Lula segue muito bem e Bolsonaro mal na 1ª pesquisa de 2022

 

Primeira pesquisa presidencial de 2022, a Genial/Quaest continua apontando a possibilidade de vitória do ex-presidente Lula (PT) ainda no primeiro turno. Com 45% de intenções de voto na pesquisa estimulada, ele segue liderando a corrida com folga. E é seguido pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), com 23%; pelo ex-juiz federal Sergio Moro (Podemos), com 9%; pelo ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT), com 5%; pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB), com 3%; e pela senadora Simone Tebet (MDB), com 1%.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza o Cássio Jr.)

 

Descontado o total de 12%, entre os 8% de brancos e nulo e os 4% de ainda indecisos, Lula se elegeria presidente em turno único, com 51,4%. Ele também venceu todas as simulações da pesquisa ao segundo turno. Nele, o petista bateria Bolsonaro por 54% a 30%, Moro por 50% a 30%, Ciro por 52% a 21% e Doria, por 55% a 15%.

 

 

A economia (desemprego, inflação e crescimento econômico) foi apontada como principal problema do país para 37% dos brasileiros. Já para 28%, é a saúde e a pandemia da Covid, enquanto 13% apontam as questões sociais (fome, pobreza, desigualdade e habitação) e apenas 9% a corrupção. É uma grande inversão de prioridades entre o eleitor brasileiro entre 2018 e 2022.

 

 

Símbolo da luta contra a corrupção na história recente do país, como figura de proa do julgamento e condenação do Mensalão do governo Lula, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa, segundo o jornalista José Amado, declarou que votaria no petista num eventual segundo turno contra o atual presidente da República. Para o ex-ministro do STF: “Bolsonaro é abjeto”.

 

 

O capitão tem seu governo avaliado como negativo por 50% dos brasileiros, enquanto 25% apontam como regular e 22% (praticamente seu mesmo percentual de intenções de voto) como positivo. A avaliação negativa é majoritária até entre os que recebem o Auxílio Brasil, considerado a última cartada de Bolsonaro para tentar se reeleger. Entre os que residem em domicílio que tenha alguém recebendo o benefício federal, criado para substituir o Bolsa Família, a administração federal é considerada negativa para 53%, regular para 28% e positiva para apenas 17%.

 

 

Embora em segundo lugar como principal problema do país, a chegada da Ômicron tem feito a preocupação com a Covid crescer. Já são 69% os brasileiros que se dizem muito preocupados (eram 62%, segundo a Genial/Quaest de dezembro, crescimento de sete pontos) com a pandemia. Dooutro lado, são 25% pouco preocupados e irrisórios 6% nada precoupados. Por sua vez, em entrevista hoje de manhã, Bolsonaro disse que a nova variante Ômicron “não tem matado ninguém” e que ela é “bem-vinda” no Brasil.

 

 

Outra aposta errada do capitão, como quase todas na condução da pandemia, está relacionada à campanha difamatória, com uso indiscriminado de fake news, contra a vacinação das crianças entre 5 e 11 anos. Cuja imunização foi liberada pela Anvisa desde 16 de dezembro, mas até hoje, 27 dias depois, ainda não teve início, condenando pequenos brasileiros à infecção, internação e morte pela doença. Bem mais cientes da realidade que seu presidente, 72% da população disseram querer vacinar as crianças agora, com 20% (outro índice próximo ao de intenções de voto do capitão) achando que não.

 

 

A sucessão de erros de Bolsonaro no governo tem dado continuidade ao sangramento da popularidae que o elegeu presidente. Entre os que votaram nele em 2018, a avaliação negativa também supera a positiva. Só neles, o governo está pior do que se esperava para 36%; nem melhor, nem pior para 34% e melhor do que se esperava para 29%.

 

 

A pesquisa Genial/Quaest foi feita entre 6 e 9 de janeiro, ouvindo 2 mil eleitores em todos os estados brasileiros, com margem de erro de dois pontos para mais ou menos. No limite desta margem de erro, Moro continua empatado com Ciro na terceira posição.

Com o derretimento de Bolsonaro, o ex-juiz e o ex-governador tiveram alguns indicadores positivos. O principal é que 26% dos eleitores disseram não querer que nem Lula, nem Bolsonaro vençam a eleição outubro. É abaixo dos 44% que dizem querer que vença Lula, mas acima dos 23% (exato número das intenções de voto) que querem que vença Bolsonaro.

 

 

Ainda que Moro e Ciro estejam bem distantes de ameaçar o segundo lugar do capitão na corrida presidencial, os dois têm outro indicador positivo. O ex-governador do Ceará lidera na segunda opção de voto do eleitorado, com 18%. E é seguido pelo ex-juiz federal do Paraná, com 14%.

 

 

Mas, se têm potencial para crescer sobre Bolsonaro, Moro e Ciro têm um índice negativo que complicaria a vida de um deles, caso chegasse ao eventual segundo turno contra Lula. Entre os que conhecem cada presidenciável, Bolsonaro lidera a rejeição, com 66% que não votariam nele. Os que conhecem e não votariam em Moro, chegam a 59%. E são 58% entre o conhecimento e a rejeição a Ciro. Com Lula, 43% dos que o conhecem não votariam nele.

 

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Covid, Influenza e vacinação infantil no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quinta, o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o médico infectologista Rodrigo Carneiro, diretor da Atenção Básica em Saúde de Campos. Ele falará sobre a instalação no município de dois programas nacionais de assistência de saúde: das populações carcerária e carcerária e de gays, lésbicas, travestis e transexuais (LGBTQI+). Analisará também o impacto das variantes Ômicron e H3N2 no cruzamento da pandemia da Covid-19 com a epidemia da Influenza.

Por fim, Rodrigo falará sobre a vacinação infantil contra Covid no Brasil, em mais uma polêmica do governo Jair Bolsonaro (PL), do retorno às aulas em fevereiro, com a exigência do cartão de imunização das crianças. Ele também analisará o primeiro ano do governo Wladimir Garotinho (PSD), que integra, e dará sua projeção às eleições de governador e prefeito em outubro.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Campos depende da sorte com Paraíba acima do transbordo

 

Wladimir no início da noite de ontem, na entrada da ponte Barcelos Martins, que mandou interditar por conta da cheia do Paraíba (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

 

Paraíba acima do transbordo

A cota de transbordo do rio Paraíba do Sul em Campos é de 10,40 metros. E, às 17h15 de ontem, bateu 10,43 metros. Se ainda não tinha passado por cima dos diques, o que só faz ao atingir 11 metros, o rio já botava água para fora pelos bueiros no Jardim Carioca, em Guarus, e no Colégio 29 de Maio, na Pecuária. Que recebeu cinco famílias desabrigadas da Ilha do Cunha e uma da Coroa. No Parque Prazeres, a água também vazou por baixo da avenida Francisco Lamego, interditada. O prefeito Wladimir Garotinho vistoriou obras emergenciais de reforço daquele dique, que é de barro, não de pedra. Ele também interditou a ponte Barcelos Martins.

 

Desalojada pela cheia do Paraíba, família de Campos abrigada no Colégio 29 de Maio, na Pecurária, onde o Paraíba já colocava água para fora, pelos bueiros (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

Campos refém da sorte

Com as chuvas intensas nos últimos dias em Minas Gerais, no Norte e no Noroeste Fluminense, a única coisa que vai determinar se o Paraíba invadirá a área central de Campos, ou não, é a sorte — ou a falta dela. Há previsão de estiagem a partir desta quinta. Mas, mesmo que se cumpra, ainda terá que esperar a água acumulada descer pelo Paraíba, que recebe as águas de Minas pelo rio Pomba, e também do Noroeste e Norte Fluminense, pelo rio Muriaé. Também ontem, o Comitê da Bacia do Baixo Paraíba enviou uma carta, cobrando solução definitiva, ao Grupo de Assessoramento à Operação dos Sistema Hidráulico Paraíba do Sul (Gaops).

 

BR 356, que foi interditada na açtura de Itaperuna, cortando o fluxo de carros entre Rio de Janeiro e Minas Gerais, estava também alagada na entrada de São Joaquim, em Cardoso Moreira (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

João Gomes Siqueira, diretor do Comitê da Bacia Hidrográfica do Baixo Paraíba

Solução definitiva (I)

O rio Paraíba corta três estados: São Paulo, Minas Gerais e o Rio de Janeiro. Mas só o primeiro está preparado para lidar com as chuvas e a estiagem. “Precisamos criar grandes cisternas em três pontos: nos rios Preto e Paraibuna, que confluem no rio Peixe, no município de Três Rios, para afluir ao Paraíba. Assim como outras duas, no Pomba e no Muriaé. Só com esses grandes reservatórios, que existem em São Paulo, poderemos ter água no tempo na seca, ou recebê-la para controlar a vazão e as cheias, no período das chuvas”, explicou João Gomes Siqueira, diretor-secretário do Comitê do Baixo Paraíba, que tem auxiliado a Prefeitura de Campos.

 

Solução definitiva (II)

“É a eterna repetição: as chuvas de verão engordam os rios e inundam os núcleos urbanos, provocando destruição. Terminadas as chuvas, a reconstrução. Tudo é feito como antes até que as chuvas seguintes destruam tudo novamente. A solução são canais para conduzir a água excedente para lagoas abertas nas margens e reguladas por barragens que permitissem o fluxo hídrico. As barragens para hidrelétricas e transposição não liberariam excedente rio abaixo, sem se importar com a sorte das cidades. Vias alternativas que permitissem o escoamento de excedente hídrico ao mar”, sugeriu o ambientalista e eco historiador Arthur Soffiati.

 

Eco historiador Arthur Soffiati, professor da UFF-Campos; cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf; e advogado Carlos Alexandre de Azevedo Campos, professor da Uerj e Isecensa (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Professores no Folha no Ar

Soffiati é professor da UFF-Campos. Ele foi entrevistado do Folha no Ar da manhã de ontem, ao lado do advogado Carlos Alexandre de Azevedo Campos, professor da Uerj e Isecensa; e do cientista político Hamilton Garcia. Os três analisaram o 1º ano da invasão de militantes do ex-presidente dos EUA Donald Trump ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, e a possibilidade de o mesmo acontecer no Brasil de Jair Bolsonaro, cujo governo fizeram muitas críticas. Assim como as destinaram também ao PT, que tem Lula como líder isolado em todas as pesquisas presidenciais às urnas de outubro, daqui a menos de nove meses.

 

Bolsonaro, PT, o ovo e a galinha

“O governo Bolsonaro foi um desastre (…) preparou o retorno do PT ao poder. Assim como a esquerda se esborrachou com o mau governo Dilma, a direita se esborrachou com o mau governo Bolsonaro”, comparou Hamilton Garcia. “O PT, através principalmente da Dilma, despertou o lado conservador e reacionário da população brasileira. O PT alimentou Bolsonaro e Bolsonaro está alimentando o PT”, seguiu Soffiati. “Bolsonaro foi eleito não só na desilusão, não só com a questão da corrupção, mas da ineficiência do governo Dilma, que também foi um desastre, por outras razões”, reforçou Carlos Alexandre.

 

Média de Wladimir: nota 7,16

Os três professores de universidade pública também avaliaram o 1º ano do governo Wladimir em Campos. “Sinto falta de um plano estratégico, mas ele está sendo pragmático. Dou nota 7”, ponderou Soffiati. “Dou nota 7,5, mas quero ver como ele vai se comportar com o dinheiro dos royalties chegando. Wladimir sabe, muito melhor que Rafael (Diniz), dialogar com o povo”, comparou Carlos Alexandre. “O que destaca Wladimir da gestão anterior (Rafael) é a capacidade gerencial. Mas é necessário se apontar alternativas. Ele próprio reconhece que a máquina de Campos não se sustenta com o que arrecada. Dou nota 7”, avaliou Hamilton.

 

Péssimos exemplos no combate à Covid em São João da Barra e no mundo, a prefeita Carla Machado e o tenista Novak Djokovic (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Novak Djokovic e Carla Machado

Mais rigorosos do que Carlos Alexandre na análise do governo Wladimir, Soffiati e Hamilton foram mais generosos com o governo de Campos do que com o de Carla Machado (PP) em São João da Barra. Em painel de análise da Folha, publicado em 24 de dezembro, o historiador deu nota 3 à gestão da prefeita sanjoanense, que recebeu nota 4 do cientista político. Isso foi antes dela admitir à InterTV não ter se vacinado contra a Covid-19. Repete o péssimo exemplo público do nº 1 do tênis mundial, Novak Djokovic. Com uma diferença importante: o tenista sérvio vive o auge da sua carreira, enquanto Carla atravessa o pior momento dos seus quatro governos.

 

Publicado hoje da Folha da Manhã.

 

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Cheia do Paraíba e afluentes no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quarta (12), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é João Gomes Siqueira, diretor do Comitê da Bacia Hidrográfica do Baixo Paraíba. Ele falará da cheia do rio Paraíba do Sul e afluentes em Campos e região, com as águas da chuva nos estados de Rio de Janeiro e Minas Gerais. Também falará sobre medidas preventivas para a repetição do fenômeno nesta época do ano e do uso da rede de canais de irrigação para ajudar a escoar as águas.

Por fim, João analisará o primeiro ano do governo Wladimir Garotinho (PSD), além de dar a sua projeção para as eleições de outubro a presidente e governador. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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EUA/Brasil, eleições e Wladimir no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7 da manhã desta terça, os convidados do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, são o historiador Artur Soffiati, professor da UFF-Campos; o advogado Carlos Alexandre de Campos, professor da Uerj e do Isecensa; e o cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf. Eles falarão do aniversário de 1 ano da invasão do Capitólio por militantes do ex-presidente dos EUA Donald Trump, e da possibilidade de algo parecido ocorrer no Brasil.

Eles também analisarão os governos federal Jair Bolsonaro (PL) e estadual Cláudio Castro (PL), fazendo suas projeções para as eleições brasileiras de outubro. Por fim, os três avaliarão o primeiro ano do governo Wladimir Garotinho (PSD) em Campos.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Globo de Ouro premia filmes disponíveis no streaming

 

Considerado o grande termômetro do Oscar — que teve sua data remarcada de 27 de fevereiro para 27 de março, por conta da disseminação da variante Ômicron da Covid nos EUA —, o Globo de Ouro da noite de ontem veio cercado de muita polêmica. Denunciado como racista, misógino e corrupto pelo “politicamente correto” que tem em Hollywood um bastião, não foi transmitido ao vivo e teve seus vencedores anunciados nas redes sociais. Mas premiou na noite de ontem alguns filmes que já podem ser conferidos pelos brasileiros nas plataformas de streaming.

 

“Ataque dos Cães”, na Netflix, e “Being the Ricardos”, na Amazon Prime Video (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Exibido na Netflix desde 1º de dezembro, “Ataque dos Cães” (2021) levou na categoria de melhor filme de drama e de direção, para a neozelandesa Jane Campion; além de ator coadjuvante, para o jovem australiano Kodi Smit-McPhee. Disponível na Amazon Prime Video desde 10 de dezembro, “Beind the Ricardos” (2021), de Aaron Sorkin, deu o Globo de Ouro de melhor atriz de drama à australiana Nicole Kidman.

“O Piano”, estrelado por Hervey Keytel e Holly Hunter, Oscar de melhor atriz de 1994

“Ataque dos Cães” é um western-cabeça com poucas armas e nenhum duelo. E marca a volta de Jane Campion à direção 12 anos depois de seu último filme, “Brilho de uma Paixão” (2009). Ela se tornou conhecida mundialmente com o belíssimo “O Piano” (1993). Pelo qual foi a primeira cineasta mulher a ganhar a Palma de Ouro em Cannes e a segunda a ser indicada ao Oscar de melhor direção, levando a estatueta de melhor roteiro original.

Com participação na produção e adaptação do roteiro, Campion volta a apresentar em “Ataque dos Cães” suas marcas: grande virtude imagética, sobretudo nas tomadas externas, e trama baseada no conflito psicológico entre as personagens. Dois deles são irmãos rancheiros, bem diferentes em físico e personalidade, vividos por Benedict Cumberbatch e Jesse Plemons. Este se casa com a personagem Kistern Dunst, que leva o filho vivido por Kodi Smit-McPhee. Sensível, ele desenvolve relações ambíguas com a rusticidade do novo meio e do novo “tio”. O “sobrinho” representa o falecido Thomas Savage, autor do romance autobiográfico “O Poder do Cão”, adaptado no filme. Que traz um final inesperado no desfecho pelo antraz, o cabrunco dos campistas.

 

Relação ambígua entre a sensível personagem de Kodi Smit-McPhee e o rude cowboy de Benedict Cumberbatch

 

Já “Being the Ricardos” (“Apresentando os Ricardos”), roteirizado e dirigido por Aaron Sorkin, dá a Nicole Kidman um bom presságio: da última vez que ela levou o Globo de Ouro de melhor atriz de drama, faturou depois também o Oscar de melhor atriz, por sua soberba atuação como a atormentada escritora Virginia Woolf, em “As Horas” (2002), de Stephen Daldry.

 

Diálogo em alto nível entre Javier Barden e Nicole Kidman, em “Being the Ricardos”, sobre a série popular de TV “I Love Lucy”, que marcou época nos EUA dos anos 1950

 

No novo filme, a ex-senhora Tom Cruise (que nunca levou o Oscar) interpreta a assertiva Lucille Bel, que protagonizou o popularíssimo seriado “I Love Lucy”, marco da TV dos EUA em seu início, nos anos 1950. Se o talento de Kidman como atriz é inegável, incomoda cada vez mais sua cruel prisão física ao rosto de boneca mumificada em vida. Que só consegue sustentar através de visíveis cirurgias plásticas. E cujas marcas têm que ser sempre escondidas com muita maquiagem e franjas do seu cabelo ruivo.

 

Will Smith larga na frente na luta por seu primeiro Oscar, como pai e mentor das campeãs de tênis Venus e Serena Williams, em “King Richard: Criando Campeãs”

 

Nas telas de TV, ou atrás delas, a australiana Kidman atua em troca de alto nível com o espanhol Javier Barden. Ele interpreta o ator, músico e produtor cubano Desi Arnaz, marido de Lucille na vida real e na representação do seriado de TV. Como o inglês Benedict Cumberbatch, pelo papel em “Ataque dos Cães”, Barden também foi indicado ao Globo de Ouro de melhor ator de drama. Mas ambos perderam para o afro-estadunidense Will Smith, que levou o prêmio por sua atuação em “King Richard: Criando Campeãs” (2021), de Reinaldo Marcus Green. Conta a história da criação das campeãs de tênis Venus e Serena Williams, está disponível na HBO Max desde 7 de janeiro e pode finalmente render a Smith seu primeiro Oscar de melhor ator.

 

Ben Affleck e Tye Sherindan, em “Bar Doce Lar”, novo trabalho na direção, sem maior criatividade, do galã George Clooney

 

Outro filme que rendeu indicação ao Globo de Ouro, mas sem levar, e também estreou no último dia 7, pela Amazon Prime Video, é “Bar Doce Lar” (2021). É mais um trabalho do ator George Clooney como cineasta, na adaptação do livro autobiográfico “Bar, Doce Lar”, de J.R. Moehringer. Se a direção de Clooney não demonstra maior ambição, apesar da boa história e elenco, rendeu a indicação de Ben Affleck como ator coadjuvante de drama. Foi a categoria que premiou o jovem Kodi Smit-McPhee, por seu trabalho em “Ataque dos Cães”.

 

Grande sucesso da Netflix, “Não Olhe Para Cima” ficou a ver navios no Globo de Ouro

 

Grande sucesso da Netflix, desde que foi lançado na líder mundial de streaming em 24 de dezembro, a sátira “Não Olhe Para Cima” (2021), de Adam McKay, teve duas indicações ao Globo de Ouro, mas não levou nada. Na categoria de melhor filme comédia/musical, ganhou o musical “Amor, Sublime Amor” (2021), de Steven Spielberg, remake do clássico homônimo de 1961, dirigido por Jereme Robbins e Robert Wise. Já na categoria melhor ator comédia/musical, no qual Leonardo DiCaprio foi indicado, venceu Andrew Garfield, pelo filme “Tick, Tick… Boom!”, de Lin-Manuel Miranda.

Ao Oscar, os indicados serão anunciados em 8 de fevereiro.

 

Confira abaixo os trailers dos filmes “Ataque dos Cães”, “Beind the Ricardos”, “King Richard: Criando Campeãs” e “Bar Doce Lar”:

 

 

 

 

 

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Capitólio dos EUA e MG: a morte segue quem ignora os fatos

 

Invasão ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021 e a queda do paredão de pedra no município mineiro de Capitólio, em 8 de janeiro de 2022 (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Em 6 de janeiro de 2021, a invasão ao Capitólio em Washington. Foi obra de militantes incitados pelo então presidente dos EUA, Donald Trump, inconformado pela derrota por larga margemna sua tentativa de reeleição, em 3 de novembro de 2020. Em 8 de janeiro de 2022, a queda de um paredão de rocha, pela erosão das águas da chuva, no Lago de Furnas, em Capitólio (MG). Além da estranha coincidência dos nomes, da proximidade das datas e de, até se darem na vida real, parecerem cenas de ficção: o que os dois fatos trágicos têm em comum?

Na capital dos EUA, o saldo foram cinco mortos. No município mineiro, foram 10 óbitos até o momento confirmados. Mas, talvez ainda mais que as vidas humanas perdidas, o que impressiona nos dois casos é a capacidade das pessoas de ignorarem solenemente os fatos. Até serem fatalmente atropelados por eles.

Nos EUA de Trump, o fato foi o resultado de uma eleição definida por mais de 7 milhões de votos populares e 306 a 232 votos no colégio eleitoral. Números ignorados por quem invadiu o Capitólio por preferir acreditar nas denúncias de “fraude”, nos votos pelos correios adotados naquele país desde o século 19, feitas sem apresentar uma única prova por quem sabia antes que iria perder.

No Brasil do “Trump dos Trópicos”, tragicamente resumido nas águas paradisíacas de Capitólio, o fato ignorado foram os muitos alertas verbais às pedras caindo diante dos olhos das próprias vítimas, em meio à erosão natural provocada pela água das chuvas, antes que todo o paredão do cânion infelizmente viesse abaixo sobre elas. Confira no vídeo abaixo:

 

 

A quem assistiu ao filme “Não Olhe Para Cima” (2021), de Adam Mckay, sucesso da Netflix, onde um cometa em rota de colisão com a Terra é ignorado por governantes e seus apoiadores, a sensação que fica é de déjà vu. A desconstrução sistemática da verdade, massificada através das redes sociais, nos trouxe a estes tempos estranhos. Onde as pessoas parecem não acreditar nem mais naquilo que estão vendo. E morrem ou até matam por conta disso.

 

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Trump e Bolsonaro do “Não Olhe Para Cima” ao “Olhe Para Você Mesmo”

 

Trump, Bolsonaro e elenco principal de “Não Olhe Para Cima” (Montagem: Joseli Mathias)

(A Sidney Poitier, primeiro negro a ganhar o Oscar de melhor ator)

 

— Randall, alguns estão falando que não existe cometa, ou que existe um cometa e isso pode ser bom ou ruim. Estamos confusos. Pode nos esclarecer, ó, sábio cientista? — indaga no talk show “The Daily Rip” (“O Rasgo Diário”) sua apresentadora, Brie Evantee, magistralmente interpretada por Cate Blanchett, maior atriz da sua geração.

— Primeiro de tudo, com certeza o cometa existe. Sabemos que existe um cometa porque nós temos os dados. Tem havido muita preocupação na comunidade científica. O processo de revisão por pares é crucial… — responde o astrônomo Dr. Randall Mindy, entrevistado do programa em outro trabalho de Leonardo DiCaprio a provar que ele é mais, muito mais do que um galã. Com spoiler, sua personagem se preocupa depois que a primeira missão para tentar desviar o corpo celeste em rota de colisão com a Terra foi abortada pelo próprio governo dos EUA, para encampar um plano privado. Bancado pela gigante dos celulares Bash, que quer não mais desviar, mas explodir o cometa. E permitir que ele atinja o planeta em pedaços menores, sem causar nossa extinção, para aproveitar seus estimados US$ 140 trilhões em minerais.

— Se as ações da Bash são um indicador de que a revisão por pares importa, estamos bem. Comprei o máximo de ações que pude. Façam o mesmo! — ironiza Jack Bremmer, o outro apresentador do talk show, em interpretação na medida de Tyler Perry.

— Quero falar uma coisa… — pede DiCaprio, finalmente atingido pelo cometa na boca do estômago, antes da sua queda na Terra.

— Está no lugar certo. Porque gostamos de dizer coisas neste show — segue em sua mendicância por simpatia, e likes, o apresentador de Perry.

— Pode parar com essa porra de ser agradável? Desculpe, mas nem tudo tem que ser espirituoso, encantador ou fofo o tempo todo. Às vezes só precisamos dizer as coisas, ouvir as coisas. Vamos deixar claro, mais uma vez, que tem um cometa enorme vindo em direção à Terra. O motivo de sabermos disso é porque o vimos com os nossos olhos, usando um telescópio. Até tiramos fotos dele, porra! Precisa de mais prova? E se não conseguimos nem concordar com o fato de ter um cometa gigante, do tamanho do Monte Everest, vindo em direção à Terra, então estamos ferrados. O que aconteceu com a gente? Meu Deus! Como é que a gente se comunica? O que nós nos tornamos? (…) Sei que muitas pessoas nem vão me dar ouvidos, porque têm sua própria ideologia política. Mas eu garanto que não estou em nenhum dos lados. Eu só estou dizendo a porra da verdade! — desabafa DiCaprio, na mais visceral tradução do tupiniquim “é verdade este bilhete”.

— Acho que é bom informar que Isherwell (dono da Bash e Monstro de Frankenstein montado com pedaços de Steve Jobs, Mark Zuckerberg, Elon Musk e Jeff Bezos, em mais uma composição soberba de Mark Rylance) e a presidente (Janie Orlean, espécie de Donald Trump de saias encarnada com a maestria de sempre pela diva Meryl Streep) disseram que há benefícios… — tenta intervir Blanchett, em favor do poder econômico e político.

— A presidente dos Estados Unidos está mentindo pra caralho! Sou igual a vocês, rezo para que a presidente saiba o que está fazendo. Torço para ela cuidar da gente, mas a verdade é que eu acho que todo esse governo perdeu completamente a porra da cabeça! — regurgita DiCaprio o cometa que estava entalado em sua garganta.

O diálogo acima é o ponto alto, mas não o único, de “Não Olhe Para Cima” (2021), filme dirigido, roteirizado e produzido por Adam McKay. Lidera a lista dos mais assistidos da Netflix, desde que a líder mundial do streaming lançou seu filme em 24 de dezembro, após curta temporada nos cinemas. Desde então, seu cometa tem sido a Estrela de Belém a reis magos e plebeus céticos, nas rodas de conversa do mundo. É a mais marcante sátira produzida pela sétima arte desde o impactante sul-coreano “Parasita” (2019), de Bong Joon-ho, Palma de Ouro em Cannes e Oscar de melhor filme, direção e roteiro.

Egresso da comédia, McKay já tinha dois filmes “sérios” como diretor e roteirista: o estelar “A Grande Aposta” (2015), sobre a crise financeira global de 2008, no qual levou o Oscar de melhor roteiro; e “Vice” (2018), cinebiografia do poderoso ex-vice-presidente dos EUA nos dois governos George W. Bush, Dick Cheney. Conservadora como o pai, a deputada Liz Cheney é hoje a mais corajosa opositora à supremacia de Donald Trump dentro do Partido Republicano.

 

“A Grande Aposta” e “Vice” (Montagem: Joseli Mathias)

 

McKay nasceu na Filadélfia em 1968, mesma cidade que em 1787 também pariu a primeira e única Constituição dos EUA. A mesma que Trump rasgou em 6 de janeiro de 2021, ao incitar seus militantes a invadirem o Capitólio, por não aceitar sua derrota eleitoral em 2020. Fato que, no 6 de janeiro de 2022 da última quinta, teve seu 1º aniversário lembrado em artigo do filósofo e economista político nipo-estadunidense Francis Fukuyama: “O 6 de Janeiro aprofundou as divisões internas (dos EUA) e terá consequências que ecoarão por todo o planeta nos próximos anos”. Após usar a queda da União Soviética em 1991 para decretar “o fim da História”, o liberal Fukuyama foi atropelado por ela. E não escondeu seu temor de que também a democracia no mundo tenha sido colhida na colisão. Como a de um cometa que alguns ainda fingem não ver.

Peter Sellers brilha em três papéis diferentes em “Dr. Fantástico”

Em seu “retrato de Dorian Gray” do populismo político de extrema-direita, da sua ascensão ao poder na ditadura de ódio das redes sociais e suas fake news, “Não Olhe Para Cima” pode ser olhado para trás, pelos pósteros, como hoje olhamos o clássico “Dr. Fantástico” (1964). Única comédia do mestre Stanley Kubrick, é a melhor sátira política do cinema sobre a Guerra Fria. Que acabou na vida real há mais de 30 anos, mas sobrevive nos delírios personificados durante show musical anunciado por DiCaprio e Jennifer Lawrence, outra a brilhar como a astrônoma Kate Dibiasky. Ambos convidam os espectadores a olharem para o céu e testemunharem a ameaça que já paira iminente sobre a cabeça de todos. Quando um “cidadão de bem” comenta na arte que imita a vida: “Não olhe para cima, puta marxista!”.

 

Com o cowboy cavalgando a bomba atômica, a cena mais icônica de “Dr. Fantástico”, do mestre Stanley Kubrick

 

É Dibiasky quem descobre e batiza o cometa. Em outro spoiler, ela e DiCaprio recorrem à imprensa, após terem como resposta o “vamos esperar e avaliar” de uma presidente mais preocupada com as eleições legislativas do que com a extinção da humanidade. Na sua primeira e única aparição do programa “The Daily Rip”, é a personagem de Lawrence que, antes de seu par masculino na ciência, questiona o óbvio, após mais uma gracinha “fofa” do apresentador:

 

Cate Blanchett e Tyler Perry entrevistam Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence no talk show “The Daily Rip”

 

— Nós não fomos claros? Estamos tentando dizer que o planeta todo vai ser destruído — enfatiza Lawrence.

—  Sabe como é… É o que fazemos. Deixamos as notícias ruins mais leves — banaliza Blanchett.

— Exato. Nós douramos a pílula — reforça cinicamente Perry.

— Talvez a destruição do planeta não devesse ser divertida. Talvez devesse ser algo aterrorizante e perturbador. E deveriam passar a noite chorando, quando há 100% de certeza de que todo mundo vai morrer, porra! — explode Lawrence. Para na sequência constatar, em outro spoiler, que a entrevista anterior do programa, com o reenlace amoroso entre as celebridades musicais Riley Bina (Ariana Grande) e DJ Chello (Kid Cudi), gerou mais engajamento do que o alerta sobre a destruição da Terra. É uma crítica à mídia do tempo das redes sociais para impresso nenhum do tempo de “A Montanha dos Sete Abutres” (1951) botar defeito. Da lavra do ex-jornalista e mestre do cinema Billy Wilder, permanece o melhor filme já feito sobre jornalismo.

 

Kirk Douglas estrela “A Montanha dos Sete Abutres”, do mestre Billy Wilder

 

Feito para falar do trumpismo, “Não Olhe Para Cima” também fala bastante do seu pastiche abaixo do Equador no bolsonarismo. Levados à Casa Branca pelo Dr. Clayton Oglethorpe, em atuação de classe de Rob Morgan, para comunicarem à presidente a descoberta do cometa e sua ameaça inexorável à Terra, Lawrence e DiCaprio são inicialmente recebidos pelo general três estrelas Themes, na interpretação bonachona de Paul Guilfoyle.

Último spoiler: após tomarem um chá de cadeira de uma presidente tão embananada com a indicação de um dublê de xerife e ex-ator pornô à Suprema Corte, quanto Bolsonaro na de André Mendonça ao Supremo Tribunal Federal, o general cobra aos três cientistas pelas garrafas de água e pacotes de salgados que leva a eles. Logo depois, se descobre que os mesmos eram oferecidos de graça. Buscada, a explicação não é dada até o final do filme. Fica a impressão de que o militar de alta patente só estava mesmo querendo levantar um troco. Como seus colegas generais da vida real, Augusto Heleno, Walter Braga Netto e Luiz Eduardo Ramos, todos ganhando acima do teto constitucional no governo brasileiro do “acabou a mamata”.

 

Generais Augusto Heleno, Walter Braga Netto e Luiz Eduardo Ramos

 

Sem vender sua honra à farda, o contra-almirante e médico Antonio Barra Torres presta bons serviços à pátria no comando da Anvisa. Que liberou desde 16 de dezembro, oito dias antes de “Não Olhe Para Cima” ser liberado na Netflix, a vacinação contra o cometa da Covid-19 para as crianças entre 5 e 11 anos. Nesta faixa etária, até ontem, 308 pequenos brasileiros morreram pela pandemia antes de viver. Na média de uma criança jazida a cada dois dias pela doença no país, até hoje já são 11 as condenadas à morte por sufocamento, de maneira absolutamente desnecessária, por um governo dolosamente infanticida. Quantas mais serão no Brasil governado por um ser humano capaz de publicamente questionar: “Qual interesse daquelas pessoas taradas por vacina”? A “tara” da resposta é óbvia: a vida das crianças! Tanto quanto o interesse luciferino de quem questiona: a morte dessas crianças!

 

 

No filme de McKay, DiCaprio brada em um programa de TV infantil:

— Crianças, me ouçam. Digam a seus pais que a presidente Orlean e Isherwell (empresário síntese daqueles capazes de tentar passar pano até na morte dolosa de crianças) são sociopatas e fascistas! — sentencia, sendo respondido na cena seguinte pela governante negacionista encarnada por Streep, em discurso aos seus apoiadores:

— Sabe por que eles querem que você olhe para cima? Sabem por quê? Eles amam ver você com medo! — diz sob aplausos. Que se transformam em vaias violentas quando a tragédia anunciada finalmente bate à própria porta.

Até por sua firme oposição política a Trump, foi nele que Streep baseou sua presidente. Após abandonar o delírio da Cloroquina ainda em 2020, para vendê-la ao Brasil de Bolsonaro e investir pesadamente na compra de vacinas contra Covid aos EUA, em sua tentativa frustrada de permanecer na Casa Branca, seu ex-inquilino é decididamente mais inteligente do que o autoproclamado “Trump dos Trópicos”.

Já apeado do poder, Trump admitiu recentemente ter tomado as três doses da vacina. No filme, o nosso capitão seria o coronel Ben Drask, na pele de Ron Perlman. Seu final serve de alerta ao que todas as pesquisas indicam a Bolsonaro, após as urnas presidenciais de outubro. Mas o que impressiona é a semelhança de Jason Orlean, vivido pelo talentoso gordinho Jonan Hill, com o 02 brasileiro. Como filho da presidente e seu aspone, com dificuldade de cognição e sempre a carregar a bolsa Hermès da mãe, a personagem lembra muito o vereador carioca Carlos Bolsonaro. Tanto que fica difícil crer em mera coincidência.

Sem outro spoiler, mas só como dica, vale a pena esperar a rolagem de todos os créditos do filme, após seu suposto final, para uma surpresa. E também um novo alerta à humanidade, ao constatar quem dela ficou para “Adão”. A ameaça do cometa metafórico da ficção, se transposto à realidade, talvez mudasse o título: “Olhe Para Você Mesmo”.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Confira abaixo o trailer do filme:

 

 

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Invasão ao Capitólio afastou a democracia do mundo

 

Em 7 de narço de 2020, em Mar-a-Lago, na Flórida, Jair Bolsonaro e o então presidente dos EUA, Donald Trump (Foto: Alan Santos/PR)

 

 

Francis Fukuyama, filósofo e economista político nipo-estadunidense, autor do livro “O Fim da História e o Último Homem”, de 1992

Ataque ao Capitólio: O dia em que o mundo se afastou de nós

Por Francis Fukuyama

 

O ataque de 6 de janeiro de 2021 contra o Capitólio, realizado por uma multidão inspirada pelo ex-presidente Donald Trump, marcou um nefasto precedente na política dos EUA. Desde a Guerra Civil (1861/1865), o país jamais havia fracassado em realizar uma transferência de poder pacífica, e nenhum candidato jamais havia contestado resultados de uma eleição diante de tanta evidência de que a votação fora livre e justa. O evento continua a reverberar, mas seu efeito não é apenas doméstico, ele também teve grande impacto global e sinaliza o declínio do poder e da influência dos EUA.

O 6 de Janeiro precisa ser visto como pano de fundo de uma crise global da democracia liberal. Segundo o relatório Liberdade no Mundo 2021, da Freedom House, a democracia está em declínio há 15 anos, com os maiores percalços enfrentados pelas duas maiores democracias do mundo, EUA e Índia. Desde que o relatório foi publicado, golpes de Estado ocorreram em Mianmar, Tunísia e Sudão, países que antes haviam dado passos promissores na direção da democracia.

O mundo havia testemunhado uma grande expansão no número de democracias, de 35, no início dos anos 70, para mais de 110, na época da crise de 2008. Os EUA foram cruciais para o que foi classificado como a “Terceira Onda” de democratização, garantindo segurança para aliados democráticos na Europa e no Leste da Ásia, liderando uma economia global cada vez mais integrada que quadruplicou sua produção no período.

Mas a democracia global estava alicerçada no sucesso e na durabilidade da democracia dos EUA — o que o cientista político Joseph Nye classifica como “poder brando”. Pessoas de todo o mundo consideravam os EUA um exemplo a ser seguido, dos estudantes da Praça Tiananmen aos manifestantes das “revoluções coloridas”, na Europa e no Oriente Médio.

O declínio da democracia é ocasionado por forças complexas. Globalização e transformação econômica deixaram muita gente para trás, e uma enorme divisão cultural emergiu entre profissionais com alto nível de formação que vivem nas grandes cidades e moradores de localidades menores, com valores mais tradicionais. O advento da internet enfraqueceu o controle das elites sobre a informação — nós sempre discordamos a respeito de valores, mas agora vivemos em universos de fato separados. E o desejo de pertencimento e a afirmação de dignidade própria são com frequência forças mais poderosas do que o autointeresse econômico.

O mundo, desta maneira, parece muito diferente que o de 30 anos atrás, quando a União Soviética acabou. Houve dois fatores-chave que subestimei naquela época — primeiro, a dificuldade de criação não apenas de uma democracia, mas também de um Estado moderno, imparcial e livre de corrupção; e em segundo lugar, a possibilidade da deterioração de democracias avançadas.

O modelo americano está se deteriorando já há algum tempo. Desde meados da década de 90, a política dos EUA tem se polarizado, sujeita a impasses contínuos que impedem o cumprimento de funções governamentais básicas, como a aprovação de orçamentos.

 

Obstáculos

Havia claros problemas com as instituições americanas — como a influência do dinheiro na política e os efeitos de um sistema eleitoral cada vez mais desalinhado com a escolha democrática. E, ainda assim, o país parecia incapaz de reformar a si mesmo. Períodos anteriores de crise, como a Guerra Civil e a Grande Depressão (1929), produziram líderes perspicazes e criadores de instituições; o que não ocorreu nas primeiras décadas do século 21, que testemunharam formuladores de políticas administrando duas catástrofes — a Guerra do Iraque e a crise do subprime — e, posteriormente, o surgimento de um demagogo de pouca visão encorajando um furioso movimento populista.

Até o 6 de Janeiro, seria possível considerar esses desdobramentos sob as lentes da política americana comum, com seus desentendimentos a respeito de temas como comércio, imigração e aborto. Mas a insurreição marcou o momento em que uma minoria mostrou-se disposta a voltar-se contra a própria democracia e utilizar violência como ferramenta para alcançar seus objetivos.

O que tornou o 6 de Janeiro uma mancha — e uma tensão — alarmante para a democracia americana foi o fato de o Partido Republicano, longe de repudiar quem iniciou e participou da insurreição, buscou normalizá-la e expurgou de seus próprios quadros aqueles que se mostraram dispostos a falar a verdade sobre a eleição de 2020.

O impacto do 6 de Janeiro ainda surte efeitos na arena internacional. Ao longo dos anos, líderes autoritários buscaram manipular resultados de eleições e negar a vontade popular, como Vladimir Putin, na Rússia, e Aleksander Lukashenko, em Belarus. Por outro lado, candidatos derrotados fizeram acusações de fraude em eleições livres e justas.

Isso aconteceu ano passado no Peru, quando Keiko Fujimori contestou sua derrota para Pedro Castillo no segundo turno. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, tem estabelecido as bases para contestar a eleição deste ano atacando o funcional sistema eleitoral, da mesma maneira que Trump passou o fim de sua campanha minando a confiança na votação pelo correio.

 

Alto risco

Antes do 6 de Janeiro, esse tipo de artimanha teria sido condenada pelos americanos. Mas agora isso aconteceu nos EUA. A credibilidade do país, decorrente da manutenção de um modelo de boas práticas democráticas, foi despedaçada. Esse precedente já é ruim o suficiente, mas há consequências ainda mais perigosas.

O retrocesso da democracia tem sido liderado por dois países autoritários em ascensão, Rússia e China. Ambos possuem reivindicações sobre territórios que não lhes pertencem. Putin declarou não acreditar que a Ucrânia seja um país legitimamente independente, mas que faz parte de uma Rússia muito ampliada. Ele concentrou tropas na fronteira e tem testado respostas do Ocidente a uma possível agressão. O presidente chinês, Xi Jinping, afirma que Taiwan deve voltar a ser controlada pela China, e líderes chineses não excluem o uso de força militar.

Um fator determinante em qualquer agressão militar será o papel dos EUA, que não concederam garantias claras de segurança nem para Ucrânia nem para Taiwan, mas têm apoiado militarmente e se mostrado ideologicamente alinhados com seus esforços de tornar-se democracias verdadeiras.

Se o ímpeto de repudiar os eventos de 6 de janeiro tivesse se formado no Partido Republicano, de forma semelhante ao seu abandono de Richard Nixon, em 1974, os EUA seriam capazes de deixar para trás a era Trump. Mas isso não aconteceu, e adversários como Rússia e China estão assistindo de perto com satisfação.

Se temas como vacinação e uso de máscara tornaram-se politizados e desagregadores, imagine como uma futura decisão de ampliar o apoio militar para a Ucrânia ou Taiwan seria recebida? Trump minou o consenso que existia desde o fim dos anos 40 a respeito da forte posição dos EUA enquanto defensores da liberdade, e Biden ainda não foi capaz de restabelecê-lo.

A maior fraqueza dos EUA é relativa a suas divisões internas. Representantes do conservadorismo viajaram para a Hungria em busca de um modelo alternativo, e um número estarrecedor de republicanos considera os democratas uma ameaça maior que a Rússia.

Os EUA conservam um enorme poder econômico e militar, mas esse poder não é utilizável na ausência de consenso doméstico a respeito do papel internacional do país. Se os americanos deixarem de acreditar numa sociedade aberta, tolerante e liberal, nossa capacidade de inovar e liderar a mais importante economia do mundo também diminuirá. O 6 de Janeiro aprofundou as divisões internas e terá consequências que ecoarão por todo o planeta nos próximos anos.

 

Publicado no Estadão.

 

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Um ano após a invasão do Capitólio a chifradas

Em 6 de janeiro de 2021, protegido por vidro à prova de balas, Trump usou a área externa da Casa Barnca para mugir sua dor de corno pela derrota nas urnas presidenciais. E foi atendido no mesmo dia por quem invadiu o Capitólio, literalmente, a chifradas (Fotos: Mandel Ngan/AFP e Win McNamee/Getty Imagens – montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Hoje, 6 de janeiro de 2022, se completa um ano da invasão do Capitólio dos EUA por militantes do então presidente Donald Trump. Ele os atiçou pessoalmente, em discurso na área externa da Casa Branca, ao atentado contra a mais longeva democracia da Terra. Atendido por quem atacou seu próprio Congresso a chifradas de bisão, Trump mugia sua dor de corno pela derrota acachapante, nas urnas presidenciais de 3 de novembro de 2020, para Joe Biden. Que venceu com a folgada vantagem de mais de 7 milhões de votos populares. E por 306 a 232 votos no colégio eleitoral — resultado que conta lá e foi antecipado aqui, por este blog, um dia antes do resto do mundo.

A invasão do Capitólio se deu no dia em que este, presidido por Mike Pence, vice-presidente de Trump, reconheceu a vitória eleitoral de Biden. Deixou saldo de cinco mortos, entre eles Brian Sicknick, um dos mais de 140 policiais feridos ao tentarem conter os “cidadãos de bem” do lado de cima do Equador. Mestre do jornalismo brasileiro, Elio Gaspari deu ontem (05) o saldo das consequências: “Cinco dias depois da invasão do Capitólio, Steven M. D’Antuono, chefe do escritório de Washington do FBI, avisou: ‘Nossos agentes vão bater na tua porta’. Até agora, bateram numas mil portas e prenderam ou indiciaram 724 pessoas de 45 estados americanos. Abriram 170 investigações e partiram da análise de 100 mil peças de comunicação digital. Sem lavajatismo, quase todo dia havia alguém sendo interrogado”.

Elio Gaspari, jornalista e escritor

Sobre quem atendeu com chifres de bisão ao mugido da dor de corno de Trump, Gaspari emblematicamente acrescentou: “O palhaço que circulou com roupa de bicho e chifres na cabeça foi alcançado três dias depois e tomou até 41 meses de prisão. Queria notoriedade, tornou-se exemplo”. Também descreveu o perfil plural dos invasores e identificou seu líder singular: “Havia de tudo naquela multidão: jovens, velhos, famílias, veteranos, pastores, policiais, alguns pastores policiais, professores e malucos fantasiados, todos movidos pela realidade paralela instigada pelo presidente Donald Trump”.

O jornalista brasileiro ressalvou que ainda falta pegar os “peixes gordos” da tentativa de um golpe de estado nos EUA: “No primeiro aniversário da insurreição, peixe gordo se protege, tentando blindar a documentação da Casa Branca relacionada com o episódio (…) Sabe-se também que Ivanka, filha de Trump, tentou chamá-lo à razão, mas ele passou horas diante dos aparelhos de televisão. Seus advogados pediram à Suprema Corte que preservasse o sigilo das movimentações na Presidência. Deve-se esperar que a Corte se pronuncie, pois o caso é constitucionalmente intrigante. O ex-presidente (Trump) quer manter o sigilo que Joe Biden, seu rival na campanha, dispensou. O FBI brilhou, mas, nos limites de sua investigação, só pegou lambaris”.

 

Joe Biden discursou hoje no Statuary Hall, no Capitólio, sobre o aniversário de 1 ano da invasão ao Capitólio por militantes de Donald Trump (Foto: Drew Angerer/Poll/Reuters)

 

Ao discursar hoje no Capitólio há um ano invadido, Biden evitou citar o nome de Trump. Ainda assim, deu nome aos bois:

— Vou dizer o óbvio: um ano atrás, exatamente, neste local sagrado, a democracia foi atacada; simplesmente atacada. A vontade do povo estava sendo ameaçada, a nossa Constituição enfrentou a maior das ameaças (…) Pela primeira vez na nossa história, um presidente não tinha apenas perdido a eleição, ele tentou impedir a transferência pacífica de poder, com uma turba violenta que chegou ao Capitólio. Mas eles falharam, eles falharam. E, neste dia de lembranças, vamos garantir que um ataque como aquele nunca mais aconteça de novo (…) Mesmo durante Guerra Civil (dos EUA, 1861/1865) isso nunca aconteceu; nunca! Mas aconteceu aqui em 2021 (…) Nós vimos um presidente, que tinha acabado de mobilizar aquela massa para atacar, sentado no Salão Oval (da Casa Branca), olhando para tudo aquilo na televisão e fazendo absolutamente nada, por horas (…) Isso foi uma insurreição armada. Eles queriam negar o desejo do povo, eles estavam querem mudar o resultado de uma eleição livre e justa, eles estavam querendo subverter a Constituição (…) O ex-presidente dos EUA criou e espalhou um monte de mentiras sobre o que aconteceu na eleição de 2020. Ele fez isso porque dá mais valor ao poder do que aos princípios (…) Antes mesmo da contagem da primeira urna, o ex-presidente já estava lançando dúvidas sobre o resultado da eleição. Ele construiu essa mentira por meses, sem estar baseado em fato algum. Ele estava só querendo uma desculpa, um pretexto, para esconder a verdade. Ele não é só um ex-presidente; ele é um ex-presidente perdedor”.

 

Em 7 de narço de 2020, em Mar-a-Lago, na Flórida, Jair Bolsonaro e o então presidente dos EUA, Donald Trump (Foto: Alan Santos/PR)

 

Sobretudo após a tentativa frustrada de golpe de Jair Bolsonaro em 7 de setembro de 2021, o alerta do presidente dos EUA serve ao Brasil. Que tem um presidente orgulhoso por ser conhecido como “Trump dos Trópicos”. E cuja reeleição em outubro hoje é apontada como aritmeticamente impossível por todas as pesquisas. Na dúvida do que aconteceu e ainda pode acontecer, reveja os vídeos com os resumos do 6 de janeiro de 2021, nos EUA ainda de Trump; e no 7 de setembro do mesmo ano, no Brasil ainda de Bolsonaro:

 

 

 

 

Na transcrição abaixo, o testemunho daquele 6 de janeiro de 2021, no qual a democracia dos EUA foi alvo de terroristas internos. Tanto quanto havia sido por terroristas estrangeiros, e seus próprios erros de política externa, em 11 de setembro de 2001:

 

O dia em que Trump transformou os EUA em república de bananas

 

Militantes convocados por Donald Trump invadiram o Congresso dos EUA hoje, interrompendo a sessão que reconheceria a vitória do presidente eleito Joe Biden (Foto: Reprodução)

 

Tenho 48 anos (hoje, já são 49, perto dos 50). Lembro-me dos presidentes dos EUA desde Jimmy Carter. E dos seus seis sucessores na Casa Branca. Incluindo o atual, derrotado por Joe Biden nas urnas de novembro por 306 a 232 votos do colégio eleitoral, e mais de 7 milhões de votos populares.

Vivi para ver o Congresso dos EUA ser hoje invadido por militantes de um caudilho de 5ª categoria. Para transformar a democracia mais longeva do mundo, que há 232 anos elege pelo voto seus representantes, em uma republiqueta de bananas.

Espero viver para ver o responsável ser acusado, julgado e condenado com todo o rigor da lei. Tão logo seja cumprido seu mandado de despejo do poder, daqui a apenas 14 dias. E que sirva de exemplo abaixo do Equador, ao que espera o Brasil em 2022.

 

Marcha dos camisas negras do líder fascista Benito Mussolini no Palácio Quirinal, residência real em Roma, em 31 de outubro de 1922

 

Presidente eleito dos EUA, levando também a maioria no Congresso hoje invadido, Biden disse em pronunciamento: “Isso não é protesto, é insurreição”. Qualquer semelhança com um certo putsch em Munique, ou uma marcha dos camisas negras sobre Roma, não é mera coincidência.

Como não parece ser a visita anteontem (em 4 de janeiro de 2021) do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) aos ainda ocupantes da Casa Branca.

 

Atualização às 18h14: sobre o aniversário de 1 ano da invasão do Capitólio, confira também a análise do servidor federal Edmundo Siqueira, blogueiro do Folha1.

 

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O que o Brasil teria com Lula, Bolsonaro, Moro, Ciro ou Doria?

 

 

Hamilton Garcia, cientista político e professor da Uenf

A crise depois das urnas

Por Hamilton Garcia

 

As especulações sobre as eleições de 2022 seguem cada dia mais animadas com a estratégia do PT para neutralizar o centro, a entrada em cena de Sergio Moro, a vitória de João Doria no PSDB, a obstinação programática de Ciro Gomes e a aposta dobrada de Bolsonaro em seu próprio isolamento político. Em meio às movimentações, cresce entre alguns setores a crença de que a saída de Bolsonaro teria o poder de superar a crise por si só, como se ela se limitasse a seu desgoverno, o que não é o caso (vide A Crise e Suas Raízes).
A crise da Nova República se desdobra em dois planos pelo menos: a camada mais superficial dela se encontra no âmbito da governabilidade e pode ser sumariamente definida como o descasamento estrutural entre o governo do Executivo e o do Legislativo, em meio à anomia partidária e à sub-representatividade da Câmara Federal (distorção no peso do voto, compra de votos, partidos de aluguel, excessiva mobilidade parlamentar) que o Centrão, político e jurídico, pretende “resolver” com o semi-presidencialismo.
Já sua camada mais profunda, se assenta no esgotamento do bloco histórico financeiro-patrimonial-corporativo e seu programa liberal de incremento do consumo das famílias sem conexão com o desafio do desenvolvimento nacional — que passou a ser considerado um epifenômeno do mercado livre, à moda oitocentista.

Indiferente a ela, o quadro político-eleitoral segue bem segmentado em termos ideológicos, mas também inclinado ao pensamento mágico, o que garante um grau de incerteza muito grande sobre o itinerário da crise, cujas camadas se apoiam mutuamente na sustentação do sistema de dominação. Em outros termos, o programa do bloco histórico em crise seguirá erodindo o país se a neutralização do Legislativo não for revertida por uma reforma política radical, que não encontra espaço na polarização populista atual. A solução parece se insinuar fora dela, mas seu resultado no curto-prazo também promete um bom nível de incerteza, como veremos.

Mas, antes de tentar mapear os rumos da crise a partir de cada virtual vitorioso, é preciso assinalar que a incerteza eleitoral de 2022 terá um forte componente emotivo semeado pelos ódios até aqui cultivados nas bolhas dos respectivos espectros ideológicos. Infelizmente, nada faz crer que o esfaqueador esquerdopata de 2018 não possa reaparecer em versão direitopata, por meio de arma de fogo, não obstante os maus resultados colhidos no primeiro caso — ajudando a eleger quem se queria eliminar da disputa.

Seja como for, a crise que estamos experimentando desde 2013, sob o pano de fundo de uma semi-estagnação econômica desde 1980, parece garantida, se não pelo desnorteamento popular, certamente pela resistência tenaz dos donos do poder no interior de seus bunkers na Nova República.

Comecemos o esboço pelo atual mandatário, apesar de suas exíguas chances eleitorais em função da inflação alta, do péssimo desempenho governamental e da perda significativa de apoio popular e nas elites. Um hipotético novo mandato de Bolsonaro seguiria sendo uma composição militar-fisiológica sob o mando orçamentário do Centrão, que poderia mitigar a direção política do bolsonarismo por meio de um semi-presidencialismo de algibeira; o que, por si só, não afastaria o fantasma de um descontrole social em função do esgotamento do modelo econômico — com o qual o bolsonarismo, no fundo, conta para forçar o fechamento político em benefício próprio e de seus sequazes.

No caso de Lula ser o vitorioso, é possível esperar um melhor grau de estabilização da crise a partir de sua testada fórmula de conciliação pluto-populista, que lhe consagrou grande popularidade e quatro vitórias eleitorais consecutivas à sua coalizão (2002, 2006, 2010 e 2014), distribuindo grande parcela dos recursos orçamentários a banqueiros, empresários e políticos fisiológicos, enquanto, astutamente, atenuava as dificuldades de trabalhadores e marginalizados sem mexer nos alicerces do sistema.

Sabemos que hoje a situação lhe seria mais adversa, pois não apenas os alicerces do sistema estão abalados, como a autonomização parlamentar não cederia facilmente a seus apelos. Neste cenário, o modo lulista de governar dificilmente levaria às reformas necessárias para a reversão da crise, embora haja quem aposte na inteligência intuitiva de Lula e em seu compromisso nacional. As medidas que realmente interessam ao lulopetismo, essencialmente centradas nas necessidades de consumo da grande massa, via importações e não na produção interna com a (re)montagem das cadeias produtivas geradoras de riqueza e bons empregos, não colidem, como se evidenciou no passado, com as que interessam ao sistema parasitário de poder político e econômico.

Isto ocorre porque o programa consumista, na perspectiva petista de consolidação do poder, seria meramente tático, servindo, na verdade, para abrir caminho para a radicalização do processo de distribuição de renda, que, por sua vez, daria início à conquista da hegemonia política que possibilitaria o início do processo de construção do socialismo no Brasil que, como sabemos desde Cuba, de fato, significaria a canibalização do que restou das empresas produtivas do país, rumo à dependência extrema com relação às potências “anti-imperialistas” de plantão — como se vê hoje com a Venezuela em relação à China.

O avanço desta estratégia teria ainda vários nós que não caberiam aqui discutir, todos eles tendentes a abalar nossas já frágeis instituições democráticas, ensejando movimentos revolucionários/contra-revolucionários que, à luz de nossa tradição histórica, tenderiam a levar, em algum momento, à intervenção militar contra o caos e pela manutenção da ordem, sendo provável que tal intervenção assumisse um caráter tópico, como em 1945, embora não se possa afastar a hipótese — a depender do grau de agitação social — de uma refundação à moda de 1930, dificilmente chegando a um 1964 (vide A Questão Militar).

Conscientes disso, setores mais radicais do petismo advogam que tais medidas se articulassem, de partida, à organização de comitês populares de modo a dissuadir a burguesia de derrubar Lula; o que é visto pela cúpula partidária como um convite ao golpe. Tal perspectiva, embora minoritária hoje, poderia ganhar fôlego em meio ao agravamento da crise e das pressões por reformas estruturais que libertassem o país do parasitismo financeiro-neopatrimonial da Nova República.

Já no caso de vitória de um dos azarões da disputa, em especial Moro e Ciro, e talvez Doria, as chances de governabilidade (sem estelionato eleitoral) estariam depositadas na reversão do atual modelo de governança inaugurado pelo PT com o Mensalão e aprofundado por Bolsonaro no “Orçamento Secreto”. Para tanto, precisariam promover acordos políticos à chilena, negociando seus programas governamentais com os opositores ao invés de tentar viabilizá-los pelo rolo compressor da compra de voto parlamentar, o que colocaria parte do Congresso em pé de guerra contra a “perda de prerrogativas”. Neste contexto, no curto-prazo, a crise de governabilidade se sobreporia à crise econômico-social, só podendo ser evitada por meio de um amplo compromisso partidário pela reconstrução nacional nos dois níveis (político e econômico), pacto que a fragmentação partidária e a polarização político-ideológica poderiam inviabilizar.

Supondo que a primeira camada de dificuldades (governabilidade) possa ser transposta pela dramaticidade dos acontecimentos e a força político-moral do vitorioso em 2022 – o que não comporta a vitória de Lula ou de Bolsonaro –, restaria a segunda camada (modelo econômico) e a dificuldade em si da elaboração de alternativas viáveis.

No primeiro caso, as reformas teriam que mirar o poder de veto neopatrimonial do Centrão, cuja força provém da plasticidade política propiciada pelo atual sistema eleitoral (voto proporcional preferencial) e partidário (partidos de aluguel sem responsabilidade política efetiva com a mobilização eleitoral, o autofinanciamento de campanha e a seleção de quadros políticos).

No segundo caso, as medidas necessárias seriam não só mais complexas como atingiriam interesses vitais de grupos econômicos poderosíssimos, para não falar da polarização ideológica, mais antiga e estruturada, opondo liberais e desenvolvimentistas — polarização que só foi quebrada durante a vigência do regime militar, levando liberais ortodoxos como Roberto Campos a promover uma forte política intervencionista do Estado na economia a partir de 1967. Na ausência de tal tutela, a convergência hoje precisaria do reconhecimento, por parte dos liberais, da importância do Estado como planejador de longo-prazo do desenvolvimento nacional, naturalmente com a participação democrática da sociedade e o papel corretor do mercado nas inevitáveis distorções do plano — o que também dependeria fortemente do grau de radicalização adquirido pela crise.

Neste terreno acidentado, Moro poderia tirar proveito de sua moderação, capacidade de diálogo e franqueza de propósitos, enquanto Ciro, deficiente da primeira qualidade, já se prepara exercitando tal diálogo na própria campanha (vide debate com Armínio Fraga), ao passo que Doria parece mais inclinado à plasticidade do marketing do que à solução de problemas — embora nada o impeça de evoluir premido pela crise. É de se salientar que Ciro é o que tem o melhor diagnóstico do problema econômico, uma vantagem não desprezível num quadro carente de alternativas inovadoras, que só poderão medrar a partir de uma reflexão crítica em relação ao desenvolvimento passado — que esquecido e distorcido pelos críticos neoliberais, nos levou de volta ao atraso político e à dependência intelectual-econômica da qual os PNDs dos anos 1970, em parte, nos havia afastado.

Tal estratégia de choque, na largada do mandato transformador, enfrentaria de cara tenaz oposição do sistema de dominação, tendo que vencer o duplo desafio do diversionismo ideológico e da força dos privilégios adquiridos que unem o Centrão às elites econômico-financeiras. Em outros termos, a crise aguda, que com Bolsonaro e Lula — e em certa medida, talvez, com Doria —, pode ser postergada pela pouca disposição de ambos em fazer reformas estruturais, no caso de Ciro e Moro se apresentaria imediatamente, pelo motivo oposto, aumentando a percepção dos custos da mudança.

Contrariamente ao senso-comum predominante hoje no eleitorado, a tradição neopatrimonial-financeira que estiola o país, tem em Lula e, em certa medida, em Bolsonaro, seus candidatos preferidos por suas capacidades ilusionistas. Tais preferências, porém, não só esbarram no esgotamento do modelo, como trazem consigo os perigos da desordem no médio-prazo, enquanto as candidaturas de Ciro e Moro tendem a enfrentar estes desafios no curto-prazo, mantendo consigo a iniciativa de jogo e, portanto, aumentando as chances de solução favorável ao país e à democracia.

Isto não quer dizer que as saídas verdadeiramente republicanas (anti-patrimonial-financeiras) não tenham seus perigos, mas que valem a pena corrê-los diante da possibilidade de nos livrarmos democraticamente do antigo regime, vale dizer, sem recorrer à catástrofe revolucionária/contra-revolucionária. A mobilização popular sobre o Congresso, na tentativa de produzir diálogos/acordos políticos, como se está insinuando no Chile, traz igualmente riscos, sobretudo, como no caso do Brasil, pela fragilidade do sistema partidário e das lideranças sociais comprometida com suas bases.

Todavia, se ao cabo, as eleições fracassarem em apresentar soluções efetivas aos problemas do país, seremos lançados num período de turbulências cujo resultado final pode, mais uma vez, ser a modernização conservadora. Neste caso, teríamos apenas perdido tempo, pois não existe mais espaço para o desenvolvimento sem a superação do hiato que separa o Estado da nação e, assim, mantém o subdesenvolvimento — no qual a corrupção institucionalizada constitui o principal calcanhar de Aquiles.

 

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Retrospectiva 2021 — Folha reflete o Brasil em Campos

 

“Campos é o espelho do Brasil”. A frase é atribuída ao ex-presidente Getúlio Vargas. E, neste ano de 2021, teve eco real no Grupo Folha, em uma série de entrevistas com figuras de proa da política nacional e estadual talvez sem paralelo na secular história da imprensa goitacá. Que serviu para ajudar leitores, ouvintes e telespectadores a formarem suas opiniões diante do ano novo e eleitoral de 2022, que promete estar entre os mais quentes na História de um país que completará seus 200 anos de independência. À altura da tradição de 44 anos da Folha como mais importante veículo de mídia do interior do Estado do Rio, essas entrevistas foram fruto de um trabalho de jornalismo profissional que terá sequência nestes pouco mais de nove meses que nos separam da decisão soberana das urnas de outubro.

Se Campos realmente espelha o Brasil, o reflexo goitacá poderia inspirar o tupiniquim. Após um 2020 em que a cidade mergulhou na sua maior crise financeira desde que os royalties do petróleo começaram a ser pagos em 1986, 2021 registrou um aumento de 97,7% nas receitas petrolíferas. Sem contar outro crescimento de quase 100%, na emissão de notas fiscais pelos CNPJs do município: do R$ 1,6 bilhão de 2020 aos R$ 3,1 bilhões de 2021. Ano no qual os brasileiros voltaram a amargar uma inflação de dois dígitos, o que não acontecia desde 2016, como reflexo do desastre do governo Dilma Rousseff (PT). Que o governo Jair Bolsonaro (PL) busca superar após comprar o Congresso com um Orçamento Secreto de R$ 17 bilhões, para dar o calote nos precatórios — dívidas de pessoas físicas e jurídicas a receber da União — e furar o teto de gastos no ano eleitoral de 2022. E que, segundo todos os economistas, afundará o país ainda mais na crise econômica.

Para discutir o difícil quadro nacional em seus diferentes matizes, em 2021 o programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, entrevistou ao vivo o ex-senador e ex-governador de Brasília, Cristovam Buarque (Cidadania), em 25 de maio; o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), em 9 de julho; o general da reserva do Exército Francisco Mamede de Brito Filho, em 23 de julho; o deputado federal e pré-candidato a governador Paulo Ganime (Novo), em 5 de agosto; o ex-prefeito de Niterói e pré-candidato a governador, Rodrigo Neves (PDT), em 13 de agosto; a ex-senadora e três vezes candidata a presidente da República, Marina Silva (Rede), em 20 de agosto; o deputado e líder da oposição na Câmara Federal, Alessandro Molon (PSD), em 24 de agosto; o deputado federal e pré-candidato a governador Marcelo Freixo (PSD), em 26 de agosto;  o ex-governador do Ceará, ex-ministro dos governos Itamar Franco (PMDB) e Lula (PT) e presidenciável Ciro Gomes (PDT), em 10 de setembro; o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico e deputado federal Vinicius Farah (MDB), em 24 de setembro; o empresário e candidato a presidente da República em 2018 João Amoêdo (Novo), em 1º de outubro; o jornalista da Globo News e ex-deputado federal Fernando Gabeira, em 8 de outubro; o ex-governador e radialista Anthony Garotinho (sem partido), em 15 de outubro; o deputado estadual e presidente da Alerj, André Ceciliano (PT), em 29 de outubro; o colunista da revista Veja Ricardo Rangel, em 16 de novembro; o jornalista e articulista da CBN, O Globo e Estadão, Pedro Doria, em 3 de dezembro; e o historiador, especialista em América Latina e professor da Universidade Estadual de São Paulo (Unespe), Alberto Aggio, em 10 de dezembro.

 

Entrevistados nacionais e estaduais do Grupo Folha em 2021: Cristovam Buarque, Eduardo Paes, Francisco Mamede de Brito Filho, Paulo Ganime, Rodrigo Neves, Marina Silva, Alessandro Molon, Marcelo Freixo, Ciro Gomes, Vinicius Farah, João Amoêdo. Fernando Gabeira, Anthony Garotinho, André Ceciliano, Ricardo Rangel, Pedro Doria, Alberto Aggio, Luiz Carlos Bresser-Pereira, Cláudio Castro e César Maia (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr,)

 

Além das ondas da rádio mais ouvida de Campos e região, todas essas entrevistas foram reproduzidas em streaming, na Plena TV, no portal Folha1 e na Folha da Manhã. Só no jornal impresso, 2021 também trouxe entrevistas com outros personagens importantes: o economista e ex-ministro dos governos Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e José Sarney (MDB), Luiz Carlos Bresser-Pereira, em 15 de maio; o governador e pré-candidato a governador Cláudio Castro (PL), em 7 de agosto; o economista, ex-prefeito do Rio e atual vereador carioca, Cesar Maia (DEM), em 18 de setembro. Ao todo, foram 20 entrevistas realizadas pelo Grupo Folha com protagonistas da vida política nacional e estadual, além de alguns dos seus analistas mais qualificados na mídia e na academia brasileiras.

Qualquer que seja o resultado das urnas de 2022, a deputado estadual, federal, senador, governador e presidente da República, o país só sairá da sua grave crise com diálogo. Ao promover o do Brasil com Campos e a região, neste 2021 que não foi fácil para ninguém, o Grupo Folha espelha seu desejo mais sincero por um feliz ano novo!

 

Capa da Retrospectiva de 2021 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

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