Moro x Bolsonaro por vaga no segundo turno com Lula

 

Sergio Moro, Jair Bolsonaro e Lula da Silva (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

O governo Jair Bolsonaro (sem partido) vai conseguir aprovar a sua PEC dos Precatórios, também conhecida como PEC do Calote nas pessoas físicas e jurídicas com dívidas transitadas em julgado na Justiça a receber da União? Para furar o teto de gastos e, segundo todos os economistas, agravar ainda mais uma inflação de mais de 10%, que o Brasil com sua população pobre hoje comendo osso não vivia desde a implantação do Plano Real em 1994?

No Senado é muito pouco provável que a PEC do Calote passe como veio da Câmara. Onde foi aprovada em dois turnos, a troco das emendas sem fiscalização do Orçamento Secreto aos deputados que votaram a favor — Mensalão de Bolsonaro cujo pagamento foi barrado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Mas, e se passar no Senado, para permitir o pagamento do Auxílio Brasil de R$ 400,00, este terá o efeito eleitoral desejado em 2022?

É muita coisa para combinar com os russos, na advertência do gênio Garrincha ao técnico Feola na Copa de 1958. Mas se a resposta a qualquer pergunta dos dois parágrafos acima for não, Bolsonaro passa a correr o risco de não estar no segundo turno da eleição presidencial. Como tudo até aqui indica que o ex-presidente Lula (PT) lá estará, quem hoje se apresenta para substituir o capitão é seu ex-ministro da Justiça, Sergio Moro (Podemos).

Em 22 de outubro, foi confirmado que Moro se filiaria ao Podemos, provavelmente para se candidatar a presidente da República. Animava o partido uma pesquisa interna que dava ao ex-juiz federal 10% de intenção de voto, ponto de partida razoável para tentar furar a polarização Lula/Bolsonaro. A primeira pesquisa divulgada depois disso foi a PoderData, feita entre 25 e 27 de outubro. Nela, Lula ficou com 35%, seguido de Bolsonaro, com 28%. E a novidade foi Moro em terceiro lugar, com 8%, já ultrapassando, mas ainda em empate técnico, Ciro Gomes (PDT), com 5%. O cearense mantinha a terceira posição durante todo o ano.

No início de novembro, foi realizada a pesquisa Quaest. Que deu Lula com 48%, seguido de Bolsonaro, com 21%. Seguidos de Moro, com 8%, em novo empate técnico com Ciro, que bateu 6%. Com 13 pontos a mais de intenções de voto com que apareceu na PoderData, Lula levaria a eleição no primeiro turno pela Quaest, com mais de 50% dos votos válidos, excetuados os 10% de votos brancos e nulos, além dos 4% de indecisos.

Da projeção à realidade, mesmo tendo alcançado seu recorde de 87% de popularidade em 2010, último ano do seu segundo mandato, Lula nunca levou a presidência no primeiro turno. Em 2002, venceu no segundo a José Serra (PSDB); em 2006, contra Geraldo Alckmin (PSDB). Desde que o segundo turno foi adotado no Brasil, em 1989, apenas Fernando Henrique Cardoso (PSDB) conseguiu a façanha. Em 1994 e 1998, bateu Lula e todos os demais em um só turno.

Feita entre 3 e 6 de novembro, a pesquisa Quaest foi divulgada só no dia 10. Curiosamente, foi o mesmo dia em que, marcado desde outubro, Moro se filiou ao Podemos. Demonstrando treinamento com media training e fonoaudiólogo, o ex-juiz federal de voz fina e esganiçada falou grosso: “Chega de corrupção, chega de Mensalão, chega de Petrolão, chega de rachadinha. Chega de Orçamento Secreto”.

 

 

“Ao contrário do que se esperava, em seu discurso não se limitou a falar do combate à corrupção. Tratou com propriedade de questões econômicas, sociais, ambientais e de gestão pública. Enfatizou a necessidade de erradicação da pobreza, defendendo a combinação de programas de transferência de renda com acesso à educação e oportunidades de trabalho, e propondo a criação de uma força tarefa a ser formada por servidores e especialistas. Também fez a firme defesa da liberdade de imprensa e acenou para os militares com a valorização das Forças Armadas como instituição de Estado. Assumiu o compromisso com o fim da reeleição e do foro privilegiado”, resumiu em bom artigo publicado ontem, sem declaração de simpatia, o consultor em estratégia Orlando Thomé Cordeiro.

Lula com o líder alemão Olaf Scholz, o francês Emmanuel Macron e o espanhol Pedro Sánchez (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Desde fevereiro, com o jornalista Luiz Carlos Azedo, do Correio Braziliense, Orlando esteve entre os primeiros articulistas políticos brasileiros a registrar a resiliência de Moro no tabuleiro eleitoral de 2022. Ambos, o consultor e o jornalista, têm sólida formação de esquerda. Que brilhou com Lula em seu tour na Europa. Ele foi recebido como chefe de estado pelo futuro chanceler da Alemanha, Olaf Scholz, no dia 12; pelo presidente da França, Emmanuel Macron, no dia 17; e ontem (19) pelo primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez.

No dia 15, Lula discursou e foi aplaudido de pé no Parlamento Europeu, na Bélgica. Quando aproveitou para elogiar Alckmin, transformando seu tradicional adversário em São Paulo e na eleição presidencial de 2006 em pré-candidato a compor sua chapa em 2022. Aos olhos do Brasil e do mundo, acenou com sua capacidade de conciliação. Falando numa Europa que se recusa a reconhecer a radicalidade obscurantista de Bolsonaro como a cara do Brasil.

 

 

O contraste de Lula na União Europeia, com a viagem de Bolsonaro a ditaduras teocráticas do Golfo Pérsico, incensadas por ele como exemplo a ser seguido pelo Brasil, é autoexplicativo. Dispensa legenda a qualquer cultura humana da Terra. Também ontem, enquanto Lula se reunia com o premier espanhol no Palácio da Moncloa, em Madri, foi divulgada a primeira pesquisa presidencial após a filiação de Moro ao Podemos. Da Ponteio Política, feita entre 16 e 18 de novembro, deu Lula com 37%, Bolsonaro, com 24%; Moro, com 11%; e Ciro, com 8%.

Ainda restam as prévias do PSDB deste domingo (21). A previsão é que dê João Doria, que não deve ter nenhuma chance real com Bolsonaro e Moro já à sua frente na corrida. Governador gaúcho que realiza um grande trabalho em seu estado, Eduardo Leite seria candidato muito mais promissor. Mas poderia ter problemas por sua homossexualidade assumida em um país onde 13,7% da população, como numa ditadura teocrática do Golfo Pérsico, declara não votar em candidato homossexual por obscurantismo religioso.

Analistas políticos de todo o país apostam que Moro deve se descolar além do empate técnico com Ciro nas próximas pesquisas. Para tentar diminuir sua diferença de intenção de votos para Bolsonaro. O ex-juiz já está virando em um setor muito caro ao capitão do Exército. Também ex-ministro deste, militar mais brilhante da sua geração, conservador e democrata, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz esteve presente na filiação de Moro.

Já se cogita que Santos Cruz se lance eleitoralmente no Rio de Janeiro pelo Podemos, para dar palanque no estado ao ex-juiz. Assim como o vice-presidente, general Hamilton Mourão, descartado por Bolsonaro na chapa de 2022, criticou o Orçamento Secreto. Que já custou mais de R$ 20 bilhões aos cofres públicos entre 2020 e 2021. E é o único motivo pelo qual o Centrão e seu presidente da Câmara Federal, Arthur Lira (PP/AL), seguram até hoje os mais de 120 pedidos de impeachment do presidente da República. Seu vice também analisou com simpatia contida a pré-candidatura de Moro, mas ressalvou que falta a este falar com o povo.

Mourão não está errado. Todas as pesquisas apontam as dificuldades de Moro no Nordeste e com os pobres. Não por acaso, são os mesmos segmentos mais refratários a Bolsonaro, que conta com o Auxílio Brasil para tentar chegar. E aos quais Lula, na lembrança do Bolsa Família em que transformou o Bolsa Escola herdado de Fernando Henrique, ainda fala como ninguém. É esta a cara que a Europa reconhece como a do Brasil. Noves fora a corrupção do Petrolão, ou a de quem julgou parcialmente o caso para ajudar a colocar o Centrão no comando do país.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Caio confirma pré-candidatura de Neves a governador

 

Rodrigo Neves e Caio Vianna (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Considerado a possibilidade de terceira via mais viável para tentar furar a polarização entre o governador Cláudio Castro (PL) e o deputado federal Marcelo Freixo (PSB) na disputa pelo Palácio Guanabara em 2022, o ex-prefeito de Niterói Rodrigo Neves (PDT) manterá sua pré-candidatura? Segundo informou ontem o jornalista Cláudio Magnavita em sua coluna no carioca Correio da Manhã, o PDT teria recomendado a Neves se candidatar a deputado federal. Aliado de Rodrigo, o campista Caio Vianna (PDT) negou:

— A informação não procede. Estamos andando todo o estado, fazendo um trabalho de escuta junto à população e apresentando a plataforma o Rio que queremos. Acredito que esse tipo de informação seja um ataque fomentado por forças políticas que não querem enfrentar o Rodrigo no pleito a governador, tentando desconstruir a única pré-candidatura com experiência de gestão comprovada e com capacidade de amplo diálogo para reconstruir nosso estado. O Rodrigo está unindo e renovando o partido em todo estado, em torno desse projeto. E nós apoiamos ele nessa nobre missão — garantiu Caio, secretário de Ciência e Tecnologia de Niterói, município governado por Axel Grael (PDT), eleito com apoio de Neves em 2020.

Por sua vez, Cláudio Magnavita informou ontem em sua coluna:

— O silêncio de Axel Grael, prefeito de Niterói, quanto ao colapso de Rodrigo Neves (no comando do município que governou por dois mandatos consecutivos e na sua pré-candidatura a governador) já foi percebido. Ao desidratar, Neves cede a pole position da política da cidade a quem tem a caneta na mão. Em reunião, o PDT recomendou que Rodrigo Neves tente conquistar uma vaga na Câmara Federal. Conselho também dos seus advogados, que acham positivo de um mandato e de foro especial — informou o Correio da Manhã, referindo-se aos problemas de Neves com a Justiça. Que já custaram sua prisão entre dezembro de 2018 e março de 2019, na operação Alameda, desdobramento da Lava Jato, sobre um suposto de pagamento de propina por empresários do setor de transportes a agentes públicos de Niterói.

Rodrigo negou todas as acusações, dizendo ter passado 92 dias preso sem nunca ser ouvido ou ser considerado réu. Depois de voltar ao comando de Niterói ele teve a sentença positiva da sua cidade. Em 2020, elegeu Grael, seu ex-vice-prefeito e ex-secretário de Planejamento, com 62,56% dos votos válidos, ainda no primeiro turno. No segundo turno municipal, Neves concentrou suas atenções em Caio, que disputou a Prefeitura de Campos com Wladimir Garotinho (PSD). Mesmo que este tenha vencido, o trabalho do então prefeito de Niterói tirou muito da grande diferença de votos de Wladimir para Caio no primeiro turno, em trabalho que impressionou os analistas da política goitacá.

Já nomeado secretário de Ciência e Tecnologia de Grael em Niterói, Caio voltou a Campos em 16 de julho deste ano. Veio com Rodrigo Neves e o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi. O político campista lançou sua pré-candidatura a deputado federal, cargo a que concorreu em 2018, e Neves a sua pré-candidatura a governador.

 

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Saúde, Agropecuária e Wladimir no Folha no Ar desta 6ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta sexta (19), o convidado para fechar a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é Frederico Paes (MDB), produtor rural, industrial do açúcar e do álcool e vice-prefeito de Campos. Com larga experiência também como dirigente hospitalar, ele falará sobre a Saúde Pública e a retomada da centenária vocação agropecuária de Campos. Analisará também erros e acertos dos 11 primeiros meses do governo Wladimir Garotinho (PSD).

Por fim, Frederico tentará projetar as eleições estadual e federal de 2022, inclusive do seu grupo político. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Deputado Christino leva cafeicultura fluminense a Brasília

 

Reunião hoje no ministério da Agricultura agendada por Christino Áureo, deputado federal de Macaé, em defesa da cafeicultura fluminense (Foto: Divulgação)

 

O deputado federal Christino Áureo (PP) se reuniu, nesta quarta-feira (17), com representantes do setor cafeeiro fluminense e do ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), em Brasília. Na pauta, a discussão de pontos que preocupam os cafeicultores em relação à consulta pública que está sendo realizada, com vistas a editar um normativo para sistemas de controle da qualidade do café torrado, moído e comercializado.
A reunião aconteceu de forma presencial/virtual e foi uma solicitação da Associação de Cafeicultores do Estado do Rio de Janeiro (Ascarj).

Participaram do encontro o secretário de Defesa Agropecuária do Mapa, José Guilherme Leal; o diretor Glauco Bertoldo; o coordenador-geral do ministério, Hugo Caruso; e a superintendente federal de Agricultura do Estado do Rio de Janeiro, Stella Romanos; além dos representantes da Ascarj: o presidente Moacyr Carvalho Filho; a vice-presidente Laura Tassinari; o vice-presidente José Ferreira Pinto e o superintendente Daniel Mac Mahon Bastos.
Representante de cerca de 3 mil cafeicultores fluminense, a Ascarj trabalha para que as modificações na legislação possam inviabilizar os produtores de comercializarem seu produto industrializado, qualificando-o e remunerando melhor essas famílias.

Para o ministério da Agricultura, as sugestões trazidas permitirão fazer uma diferenciação clara entre os produtores oriundos da agroindústria de base familiar e os demais, o que se refletirá em menores custos para que essas agroindústrias cumpram as normas. Garantindo, assim, apoio a esse segmento, que precisa ser expandido, especialmente no estado do Rio, onde 93% das propriedades têm menos de 100 hectares — mais de 50% tem até 10 hectares. Christino Áureo destacou que sua ligação com a cafeicultura do Estado do Rio de Janeiro é de longa data:

— Há mais de 20 anos venho acompanhando o setor, tendo participado diretamente da criação da Ascarj na virada dos anos 90 para os 2000. E pude não só realizar esse encontro, como também vou acompanhar a sua evolução. O objetivo é buscar um entendimento e uma solução que proteja os cafeicultores e que possa separar esse segmento daqueles que praticam fraudes, que prejudicam o consumidor e que levam à má qualidade do produto.

A superintendente de Agricultura do MAPA no Rio de Janeiro, Stella Romanos, ressaltou que o Noroeste Fluminense é responsável por 80% da produção cafeeira no estado do Rio. É seguido da região Serrana, que produz 19%, e do Vale do Café, que produz 1%.

— A característica principal dos produtores do Noroeste é que são base da agricultura familiar, e grande parte tem uma pequena torra em suas propriedades, motivo pelo qual a preocupação com a referida Portaria. A ação do deputado federal Christino busca uma diferenciação na Portaria para esses produtores — explicou Stella.

Do Noroeste Fluminense, Varre-Sai é i município que mais produz café no estado do Rio. Possui 600 produtores e muitos deles comercializam seus produtos já industrializados, em pequenas torrefações.

Para o técnico do Mapa e vice-presidente da Ascarj, José Ferreira Pinto, a preocupação dos representantes do setor cafeeiro é não conseguir cumprir todos os itens do regulamento técnico:

— A reunião foi muito produtiva. O secretário de Defesa Agropecuária do Mapa, José Guilherme, ficou sensibilizado com a preocupação da Ascarj, no sentido de que os produtores que comercializam seus cafés industrializados não terem meios para cumprir todos os itens do regulamento técnico. O secretário deixou claro que nenhum produtor e pequenas torrefações serão prejudicados com as novas exigências do regulamento técnico. Temos muito a agradecer ao deputado federal Christino Áureo, que sempre esteve defendendo os interesses do setor cafeeiro fluminense e viabilizou esta reunião tão importante, junto ao ministério da Agricultura, em Brasília.

 

Da assessoria do deputado Christino Áureo.

 

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Lula cresce e Bolsonaro encolhe aos olhos do mundo

 

Líder em todas as pesquisas presidenciais a 2022, Lula foi recebido pelo presidente francês Emmanuel Macron em Paris, enquanto Bolsonaro fez motociata com os apoiadores que levou a Doha, capital do Qatar (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Ricardo Noblat, jornalista

O contraste entre as viagens de Bolsonaro e de Lula

Por Ricardo Noblat

 

Se, no momento, Lula e Bolsonaro são os principais candidatos a presidente da República ano que vem, e se eles estão em viagem a outros países, um na Europa, outro no Golfo Pérsico, o natural seria que a imprensa brasileira acompanhe os passos dos dois.

Verdade que Bolsonaro está em campanha desde que subiu pela primeira vez a rampa do Palácio do Planalto. A condição de presidente lhe garante uma grande exposição. Quanto a Lula, é a primeira viagem internacional que faz depois de tornar-se elegível.

Foi preciso, contudo, que o presidente francês, Emmanuel Macron, o recebesse com honras só devidas a um chefe de Estado para que a imprensa acordasse e conferisse ao fato o destaque merecido. Hoje, Lula se encontrará com o presidente espanhol.

Lula poderia ter sido ignorado pelos líderes europeus, mas não foi. Reuniu-se também com o próximo chanceler da Alemanha. Em visita oficial, os líderes das ditaduras do Golfo Pérsico jamais poderiam ter ignorado Bolsonaro. Não por ele, mas pelo Brasil.

Dizia-se antigamente que o brasileiro sofria do complexo de vira-lata. O complexo perdeu força entre 1994 e 2018, quando o país foi governado por Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer. Com Bolsonaro, o brasileiro é o próprio vira-lata.

Enquanto Lula e Macron repassavam alguns dos problemas que afligem o mundo, Bolsonaro, ao desembarcar em Doha, capital do Catar, foi participar de uma “motociata”. De saída, avisou a árabes perplexos que seu secretário de Cultura é hétero.

Antes, em Dubai, capital dos Emirados Árabes Unidos, ele havia dito a empresários que não há incêndios na Amazônia porque a floresta é úmida. Foi lá que ele produziu barulho com o anúncio de que suspendera sua filiação ao PL de Valdemar Costa Neto.

Depois, em Manama, capital do Reino do Bahrein, Bolsonaro inaugurou a nova sede da embaixada do Brasil, jantou com empresários e pegou o avião de volta acompanhado por sete ministros, dois de seus três filhos (Flávio e Eduardo) e amigos.

A irrelevância do seu périplo contrasta com a distinção do périplo ainda inacabado do seu adversário. Bolsonaro foi passear como gosta de fazer. Coleciona lembranças dos países que visita e também gafes inesquecíveis. Lula foi fazer política, e deu-se bem.

 

Publicado no Blog do Noblat, no site Metrópoles.

 

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Rafael e Wladimir sob análise no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quinta (18), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o advogado José Paes Neto, professor do Isecensa e ex-procurador-geral de Campos. Ele analisará as causas dos 151,4 mil votos que elegeram o governo Rafael Diniz (Cidadania) no primeiro turno de 2016 terem diminuído a apenas 13,5 mil votos em 2020. Também falará dos ataques generalizados à administração municipal passada, sob silêncio do ex-prefeito, e analisará os 11 meses da atual, de Wladimir Garotinho (PSD).

Por fim, José Paes tentará projetar as eleições estadual e federal de 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Bolsonaro, Lula, Moro e 3ª via enquanto Centrão governa

 

Presidenciáveis Jair Bolsonaro, Sergio Moro e Lula

 

 

 

Brasil de 2022 na Folha FM

“Bolsonaro não é cachorro morto”.  A advertência, relativa à eleição presidencial de 2022, foi feita na manhã de ontem pelo analista político Ricardo Rangel, colunista da revista Veja, na série de entrevistas com personagens nacionais feita no Folha no Ar, da Folha FM 98,3. Ex-diretor da Conspiração Filmes, Ricardo tem também sólida militância na cultura brasileira. E, ainda que não tenha sido eleito, foi bem votado a deputado federal pelo estado do Rio em 2018, pelo Novo. Que deixou pela aproximação de parte do partido com o governo Jair Bolsonaro (sem partido). Do qual é crítico, mas sem perder o pragmatismo na análise.

 

Ricardo Rangel, analista político e colunista da revista Veja, entrevistado do Folha no Ar de terça

 

Terceira via: ainda é cedo?

“A terceira via ainda não decolou. Isso é um fato. Mas ainda falta bastante (mais de 10 meses) para a eleição. O eleitor médio ainda não está tão preocupado com política. O eleitor que já está preocupado com isso é o bolsonarista e o lulista. O eleitor da terceira via não está polarizado. Por todas as pesquisas, o eleitorado está dividido em três terços: um terço ou menos que vota em Bolsonaro, um terço ou mais que vota em Lula, e um terço que não vota em nenhum dos dois. Esse vai votar, lá na frente, na opção mais bem posicionada. É cedo para decretar a morte da terceira via”, também advertiu ao Folha no Ar o colunista da Veja.

 

“Moro é direita que não deu certo”

Ricardo também analisou criticamente a pré-candidatura a presidente do ex-juiz federal e ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, Sergio Moro (Podemos): “Ele falou muito bem, obviamente está com profissionais de media training, de fonoaudiologia. Mas não considero o Moro uma terceira via de verdade, porque é muito associado ao Bolsonaro, é um projeto de direita que não deu certo. Ele ficou um ano e meio lá e, inclusive, perseguiu os inimigos do Bolsonaro e dele mesmo. E a gente sabe o que a Vaza-Jato revelou sobre o seu comportamento como juiz. Ele tira votos do centro e da direita. Então acho que o Moro tumultua sem ajudar”.

 

PT e Lula sem resposta

Sobre a liderança do ex-presidente Lula em todas as pesquisas a 2022, o analista político projetou questionamentos inevitáveis. E, até aqui, sem resposta. “Até hoje, o PT nem reconheceu o que fez no poder, nem que houve erro. Mensalão, Petrolão e a nova matriz econômica, que destruiu a economia brasileira com Dilma, o PT faz de conta que não existiu. Mas isso vai ser muito discutido na campanha eleitoral. Por enquanto, o Lula não está sendo muito criticado, mas na campanha vai apanhar muito. A gente viu que o Ciro (Gomes, PDT) fez uma provocação sobre isso e ele (Lula) fingiu indignação. O fato é que ele não tem resposta”.

 

O inaceitável e o indesejável

Ainda assim, para Ricardo Rangel, “Bolsonaro é pior do que Lula”. “O Pedro Passos (empresário, sócio da Natura) é que disse (em entrevista a O Globo, publicada em 3 de outubro) que a gente não pode ficar obrigado a escolher entre o ‘inaceitável’ e o ‘indesejável’. O inaceitável, naturalmente, é o Bolsonaro, e o indesejável é o Lula. A rejeição ao Bolsonaro é maior do que ao Lula. Então é mais fácil tomar votos do Bolsonaro do que do Lula. E a popularidade de Bolsonaro vai cair, mesmo com esse Auxílio Brasil. Porque o cenário econômico do ano que vem é de penúria, a gente já está com 10% de inflação”.

 

Capitão a presidente ou senador?

Apesar do prognóstico ruim ao inquilino do Palácio do Planalto, o colunista da Veja ressaltou à Folha FM: “O presidente da República é sempre um candidato muito forte. No Brasil, é raro perder, quase sempre se reelege. Então, tem que ser levado a sério. Bolsonaro não é um cachorro morto. Quem tem a máquina sempre pode ganhar”. Mas não descartou outro destino eleitoral ao capitão em 2022: “Se, mais perto da eleição, estiver claro que vai perder, ele pode vir a senador, no que ganharia com facilidade, para manter o foro privilegiado. São vários processos contra Bolsonaro e os filhos, que só não andam porque ele é o presidente”.

 

Irracionalidade no governo

Para Ricardo, a falta de lógica de Bolsonaro torna difícil prever seu futuro: “A gente sempre cai numa armadilha de procurar racionalidade nas decisões de Bolsonaro. Isso que acabou de acontecer, na briga com Valdemar (da Costa Neto, condenado pelo Mensalão e presidente do PL), ele (Bolsonaro) iria se filiar na semana que vem e desistiu. Ele pode se manter até o final, mesmo com a certeza da derrota. Ele pode achar que vai tentar dar o golpe de novo e que, dessa vez, vai conseguir. No 7 de setembro, ele queria dar um golpe de estado e convocou uma greve de caminhoneiro, que se faz para derrubar o presidente, não para manter”.

 

“O Centrão está no poder”

Liberal que não descarta se lançar novamente a deputado federal em 2022, Ricardo também foi questionado sobre o resultado do liberal Paulo Guedes como ministro da Economia. “Não há nada de liberal na gestão econômica do governo Bolsonaro. A esquerda adora falar de (John Maynard) Keynes (economista britânico), de o Estado colocar dinheiro na economia. Fazer isso num momento de emergência é uma ideia liberal. O que não é liberal é o Estado botar dinheiro na economia sempre. A reforma da Previdência, até Lula teria que fazer. Guedes escolheu a desonra. O Centrão está no poder, gastando dinheiro como se nada houvesse”.

 

Confira abaixo, em três blocos, a íntegra da entrevista de Ricardo Rangel ao Folha no Ar de terça. O tratado na coluna é o terceiro:

 

 

 

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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PDT do vereador Leon Gomes no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quarta (17), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o vereador de Campos Leon Gomes (PDT). Ele falará sobre a bandeira em defesa dos autistas e outros portadores de necessidades especiais, que ele e outros edis levantam no Legislativo goitacá. Neste, falará também da posição da bancada pedetista entre as orientações de Caio Vianna, presidente municipal do partido e secretário de Ciência e Tecnologia de Niterói, e o apoio ao governo Wladimir Garotinho (PSD).

Por fim, Leon falará da pré-candidatura de Ciro Gomes pelo PDT a presidente da República e tentará projetar as eleições de 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Analista da Veja projeta 2022 no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta terça (16), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o analista político Ricardo Rangel, colunista da revista Veja. Ele falará das recentes eleições da atriz Fernanda Montenegro e do compositor Gilberto Gil à Academia Brasileira de Letras (ABL), e do cenário da cultura no país. Falará também das eleições das bancadas estadual e federal, e para governador do RJ.

Por fim, Ricardo analisará as chances da terceira via na polarização Lula (PT) x Jair Bolsonaro (sem partido) no pleito presidencial de 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Um entre cada quatro campistas na probreza extrema

 

População de rua improvisa abrigo no Jardim São Benedito (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

 

Povo de Campos tem fome!

O governo Wladimir Garotinho (PSD) celebrou esta semana o aumento do atendimento da secretaria de Desenvolvimento Humano e Social (SDHS), em todas as suas pontas com a população carente de Campos. A comparação entre os períodos de janeiro a setembro de 2020 e 2021 apontam avanços concretos na área social, em atendimentos, serviços e concessão de benefícios. As 4.065 cestas básicas distribuídas nos nove primeiros meses do ano passado, nos nove primeiros deste ano já chegaram a 10.117 — aumento de 149%. Foi o índice que registrou maior crescimento. E revela o mais grave problema hoje do povo campista: a fome!

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Um entre cada quatro campistas

Pelo CadÚnico do governo federal, o município de Campos tem 50.246 famílias em situação de extrema pobreza, com renda mensal de até R$ 89,00. Individualmente, seriam hoje 135.222 campistas. Sem censo nacional desde 2010, o IBGE de 2021 estima 514.643 pessoas residentes em Campos. No cruzamento dos dados, é possível afirmar que 26,3%, ou mais de um entre cada quatro campistas, estão em condições de extrema pobreza. A situação reflete a grave crise do país, com a condução da pandemia da Covid-19 e da economia pelo governo Jair Bolsonaro (sem partido) criticada por todos os especialistas, no Brasil e no mundo.

 

Mudanças?

O percentual da miséria em Campos pode ser um pouco menor, caindo de 26,3% a 22,2%, se estiverem certas as estimativas que apontam para 600 mil pessoas vivendo hoje no município. Mas, mesmo sem melhora significativa na vida dos 135 mil campistas que hoje têm dificuldade para comer, o percentual da extrema pobreza pode crescer ainda mais. No artigo 20 da sua proposta de criação do Auxílio Brasil — novo nome ao Bolsa Família dos governos do PT, que por sua vez rebatizou o Bolsa Escola criado no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) —, Bolsonaro quer subir para renda familiar de R$ 100,00 a classificação de extrema pobreza.

 

Campos espelha o Brasil

É positivo que o governo Wladimir mostre vigor no atendimento às urgentes demandas sociais. Capacidade que é fruto do aumento das receitas petrolíferas. De janeiro a novembro de 2021, o município recebeu de royalties e Participações Especiais (PEs) 79,6% a mais que o mesmo período de 2020. Ainda assim, não é preciso ser especialista para constatar o reflexo local da crise brasileira. Basta sair às suas ruas de Campos e testemunhar o aumento exponencial dos pedintes e população de rua. Mas o que pensam os especialistas da cidade do aumento da miséria? E de como os governos municipal e nacional têm lidado com ela?

 

Alcimar Chagas, economista e professor da Uenf

Visão do especialista (I)

“O crescimento do atendimento social em Campos tem dois motivos: a suspensão do Auxílio Emergencial federal, que durante o ano passado atendeu a 39% da população do município, além da falta de investimento público municipal em políticas de indução das atividades produtivas, que absorvem mão-de-obra de baixa e média qualificação. Entendo que a forma encontrada aos precatórios (PEC do governo aprovada na Câmara Federal e sob apreciação do Senado, para dar o calote em dívidas da União, furar o teto de gastos e bancar o Auxílio Brasil) pode não ser a mais adequada”, advertiu o economista Alcimar Chagas, professor da Uenf.

 

Fabrício Maciel, sociólogo e professor da UFF-Campos

Visão do especialista (II)

“O aumento da demanda social em Campos e todo o Brasil é resultado direto da política equivocada do governo Bolsonaro. O problema não é só orientação ideológica, mas a incompetência. A instabilidade política na qual o governo colocou o Brasil afeta diretamente a economia e gera esse aumento exponencial na miséria. O Auxílio Brasil é irresponsável e eleitoreiro. Sugere que vai atenuar a miséria, quando na verdade é apenas o remendo em um problema causado pelo governo. Substitui o Bolsa Família sem nenhuma discussão pública sobre o tema”, avaliou o sociólogo Fabrício Maciel, professor da UFF-Campos.

 

Vitor Peixoto, cientista político e professor da Uenf

Visão do especialista (III)

“A demanda reflete a tragédia social brasileira em consequência da pandemia e da forma que o governo federal a administrou. No nível municipal, a atual administração tem demonstrado alguma sensibilidade. A reabertura do Restaurante Popular é um dos exemplos e cumpre papel fundamental. A destruição do Bolsa Família exemplifica a incompetência federal. O Auxílio Brasil tem financiamento provisório, sem controle, sem regras claras. Cumprirá a função de liberar recursos às bancadas em ano eleitoral, com o furo do teto. Mas garantirá a sobrevida do governo com o Congresso”, definiu o cientista político Vitor Peixoto, professor da Uenf.

 

Valter Martins, assistente social e professor da UFF-Campos

Visão do especialista (IV)

“O desemprego em larga escala, a corrosão da renda pela inflação de 10,67% no acumulado anual e a má gestão econômica, política e epidemiológica do país acenam para uma catástrofe social. Que se expressa no crescimento da pobreza em Campos, aos olhos de quem caminha pelas ruas da cidade. Isso tem tensionado os serviços públicos da assistência social, especialmente os de segurança alimentar e nutricional. E tende a se agravar pelo governo Bolsonaro, se aplicado o calote da dívida pública para criar um programa populista até as eleições de 2022” projetou o assistente social Valter Martins, professor da UFF-Campos.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Gil na ABL — Poesia à poesia para falar com Deus

 

O compositor Gilberto Gil foi eleito ontem (11) para a cadeira número 20 da Academia Brasileira de Letras (ABL). É um passo adiante da tradicional instituição da literatura nacional, que teve como seu primeiro presidente ninguém menos que Machado de Assis, na sinergia com outras formas de arte. Que já tinha sido dado antes, ainda neste mês de novembro, com a eleição da grande atriz Fernanda Montenegro à ABL.

Em termos formais, muito se discute se a poesia musical pode ser considerada, ou não, poesia literária. Chico Buarque já disse que não. E recusou uma indicação à ABL, embora tenha considerável obra literária como prosista, à parte sua lida mais conhecida de compositor. Seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, assim como o poeta Carlos Drummond de Andrade, se comprometeram desde 1941 a nunca integrar a ABL, depois que esta elegeu entres seus membros o então presidente e ditador Getúlio Vargas.

Vários outros grandes escritores brasileiros nunca integraram a ABL. Na prosa literária, é significativa a ausência de mestres como Graciliano Ramos, Lima Barreto, Monteiro Lobato, Erico Verissimo, Clarice Lispector e Caio Prado Júnior. Na prosa das ciências humanas, além de Sérgio, o polímata Gilberto Freyre também nunca entrou. Na poesia, além de Drummond, são também os casos de Vinícius de Moraes, Cecília Meirelles, Mário Quintana, Dante Milano, Paulo Leminski e Manoel de Barros.

 

Poetas, diplomatas e amigos Vinícius de Moraes e João Cabral de Melo Neto

 

O exemplo particular de Vinícius é emblemático na suposta contraposição poesia literária x poesia musical. Se é inegável que ele se tornou muito mais conhecido do grande público por sua atividade de compositor, tinha amigos na poesia e na ABL, como o mestre pernambucano João Cabral de Melo Neto, que criticavam a opção do poetinha pela popularidade. Por conta da música, consideravam que o sonetista lírico e de técnica perfeita se dedicou aquém do que deveria à literatura.

Homero, pai de todos os poetas

Aparentemente resolvida agora com a eleição de Gil à ABL, a questão entre poesia musical e poesia literária é muito antiga. Pai de todos os poetas, o grego Homero fundou a literatura ocidental, com suas “Ilíada” e “Odisseia”, sem atentar a qualquer diferença. Com sua lira, o rapsodo ia literalmente cantando de cidade em cidade a tradição oral da Guerra de Tróia e do retorno à Grécia. Do século 8 a.C. de Homero, a poesia permaneceu 2,6 mil anos basicamente inalterada em sua estrutura entre rima (melodia), métrica (harmonia) e ritmo, tripé necessário para versos a serem cantados sobre um fundo musical. Demanda que qualquer repentista ou rapper de hoje, ciente ou não de Homero, conhece tão bem quanto ele.

Walt Whitman, poeta maior dos EUA

Até que em julho de 1855 (d.C.) o estadunidense Walt Whitman lançou seu revolucionário “Folhas da Relva”, livro que foi acrescendo de poemas novos até o final da sua vida. Com eles, o maior poeta dos EUA criou o verso livre, ainda com base em ritmo, mas já liberto da rima e da métrica. Além de semear tudo aquilo que depois chamaríamos modernismo, Whitman abriria, talvez sem dolo, a cisão entre poesia literária e musical.

Antes de Gil na ABL, outro grande compositor, estadunidense como Whitman, Bob Dylan parece ter encerrado essa “diáspora” da poesia pelo mundo, quando foi anunciado em outubro de 2016 como vencedor do Nobel de Literatura. Ao qual já tinham sido indicados, sem levar, os poetas brasileiros Jorge de Lima e Geraldo Melo Mourão, outros que nunca integraram a ABL. O fato é que, obedeça ou não à rima e à métrica ignoradas por muitos versejadores que se julgam poetas, mas sempre atenta ao ritmo, é inegável a influência da poesia sobre a própria poesia, seja ela musical ou literária.

 

Compositor dos EUA, Bob Dylan foi o Nobel de Literatura de 2016

 

Nessa afluência da poesia sobre si mesma, da nascente à foz, segue abaixo um dos tantos exemplos da poesia de Gil, em homenagem ao baiano que se disse agora “imortalmente mortal”. Feito por ele para falar com o Imortal. E que, junto ao mineiro Drummond, ao inglês William Shakespeare, ao paraibano Augusto dos Anjos, e ao cineasta sueco Ingmar Bergman, modestamente influenciou, talvez, o único poema confessional que cheguei a arriscar:

 

Se eu quiser falar com Deus

 

Se eu quiser falar com Deus

Tenho que ficar a sós

Tenho que apagar a luz

Tenho que calar a voz

Tenho que encontrar a paz

Tenho que folgar os nós

Dos sapatos, da gravata

Dos desejos, dos receios

Tenho que esquecer a data

Tenho que perder a conta

Tenho que ter mãos vazias

Ter a alma e o corpo nus

 

Se eu quiser falar com Deus

Tenho que aceitar a dor

Tenho que comer o pão

Que o diabo amassou

Tenho que virar um cão

Tenho que lamber o chão

Dos palácios, dos castelos

Suntuosos do meu sonho

Tenho que me ver tristonho

Tenho que me achar medonho

E apesar de um mal tamanho

Alegrar meu coração

 

Se eu quiser falar com Deus

Tenho que me aventurar

Tenho que subir aos céus

Sem cordas pra segurar

Tenho que dizer adeus

Dar as costas, caminhar

Decidido, pela estrada

Que ao findar, vai dar em nada

Nada, nada, nada, nada

Nada, nada, nada, nada

Nada, nada, nada, nada

Do que eu pensava encontrar

 

 

“Pois que, eu essência, não habito
Vossa arquitetura imerecida;
Meu Deus e meu conflito”

(carlos drummond de andrade)

 

sétimo selo

 

há os dias em que busco Deus

há aqueles em que topo o dedão

e O chamo de filho da puta

mas guardo na cômoda, por utopia

um pequeno grão de mostarda

e o amor da carpintaria

 

eu, quase sempre distante

como filho criado por outros

numa ilha sem fé no mar

e às vezes, meu Deus, tão seu íntimo

agarrado como uma criança

a quem a salvou de se afogar

 

minha imagem e semelhança?

falho demais para meu Deus

— teria mais em conta um gorila

ou a árvore que o aproxima do céu

 

caminho em sua vida

abençoado por sua sorte

encontro marcado com a morte

delirando chorar como hamlet

na certeza química dos anjos

nas dúvidas de antonius block

 

campos, 11/12/06

 

A Morte e o cavaleiro cruzado Antonious Block, vivido pelo ator Max von Sydow, jogam xadrez em “O Sétimo Selo” (1956), obra prima do cineasta Ingmar Bergman

 

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Consórcio Bolsolira constrói candidatura viável a 2022

 

Jair Bolsonaro e Artur Lira

 

 

Vera Magalhães, jornalista

Consórcio Bolsolira tem outras vidas

Por Vera Magalhães

 

Game over? Não, diferentemente dos videogames em que uma jogada encerra a partida, a maioria formada pelo Supremo Tribunal Federal para disciplinar a excrescência chamada emenda do relator ao Orçamento não põe fim à aliança entre Jair Bolsonaro e Arthur Lira, que tem como horizonte a campanha à reeleição do presidente. Por isso, ainda que haja razões concretas para celebrar a decisão do STF, a oposição não deve achar que o jogo acabou. O consórcio Bolsolira ainda tem outras vidas.

O Supremo deu um recado eloquente ao Congresso: o Orçamento não pode ser uma peça privada, voltada a garantir maioria ao governo e benefícios aos parlamentares, sem nenhuma transparência ou prestação de contas aos órgãos de controle.

Como escrevi aqui na última sexta-feira, antes de a ministra Rosa Weber conceder liminar paralisando os pagamentos via orçamento secreto, um instrumento assim desigual conspurca a democracia. Tanto Rosa quanto a ministra Cármen Lúcia salientaram esse aspecto em seus votos.

O placar formado de pronto para referendar a decisão de Rosa também tem outro aspecto importantíssimo: mostrar que o Judiciário não é suscetível a ameaças de retaliação vindas de Lira e seu grupo.

Atingido em cheio no seu poder imperial de distribuir dinheiro rápido e sigiloso em troca de votos, o presidente da Câmara agiu como se os membros do Judiciário estivessem sujeitos à mesma tutela que ele exerce sobre seus pares. Não colou, e outros cinco ministros fizeram questão de deixar isso patente antes mesmo da votação em segundo turno de outra anomalia chamada PEC dos Precatórios.

Isso significa que Bolsonaro não conseguirá mais dar suas pedaladas e avançar no vale-tudo fiscal para se reeleger, com a ajuda de Lira? Não necessariamente. Ficará menos rápido e menos eficaz fidelizar deputados com emendas, mas outras rubricas virão se a RP9, a via rápida do fisiologismo, permanecer interditada.

Eles tentarão aprovar um remendo de transparência para dar uma satisfação ao Supremo e tentar retomar o mecanismo. Se não colar, transferirão os recursos para outro tipo de emenda.

Além disso, Bolsonaro trata de avançar numa outra costura em que, mesmo impopular, com a inflação comendo solta e o desemprego galopante, está muito mais adiantado que a oposição, inclusive o PT: a construção de um palanque para 2022.

Na surdina, fez uma jogada malandra: deve se filiar ao PL, que ameaçava deixar a base aliada para até cair no colo de Lula, e ter o PP, que por muito tempo foi seu plano A, na chapa, indicando o vice.

De novo é o consórcio Bolsolira em ação. As emendas do relator eram importantes para que o casamento fosse registrado em cartório? Sem dúvida. Eram condição sine qua non? Vamos vendo que não.

Se conseguirem abrir a clareira fiscal no teto de gastos, outra inconstitucionalidade flagrante, além de um crime contra as contas públicas por que o país pagará pelas próximas décadas, Bolsonaro e Lira ganharão mais recursos para novas emendas (RP9 ou seja quais forem) e também para promover um fundão eleitoral anabolizado de que PP e PL se beneficiarão.

Junte-se a isso a expectativa de ministros e parlamentares do Centrão de que o Auxílio Brasil tratará de resgatar Bolsonaro do limbo da popularidade, vai-se construindo, com a ajuda de uma oposição bastante atordoada, uma candidatura viável daquele que é o pior presidente da História do Brasil.

Incrível, não?

Para evitar essa sucessão de descalabros, o Supremo tem sido o único bastião confiável, corajoso e cioso de seu papel. Oposição, TCU, Ministério Público, até o Senado oscilam e por vezes não enxergam o que vai se configurando: o maior e mais caro estelionato eleitoral, para o qual vale dar calote em dívida judicial, arrombar o teto e sabe-se lá mais que truque.

 

Publicado em O Globo.

 

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