se resolveu do ponto substantivo, da superação dos crimes em que o Lula esteve envolvido. Se resolveu por outras questões processuais, e agora, como se diz na linguagem jurídica, o processo caducou. Não há mais processo em relação ao tríplex do Guarujá, por exemplo. Então, não se trata disso. Existem movimentos na política, atores na política, que vão gerando uma determinada movimentação. Alguns são mais bem-sucedidos, outros, malsucedidos.

“Doria e Moro não são iguais a Bolsonaro” – Não há essa história, digamos, de um complô entre Bolsonaro, Moro, Doria: “Todos eles estão juntos, todos eles são uma coisa só, eles são racistas”. Esse tipo de leitura é um tipo de leitura simplista, um tipo de leitura que eu acho, do meu ponto de vista, que não faz nada bem para a inteligência. É necessário pensar de maneira mais refinada. Dizer, por exemplo, que o Doria é igual ao Bolsonaro; não é! Dizer que o Moro é igual ao Bolsonaro; não é! É a mesma coisa, por exemplo: o Lula se aproximando do Alckmin, aí você vai dizer que eles sempre se deram bem. Não, não se deram.

Lula e Maluf – É só lembrar lá do Lula nos jardins na casa do Paulo Maluf (PP), na época da campanha do Haddad (PT) para prefeito de São Paulo. Todo mundo sabe, naquele momento, o que significava Maluf. Hoje, já não significa mais nada, mas naquele momento significava muita coisa. Paulo Maluf significava a antidemocracia, e o Lula se aliou ao que significava a antidemocracia. Eu vou dizer que tudo isso é um complô do Lula para implantar o comunismo no Brasil? Não sejamos insensatos a ponto de pensarmos esse tipo de coisa. A política prega essas surpresas.

Fracasso econômico de Dilma e Bolsonaro – Eu acho que relativizar o governo Dilma é uma estratégia meramente eleitoral que o PT, especialmente o Lula, tem adotado. Se nós formos olhar as razões pelas quais a inflação chegou onde chegou no período Dilma, eu acho que há um ponto de comparação com Bolsonaro, que são estratégias de política econômica equivocadas. De um lado, se esticou a corda nos campeões nacionais, naquela estratégia de retorno ao desenvolvimentismo, o controle do Estado sobre a economia no período Dilma. De outro lado, essa estratégia do Paulo Guedes, que é uma estratégia, digamos, ortodoxa do ponto de vista liberal, de que o mercado funciona por si mesmo, que não há nada a se fazer. E, ao contrário, se faz. Se faz negativamente: perdeu-se o controle da moeda. Nós, hoje, temos uma moeda ultra desvalorizada do ponto de vista mundial. Isso gera uma inflação direta e inercial, sem nenhum plano de recuperação. Não há, na estratégia do Guedes, qualquer possibilidade de recuperação, ainda mais no tempo de governo que o Bolsonaro tem. Para sair disso, vai demorar um pouco. É muito ruim, muito doloroso.

“Cabeça de paralelepípedo” nas ditaduras de esquerda na América Latina – Cuba é uma ditadura efetivamente, e aí com razões específicas, mais a Venezuela, Nicarágua, etc. Na esquerda, existe um paradigma fundante, que é a ideia de revolução. As pessoas que guardam essa crença, divulgam e vivem por ela, acabam entendendo que são portadoras de uma verdade, quase que como um ato de purificação da humanidade em torno da luta de classes, da eliminação da exploração, da eliminação da opressão. Logo depois que as estratégias insurrecionais de luta armada faliram, essas pessoas dessa esquerda entram na democracia. O problema é elas carregarem esse paradigma para a convivência democrática. E, no interior da democracia, elas imaginam que os outros atores políticos são atores permanentemente nefastos, e elas são atores única e exclusivamente do bem. Então, aí esse modo de pensar é um modo de pensar meio que de uma cabeça de paralelepípedo: não tem possibilidade, não tem maleabilidade, não tem leitura da realidade. O que tem é só ideologia. Então, a pessoa vive uma situação democrática no Brasil em que ela não confia, em que ela efetivamente não acredita. Ela não tem como dizer que líderes políticos de outros países, que comungam a mesma ideologia que ela, devam ser criticadas. Então, por que é que a esquerda aqui no Brasil, que participa de eleições, fala de democracia, fala de cidadania, fala da Constituição, apoia um candidato à presidência como o Ortega, na Nicarágua, que prendeu sete outros opositores para ganhar a eleição? Como é que ela admite uma coisa dessa? Ela só pode admitir porque está na cabeça dela uma cultura que tem como paradigma a ideia de revolução, de que há um lado bom, um lado santificado, que “somos nós, somos aqueles justos honestos, bons e etc”. E o outro lado, seja ele qual for, não é o “nós”, é o “eles”.

 

Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Lula, o PT e o paradigma da revolução – Em relação ao PT, a grande liderança é o Lula. Que é capaz de fazer a ligação entre esses setores mais revolucionários com os setores sindicais, com setores religiosos. Então, a religião da revolução também se conecta com a religião da teologia da libertação (católica). É nesse sentido que, numa entrevista ao “Estadão”, eu recuperei essa ideia do paradigma da revolução, para explicar porque esquerdas como a brasileira, ao invés de criticar processos, atores políticos que são claramente tendenciosos ao regime autoritário, a práticas ditatoriais, elas não podem fazer isso, ficam com dificuldade. Nesse sentido, se vê claramente o problema da permanência de uma cultura que não é efetivamente democrática, que é a cultura da revolução, e que é necessário ultrapassar esse paradigma. Eu não estou querendo dizer que todo o PT, todo petista é autoritário, ditatorial. Não, não é. Mas, existem aqueles que dirigem o partido, que comungam dessas ideias, e aqueles que, embora não sejam, porque eu não vejo o Lula dessa maneira. Ele não é como José Dirceu, ele não é como outros dirigentes do PT, o Lula é um camaleão. O Lula é capaz de fazer uma costura do que for, do que tiver para ser. Na verdade, do ponto de vista democrático, o Lula aprisiona o PT, e o PT se sente muito confortável, porque tem uma liderança capaz de articular os diferentes onde cabe esse paradigma revolucionalista.

“Na lógica de Lula, democracia é eleição, ponto” – O Lula é um especialista em participar de eleições, o seu protagonismo. Ele tem uma crença bastante forte e até exitosa. Depois de perder tantas eleições, o Lula foi um grande ganhador de eleições. Então, o Lula tem uma lógica na cabeça, de que a democracia é eleição, ponto. E ele trabalha dentro dessa lógica. Nós sabemos que a democracia não é só as eleições, mas as eleições ocupam um protagonismo muito grande. Então, o Lula identifica a sua liderança, o seu protagonismo com eleições. Foi essa a maneira com que o Lula assimilou o processo de democratização do Brasil.

“Lula só pode estar na cabeça” – Então, por exemplo, o Lula não gosta muito de consensos. O Lula não gosta muito de acordo entre diferentes. Ele é um hegemonista nesse sentido. Ele só pode estar na cabeça, ele não pode compor, a não ser que ele dê a direção, o comando, que ele comande o processo. Ele vê dessa maneira. Em termos de teoria política, o Lula nunca foi uma pessoa orientada para isso, para se definir nesses termos, e o PT também não. O PT é, em parte, socialdemocrata, mas ele não assume essa identidade. Então, por exemplo, o Haddad é um socialdemocrata? Ao que tudo indica, sim, mas ele não pode assumir essa identidade, porque existem outras identidades parciais dentro do PT que se recusam à rotulação de socialdemocrata, ou melhor, até ao programa socialdemocrata.

“O consumo é central, não a democracia” – De onde vem tudo isso? Vem de uma predominância do sindicalismo lulista, petista, que vem lá do ABC, e tem como paradigma a ideia de consumo, de que o consumo é central, não que a democracia é o central. É democrático um líder que dá possibilidades de renda para o trabalhador consumir. Então, tudo o que o Lula fala, a ênfase que o Lula dá, como agora, recentemente, é de que o pobre tem direito a comer camarão. É inegável que o pobre tem direito a comer camarão. Agora, a questão é: como se resolve isso? Qual é a política, qual é a estratégia econômica para o pobre comer camarão? “Ah, o pobre tem direito a andar de avião”. Isso posto, quem vai negar isso? Então, a questão toda é como resolver isso. E o Lula constrói um discurso sempre esperançoso, mas não diz muito bem como é que isso vai ser.

Das vacas gordas às vacas magras? – O governo de Lula, nós sabemos que tinha muitos recursos por causa do êxito das commodities da China, principalmente. Era um dinheiro farto que entrava no país. Em situações de dificuldade, vai ser um problema realizar essa proposta: “O pobre tem direito de comer camarão”. Quer dizer, isso não é não é assim pela eternidade. Na política, a realidade é muito mais móvel, vive cheia de percalços. Então há essa de ideia de: por um lado o paradigma da revolução, por outro, o paradigma do consumo. O paradigma da revolução entra, mas ele não pode ocupar tudo, ele tem que ele tem que azeitar a militância, azeitar a crença. Mas, a revolução diz que você tem que fazer sacrifício agora pra se beneficiar mais à frente. E, não, o benefício tem que ser já. Então, entra essa coisa do sindicalismo. De maneira que o Lula não pode ser socialdemocrata, mas ele pode dizer que apoia certas medidas. Ele não pode ser um revolucionário, mas ele não tem como descartar os revolucionalistas que estão dentro do PT. Ele crê na redenção de massas dos pobres, dos excluídos, e isso é o seu discurso esperançoso permanentemente.

“Rumo foi dado pelo Fernando Henrique” – Determinadas fatias, desde a criação do PT, da Igreja Católica e de outras igrejas, dão sustentação a esse Lula. Então, o Lula é esse tipo de personagem. É um tipo de personagem que carrega com ele tudo isso e vai ter uma liderança num determinado contexto; um contexto em que a economia brasileira tinha que encontrar o seu rumo. Esse rumo foi dado pelo Fernando Henrique, o que é a inserção do Brasil na globalização, determinadas reformas internas. Então, o Lula seguiu até um determinado ponto, depois bloqueou isso daí e se colocou como o antagonista ao que o Fernando Henrique fez.

Herança maldita? – Se o Lula imaginou que a herança fernandista era uma herança maldita, e se ele ganhar as próximas eleições depois do Bolsonaro, aí ele vai ver o que é uma herança maldita. Ou seja, aquilo de o Lula dizer que o PSDB foi uma herança maldita, que o período Cardoso foi uma herança maldita, foi um extraordinário erro político e muito nefasto à história do país nos últimos anos. Então, esse Lula, esse personagem dessa esquerda mais protagonista no Brasil, ele é isso, ele é esse amálgama, ele é esse mosaico que, em determinado momento, predomina uma coisa; em outro momento, predomina outra, indefinidamente.

“Lula aprisiona a esquerda brasileira” – Lula, por um lado resolve o problema do PT e de algumas esquerdas que podem se coligar; agora já estão falando de uma grande federação: o PT, PSB, PV, Psol. Quer dizer, o Lula é uma essa a grande referência e resolve o problema eleitoral de todo mundo, porque você faz a campanha junto com o Lula e recebe voto, elege deputado, elege senador, elege governador e assim por diante. A renovação da esquerda brasileira é muito difícil, especialmente a partir do PT, porque o Lula aprisiona todo mundo. Algum projeto vai avançar? Tudo vai depender de que articulação se fizer com o Lula. E é o Lula, não é uma corrente, não é uma ideia, não é um projeto, não é nada disso. Então, essa é feição peronista do lulismo. Não que o lulismo seja um peronismo, é uma feição que, do ponto de vista político, é muito negativa para que a esquerda brasileira discuta problemas profundos e ajude a educar a sociedade brasileira no contexto dessa discussão.

Aprisionamento ruim à complexidade da democracia – Nós sabemos que a sociedade brasileira é uma sociedade, digamos, que rejeita a política, que não é afeita a fazer essas discussões. Isso é muito negativo. Então, o aprisionamento que o Lula faz ao PT e à esquerda resolve o problema eleitoral, mas posterga, de maneira infeliz, a possibilidade de a sociedade brasileira avançar do ponto de vista da democracia, da cultura política democrática, da ideia de que a democracia não se resolve com medidas simples. A democracia é uma coisa complicada, é complexa, e as pessoas muitas vezes não entendem esse tempo e essa complexidade da democracia, preferem sempre: “Ah, nós queremos alguém que decida, alguém que defina, alguém que resolva”. Isso é negativo para a democracia.

“Maldição da polarização” – A eleição do Chile (segundo turno a presidente, no próximo dia 19) está polarizada. Na verdade, a eleição do Chile tem duas propostas e duas lideranças (os candidatos Gabriel Boric, de centro-esquerda, e José Antonio Kast, de extrema-direita). Se a gente chama o Brasil do antibolsonarismo e do antilulismo como polarização, isso se dá através de que são dois mitos, duas coisas etéreas, duas coisas que se fazem por si mesmo. No Chile, essa polarização não se dá. Alguns setores da esquerda querem chamar o Kast de fascista, “é o fascismo que está voltando”. É um equívoco. Outros setores querem Boric, porque “o Boric vai ser um novo Allende”. É um outro equívoco, não é nada disso. Então, eu não chamaria de polarizada, é uma situação à chilena. Não tem dúvida, aqui no Brasil a gente tem isso. O que nós temos, na verdade, eu chamaria de uma maldição. É a maldição da polarização aqui no Brasil, e essa maldição começa com o “nós contra eles” desde o PT, o surgimento do PT, “vocês são todos iguais, nós somos a redenção, nós somos a salvação”. Depois, vêm os governos do PT e vem a corrupção. E daí emerge esse negócio dos outsiders, contra o sistema, contra o PT, contra a democracia, contra a política, contra tudo. Então, essa maldição está se configurando agora: Lula, Bolsonaro.

“Maldições” de Doria, Ciro e Moro – Os outros possíveis candidatos carregam outras maldições. Se você olhar, por exemplo, para o governador Doria, aqui de São Paulo, só um bolsonarista acredita que o Doria foi negativo. Só um bolsonarista de “a coisa da vacina, a coisa disso e coisa daquilo”. No entanto, o Doria monta uma equipe extraordinária do ponto de vista econômico, social, de inovação. Muitas vezes, as pessoas admitem isso. Mas, parece que o Doria carrega uma maldição que precisa ser explicada. O Ciro Gomes tem outra maldição: a maldição do passado. Parece que ele quer voltar aos tempos do Brizola, do Getúlio, que é aquela coisa de um nacionalismo entranhado, de um nacionalismo quase que visceral. Se você for falar no Moro, o Moro tem a maldição de que foi o juiz que condenou, que não sei o quê.

“Maldição” e “sina” da democracia brasileira – Então, você não discute muito a ideia do sujeito: “Ah, ele foi tal coisa”. Não se discute substantivamente. Então, essa polarização, eu acho que gerou essa maldição de nós não podermos abrir e dizer: “Olha, eu estou mais de acordo com isso, menos de acordo com aquilo e tal. Vamos conversar sobre isso, o que é que será do futuro?”. Então, é assim: quem é contra Lula é taxado de bolsonarista. Quem é contra o Bolsonaro, os bolsonaristas dizem que quer a volta da do roubo, da corrupção. Quer dizer, isso tudo é uma maldição para a democracia brasileira. E a gente vai ter que encontrar ali, talvez, na cultura do futebol, quem tira esse burro enterrado na trave para que a gente possa vencer o jogo. Superar essa maldição, parece que está sendo uma sina da democracia brasileira.

“Governar sem o Centrão é impossível” – Ganhar a eleição sem o Centrão é possível, porque o Centrão é, por natureza, inorgânico e, do ponto de vista eleitoral, muito dispersivo. Ele é muito localista, regionalista. Agora, governar sem o Centrão é impossível. Por quê? Porque o sistema brasileiro permite essa expressão da sociedade que são os políticos que vêm do Centrão. São políticos pragmáticos, não ideológicos, muito distantes da ideia de um programa de governo, muito fisiológicos, patrimonialistas. Quer dizer, todos os males da sociedade brasileira emergem e estão presentes no Centrão, mas não só no Centrão, até nos setores renovadores. Então, aí há uma combinação sinistra entre renovação e conservação.

Fernando Henrique e Lula: “conservação sem renovação” – Um cientista político e sociólogo aí do Rio de Janeiro, Luiz Werneck Vianna, já analisou muito bem essa situação brasileira, que é essa dinâmica entre renovação e conservação. É necessário introduzir um processo no qual a renovação supere a conservação, e isso vai ser através de um processo político longo. Não vai ser uma revolução, vai ser um processo político com muito vagar, muito gradativo. E os atores desta renovação precisam ter muita sabedoria para fazer isso. Em algum momento, por capacidade técnica, científica, e até política, o Fernando Henrique foi capaz de fazer isso. Em outros momentos, Lula foi capaz de fazer isso. Mas, nos dois nós percebemos foram poucos os momentos em que a renovação se sobrepôs à conservação, e não deixaram raízes substanciais na sociedade. Então, eu acho que esse processo é um processo muito difícil na sociedade brasileira. É a nossa sina. Eu não chamaria de maldição no sentido que eu usei, mas é uma sina.

Latifúndio e escravidão – Como disse também o Werneck Vianna, nós nos modernizamos mantendo o latifúndio. O latifúndio se modernizou. Não houve o espraiamento da reforma agrária no Brasil. Isso gerou consequências estruturais muito pesadas para a sociedade brasileira: de segregação, de desigualdade, de apartação das pessoas. E a outra questão é a questão da escravidão. O fim da escravidão foi um processo também sinistro, um processo que não ajudou a integração, a homogeneização da sociedade com a ideia republicana de que todos são iguais, todo mundo tem direitos. A abolição vem junto com a República, e a República carrega os males da escravidão por muito tempo. Então, esses dois pilares foram encontrando soluções diferenciadas. O latifúndio virou uma grande empresa agrária. A integração dos negros tem momentos significativos na nossa história, antes das cotas, tem momentos significativos que fizeram isso avançar. Nós temos que seguir nessa trilha, isso vai renovar a sociedade brasileira. Agora, a política precisa estar sensível a isso.

Lula no primeiro turno? Bolsonaro? – É difícil dizer isso agora. O Lula nunca ganhou no primeiro turno no auge da popularidade. Pode ser que ganhe agora? Eu tenho muitas dúvidas. Eu acho que não, acho que não ganha no primeiro turno. Imagina-se, pelas pesquisas e pela situação, que o Bolsonaro vai decair. É possível, mas ele é o presidente. Ele acaba de conseguir aprovar uma política pública muito favorável a ele, que é o Auxílio Brasil, e isso vai jogar politicamente para ele.

Terceira via? – Acho que o Moro é a novidade na conjuntura. É possível que ele agregue setores, ultrapasse essa situação e chegue a destronar Bolsonaro da segunda posição nas pesquisas, mas a campanha está começando lentamente. Nem mesmo o Lula disse que ele é candidato. E assim por diante. Mas, nós sabemos que essas coisas se se põem dessa maneira mesmo.

Brasil entre momentos plebiscitário e o de “quem eu quero para sair dessa maré?” – Do meu ponto de vista pessoal, a eleição tem um primeiro momento, que é um momento plebiscitário, de avaliação, de dizer “sim” ou “não” ao governo Bolsonaro. O outro momento é: “Quem é que eu quero no futuro para gente sair dessa dessa maré?”, como sempre lembra o Fernando Gabeira. Como sair dessa maré bolsonarista, desse negacionismo, desse governo muito ruim que foi o governo do Bolsonaro? Então, eu tenho a impressão de que, a partir dessa premissa, tudo está aberto, e nem mesmo a liderança nas pesquisas do Lula está garantida. Pode ser que apareça um candidato ou uma candidata, já que a Tebet também se lançou, que consiga gerar uma expectativa agregadora da sociedade, de maneira que, dependendo do resultado, a gente vai ver se nosso futuro é benfazejo ou não. É, no máximo, o que se pode dizer. Uma coisa é certa: nós temos que ultrapassar um governo que foi ruim. Eu acho que esse é o primeiro ponto. O segundo ponto, eu acho que está bem aberto. E eu acho que ninguém pode fazer esse jogo dessa maneira. Tem que, talvez, jogar que nem o Grêmio ontem (na quinta): começou e parecia arrasador. Mas, infelizmente, a coisa não deu (ganhou de 4 a 3 do campeão Atlético Mineiro, mas não evitou o rebaixamento à série B), porque jogou mal o campeonato inteiro.

Lula aqui e Lula lá – O Lula precisa conseguir convencer de que ele é capaz de responder positivamente para nós aqui, brasileiros. Porque ir para a Europa e fazer aqueles discursos que o europeu gosta de ouvir, especialmente a esquerda europeia, isso aí é muito fácil, muito tranquilo. Na hora em que ele foi para uma entrevista mais complicada, com as duas jornalistas (Pepa Bueno e Lucía Abellán) lá do “El Pais”, a coisa começou a ficar difícil. E é mais ou menos o que ele vai enfrentar na campanha. Ele não vai enfrentar aquele Parlamento que vai de pé e bate palma.

Exemplos da França e do Chile ao Brasil de 2022 – A prefeita de Paris (Anne Hidalgo) do Partido Socialista que homenageou o Lula, está na maior dificuldade para se tornar candidata a presidente. Ontem (quinta) mesmo, lançou um apelo a todos os candidatos de esquerda para formar uma frente única, porque senão não vai conseguir tirar a eleição presidencial francesa (em abril de 2022) da disputa entre Macron e a extrema-direita francesa. A política é muito complexa. No Chile, na época do Salvador Allende (presidente de esquerda deposto e morto no golpe militar de 1973), existia um grupo de extrema-direita chamado Patria y Libertad, que fez vários atentados contra o governo. O maior deles foi em junho de 1973: um levante de tanques, morreram mais de 60 pessoas em Santiago. Embora o golpe não tenha dado certo, antes do golpe final de setembro. Tinha um líder do Patria y Libertad que declarou apoio hoje (ontem), ao Gabriel Boric, candidato da esquerda chilena, contra o candidato da direita. Então, a política tem dessas coisas de mudanças profundas, onde as pessoas argumentam e defendem certos pontos de vista que o sistema democrático possibilita que aqueles que convençam a sociedade levem adiante. Quanto mais cultura democrática, pluralismo, audição, debate sincero, mais a democracia pode avançar. Espero que isso aconteça nesse processo eleitoral no Brasil de 2022.

 

Página 3 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Confira, nos três blocos abaixo, a íntegra em vídeo da entrevista do historiador Alberto Aggio ao Folha no Ar de ontem:

 

 

 

 

Pesquisas: Lula líder, Bolsonaro forte e Moro no páreo

 

Lula da Silva, Jair Bolsonaro e Sergio Moro (Montagem: Eçoabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Orlando Thomé Cordeiro, consultor em estratégia política

Como será o amanhã?

Por Orlando Thomé Cordeiro

 

“Como será amanhã?

Responda quem puder

O que irá me acontecer?

O meu destino será

Como Deus quiser”

 

Os versos acima são do samba enredo que a União da Ilha no carnaval de 1978. Sucesso no desfile e eternizado na interpretação de Simone. Toda vez que faço ou leio análises de cenários e tendências essa música me vem à mente.

Nesta semana foram divulgadas novas pesquisas de alguns institutos com dados sobre a avaliação do governo federal, do Congresso Nacional, do STF, além de intenção de votos para 2022.

A primeira informação é a manutenção do desgaste das instituições republicanas que representam os poderes Legislativo e Judiciário. Segundo o PoderData, 38% consideram ruim/péssimo o trabalho do STF enquanto 19% apontam como ótimo/bom. Na série histórica, iniciada em junho de 2020, verifica-se que a avaliação negativa sempre superou largamente a positiva.

No caso do Legislativo Federal, o mesmo instituto nos apresenta os seguintes resultados: o Senado com 45% de ruim/péssimo e 11% de ótimo/bom, e a Câmara com 46% de ruim/péssimo e 12% de ótimo/bom. Nos últimos seis meses apenas em uma ocasião a avaliação negativa ficou abaixo de 40% nas duas Casas.

Por outro lado, chama a atenção o percentual de apoio à participação de militares no governo. Para 41% é “bom para o Brasil” enquanto para 35% é “ruim para o Brasil”, representando uma virada em relação aos resultados apurados em agosto quando os percentuais foram, respectivamente, 32% e 52%.

A combinação dos resultados acima permite algumas reflexões, entre as quais percebermos que ainda é culturalmente muito forte na sociedade a perigosa ideia das FFAA como uma tábua de salvação.

Sobre a avaliação do governo Bolsonaro, além do PoderData, tivemos os resultados da Quaest e do Ideia Big Data. Todas elas apontam para uma reversão na trajetória de queda na aprovação que vinha sendo verificada nos últimos meses, mas não é possível afirmar que seja uma tendência definitiva já que a desaprovação segue alta, em percentuais iguais ou superiores a 50%, sendo que a diferença entre negativo e positivo varia de 26% a 32%.

Por fim, temos os dados relativos às eleições de 2022 indicando uma folgada liderança de Lula, seguido por Bolsonaro e com Sergio Moro se consolidando na terceira posição, a uma distância de 15% em média para o segundo colocado. Revelam também que Ciro e Doria, em que pese toda exposição, não têm conseguido chegar a dois dígitos. E os demais postulantes não ultrapassam 1% de intenção.

Com base nesses cenários, penso ser possível apontar algumas tendências. A primeira constatação relevante é que o Ideia Big Data, a exemplo do que havia sido detectado pelo Instituto Atlas na semana passada, mostra um descolamento entre a aprovação do governo (25%) e da figura do presidente (31%). Ou seja, a preço de hoje, Bolsonaro continua sendo um fortíssimo candidato para chegar ao segundo turno.

Já Lula tem aparecido com percentuais elevados a ponto de algumas análises apontarem para sua possível vitória sem necessidade de segundo turno. Acho essa hipótese improvável. Afinal, mesmo em 2002 e 2006, no auge de sua popularidade, não conseguiu maioria absoluta de votos no primeiro turno. Por outro lado, em todas as eleições desde 1989, à exceção de 1994 e 1998 quando FHC foi eleito no primeiro turno, o PT esteve presente. Assim, é possível afirmar que essa situação se repetirá no próximo ano.

Para muita gente, as cartas desse jogo já estão definidas com a disputa ficando restrita aos atuais dois primeiros colocados. Porém, há uma novidade representada pela entrada de Sergio Moro que, apoiado em uma largada muito forte, briga para ser uma cunha e se colocar como uma alternativa competitiva.

Alguns fatores jogam a favor do ex-juiz. O primeiro, paradoxalmente, é ser uma figura pela qual o mundo político institucional demonstra alta rejeição, pois isso pode ser o gatilho que atraia aquela parcela do eleitorado que se move pelo sentimento antissistema.

Outro dado é a recuperação no imaginário da população da bandeira de combate à corrupção, cujo auge foi durante a Lava Jato. Aliás, as recentes decisões do Judiciário, anulando condenações dela decorrentes, servem como combustível para isso.

Adicionalmente, o comportamento de Bolsonaro durante seu mandato, culminando com sua adesão inconteste ao Centrão, tem gerado uma sensação crescente de frustração entre boa parte dos eleitores que o apoiaram em 2018.

Por isso, ouso afirmar que, se nas pesquisas de março/abril, Moro aparecer com índices próximos de 20%, terá início uma migração a seu favor de parte significativa daquelas pessoas que vêm declarando voto tanto em Bolsonaro quanto em Lula simplesmente pelo desejo de evitar a vitória de um deles. Poderá ser uma onda irresistível que o leve ao segundo turno, mas somente mais adiante saberemos como será o amanhã.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Direita, esquerda e eleição presidencial no Folha no Ar desta 6ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta sexta (10), quem encerra a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o historiador Alberto Aggio, professor da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e especialista de História da América Latina. Ele tentará analisar o Brasil de Jair Bolsonaro (PL) em perspectiva histórica. Falará também do apoio a ditaduras por parte da esquerda brasileira e latino-americana.

Por fim, Aggio tentará projetar as eleições presidenciais do Chile, que tem seu segundo turno disputado em 19 de dezembro entre a centro-esquerda e a extrema-direita, a no Brasil em novembro de 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Mendonça no STF — Preconceito é problema de quem o alimenta

 

André Mendonça (Foto: Agência Brasil)

 

Elio Gaspari, jornalista e escritor

A intolerância persegue André Mendonça

Por Elio Gaspari

 

O advogado André Mendonça assumirá sua cadeira no Supremo Tribunal Federal depois de ter comido o pão que Asmodeu amassou. Ele é acompanhado pela pecha de suspeição que Jair Bolsonaro lhe atribuiu ao dizer que escolheria um ministro “terrivelmente evangélico”.

Mendonça é pastor de uma igreja, aceitou o rótulo e foi apoiado pela bancada evangélica, que se mobilizou em sua defesa. O doutor fez carreira no serviço público, foi um correto advogado-geral da União e um medíocre ministro da Justiça. Sua retórica é pedestre e áulica. Já chamou Jair Bolsonaro de “profeta” e foi buscar na frase do astronauta Neil Armstrong ao pisar na Lua a imagem de sua chegada à Corte: “É um passo para o homem e um salto para os evangélicos”. Menos, doutor.

Na caminhada para o Supremo, Mendonça alimentou um tempero teatral em torno da sua fé. Quando isso poderia lhe custar o voto de alguns senadores, passou pela sabatina com respostas de advogado.

Foi um exagero deixá-lo na geladeira por quatro meses. Currículo por currículo, o seu está na média das indicações para o tribunal. Exagero maior tem sido a desvalorização de um servidor por ser evangélico. Quem botou a fé nessa roda foi Bolsonaro. Mesmo assim, é má ideia acompanhar a lógica do capitão.

O Supremo Tribunal já teve bons e falsos católicos. Luiz Fux é judeu, e sua fé nunca se tornou critério para julgá-lo como profissional do Direito. As malfeitorias de alguns pastores tisnam o conjunto dos evangélicos. Felizmente, os malfeitos de alguns padres não produzem o mesmo efeito sobre o catolicismo. No fundo, o que há é intolerância.

Na Suprema Corte dos Estados Unidos, historicamente composta de protestantes, havia um discreto preconceito contra juízes católicos. Eles eram vistos como conservadores, até que brilhou a estrela do católico conservador Antonin Scalia. Ele era tudo isso e também brilhante. Maior foi o preconceito contra os judeus até metade do século passado.

Em 1916, o presidente Woodrow Wilson nomeou para a Suprema Corte o judeu Louis Brandeis. Ele era um ativista e foi um dos grandes juízes do tribunal. Seu colega James McReynolds, um americanão de vitrine da época, recusava-se a dirigir a palavra ao colega e a posar para uma fotografia da Corte porque ficaria a seu lado. Ele dizia que os judeus eram como as pulgas dos cachorros. Esses preconceitos nunca andam sozinhos. McReynolds deu as costas numa sessão em que falava um advogado negro. Solteirão, também se recusava a ouvir sustentações de mulheres. Passou o tempo, e ele é considerado um dos piores juízes que estiveram na Suprema Corte.

A teatralidade recente de André Mendonça alimenta o preconceito contra os evangélicos. Sem ela, seu colega Kassio Nunes Marques é tratado com mais tolerância, porque é um mestre do silêncio. Ganha um fim de semana às margens do Rio Jordão quem souber o que é um juiz “terrivelmente evangélico”. Seria um magistrado que reza pela cartilha conservadora? Nesse caso, seria alguém parecido com Scalia, que era católico. McReynolds pertencia à denominação protestante dos DiscípAndrulos de Cristo.

A fé de um juiz não quer dizer nada. O preconceito contra judeus, católicos e evangélicos, negros e mulheres é um problema de quem o alimenta.

 

Publicado hoje em O Globo.

 

“Marighella” em Campos conta o Brasil de ontem e hoje

 

Após um mês, o filme “Marighella” (2019), estreia na direção do grande ator Wagner Moura, continua em cartaz em Campos, com sessões às 14h20 no Cine Kinoplex, no Shopping Avenida 28. Concluído durante a pandemia da Covid-19, seu lançamento teve que ser adiado até a reabertura dos cinemas no país. Neste tempo, a cinebiografia do ex-deputado federal do Partido Comunista Brasileiro (PCB, hoje Cidadania) Carlos Marighella, transformado em líder da guerrilha urbana contra a nossa última ditadura militar (1964/1985), esteve cercada de polêmicas na bipolaridade política acéfala em que o Brasil chafurda desde as eleições presidenciais de 2014.

Carteira de filiação de Marighella ao PCB

Em vida, Marighella sofreu sua primeira prisão política em 1932, quando tinha apenas 21 anos e escreveu um poema com críticas a Juracy Magalhães, interventor na Bahia do Governo Provisório (1930/1934) de Getúlio Vargas no Brasil. Em 1934, se filiou o PCB ainda na Bahia, quando abandou o curso engenharia civil e se radicou no Rio de Janeiro, então capital da República. Em 1936, com Getúlio como presidente do Governo Constitucional (1934/1937), Marighella foi preso sem condenação e torturado pela Polícia Política de Filinto Müller. Solto em 1937, entrou na clandestinidade para ser preso e torturado novamente em 1939, com a ditadura de Getúlio já escancarada no Estado Novo (1937/1945).

 

Filinto Müller (à esquerda) e Getúlio Vargas comandaram a ditadura do Estado Novo, que prendeu e torturou Marighella, entre tantos outros opositores

 

Marighella só sairia da prisão em 1945, com o fim da II Guerra Mundial (1939/1945) e do Estado Novo, na redemocratização do Brasil. Eleito deputado federal constituinte pelo PCB da Bahia em 1946, cai de novo na clandestinidade em 1948, com a proscrição do seu partido e a perda do seu mandato popular. Entre 1953 e 1954, conhece a China comunista de Mao Tsé-Tung, a convite do Comitê Central do Partido Comunista daquele país. Em março de 1964, ajuda a escrever o discurso do marinheiro José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, durante a Revolta dos Marinheiros. Anselmo era agente infiltrado dos militares, que o usaram para darem dias depois o golpe civil-militar que instalou outra ditadura no Brasil.

 

Em maio de 1964, após ser baleado e entrar em luta corporal contra vários agentes do Dops, Marighella é levado à força de dentro de um cinema na Tijuca

 

Em 1965, Marighella vai às redações de jornais para mostrar a cicatriz do tiro que tomou no peito

Após o golpe, Marighella é preso em maio de 1964, mesmo sem ordem judicial, acusação ou condenação, dentro de um cinema no Rio. Desarmado, mas alto, forte, capoeirista e fisicamente corajoso, Marighella resiste à prisão em luta corporal contra vários agentes do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), mesmo após ser baleado no peito. É a partir deste fato, com sua libertação em 1965, sua expulsão do PCB em 1967, sua fundação do grupo guerrilheiro Aliança Libertadora Nacional (ALN) em 1968, até sua morte metralhado pelo Dops em 1969, novamente desarmado, dentro de um Fusca em São Paulo, que o filme conta os últimos cinco anos da sua vida.

 

A negra baiana Maria Rita do Nascimento, descendente de escravos malês, e o imigrante e operário italiano Augusto Marighella, pais de Carlos Marighella

 

O resultado nas telas não é o grande filme de ação que Wagner Moura, após a passagem por Hollywood como ator, prometeu em sua estreia como diretor. Mas é, sim, politicamente maniqueísta. O que fica patente desde a abertura, onde a origem do rico e controverso personagem nos escravos malês — negros africanos muçulmanos que se revoltaram na Bahia do início do séc. 19 — é lembrada. Mas a italiana do seu pai e do próprio nome Marighella é sonegada. Também baseados em fatos reais daquele conturbado período do Brasil, “Lamarca” (1994), de Sérgio Rezende, e “O que é isso, companheiro?” (1997), de Bruno Barreto, são filmes menos militantes e melhores.

 

“Lamarca” e “O que é isso, companheiro?” são filmes melhores sobre a luta armada contra a ditadura militar do Brasil do que “Marighella”

 

Após brilhar como o Mané Galinha de “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meirelles e Katia Lund, o músico Seu Jorge tem atuação opaca como Marighella. Cujo maniqueísmo forçoso do filme aparece em outras cenas, como na que Marighella e um dos frades dominicanos que o delatariam sob tortura, deliram que Jesus seria um negro, por ter se refugiado quando bebê com Maria e José no Egito, país da África Setentrional, sem ter sido percebido como diferente. Jesus era galileu, tão semita (moreno, não negro) quanto os egípcios eram e são até hoje. A África Negra é a Subsaariana. Wagner Moura e seu corroteirista Felipe Braga andaram faltando as aulas de Geografia.

 

Sérgio Paranhos Fleury, delegado do Dops, torturador sádico, assassino frio e, ao lado do seu antecessor Filinto Müller, um dos maiores canalhas da história da República

 

Sobre os freis dominicanos que delataram Marighella sob tortura, o filme “Batismo de sangue”

Assassino de Marighella, antes de também participar da perseguição ao capitão do Exército Carlos Lamarca no sertão da Bahia, quando a guerrilha contra a ditadura saiu da fase urbana para a rural, o delegado do Dops Sérgio Paranhos Fleury é rebatizado como “Lúcio”, em boa interpretação de Bruno Gagliasso, na cinebiografia da sua vítima. Já sobre o drama particular dos frades dominicanos que delataram Marighella, sob a tortura do Dops comandada por Fleury, também há outro filme brasileiro melhor que o de Wagner Moura: “Batismo de sangue” (2007), de Helvécio Ratton.

Marighella foi um personagem forjado no choque entres as democracias liberais comandadas pelos EUA e a ditadura comunista da extinta URSS, aliadas na II Guerra para decretar o fim das ditaduras europeias do nazifascismo que inspiraram o Estado Novo de Getúlio. E na Guerra Fria (1947/1991) viveu entre as contradições dos EUA, democracia que apoiou ditaduras militares na América Latina, e as da URSS, com o genocídio comunista contra seu próprio povo comandado por Josef Stálin, que seria revelado ao mundo em 1956 por seu sucessor, Nikita Krushev. Consta que Marighella chorou quando soube, mas não rompeu com o marxismo.

 

Guerra Fria quase esquentou na crise dos mísseis de Cuba em 1962, contornada pelo presidente dos EUA John Kennedy e o premier soviético Nikita Krushev

 

Para uma esquerda latino-americana anacrônica que ainda não se libertou do paradigma da revolução, e relativiza as ditaduras “companheiras” de Cuba, Venezuela e Nicarágua, três décadas após o fim da Guerra Fria, Marighella foi um herói. Como não foi nada além de um terrorista comunista, que se tenta nivelar a bandido reles, para a extrema-direita reacionária que hoje governa o Brasil.

 

 

Para quem, entre a esquerda e a direita, abraça o paradigma da democracia como valor universal, ou pelo menos ocidental, Marighella não foi um “guerreiro da liberdade”. Mas um dos tantos que morreu numa luta suicida contra uma ditadura no Brasil, para tentar instalar outra, de espectro político oposto. Ainda que seja difícil não simpatizar com a coragem do Quixote quedado no combate contra moinhos de vento, não há um documento de nenhum grupo guerrilheiro brasileiro dos anos 1960 e 1970 que indique nada diferente.

 

Desarmado, Marighella foi metralhado por agentes do Dops em um Fusca estacionado na alameda Casa Branca, em São Paulo, em 5 de novembro de 1969

 

Marighella foi um homem do seu tempo. E o marcou tanto que, mais de meio século após seu assassinato covarde, seu país ainda fala dele. Como o filme de Wagner Moura fala mais da visão do diretor/roteirista sobre o seu próprio tempo. Não por acaso, na única cena em que ele surge, ao final filme, só com sua voz como a do juiz que inocenta o Lúcio/Fleury, a câmera foca na placa onde se lê “Brasil: Justiça e Verdade”.

 

Seu Jorge, Wagner Moura e Bruno Gagliasso no Festival de Berlim (Foto: John MacDougall/AFP)

 

Sobre Marighella, o final do filme de Moura é uma clara referência a favor de Lula, liberto após 580 dias preso por corrupção pela Lava Jato, para hoje liderar todas as pesquisas presidenciais às urnas de 2022. Se esse outro filme terá final feliz, só o tempo dirá. O do deputado e guerrilheiro comunista, para ficar tanto tempo em cartaz no cinema de uma cidade conservadora como Campos, está dando lucro.

 

Entre Lula e Moro, Bolsonaro abre Brasil a não vacinados

 

 

 

Bolsonaro mente e xinga

Enquanto Campos, o país e o mundo vivem a apreensão pela nova cepa da Covid, Bolsonaro continua firme como o líder da Terra mais negacionista em relação à pandemia. Ontem, como faz desde a sua eleição a presidente, ele mentiu mais uma vez. Em sua típica linguagem chula, disse a um grupo de empresários: “Estamos trabalhando agora com a Anvisa, que quer fechar o espaço aéreo. De novo, porra?”. Na verdade, na última quarta (1º), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) só recomendou que o Brasil adote medidas mais rígidas no acesso de viajantes estrangeiros ao país.

 

Passaporte vacinal descartado

Presidida pelo médico e contra-almirante da Marinha Antonio Barra Torres, um dos poucos militares que desenvolve um bom trabalho técnico no governo, a Anvisa quer instituir o passaporte vacinal. A intenção é evitar que o país se torne um paraíso do turismo internacional dos negacionistas da vacina. O que já está acontecendo e aumenta as chances de o Brasil receber mais rápido novas cepas da Covid desenvolvidas em todo o mundo. Também ontem, em outro evento com empresários, Bolsonaro indagou: “Por que o passaporte vacinal? Por que essa coleira que querem colocar no povo brasileiro?”.

 

Moro/Lula

Em segundo lugar em todas as pesquisas presidenciais de 2022, Bolsonaro ontem também atacou o terceiro colocado, seu ex-ministro da Justiça Sergio Moro (Podemos). A quem chamou de “idiota”. Preocupado com o rápido crescimento de intenções de voto do ex-juiz sobre seu eleitorado, o capitão parece disposto a dobrar a aposta na radicalização. Visa cristalizar a segunda posição na disputa, mesmo que isso custe um novo agravamento da pandemia no país, como acontece na Europa. Moro ignorou o ex-chefe e preferiu polarizar com o líder isolado das pesquisas, o ex-presidente Lula (PT).

 

Lula/Moro

Por conta da idade, Lula ontem teve a prescrição do processo do tríplex do Guarujá, pelo qual foi condenado preso por 580 dias, pedida pelo Ministério Público Federal (MPF). Os advogados alfinetaram os algozes do cliente: “deve pôr fim a caso que foi construído artificialmente a partir do conluio do ex-juiz Sergio Moro e do ex-procurador Deltan Dallagnol para prender o ex-presidente Lula, retirá-lo das eleições de 2018 e atacar indevidamente sua reputação”. Moro creditou a prescrição a “manobras jurídicas”. E pregou: “Crimes de corrupção deveriam ser imprescritíveis”.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Campos investiga Ômicron em 5 novos internos de Covid

 

Frederico Paes, Rodrigo Carneiro, Charbell Kury, Wladimir Garotinho e Campos com 5 novos casos de Covid (Arte e montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Campos: 5 novos internos de Covid

Após chegar a zerar seus leitos clínicos para pacientes de Covid-19, Campos hoje tem cinco pacientes internados pela doença. Todos estão no Hospital São José. São três mulheres, duas com as duas doses de AstraZeneca e outra com duas doses do Coronavac; e dois homens, um com uma dose de Pfizer e outro ainda sem nenhuma dose — como o presidente Jair Bolsonaro (PL). Os dados foram repassados ontem (07) pelo vice-prefeito Frederico Paes (MDB), que atua na Saúde Pública com a experiência pregressa de dirigente hospitalar.

 

Teste para Ômicron em Macaé

Por conta da preocupação com a nova variante sul-africana Ômicron, o médico infectologista Rodrigo Carneiro, diretor da Atenção Básica em Saúde de Campos, informou que os cinco novos casos tiveram amostras enviadas ao Laboratório da UFRJ em Macaé, para sequenciamento genético e identificação da cepa do vírus. A previsão dos resultados é de 20 a 30 dias úteis. Além dos novos casos em leitos clínicos, todos moderados e registrados a partir do último dia 30, Campos tem três outros doentes internados anteriores com Covid, no Hospital Álvaro Alvim.

 

Sem Réveillon, com verão

No último dia 19, em entrevista ao Folha no Ar, o vice-prefeito Frederico havia anunciado que Campos tinha zerado seus leitos clínicos para pacientes de Covid. No dia 30, quando surgiram os dois primeiros dos cinco novo casos, o prefeito Wladimir Garotinho (PSD) anunciou o cancelamento da festa oficial de Réveillon, mesmo com o município ainda na Fase Branca, por conta da preocupação com a Ômicron. Já na última segunda (06), em reunião antecipada do Gabinete de Crise, Wladimir disse que o verão no Farol será mantido com eventos esportivos e culturais locais.

 

“Campos precisa atingir 80%”

Como um dos novos cinco doentes de Covid internado em leito clínico, há cerca de 35 mil campistas que ainda não tomaram a primeira dose da vacina. Subsecretário de Atenção Básica em Saúde, o médico infectologista Charbell Kury lembrou na reunião do Gabinete de Crise: “Campos precisa atingir 80% da população vacinada com as duas doses e ainda estamos indo para 70%”. Ele fez um apelo à população: “Não se pautem pelo negacionismo. Estamos também pensando nas pessoas que têm medo de agulha e vamos até essas pessoas em suas casas”.

 

Liberdade sem caos

O responsável pela condução da campanha de vacinação em Campos foi endossado pelo prefeito: “Nossas decisões são pautadas pela ciência. Fomos a primeira cidade a anunciar que não vamos promover festa de Réveillon. Estamos preocupados e em alerta com a nova variante, muito transmissível, mas que não tem se mostrado letal. No entanto, vamos ficar atentos quanto ao verão com evento local, com a parte esportiva e cultural. A liberdade que queremos não pode ser confundida com caos e desespero que vivemos há bem pouco tempo”.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Campos tem 5 novos doentes de Covid em leitos clínicos

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Após zerar seus leitos clínicos para pacientes de Covid-19, Campos hoje tem cinco pacientes internados pela doença. Todos estão no Hospital São José. São três mulheres, duas com as duas doses de AstraZeneca e outra com duas doses do Coronavac;  e dois homens, um com uma dose de Pfizer e outro ainda sem nenhuma dose. A informação foi repassada pelo vice-prefeito Frederico Paes (MDB), que atua na Saúde Pública com a experiência de dirigente hospitalar.

Por conta da preocupação com a nova variante Ômicron, o médico infectologista Rodrigo Carneiro, diretor da Atenção Básica em Saúde de Campos, informou que os cinco novos casos, moderados e registrados a partir do último dia 30, tiveram amostras enviadas ao Laboratório da UFRJ em Macaé, para sequenciamento genético do vírus. A previsão dos resultados é de 20 a 30 dias úteis. Além dos novos casos em leitos clínicos, Campos tem três outros doentes internados anteriores com Covid, no Hospital Álvaro Alvim.

No último dia 19, em entrevista ao Folha no Ar, o vice-prefeito Frederico havia anunciado que Campos tinha zerado seus leitos clínicos para pacientes de Covid. E no dia 30, quando surgiram os dois primeiros dos cinco novo casos, o prefeito Wladimir Garotinho (PSD) anunciou o cancelamento das festas oficiais de Réveillon no município, por conta da preocupação com a variante sul-africana Ômicron.

 

Editado às 13h34 para correção de informações.

 

A 10 meses da urna, a fotografia do filme a presidente

 

Lula da Silva, Jair Bolsonaro, Sergio Moro e Ciro Gomes (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Daqui a menos de 10 meses, o que se pode esperar das urnas presidenciais de 2 de outubro de 2022? A partir da divulgação mensal de pesquisas de vários institutos, as entrevistas que o Grupo Folha tem promovido com uma série de personagens nacionais sobre o pleito tem ajudado a constatar algumas tendências e antecipar outras. Até as convenções partidárias entre 20 de julho e 5 de agosto, quando serão definidas as chapas e seus arcos de aliança, tudo será formalmente especulação.

Desde que Lula (PT) entrou oficialmente no jogo em 8 de março, com a decisão do ministro Edson Fachin de anular as condenações do ex-presidente, depois ratificada pelo plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), ele chegou chegando na segunda posição. Na pesquisa Atlas feita entre os dias 8, da decisão de Fachin, e 10 de março, o líder petista já aparecia com 27,4% das intenções de voto. Largou atrás do presidente Jair Bolsonaro (hoje, PL), com 32,7%.

A condução criminosa da pandemia pelo governo federal seria revelada em detalhes pela CPI da Covid no Senado Federal, entre 27 de abril e 26 de outubro. Na sua condução desastrosa da economia, evidenciada por qualquer brasileiro a cada compra de supermercado, a inflação bateu em setembro os dois dígitos no acumulado dos últimos 12 meses. O que não acontecia desde 2016, na esteira da catástrofe econômica do governo Dilma Rousseff (PT).

Emblematicamente, setembro foi o mês em cujo sétimo dia, como numa missa fúnebre travestida de verde e amarelo, Bolsonaro tentou dar um golpe de estado. Que também demonstrou absoluta incompetência para consumar. Dois dias depois, com o rabo entre as pernas, pediu socorro às pressas ao ex-presidente Michel Temer (MDB). E suplicou em áudio aos caminhoneiros que o apoiavam para liberarem as estradas. E, na piada de si mesmo, foi incialmente tratado como fake news por seus apoiadores nelas amestrados.

 

 

Desde a redemocratização do país, Lula foi oposição aos governos José Sarney (MDB), Fernando Collor de Mello (hoje, Pros), Itamar Franco (MDB, quando presidente), Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Temer. E, até a autofagia voraz de Bolsonaro, o petista nunca precisou fazer tão pouco para ganhar tanto. Pela mesma série de pesquisas Atlas, o ex-presidente passou o atual nas intenções de votos desde julho: 39,1% a 35,9%. Liderança cada vez mais isolada em todas as consultas de todos dos demais institutos.

Lula não só deixou Bolsonaro para trás. Tudo até aqui indica que também feriu de morte a outra pré-candidatura relevante da esquerda: do ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT). Ambos, Bolsonaro e Ciro, ainda seriam duramente golpeados com a chegada de outro adversário à disputa: o ex-juiz federal Sergio Moro. Antes mesmo de se filiar ao Podemos no último dia 10, a referência da Lava Jato assumiu do pedetista a terceira posição nas pesquisas. E o fez avançando sobre o eleitorado do capitão, a quem serviu como ministro da Justiça.

Pelo menos neste último mês, Moro se mostrou uma opção de terceira via eleitoralmente mais viável que Ciro. E mais capaz de tirar votos de Bolsonaro, inclusive em altas patentes das Forças Armadas, do que o cearense em meses de críticas duras conseguiu tirar de Lula. Na pesquisa Atlas mais recente, divulgada na última terça (30), o presidenciável do Podemos apareceu pela primeira vez isolado na terceira colocação, com 13,7%. Foi mais que o dobro dos 6,1% de Ciro. Mas ainda bem atrás de Lula, com 42,8%; e Bolsonaro, com 31,5%.

Camila Mattoso, jornalista da Folha de S. Paulo

Na quinta (02), a jornalista Camila Mattoso, da Folha de S. Paulo, noticiou que presidentes de alguns dos principais partidos já avaliam que Moro pode ultrapassar Bolsonaro nas pesquisas dos próximos meses. “Para essas lideranças, a troca de posições já tem prazo para acontecer: Moro estará à frente de Bolsonaro antes de fevereiro de 2022. Eles dizem, em caráter reservado, que têm ouvido ponderações de parlamentares bolsonaristas em relação ao que fazer caso o cenário se confirme, ou seja, se pulam do barco ou seguem com o presidente até o fim. Bolsonaro tem dado sinais claros de que se vê afetado pelo crescimento de Moro. Nesta quinta, o presidente o chamou de palhaço e sem caráter”, registrou a repórter a reação do mandatário chamado de “Bozo” por seus detratores.

Fernando Gabeira, jornalista da Globo News

Antes mesmo de Moro entrar no jogo, o jornalista Fernando Gabeira, da Globo News, deu o caminho das pedras no Folha no Ar de 8 de outubro: “Tenho a impressão de que Bolsonaro pode não ir ao segundo turno, porque as crises se sucedem no governo federal. Existe uma possibilidade de o Bolsonaro perder energia nesse processo, progressivamente. Responsável que ele é pela condução do país e incapaz como ele é de dar solução a esses problemas todos que nós estamos vendo, é possível que um outro candidato possa ameaçá-lo. E, ameaçando, possa derrotá-lo, indo para o segundo turno. E, uma vez indo ao segundo turno o Lula contra um candidato que não seja o Bolsonaro, pode acontecer alguma coisa também”.

Pedro Doria, jornalista e colunista da CBN, O Globo e Folha de S. Paulo

Na manhã de ontem (03), foi a vez de outro grande jornalista brasileiro falar à Folha FM 98,3. Colunista da CBN, O Globo e Estadão, Pedro Doria observou já com o ex-juiz federal no jogo: “Se você parar para pensar o que o eleitor queria em 2018, ele votou no Bolsonaro pensando no Moro. A maior parte dos eleitores brasileiros não é de extrema-direita. O que uma imensa parcela dos eleitores votou quando escolheu o nome do Bolsonaro, viu no Bolsonaro o reflexo da Lava Jato. E uma repulsa ao PT, aquilo que a gente chama de antipetismo. É por isso que votaram no Bolsonaro. O Bolsonaro não entregou nada disso. O Moro entrega isso, o Moro é da Lava Jato. Então, se por um acaso o eleitor ainda estiver naquele clima de 2018, eu acho que a candidatura do ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro tem um potencial imenso de crescer”.

Como consta na entrevista reproduzida nas páginas 2 e 3 desta edição, em resumo da concedida ao Folha no Ar de ontem, Doria (o Pedro, não o João) também ressalvou corretamente: “Bolsonaro é favorito para estar no segundo turno. Existe espaço para um outro candidato de direita ou centro-direita ocupar o lugar dele e crescer em cima dele. Num segundo turno contra Bolsonaro, acho muito difícil que o ex-presidente Lula perca. No segundo turno contra outro candidato, acho que qualquer coisa pode acontecer, inclusive a derrota do Lula. Agora, pode ser que em março do ano que vem eu tenha outra opinião. Isso é um filme, não é uma fotografia”.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Foto de Lula no 2º turno, à espera de Bolsonaro ou Moro

 

Com Arnaldo Neto, Cláudio Nogueira e Matheus Berriel

 

“Lula está no segundo turno”. Baseado em todas as pesquisas presidenciais, foi o que o jornalista e escritor Pedro Doria, colunista da CBN, O Globo e Estadão, afirmou na manhã de ontem em entrevista ao programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3. Ele, no entanto, apresentou uma dúvida sobre o adversário final do petista: “Eu acho que é possível que o Bolsonaro não esteja no segundo turno”. Considerado um dos maiores especialistas digitais da imprensa brasileira, apresentou suas razões para isso. Além de considerar o governo brasileiro “um desastre completo”, a vigilância contra as fake news não só pelo Tribunal Superior Eleitoral, como pelas próprias empresas de tecnologia dos EUA, conscientes do que aconteceu no Brasil em 2018. E dispostas a não permitir que o uso massificado da mentira nas redes sociais se repita nas eleições do país em 2022.

Além do regramento virtual, Doria também acredita que o crescimento real de Sergio Moro nas pesquisas possa tirar o capitão do segundo turno com Lula: “Se você parar para pensar o que o eleitor queria em 2018, ele votou no Bolsonaro pensando no Moro. A maior parte dos eleitores brasileiros não é de extrema-direita. O que uma imensa parcela dos eleitores votou quando escolheu o nome do Bolsonaro, viu no Bolsonaro o reflexo da Lava Jato. E uma repulsa ao PT, aquilo que a gente chama de antipetismo. É por isso que votaram no Bolsonaro. O Bolsonaro não entregou nada disso. O Moro entrega isso, o Moro é da Lava Jato. Então, se por um acaso o eleitor ainda estiver naquele clima de 2018, eu acho que a candidatura do ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro tem um potencial imenso de crescer”. Ainda assim, ressalvou: “Bolsonaro é favorito para estar no segundo turno”. Ele também avaliou a eleição a governador do estado do Rio, entre as questões financeira e de Segurança Pública.

 

Pedro Doria (Foto: Divulgação)

 

Supremo x Congresso no Orçamento Secreto – O Supremo tem a missão de garantir que a Constituição seja obedecida. O Congresso não pode distribuir dinheiro em segredo. Não pode um deputado decidir que quer que um determinado dinheiro seja encaminhado através do orçamento público para um determinado fim, numa determinada região, e ele não aparecer, ele não assinar um documento, ele não explicar porque aquele dinheiro está indo para aquilo. E é isso o que se instaurou no Brasil. No fim das contas, esse foi o truque que o Palácio do Planalto está usando para cooptar mais de metade da Câmara dos Deputados e mais de metade do Senado Federal. Em essência, você aloca uma quantidade grande de dinheiro, aparentemente são R$ 30 bilhões. Pouco mais de metade desse dinheiro já foi alocado, já foi distribuído, ainda faltam pouco mais de R$ 10 bilhões para serem distribuídos. E nós até conseguimos descobrir para onde esse dinheiro vai, o que a gente não consegue descobrir é quem pediu para que esse dinheiro vá para determinadas regiões.

Orçamento entre deputados e prefeitos – O Orçamento nacional não tem dinheiro para todo mundo. Então, uns vão conseguir, outros não. Como é que você consegue esse dinheiro se você é um município do interior, se você é Campos? Você consegue esse dinheiro através dos dois, três deputados federais que têm uma ligação com a cidade. E que tipo de campanha um deputado federal faz para conseguir se reeleger? Ele chega ali no palanque na praça da cidade, principalmente nas bem pequenas do interior, e faz um discurso dizendo: “Olha, quem trouxe essas três ambulâncias que salvaram o seu fulano, a dona Beltrana, fui eu”. Se o orçamento público fosse como é na maior parte das democracias, descentralizado, ou seja, estados e municípios arrecadam o grosso, e a administração federal arrecada apenas aquilo que é necessário para a administração federal direta, você não teria esse desvio de função dos deputados federais. Só que não é assim. Então, hoje, o trabalho principal de um deputado federal é trazer dinheiro para a sua região, porque é assim que ele consegue mostrar para o prefeito o seu valor; é assim que o é assim que ele consegue convencer o prefeito a ajudá-lo na sua campanha, porque, afinal de contas, as campanhas eleitorais de prefeitos e deputados não são intercaladas. Deputado se elege dois anos depois de o prefeito se eleger, e nesse jogo você cria uma massa de deputados, em que a gente conhece 20 deputados federais, e são 513. A maioria deles, 300, 400 desses deputados, tem como única preocupação conseguir trazer dinheiro para os seus municípios, para garantir a sua reeleição.

Sistema do dinheiro pelo voto – A gente fala desse jogo: “Ah! Isso é corrupção!”. Isso é corrupção no sentido de que você está distorcendo a função de um deputado. Mas, não é necessariamente corrupção no sentido de que você está desviando dinheiro público para enriquecer ilicitamente. Na maior parte das vezes, não. Esse dinheiro vai, de fato, para comprar ambulância, para asfaltar rua, para iluminar praça. Agora, tem outra distorção que é trazida por isso. No fim das contas, o governo precisa de votos para evitar o impeachment, para aprovar as medidas provisórias e tudo mais para governar. Precisa de maioria no Parlamento. Então, você acaba distribuindo o dinheiro do orçamento para os deputados que estão dispostos a trocar aquele dinheiro pelo voto. O dinheiro não vai para os lugares que de fato precisam. O dinheiro vai para os lugares que elegem parlamentares que estão dispostos a trocar o seu voto por dinheiro. As regras do jogo fazem com que o jogo seja jogado assim. A gente sempre fica fazendo esse discurso de “Ah, os deputados isso… Ah, é um bando de ladrão, é um bando de corrupto. Ah, o Bolsonaro, o Lula, o Fernando Henrique, a Dilma, o Temer”, tudo mais, e a gente nunca olha para onde nasce o problema. E o problema nasce de como nós jogamos o jogo da democracia. É o próprio sistema no qual se baseia a democracia brasileira que está quebrado.

Eleição a governador do RJ – Vamos pensar na última eleição para governador do estado do Rio. Eu tenho uma relação bastante próxima com os sócios do Ibope. Houve um determinado momento na eleição, faltava menos de duas semanas para o primeiro turno, e uma das pessoas do Ibope me mandou uma mensagem, um zap, que era o seguinte: “Pode não ser nada, mas presta atenção nesse Wilson Witzel (PSC), que ele está começando a subir rápido, menos de duas semanas antes do primeiro turno”. Eu tenho a expectativa de que outra surpresa dessa possa acontecer na eleição do Rio de Janeiro? Não, não tenho. Aquilo ali, ninguém usava WhatsApp, com exceção da família Bolsonaro, e nas últimas duas semanas o Flávio Bolsonaro (hoje, PL), filho 01, começou a fazer uma campanha pesada via WhatsApp em favor do Witzel. Isso virou uma quantidade imensa de votos. Agora, a gente tem que levar em consideração que, para lançar mão daquele clichê, essa eleição tem tudo para virar uma caixinha de surpresas. Pode pintar alguém aparecendo por fora que surpreenda.

Economia e Segurança – Estou terrivelmente preocupado, porque nenhum dos candidatos postos tem um perfil de uma larga experiência em gestão de caixa, e um dos grandes problemas que o Rio tem é essa gestão financeira. Você precisa botar esse estado de pé de novo, porque ele está muito quebrado. E, simultaneamente, a gente vai ter que ter uma conversa sobre Segurança Pública. É uma conversa muito complexa, que parte de você ter que reinventar a Polícia. Essa é uma conversa que a gente tem dificuldade de ter. Mas, depois da experiência das UPPs, que se tentou fazer em algumas áreas do estado que eram por completo dominadas pelo tráfico de drogas, onde você tentou botar ali estruturas de Polícia Militar que tinham policiais que eram novos na corporação e, portanto, não faziam parte já de grupos de corrupção, aquilo durou três anos e, de repente, o troço foi contaminado. Como é que você resolve a Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro? A gente tem que reconhecer o fato de que a gente mal fala de tráfico de drogas hoje. Por quê? Porque as milícias são uma ameaça maior do que o tráfico de drogas, e as milícias são compostas por policiais ou ex-policiais. A gente corrompeu de tal forma essa estrutura que tem que recomeçar do zero.

Nomes a governador – Nesse sentido (da Segurança Pública), nomes como o do Raul Jungmann (Cidadania, ex-ministro da Defesa) e o do (Marcelo) Freixo (PSB, deputado federal) fazem algum sentido, porque eles de fato entendem muito de Segurança pública. Eu tenho um certo medo de que as pessoas achem que general entende de Segurança Pública, porque não entende. Agora, quando você pega um Freixo, por exemplo, ele tem zero experiência administrativa. Ele tem uma larga experiência como parlamentar. A gente vai entregar um estado que precisa de um CEO que consiga dar um jeito nessa gestão para alguém que nunca fez isso? Eu não estou dizendo que o Freixo fracassaria, só estou dizendo que a gente tem todos os motivos para ter profundas dúvidas a respeito. O Cláudio Castro (PL) é um cara que foi eleito junto com Witzel, eu não olho com nenhum tipo de simpatia para a gestão que ele está fazendo. O estado continua tão ferrado quanto. Enfim, fundamentalmente, eu acho que está cedo para a gente ter uma ideia de qual vai ser o cenário aqui no Rio de Janeiro.

Eleições presidenciais de 1989 e 2018 – A eleição de 2022 não vai ser como a eleição de 2018. A eleição de 2018, de certa forma, lembra muito a eleição de 1989, quando o ex-presidente Fernando Collor (hoje, Pros) foi eleito presidente. Por quê? Aquela foi a primeira eleição (presidencial), desde quando o Jânio Quadros foi eleito em 1960, com toda uma lógica de marketing de televisão que foi desenvolvida nos Estados Unidos a partir de 1968, com a primeira eleição do (Richard) Nixon, e que depois chegou à Europa Ocidental ao longo dos anos 1970: a eleição da Margaret Thatcher no Reino Unido, do François Mitterrand (na França). Era toda uma lógica de marketing de televisão que já estava desenvolvida e a gente, no Brasil, não teve, porque estava vivendo uma ditadura (1964/1985). Quando teve a eleição de 1989, surpreendentemente, o Collor montou uma estrutura profissional de campanha usando todo conhecimento que havia sido desenvolvido nas democracias que se mantiveram democráticas nos 20, 25 anos anteriores. Ele trouxe para a eleição brasileira. Nenhuma outra candidatura fez isso. Então, o Collor surfou sozinho aquela eleição, com técnicas modernas de campanha. Por que que ninguém mais fez isso? Por conta de alienação, de ignorância. Na eleição de 2018, foi exatamente a mesma coisa. A equipe do Bolsonaro trouxe técnicas que eram técnicas que se você entrasse nos fóruns certos da internet, você não tinha que pagar nenhuma fortuna para isso. Você lia de graça, como fazia aquele tipo de manipulação. O Bolsonaro tinha aquilo e ninguém mais tinha. E ele pegou de surpresa todo mundo.

“Campanha 100% baseada na mentira” – Eu não quero forçar demais a comparação entre Bolsonaro e Collor, porque seria desonesto. Bem ou mal, as técnicas de marketing que o Collor aplicou são legais, são legítimas, foram na frente de todo mundo. As técnicas que o Bolsonaro aplicou partem do princípio de que você tem que jogar parte da sociedade dentro de uma realidade paralela, você tem que fazer uma campanha 100% baseada em mentira. É por isso que eu falo sempre de uma realidade paralela. Você inventa um mundo à parte, em que existe uma ameaça comunista no país e tudo mais. Um mundo no qual “a Covid é só uma gripezinha, vamos trabalhar, o Brasil não pode parar”. Há um combate contínuo à realidade.

Dificuldades às fake news em 2022 – Agora, em 2022, todo mundo conhece essas técnicas (de Bolsonaro). Em 2022, você tem um Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que está atento. Você tem, já formada no TSE, uma jurisprudência que permite cassar a chapa de quem estiver fazendo uma campanha de desinformação pesada. Essa jurisprudência foi formada este ano, entendeu? Então, será que outros candidatos vão fazer campanhas de desinformação? A gente não tem como ter muita noção do tamanho das redes de WhatsApp que as outras candidaturas montaram. A gente vai vê-las mais ativas ou não a partir do período eleitoral iniciado. O WhatsApp também mudou a sua arquitetura. Em 2018, você podia encaminhar mensagens para 400 grupos de 256 pessoas ao mesmo tempo. Hoje, você tem um limite de número de grupos ou pessoas para os quais você pode encaminhar uma mensagem. Você tem limites mais rígidos do tamanho de grupos. Você tem uma estrutura interna dentro do Facebook que é dono do WhatsApp e fica vigiando contas com sistema de inteligência artificial que estão enviando massas de mensagens. Quer dizer, tudo aquilo que o Bolsonaro conseguiu fazer livremente em 2018, ele vai ter muito mais dificuldade de fazer em 2022.

Bolsonaro fora do segundo turno? – Eu não tenho certeza que o Bolsonaro vai estar no segundo turno. Eu acho que é possível que o Bolsonaro não esteja no segundo turno. Então, é muito difícil prever como que as redes vão operar em 2022. Quando a gente está falando não dos serviços de mensageria, mas quando a gente está falando das redes sociais, de Twitter, Facebook, TikTok, etc, existe a possibilidade, inclusive, perante abuso, dessas redes virem a banir candidatos, banir grupos formados por candidatos. Certamente vão banir. Todo mundo está muito atento e todo mundo entende. Essas grandes empresas do Vale do Silício entendem que se novamente um presidente se eleger mentindo será ruim para elas. Primeiro, se Bolsonaro se reelege, a democracia brasileira está sob perigo real. Se ele for reeleito mentindo deslavadamente em cima dessas redes, essas empresas, os altos executivos na Califórnia compreendem que elas serão responsabilizadas pelo fim da democracia brasileira. Então, 2022 não será como 2018. E 2022 vai ser uma eleição nova, não vai ser como nenhuma outra eleição. Vamos ver. Agora, se prepara para uma eleição sangrenta. Vai ser uma eleição violentíssima, profundamente agressiva entre os candidatos e entre suas militâncias. Virtualmente, com certeza. Eu temo que também fisicamente.

Pêndulo voltou à esquerda no Brasil? – A gente sabe onde o brasileiro estava em 2018. Democracias são pendulares, elas são construídas para serem pendulares. Um determinado partido fica um tempo no governo, ao fim desse processo está desgastado, as ideias novas que tinha e que dariam certo já deram certo, já foram postas em prática. Depois de alguns mandatos, um, dois, três mandatos, esses partidos, quando estão no governo, começam a calcificar, não têm ideias novas. As pessoas estão naquele hábito de defender o governo das críticas, causa uma certa exaustão e a população elege a oposição, que fica dois ou três ciclos eleitorais no governo, e aí começa a calcificar, começa a não ter ideias novas. E acontece uma troca. Por conta disso, as democracias tendem a ser pendulares. Você vai da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, e vai girando. O Brasil elegeu, de 2002 a 2014, a esquerda. Em 2018, elegeu a direita. Eu não tenho a impressão de que o brasileiro tenha já voltado para a esquerda. Eu acho que a gente ainda está num momento favorável à direita.

 

Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

“Nada ajuda Bolsonaro” – Bolsonaro é um desastre completo. E já não estou mais falando das tendências autoritárias e ditatoriais dele. Eu estou falando da inépcia completa como governante. É muito incompetente. Ele não fez absolutamente nada. E se você pensa que ele trazia como promessas, declaradas ou não, de que combateria a corrupção; de que garantiria escolas conservadoras, que não discutem sexualidade com crianças, etc; e que ele traria para o Brasil Segurança Pública. De certa forma, implicitamente, essas eram as três promessas na campanha Jair Bolsonaro, e ele não entregou nada disso. Ele não entregou as escolas conservadoras, ainda bem. O governo não tem que se meter em como que escola funciona. Não entregou maior Segurança Pública, a gente continua tão ruim quanto ou pior. E ele está aí sendo candidato por um partido do Centrão, governando com o Centrão, movendo moinhos para proteger os filhos corruptos. Então, Bolsonaro não entregou nenhuma das promessas. E você ainda tem a Covid, você ainda tem a inflação, quer dizer, nada ajuda Jair Bolsonaro.

Moro coloca terceira via no jogo – O Atlas Inteligência, que é uma das nossas novas instituições de pesquisa, publicou uma pesquisa no início dessa semana em que, pela primeira vez, registrou a provação como ótimo e bom do Bolsonaro abaixo de 20% (19%). Ele está em declínio. A mesma pesquisa Atlas, alguns dias depois, pôs Sergio Moro (Podemos) com algo parecido com 13% (13,7%) dos votos. Se você parar para pensar o que o eleitor queria em 2018, ele votou no Bolsonaro pensando no Moro. A maior parte dos eleitores brasileiros não é de extrema-direita. O que uma imensa parcela dos eleitores votou quando escolheu o nome do Bolsonaro, viu no Bolsonaro o reflexo da Lava Jato. E uma repulsa ao Partido dos Trabalhadores, aquilo que a gente chama de antipetismo. É por isso que votaram no Bolsonaro. O Bolsonaro não entregou nada disso. O Moro entrega isso, o Moro é da Lava Jato. Então, se por um acaso o eleitor ainda estiver naquele clima de 2018, eu acho que a candidatura do ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro tem um potencial imenso de crescer. Até duas, três semanas atrás, a gente falava: “Ah, essa terceira via não decola, essa terceira via não isso, essa terceira via não aquilo”. A gente não pode mais dizer isso, porque há movimento real e detectado por todas as pesquisas. Sergio Moro entrou no jogo e Sergio Moro cresceu. Em várias pesquisas, com mais de 10 pontos. Então, já temos claro que o eleitor de direita está em busca de um candidato.

Dificuldades para Ciro – Quando a gente pensa em segundo turno, isso vale para o Brasil, isso vale para a Argentina, para o Chile, para o Uruguai, todas as democracias que estabeleceram os segundos turnos, vem o seguinte fenômeno: você tem um candidato que representa os eleitores de direita e um candidato que representa os eleitores de esquerda. Então, essa é uma corrida dificílima para o Ciro Gomes (PDT), porque ele é um candidato que representa eleitores de esquerda. Ele tem um programa de governo claro, que é um baita de um mérito para o candidato, todos os candidatos deviam ter isso. Ciro é um cara que fala claramente o que que ele vai fazer se ele for eleito presidente da República, tem seguidores extremamente leais e fiéis. O problema é que eles juntam 10% dos eleitores, se tanto. E o Lula é o líder indiscutível da esquerda brasileira. Então, é muito difícil tirar o Lula. Não é impossível tirar Jair Bolsonaro do segundo turno. Para o Ciro, eu não consigo enxergar o cenário com dois candidatos de esquerda no segundo turno, não consigo enxergar um cenário sem o Lula no segundo turno, não consigo enxergar o Ciro no segundo turno.

Moro de 2022 e Marina de 2014 – Agora, o Moro está começando a crescer. Isso quer dizer que o eleitor está começando a prestar atenção na eleição. Isso quer dizer que o eleitor está começando a fazer experiências. A Marina Silva (hoje, Rede), em 2014, ela começou a crescer. Isso quer dizer que os eleitores que não queriam votar no PT não gostavam necessariamente do Aécio Neves (PSDB) como candidato. Então, quando você declara o voto num candidato, no Sergio Moro em 2022, ou na Marina em 2014, o que você está fazendo, na verdade, é: “Achei simpática aquela pessoa”. Aí você começa a prestar atenção naquele candidato, você olha com mais atenção para as pesquisas, para as entrevistas que dá, faz umas buscas no YouTube, faz umas buscas no Google. Aí, nesse momento que se começa a prestar atenção, o Moro está seguindo a cartilha: está dando entrevista em tudo quanto é lugar, está falando onde pode. E é isso mesmo que tem que fazer. Nesse momento, esse voto é consolidado ou não? Se o voto no Moro for consolidado, a gente vai ver que ele não vai perder eleitores, ele vai começar a ganhar eleitores. E quem perderá eleitores, provavelmente, será Bolsonaro. Se o voto do Moro não se consolidar, e ele está com 13% na última pesquisa Atlas, se ele começa a perder votos, isso quer dizer que aquele eleitor que quer um presidente de direita, mas que não quer o Bolsonaro, porque senão ele já estaria com o atual presidente, vai experimentar outros nomes. Rodrigo Pacheco (PSD), João Doria (PSDB), não sei. Mas, ele vai experimentar outros nomes. A gente tem a possibilidade ali de ver outros nomes dessa terceira via começando a crescer. Às vezes é difícil, ao longo dos meses, ver esse movimento, porque, se o Moro continua ali com 13 pontos. Foi isso o que aconteceu com a Marina Silva em 2014, continuava ali bem perto de chegar ao segundo turno e parecia que ela estava sólida, mas, na verdade tinha muita gente que ia, achava mais ou menos e saía. Então, há um fluxo de eleitores entrando e saindo, e ela se manteve ali nos 17%, 18%. Pode ser que o Moro fique ali nesses 13% durante alguns meses, e a gente ache que ele está sólido, mas na verdade tem muita gente entrando e muita gente saindo. Pode ser que o Moro comece a crescer. Se ele começar a crescer, é sinal de que ele está consolidando eleitores, novos estão vindo e ficando. É uma dinâmica interessante de a gente assistir.

“Lula está no segundo turno”. Contra quem? Qual o resultado? – É difícil a gente prever, mas o chute que eu daria hoje é: Lula está no segundo turno, e não existe espaço para um (outro) candidato de esquerda crescer. Bolsonaro é favorito para estar no segundo turno. Existe espaço para um outro candidato de direita ou centro-direita ocupar o lugar dele e crescer em cima dele. Num segundo turno contra Bolsonaro, eu acho muito difícil que o ex-presidente Lula perca. No segundo turno contra outro candidato, acho que qualquer coisa pode acontecer, inclusive uma derrota do Lula. Agora, pode ser que em março do ano que vem eu tenha outra opinião. Isso é um filme, não é uma fotografia. Não dá para a gente antecipar resultado de eleição antes de acontecer.

Segundo turno presidencial do Chile entre centro-esquerda e extrema-direita – Acho pouco provável que o cenário chileno interfira de alguma forma na eleição brasileira. No Chile, o candidato da centro-esquerda (Gabriel Boric) é favorito. Os chilenos puseram no segundo turno (que será disputado em 19 de dezembro) um candidato de extrema-direita (José Antonio Kast) contra um candidato de centro-esquerda. Isso me cheira a eleição francesa que levou a Marine Le Pen contra o Emmanuel Macron, e o Macron ganhou. O Macron não era um candidato de centro-esquerda, ele era um candidato de centro, mas a Le Pen era de extrema-direita. E o Boric não tem o desgaste que o PT tinha no Brasil. Eu não acho que o Bolsonaro teria ganho contra um candidato em 2018 que não fosse que fosse de outro partido que não o PT. Mas, de qualquer jeito, eu não acho que o Chile interfira na eleição brasileira.

Auxílio Brasil pode recuperar popularidade de Bolsonaro? – O Auxílio Brasil pode interferir, sim, mas a gente tem que levar em consideração alguns aspectos. Primeiro, a expectativa da população. A população chegou a receber um Auxílio Emergencial de R$ 600 para a maioria das pessoas. Isso bate: “Ah, o governo pode pagar R$ 600”. Isso não é exatamente verdade, mas o que bate é isso. O Auxílio Brasil vai ser de R$ 400, é mais do que o Bolsa Família, mas é menos do que aqueles R$ 600. A gente não sabe quantas pessoas, em que circunstâncias, vão receber esse auxílio, porque ele está muito mal desenhado. Lembra como foi uma atrapalhação só a distribuição do Auxílio Emergencial quando ele surgiu? Aplicativo da Caixa que dava errado, as pessoas não tinham celular para seguir o aplicativo, justamente pessoas que mais precisavam do dinheiro não tinham celular; e os caras, como se tivessem em Marte, decidiram que o troço ia ser distribuído via app. Esse é um governo muito incompetente: eles desmontaram a estrutura do Bolsa Família, que era uma estrutura desenhada pelo Ricardo Henriques e pelo Ricardo Paes de Barros, que era de uma beleza. Um dos grandes méritos do programa do governo Lula foi o desenho desse programa de auxílio que é o Bolsa Família, enquanto esse Auxílio Brasil joga fora todo o Cadastro Único (CadÚnico), que é a base da distribuição do Bolsa Família, e desmonta a estrutura governo, técnica, que o distribuía. Então, a gente tem que levar em consideração a possibilidade de que a implantação desse Auxílio Brasil seja uma grande confusão. E tem um último aspecto, que é o seguinte: inflação. A inflação está alta (acima dos 10% no acumulado dos 12 últimos meses), é possível que a gente chegue em junho e, para o brasileiro que recebe o Auxílio Brasil, aquele valor faça pouca diferença em relação ao que ele recebia do Bolsa Família, porque o Real terá perdido o valor. Então, eu tenho dúvidas de que o Auxílio Brasil vá representar um roubo de eleitores tradicionalmente lulistas para o Bolsonaro. Porque é isso que o Auxílio pode fazer: tirar eleitores do Lula e dar para o Bolsonaro.

O cacife popular de Lula – A memória que essas pessoas (que receberão o Auxílio Brasil) tem do Lula é uma memória de lealdade, é o que o Lula representa para essas pessoas: “O Lula é um de nós, o Lula é o retirante nordestino que passou fome, que teve uma vida profundamente difícil, que que teve uma educação formal ineficiente. Ele parou no meio do fundamental”. O tipo de ligação, de conexão que o Lula tem com esse eleitor do interior do Nordeste é muito mais profundo do que apenas o Bolsa Família. E o Bolsa Família nunca foi um programa fisiológico. Ele até se presta ao fisiologismo, mas ele nunca foi um programa fisiológico. Ele foi um programa que é elogiado por Nações Unidas, foi montado por economistas liberais, entende. Ele é um programa que Milton Friedman (economista), que é o ícone do liberalismo, aprovaria. Isso não é verdade a respeito do programa Auxílio Brasil. É um programa puramente fisiológico, puramente criado para tentar tirar de Lula votos e trazer para Bolsonaro. Eu não acho que isso sejam favas contadas. Porém, não quer dizer que não possa funcionar, não quer dizer que não possa dar votos o suficiente ao Bolsonaro para garanti-lo no segundo turno. Pode acontecer, eu só não acho que isso seja uma certeza. As condições do governo Bolsonaro e as condições do Brasil não estão a favor do presidente.

Diante da derrota, Bolsonaro pode tentar o Senado ou a Câmara, para manter o foro privilegiado? – A grande dificuldade de o Bolsonaro ser candidato ao Senado ou à Câmara, eu acho que seria ao Senado, é que ele tem que se desincompatibilizar da presidência da República, ele tem que deixar o Planalto em março. Ou seja, em abril ele é um cidadão comum. Em abril, qualquer procurador do Brasil pode abrir um processo contra ele, e isso vai, dependendo do juiz de primeira instância, ter uma condenação rápida. Basta querer. O Bolsonaro é conhecido pelas suas insônias, a presidência da República pesa nos ombros dele. E essa é uma decisão difícil. Eu tenho certeza de que passa pela cabeça dele essa ideia, mas é uma decisão muito difícil. Eu acho que ele se elegeria para o Senado no estado do Rio de Janeiro ou na maior parte dos estados do Brasil. Acho que, se começa a dar, até março, pesquisa com ele próximo de sair do segundo turno, acho que esse é um cenário bastante concreto. Mas não é uma decisão fácil, por conta desse hiato no qual ele estaria sem foro privilegiado.

Possível chapa Lula/Alckmin – Lula e Alckmin é uma chapa brilhante é uma chapa brilhante, porque, primeiro, representa uma aliança que deveria ter ocorrido no Brasil da Nova República. Fazia sentido PT e PSDB. O PSDB não é um partido de direita, o PSDB não nasceu como partido de direita, o PSDB nasceu como um partido de centro-esquerda, nasceu como um partido socialdemocrata que, como boa parte da sua socialdemocracia europeia e americana nos anos 1990, se tornou social-liberal. Então, o PSDB fez o movimento que o Partido Democrata nos EUA fez, a socialdemocracia alemã fez, que o Partido Trabalhista inglês fez. Mas é a centro-esquerda. O PT é um partido que, ao longo dos anos 1990, vai se desradicalizando, até o momento da Carta aos Brasileiros (em 2002, quando assumiu o respeito à economia de mercado e permitiu a Lula se eleger presidente a primeira vez). Uma chapa PT/PSDB, em que os dois partidos ficassem se alternando, um dá o presidente numa eleição, o outro dá o presidente na outra, teria permitido que o Brasil criasse partidos não fisiológicos de direita. Porque um partido de direita ia aparecer para concorrer contra essa chapa. Só que, como PT e PSDB nunca se uniram e sempre brigaram entre si, sempre foram obrigados a fazer alianças com partidos fisiológicos de direita. Lula foi eleito com o vice do PL (o falecido empresário José Alencar), que é o partido no qual o Bolsonaro está entrando agora, assim como o PSDB (com Fernando Henrique presidente) trazia sempre um vice do PFL (o ex-senador Marco Maciel), o atual DEM, atual União Brasil. É uma chapa brilhante, porque vai tirar de pessoas centristas, mesmo que ligeiramente inclinadas à direita, muitos preconceitos em relação ao Lula. Por outro lado, não tira do Lula nenhum voto na esquerda. Então, nesse sentido, se o objetivo da construção de uma chapa é ampliar essa chapa, é uma chapa brilhante.

Os caminhos e o cacife de Alckmin – O Alckmin tem dois caminhos. Ele pode se filiar ao PSB, ao Partido Socialista Brasileiro, e assim ser candidato a vice do Lula, ou ele pode se filiar ao PSD, ao Partido Social Democrático, do Gilberto Kassab, e ser candidato ao governo do estado de São Paulo Geraldo. Alckmin é um cara que o interior de São Paulo adora, porque ele foi um bom governador, foi um governador muito competente. E as gestões de São Paulo costumam ser gestões competentes, ao contrário das gestões aqui do Rio de Janeiro. O João Doria, que é inimigo fidagal do Alckmin, quer botar o Rodrigo Garcia, que é o seu vice, como candidato ao governo do estado, agora que está claro que o João Doria vai ser candidato à presidência da República. O Alckmin consegue tirar o PSDB do governo do estado se ele for candidato a governador. Agora, a principal fortaleza do Alckmin, é o eleitor do interior de São Paulo, que é um eleitor conservador. Eu conheço bem o interior de São Paulo.  Morei em São Paulo, na capital, e minha mulher é de Bauru. O eleitor do interior de São Paulo é muito diferente do eleitor paulistano. O eleitor do interior de São Paulo é conservador. O eleitor paulistano elege, de vez em quando, prefeito do PT. São Paulo não elege governador do PT. O Alckmin está numa dança que é uma dança muito delicada. Se ele é candidato a vice-presidente do Lula, ele provavelmente vai morar no Palácio do Jaburu, ele provavelmente vai ser vice-presidente da República, porque ganha muita força a chapa do Lula. Agora, ele não pode ficar parecendo que quer ser vice-presidente do Lula por meses a fio. Essa decisão tem que ser tomada rápido, porque se o Lula fica mantendo ele em banho maria durante muito tempo, o eleitor do interior de São Paulo vai começar a olhar para o Alckmin: “Pô, esse cara não é o cara que eu conhecia. Esse cara quer o PT, está puxando o saco do Lula, como é que esse negócio funciona?”. Isso começa a criar desgaste para o Alckmin a governador de São Paulo. Então, essa decisão tem que ser tomada com uma certa rapidez. O Alckmin está correndo um risco. Faz todo sentido ele querer ser vice-presidente do Lula. Mas, isso tem que ser decidido rápido, porque senão ele perde, ele põe em risco a oportunidade, que é o plano B, de ser governador de São Paulo.

 

Página 3 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Confira abaixo, em três blocos, a íntegra em vídeo da entrevista com o jornalista Pedro Doria. O conteúdo da reprodução em jornal e blog estão no segundo e terceiro blocos:

 

 

 

 

Ceciliano leva Fundo Soberano ao Noroeste Fluminense

 

Presidente da Alerj, deputado André Ceciliano hoje em Itaperuna (Foto: Divulgação)

 

Investimentos em infraestrutura para resolver os crônicos problemas de energia elétrica e das enchentes dos rios Muriaé e Pomba que castigam a região Noroeste Fluminense, além da melhoria de rodovias e estradas vicinais, são algumas das prioridades apontadas no debate sobre o Fundo Soberano, que reuniu prefeitos, vereadores, lideranças empresariais e demais representantes da sociedade civil, realizado nesta sexta-feira (03/12), no Teatro Sesi-Firjan de Itaperuna. O presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), deputado André Ceciliano (PT), destacou a importância de ouvir as demandas regionais para direcionar investimentos em projetos estruturantes que possam alavancar o desenvolvimento econômico e social numa das regiões menos populosas do estado.

Ceciliano também anunciou o compromisso com o projeto de construção de um gasoduto para levar gás natural de Macaé para o Noroeste Fluminense não só para uso veicular (GNV), mas industrial. Ele recebeu do engenheiro de petróleo Fernando Perlingeiro, diretor do Colégio Centenário, de Santo Antônio de Pádua, um projeto com esse objetivo. O apoio ao turismo rural, ao agronegócio e à agroindústria — que hoje é forte com a produção de leite, tomate e cafés especiais — é outra das prioridades apresentadas.

O presidente da Alerj falou, ainda, sobre a competição perversa com São Paulo na oferta de benefícios fiscais: “A questão do ICMS não tem sido fácil. Foi assim com o Riolog, com o metal mecânico, mas estamos enfrentando. Na semana passada, resolvemos a questão do leite, da cachaça e da água. O ICMS sobre a produção de medicamentos também está em discussão, e temos debatido a questão do café. Existe um convênio com outros estados que é muito ruim para o RJ”.

Segundo informações da Fazenda estadual, em 2020 o setor cafeeiro arrecadou menos de R$ 2 milhões e este ano já passou de R$ 4 milhões. Em todo o país, o movimento do setor é estimado em R$ 3,5 bilhões. “Saímos daqui com muitas sugestões e muita vontade de agilizar a solução dos problemas”, disse Ceciliano ao listar reuniões já articuladas entre representantes da região e de órgãos estaduais e concessionárias. “Saímos daqui com um dever de casa grande”, acrescentou o parlamentar, que foi homenageado pela Câmara Municipal de Itaperuna com uma Moção de Aplausos.

Mauro Osório, diretor-presidente da Assessoria Fiscal da Alerj, destacou a necessidade de ter um diagnóstico completo dos gargalos e potencialidades da região. “Preparei um relatório de 11 páginas, mas não sabia que energia era um gargalo fundamental. A manutenção de estradas vicinais e a formação educacional de trabalhadores e empresários também são grandes demandas”, comentou. “Temos que sair da divisão da indústria, comércio e serviços. Educação e saúde podem comprar da agroindústria. Hoje, o Brasil importa R$ 20 bilhões em equipamentos que poderia fazer aqui. Diferentemente de outros países, aqui o Fundo Soberano não é só poupança, é para investimentos. Desde os anos 70, o Rio é a economia que menos cresce no Brasil. Vamos integrar esse estado e tocar a bola para a frente”, completou.

Além da necessidade de construção de um canal extravasor, para resolver de vez o problema das enchentes e alagamentos, outro grande desafio é o tráfego pesado dentro das cidades, reflexo do crescimento do Porto do Açu. “São milhares de carretas que passam por Itaperuna. Óbvio que trouxe melhorias econômicas, mas é preciso infraestrutura”, disse o prefeito Alfredão, de Itaperuna.Anfitrião do evento, juntamente com o presidente da Firjan Regional, José Hoffmann, Alfredão ressaltou a relevância do evento: “Nós estamos vendo aqui um relacionamento forte e coeso. O presidente vai sair daqui com uma pauta firme e vamos resolver o problema da energia no Noroeste. Itaperuna tem energia boa, mas os vizinhos não. Também é preciso haver interação entre os consórcios. Os prefeitos do Noroeste estão juntos por uma melhoria e quero agradecer ao presidente da Alerj que veio até nós escutar nossas reivindicações”, acrescentou.

Nelson Rocha, coordenador do Sebrae Regional do Noroeste, disse que em parceria com o Ministério do Abastecimento e Pesca (Mapa), já foi apresentado um projeto de indicação geográfica junto ao Inpi para registro do café do Noroeste, que vem sendo trabalhado desde 2004. Ele falou que a região é carente de estradas vicinais e energia e se colocou à disposição das prefeituras para novos projetos.

Marcelo Hauaji de Sá, diretor da Água Mineral L’aqua, propôs uma parceria com universidades e institutos federais presentes na região para levar mais pesquisa e desenvolvimento às indústrias da região. Ele também destacou o forte potencial turístico da região, lembrando que o distrito de Raposo, em Itaperuna, concentra a única estância hidromineral do estado, com 15 hotéis, confecções, quatro indústrias de água mineral, e cinco mil moradores.

 

O Fundo Soberano

O Fundo Soberano foi criado pela Emenda Constitucional 86/21, de autoria original do deputado Ceciliano, teve sua regulamentação aprovada na última quarta-feira (01/12) pela Alerj. O fundo é uma espécie de reserva financeira com excedentes dos royalties e participações especiais do petróleo e do gás natural. A estimativa é de que ele já inicie com R$ 2,4 bilhões em caixa.Esses recursos serão destinados a financiar projetos estruturantes para a economia fluminense. Discutir onde os investimentos devem ser implementados é o principal objetivo da série de encontros que a Alerj vem promovendo, desde outubro, em todas as regiões do estado. Os debates anteriores sobre o fundo aconteceram em Itaguaí, Campos e Volta Redonda.

 

Da assessoria da Alerj.

 

Rais: Campos perdeu 1.517 empregos formais em 2020

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

A divulgação dos resultados consolidados do mercado de trabalho de 2020, pelo ministério do Trabalho e Previdência, por meio da Rais (Relação Anual de Informações Sociais), aponta que, no difícil ano da pandemia da Covid-19, com fechamento temporário de atividades econômicas e severas restrições à circulação social, Campos perdeu 1.517 empregos formais, tanto no setor público quanto na iniciativa privada. Com isso, o mercado de trabalho formal do município reduziu-se de 85.614 trabalhadores, em 31 de dezembro de 2019, para 84.097, em 31 e dezembro de 2020.

Na iniciativa privada, o município detinha 68.822 empregos com carteira assinada no final de 2019, passando para 68.322 no encerramento de 2020, uma perda de apenas 500 contratos de trabalho. A livre iniciativa, entretanto, mostrou-se mais resiliente que o setor público, no que diz respeito à manutenção do emprego. Entre os estatutários, o estoque de empregos no município diminuiu de 16.792 para 15.775 vínculos, uma perda de 1.071 contratos. É muito importante destacar que os números consideram apenas os empregos gerados no município de Campos e que nem todas as vagas geradas em Campos são ocupadas por campistas, já que há campistas que trabalham em outros municípios e residentes de outros municípios que trabalham em Campos.

Numa comparação de tempo mais longitudinal, contudo, os resultados são piores: Campos perdeu 14.683 empregos formais entre 2015 e 2020, saindo de 98.780 contratos para 84.097, considerando os setores público e privado. Neste caso, as maiores perdas foram registradas entre contratos com carteira assinada: foram 12.000 empregos perdidos, contra somente 2.763 vínculos estatutários. O número de empresas gerando empregos formais também diminuiu. Campos possuía, em 2015, 14.864 estabelecimentos empresariais, com 8.985 firmas assinando carteira. Em 2020, o município encerrou o ano com 14.025 empresas abertas, das quais apenas 7.982 gerando empregos.

No que diz respeito à distribuição setorial, os resultados demonstram que, mesmo considerando apenas o setor privado, Campos apresenta uma economia baseada em serviços. O ano de 2020 encerrou com o setor gerando 49.295 empregos, dos quais 33.520 na iniciativa privada e 15.775 na administração pública. O comércio, por sua vez, encerrou 2020 com 22.971 contratos formais. Na sequência, a indústria, gerou 6.985; a construção civil, 3.035,  e a agropecuária, 1.811 vagas com assinatura em carteira.

Quanto ao perfil demográfico do emprego formal campista, a maioria dos postos de trabalho gerados em 2020 foram ocupados por homens (53,01%, ou 44.583 vagas) brancos (49,34%, ou 41.497 vagas), de 30 a 39 anos (29,39%, ou 24.712 vagas) e com ensino médio completo (51,53%, ou 43.333 vagas).

William Passos, geógrafo e consultor em estatística e desenvolvimento regional

Os resultados foram divulgados na última terça (30) pelo ministério do Trabalho e Previdência. A tabulação e análise em primeira mão para o Grupo Folha foi realizada pelo geógrafo e consultor em estatística e desenvolvimento regional William Passos, que também integra a Rede Observatórios do Trabalho, do Observatório Nacional do Mercado de Trabalho do Ministério do Trabalho e Previdência, em conjunto com o corpo técnico do ministério, pesquisadores do Dieese, Ipea e IBGE e professores de importantes universidades brasileiras.