Por Aluysio Abreu Barbosa, Cláudio Nogueira e Matheus Berriel
Pré-candidato a governador que vem até aqui liderando as pesquisas, a pouco mais de um ano das urnas de 2022, o deputado federal Marcelo Freixo deixou recentemente o Psol para ingressar no PSB. No que analistas consideram uma tentativa de contornar a rejeição que o fez perder o segundo turno da eleição a prefeito do Rio, em 2016, para Marcelo Crivella (Republicanos). A ida ao novo partido foi articulada com outros nomes de expressão nacional, como o bem avaliado governador do Maranhão, Flávio Dino, que foi do PCdoB para o PSB, na tentativa de formar um leque mais amplo de aliança. Nela, Freixo não descarta nem o PDT, que tem como pré-candidato a governador o ex-prefeito de Niterói Rodrigo Neves.
Muito crítico à gestão estadual Cláudio Castro (PL), a quem deu nota 0, ele considera que a pré-candidatura do governador está atrelada ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Falou do diálogo que pretende abrir com municípios da região, como Macaé e Campos. E foi mais generoso na avaliação do governo Wladimir Garotinho (PSD), com quem tinha programado almoçar ontem (27), em sua visita à cidade, junto do também deputado federal Alessandro Molon (PSB) e do prefeito de Maricá, Fabiano Horta (PT). Um dia antes, na quinta (26), em entrevista ao programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, Freixo deu nota 7 aos oito primeiro meses de gestão do prefeito campista.
Marcelo Freixo (Foto: Antonio Leudo/Folha da Manhã)
Marcelo Freixo – Eu daria nota 7 ao Wladimir. Vou ouvi-lo bastante sobre as suas dificuldades e sei que são grandes. O Rio passou por uma situação muito grave de decadência da economia do petróleo. Começa a se recuperar a partir de 2018, mas chegamos a uma situação de crise muito profunda. A região Norte Fluminense inteira é muito dependente dessa economia, então você tem ainda as consequências dessa crise. E, queira ou não, é um início de governo ainda na pandemia. Tem gente falando em pós-pandemia, mas a pandemia não passou. Então, é evidente que, por essas dificuldades de um reerguimento econômico ainda no início e uma situação de saúde, de crise sanitária, muito profunda, eu dou nota 7, porque é uma nota com que você passa, mas, evidentemente, ainda tem muita coisa a fazer. Não tenho dúvida de que ele acha isso também. Mas, eu vou ouvi-lo.
Folha – Por que saiu do Psol ao PSB? Em Campos, o Psol teve uma das revelações da eleição para prefeito de 2020: a Natália Soares, professora universitária como o senhor e o Molon, ficou em quinto lugar na eleição, quase ultrapassou o então prefeito Rafael Diniz (Cidadania). O senhor espera ter apoio dela e do Psol na sua pré-candidatura a governador?
Freixo – Sem dúvida alguma. O desempenho da Natália foi extraordinário. Eu conversei bastante com ela, a apoiei. E a minha saída do Psol foi muito conversada, muito amadurecida. Sou muito grato por tudo o que eu vivi no Psol. Foram muitos anos. Ajudei a construir ali um espaço que elegeu muita gente boa, muita gente importante. Elegeu Marielle, elegeu uma bancada de sete vereadores no Rio de Janeiro, vereadores em outros municípios, elegeu uma bancada de cinco deputados estaduais, quatro deputados estaduais. Então, tenho muito orgulho do que fiz ali. Mas, na vida, os desafios vão sendo colocados, e a gente não deve ter medo da mudança. A minha ida para o PSB foi muito amadurecida, muito conversada, e, para nós superarmos a dificuldade que a gente está enfrentando hoje, o preço da gasolina, o preço do arroz, preço do feijão, dificuldade para pagar um aluguel, o desemprego, fome; nós voltamos a ter fome! Eu moro no Flamengo, não há um viaduto no Aterro do Flamengo que não tenha famílias inteiras morando embaixo. É muito triste o que a gente está vivendo hoje no Brasil, pertinho da gente, no alcance dos nossos olhos. A gente tem que encarar esse desafio. E, nesse sentido, a gente precisa disputar o governo do Rio de Janeiro. O Rio tem que ser refeito, tem que sair das mãos de uma máfia. O crime governando o Rio de Janeiro é o que a gente está assistindo hoje. Quem governa o Rio é o crime. E enfrentar isso não pode ser sozinho. Tenho certeza que a minha ida para o PSB corresponde a isso: à possibilidade da construção de uma frente que tenha bastante gente, que tenha, inclusive, o Psol. Tenho certeza que vão estar juntos com a gente nessa frente. Fiz esse movimento junto com o governador do Maranhão, Flávio Dino, quem aliás, é o melhor governador em relação ao combate à pandemia. Lá é o lugar com os melhores resultados. Então, eu e o Flávio Dino (PSB) amadurecemos muito essa decisão. O Flávio Dino saiu do PCdoB, eu saí do Psol, para a construção de uma frente que mude o destino do Brasil, que tire o Brasil do fanatismo, dessa seita que hoje governa o Brasil. E, no Rio de Janeiro, que enfrente a máfia que levou o Rio ao fundo do poço. Agora, até acordo com traficante eles fazem. Eu sempre denunciei acordo com milícia, mas, realmente, eles se superaram, estão fazendo acordo com o tráfico. A minha ida ao PSB é com muito respeito ao Psol, contando com o Psol nesse leque de aliança.
Folha – De 0 a 10, qual sua nota ao governo Cláudio Castro? E por quê?
Freixo – Nota 0. Eu não posso dar um décimo. E olha que fui um professor generoso na minha vida. Já dei muita aula para alunos de Campos quem iam fazer pré-vestibular em Niterói ou no Rio de Janeiro. Sempre fui um professor muito amigo dos alunos. Mas, o Cláudio Castro, como aluno da política, é 0, porque não pode ter um governo que faça acordo com milícia e acordo com o tráfico. O que aconteceu com o (ex-)secretário de Administração Penitenciária (Raphael Montenegro), a pessoa que é responsável pelas prisões, sair do Rio de Janeiro, pegar um avião, ir para outro estado, visitar líderes do Comando Vermelho para fazer acordo. Não sou eu que estou dizendo, isso foi reportagem do “Fantástico”. As gravações foram mostradas. O secretário dizendo para o líder de uma facção que ele é a pessoa mais importante do Rio de Janeiro, mais importante que o secretário de Segurança. Em que mundo vivemos? O que é isso? Eu não posso dar um décimo para uma coisa dessa? Em 2008, eu fui presidente da CPI que investigou as milícias e levou à prisão mais de 200 milicianos. Ali, eu coloquei a minha vida em risco, com muita consciência do que estava fazendo. E não me arrependo, faria novamente. Aquela CPI que virou filme, o “Tropa de Elite 2” (2010, de José Padilha). Tem que ter um governador que tenha comando, que tenha moral. Não pode ser um governador que não consegue explicar o que está dentro da mochila, não pode ser um governador que faz acordo com tráfico, com milícia. Tem que ser um governador que tenha moral para ter um plano de segurança que envolva o Governo Federal, envolva a sociedade. E que discuta um destino. O Rio precisa de segurança e desenvolvimento, e uma coisa está atrelada à outra.
Freixo – Se forem compromissos que a economia local, a sociedade e os prefeitos considerem prioridades, ótimo. Quando se fala de posto do Detran, eu sempre fico preocupado. Acho ótimo que tenha um posto do Detran em Guarus. Precisa saber se ele vai entregar o posto do Detran para algum aliado político, como eles fazem sempre, o que, aliás, gerou a prisão de muitos aliados do Cláudio Castro. A investigação Furna da Onça, na Alerj, era justamente isso. Está certo em atender a demanda de prefeito e da economia local. Mas, por exemplo, me estranha ele não falar sobre a Ferrovia Centro-Atlântica. São 650 quilômetros de ferrovia, houve uma concessão para o Governo Federal, o investimento não foi feito. O Rio tem que ser indenizado, inclusive. Há uma indenização pelo não investimento. O governo Bolsonaro está anunciando que o valor dessa indenização vai ser usado para construir o metrô de Belo Horizonte. Tem um trecho dela, inclusive, que passa por Campos, Vitória. Por que esse dinheiro não vem para o Rio de Janeiro? É um dinheiro que tinha que ser investido aqui. Aí você vai ter que enfrentar o Governo Federal. E me parece que o governo Cláudio Castro não consegue muito ter coragem para falar um pouco mais alto com o Governo Federal na hora de defender o Rio de Janeiro, é muito submisso ao governo Bolsonaro.
Folha – Perguntado sobre os compromissos do Cláudio Castro, o Molon disse que não poderia ficar contra, mas que resta saber se vão ser cumpridos. Mas ele, que também é pre-candidato ao Senado, também falou que quando chegar o momento do PSB fazerem as propostas, Campos e o Norte Fluminense poderiam se surpreender. O que o senhor e Molon pensam para o município e a região?
Freixo – Primeiro, é uma região estratégica, muito importante pela economia do petróleo e pela necessidade de superar a dependência da economia do petróleo. A primeira coisa que eu acho que um governador tem que fazer é chamar o prefeito de Maricá, que, aliás, vai me acompanhar nessa visita a Campos. O Fabiano Horta é um extraordinário prefeito, morador de Maricá não paga passagem de ônibus, tem um hospital público e uma rede de educação de grande qualidade. Isso é com dinheiro público, com política pública. Uma moeda local que aqueceu a economia, o Mumbuca, que eles criaram em Maricá. Quero chamar o prefeito de Maricá, chamar o prefeito de Macaé e o prefeito de Campos e criar um grupo de trabalho em cima das questões dos royalties, para atingir com investimento toda uma região. As estradas estaduais que ligam os municípios da região estão abandonadas há muito tempo. Com investimento nessas estradas, você atinge mais de 900 mil pessoas. Você tem, hoje, uma quantidade enorme de caminhões, por causa da BR 101, que cruzam por dentro de Campos todos os dias, provocando um inferno na cidade. Quando você fala que vai chamar três prefeitos e dizer que o Governo do Estado quer, junto com eles, dar um destino para os royalties que atinja a uma quantidade enorme de municípios e qualifique, melhore a vida das pessoas de toda uma região. Quantas vezes os prefeitos de Campos, Macaé e Maricá sentaram para o governador com um projeto para uma região mais extensa? Não falo só da região Norte, estou falando de um projeto que possa ser mais amplo e possa ser de estado, com políticas públicas de estado. Porque governador passa, você tem que criar políticas públicas que vão ficar ali. Então, acho que esse é um caminho importante a se pensar.
Folha – Pesquisas apontam que, no estado do Rio, o antibolsonarismo é menor, como o antipetismo maior do que as médias nacionais. Em 2016, o senhor perdeu a eleição de segundo turno a prefeito do Rio para Marcelo Crivella. E é considerado um candidato de piso alto, o que é bom no primeiro turno, mas de teto baixo, por conta da rejeição, o que é ruim no segundo turno. Como encara essas condições eleitorais?
Freixo – Os números das pesquisas, hoje, não mostram isso. Mostram o contrário. E 2016 não pode ser comparado com 2022. Em 2016, nós tínhamos o pior momento possível da política para qualquer candidato do campo progressista. Eu fui um dos poucos que cheguei ao segundo turno. Dos candidatos progressistas, todos perderam no Brasil inteiro. Foi o pior momento. Tinha uma conjuntura em 2016, que era a conjuntura de ascensão do bolsonarismo, uma conjuntura de uma extrema direita e um momento muito crítico de toda uma esquerda, de todo um pensamento progressista. O que a gente tem, hoje, é uma outra situação. Hoje, o governo Bolsonaro está derretendo e a extrema direita precisa ser superada. A rejeição maior no Brasil, hoje, é ao Bolsonaro. O governador do Rio, hoje, é um candidato do Bolsonaro. Ele só tem vida do lado do Bolsonaro, todas as pesquisas indicam isso. A gente está fazendo uma aliança, como não fizemos em 2016. A gente vai ter uma possibilidade de disputar o Governo do Estado junto com o Governo Federal. Eu não tenho nenhuma denúncia contra mim, em tantos anos de vida pública. Hoje, a gente está na frente de qualquer pesquisa e consegue chegar ao segundo turno. Mas, nós vamos ter uma realidade de segundo turno muito mais favorável do que em qualquer eleição anterior. Não dá para pensar em 2022 à luz do que aconteceu em 2016. E, mesmo assim, em 2016 eu cheguei a 42% dos votos. Eu acho que, agora, a chance de a gente chegar ao segundo turno e vencer a eleição é muito maior.
Freixo – A gente tem uma vantagem de ser muito mais conhecidos do que outros candidatos. A eleição é curta, a lei mudou. É uma eleição de 45 dias. Então, quem tem rede social e capacidade de comunicação mais fortes antes da eleição, cresce e chega numa eleição mais forte. Hoje, nós temos o PSB, o PT, o PCdoB, Psol e a Rede muito próximos dessa aliança. E eu estou conversando com outros setores, outros partidos fora desse campo, com conversas já bastante avançadas, mas que ainda não posso dizer. Mas, a gente pode ir com um leque de aliança grande. Ou seja, nós temos uma capacidade de comunicação na pré-campanha que é grande. A gente tem 3 milhões de seguidores somando todas as redes, uma visibilidade grande, e a gente vai ter uma campanha estruturada, com tempo de televisão. Eu quero muito contar com o PDT com a gente. Quero muito. Sempre converso com o (Carlos) Lupi (presidente nacional do PDT), e a porta está aberta. Em 2022, há o cenário de Bolsonaro de um lado, e quem quer derrotar Bolsonaro, do outro. Esse é o leque de aliança. Eu vejo o PDT, hoje, muito isolado. E tem uma questão muito séria. Em todas as pesquisas que estou fazendo, e estou fazendo muitas, pesa muito no Rio a questão da corrupção. Mais do que em qualquer outro estado. Corrupção e violência. E a gente entende, por ter governadores presos, enfim. O fato de o Rodrigo Neves já ter tido muitos problemas é um peso contra ele, e o fato de ele não conseguir fazer uma aliança ampla também dificulta muito. Mas, eu tenho muito respeito pelo PDT e quero muito o PDT com a gente. O Rio vai exigir um governador que seja ficha limpa, não tenha dúvida disso. O Rio já teve um monte de governador preso, não quer mais um.
Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã
Confira nos três blocos abaixo, em vídeo, a íntegra da entrevista de Marcelo Freixo ao Folha no Ar, na manhã de quinta (26):
Por fim, Caio falará do Brasil de Bolsonaro (sem partido), da crise entre os Poderes que o país atravessa e tentará projetar as urnas de 2022.Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
A partir das 7h desta quinta (26), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o deputado federal Marcelo Freixo (PSB), pré-candidato a governador do estado do Rio. Ele falará sobre a agenda que ele e o PSB cumprem em Campos nesta sexta (27) e sábado (28), e dará a sua visão da gestão Wladimir Garotinho (PSD). Também falará da sua saída do Psol ao PSB, com o objetivo de se candidatar a governador em 2022, e analisará a administração estadual Cláudio Castro (PL).
Por sim, Freixo analisará o governo federal Jair Bolsonaro (sem partido), a crise entre Poderes em Brasília e as eleições presidenciais do próximo ano. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Aluysio Abreu Barbosa, Cláudio Nogueira e Matheus Berriel
A pouco mais de 12 meses de 2 de outubro, o PSB promete vir com força nas duas eleições majoritárias do estado do Rio. Deputados federais do partido, Alessandro Molon e Marcelo Freixo virão a Campos na sexta (27), bem cotados nas pesquisas, respectivamente, ao Senado da República e ao Governo do Estado em 2022. Ambos estarão em Campos nesta sexta, onde se encontrarão com o prefeito Wladimir Garotinho (PSD) e cumprirão agenda com representantes locais da educação pública superior. O programa Folha no Ar na manhã de ontem (24), na Folha FM 98,3, foi com o deputado Molon, líder da oposição na Câmara Federal. Na avaliação dos governos nas três esferas, ele deu nota 7 a Wladimir, mas disse esperar outras avaliações “para ver se é aprovado ou não”; nota 3 ao governador Cláudio Castro (PL), mas sem “nada contra às propostas que foram feitas” a Campos e região; e nota 0 ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), lamentando “porque não posso dar -1 ou -2”.
Alessandro Molon, líder da oposição na Câmara Federal (Foto: Divulgação)
Agenda em Campos – É bom lembrar a tradição de Campos do rádio, da imprensa, dos jornais, mas também a importância histórica dessa cidade para o estado do Rio de Janeiro e o Brasil, com uma tradição econômica importante. Uma cidade que marcou o desenvolvimento do país, com quadros políticos também muito importantes. Portanto, é um grande prazer estar conversando com vocês e, na sexta-feira e no sábado, estar em Campos. Nós vamos fazer uma série de agendas. Entre elas, encontraremos profissionais da Educação, encontraremos o prefeito da cidade, encontraremos o bispo Dom Roberto (Ferrería Paz), um amigo querido que conheci antes de se tornar bispo de Campos. Estaremos também com o prefeito (Wladimir Garotinho), visitaremos a Uenf, que é um orgulho para o estado do Rio de Janeiro e o Brasil. Aproveito para mandar um abraço para o reitor da Uenf, o professor Raul (Palacio). Estaremos também com o reitor do IFF, professor Jefferson (Manhães de Azevedo); com a professora Ana (Costa), que assumiu recentemente a direção da UFF em Campos. Portanto, haverá também um encontro com esse polo de ciência, tecnologia, inovação, que são as universidades localizadas em Campos, lugar importante de produção de conhecimento. No dia seguinte, terei oportunidade de encontrar profissionais da Saúde, que é uma área fundamental, especialmente neste quadro dramático de pandemia que a gente vem vivendo, e também profissionais da Segurança Pública. Vou ter um encontro também com os dirigentes do PSB local, com a Roberta (Barcellos), que é a presidente, com a direção e a militância do partido, e também com lideranças locais, pessoas que estão envolvidas na luta por uma cidade, um estado e um país melhor.
Emenda do novo prédio da UFF-Campos – Eu fiz graduação e depois o mestrado em História também na UFF, no campus do Gragoatá. E, para mim, é um orgulho imenso ter sido aluno da UFF. Ultimamente, tenho feito várias emendas parlamentares para a UFF. Recentemente, inauguramos, no campus de Niterói, na verdade na faculdade de Direito, um elevador para pessoas com deficiência poderem acessar o auditório. Tenho tentado, aos poucos, retribuir muito do que eu recebi da UFF, de forma que considero ser um privilégio para Campos ter um campus avançado da UFF. Cumprimento o reitor (Antonio Claudio da Nóbrega) por essas obras que ele está fazendo, que são importantes. Essa construção desse outro prédio da UFF recebeu uma emenda minha também (como de outros parlamentares fluminenses, em emenda de bancada comandada em 2019 pelo então deputado federal Wladimir Garotinho). Então, essa iniciativa que está tendo aí em Campos, felizmente, pôde contar com o meu apoio também, direcionando recursos para que essa construção ocorresse.
Encontro com Wladimir – O encontro com o prefeito será institucional, provavelmente, por volta por volta das 13h (na sexta). Talvez seja um almoço. O que importa é um encontro para falar das necessidades da região Norte Fluminense. Campos não é apenas uma cidade importante, mas o polo principal do Norte Fluminense. (Queremos) Entender os desafios da região, as dificuldades que ele (Wladimir) tem enfrentado e ver como podemos ajudá-lo. Esse é um pouco o espírito também da nossa presença, como parlamentares eleitos pelo estado do Rio de Janeiro. Daí a visita institucional a ele, para discutir desafios do local, quais seriam prioridades, se tem alguma obra estruturante com a qual ele deseja a colaboração da bancada federal. Afinal de contas, eu estou como deputado federal, o deputado Marcelo Freixo também está como deputado federal. Então, é uma tarefa para ver como podemos ajudar Campos em alguma necessidade que seja sentida pela Prefeitura. E também ouvir do prefeito como ele pretende enfrentar os muitos desafios que tem pela frente, como ele está vendo o cenário de Campos, do estado e do país. E também falar sobre a necessidade de derrotar o atraso na próxima eleição nacional. É fundamental oferecer ao país um caminho, uma alternativa que não seja do extremismo, do ataque à democracia, o que tem sido trilhado por Bolsonaro e seus aliados.
Câmara Federal ao Executivo Municipal – Foi uma eleição (de 2020) muito disputada (para Wladimir) e é uma Prefeitura que começa. A sensação que eu tenho, primeiro, é de que o prefeito queria muito ganhar a Prefeitura, ser Poder Executivo. E não é uma transição simples. O nosso trabalho como parlamentar é discutir, debater, angariar recursos, enfim, um esforço de colaborar com o desenvolvimento das regiões. Já o papel de prefeito, de governador ou presidente, é de executar, fazer. Não é uma transição muito simples. E acho que ele está enfrentando esses desafios agora. Acho que está com desejo de ser bem-sucedido, está se esforçando, se dedicando. Não é uma tarefa banal. Não é simples administrar uma cidade, quanto mais da importância e da complexidade de Campos. Sinceramente, eu torço para o sucesso dele e da Prefeitura, porque quem tem a ganhar é a população. Eu acho que a gente tem que colocar o interesse da população acima das diferenças partidárias, das opiniões, das visões que contrastam muitas vezes.
Nota 7 a Wladimir — Como professor, profissão da qual tenho muito orgulho, eu aprendi que, para avaliar um aluno, a gente tem que submetê-lo a vários testes, para dar uma nota e decidir se passa ou não passa de ano. Acho que é cedo para dar uma nota ao prefeito. Prefiro, em vez de dar uma nota, fazer uma avaliação conceitual. Eu acho que o prefeito vem enfrentando dificuldades na Prefeitura, especialmente, na área da Saúde. A vacinação não foi uma tarefa simples. No desafio da vacinação em Campos, que foi um desafio importante, enfrentou algumas dificuldades. Nós temos o tema agora do fechamento do Hospital Geral de Guarus (HGG, para reformas). Portanto, acho que temos ali desafios importantes na Saúde que ele precisa enfrentar. Agora, eu acho que seria cedo para dar um aprovado ou reprovado. Eu diria que ele tem, de alguma maneira, sido esforçado para enfrentar os seus desafios. Se insistir numa nota, eu daria uma nota 7 no momento, mas fazendo a consideração de que é começo de governo, de que acabou de assumir. Quem acaba de assumir o governo tem algumas dificuldades até colocar a casa do jeito que entende como vai funcionar melhor. Não é simples. Então, eu diria algo próximo de 7, mas considerando que há várias outras provas, várias outras avaliações para serem feitas até o fim do período letivo, para ver se é aprovado ou não.
Emenda para a Uenf – Eu tenho muito orgulho de ter ajudado a Uenf também, porque acredito muito nisso. E a gente tem que tirar o estado do Rio do fundo do poço. Acho que o papel de parlamentar federal, um deputado, um senador, é trazer recursos para o estado, ajudar o estado a se desenvolver, entendendo as vocações do estado. E acho que uma grande vocação do estado do Rio de Janeiro é a produção de conhecimento. Nós temos várias universidades federais e estaduais, aqui no estado do Rio, que são referências para o Brasil. A Uenf é uma delas. Ela, a UFF, o IFF são instituições que merecem o nosso apoio e que podem ajudar o Rio de Janeiro a alavancar o seu desenvolvimento. O reitor Jefferson, por exemplo, recentemente em Brasília, inaugura em breve, na Região Metropolitana do Rio, um novo campus (do IFF), com tecnologia de ponta para pesquisa, investimento e formação de pessoas especializadas em energias renováveis: eólica, solar. É nisso que eu acredito para o futuro do Brasil, nesse tipo de desenvolvimento, um desenvolvimento sustentável, que mude a matriz energética do país. Um tema que é tão importante para Campos, região tão rica em petróleo, mas que enfrenta agora o desinvestimento da Petrobras. É importante preparar o Brasil, preparar Campos para o pós-petróleo. Por isso a minha aposta nas universidades.
Nota 3 ao governo Cláudio Castro – No caso do governo Cláudio Castro, embora tenha assumido relativamente recentemente, ele faz parte de um projeto que foi eleito em 2018. Então, eu daria uma nota muito ruim para o governo Cláudio Castro, porque o considero um governo completamente perdido, sem projeto. Embora ele tenha assumido recentemente, já é vice-governador há pelo menos dois anos. Então, daria uma nota abaixo da nota para passar. Daria uma nota muito abaixo de 5. Um 3, por exemplo; um 2. Um governo que vendeu a Cedae e, simplesmente, agora vai usar os recursos para asfaltamento. Evidentemente, nossas estradas precisam ser cuidadas. Mas, governar é mais do que recapear vias. O Rio de Janeiro tem um índice enorme de desempregados, uma juventude que está sem perspectiva. Muitos jovens nem estudam nem trabalham. A nossa economia patina, dependia e ainda depende muito do petróleo, sem saber exatamente para onde vai. E o governo não tem projeto. Recentemente, o (ex-)secretário de Administração Penitenciária (Raphael Montenegro) foi preso, flagrantemente, por um contato com um integrante do crime organizado, fazendo acordo com o crime. O crime decidindo os caminhos do Rio. É preciso construir um outro rumo para o estado, porque o governador Cláudio Castro se dedica a uma distribuição de poder por vários grupos políticos e se sustenta fazendo isso, dando secretarias para grupo A, B, C, D. Só que isso não compõe uma visão, um projeto.
Compromissos de Castro com Campos e NF – Evidentemente, quando um governador vai a uma cidade (Castro esteve em Campos entre 5 e 7 de agosto), faz uma série de promessas, não há por que ficar contra promessas de construção de um Restaurante Popular (para Guarus, em novembro), construção de um posto do Detran (em Guarus), finalização de uma ponte (da Integração, entre São João da Barra e São Francisco de Itabapoana) que não fica pronta. Não há por que ser contra isso. Resta saber se isso vai ser cumprido, porque ir e prometer é fácil. Evidentemente que eu sou favorável às iniciativas que foram anunciadas. Agora, eu acho que é preciso ter um olhar especial para o interior. Acho que o interior do estado, o interior de Campos também, as regiões mais distantes do Centro, elas ficam muito esquecidas muitas vezes. Não há desenvolvimento permanente, duradouro, se ele é muito pontual, se é centralizado. É preciso distribuir prosperidade. Então, não tenho nada contra às propostas que foram feitas, a população mais sofrida do nosso estado deve ter direito à alimentação, foi uma pena a interrupção de programas como esse. Agora, é preciso fazer mais. E é preciso cumprir as promessas que são feitas. Então, a gente vai cobrar. E, na hora de apresentar nossas propostas para Campos, nós iremos além. Podem ter certeza disso. Agora, serão promessas factíveis, promessas que podem ser cumpridas.
Freixo no PSB – A minha relação com o deputado Marcelo Freixo é uma antiga, porque ele também fez História na UFF, também é professor de História. A nossa relação vem desde os tempos do estudo na faculdade. E, depois, também a convivência na luta política, com uma visão de mundo focada na redução das desigualdades, com a geração de emprego e renda, com o desenvolvimento que abra oportunidade para os filhos das classes médias, das classes populares, dos trabalhadores e das trabalhadoras, é o que nos une há muito tempo. Agora, nos unem também o desejo de um futuro melhor para o estado do Rio de Janeiro e o compromisso de trabalharmos juntos por isso no PSB. No começo desse ano, eu assumi a liderança da oposição da Câmara dos Deputados, e ele assumiu a liderança da minoria. São dois cargos relevantes aqui na Câmara e que organizam, em alguma medida, os partidos de oposição para enfrentarem o governo (Bolsonaro).
Freixo pré a governador, Molon pré a senador – Na Câmara, nós passamos a conviver ainda mais intensamente e, nessas conversas, ele me colocou o desejo de ser pré-candidato ao governo do Estado. Eu já havia me comprometido a ajudá-lo, mesmo antes de ele vir para o meu partido; tinha dito que gostaria de apoiá-lo naquilo que eu pudesse contribuir, achava importante essa disponibilidade dele de se colocar à disposição para disputar o Governo do Estado. Contei para ele da minha intenção de ser pré-candidato a senador pelo estado, ao que ele reagiu também muito bem, com muito entusiasmo pela minha pré-candidatura. Quando ele se encantou com essa possibilidade de ir para o PSB, eu disse que teria um prazer redobrado em apoiá-lo, pois, se já iria apoiá-lo em outro partido, quanto mais no meu, no partido que eu tinha escolhido, para o qual eu vim ainda em 2018. E estamos reconstruindo o PSB. Nós estamos criando um partido com novas bases aqui no estado. É um partido com muita tradição, mas um partido que se refunda, que se reinicia, recomeça. Está atraindo muita gente. A gente tem tido muitas filiações. Em Campos mesmo, tem muita gente procurando o PSB para se filiar, para colaborar com essas duas pré-candidaturas: a minha para o Senado e a do Freixo para o Governo do Estado. Então, estamos trabalhando e estaremos juntos, unidos, aí também na sexta-feira, conversando sobre Campos e sobre os desafios que a cidade e o estado têm, como enfrentá-los, para oferecer uma vida melhor à nossa população.
Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã
Nota 0 a Bolsonaro – Se eu dei 7 para Wladimir e 3 para Cláudio Castro, para o Bolsonaro eu dou 0. E só dou 0 porque não posso dar -1 ou -2. Senão, daria -1, -2 ou -10. E digo isso com uma certa tristeza, porque é péssimo o que está acontecendo com o Brasil. Eu gostaria de poder ser uma oposição que apenas está discutindo quais são os melhores avanços para o país, e não como evitar os retrocessos que o governo quer impor. O Brasil tem andado para trás, está destruindo tudo aquilo que levou décadas para construir. Vou dar um exemplo: o que aconteceu com o ministério das Relações Exteriores. O Itamaraty não é mais notícia. Mas antes era, provavelmente para dar as péssimas notícias do ex-chanceler (Ernesto Araújo), que era um irresponsável, como o presidente da República. A imagem que o Brasil tinha no exterior foi destruída pelo ex-chanceler, que foi um desastre completo. Eu poderia falar da educação, do desmonte das universidades, do fim das bolsas, da perseguição a professores.
“Roubo na compra de vacinas” – Eu poderia falar também do desastre que foi a gestão da pandemia na Saúde, da sabotagem ao enfrentamento à pandemia, da tentativa de roubar na compra de vacina em um governo que dizia não ter corrupção. Tentaram roubar na compra de vacinas. Felizmente, não conseguiram porque foram denunciados. Eu poderia falar de tantas áreas. Em Ciência, Tecnologia e Inovação, não tem nada que a gente possa apontar, um projeto que a gente possa apontar. No Meio Ambiente, o ex-ministro Ricardo Salles agora vive mudando de endereço para não ser encontrado pela Justiça e não ser notificado. Teve que sair fugido do ministério do Meio Ambiente pelos crimes que cometeu, pelos quais ainda vai responder um dia. Se você olhar para qualquer área, é um desastre completo o governo.
“O que vai ser do 7 de setembro?” – Se fosse apenas um governo que não fizesse nada, mas é um governo que destrói. E, mais do que isso, um governo que ameaça a democracia. O que é que vai acontecer no dia 7 de setembro? O presidente da República está convocando as pessoas para irem às ruas para, no fundo, tentar um golpe de Estado. É muito grave isso. O Brasil não merece isso que está vivendo. O Brasil tem que andar para frente. O mundo vai olhar para o Brasil como uma república de bananas. Isso aqui não é baderna, tem gente séria, o povo brasileiro é sério, é trabalhador. Mas, o governo só faz o caos.
Volta da inflação – A economia está um desastre, a inflação está alta, o alimento está caro, as pessoas estão desempregadas. O país vai mal, e é graças ao governo. O mundo todo teve pandemia, mas olha como os outros países enfrentaram a pandemia. Olha como eles estão se recuperando, como já estão crescendo. E o Brasil patinando, porque o presidente, em vez de governar, fica criando confusão com o Supremo, criando confusão com o Congresso, criando confusão com não sei quem, atacando, criticando, brigando com a imprensa. Não respeita a liberdade de expressão, ataca jornalista. O que é que há? É uma situação muito grave, vai demorar um tempo para a gente reconstruir o que está sendo destruído. Eu vejo com muita tristeza esse momento do país. Acho que mesmo quem sabia que o governo ia ser ruim, ninguém imaginou que pudesse ser tão ruim. Eu sabia que ele ia ser um péssimo presidente, mas não imaginava que ele conseguiria ser tão péssimo como é. O Brasil sofre muito, está muito mal, e nós vamos ter que trabalhar muito para recuperar.
Terceira via? – É tudo o que eu desejaria. Mas eu acho, nesse contexto, ainda pouco provável. Apesar desse desastre que Bolsonaro é, ele ainda mantém um núcleo de apoiadores importante. O número de apoiadores não é desprezível, é de 20%, 25%, e isso o coloca no segundo turno. E Lula tem uma base muito grande também, algo em torno de 40%. Se você tem um de 40% e um de 25%, alguém poderia dizer que, em tese, sobram 35%. Mas, acontece que esses 35% que sobram não se organizam em torno de um único candidato. Isso vai se pulverizar em várias candidaturas. Não acredito que a terceira via seja capaz de se unir em torno de um nome. Vejo já sinais de que (João) Doria (PSDB) será candidato, vejo sinais de que Ciro (Gomes, PDT) será candidato, vejo sinais de que outros nomes podem disputar, como (Luiz Henrique) Mandetta (DEM), por exemplo, ou outros nomes que estão no cenário. O próprio Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, não sabemos se ele vai ficar no PSDB, ou se vai para outro partido para ser candidato a presidente. Ou seja: à medida em que há uma pulverização da terceira via e que os dois polos permanecem muito fortes, eu acho pouco provável que haja um terceiro nome com condições de ir ao segundo turno, embora fosse o melhor para o país. Qualquer nome que fosse para o segundo turno no lugar de Bolsonaro (para disputar com Lula) seria um nome para o Brasil, porque o debate no segundo turno seria um debate propositivo. O país ia estar discutindo qual é o melhor projeto para o Brasil, e não evitar o desastre que é o Bolsonaro. Seria uma discussão em outro nível, em outro patamar. Uma coisa é quando a gente tem divergência ideológica, de proposta de governo. Isso é da democracia, é saudável. A gente aprende com quem pensa diferente da gente, a gente melhora. Nossos argumentos têm que se aperfeiçoar, isso é bom.
“Intolerância aos intolerantes” – O problema é quando você enfrenta alguém que está querendo jogar, como disse ele mesmo, fora das quatro linhas da Constituição. Aí é outro tipo de debate, aí não tem conversa. A gente não pode tolerar os intolerantes. Então, quem quer acabar com a democracia não pode ser visto como alternativa democrática. Não é! Dentro da democracia é quem defende a Constituição e, dentro dela, vai defender um governo um pouco mais à direita, um pouco mais à esquerda, um governo de centro. Tudo bem, isso é do jogo, não tem problema. Isso, a alternância vai corrigindo, um governo vai cumprindo o que o outro não fez. É ótimo. O problema é quando você tem alguém que quer acabar com a democracia, quer acabar com a alternância, quer destruir quem pensa diferente. Então, infelizmente, eu não vejo ainda, hoje, um cenário provável de um segundo turno que tenha alguém da terceira via no lugar de Bolsonaro, embora fosse o que eu mais desejasse. Pode ter certeza disso.
Inquirindo o general Braga Netto – Vejo a questão militar com muita preocupação. Há uma semana, participei da audiência pública em que esteve o ministro da Defesa, Braga Netto (general da reserva). Eu fiz uma inquirição a ele, inclusive postamos essa minha fala, depois, quem quiser, pode olhar. Fiz uma fala muito dura com ele, e muito respeitosa, porque acho que a gente, na democracia, tem que ser respeitoso, mas duro quando é necessário ser duro. E eu falei do artigo 142 e do papel dos militares. A nossa Constituição, quando fala das Forças Armadas, é falando da preservação das instituições democráticas. Ou seja: o papel das Forças Armadas é proteger a democracia, e não a ameaçar. Não é papel das Forças Armadas decidir para onde o país vai. As Forças Armadas estão a serviço dos poderes constituídos, que são o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. E elas devem agir para conservar, para proteger a lei e a ordem. E eu disse para o general Braga Netto: “ministro, as Forças Armadas por acaso têm papel de Poder Moderador (que só existia no Brasil Império, como prerrogativa exclusiva do imperador) para arbitrarem conflitos entre os Poderes? O senhor acha que têm? Porque aqui, na Constituição, não têm”. E ele acabou tendo que dizer, diante da minha pergunta insistente, que, no entendimento dele, conflito entre os Poderes era com os Poderes. Ou seja, que não cabia às Forças Armadas arbitrar. Quem é o último intérprete da Constituição? É o Supremo Tribunal Federal. Não é o ministro da Defesa, não é o comandante do Exército ou da Marinha ou da Aeronáutica. É o STF. Então, não cabe às Forças Armadas, por exemplo, dizer que o Supremo está interpretando a Constituição mal ou bem, porque o papel das Forças Armadas não é interpretar a Constituição, é garantir a lei e a ordem a pedido dos poderes. Não pode o poder Executivo invocar as Forças Armadas para pressionar o Judiciário a julgar dessa ou daquela forma. Isso não é democracia.
Exemplo das Forças Armadas dos EUA – Eu terminei a minha fala (na audiência pública com Braga Netto) dizendo para que o ministro se espelhasse no exemplo do general Mark Milley (principal autoridade militar dos EUA), que preparou uma renúncia coletiva quando viu que Trump não ia aceitar o resultado das eleições (de 2020). E ele disse para os colegas dele uma coisa que saiu recentemente num livro: “Nós não vamos permitir que isso aconteça, porque o que o Trump quer fazer, que é dar o golpe, ele não consegue fazer sem nós. Nós somos os caras que têm as armas”. E aí eu disse para o ministro: “Ministro, os senhores têm as armas e, por isso, têm que ter consciência de que o que o povo brasileiro espera dos senhores é que não aceitem esse tipo de papel de desestabilizar eleições ou pressionar outros Poderes. Não se permitam fazer isso, porque a Constituição não permite e o povo não espera isso dos senhores”. Então, foi uma fala dura, firme, forte, mas respeitosa. E ele reagiu bem, disse que de fato não é papel das Forças Armadas. E a impressão que eu tenho é que predomina hoje nas Forças Armadas Brasileiras esse pensamento de responsabilidade. Eu não diria que é unânime. Infelizmente, acho que há alguns ali que flertam com o autoritarismo. Mas, acredito que não é majoritário. Eu acho que a maioria do alto comando das Forças Armadas está comprometida com a democracia, com a Constituição, não vai entrar em aventuras, não vai apoiar o presidente nessa tentativa de pressionar os outros Poderes, portanto não vai infringir a lei e a Constituição. Quem fizer isso vai responder pelos seus atos mais cedo ou mais tarde, porque essa conta chega uma hora. Mas, sinceramente, eu não vejo as Forças Armadas embarcando nisso. O compromisso com a Constituição e a democracia vai prevalecer.
General Heleno, do GSI, ameaçou usar o artigo 142 em intervenção militar – Essa fala do general Heleno é de uma irresponsabilidade atroz, porque o artigo 142 não existe para isso. O artigo 142 existe para garantia da lei e da ordem a pedido dos Poderes constituídos. Isso significa que os Poderes devem pedir essa intervenção das Forças Armadas para garantirem a lei e a ordem, e não para desestabilizarem a lei e a ordem.
“Se Bolsonaro insistir, vai preso” – Na minha opinião, o presidente quer, no dia 7 de setembro, o caos. Se houver o caos nas ruas do país, melhor para ele. É o que ele pensa. Porque aí ele vai usar o caos para pedir a garantia da lei e da ordem às Forças Armadas. Você cria o caos e depois, para impedir a bagunça que está acontecendo, chama as Forças Armadas. Esse é o roteiro da confusão que o presidente da República quer causar ao país. Mas, nós não vamos permitir isso, não. Estamos alertando, estamos avisando, e se ele insistir nesse caminho, vai terminar preso. E quem o acompanhar, será preso. Não há espaço para isso no Brasil. Ele não pode fazer isso. Quem dizer isso com ele, vai responder pelos seus atos também. É inaceitável. O general Heleno está inteiramente equivocado. Infelizmente, não é de hoje que ele está equivocado. Tem uma visão distorcida sobre democracia e o papel das Forças Armadas. Está errado o que ele está dizendo, e nós não vamos tolerar isso, não vamos aceitar, o Congresso não vai aceitar.
Resposta do Senado – Esse pedido de impeachment do Alexandre de Moraes (feito por Bolsonaro ao Senado) causou uma péssima repercussão no Congresso. A primeira coisa que o Senado fez foi suspender a votação do André Mendonça (ex-advogado geral da União, indicado por Bolsonaro) no Supremo. O Congresso está mostrando que não vai aceitar que o Executivo acosse o Judiciário. O Legislativo não vai ficar ao lado do Executivo nessa briga, vai ficar ao lado do Judiciário. Mas, não é porque prefira o Judiciário, é porque é o que a Constituição manda. Nós, quando tomamos posse dos nossos mandatos, juramos defender a Constituição. E assim o faremos. Nós vamos cumprir o nosso dever. Apesar da irresponsabilidade e inconsequência do presidente, espero que o resto do Executivo tenha juízo e não embarque nessa maluquice. Por isso eu disse ao general Braga Netto o exemplo do general Mark Milley, dizendo que as Forças Armadas podem dizer ao presidente da República que não vão. Que ele não faça isso, porque não terão companhia. E, se disserem, ele não fará. E eu, sinceramente, acredito que é o que as Forças Armadas farão. Não serão inconsequentes como o presidente. Têm responsabilidade, têm compromisso com a Constituição e a democracia e não vão abandoná-las. É a aposta que eu faço.
Presidente da Câmara, Arthur Lira em cima do muro – Infelizmente, eu preciso concordar no sentido de que a Câmara não tem feito aquilo que lhe caberia fazer no enfrentamento a Bolsonaro, apesar dos esforços da oposição, apesar das cobranças que nós temos feito. Eu, inclusive, da tribuna, já cobrei o presidente da Casa, o deputado Arthur Lira (PP/AL), sobre uma reação mais dura ao presidente da República. Está faltando. E o presidente da Câmara não pode continuar se esquivando de reagir aos ataques do presidente à democracia. Ele não pode, não tem o direito de ficar calado. E, nesse sentido, o Rodrigo Pacheco (DEM/MG, presidente do Senado), mesmo que discreto, contido como ele é, tem sido mais firme, tem deixado claro que não aceita. E o presidente da Câmara precisaria ser mais incisivo. Ele precisa reagir. Independentemente do que ele pense do governo, se foi o líder do Centrão, se levou o Centrão para a base do governo, de ser base do governo, tem um papel institucional como presidente da Casa que precisa cumprir. Ele tem que separar as coisas. E a nossa cobrança vai continuar. Infelizmente, eu concordo que existe, sim, uma omissão da Câmara, como Casa, especialmente a partir da presidência da Câmara, em relação aos ataques de Bolsonaro à democracia. Nós temos cobrado isso e vamos continuar cobrando.
“Sinal amarelo” de Lira vai virar vermelho? – Tem que virar, já deveria ter virado. A maioria da população já apoia o impeachment de Bolsonaro. Ele já deveria ter sido afastado há muito tempo, nós pedimos o impeachment dele em abril de 2020. Aí, muita gente dizia que era hora de enfrentar a pandemia, que a gente tinha que se unir e não ter briga política. E nós dizíamos que tirar Bolsonaro da presidência era salvar a vida de brasileiros. Dizíamos que a gestão da pandemia seria um desastre, que quanto mais tempo ele ficasse, mais gente ia morrer. Olha o resultado. Infelizmente, nós tínhamos razão. Morreram mais de 575 mil brasileiros. Pelo amor de Deus! Se tivesse sido tirado lá atrás, quantas pessoas a gente teria salvado? É isso que a Câmara tem que entender. O sinal já deveria ter ficado vermelho lá atrás. E o povo brasileiro espera isso da Câmara. Sinceramente, eu acho que a Câmara tem deixado muito a desejar. Digo isso lá dentro também, não falo só aqui fora, porque é o dever da gente falar aquilo que a gente pensa, representar o povo do estado do Rio de Janeiro onde a gente estiver.
Gente armada nas ruas? – Eu, honestamente, tenho esperança de que essa maluquice não prospere. Espero que fique nas bravatas do presidente, espero que as pessoas tenham responsabilidade. Agora, a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) está preocupada com gente indo armada às ruas. Não tem cabimento a gente, neste momento da história do país, em 2021, estar preocupado com ter gente armada nas ruas para pressionar o Supremo a aceitar, não afastar ou não prender fulano ou cicrano. Pelo amor de Deus!
Mourão como “adulto na sala” – Eu percebo que o vice-presidente da República, em alguns momentos, discorda do presidente. Eles vivem ali entre ódio e amor, se afastam e se aproximam, se afastam e se aproximam. Mas, eu diria que a gente esperava muito mais dele, uma postura séria de dizer que é inaceitável que Bolsonaro faça isso. Ele foi eleito para esse cargo também. O general (Hamilton) Mourão (PRTB) não está ali de favor; ele foi eleito. Então, ele não pode ser demitido pelo presidente da República. Ele tinha que tomar uma posição mais contundente, dizendo: “Nós não aceitamos qualquer ataque à democracia, isso está errado, as Forças Armadas não fazem isso”. Ele fica nesse morde e assopra, não fede nem cheira. Ou seja, você só sabe que ele não concorda totalmente com o presidente, mas às vezes concorda muito, às vezes concorda pouco. Acho muito ruim. Acho que, na vida, a gente tem que ter lado. Agora é hora do lado da democracia, e não de ficar em cima do muro.
Tanques fumacentos na Esplanada dos Ministérios – Eu nunca imaginei que fosse ver as Forças Armadas submetidas a um papel tão vexaminoso. Aquilo ali pegou tão mal. Primeiro pelo ato em si, essa tentativa de intimidar o Congresso (em 10 de agosto, que votou em plenário a proposta de Bolsonaro pelo voto impresso), colocar tanque para desfilar na Esplanada dos Ministérios para os congressistas votarem a favor do voto impresso? Perderam! Erraram e levaram uma resposta da Câmara. Pior do que isso foi ainda colocar aqueles equipamentos ali, o que soa quase como humilhação para as nossas Forças Armadas. A sensação que passa com aquilo ali é até preocupante, porque, eventualmente, potenciais adversários do Brasil podem olhar aquilo ali e dizer que agora é que vão fazer qualquer coisa contra o Brasil: “porque olha como eles estão”. É uma vergonha aquilo, nunca vi fazer as Forças Armadas passarem por uma humilhação dessa. As Forças Armadas não merecem isso, são compostas em sua maioria por gente séria, honrada, lutadora, que tem amor pelo país, tem orgulho do que faz. Gente que não pode ser humilhada desse jeito, não. Foi muito feio.
Forças Armadas nas propostas de governo em 2022 – Qual é o papel da Defesa nacional? E nesse papel da Defesa entra, por exemplo, a formação dos militares. Eu acho que se deu pouca atenção ao currículo de formação dos militares, à importância de se formar militares com uma mentalidade mais moderna, com uma outra visão da História do Brasil, com uma outra visão da democracia. No comportamento do general Mark Milley (após ter sido usado por Trump em 1º de junho de 2020, para sair da Casa Branca, onde estava sitiado pelos protestos do movimento “Vidas Negras Importam” em Washington) ele foi pedir desculpas ao país. Isso é fruto de uma formação cidadão, democrática, nacional, que sabe que militar não faz política. Militar não tem partido A ou partido B, militar serve ao país. Agora, uma parte dos que Bolsonaro levou para o seu governo não tem essa consciência, acha que as Forças Armadas têm que ter uma posição no espectro ideológico, um compromisso com uma forma de ver o Brasil; uma forma, se não partidária, pelo menos ideológica. Isso está errado. Então, esses maus exemplos estão influenciando na formação de novos militares. Isso prolonga os nossos problemas. É preciso ter um outro olhar para a formação dos militares, para o currículo dos militares, para a relação das Forças Armadas com a democracia e a Constituição. Então, acho que essa é uma área para qual os progressistas precisam olhar com mais cuidado.
Confira abaixo, em três blocos, os vídeos com a íntegra da entrevista do deputado Alessandro Molon, líder da oposição na Câmara Federal, ao Folha no Ar da manhã de ontem (24):
Deputado estadual Zeidan, secretário estadual Max Lemos e prefeito Wladimir Garotinho (Foto: Divulgação)
A ocupação do conjunto habitacional Novo Horizonte, no Jardim Aeroporto, do projeto federal “Minha Casa, Minha Vida”, hoje deu um passo para um desfecho positivo, em atuação conjunto do poder público municipal e estadual. No final da manhã de hoje, o prefeito Wladimir Garotinho (PSD) se reuniu no Rio de Janeiro com o secretário estadual de Infraestrutura e Obras, Max Lemos, e a presidente da comissão de Habitação da Alerj, deputada estadual Zeidan (PT). Representantes dos três vão à ocupação nesta quinta (26) para cadastrar quem realmente precisa de assistência e moradia.
— Estivemos hoje em reunião de hoje com a presidente da comissão de Habitação da Alerj, deputada Zeidan, na sede da secretaria estadual de Obras, onde fomos recebidos pelo titular da pasta, Max Lemos. Representantes da comissão da Alerj, da assistência social estadual e municipal vão à ocupação na quinta, para realizar cadastro e cruzar todos os dados. Embora Novo Horizonte seja federal, vamos atender às reais demandas com aluguel social e a construção de um conjunto habitacional, em parceria estado/município. Só precisamos definir quem realmente precisa. Identificamos 104 famílias, enquanto os organizadores da ocupação falam de 700 famílias.
A partir das 7h da manhã desta terça (24), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o deputado federal Alessandro Molon (PSB), líder da oposição na Câmara. Ele falará sobre a agenda que ele e o PSB cumprem em Campos nesta sexta (27) e sábado (28), e dará a sua visão da gestão Wladimir Garotinho (PSD) no município. Ele também avaliará o governo estadual Cláudio Castro (PL), a filiação do deputado Marcelo Freixo ao PSB e o pleito a governador de 2022.
Por sim, Molon analisará o governo federal Jair Bolsonaro (sem partido), a crise entre Poderes em Brasília e as eleições presidenciais do próximo ano. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Sylvester Stallone interpreta o soldado mais famoso de Hollywood ao lado dos mujahedins do Afeganistão contra a União Soviética, em “Rambo 3”, de 1988
A pedido do bispo, diálogo sobre o Afeganistão
Por Aluysio Abreu Barbosa e João Monteiro Pessôa
Cinéfilo, dotado de grande cultura e bispo católico da Administração Apostólica São João Maria Vianney, Dom Fernando Rifan me pediu uma análise. Sobre como o filme “Rambo 3” (1988), estreado por Sylvester Stallone e dirigido por Peter MacDonald, explica a crise do Afeganistão. Que dominou o noticiário do mundo, após a vergonhosa retirada das forças militares dos EUA do país asiático, onde ficaram por 20 anos. Com o grupo fundamentalista islâmico dos talibãs assumindo o poder em menos de 20 horas.
O pedido do bispo se deu em grupo de WhatsApp que o blog Opiniões, hospedado no Folha1, divide com o programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3. Que lá tentei atender. E, para superar as minhas muitas limitações, o fiz chamando também ao debate o historiador João Monteiro Pessôa, professor do IFF-Guarus e outro integrante do grupo.
Antes de refugiados afegãos despencarem dos céus, caindo de aviões em que tentavam a fuga do próprio país, João confirmou ser profundo conhecedor de história militar e geopolítica. Ele já havia previsto, no Afeganistão, a repetição de erros estratégicos dos EUA. A despeito da apreensão que estes fizeram e fazem dos ensinamentos táticos ofertados em batalha por seus eventuais inimigos.
“Sim, Dom Rifan, com o Afeganistão de volta ao noticiário do mundo, após a retirada vexatória dos EUA e a retomada rápida do país pelos talibãs, a lembrança ao filme ‘Rambo 3’ é oportuna. O primeiro filme da franquia sobre o fictício veterano do Vietnã, de 1982 e dirigido por Ted Kotcheff, fez bastante sucesso. Tanto que o ex-ator Ronald Reagan, em seus tempos na Casa Branca, se aproximou do colega Stallone para tentar ‘domesticar’ seu personagem.
Nos anos 1980, o encontro na Casa Branca entre os atores Sylvester Stallone e Ronald Reagan, quando este interpretava o papel de presidente dos EUA
“Assim, se ‘Rambo 1’ abordava criticamente o tratamento que os EUA davam aos veteranos do Vietnã, ele se torna um leal ‘patriota’ acrítico nos filmes seguintes. Em ‘Rambo 2’ (1985), dirigido por George P. Cosmatos, o protagonista tenta ganhar a guerra perdida no sudeste asiático. E, em ‘Rambo 3’, ele se alia aos mujahedins (‘guerreiros santosְ’ do Islã) que atuaram na 1ª Guerra do Afeganistão (1979/1989) contra o ‘grande Satã’ da União Soviética.
Tropas da União Soviética se retiram do Afeganistão, em 1989, após 10 anos ocupando do país (Foto: Ria Novosti)
“A retirada russa, após 10 anos de ocupação do país montanhoso e rural, foi uma das causas para a queda e dissolução da URSS, em 1991. Da Arábia Saudita, Osama bin Laden foi um dos tantos jovens religiosos recrutados no mundo islâmico, com apoio da CIA, para resistir à invasão da União Soviética ateia e comunista, em nome de Alá. Assim, é correto dizer que Rambo lutaria ao lado de Bin Laden no Afeganistão de 1988, se a ficção fosse realidade.
Osama bin Laden nas montanhas do Afeganistão
“A Al-Qaeda teve sua célula máter nas ações do EUA contra o inimigo comum soviético no Afeganistão, antes de se voltar contra quem a criou, nos atentados às Torres Gêmeas de Nova York, em 11 de setembro de 2001. Como o Iraque de Saddam Hussein foi também armado pelos EUA, inclusive com tanques brasileiros da Engesa, para enfrentar o regime dos aiatolás dos seus vizinhos, na Guerra Irã-Iraque (1980/1988). Antes de também se tornar inimigo dos EUA, a partir da invasão do Kuwait em 1990. Que levou à primeira Guerra do Golfo em 1991.
Cenário de campos de petróleo incendiados e carcaças de blindados iraquianos abandonados marcou a 1ª Guerra do Golfo, em 1991
“Constatado isso, tenho que concordar com o que o historiador João Monteiro Pessôa já disse no grupo: apesar de apreenderem as lições táticas ofertadas por seus inimigos, como a adoção da blitzkrieg alemã que revolucionou a própria maneira de lutar na II Guerra Mundial (1939/1945), os EUA permanecem repetindo os mesmos erros estratégicos. Que cometem desde o sapeca-iá-iá que tomaram na Guerra do Vietnã (1955/1975). Daí a incrível semelhança entre as retiradas de Saigon e Kabul.
Após a retirada das tropas dos EUA, mesmas cenas da tentativa de fuga desesperada e em massa na Kabul de 2021 e na Saigon de 1975
“Sem contar as virtudes militares próprias de quem, como o Vietnã, lutou na sequência e sem levar a pior contra Japão, França, EUA e China, se credenciando como a mais brilhante infantaria do século 20. Ou do Afeganistão, que resiste às invasões estrangeiras desde Alexandre Magno, no século IV a.C. Antes de derrotar o Império Britânico no auge do poder, nas três Guerras Anglo-Afegãs dos séculos 19 e 20. Para bater mais recentemente a URSS e os EUA”, disse eu, atendendo ao pedido de análise de Dom Rifan. Ao que João complementou:
Nos arredores de Kabul, peças de artilharia do Afeganistão tomadas pelo Exército Britânico em 1879, antes de ser expulso do país na 2ª Guerra Anglo-Afegã (1878/1880)
“Uma reflexão sobre a dimensão do fracasso dessa retirada de Kabul, que ecoou a queda de Saigon de várias maneiras. Os EUA retiraram as tropas combatentes do Vietnã em janeiro de 1973, daí para frente só deram apoio indireto ao governo do Vietnã do Sul. Ainda assim, o governo do Sul se aguentou mais de 2 anos no poder, até a ofensiva final do Vietnã do Norte dominar Saigon em maio de 1975.
“Os russos ocuparam o Afeganistão por uma década, entre 1979 e 1989. Ao se retirarem, deixaram um governo fantoche pró-comunista à frente do país, que sobreviveu até 1992, durando mais tempo que a própria URSS, extinta no Natal de 1991. Os EUA ocuparam o Afeganistão por 20 anos, desde 2001. Torraram um trilhão de dólares nessa aventura, trilhão com T! E deixaram um governo que se desintegrou antes mesmo da data final para retirada, estabelecida para o dia 31 deste mês. Nessa perspectiva, o fracasso estratégico é tão grande que chega a ser difícil mensurar”.
“Allahu Akbar” (“Deus é grande”), ecoam os afegãos na imensidão da Ásia, do alto do Himalaia, maior cordilheira de montanhas da Terra. Na planície goitacá, o bispo católico não diria diferente do mesmo Deus de Abraão. A diferença está na visão fundamentalista dos talibãs da revelação de Muhammad (Maomé), alfabetizado pelo Arcanjo Gabriel na fundação da Civilização Islâmica. Que, do século 7 para cá, não passou por Renascimento, Reforma, Revolução Inglesa, Americana, Francesa ou Russa. E, a despeito dos seus pecados, não está disposta a dizer amém à Civilização Ocidental. Nem por bem, nem por mal.
Por Aluysio Abreu Barbosa, Arnaldo Neto, Cláudio Nogueira e Matheus Berriel
O país governado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), aos olhos do mundo, é um pária ambiental, um pária nos direitos humanos, um pária em relação à democracia e um pária na saúde pública. Endossada por boa parte do noticiário internacional dedicado ao Brasil, é a opinião de Marina Silva (Rede), ex-senadora, ex-ministra do Meio Ambiente nos governos Lula (PT) e três vezes candidata a presidente da República, em 2010, 2014 e 2018. Na sua segunda tentativa de chegar ao Palácio do Planalto, ela foi a candidata mais próxima de furar a polarização do PT da ex-presidente Dilma Rousseff e do PSDB do hoje deputado federal Aécio Neves, partidos que então se revezavam no poder já há 30 anos. Mas ela foi alvo na campanha de uma série de fake news do PT, legenda em que construiu parte da sua vida pública e que ainda assim não a poupou em 2014 daquilo que os petistas tanto acusariam o capitão de ter feito em 2018. É na terceira via que Marina volta a apostar para 2022, com base em um programa de governo debatido amplamente com a sociedade. Que consiga furar a polarização, apontada em todas as pesquisas a 13 meses das urnas, entre o ex-presidente Lula e Bolsonaro. A quem ela considera “um risco, sim, à democracia”, em um projeto “golpista” e “anti-civilização”.
Marina Silva (Foto: Divulgação)
Política ambiental do Brasil – Diante do que estamos vivendo no Brasil em relação ao isolamento do país, a tática do governo Bolsonaro é de não ter uma política ambiental. A ausência dessa política está refletida nos índices de desmatamento em todos os biomas, no aumento das queimadas, no desmonte dos órgãos de gestão, como é o caso do ICM Bio; de fiscalização e controle, como é o caso do Ibama; e nos órgãos de monitoramento, como é o caso do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe). Nós temos uma ação forte do governo, o tempo todo, no Congresso Nacional, para demolir a legislação ambiental brasileira. O ministro Ricardo Salles foi uma espécie de demolidor da gestão e da governança ambiental brasileira, ao longo do período em que ficou à frente do ministério do Meio Ambiente. Agora, nós temos o ministro que assume no lugar dele simplesmente para ficar fazendo o gerenciamento da massa falida. Nós estamos vivendo uma situação dramática, onde o mundo inteiro nos isola. É uma vergonha que o Brasil vá para uma reunião de reparação, a COP de Glasgow, e proponha um nível de emissão de CO2 que eleva a temperatura da Terra para uma média de 5ºC, quando o IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change, ou Painel Intergovernamental para a Mudança de Clima) acaba de lançar um relatório dizendo que nós já tivemos um aumento de temperatura de 1,09ºC, por ação humana, e que se a gente ultrapassar os 2ºC, a gente está comprometendo a vida no planeta. E o Brasil tem o desplante de propor uma meta de emissão de CO2 que eleva a temperatura da Terra para 5ºC. Ou seja, seria torrar o planeta. Hoje, quem ocupa o lugar do Salles é o presidente da Câmara dos Deputados, o deputado (Arthur) Lira (PP/AL). Eles estão fazendo a demolição da governança ambiental brasileira junto com o Bolsonaro.
“Passar a boiada” – Aquela frase (do ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles) é uma afronta a todo e qualquer interesse republicano. É uma afronta aos brasileiros e brasileiras que, naquele momento, já estavam vivendo um momento gravíssimo de penúria com perdas de vida. E o ministro acha que aquilo é uma oportunidade para fazer mais maldade, que seria, como ele mesmo disse: parecer, caneta, parecer, caneta, para passar a boiada. E, segundo ele, ganhar de baciada a destruição da Amazônia, a destruição do cerrado, a invasão de terra pública. E o reflexo daquela fala dele continua até hoje. O projeto que acaba com o licenciamento ambiental brasileiro faz parte da estratégia de passar a boiada. O projeto que acaba com os processos de demarcação de terras indígenas em função da mudança no marco temporal. E você veja que eles estão propondo que áreas que foram ocupadas de forma criminosa, por grilagem, possam ser regularizadas até 2014, em alguns casos até 2018. E, no marco temporal para os indígenas, que estão aqui antes da chegada dos portugueses, há milhares de anos, eles estão propondo que seja apenas naquelas que já estavam ocupadas até a Constituição de 1988. Veja que há dois pesos e duas medidas. Um outro reflexo dessa postura do governo é em relação à questão do licenciamento. Eles estão propondo acabar com ele. O licenciamento vai ser uma exceção. A maioria será por autodeclaração. Agora, você imagina o que aconteceu em Brumadinho e Mariana, com todas as exigências. Agora, se é por autodeclaração, é o fim de qualquer processo de licenciamento. Esse é o resultado daquela fala. Aquela reunião é, em si mesmo, a denúncia de tudo o que é anti-republicano.
Crise hídrica – É de altíssima gravidade. A gravidade em relação ao que está causando essa crise hídrica, que leva a que os reservatórios estejam num nível abaixo, o que prejudica o processo de geração de energia, se dá em função do problema das mudanças climáticas. Nós já estamos vivendo sob efeitos das mudanças climáticas. Aumenta a temperatura da Terra, há uma série de problemas e mudanças na formação dos processos de precipitação de chuva em várias regiões do mundo. É altamente complicado para o Brasil, que tem a sua maior fonte de geração de energia elétrica com base esses reservatórios. Por falta de aviso é que não foi. Há décadas está sendo avisado que os eventos extremos iam começar a acontecer se não freasse os processos de aumento de temperatura da Terra. As consequências são enormes. Aumento da tarifa de energia é repassar para os preços. Isso eleva a inflação. Ter um apagão no meio de uma crise econômica, com desemprego, com tudo o que está acontecendo, é aumento de desemprego, aumento de risco de abastecimento para alguns setores, prejuízo em todos os níveis. Então, nós vamos ter um grave problema em relação à nossa matriz energética. Aí você me pergunta: tem solução? Tem solução. É a diversificação da matriz energética. A diversificação no Brasil é perfeitamente possível. Uma série de pesquisadores tem dado uma grande contribuição para esse debate. Uma série de pessoas que sabem como deve se fazer para que a gente tenha uma matriz energética limpa, segura, diversificada, combinando a hidroeletricidade, que já temos, com energia solar, energia eólica, energia de biomassa, com geração distribuída, onde cada região vai produzir a sua energia, até para evitar desperdício.
Imagem do Brasil no mundo – A imagem do Brasil no exterior é a imagem de um pária na gerência ambiental. Acho que fui uma das primeiras pessoas a fazer essa afirmação de que o Brasil iria para um lugar de pária ambiental. É de um pária nos direitos humanos e um pária em relação à democracia. E isso em função dos dados objetivos da realidade. Qual é a postura do governo em relação ao que está acontecendo na saúde pública brasileira? É a pior condução da pandemia. Nós temos, hoje, um processo que caminha para termos 600 mil vidas perdidas. Segundo pesquisas e a opinião da comunidade médica, da comunidade científica, se o governo tivesse aplicado as coisas que vinham dando certo em outros países que viveram a situação antes do Brasil, se tivesse feito investimento em prevenção, se tivesse feito um investimento na compra e aquisição de vacinas eficientes, e de forma lícita, não com as propinas que estavam propondo, não fazendo propaganda de cloroquina, nós teríamos evitado a perda de pelo menos 400 mil vidas dessas mais de 500 mil, caminhando para 600 mil. Então, é um pária em saúde pública, em cuidado com o seu povo.
Anti-civilização – Bolsonaro é um negacionista, uma pessoa com uma visão reacionária sem padrão em relação aos direitos humanos, ao meio ambiente, a políticas sociais, ao respeito à diversidade social, aos povos indígenas. É algo sem padrão. Nunca se teve uma situação com esse nível de postura anti-civilização. No caso do ministro Ricardo Salles, e ainda bem que o delegado Saraiva fez a investigação, ainda bem que o delegado (federal Alexandre) Saraiva fez todo o investimento que deveria ser feito de investigar o próprio ministro. É a primeira vez que você vê uma ação dos órgãos de fiscalização e controle, da própria Polícia Federal, dando conta de que você tem a apreensão de um dos maiores carregamentos de madeira ilegal, feito em terra pública, de forma criminosa. E o ministro se posta ao lado dos criminosos em lugar de dar apoio ao Ibama, ao ICM Bio e à própria Polícia Federal. E mais: às vésperas da cúpula do clima, convocada pelo presidente Biden, o governo faz a exoneração do superintendente da Polícia Federal, que era superintendente do estado do Amazonas, como retaliação ao fato de ele estar punindo os criminosos. Em diferentes governos, houve dificuldades. Uns governos fizeram mais, outros fizeram menos. Uns apoiavam mais essa agenda, outros apoiavam menos. Mas, nunca se teve um ministro antiambientalista no Meio Ambiente. Ele ficou do lado das pessoas que tocaram fogo nas viaturas do Ibama, do ICM Bio, no estado de Rondônia. Foi para Rondônia para se solidarizar com os criminosos. Ele ficou do lado dos madeireiros ilegais. O governo Bolsonaro é incompetência, mas é também uma estratégia, porque ele quer voltar para uma economia do início do século XX, sem regra. Os grandes projetos de mineração, de exploração de madeira, de pecuária ilegal, de grandes rodovias, de hidrelétricas, e vão inundando tudo, e ainda diminuir as terras dos povos indígenas, as unidades de proteção. Quando eu fui ministra, nós conseguimos fazer uma redução de desmatamento em 83%, durante quase uma década, com o plano que foi feito durante a minha gestão, o plano de prevenção e controle ao desmatamento da Amazônia. No governo Bolsonaro, em menos de três anos, nós já somos responsáveis por 1/3 das florestas virgens que foram destruídas no mundo.
PT inaugura fake news em 2014 – As eleições de 2014 foram as eleições que inauguraram um processo de violência política como estratégia de derrotar o adversário. Sempre tivemos polarização, mas em 2014, na campanha da ex-presidente Dilma (Rousseff, PT) com o (marqueteiro) João Santana, encetaram na política brasileira a estratégia do ódio como forma de ganhar uma eleição para além dos processos de caixa 2, que fizeram com que o próprio João Santana tivesse que devolver mais de R$ 70 milhões. Essas eleições, que já foram polarizadas, se aprofundaram para 2018. E em 2018 nós tivemos uma eleição que não foi em cima de projetos. Ela foi em cima de um sentimento de desconstrução, quase de vingança, porque o PT e o PSDB, que foram os partidos que ficaram por mais tempo no governo após a reconquista democrática (1985), fizeram coisas importantes na política social, na política econômica, ganhos que tivemos, mas também tiveram erros gravíssimos de decepcionar a sociedade em relação a problemas de corrupção, de ficarem no poder com a lógica de ficar 20 anos, e aí vale tudo para permanecer 20 anos. Na eleição de 2018, as pessoas votaram em Bolsonaro não porque queriam construir, mas porque queriam se vingar, queriam destruir alguma coisa. E eu nunca me submeti a fazer o jogo da polarização perversa. Desde 2010, eu entrei na cena política brasileira para discutir um projeto de país em que tivéssemos a manutenção das conquistas do Plano Real, da política social, e que colocássemos a questão da sustentabilidade e do combate à desigualdade de forma estruturante, como o terceiro eixo dos esforços do Brasil, criar um novo ciclo de prosperidade. E sempre disse: quero fazer o debate, não o embate, ainda que colocando as coisas com firmeza. Em 2018, mantive a mesma postura, porque não acho que vale tudo para ganhar uma eleição.
Ataques religiosos – Feito de desconstrução em 2014, foi um debate duplo, onde uns me acusavam de ser fundamentalista evangélica e outros me acusavam de não ser evangélica, porque eu não fazia discurso de ódio em relação a temas de costume. Eu dizia que era contra o aborto, mas que se deveria fazer o debate. Que já temos uma lei que estabelece a possibilidade do aborto para casos de estupro, quando tem riscos para a mãe ou quando temos uma criança que está sendo gerada sem o cérebro, esta forma já está instituída por decisão da Justiça. E que se fosse para ampliar para além do que já existe, que, em lugar de ser uma decisão do Congresso, que fosse, como é em vários países do mundo, através de um plebiscito. Isso era dito por aqueles que gostam de espalhar fake news no mundo evangélico de que eu seria uma falsa evangélica, de que eu estaria defendendo o aborto, uma série de coisas, porque as mentiras vêm de todos os lados. Obviamente, eu não faço o mesmo discurso de ódio. Não vou ficar fazendo discurso de ódio contra a população LGBT, não vou dizer que o Brasil deve ter um governo teocrático. O Brasil é um Estado laico, e o estado laico é uma conquista da reforma protestante. Os evangélicos têm que se apropriar desse legado, porque foi graças à separação do Estado com a Igreja que nós pudemos ter, no mundo, a separação para que escolas, hospitais e instituições de pesquisa pudessem estar separadas da Igreja. Nós não podemos fazer esse debate de que você vai ser presidente da República para favorecer um grupo ou para impor, por uma lei civil, a sua fé ou a fé de quem quer que seja à sociedade. Do mesmo jeito que você não pode fazer uma lei para que as pessoas deixem de ter a sua crença.
Fake news da fé e laicas – Eu sempre dizia: o eleitor tem que saber o que eu penso para poder fazer livremente a sua escolha. E é nisso que eu acho que nós estamos cometendo um erro: é a instrumentalização da fé pela política e a instrumentalização da política pelo mau uso em relação à fé. Nós temos que ter cidadãos que não importa se são católicos, evangélicos, espíritas, judeus, o que eles tiverem de fé, ou ateus. Que se coloquem. Quem faz a escolha é a sociedade brasileira. Agora, eu nunca escondi a minha fé. E paguei um preço por isso. Eu fui, durante muitos anos, do PT. Era católica, quase fui freira. Depois, me converti à fé cristã evangélica. Em 2014, começaram a espalhar mentira de que, se eu fosse eleita, iria acabar com o Círio de Nazaré, iria acabar com a ideia de o Brasil ter Nossa Senhora Aparecida como padroeira, que iria proibir videogame, acabar com Bolsa Família; Minha Casa, Minha Vida; Pronatec, ProUni, todos os programas. Era como se eu fosse uma demolidora, uma exterminadora do futuro. Essas fake news tiveram um peso e, com certeza, refletiram em 2018. E continuam se refletindo até hoje.
Antes de receber a facada que o elegeu, em um dos pucos debates presidenciais de que participou em 2018, Bolsonaro foi enquadrado por Marina na RedeTV!, em 17 de agosto daquele ano, por “pegar a mãozinha de uma criança e ensinar como é que faz para atirar. É esse o ensinamento que você quer dar? Você acha que pode resolver tudo no grito, na violência?” (Foto: Diego Padgurschi – Folhapress)
Invisibilidade — Quase todos os dias eu estou participando de debates como este e me posicionando o tempo todo nas minhas redes sociais, da forma como eu posso. Sou de um partido pequeno, é uma escolha de não ter, digamos assim, estruturas faraônicas que eu não teria como explicar. Tenho uma equipe pequena. Mas, o meu partido, com os nossos parlamentares, o tempo o tempo todo a gente está na cena política brasileira fazendo debate de forma muito relevante. É só ver o que a (deputada federal) Joênia (Wapichana, Rede/RR) está fazendo, o que o (senador Fabiano) Contarato (Rede/ES) está fazendo, o que o (senador) Randolfe (Rodrigues, Rede/PE) está fazendo, um excelente trabalho na CPI. E eu participo de todo esse esforço, junto com a nossa porta-voz, Heloísa Helena (ex-senadora). Mas, dizem que eu estou sumida. Isso é uma forma autoritária de querer invisibilizar uma posição política que não diz o que os polos querem que você diga. A política não é para você fazer adesão de rebanho. Eu tenho um pensamento, que se alinha ao de muitas pessoas do Brasil. E não sou obrigada a dizer o que os polos querem que eu diga. Mas, como eu não digo o que eles dizem, aí eles dizem que eu não estou participando do debate, como forma de invisibilizar uma pessoa. E isso eu sei que é feito em relação a mim. Inclusive, a violência que foi feita contra mim em 2014 tem a ver com o fato de eu ser mulher, preta, de origem humilde, de não estar dentro dos padrões, que são: “Se você quer estar aqui, fica embaixo do meu guarda-chuva”.
Incoerências da esquerda brasileira – Eu não posso ter um discurso de defesa da democracia para o Brasil se não faço o mesmo discurso em relação à Venezuela. Não posso defender direitos humanos no Brasil se eu não os defendo na Venezuela, em Cuba, onde quer que seja, porque nós temos que orientar a nossa nação pelos princípios e valores. E é isso que eu tenho feito, tenho ajudado a contribuir.
Dar a outra face – Ninguém nunca me viu fazendo discurso, de vingança, ficar mentindo. Em todos os meus programas eu colocava que nós não iríamos usar estratégia de desconstrução, de aniquilação de biografias, mesmo sofrendo aniquilação. Eu sempre dizia que é preferível sofrer uma injustiça do que praticar uma injustiça. Eu acho que a gente precisa recuperar a nossa capacidade de conversar, de dialogar, mesmo quando a gente tem diferenças. Nós estamos virando um país atomizado, cindido, completamente pulverizado em micropolarizações que não nos interessam, só interessam aos grupos que querem se perpetuar no poder, que fazem do poder o seu fim principal. Em lugar de usar como uma ferramenta para tratar da saúde, do meio ambiente, da educação, onde de cada 10 jovens do ensino básico, do ensino médio, três não vão retornar à escola. Isso é de uma gravidade tamanha que sequer a gente consegue precificar o prejuízo de tudo isso hoje.
Saída do governo Lula — Na verdade, a fake news, a notícia falsa, é a mentira. É usar a mentira como estratégia de aniquilar o seu adversário. Isso é uma forma de violência política. É demolir. Eu não podia revidar as mentiras que estão sendo ditas pela campanha da presidente Dilma espalhando mentiras a respeito da presidente Dilma. Quer ver uma situação? Fui perguntada certa vez se eu havia saído do governo em função de divergências com a presidente Dilma por causa das hidrelétricas. Naquele contexto, inclusive eu era candidata, se eu fosse usar a lógica da fake news, eu poderia até dizer que sim, porque havia divergências entre nós. Mas eu não saí do governo em função de uma divergência específica naquele episódio. A divergência foi em relação ao plano de prevenção e controle ao desmatamento, em que nós tínhamos tomado medidas fortes de vedar o crédito para os desmatadores ilegais, porque havia uma tendência de alta de 2007 para 2008. O governo de Mato Grosso, junto com o governo de Rondônia, começou a pressionar o presidente Lula para revogar as medidas dizendo que nós estávamos exagerando, que os dados do Inpe estavam errados, como o presidente Bolsonaro faz agora ao dizer que o Inpe está errado. O que eu fiz? Entrei em um avião junto com o governo (Blairo) Maggi (PP/MT), desafiei, indo visitar, mostrando que nós estávamos certos, para defender o Inpe, o ministério da Ciência e Tecnologia. Porque é assim que um homem e uma mulher pública devem fazer: não devem deixar tripudiar das instituições públicas, onde os servidores estão fazendo um trabalho científico, competente, e deixar os criminosos ficarem dizendo que você está errado e eles estão certos, que era o que os madeireiros e os destruidores de florestas ficavam dizendo. Então, eu saí por divergências com o ministro (da secretaria de Assuntos Estratégicos) Mangabeira Unger, que estava, junto com o governo Maggi, induzindo o presidente Lula a revogar as medidas do plano.
Gabinete do ódio do PT – As fake news existiram em 2014. Não com esse nome, mas foi uma estratégia de violência política para mentir em profusão, para aniquilar uma pessoa. E o que me entristece é que, quando eu fui avisada de aquilo ia ser usado contra mim. A revista Veja fez uma capa, e fúria, era um monte de canivete, navalha, uma imagem terrível, de que aquilo estava sendo jogado contra mim. Quando eu fui avisada de que alguém da própria campanha da presidente Dilma falou para alguns dos meus colaboradores, durante um debate de uma das emissoras, não sei se era Band ou Record, que agora partiriam para o ataque para aniquilar a Marina. A pessoa veio me falar isso, e eu disse que as pessoas não fariam isso comigo, porque as pessoas me conhecem. A gente tem uma vivência de décadas. Disse que talvez a pessoa tivesse falado isso para tentar me desestabilizar durante o debate, para criar uma coisa de ficar preocupado, que não fariam isso. E, por incrível que pareça, fizeram. Não digo que foram todos, imagino que existam pessoas dentro do PT que eram contra. Mas, dentro da estratégia da campanha, foram minoria. O que prevaleceu foi a estratégia de desconstrução de biografias. O problema é que tem gente que é conivente quando é o seu lado que faz. Depois, quando aparece o gabinete do ódio com nome de “gabinete do ódio”, fica todo mundo apavorado, aparecem os robôs. Mas isso vem acontecendo há muito tempo.
Autocrítica – Nós não fomos sábios de aprender com os erros dos outros de que a mentira não é a melhor forma de se construir algo. Agora, não podemos ser estúpidos de não aprender com os nossos próprios erros. É fazer a autocrítica desses processos e nos reconectar com as formas legítimas, democráticas e éticas de se fazer política, porque existe uma ética até para a guerra. Então, não há um espaço sem limite. Não vale tudo para ganhar uma eleição. Eu dizia que prefiro perder ganhando do que ganhar perdendo. E, em todas as campanhas das quais participei, eu sempre ganhei perdendo, porque você preserva os princípios, preservas os valores. Hoje, eu posso estar dizendo isso, porque, se eu tivesse combatendo fake news, gabinete do ódio, tendo praticado ódio e fake news, com certeza estaria um pouco enfraquecido o meu discurso. Mas a gente pode caminhar daqui para frente, a gente pode reconhecer erros, a gente pode mudar e ressignificar experiências que são altamente dolorosas para a democracia, para o Brasil e para a melhoria da qualidade da política. A democracia pressupõe alternância de poder. Você não pode ter um projeto de país que só funciona com um partido, só funciona com um grupo. Você tem que ter um projeto de país que, independente da ideologia do partido. Na educação, é por aqui que queremos ir: educação de qualidade. No meio ambiente, queremos juntar economia com ecologia. Na defesa dos direitos humanos e da democracia, não vamos ter discurso de conveniência, de defender a democracia aqui e não defender na Venezuela, por exemplo.
Corrupção sabota a democracia — Eu acho e concordo que (a eleição presidencial de 2014) foi a primeira vez que a terceira via conseguiu uma musculatura, uma força gravitacional, e poderia, de fato, ter rompido a polarização (entre PT e PSDB), se tivéssemos uma disputa em situações normais. Mas, vamos fazer um pouco da arqueologia do que tinha por baixo ali. Além de estarem na superfície as fake news, as mentiras, o ódio, a desconstrução, a gente tinha algo muito poderoso, que era o dinheiro do caixa 2. Então, você está concorrendo pelos meios lícitos, da forma correta pelo ponto de vista da narrativa do discurso e dos meios financeiros para viabilizar uma campanha. Você já tinha uma disparidade em relação ao tempo televisão. Eu tinha acho que eram dois minutos e 20 segundos, e a campanha da presidente Dilma tinha algo em torno de 12 minutos, a campanha do Aécio não sei se eram quatro ou cinco minutos. Então, já havia ali uma grande disparidade. Mas, depois, com as investigações, a gente verificou que o que havia sido declarado tinha o dobro não declarado. Então, havia uma série de fatores que acabam interferindo na decisão democrática e soberana do povo brasileiro. O dinheiro da corrupção é uma forma de sabotar a democracia. Ainda que se defenda a democracia, você tem que compatibilizar a democracia com os meios compatíveis com ela. Se você extrapola esses meios, há uma interferência também no processo democrático. Não é democrático que você use da mentira, não é democrático que você use do caixa 2, não é democrático que você use do abuso de poder político e econômico. Mas, naquele momento, havia, sim, uma possibilidade de ter uma alternância de poder que não fosse no terreno do revezamento da polarização.
Sem salvador da pátria – O que eu tenho insistido é no que eu sempre dizia, desde 2010: as coisas boas nós vamos preservar, fazendo os devidos ajustes em relação ao Plano Real para as realidades que se configuravam após a crise de 2008, fazendo os devidos aperfeiçoamentos no Bolsa Família. Vamos manter o que eu chamava de programas sociais de terceira geração. Eu sempre partia do princípio de que o PSDB deu uma contribuição com o Plano Real, o PT deu uma contribuição com as políticas sociais, e era momento de fazer o critério: política econômica, política social e política de desenvolvimento sustentável. Foi com esse espírito que eu participei de todas as campanhas, numa perspectiva de fazer o debate, fortalecer a democracia, fazer com que o Brasil criasse um novo horizonte, inclusive renunciando esse lugar de salvador da pátria, porque é um problema essa lógica de salvador da pátria. É por isso que se coloca toda força no nome da pessoa e não no programa, porque o programa é algo que você, como cidadão e cidadã, pode cobrar. Nos processos de 2014 e 2018, infelizmente, tivemos ênfase não no programa. E agora está sendo cometido o mesmo erro, mesmo diante de uma situação que clama por um horizonte para o Brasil. Hoje, temos um governo que ocupa os ministérios, ocupa a função da presidência da República, para não fazer nada que seja construtivo. É tudo para destruir.
Golpe por corrosão – Bolsonaro faz um processo, hoje, no Brasil, que eu chamo de uma espécie de golpe por ocupação corrosiva da democracia, das instituições e da própria Constituição brasileira. Não tem política pública. Como é que se tem, dentro do governo do Brasil, um grupo de pessoas que não estão fazendo política pública e no pior momento da nossa história em termos econômicos, sociais, de saúde pública, ambiental, e isso não se é considerado crime de responsabilidade e não se tenta uma alternativa para parar de prejudicar o Brasil? Nesse contexto, é preciso um horizonte, um debate com os diferentes setores da sociedade.
Terceira via em 2022 – Eu tenho insistido nisso no campo que a gente vinha debatendo da Rede. Inclusive, o ministro Ciro Gomes (PDT), que se colocou como candidato desde o início, eu respeito, porque ele fez isso logo em seguida à eleição de 2018. Eu tenho dito: vamos fazer o debate em torno das ideias, porque a polarização faz o debate em torno dos nomes. Vamos fazer em torno do programa e depois verificar qual é o melhor nome para tornar o programa vitorioso. Isso aconteceu em Bogotá, com a candidatura da prefeita de Bogotá, a Claudia López. Era um campo debatendo, e depois, como ela performou melhor para ser a vitoriosa, todos apoiaram a sua candidatura. Na Argentina, acontece muito esse debate dentro do próprio peronismo, e depois eles conseguem afunilar em torno de um candidato. No caso do Brasil, nem seria uma prévia. A terceira via no Brasil, a alternativa à polarização, seria fruto de um debate com os empresários, com os trabalhadores, com as mulheres, com os jovens, com os indígenas, com os diferentes setores da sociedade, para que a gente possa estar aliançado e comprometido com essa base de sustentação. E depois? Quem é a pessoa que tem melhores condições de ganhar e implementar esse programa? É essa a construção que eu me disponho a fazer, com esforço de continuar tentando quebrar essa polarização.
Entre Lula e Bolsonaro — Vou repetir uma frase que eu sempre dizia em todas as campanhas, quando me falavam de pesquisas, mesmo quando eu estava em alguns momentos performando muito bem, até na frente, como foi quando assumi a dianteira (da corrida presidencial) em 2014. Sempre digo que a pesquisa é importante, é uma ferramenta da nossa democracia. Mas, é uma fotografia de um momento que não pode ser tido como petrificado, como estabilizado. Essa fotografia vai mudando, porque a paisagem política eleitoral também vai mudando de acordo com as novas conformações. Eu tenho dito que, no meio dessa polarização, as duas candidaturas, os dois nomes, entre o ex-presidente Lula e o presidente Bolsonaro, existe, sim, espaço para uma terceira via, e essa terceira via precisa ser construída no dia a dia do processo até 2022, quando ele se finalizar com a escolha daquele que eu espero, da terceira via, que possa ir ao segundo turno. E por que eu acredito que é possível essa construção? Desde que tenhamos a estratégia e a humildade de reconhecer que a terceira via não acontecerá por construção só dos partidos ou só dos nomes que porventura estejam postos. Terá que ser uma construção, uma escolha da sociedade. É a sociedade quem tem que pensar, a partir do debate que é feito com ela, para a sociedade escolher se quer continuar reproduzindo essa polarização, que já aconteceu ao longo de séculos e décadas, e que vem acontecendo a partir da reconquista da democracia. Ou se quer estabelecer um padrão em que a própria sociedade quer se sentir vitoriosa, mostrando, inclusive, aos polos, que é preciso dar um basta.
Potencial do Brasil – Não tem como ter desenvolvimento sustentável sem democracia. Não tem como encarar o grave problema do estrutural contra os pretos, contra as mulheres, sem democracia. Então, a democracia é algo que deve estar como um sustentáculo, e esse sustentáculo é para que a gente tenha um projeto de país que seja, ao mesmo tempo, economicamente próspero, socialmente justo, politicamente democrático, culturalmente diverso, como é a realidade do nosso país, e ambientalmente sustentável. Porque o Brasil é uma potência ambiental, e nós podemos ser uma potência agrícola, uma potência cultural, mas o que nos dá a identidade é o fato de sermos o país que tem a maior floresta tropical do mundo; é o fato de sermos um país que tem 11% da água doce disponível do mundo; é o fato de sermos o país que tem 350 milhões de hectares de área agricultável; é o fato de sermos o país que pode ter uma matriz energética 100% limpa, criando um novo ciclo de prosperidade, de emprego, de produtos, de materiais. O Brasil não é o lugar da ascensão, é o lugar do novo renascimento. Eu olho para o Brasil e, paralelo a esse mundo pior, do desemprego, das pessoas perdendo suas vidas por negligência, do abandono das mulheres chefes de família, e vejo um mundo melhor. Mas, não um mundo construído por um salvador da pátria. Um mundo que é construído por todos nós, não como um destino, mas como um processo. Eu peço muito a Deus para que a gente possa fazer essa construção.
“Bolsonaro é risco à democracia” – Eu acho que o segundo turno a gente tem que discutir no segundo turno. No primeiro turno, a gente tem que colocar as balizas, deixando muito claro que o mais importante é a democracia, e que o Bolsonaro é um risco, sim, à democracia, por essa ocupação corrosiva que ele já faz, golpista, das nossas instituições democráticas. Ele não está governando, está destruindo o que encontrou. Agora, nós vamos e temos que trabalhar com essa ideia do programa para que a terceira via esteja no segundo turno. Eu acredito nisso e vou trabalhar por isso.
Esperança, opção e escolha – Não faço um discurso que negligencia o cuidado, desde o início, com aquilo que está acima de nós. É por isso que eu tenho dito: nesse momento de tanto sofrimento do povo brasileiro, com o desemprego, com a perda dos seus entes queridos, com a falta de horizonte para os nossos jovens, vendo os nossos cérebros dizendo que podem sair do Brasil, criando uma situação de desesperança, a gente tem que se reconectar com a esperança dizendo que a liberdade só acontece quando a gente tem o direito de escolha. Quando você só tem duas coisas, isso não é escolha, é opção. Você tem que optar entre uma coisa e outra, mas já está determinado: ou é A ou é B. A liberdade pressupõe o terceiro. E é por isso que, desde 2010, eu tento contribuir, inclusive com aqueles que estão nos polos, com a introdução do terceiro, porque aí, de fato, é de escolha. E quando não existe ainda, a gente constrói. E, nesse momento, eu estou imbuída dessa construção. No segundo turno, é a oportunidade de você debater duas vezes, olhar duas vezes, escutar duas vezes. E eu espero que a terceira via esteja lá para poder fazer esse debate.
Reforma política – A reforma política não acontece, o que acontece é sempre reforma eleitoral de conveniência, onde os partidos que têm orçamentos bilionários para campanhas, de fundo partidário, sempre fazem o ajuste para ver como é que fica melhor para eles. O tempo todo, mesmo os partidos programáticos, que são pequenos, como o PCdoB, o Cidadania, a Rede, o PV, partidos que são programáticos, não são siglas de aluguel. Dizem que tem que acabar com pequenos partidos porque eles são um risco para a democracia, são siglas de aluguel, eles se alugam. Não esses que eu mencionei. E o que eles fazem como resposta? Eles privilegiam os que alugavam, para que tenham mais poder e continuem como o monopólio da política. E dizem: “Não, as propostas que estão aí eu sou contra, distritão, distritão misto”. Porque, de fato, tem problemas. Mas, não é porque enfraquece os partidos, porque enfraquece a democracia. Eles fazem um debate dizendo que vai enfraquecer os partidos. Olha só a distorção. Vai enfraquecer a democracia. E, para fortalecer a democracia, é preciso que se tenha partidos programáticos.
Fim da reeleição e candidaturas independentes – É preciso que tenha uma reforma política que acabe com a reeleição, introduza as candidaturas independentes. Ter uma candidatura independente é algo que é bom, inclusive, para ter um concorrente idôneo com os partidos políticos. Tem muita gente boa que gostaria de estar com a política, mas, se for entrar para um partido, ele sabe que não tem chance, porque os caciques já estão instalados. É por isso que a Rede, na última eleição, em 2018, elegeu cinco senadores. São pessoas que não tinham nenhuma chance nesses grandes partidos. E, mesmo que a maioria destes não estejam mais na Rede, são pessoas que não nos envergonham. O senador Alessandro Vieira (SE), que está hoje no Cidadania, faz hoje um excelente trabalho, mas ele só teve chance pela Rede Sustentabilidade. Por isso que as candidaturas independentes, e a Rede tem esse mecanismo das candidaturas cívicas, isso é muito importante: uma reforma política que estabeleça que, a partir de agora, o mandato de quem for eleito em 2022 continuará sendo só de quatro anos, e que, a partir de 2026, será de cinco anos sem reeleição, porque reeleição é um problema. As pessoas não fazem o que é necessário para o país, fazem o que é necessário para se manterem no poder. Isso é um prejuízo para os interesses da sociedade. Então, eu defendo que a gente faça um debate para que a gente possa avançar com uma terceira via que faça uma transição para um novo ciclo de prosperidade econômica, social, cultural, que não seja esse processo anti-civilizatório do Bolsonaro, mas também que a gente tenha um novo ciclo de prosperidade política no Brasil, em que a gente melhore a qualidade das instituições, que a gente trabalhe a inovação política. O mundo mudou, a sociedade hoje é altamente conectada, não quer ser mais só espectadora da política.
Candidatura a presidente? – Eu me coloco no debate para a construção do programa da terceira via, reconhecendo todas as dificuldades de todo esse processo político. Eu já contribuí por três vezes e me sinto tranquila para participar do debate com o espírito de verificar o nome que terá maior força gravitacional para ser vitorioso. A partir disso, aqueles que estão no debate da terceira via e tenham essas melhores condições, todos devem estar aí dispostos. Mas, eu sei das dificuldades que a Rede tem de toda a desconstrução que foi feita em 2018 e agradeço a Deus e ao povo brasileiro por continuar viva e de pé. Este é um momento em que a gente tem que se reconectar com os princípios, com os valores. As pessoas estão dando duro para sobreviver. É em nome disso que a gente tem que olhar de baixo para cima, não de cima para baixo, para ver o que está acima de nós. Acima de nós está um Brasil que precisa estar unido em torno daquilo que interessa. É essa a construção que eu quero fazer.
“A verdade está entre nós” — Democracia é isso, é a gente debater ideias. Cada um tem uma ideia. Gosto muito de uma frase que diz que a verdade não está com nenhum de nós, está entre nós. E a gente não deve reproduzir o ódio do agressor, porque senão a gente se transforma nele. Então, é ter esse cuidado o tempo todo. Se a gente se transformar naquilo que a gente combate, a gente já foi derrotado.
Confira em vídeo, nos três blocos abaixo, a íntegra da entrevista de Marina Silva ao Folha no Ar da manhã de sexta (20):
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) segue sangrando popularidade. Divulgada na segunda (17), a pesquisa XP/Ipespe já havia registrado seu recorde negativo na avaliação do governo federal: 63% dos brasileiros o desaprovam, enquanto 29% aprovam e 8% não souberam opinar. Com metodologias diferentes, são quase os mesmos números da nova pesquisa PoderData, divulgada hoje (19): 64% dos brasileiros desaprovam a administração Bolsonaro, enquanto 31% aprovam e 5% não souberam responder.
(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Em outra avaliação de governo, a má fase do capitão junto à população também se repetiu. Na XP, seu governo é ruim ou péssimo para 54% dos brasileiros, enquanto 23% o consideram ótimo ou bom, com 20% de regular. Por sua vez, na Poder Data, 56% classificam o governo como ruim ou péssimo, 28% como ótimo ou bom, com 13% de regular. A XP foi realizada entre 11 e 14 de agosto, ouvindo 1 mil pessoas, com margem de erro de 3,2 pontos para mais ou menos. A PoderData foi feita entre 16 e 18 de agosto, ouvindo 2,5 mil pessoas, com margem de erro de 2 pontos.
(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Lula lidera corrida presidencial
A XP também estendeu sua pesquisa à eleição presidencial de 2022, daqui a pouco mais de 1 ano. Na consulta estimulada, houve dois cenários, alterando alguns nomes. No primeiro, Lula liderou a corrida isolado, com 40%. E foi seguido de Bolsonaro, com 24%; de Ciro Gomes (PDT), com 10%; Sérgio Moro (sem partido), com 9%; e Luiz Henrique Mandetta (DEM) e Eduardo Leite (PSDB), com 4% cada. No segundo cenário, Lula também liderou, com 37%. Mas com uma diferença menor para Bolsonaro, com 28%; Ciro, com 11%; Mandetta e João Doria (PSDB) e José Luiz Datena (PSL), com 5% cada; e Rodrigo Pacheco (DEM), com 1%.
Segundo turno e rejeição
Competitivo no primeiro turno, bem à frente das opções da chamada “terceira via”, Bolsonaro perdeu todas as simulações de segundo turno feitas pela XP. Não só contra Lula (51% a 32% ao petista), mas também contra Ciro (44% a 32% ao pedetista), Moro (36% a 30% ao ex-juiz federal), Doria (37% a 35% ao governador paulista), Mandetta (38% a 34% ao ex-ministro da Saúde), Leite (35% a 33% ao governador gaúcho). Contra os quatro últimos, a desvantagem do presidente está dentro da margem de erro da pesquisa, configurando empate técnico. Ele tem a maior rejeição, com proibitivos 61%, seguido de Lula, com também altos 45% que dizem não votar nele de jeito nenhum.
Pefil do eleitor antibolsonaro e bolsonarista
A PoderData não estendeu sua pesquisa à eleição presidencial de 2022. Mas, restrita à aprovação de governo, mapeou o perfil do eleitor mais avesso e mais fiel de Bolsonaro. Os mais críticos a ele são mulheres (66%), de 16 a 24 anos (76%), da região Nordeste (72%), de ensino superior (66%) e ganham entre dois a 10 salários mínimos (65%). Os mais fiéis ao presidente são homens (37%), de 60 anos ou mais (39%), da região Norte (52%), têm ensino médio (34%) e ganham mais de 10 salários mínimos (38%).
(Infográfico: Poder 360)
Cientistas políticos de Campos analisam
Hamilton Garcia, cientista político e professor da Uenf
— As duas pesquisas mostram o equívoco do Bolsonaro de ter optado por polarizar com o vírus, brigando com a realidade ao invés de governar e enfrentar os problemas. De outro lado, o Lula acertou ao ficar na moita, em não se expor, em mostrar certa moderação, pelo menos desde que saiu da cadeia e foi colocado na condição de candidato pelo Supremo. Acho que as pesquisas estão espelhando essas estratégias de um e outro lado. E a fragmentação do campo político continua grande. O somatório de todos aqueles que não estão com o Lula ainda é expressivo. Mas resta saber se a dinâmica política vai beneficiar essa terceira via. Isso ainda está em aberto —avaliou o cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf.
Vitor Peixoto, cientista político e professor da Uenf
— Deve estar batendo desespero nos estrategistas dos candidatos a candidato da terceira via. Bolsonaro ainda mantém um núcleo duro muito consistente de eleitores entre 24% e 28%. É um patamar muito alto para ser ultrapassado na corrida para quem irá enfrentar o Lula. Quanto à pesquisa PoderData, a avaliação de governo é o principal preditor de voto quando se tem o titular na disputa. E não há grandes mudanças nesse cenário. A estratégia do Bolsonaro, de jogar cortina de fumaça a todo momento, não tem funcionado. Mas ele mantém um núcleo duro, que para a terceira via é péssimo. Se eu tivesse com expectativa de ganhos com a terceira via, apostaria numa derrubada do Bolsonaro, via acordo com Mourão — projetou o cientista político Vitor Peixoto, também professor da Uenf.
A partir das 7h da manhã desta sexta, quem fecha a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é historiadora e ambientalista Marina Silva (Rede), ex-senadora, ex-ministra do Meio Ambiente nos governos Lula (PT) e candidata a presidente da República nas eleições de 2010, 2014 e 2018. Ele falará sobre a política ambiental do Brasil e a imagem que ela dá ao país no mundo. Analisará também a questão do voto evangélico e o histórico das fake news, entre as eleições presidenciais de 2014 e 2018.
Por fim, Marina vai avaliar o governo Jair Bolsonaro (sem partido) e dará sua projeção para as urnas de 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Vice-presidente da Caixa Econômica Federal, Tatiana Thomé recebeu hoje, com outros diretores do banco estatal, o prefeito Wladimir e a deputada Clarissa (Foto: Divulgação)
O alongamento do pagamento de Campos à Caixa Econômica Federal (CEF) da cessão de crédito, dando como garantia os royalties do petróleo do município, popularmente conhecida como “venda do futuro”. Firmado em maio de 2016, pela então prefeita Rosinha Garotinho (hoje, Pros), os pagamentos iriam até maio de 2026, prazo que agora pode ser estendido. Essa foi a alternativa discutida na tarde de hoje em Brasília, na sede da CEF, entre a sua vice-presidente, Tatiana Thomé, e outros diretores da instituição financeira, com o prefeito Wladimir Garotinho (PSD) e a deputada federal Clarissa Garotinho (Pros), anunciada ontem (17) neste blog.
— Estivemos reunidos na sede da Caixa Econômica Federal, com a vice-presidente Tatiana Thomé, o corpo técnico e a deputada federal Clarissa Garotinho para iniciar as tratativas de acordo sobre o não pagamento da cessão de crédito pela gestão passada. Campos é uma grande cidade e vai retomar o seu poder de negociação e credibilidade. Sem olhar para trás, não temos tempo a perder — disse o prefeito Wladimir.
Só que a Caixa recorreu e, tudo indica, conseguirá reverter, caso a questão se resolva em litígio na Justiça. Sem acordo, Campos teria não só que efetuar os pagamentos futuros acima dos 10% dos seus royalties e Participações Especiais (PEs), como tudo acima deles que não foi pago desde 2017, mais os respectivos juros. Como definiu o procurador-geral do município, Roberto Landes: “seria impagável para Campos e ‘irrecebível’ para a Caixa”.
— Finalizamos agora reunião com a vice-presidente da Caixa Econômica Federal, com toda a sua equipe, para renegociar a dívida de Campos deixada pela administração anterior, que não honrou as parcelas da cessão de crédito feita com o banco. Nossa gestão sempre foi bem recebida nos órgãos do governo porque sempre teve credibilidade e honrou os contratos. Não será diferente agora. Nosso mandato está comprometido em apoiar os municípios e prefeitos do nosso Estado, principalmente em Campos onde meu irmão Wladimir Garotinho foi eleito resgatando a confiança da população. Time que trabalha junto é mais forte — disse Clarissa.