Campos e região começam a sair da crise econômica?

 

Com aumento das receitas do petróleo em mais de 92% em relação a 2020, quando teve duas Participações Especiais (PEs) zeradas, Campos começa a sair da crise econômica nestes quase 10 primeiros meses de 2021? Esta, entre outras perguntas, foram feitas, em ordem alfabética, a Fábio Ribeiro (PSD), vereador, presidente da Câmara de Campos e do Parlamento Regional dos 22 municípios do Norte e Noroeste Fluminense; Igor Franco, especialista em finanças e professor do Uniflu; José Francisco Rodrigues, empresário e presidente da CDL, e o petroleiro José Maria Rangel (PT), diretor do Sindipetro-NF. Suas respostas, se não chegam a ser desanimadoras, demonstram o quanto a cidade e a região estão e continuarão a estar à mercê da incontrolável conjuntura internacional do petróleo. Assim como de suas próprias limitações de infraestrutura física, capital humano e desigualdade social. Cuja resolução urge para encarar processos inevitáveis, como a metropolização da região da Bacia de Campos. Entre as várias sugestões dadas por quatro pensamentos muitas vezes distintos, pontos de interseção, como o diálogo entre poder público e sociedade civil, foram estabelecidos neste painel.

 

Vereador Fábio Ribeiro, especialista em finanças Igor Franco, empresário José Francisco Rodrigues e petroleiro José Maria Rangel (Montagem: Elaibe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Folha da Manhã – Após um ano de 2020 economicamente muito difícil, com duas PEs ineditamente zeradas em agosto e novembro, tudo até aqui aponta um 2021 com finanças menos apertadas a Campos. Dá para dizer que saímos da crise?

Fábio Ribeiro – Lógico que não dá para dizer que saímos da crise, porém posso afirmar que estamos no caminho certo. Tivemos neste ano de 2021 a preocupação com equilíbrio fiscal. O município de Campos reduziu as despesas correntes e vem aumentando as suas receitas, tanto as de transferência como as próprias. Algumas medidas duras infelizmente precisaram ser tomadas, mas contribuíram com a redução com gasto de pessoal referente à Lei de Responsabilidade Fiscal, que bateu 54,5% em dezembro de 2020, em 54,5% e fechou o segundo quadrimestre de 2021 em 44,98%. Acredito que estamos no caminho certo.

Igor Franco – Se entendermos como “crise” a fase mais aguda, dado os preços de petróleo, que devem permanecer altos; e a cotação do dólar, que deve permanecer elevada; possivelmente teremos um 2022 mais tranquilo. O grande problema do município, entretanto, é estrutural: temos gastos elevados demais, rígidos e uma baixa eficiência geral na prestação de serviços à população. O grande perigo é imaginar que nosso problema foi superado pelo simples fato de não estarmos mais atrasando salários dos servidores. Devemos aproveitar o alívio momentâneo para buscar respostas de longo prazo para os nossos problemas fiscais.

José Francisco Rodrigues – De certa forma sim. As Participações Especiais estão sendo importantes para arrumar a economia do poder público municipal. Em uma visão maior, posso dizer que o setor produtivo privado também, aos poucos, vai se recuperando. Existem sinais claros disso, embora muitas empresas tenham fechado por causa da pandemia. Se não é um quatro bastante animador agora, posso dizer que não é mais tanto desanimador. E que estamos recuperando o tempo e o espaço perdidos.

José Maria Rangel – Essa melhora da situação fiscal é algo completamente conjuntural, em função do aumento do preço do petróleo internacional e de desvalorização do câmbio. É importante que a sociedade compreenda que a entrada dessas receitas não tem relação com a gestão do município, mas sim com o mercado internacional de petróleo. Por isso, se houver uma nova piora da situação externa, a cidade de Campos será afetada novamente. Infelizmente, esse resultado reflete os ciclos da indústria mundial de petróleo e não uma melhora robusta das finanças municipais.

 

Folha – O principal indicador da melhora na situação econômica é o acréscimo substancial o município que teve em royalties e PEs: somados de janeiro a setembro de 2020, foram R$ 208,4 milhões, 92,8% a menos que os R$ 401,9 milhões no mesmo período de 2021. Até quando Campos continuará refém das rendas do petróleo? Por que ainda somos dependentes após 30 anos de recebimento de royalties e mais de 20 de PEs?

Fábio – A independência dos royalties está sendo discutida pelo nosso Parlamento Regional, que reúne os 22 municípios das regiões Norte e Noroeste do estado. No mesmo período da pergunta, vivemos uma grande covardia, pois o estado vizinho do Espírito Santo, com uma alíquota bem menor que a nossa, acaba ganhando um grande número de investidores. Temos que lutar pela equiparação da alíquota e criar um grande plano de desenvolvimento econômico, que conste a vocação de cada município e o ponto em comum que é o agronegócio, os dois visando a industrialização. Estou muito motivado com o nosso futuro.

Igor – Poucos conseguem formular alternativas viáveis de receitas que suplantem a renda do ouro negro. A explicação é trivial: trata-se de uma receita que não tem qualquer esforço de arrecadação pelo município. A extração é privada ou a cargo de outro ente da federação; as receitas são calculadas e pagas por entes externos ao município e os valores são extremamente elevados. Do ponto de vista político, ainda haveria o desgaste de justificar para a população a necessidade de criar novos tributos, enquanto os cofres estão sendo plenamente abastecidos. Ou seja: é impopular e dá trabalho, tudo que qualquer político odeia.

José Francisco – Campos ainda vai continuar por um bom período refém dessas PEs e do petróleo propriamente dito. Isso porque continuamos não fazendo o chamado dever de casa. A gente continua usando mal os royalties. Esse dinheiro deveria ser acondicionado em um fundo de reserva, que muitos chamam de fundo soberano, para ser aplicado em momentos difíceis e também incentivar a nossa economia. Experimentos como o Fundecam não deram certos porque não se cobraram garantias. O certo seria usar esse dinheiro como uma reserva para momentos críticos e chamar a sociedade para debater.

José Maria – A miopia do grupo político que governa o município há 30 anos, com exceção de Rafael Diniz, mas que também fez uma gestão catastrófica, tem como efeito colateral essa dependência econômica de Campos em relação à indústria petróleo. Enquanto não houver nenhum governo que utilize esses recursos para criar alternativas as receitas do petróleo, tentando atrair novos empreendimentos e outras indústrias para o município, continuaremos dependentes dos royalties e PE até quando existir produção de petróleo por aqui.

 

Folha – Com a partilha dos royalties aprovada no Congresso Nacional e suspensa por uma liminar no Supremo desde 2013, a mudança de matriz energética para fontes limpas perseguida pela Europa e os EUA sob governo Joe Biden, e o fato dos nossos campos de petróleo serem maduros, explorados comercialmente desde 1977, qual o futuro da atividade? E para Campos?

Fábio – Observando com cautela a mudança das matrizes energéticas. Trazendo isso para nossa realidade, percebemos que Campos pode seguir essa tendência. Essa é uma crise que pode ser uma oportunidade para o nosso município, desde que haja planejamento. Nós temos a questão da energia solar que pode ser uma solução, as termoelétricas, a eólica. Podemos, sim, com planejamento, criar uma alternativa para o nosso município e regiões. Mesmo com a busca de energias limpas, acredito que teremos a manutenção da atividade petrolífera por um bom tempo, mas cientes de que é uma atividade finita.

Igor – A indústria do petróleo ainda deve ter vida longa. A tentativa de mudança rápida na matriz energética para fontes limpas, não-nucleares, está cobrando um alto preço no momento com a crise do gás natural na Europa. Os campos maduros da Bacia de Campos são menos produtivos e podem tornarem-se economicamente inviáveis, reduzindo substancialmente as receitas petrolíferas. Isso torna ainda mais urgente a estruturação de um plano de longo prazo para desenvolver ou resgatar vocações econômicas da cidade e da região. Que deveria ser uma preocupação não só municipal, mas também federal e estadual.

José Francisco – Ainda vamos ter, por algum tempo, uma economia regional girando em torno do petróleo. Mas temos que nos livrar dessa dependência, até porque uma hora o STF vai bater esse martelo. O Porto do Açu que tem uma termelétrica já funcionando e outra com obras iniciadas. Mas a gritaria ambiental contra o uso de combustível fóssil é uma agenda forte. Defendemos investimento em energia limpa e temos todas as condições para isso. Podemos ter grandes usinas de energia solar espalhadas pelo município e eólica também. Governos e instituições financeiras deveriam incentivar. São as matrizes energéticas do futuro.

José Maria – Não há dúvida que o mundo atravessa um período de grande mudança para produzir energia mais limpa. Apesar disso, o petróleo e o gás natural continuam sendo as principais fontes de energia do mundo, e ainda serão importantes por algumas décadas. O ideal é que as empresas de petróleo comecem a criar sinergia com a indústria de energia limpa. Na Noruega, já há casos de operadoras utilizando plataformas de petróleo para instalar estruturas de eólica offshore. Estudos realizados aqui na região, já indicam a Bacia de Campos pode seguir esse exemplo. Sou otimista com essa possibilidade para o nosso município.

 

Folha – Há notícias positivas também em receita própria. Em todo o ano de 2020, Campos gerou R$ 1,6 bilhão em notas fiscais de serviço emitidas pelos CNPJs do município. Em setembro de 2021, esse valor já tinha chegado a R$ 2,2 bilhões. E o governo Wladimir projeta que possa chegar perto dos R$ 3 bilhões até o fim do ano. Como você analisa?

Fábio – Discordo sobre esses números (na verdade, repassados por Wladimir). Temos um orçamento em 2021 de 1,7 bilhões e poderemos chegar no final do ano, perto de 2 bilhões, e a previsão do governo Wladimir para 2022 é de 1,9 bilhões. Eu acredito que devido à austeridade do governo Wladimir e pela busca do equilíbrio fiscal, poderemos ter um superávit no final do ano. E isso é logico, implicará no orçamento de 2022. Não sei precisar o valor corretamente. Essa discussão tem que ser com a sociedade civil em todos os segmentos, uma outra forma tributária, considerando a credibilidade que o governo vem conquistando.

Igor – A expansão da atividade econômica sempre deve ser comemorada. Campos é um polo geograficamente estratégico, possui uma infraestrutura universitária invejável e protagonismo histórico no interior do estado. Com a retomada forte dos investimentos no Porto do Açu, temos a oportunidade de estar entre duas grandes indústrias mundiais, petróleo e operações portuárias, além da tradicional força do comércio e serviços da planície. O trabalho do poder público deve ser buscar a sustentabilidade de longo prazo do crescimento. Commodities como petróleo e minério de ferro, que movimentam o Porto, são cíclicos por natureza.

José Francisco – São bons números, mas para que possamos deixar a condição de reféns dos royalties precisamos aumentar essa chamada receita própria. Não através de aumento de impostos e, sim, com o aumento da produção. Aumentar impostos neste momento é justamente impedir que o setor produtivo se recupere. Temos que aumentar essa arrecadação própria aumentando a produção, atraindo novos investimentos, incentivando a empregabilidade. As possibilidades são muitas.

José Maria – Vejo com bons olhos essa notícia. Além de gerar mais recursos para que o município possa investir, a emissão das notas fiscais evita a sonegação, com produtos e serviços de melhor qualidade. No entanto, acredito que Campos pode avançar mais, dando incentivos à população para solicitar nota fiscal, como fazem outros municípios do estado. Em Niterói, por exemplo, o programa NitNota fornece desconto do IPTU do próximo ano, quando uma pessoa exige a nota fiscal. A cada pagamento, o cliente receberá crédito de 10% do ISS efetivamente recolhido. Experiências como essas precisam ser adotadas em Campos.

 

Página 10 da edição de hoje da Folha

 

 

Folha – Passada a fase mais crítica da pandemia da Covid-19, em setembro a Azul retomou a venda de passagens para voos de Campos, Macaé e Cabo Frio aos EUA. E, no início deste mês, a inédita venda de voos comerciais regulares de Campos e Macaé à Europa. O que o mundo parece ver economicamente na região que nós temos que aprender a enxergar?

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Fábio – Campos está no centro das regiões Norte e Noroeste Fluminense e sendo uma cidade que é a maior do interior do estado, possui muitas características importantes: o maior numero de população, maior PIB, alternativas das matrizes energéticas, agronegócio, o petróleo, um comércio que pode voltar a ser pungente e um polo universitário que representa muito. O que vemos é uma circulação grande de dinheiro e depósitos bancários que são significativos. Porém, temos que melhorar muito a distribuição de renda e, principalmente, a oportunidade de crescimento e desenvolvimento de vida.

Igor – Campos e Macaé são as principais cidades do estado do RJ fora da região metropolitana da capital. Além disso, a presença de multinacionais ligadas à área de petróleo torna o eixo mais estratégico para companhias aéreas. Porém, a notícia me parece menos surpreendente do que à primeira vista. No site da companhia aérea que opera o trecho, é possível localizar passagens de São Félix do Araguaia (MT) para a Europa. Em tempo, a cidade mato-grossense possui 10 mil habitantes e um PIB de R$ 140 milhões de reais.

José Francisco – É uma boa expectativa, sinal de que estamos no mapa. Mostra que Campos é grande e tende a crescer ainda mais. A demanda para esse tipo de serviço, por tudo que passamos e ainda estamos passando, é pequena. Mas essa decisão da empresa Azul mostra que ela acredita no nosso potencial. Então digo que é uma expectativa plausível e animadora.

José Maria – Na melhor das hipóteses, como Campos possui dois voos diários para o Rio de Janeiro, um pouco menos de 5 mil cidadãos viajam todo mês, o que representa menos de 1% da população. Enquanto isso, o número de pessoas na miséria só cresce. Já são mais de 120 mil pessoas diretamente beneficiadas pelo Bolsa Família. Não acredito que esse seja o melhor parâmetro para medir uma suposta recuperação econômica, mas sim para mostrar a gigantesca desigualdade do município.

 

Folha – Representativo no passado, o setor produtivo de Campos tem retomado sua força política. Já havia enquadrado o governo Rafael Diniz e voltou a fazê-lo com Wladimir, no engavetamento do novo Código Tributário e na resistência ao reajuste do IPTU. Como equilibrar interesses muitas vezes antagônicos entre iniciativa privada e poder público?

Fábio – Estivemos reunidos com os representantes do setor produtivo e combinamos de fazer um fórum permanente de debates para um banco de ideias para o Legislativo e possíveis ações do Executivo. Não concordo com o engavetamento do Código Tributário ter sido só por força do setor produtivo, nós tivemos uma má condução do processo político. Dos 13 projetos apresentados pelo Executivo, 12 foram aprovados. O que teve reflexo na aprovação do TAG (Termo de Ajustamento de Conduta) junto ao TCE. E, agora, de uma forma mais tranquila podemos discutir juntos uma nova forma de participação na questão tributária.

Igor – No Brasil, toda classe possui algum tipo de benefício que precisaria revisto à luz do melhor interesse nacional. Alguém que esteja perdendo algum benefício não acredita que esse sacrifício será arcado por outros e, então, sente-se na posição perdedora. Isso é verdade, visto que políticas de ajustes no Brasil nunca são horizontais e, invariavelmente, algumas partes interessadas mantém seu quinhão preservado. O empresário sente que os políticos mantêm privilégios; o assalariado se acha mais afetado que o empresário; o pensionista se julga prejudicado em relação ao profissional da ativa. O resultado é um equilíbrio ruim para todos.

José Francisco – Com diálogo e debatendo exaustivamente cada ponto antagônico. A CDL defende os interesses do comércio, do segmento produtivo e da sociedade em geral. Não fizemos outra coisa este ano senão debatermos exaustivamente essas questões as quais você se referiu. O diálogo é uma ferramenta importante. Temos feito isso e colhidos resultados na medida do possível.

José Maria – O problema é que atualmente a maioria dos nossos representantes, na Câmara Municipal, estão atrelados, de alguma forma, ao setor produtivo. Por isso, quando são colocadas pautas que atendem seus interesses, mas prejudicam a maior parte da sociedade, são aprovadas tranquilamente. Todavia, quando o contrário acontece, há um grande tensionamento. Por isso, a dificuldade de aprovar o IPTU, mas a facilidade em aprovar a contribuição para iluminação pública. Esse maior equilíbrio só ocorrerá quando tivermos uma Câmara de Vereadores com mais representação da sociedade civil.

 

 

 

Folha – Na série de 11 painéis sobre a crise financeira de Campos (confira aquiaquiaquiaquiaqui, aquiaqui, aqui, aquiaqui e aqui), que ouviu 34 representantes diversos da sociedade civil organizada de julho a setembro de 2020, a Folha combateu o estelionato eleitoral na eleição a prefeito. Entre as discordâncias, houve três opções consensuais: retomada da vocação agropecuária, parceria com o polo universitário e pregão eletrônico integral nas compras. O que precisamos avançar em cada uma delas?

Fábio – Precisamos avançar muito na área agropecuária. Porém, dentro dessa nova perspectiva do Parlamento Regional precisamos fazer um planejamento junto aos outros municípios, fortalecendo não cada um isoladamente, mas toda a região. Quanto à participação das universidades é indiscutível, já que temos aqui instituições de grandes qualidades. Referente ao pregão eletrônico integral, isso hoje é uma realidade que hoje está estabelecida por lei (na verdade, só às compras com verbas federais). Faço só uma ponderação quanto à reserva às empresas locais, pois com a nova lei empresas de todo Brasil poderão participar.

Igor – Há diversos pontos que podem ser levantados para cada uma das iniciativas. Porém, algo que une todas elas e que deve ser trabalhado pelo poder público é a publicidade das medidas que estão sendo tomadas nesse sentido. Sinto falta de um plano de desenvolvimento de longo prazo, tão comentado ao longo da entrevista, e que seja facilmente consultado e acompanhado pelos cidadãos. A publicidade das iniciativas públicas, principalmente as mais aclamadas pela população e pela sociedade civil organizada, promovem o controle social do trabalho executado pelo governo e o aperfeiçoamento das políticas desenvolvidas.

José Francisco – Começo destacando que essa foi uma boa iniciativa do Grupo Folha. Sempre tivemos uma grande vocação agropecuária que andou meio esquecida. Hoje, neste momento, o agronegócio do país é a locomotiva da nossa economia. Acreditamos que possa ser aqui também. A universidade é importante neste processo com suas pesquisas e na educação em geral, porque a educação liberta. Quanto ao pregão eletrônico já é uma realidade (na verdade, só é, por imposição legal, para as compras municipais com verbas federais).

José Maria – Para avançar é necessário que o governo também envolva a sociedade civil na execução das políticas públicas para o município. Na minha opinião, o que falta é vontade política de dialogar com todos os setores da sociedade para que propostas desse tipo de proposta se efetive, como ocorreu quando foi criado o Conselho do Desenvolvimento Econômico e Social (Conselhão) em 2003. O Conselhão, por exemplo, trouxe a proposta de implementação do Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). Propostas como essa apenas surgem se toda a sociedade civil for envolvida na construção de políticas públicas.

 

Folha – Na questão da parceria com o polo universitário e, sobretudo, na retomada da centenária vocação agropecuária do município, uma iniciativa importante foi o Projeto Fênix. Com apoio da Folha e reunindo 20 entidades, já entregou documento base ao governador Cláudio Castro e firmou apoio com a Assessoria Especial da Presidência da República. Como vê a iniciativa?

Fábio – Importantíssima a iniciativa do projeto fênix. Quero convidar o projeto para estar junto com a Câmara de Campos e o Parlamento Regional institucionalizando ou conversando sobre possíveis projetos de lei, e caso seja da vontade das instituições participantes disponibilizamos a Casa Legislativa para que haja debates e participação institucional.

Igor – A retomada da vocação agropecuária parece ser uma das alternativas mais promissoras à dependência do petróleo. Dessa forma, as iniciativas nesse sentido têm minha simpatia, são boas notícias. O otimismo fica ainda maior quando tais propostas são embasadas em estudos acadêmicos, evidências científicas, e estruturados de forma planejada, algo que deveria ser padrão em todas as iniciativas de governo. Mas que nem sempre ocorre, principalmente em nível municipal.

José Francisco – Repito que apostamos no agronegócio e estamos vendo algumas iniciativas se desenhando. A agroindústria açucareira hoje já gera 10 mil empregos no curso da safra. A pecuária, tanto de leite quanto de corte, está ganhando corpo. Novas culturas estão sendo introduzidas. Esse é um dos caminhos e o projeto Fênix vai impulsionar com certeza tudo isso.

José Maria – A iniciativa, sem dúvidas, é importante, mas minha maior preocupação é a falta de envolvimento do trabalhador do campo na discussão desse projeto. Entre os parceiros, a maior parte é de associações ligadas aos empresários, como a Associação Fluminense dos Plantadores de Cana (Asflucan). É fundamental que iniciativas como essa tenha a participação dos trabalhadores, que têm uma visão da realidade diferente do empresariado. O impacto de questões como escoamento da produção e a falta de estradas asfaltas são melhores entendidas pelos trabalhadores.

 

Municípios no processo de metropolização da região fluminense da Bacia de Campos

 

Folha – Atento a esses sinais de retomada de crescimento, o geógrafo William Passos, especializado em estatística e desenvolvimento regional, e produto do polo universitário goitacá, tem sua tese de doutorado no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur) da UFRJ dedicada ao processo de metropolização da região da Bacia de Campos, que seu estudo aponta como inevitável. Campos e região estão prontas para ele?

Fábio – Vejo com bastante satisfação o processo de metropolização e naturalidade. Campos, como já disse, é um município com grandes potencialidades: posição geográfica privilegiada, próxima ao Porto do Açu, um aeroporto agora internacional. Porém, preocupa a falta de planejamento do uso do solo dos municípios da região, da mobilidade urbana e, repito, aproveitando um dos nossos pontos fortes que é ser polo universitário. Podemos planejar através dos nossos universitários.

Igor – Com olhos de hoje, não me parece que a região esteja preparada para um salto de desenvolvimento no curto prazo. Havendo a necessidade de uma expansão produtiva em larga escala, teríamos muitos gargalos de infraestrutura, de capital humano, dentre outros problemas. Entretanto, um planejamento de longo prazo que estabeleça diretrizes claras e que consiga ser bem executado, poderia facilmente sanar tais limitações. Nem tudo é vontade política, mas o primeiro passo precisa ser dado pelo poder público.

José Francisco – O crescimento é inevitável e o ambicionamos. Quem não quer crescer? Campos já começa a ganhar traços metropolitanos. Crescer é bom, mas de forma ordenada. Então, se em médio prazo vamos nos tornar uma metrópole, precisamos nos preparar para isso, principalmente com infraestrutura em todos os sentidos, até para que esse crescimento aconteça. É a infraestrutura em todos os seus níveis, em saneamento, educação, saúde e transporte, que atrai os investimentos e as empresas.

José Maria – Há um otimismo, a meu ver, exagerado em realização à metropolização da região. Há um crescimento da indústria solar e a construção de novas térmicas na região que podem criar um certo dinamismo econômico. Mas, essas atividades têm um potencial de geração de renda e expansão da infraestrutura muito mais limitado que a indústria do petróleo. E, quando vivemos o auge do petróleo na região, boa parte da indústria de fornecedores permaneceu no Rio, muito em função das dificuldades do Norte Fluminense de prover a infraestrutura necessária para atraí-los.

 

(Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Folha – Sem ideologia política ou declaração de voto, o que espera como consequências econômicas das eleições a presidente da República e governador de 2022, nas quais as pesquisas até aqui apontam à polarizações entre Lula e Jair Bolsonaro? Acredita que, antes de 2023, o Brasil sairá do seu grave quadro de estagflação, associando estagnação do crescimento com altas da inflação e desemprego?  

Fábio – Para desenvolver precisamos investir. É verdade que estamos paralisados. Não temos geração de emprego, a inflação vem mantendo o índice ou com aumento mensalmente. O brasileiro está desempregado ou recebendo mal e tendo que pagar uma cesta básica mais alta, consequência imediata da inflação. Não vejo a possibilidade de mudança de quadro antes da eleição de 2022. Por causa do isolamento politico do presidente, falta articulação com os governadores e prefeitos. Não estou avaliando o governo do presidente, mas ponderando sobre a paralisação econômica do nosso país.

Igor – Após sucessivas violações das regras fiscais e frustração completa das medidas econômicas prometidas, o mercado parece não diferenciar a eleição de Lula ou de Bolsonaro. Com a derrubada informal do teto de gastos, os juros futuros e a inflação implícita lembraram os piores momentos do governo Dilma. Nesse cenário, dificilmente teremos qualquer notícia muito positiva até o fim do ano que vem, não descartando uma possível recessão econômica. A inflação deve ceder, já que parte do impacto foi causado por restrições de oferta que devem se dissipar nos próximos meses. Mas essas são péssimas notícias para o desemprego.

José Francisco – Incentivar essa polarização, embora exista, não é saudável. Hoje esperamos da política resultados econômicos. Acho que mais do que os políticos, a sociedade tem que buscar soluções dos problemas que vive em todos os níveis. E uma dela é fazer o bom uso do voto. Os governos atuais e eleitos, ou reeleitos, deveriam ter como prioridade baixar a inflação e fazer subir o nível de empregos.

José Maria – Não acredito que em um país onde as pessoas estão se alimentando de pé de galinha possa se imaginar uma melhora significativa do cenário econômico atual. A responsabilidade da crise é do atual governo, mas há uma tendência, com as proximidades das eleições, de que alguns setores transfiram essa responsabilidade à polarização política, por conta do favoritismo do ex-presidente Lula. Nos últimos três anos, o atual governo teve todas as condições políticas para conduzir o país e foi ele que nos levou a essa situação de miséria, desemprego e inflação. Por isso não vejo nenhuma possibilidade de mudança em 2022.

 

Página 11 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

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Contas de Rafael, SJB, CPI e 2022 no Folha no Ar desta 6ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta sexta, o Folha no Ar trará o balanço da Folha FM 98,3 de uma semana cheia em Campos, São João da Barra e no Brasil. Serão debatidos a recomendação do Tribunal de Contas do Estado (TCE) pela reprovação das contas de 2020 do ex-prefeito Rafael Diniz (Cidadania), as Câmaras Municipais goitacá e sanjoanense, bem como as críticas feitas à gestão Carla Machado (PP) em SJB.

Por fim, entram na pauta o relatório final da CPI da Covid no Senado, o anúncio do governo Jair Bolsonaro (sem partido) do Auxílio Brasil furando o teto do Orçamento da União, mais as eleições federal e estadual de 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Compromisso com SP cancela entrevista de Rodrigo Maia

 

Rodrigo Maia

 

Agendada há mais de uma semana e confirmada ontem por sua assessoria, a entrevista de Rodrigo Maia (sem partido) na manhã desta sexta (22), ao Folha no Ar, foi cancelada no início da tarde de hoje. Deputado federal licenciado para ocupar a secretaria estadual de Projetos e Ações Estratégicas de São Paulo, segundo sua assessoria, Maia foi convocado de última hora pelo governador paulista João Doria (PSDB), para uma reunião com investidores estrangeiros. O que comprometeu sua agenda entre a tarde de hoje e amanhã.

A Folha FM 98,3, que tem trazido uma série de entrevistas com nomes na política nacional e estadual, tentará reagendar com o ex-presidente da Câmara Federal. Assim como já tem outros protagonistas da política fluminense e nacional confirmados aos ouvintes e telespectadores de Campos e da região.

 

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De SJB a Santa Catarina no Folha no Ar desta quinta

 

 

A partir das 7h da manhã desta quinta, o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é Danilo Barreto, administrador público, ex-candidato a vereador mais votado na cidade de São João da Barra em 2020 e diretor de Eficiência Governamental da Prefeitura de Brusque, em Santa Catarina. Ele falará dos projetos sanjoanenses que integra, do trabalho que desenvolve em Brusque e da inação ao avanço do mar em Atafona. Analisará também o saldo de SJB no 17º ano de governos de ou eleito pela prefeita Carla Machado (PP).

Por fim, Danilo falará da sua experiência eleitoral em 2020, projetará os pleitos estadual e federal de 2022, e das alternativas do seu município para 2024. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Paes lança Santa Cruz a governador em 2022, visando 2026

 

Eduardo Paes, Felipe Santa Cruz e Cláudio Castro no jogo eleitoral de 2022, com vistas a 2026 (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Enquanto os detalhes de quem dominou a política fluminense nos anos 1980 e 2000, com Brizola e Garotinho, tem que ser contado em livros, a disputa real de poder de 2022 no estado é escrita. Na tarde de ontem, o jornalista Lauro Jardim noticiou em O Globo que o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), vai lançar o presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz, como seu pré-candidato oficial a governador. Será no encontro nacional do PSD deste sábado (23), o primeiro no Rio desde que Paes foi para a legenda.

Após garantir ao Folha no Ar que não disputará o pleito a governador, o que o torna seu eleitor mais forte, o que Paes teria ganha confirmando um pré-candidato com pouca ou nenhuma chance real de vitória?

Primeiro, o prefeito carioca se fortalece no PSD para eleger fortes bancadas estadual e federal. Com Santa Cruz, ele não cria dificuldade real ao governador Cláudio Castro (PL) ou ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Como poderia tirar o bode da sala e descartar seu pré-candidato, para indicar o vice na chapa de Castro, sonho deste. O que poderia ser ainda mais fácil se o governador compusesse com Lula a presidente e o presidente da Alerj, André Ceciliano (PT), a senador.

Se Paes eleger em 2022 o vice de Castro, este sairia 9 meses antes em 2026, já que não poderia se reeleger, para se lançar a deputado ou senador. O que deixaria Paes, reeleito prefeito em 2024, com a cidade e o estado do Rio nas mãos. E o caminho aberto em 2026 a governador ou a presidente da República.

 

Publicado hoje na coluna Ponto Final, na Folha da Manhã.

 

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Garotinho, Sérgio Mendes, a história da Uenf e de Campos

 

Anthony Garotinho, Sérgio Mendes,Darcy Ribeiro e a história de Uenf e de Campos passada a limpo na Folha FM (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Em entrevista na última sexta (15) ao programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, o ex-governador Anthony Garotinho (sem partido), que também foi prefeito de Campos duas vezes, fez duras críticas aos seus antecessores Sérgio Mendes e Rafael Diniz (ambos, Cidadania). Aos dois foi oferecido o mesmo espaço na rádio mais ouvida da região, zelosa do espaço jornalístico ao contraditório. Rafael declinou, como tem optado por ficar em silêncio desde que saiu do poder em 2021, muito mal avaliado pelas urnas de novembro de 2020. Sérgio, no entanto, aproveitou. E foi o entrevistado do Folha no Ar na manhã de ontem.

 

Livro sobre o garotismo

Sérgio revelou estar escrevendo um livro a seis mãos sobre o período inicial do garotismo, em que foi o segundo prefeito eleito pelo movimento, governando Campos entre 1993 e 1996. Seus parceiros no livro compuseram sua gestão, como tinham participado do primeiro governo municipal Garotinho, entre 1989 e 1992: o empresário, líder lojista e colunista da Folha, Murillo Dieguez; e o jornalista, servidor federal e advogado Ricardo André Vasconcelos. Os dois se mantiveram leais a Sérgio, quando Garotinho rompeu com quem elegeu prefeito, para voltar a ocupar ele mesmo a Prefeitura em 1997. E, no ano seguinte, se eleger governador.

 

Auge do movimento

Após governar o estado do Rio entre 1999 e 2002, Garotinho deixou o cargo para se lançar candidato a presidente da República. Chegou a ultrapassar Ciro Gomes (então, PPS) e ficar próximo a José Serra (PSDB), que fez e perdeu o segundo turno para Lula (PT), na primeira vez que este chegou ao poder. Apesar da derrota, o político da Lapa fez mais de 15 milhões de votos a presidente. E elegeu a esposa, Rosinha (então, PSB), governadora ainda no primeiro turno. Como o próprio Garotinho admitiu no Folha no Ar de sexta, foi o seu auge. Desde então, só conquistaria mais um mandato nas urnas, de deputado federal, em 2010.

 

“Página virada”?

O ex-prefeito reconheceu que Garotinho, se tiver condições jurídicas de se candidatar em 2022, não teria dificuldade eleitoral para voltar à Câmara Federal. Mas, em contraste com o auge que conheceu do ex-aliado transformado em desafeto, Sérgio destacou o presente: “O Folha no Ar tem duas horas? Garotinho passou 40 minutos explicando processos, prisões, se ele está elegível, se está inelegível. Antigamente, ele falava das suas realizações. Agora ele precisa, em toda a entrevista, levar quase metade explicando seus problemas na Justiça. Acho que é uma página virada. Garotinho deu uma contribuição à cidade, mas ele errou muito”.

 

A história da Uenf

Entre as afirmações de Garotinho que deverá contestar em seu livro com Murillo e Ricardo, Sérgio também refutou que o ex-governador seja o “pai” da Uenf. E, por conseguinte, da condição de polo universitário que Campos ganhou com a implantação do projeto do antropólogo Darcy Ribeiro. “Dia 7 de janeiro (de 1993), na primeira semana do meu governo, o professor Darcy veio a Campos. Ele me levou (à área onde está a Uenf) e falou: ‘prefeito, eu preciso que o senhor desaproprie aqui 500 mil metros quadrados. O governador Brizola vai construir a universidade, mas só se o senhor doar a área’”, lembrou Sérgio na Folha FM.

“Como era início de governo, fui a Garotinho, que estava saindo. Disse a ele o que Darcy queria, para saber se seria para valer. Sabe o que ele me disse? ‘Sérgio, não desapropria, que isso aí é devaneio de Darcy’. Eu fui à professora Ana Lúcia Boynard, que fazia essa interface do governo municipal na questão da universidade. E falei que Garotinho disse que não iria dar em nada. Ela me disse, lembro que com lágrimas nos olhos: ‘Prefeito, a universidade é a redenção de Campos e toda a região’. Naquele mesmo ano de 1993, desapropriei e doei a área. E, em agosto, o governador Brizola inaugurou a Uenf”, contou Sérgio ontem ao Folha no Ar.

 

Confira abaixo o vídeo do primeiro bloco da entrevista do ex-prefeito de Campos Sérgio Mendes ao Folha no Ar da manhã de ontem. Que em parte responde à entrevista do ex-governador Anthony Garotinho à Folha FM na sexta, e passa a limpo a história da Uenf e de Campos, do final dos anos 1980 ao presente:

 

 

Publicado hoje, na coluna Ponto Final, da Folha da Manhã.

 

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Vereador Helinho Nahim no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quarta (20), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é Helinho Nahim, empresário e vereador de Campos pelo PTC. Ele falará sobre o rompimento com o governo do primo Wladimir Garotinho (PSD), da vitória na não aprovação do Código Tributário e do IPTU. Falará também do seu compromisso pessoal com a aprovação das contas de 2016 da tia e ex-prefeita Rosinha Garotinho (Pros) e da eleição à Mesa Diretora da Câmara no próximo ano.

Por fim, Helinho dará sua projeção das eleições de 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Garotinho, Rafael e Wladimir no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta terça, o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é Sérgio Mendes, ex-prefeito de Campos e coordenador do Cidadania no Norte Fluminense. Ele falará sobre o legado do seu governo, entre 1993 e 1996, e do processo de ruptura com o ex-governador Anthony Garotinho (sem partido), seu ex-aliado e que lhe dirigiu críticas no Folha no Ar da última sexta. Correligionário de Rafael Diniz, ele analisará a trajetória do também ex-prefeito, dos 151,4 mil votos de 2016 aos 13,5 mil que teve em 2020.

Por fim, Sérgio analisará o governo Wladimir Garotinho (PSD), além de dar sua projeção para as eleições de 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Quebrou a placa de Marielle e foi expulso por mulheres

 

“Valentes” contra uma mulher assassinada a tiros por milicianos, Rodrigo Amorim, com sua paixão estampada no peito, e Daniel Silveira sorriem enquanto quebram a placa de Marielle Franco

 

Deputado estadual mais votado do RJ na onda bolsonarista de 2018, Rodrigo Amorim (PSL) ganhou fama ao participar naquela campanha eleitoral do ato de vandalismo, mais o hoje deputado federal preso Daniel Silveira (PTB) e o ex-governador Wilson Witzel (PSC), afastado por corrupção, quando quebraram uma placa da ex-vereadora carioca Marielle Franco (Psol), assassinada a tiros por milicianos também em 2018. Mais recentemente, Rodrigo Amorim ficou conhecido dos campistas. Aliado do seu xará e secretário estadual de Governo, Rodrigo Bacellar (SD), Amorim usou a tribuna da Alerj para atacar de maneira torpe a honra de Tassiana Oliveira, primeira-dama de Campos.

Por seus ataques contra mulheres vivas e mortas, Rodrigo Amorim ontem foi vaiado e expulso do bairro carioca de Santa Teresa. Ele acompanhava o governador Cláudio Castro (PL) no evento de lançamento do programa Bairro Seguro. O parlamentar bolsonarista tentou afrontar os manifestantes, mas foi obrigado a deixar o local acompanhado da polícia e sob vaias e gritos que o chamavam de “assassino”. No Twitter, o deputado disse que encontrou uma “matilha de maconheiros” e “zumbis”.

Amorim também tentou alegar que não foi expulso do espaço público: “Está pra nascer o homem que vai me expulsar de qualquer lugar nessa cidade. Não tem sujeito homem pra isso”. Bravatas à parte, o deputado parece não ter faltado integralmente com a verdade. Como o vídeo abaixo deixa claro, o “valente” bolsonarista não foi expulso de Santa Teresa por homens. Na verdade, foi enxotado por mulheres.

 

 

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Astor, xará do Piazzolla e o cão mais belo que conheci

 

Atafona, 26 de julho de 2020 (Foto: Leila Félix)

Morreu hoje Astor, dogo argentino branco, pirata pela mancha negra em seu olho esquerdo. Foi o cão mais belo, forte, bruto, agressivo com estranhos e carente de carinho com os da casa, que já vi em meus 49 anos de vida. Os últimos sete em sua companhia, em Atafona, onde foi enterrado e sempre morou desde que o escolhi já com uns seis meses, em canil dedicado à raça. Foi um presente da minha mãe, Diva, que ironicamente padece de cinofobia, o medo irracional de cachorros. Superado no ato de amor por seu filho mais velho, que adora cães.

O dogo argentino foi uma raça criada nos anos 1920 por dois irmãos argentinos, médicos e caçadores, da região de Córdoba, província da região dos pampas daquele país. Foi desenvolvida a partir da cruza seletiva entre outras raças, como o bull terrier, o mastim dos pirineus, o boxer, o pointer inglês, o dogue de bordeaux, o buldogue inglês, o dogue alemão (ou dinamarquês), o irish wolfhound e o cão de luta cordobês — esta, já extinta. O dogo foi feito para ser o cão de combate perfeito e para caça de animais de grande porte, como onças e javalis. Para abatê-los, o caçador não leva arma de fogo, mas um ou mais dogos.

Sob minha criação, Astor nunca combateu, nem caçou nada, além dos desafortunados gambás que cruzassem seu caminho no quintal de Atafona. Seu nome foi em homenagem ao músico Astor Piazzolla, gênio do bandoneón e espécie de Tom Jobim argentino. Que mesclou a melodia e o ritmo do tango com a harmonia do jazz, exatamente como seu par brasileiro fez com o samba. Como o cão, Piazzolla também se marcou pelo equilibro entre grande sensibilidade e explosões de fúria, seja na música, ou na vida.

Extremamente dominante com outros cães, mesmo rottweilers machos que, apesar de fortes, nunca lhe foram fisicamente parelhos, Astor era docilíssimo com as pessoas da casa. Mesmo crianças, como meu afilhado Aquiles, hoje com 12 anos, mas que sempre foi respeitado pelo titã canídeo, desde que tinha só 5 anos. O único porém de Astor era, quando ele estava solto e nós de pé, termos o cuidado de ficar com um à frente do outro, em base. Com os dois pés abertos lateralmente e distraído, se corria o risco de ser atirado no chão pelo fortíssimo e explosivo cão, em suas estabanadas demonstrações de afeto.

Sobretudo mais jovem, Astor também tinha um incômodo instinto destruidor. Certa vez, comeu os dois paralamas das rodas traseiras da minha picape. Fui aconselhado a passar pimenta malagueta nas partes externas do carro a que o cão tinha acesso. Fiz, mas o efeito foi ainda pior. Ele pareceu ter gostado do tempero e comeu o parachoque traseiro, de metal, e minha câmera de ré.

Astor também fazia coisas que nunca vi em nenhum outro cão. Comeu e derrubou uma árvore do quintal, demonstrando que sua boca era, literalmente, uma motosserra. E sobre o piso de cimento do quintal, seco há anos, deixou fincados os sulcos das suas garras. Se alguém me contasse isso, diria que era coisa de filme de terror de lobisomem. Mas as marcas das suas garras continuam impressas no piso de concreto, para evidenciar a realidade.

 

Atafona, 12 de junho de 2017 (Foto: Diomarcelo Pessanha)

 

Quando caminhávamos à beira-mar, com guia e enforcador, também ficavam patentes suas diferenças para os rottweilers. Tenho um macho, Bismarck, que mesmo sendo do mesmo tamanho de Astor, só faz força na parte inicial do trajeto. Mesmo se caminhássemos duas horas sob o sol e na areia, Astor continuava fazendo a mesma força, sem jamais baixar a tensão da guia, até voltar à casa. Não se cansava, ao contrário do ombro do seu condutor. Também tinha resistência impressionante à dor física. Uma vez, no veterinário, tomou pontos a seco, sem anestesia, como se nada fosse. Além da força, sua resistência e insensibilidade à dor eram características de um cão feito para matar onças e javalis a dentadas.

Apesar de tudo isso, Astor não foi páreo para o câncer que o matou. Como nenhum de nós é. Forte, grande e longilíneo, sempre disse que ele parecia um Muhammad Ali branco. Seu porte poderoso e altivo evocava a estátua grega de um cachorro. Se dogos argentinos existissem na Grécia Antiga de Fídias, tenho certeza que um hoje estaria imortalizado em mármore em algum museu, como estão os cavalos do escultor.

Escrevo diante da mesa da área externa de Atafona, sentado na mesma cadeira em que, tantas vezes, Astor enfiava sua cabeça poderosa de molosso em meu colo, pedindo carinho. E olho ao lado sua cova recém coberta, ao lado do buldogue francês Zidane, que tinha a mesma idade e também nos deixou precocemente neste ano de tantas perdas, ao Brasil e ao mundo.

Já tive vários cães. Três, os rottweilers Bismarck e Manfred, além do american bully Dempsey, estão nos canis, onde hoje Astor amanheceu morto. Os sobreviventes estão quietos. Acho que sentirão muita falta do macho alfa da matilha, que à noite lhes puxava o coro em uivos de lobo. Entre os cachorros que passaram por minha vida e os que ainda nela estão, tenho certeza que Astor foi um dos que mais me amou. Talvez ao lado dos rottweillers Rommel e Lutero, além do buldogue inglês Moe, todos também falecidos.

 

Atafona, 12 de junho de 2017 (Foto: Diomarcelo Pessanha)

 

Quem ama cães sabe que o amor deles, por quem escolhem como donos, é incondicional. Como o de um fiel a Deus. Mesmo um tão imperfeito como eu. Astor era diferente. Não só fisicamente, como em seu espírito que vive agora em mim, ele foi um cão perfeito.

Para lembrar de você, ouvirei minha música preferida nesta vida, “Adiós Nonino”, obra prima do seu xará que agora ganha ainda mais significado:

 

 

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Folha traz Brasil e RJ a Campos. E, destes, fala ao mundo

 

Folha traz Brasil e RJ a Campos. E, de Campos, fala ao mundo

 

Grupo Folha, Folha FM 98,3, Folha da Manhã. Folha1, Plena TV, Antonhy Garotinho, João Amoêdo, Fernando Gabeira, Vinicius Farah, Ciro Gomes, Marcelo Freixo, Alessandro Molon, Marina Silva, Rodrigo Neves, Paulo Ganime, Francisco Mamede de Britto Filho, Eduardo Paes, Cristovam Buarque, Cesar Maia, Cláudio Castro e Luiz Carlos Bresser-Pereira (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Ontem, o programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3 fechou a semana entrevistando Anthony Garotinho (sem partido). Pelo histórico de polarização entre o ex-governador do estado do Rio e ex-prefeito de Campos com o principal grupo de comunicação do município e do interior fluminense, a entrevista gerou muita expectativa. E teve grande audiência, como interação nas redes sociais.

Só não dá para saber se a entrevista de Garotinho superará outras em envolvimento. Já que o Folha no Ar tem levado semanalmente, aos ouvintes, telespectadores e leitores de Campos e região, encontros diretos com outros protagonistas da política do Brasil e do RJ. A com João Amoêdo (Novo), por exemplo, empresário e candidato a presidente da República em 2018, foi feita em 1º de outubro na Folha FM. E publicada dia 2 no jornal Folha da Manhã e no blog Opiniões, hospedado no Folha1. Onde registrou mais de 10 mil likes só no Facebook.

Além de Garotinho e Amoêdo, na sinergia entre rádio, redes sociais, jornal, site, blogs e TV, O Grupo Folha vem de uma batida muito forte. O jornalista e ex-deputado federal Fernando Gabeira, foi o entrevistado do Folha no Ar em 9 de outubro; o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico e deputado federal Vinicius Farah (MDB), em 24 de setembro; o ex-governador do Ceará e presidenciável Ciro Gomes (PDT), em 10 de setembro; o deputado federal e pré-candidato a governador Marcelo Freixo (PSD), em 26 de agosto; o deputado e líder da oposição na Câmara Federal, Alessandro Molon (PSD), em 24 de agosto; a ex-senadora e três vezes candidata a presidente da República, Marina Silva (Rede), em 20 de agosto; o ex-prefeito de Niterói e pré-candidato a governador, Rodrigo Neves (PDT), em 13 de agosto; o deputado federal e pré-candidato a governador Paulo Ganime (Novo), em 5 de agosto; o general da reserva do Exército Francisco Mamede de Brito Filho, em 23 de julho; o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), em 9 de julho; e o ex-senador e ex-governador de Brasília, Cristovam Buarque (Cidadania), em 25 de maio.

Isso tudo entre Folha no Ar, Folha da Manhã, Folha1 e Plena TV. Apenas no jornal e no site, neste mesmo período de tempo, também foram entrevistados o ex-prefeito do Rio e atual vereador carioca, Cesar Maia (DEM), em 18 de setembro; o governador Cláudio Castro (PL), em 7 de agosto; e o economista e ex-ministro dos governos Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e José Sarney (MDB), Luiz Carlos Bresser-Pereira, em 15 de maio. Até aqui, foram 16 entrevistas exclusivas com figuras de proa da República e do estado do Rio, só nestes últimos seis meses. Que compõem uma série contínua e ainda longe do fim, na linha direta com Campos e região pelo Grupo Folha, talvez sem paralelo na secular história do jornalismo goitacá.

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Com todos esses entrevistados de peso nacional e estadual, outras novidades importantes, também noticiadas em primeira mão pelo Grupo Folha, colocaram Campos e a região no cenário do mundo. Em 20 de setembro, o blog Opiniões noticiou que, passada a fase mais crítica da pandemia da Covid-19, a companhia aérea Azul estava retomando a venda de passagens de voos de Campos, Macaé e Cabo Frio para Fort Lauderdale, na Flórida, costa sudeste dos EUA. E, no último dia 5, divulgou que a mesma Azul estava vendendo passagens de Campos e Macaé para Lisboa, capital de Portugal. Será a primeira vez na história que a região se conectará diretamente, por via aérea comercial e regular, com a União Europeia.

William Passos, geógrafo e consultor especializado em estatístca e desenvolvimento regional

São fatos que comprovam o processo de metrolopolização da Bacia de Campos, e o papel protagonista da região na encomia fluminense, alvos da tese de doutorado do geógrafo William Passos, consultor especializado em estatística e desenvolvimento regional. Que apontou as declarações de vários desses líderes políticos, ouvidos na série de entrevistas da Folha, ressaltando publicamente a importância política e econômica de Campos no estado do Rio. Seria a mera constatação, por parte deles, do que é projetado como irreversível no estudo do jovem acadêmico. Este, fruto do polo universitário em que se constituiu o município.

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Como as entrevistas do Grupo Folha com nomes de peso do cenário nacional e estadual, o ineditismo também da abertura de voos comerciais de Campos e a região da Bacia de Campos com a Europa gerou bastante interação nas redes sociais. Só no Facebook, a postagem ultrapassou os 1,3 mil likes. Ficou atrás, bem verdade, dos mais dos 10 mil likes da entrevista do Amoêdo, publicada três dias antes.

Apesar do grande envolvimento, ambas as postagens geraram interação inferior à de um artigo, publicado em 31 de julho, no blog Opiniões e na Folha da Manhã. Intitulado “Nazifascismo, bolsonarismo, uniforme e marca na testa” aquele texto de opinião viralizou nacionalmente. E superou os 15 mil likes.

O êxito não é de um articulista. Mas do trabalho sério e sempre coletivo no qual se consiste o jornalismo. Ao trazer protagonistas do Brasil e do estado do Rio para falarem diretamente a Campos e região. E, ao falar a partir destas, é capaz de alcançar o mundo.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Ministro da Saúde de um governo de ressentidos

 

 

 

Carlos Andreazza, jornalista

Entrar e então morrer

Por Carlos Andreazza

 

Circularam, no último fim de semana, ao menos duas falas barbarizantes de Marcelo Queiroga, ministro da Saúde e médico. E ressentido. É um governo de ressentidos. De ressentidos e oportunistas, não raro também incompetentes. Tudo previsível. Este perigo: o ressentido de súbito com — o que supõe ser — poder. O perigo: este tipo — o ressentido empoderado, ademais incompetente, um agente grato, mostrador de serviço — sob a gestão do bolsonarismo; sob o controle da máquina de genuflexão bolsonarista. E então as falas de Queiroga, previsíveis.

Numa, comparou a exigência do uso de máscaras — como medida de contenção da peste, um vírus transmitido por via aérea — ao de preservativos contra doenças sexualmente transmissíveis. Decerto se tendo por mui esperto, perguntou se, por esse motivo, deveríamos obrigar as pessoas a usar camisinha. Na outra, confrontado com a marca de 600 mil mortes, sentiu-se autorizado — estava irritadinho — a relativizar o volume: seriam, afinal, 380 mil os que morrem do coração anualmente no Brasil, outros muitos de câncer.

Terá faltado somente um “e daí?” — talvez um “não sou coveiro” — para que fosse Jair Bolsonaro absolutamente. Nunca será. Mas precisa — pode e deve — se esforçar. É estimulado a se esforçar, a se humilhar. Pelo poder. Estimulado — desafiado — a debulhar seu ressentimento. Pela existência.

Nunca será. Nunca terá. Mas não por falta de entrega. É o ciclo de uma submissão infinita, cuja humilhação jamais será o bastante. E que resulta em mortos-vivos. Mortos-vivos pelo poder. Mortos-vivos que se julgam com poder.

É a chance da vida. O homem, ressentido fundamental, luta por — ao mesmo tempo — existir e sobreviver. Não existe. Nem sobreviverá. Mas peleja. É a chance da vida do morto-vivo.

A rápida radicalização bolsonarista da linguagem de Queiroga demonstra como um indivíduo fraco — e deslumbrado pela cadeira — reage quando sob pressão. Nunca será um bolsonarista puro-sangue. Jamais um admitido. Será sempre um útil perseguidor da condição de aceito no bolsonarismo, o que equivalerá a ser algo — a continuar ministro. Uau! O que equivale a descartável.

Nunca será, mas por que não iludi-lo, manipulá-lo? Por que não iludi-lo — atraí-lo — com a oferta de perenidade do que pensa lhe dar existência?

A estrutura do jogo de subjugação tem fartos exemplos de dinâmica. Na semana passada, a rádio CBN, por meio dos repórteres Cézar Feitosa e Isa Stacciarini, informou que o chefe de gabinete do ministro da Saúde acusava Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho no ministério (na prática, a divulgadora-mor da cloroquina desde dentro da pasta), de conspirar — em parceria com Onyx Lorenzoni, o ministério de si mesmo — para derrubar Queiroga; alguém cujo poder, pelo qual vai apaixonado, nem sequer o alça a lugar de conseguir demitir a subordinada.

Fraco e dependente do cargo, refém do cargo, para ser alguém, para ser alguém e ao mesmo tempo sobreviver sendo o que é, ao ministro só restou — só resta — se defender radicalizando. Padrão. E então o vimos, de novo segundo reportagem de Feitosa, mobilizar-se, sob ordem de Bolsonaro, para que a Conitec alterasse a pauta de sua reunião e não analisasse — não votasse a favor de — um relatório que se manifesta contrariamente ao tratamento precoce.

Assim será doravante, até a lata de lixo em que o chefe o jogará. Para quê? Para ser ministro, mais um cavalo do presidente. Para ser nada; para sobreviver — até o descarte — sendo o que é. Nem sequer um Onyx, cuja radicalização — a inexistência — mira o governo do Rio Grande do Sul. O que mira Queiroga? Ser, acima de Pazuello, o ministro da Saúde de Jair Bolsonaro?

À pressão bolsonarista, carga por submissão total, reage Queiroga com mais demonstrações de bolsonarismo. Chamado de vacinista, acusado de vacilante em defender a queda das máscaras, o ministro da Saúde, médico e ressentido, mais ressentido que médico, produz e multiplica, em busca de pontos no mercado interno reacionário, a oferta de dedos médios à população brasileira, conforme visto em Nova York.

Quer existir. Mal sobrevive.

O sujeito não seria — jamais será — suficientemente bolsonarista, por isso tem a cabeça pedida, porque nunca será suficientemente bolsonarista; e a isso, a esse desafio, responde, porque quer provar que pode, com mais bolsonarismo, e não pode; e por isso perderá a cabeça, cedo ou tarde, de qualquer modo. Os dedos ficarão. Eis o ciclo.

Não existe. Não sobreviverá. Neste governo captador de moralidades corrompidas: é entrar e então morrer.

Queiroga: o ressentido consciente de que só poderia chegar a ministro num governo disfuncional como o de Bolsonaro; e que, sob pressão para inexistir ainda mais, consciente de que sua permanência — que toma por existência — dependerá de se extremar, radicaliza na linguagem progressivamente, para agradar ao chefe e a seus sectários. Para sobreviver, o morto-vivo. É uma descida sem fim.

Entrar e então morrer. Na história: Marcelo Queiroga, o ministro da Saúde de Bolsonaro.

 

Publicado hoje em  O Globo.

 

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