Bolsonaro a cavalo hoje em Brasília, em companhia da esposa Michelle e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo “Passando a Boiada” Salles (Foto: Evaristo Sá – AFP)
Em aglomeração hoje (16) de produtores rurais em Brasília, contra o STF e em apoio ao presidente Bolsonaro (sem partido), este disse após desfilar de cavalo: “Não está sendo e sei que não será fácil, mas o que esses caras não entendem é que eu sou ‘imbrochável’”. Enquanto os manifestantes, a maioria sem máscara como seu “mito”, gritavam “eu autorizo”, em referência a ameaças recentes do capitão. Que disse esperar um “pedido do povo” para adotar ações contra as medidas de isolamento social dos governadores para conter a pandemia da Covid-19.
Após derreter sua popularidade em todas as últimas pesquisas sobre a aprovação do governo e projeção à eleição presidencial de 2022 (confira aquie aqui), onde Bolsonaro perderia por grande margem para o ex-presidente Lula (PT), ainda não se sabe a procedência do cavalo que o primeiro montou. Mas como aquele do qual Donald Trump caiu da sela nos EUA, é provável que também seja paraguaio. Já sobre a bravata do “imbrochável”, talvez fosse o caso de se “autorizar” que o Exército Brasileiro trocasse a produção de cloroquina pela de viagra.
Renato Russo diria: “Ainda é cedo”. Afinal, as eleições presidenciais só se darão daqui a 17 meses, em outubro de 2022. Mas após a pesquisa Datafolha (confira aqui) divulgada na quarta (12), que deu Luiz Inácio Lula da Silva (PT) 41% x 23% Jair Bolsonaro (sem partido) no primeiro turno, placar alargado a 55% a 32% para o petista na projeção do segundo turno, já dá para ter certeza: as coisas nunca estiveram tão ruins ao capitão. A impressão foi consolidada com o complemento pela pesquisa Datafolha (confira aqui) divulgada na quinta (13), sobre avaliação de governo: 24% dos brasileiros acham o de Bolsonaro bom ou ótimo, contra os 45% que o consideram ruim ou péssimo. É a pior aprovação dos seus dois anos e cinco meses de mandato. E nem a CPI da Covid no Senado, nem nenhum indicador econômico, sinalizam que as coisas vão melhorar.
Especialista em finanças Igor Franco, professor do Uniflu
— As recentes pesquisas devem tirar o sono do governo, mas os brasileiros também têm motivos para se preocupar. Desde que adentrou o Palácio do Planalto, pouquíssimas medidas econômicas prometidas pelo então candidato Bolsonaro saíram do papel. Após a aprovação da Reforma da Previdência, o presidente pouco se empenha ou, em certos casos, atua contra as reformas e as privatizações essenciais para o país. Agora, há um risco considerável de o governo partir para o populismo fiscal como forma de tentar aumentar sua popularidade. O resultado seria desastroso, com aumento da inflação e dos juros. Não há motivos para comemorar a ascensão de Lula. Noves fora os conhecidos escândalos de corrupção, o populismo fiscal foi a marca do governo Dilma, com claros objetivos eleitorais, mas em amplo alinhamento ideológico com as ideias econômicas do PT — analisou o especialista em finanças Igor Franco, professor do Uniflu.
Com os mesmos dois anos e cinco meses de governo que Bolsonaro tem hoje, apenas o ex-presidente Fernando Collor de Mello (hoje, Pros) teve avaliação pior dos brasileiros. Em maio de 1992, pesquisa Datafolha registrava que 68% dos brasileiros consideravam a administração Collor ruim ou péssima, enquanto apenas 9% a achavam boa ou ótima. Não por acaso, ele sofreria o impeachment em dezembro daquele mesmo 1992. Já ao final do primeiro ano do seu segundo mandato, era novembro de 2015, mês anterior à abertura do seu processo de impeachment, quando a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) teve pela Datafolha 67% de ruim ou péssimo, com bom e ótimo de 10%. Esta é margem histórica do impeachment para presidentes no Brasil. E o atual se mantém 14 pontos distante dela.
O inquilino do Palácio do Planalto vive, no entanto, um dilema. Acuado a cada novo depoimento da CPI da Covid, se vê obrigado a radicalizar o discurso para manter sua base de apoio e longe do impeachment. Ainda assim, vem derretendo seu apoio popular: caiu dos 37% da Datafolha de dezembro de 2020 aos 24% deste maio de 2021 — sangrando 13 pontos, ou 19 milhões de eleitores, em apenas cinco meses. Enquanto os líderes do Centrão que sustentam Bolsonaro no Congresso, onde seguram seus mais de 100 pedidos de impeachment, não tiveram constrangimento em se reunir com Lula em Brasília na semana passada. Tampouco se fizeram de rogados ao revelar a estratégia do ex-presidente para 2022: se apresentar como um político moderado de centro. E repetir sua fórmula vencedora em 2002 e 2006, sinalizando ao mercado com um empresário como vice.
Presidente dos EUA, Joe Biden (Foto: Jim Watson – AFP)
Cientista político e sociólogo George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos
— Os movimentos flutuantes da opinião pública de 2016 para cá devem ser compreendidos como a busca por um nome aglutinador, um “Biden” que atendesse, nem que fosse em patamares mínimos, determinadas conquistas civilizatórias que são caras aos progressistas. Mas, que não deixasse de cabelos em pé os setores dos “mercados” produtivo e financeiro. De Huck (sem partido) a Mandetta (DEM), diversos nomes têm sido apresentados nos últimos cinco anos. Lula em seu discurso em São Bernardo de março (confira aqui) se apresentou à opinião pública brasileira da seguinte maneira: “esse Biden sou eu”. Embora identificado pela opinião pública tradicional como organicamente vinculado aos setores de esquerda, o discurso de Lula foi uma carta de intenções nitidamente conciliatória. Parece que o resultado da Datafolha reflete esse fato político novo — comparou o cientista político e sociólogo George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos.
Ilustração de Vitor Flynn na capa do jornal francês Le Monde, na paródia gráfica do Brasil de Bolsonaro na Covid com uma icônica cena do filme “Dr. Fantásticio” (1964), única comédia do mestre do cinema Stanley Kubrick
Diferente de Bolsonaro, Lula consegue acenar ao centro sem perder sua base: sindicalistas, servidores, magistério, universitários de ciências humanas, católicos progressistas, artistas, identitários e bichos-grilos. Somados à massa do seu eleitorado de baixa renda do Nordeste. Em um eventual segundo turno contra o presidente, o petista poderia agregar até quem não ignora a corrupção sistêmica dos governos do PT. E tem a dimensão da catástrofe econômica de Dilma. Mas, diante do resultado pífio da ortodoxia liberal de Paulo Guedes, considera ainda pior a criminosa condução do país na pandemia da Covid. Com 2,7% da população da Terra, se seguisse a média de mortes da doença do resto do mundo, o Brasil teria 90 mil mortos. Como tem 430 mil, cabe à CPI da Covid cobrar a conta pelos 340 mil brasileiros que perderam a vida desnecessariamente. É a maior tragédia humana em meio milênio de História do Brasil.
A capacidade camaleônica de Lula, que Bolsonaro não tem, é a explicação ao dado talvez mais importante da pesquisa presidencial que a Datafolha divulgou na quinta. Os já elevados 45% que avaliam o governo como ruim ou péssimo ganham 9 pontos — outros 13 milhões de brasileiros — aos 54% que não votariam no presidente de maneira nenhuma em 2022. Quem conhece algo de eleição, sabe que, em dois turnos, o primeiro é definido pelas intenções de voto. Mas, geralmente, vence o segundo quem tem menos rejeição. E não é preciso entender de eleição, a rigor nem multiplicar ou dividir, para apenas somar e subtrair. Quem tem 54% de rejeição pode chegar, no máximo, a 46%. E não vence pelo mínimo de 50% + 1 voto.
Cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf
— A queda acentuada na aprovação de Bolsonaro e a forte subida em sua reprovação demonstram que, diante dos maus resultados do enfrentamento da pandemia, sua liderança sofre o impacto. Neste quadro, a esquerda volta a ser favorita, como antagonista natural da extrema-direita. O problema, para Lula, é manter a vantagem num contexto de recuperação do governo e, porventura, de reação da terceira via ao cenário de polarização que se anuncia, já que as candidaturas de centro somam hoje 24% das intenções de voto. E, se conseguir algum grau de aglutinação, pode se beneficiar das dificuldades do petista, de sustentar sua imagem diante dos prejuízos que o Petrolão acarretou ao país, e de Bolsonaro, diante do desgoverno sanitário, ambiental e educacional, por ele ocasionado — avaliou o cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf.
Fato que uma pesquisa feita entre 11 e 12 de maio de 2021 é só a foto do momento. Que não retrata, necessariamente, o final de um filme em movimento. Cujo “the end” só será conhecido em 2 e 30 de outubro de 2022 — datas previstas, respectivamente, ao primeiro e segundo turnos da eleição presidencial. Nestes próximos 17 meses, é possível a Bolsonaro estancar a sangria da sua popularidade. Sobretudo se a Covid parar de matar 2 mil brasileiros ao dia e se a responsabilidade pela desastrosa condução nacional da pandemia não for cobrada. Como também é possível reverter a realidade econômica brasileira de inflação, desemprego, dólar e juros em alta, com a produção industrial e o PIB em queda. Nem é impossível que o centro se una em torno de uma só candidatura entre as avaliadas pelo Datafolha. Que, reunidas, hoje chegariam aos 24% de intenções de voto.
Bolsonaro pode recuperar intenções de voto? Claro que pode! É consideravelmente mais fácil do que o centro se unir ou o presidente diminuir sua rejeição proibitiva de 54%. Lógico, os negacionistas que já apostaram em cloroquina contra a Covid, enquanto apoiam os ataques do presidente à China que deixaram muitos brasileiros sem a segunda dose da vacina Coronavac, ou tentam relativizar o fato do governo federal ter ignorado três ofertas de 70 milhões de doses da vacina Pfizer para entrega ainda em 2020, tudo é possível: negarão também as pesquisas. Muito embora o Datafolha tenha antecipado (confira aqui) desde setembro de 2017, mais de um ano antes da vitória de Bolsonaro, que este, sem Lula, era o favorito ao páreo. E que o mesmo instituto tenha vaticinado (confira aqui) em 6 de outubro de 2018, véspera do primeiro turno presidencial, que Bolsonaro venceria tanto Fernando Haddad (PT), quanto Geraldo Ackmin (PSDB) no segundo turno. No qual só perderia para Ciro Gomes (PDT).
Historiador e professor Arthur Soffiati
— Parece não haver mais dúvida de que a vitória de Bolsonaro em 2018 foi responsabilidade da esquerda e, particularmente, do PT. As denúncias de corrupção contra o PT reuniram os descontentes no grupo duro do bolsonarismo. Além do mais, Lula (preso em 7 de abril de 2018 pelas condenações da Lava Jato de Curitiba anuladas pelo Supremo Tribunal Federal) estava fora da eleição. Sem entrar no mérito da condenação do ex-presidente, não se pode negar que ele é bom de voto. Ele sabe articular com a esquerda e o centro. A recente pesquisa do Datafolha dá a ele 41% das intenções de voto e 23% para Bolsonaro. Os demais possíveis candidatos somam 24%. Se as tendências permanecerem, parece que as eleições de 2022 serão polarizadas, sem espaço para o centro e com a vitória de Lula. A política desastrada de Bolsonaro será responsável por sua derrota — projetou o historiador Arthur Soffiati.
A mesma cegueira da esquerda em 2018, elegendo Bolsonaro, parece agora se abater sobre a direita. Que, em seu abraço de afogado ao “mito”, emergirá Lula.
Ex-prefeito de SJB Betinho Dauiare (Foto: Divulgação)
Ex-prefeito de São João da Barra, Betinho Dauaire (PSC) está no jogo para disputar novamente ao Executivo do município em 2024. No Folha no Ar da manhã de ontem (14), na Folha FM 98,3, essa foi a grande novidade revelada pelo entrevistado. Que deu nota 8 aos 140 primeiros dias do governo do aliado Wladimir Garotinho (PSD) em Campos, e nota 5 ao mesmo período na administração reeleita de Carla Machado (PP) em SJB. Em seu quarto mandato, segundo consecutivo, ela bisou Betinho, prefeito duas vezes entre 1997 e 2004. Cargo que, nos anos 1960, foi também ocupado por Alberto Dauaire, falecido em 2016, após marcar a história política fluminense sendo sete vezes deputado estadual. E foi seguido pelo neto, Bruno Dauaire (PSC), que se elegeu duas vezes à Alerj, se licenciando para assumir a secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do governo estadual Cláudio Castro (PSC). Pai de Bruno e filho de Alberto, Betinho se colocou contra o projeto, que tem o apoio de oito dos nove vereadores de SJB, de aumentar o número de cadeiras da Câmara Municipal para 13.
— Vamos dar a César o que é de César. Carla concorreu a sete eleições. Apesar de ter sido eleita em cinco, contando o mandato de vereadora (onde foi líder de governo de Betinho, entre 1997 e 1998), perdeu para mim a prefeita (Betinho se reelegeu ao cargo em 2000) e perdeu a deputada estadual (pelo PT, em 2014), na época que Bruno disputou (e se elegeu pela primeira vez à Alerj). Mas foi a mais votada dentro do município de São João da Barra seis vezes. Então tem uma história de resultado eleitoral muito positiva. Contra este fato tem a minha família, que não tem cinco mandatos; são 15 mandatos, sendo o mais votado no município 19 vezes. O Bruno fica em cima de mim para que eu volte à vida pública, dispute as eleições. O avô dele (Alberto Dauaire) foi prefeito de sucesso em São João da Barra. O pai dele foi prefeito de São João da Barra duas vezes, de sucesso também segundo as pesquisas. A maioria dos programas que estão aí, hoje, no governo Carla Machado, foram deixados por mim: bolsa universitária, cartão de transferência de renda com curso profissionalizante; eu fui o prefeito que mais obras fiz no município. Eu me sinto realizado politicamente, não sei se com a entrada de Bruno na vida pública, o sucesso dele na política. Mas se tiver uma missão e for importante ao município, nunca deixa de ser uma opção. E seria uma honra muito grande governar São João da Barra. Mas acho que deixa aí para o Bruno Dauaire, o (vereador) Franquis (Arêas, PSC), essa gente nova que está aí — colocou Betinho.
Sobre a avaliação sobre os primeiros 140 dias dos governos municipais, ele começou por Campos, governado pelo aliado político do seu filho. E revelou ter sido convidado por Wladimir para integrar o governo goitacá:
— Eu acho que o governo Wladimir Garotinho está indo muito bem, comparado aos primeiros meses do governo anterior (de Rafael Diniz, Cidadania). Tem procurado desenvolver atividades em vários setores, cuidando de estradas vicinais, na área da saúde, iniciando ainda aquém a operação tapa buracos na cidade, vi ele anunciando a questão da volta das escolas, mas não sei como vai ficar, pois me parece que existe decisão do Supremo Tribunal Federal proibindo. Eu não gosto de avaliar governos em tão pouco tempo e em plena batalha contra a Covid. Mas comparando à gestão anterior, com todo o respeito, pelo entusiasmo, pela presença nas ações e buscando diversificar em vários setores, como o Procon, eu dou nota 8 por esses motivos. Ele também me convidou para trabalhar (no governo). Mandou um recado para mim dizendo: “Vem para cá, veste a chuteira, nos ajudar”. E se der 10 agora, se eu aceitar, como é que vou fazer para colaborar? — brincou o ex-prefeito sanjoanense, após falar sério ao revelar o convite do prefeito de Campos, feito há cerca de 40 dias.
Na avaliação fatiada dos 140 dias do governo da sua adversária Carla em SJB em 2021, reeleita em 2020 com 69,7% dos votos válidos, Betinho foi mais rigoroso. Sobretudo pela falta de investimentos no município:
— A minha crítica construtiva sempre foi pelo baixo grau de investimento e alto nível de receita. Essa falta de obras de infraestrutura importantes deixa de ajudar a circular o dinheiro na economia de São João da Barra; ajudar ao comércio e ao mesmo tempo fazer com que a sociedade sanjoanense recebesse equipamentos importantes para melhorar a sua qualidade de vida. Esse é a minha crítica ao governo Carla Machado. O mesmo critério que usei para Campos, para dar ao governo Wladimir Garotinho nota 8, eu quero usar para avaliar esses 140 dias do governo Carla Machado. Quais são as reclamações hoje da população de São João da Barra? São problemas de iluminação pública, de servidores da Prefeitura que não podem se aposentar, de ruas esburacadas, falta de obras. Essas são as reclamações trazidas a mim por moradores e também por vereadores. Mas quero também ressaltar que, em plena pandemia, onde todos os prefeitos da região parecem estar se dedicando ao combate à Covid, vivemos um momento sério da história. E não vou usar esse momento, que levou muitas vidas no município de São João da Barra, de amigos, de pessoas queridas de todos os lados políticos. Então, se eu fosse dar uma nota pelo grau de investimentos, certamente seria inferior a 5. Mas neste momento da Covid, eu vou dar um crédito e dar nota 5 ao governo Carla Machado.
Confira abaixo, em cinco blocos, a íntegra da entrevista do ex-prefeito sanjoanense Betinho Dauaire ao Folha no Ar de ontem (14), na Folha FM 98,3:
Economista, professor e ex-ministro dos governos José Sarney (MDB) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Luiz Carlos Bresser-Pereira participou na tarde de ontem do debate “A política econômica do desenvolvimento: de Vargas aos nossos dias”. Organizado pelo cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf, pela Fundação Astrojildo Pereira, o evento teve transmissão ao vivo da Folha FM 98,3 e da Plena TV. E teve como outro debatedor o também professor, economista e ex-ministro (do governo Lula) Cristovam Buarque, ex-reitor na Universidade de Brasília (UnB), ex-governador do Distrito Federal e ex-senador por dois mandatos, que foi entrevistado (confira aqui) da Folha no último sábado (8). Defensor de um nacional-desenvolvimentismo repaginado e crítico do liberalismo, Bresser falou do plano econômico que levou seu nome no governo Sarney, da sua participação no governo FHC, do Plano Real, dos governos petistas de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, das reformas do governo Michel Temer (MDB) e da atuação do “Posto Ipiranga” Paulo Guedes à frente do ministério da Economia do governo Jair Bolsonaro (sem partido). A este, Bresser não poupou críticas: “Na condução da pandemia (…) está cometendo um genocídio. E não há preço que pague esse número de mortes. O Congresso já devia ter decidido o impeachment desse senhor. Ao não o fazer se torna corresponsável pelas mortes que poderiam ter sido evitadas se o governo federal houvesse tomado medidas adequadas para enfrentar e diminuir os efeitos da pandemia. Ao contrário, esse governo está, todos os dias, estimulando o número de mortes por atos de ação e de omissão”.
Economista, professor e ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira (Foto: Divulgação)
Folha da Manhã – Como foi sua participação no debate virtual “A política econômica do desenvolvimento: de Vargas aos nossos dias”, junto ao também economista Cristovam Buarque, promovido pela Fundação Astrojildo Pereira, das 16h às 19h de ontem (14), transmitido ao vivo pela Folha FM 98,3 e a Plena TV?
Luiz Carlos Bresser-Pereira – Acho que foi um bom debate. Cristovam Buarque é um intelectual e um político de primeira linha. E o tema, a economia brasileira do tempo de Vargas até hoje, é amplo, talvez amplo demais. Mas fiz o possível para sintetizar meu pensamento a respeito, que eu tratei amplamente no livro “A Construção Econômica e Política do Brasil”, cuja quarta edição a Editora 34 publicará muito brevemente.
Folha – Em 1995, ao sancionar a lei 8.897, de concessão de serviços públicos, o então presidente Fernando Henrique resumiu o ato: “É o fim da Era Vargas”. À época, o senhor ocupava o ministério da Administração e Reforma do Estado. Como vê o momento 26 anos depois, em um debate que traz Vargas no título?
Bresser – A era Vargas terminou duas vezes: terminou em 1960, quando um candidato liberal, Jânio Quadros, ganhou as eleições presidenciais; e terminou uma segunda vez no final do governo Sarney, quando, em 1990, outro político liberal, Fernando Collor de Mello, se tornou presidente da República. Entre 1930 e 1990, o regime de política econômica foi desenvolvimentista e o desenvolvimento econômico foi enorme. Nestes 50 anos o Brasil realizou a sua Revolução Capitalista, a nação brasileira contou com dois projetos nacionalistas de desenvolvimento que tornaram a economia brasileira uma grande economia industrial exportadora de bens manufaturados.
Folha – Antes de FHC, o senhor foi ministro da Fazenda do governo José Sarney, quando instalou em 1987 o Plano Bresser, que não teve sucesso em conter a inflação. Ao usar o congelamento de preços e salários, que já havia fracassado nos Planos Cruzado e Cruzado II de 1986, por que esperava resultado diferente?
Bresser – Eu esperava que, com o Plano Bresser, a altíssima inflação brasileira, uma inflação inercial indexada formal e informalmente, fosse afinal controlada. Eu participara da construção da teoria da inflação inercial e sabia que um congelamento de preços com uma “tablita” (para as aplicações em títulos bancários de CDBs e RDBs pré-fixados, com garantia de que o resgate não seria menor que o valor nominal aplicado) acompanhado por um ajuste fiscal que tranquilizasse as empresas, poderia acabar com a inflação. A tablita era necessária para evitar ou neutralizar o fato que algumas empresas que compravam a prazo com os preços corrigidos pela inflação futura, mas vendiam à vista, tivessem grandes prejuízos no dia do congelamento. Eu adotei a tablita, mas o presidente Sarney não teve condições de apoiar o ajuste fiscal necessário, e o plano fracassou. O Plano Real, que afinal acabou com a alta inflação, usou essa mesma teoria da inflação inercial.
Folha – A inflação só seria vencida em 1994 com o Plano Real, que elegeu e reelegeu FHC presidente. Seu tripé responsabilidade fiscal, meta de inflação e câmbio flutuante foi mantido no primeiro governo Lula e flexibilizado no segundo, pela crise de 2008. A exceção virou regra na “nova matriz econômica” de Dilma Rousseff? Como analisa aquele período? Quais suas lições?
Bresser – Fernando Henrique liderou um plano de estabilização heterodoxo, mas quando chegou ao governo, seis meses depois, retomou uma política econômica ortodoxa ou liberal, que Collor iniciara ao fazer a abertura comercial e financeira. Foi um grande erro. O liberalismo econômico não tem condições de promover o desenvolvimento econômico do Brasil. Por isso, o governo Cardoso fracassou no plano econômico. O governo Lula manteve o mesmo regime de política econômica liberal, mas teve melhores resultados porque houve um boom de commodities e porque o governo conseguiu aumentar o investimento público. Mas não se mexeu na abertura comercial e financeira. Com Dilma foi a mesma coisa. É verdade que tentou mudar a matriz macroeconômica caracterizada por juros altos e Real apreciado, baixando os juros. Mas nada fez em relação à abertura comercial e financeira que definiu o regime liberal de política econômica, e seu governo acabou fracassando.
Folha – Impopular no seu tempo presente e hoje, o governo Michel Temer trouxe de volta Henrique Meirelles ao comando da economia, presidente do Banco Central nos dois governos Lula, que este tentou introduzir nos governos Dilma, sem sucesso. Como analisa os ajustes econômicos do período Temer?
Bresser – Meirelles é um banqueiro liberal que fracassou com Lula e fracassou com Temer. Não podia ter sido diferente.
Folha – Em 2018 o mercado foi ingênuo ao apostar no discurso liberal de Jair Bolsonaro, parlamentar que atuou 30 anos como líder classista, votou contra o Real e a LRF, e pregou fuzilar FHC pelas privatizações? Ou foi o que restou após o naufrágio de Geraldo Alckmin, João Amoêdo e Meirelles? O temor pela volta do PT, ou por uma opção de centro-esquerda como Ciro Gomes, tinham base?
Bresser – Bolsonaro, essa coisa que está em Brasília, é uma vergonha para o Brasil, para todos os brasileiros. Mas a direita liberal devia estar duplamente envergonhada porque votou nele. Votou por ódio ao PT e a Lula, um sentimento inaceitável na verdadeira política, onde existem adversários que se respeitam, não inimigos que se odeiam. Quando o ódio toma conta de uma classe social, como aconteceu no Brasil, esse é um sinal que a sociedade brasileira está doente.
Folha – Quatro meses antes do então juiz federal Sergio Moro aceitar ser ministro da Justiça de Bolsonaro e quase um ano antes da Vaza-Jato, o senhor escreveu em julho de 2018: “Para os advogados de Lula, Moro é parcial. Eu diria que é mais do que parcial, ele é ‘parte’ em uma guerra sua e de sua ‘força-tarefa’ contra o ex-presidente”. Como viu os fatos de lá para cá?
Bresser – Os fatos e agora a decisão do Supremo Tribunal Federal confirmaram o que eu disse. Eu inicialmente apoiei a operação Lava Jato, mas não demorei muito para compreender que Moro e Dallagnol não estavam a serviço da Justiça, mas estavam fazendo política aproveitando o ódio da direita liberal.
Folha – Como avalia Paulo Guedes no ministério da Economia? E a debandada de boa parte da sua equipe? O que ainda segura o apoio de parte da elite financeira a Bolsonaro? A esperança de que as reformas e enxugamento dos gastos públicos prevaleçam sobre o fisiologismo do Centrão, que segura mais de 100 pedidos de impeachment do presidente na Câmara Federal?
Bresser – A economia brasileira está quase estagnada há 40 anos. A principal causa disto foi o consumismo brasileiro, que levou uma poupança pública de 4% do PIB para 2% negativos desde os anos 1980. Desde 1990, a abertura comercial e financeira, e as taxas de juros elevadas onerando a dívida pública, se constituíram em uma imensa captura do patrimônio público pelas elites rentistas e financistas. E esses juros elevados mais uma taxa de câmbio apreciada por longos períodos tornaram as empresas industriais brasileiras, que eram competitivas tecnicamente, a se tornarem não competitivas economicamente. O resultado foram baixas taxas de investimento na indústria e brutal desindustrialização. Desde 2014, uma crise financeira causou a depreciação do Real, que assim afinal se tornou competitivo. Mas a crise econômica, a profunda crise política agravada pelo impeachment (de Dilma Rousseff, em 2016) a eleição de Bolsonaro, e a adoção de políticas econômicas ainda mais liberais ou ortodoxas do que já eram, impediram que as empresas industriais voltassem a investir fortemente, como era necessário para que a quase estagnação fosse superada.
Folha – A ortodoxia liberal de Guedes não é contraindicada a um momento de grave crise, como da pandemia da Covid-19, que exige ação do Estado? Pode falar sobre a proposta Bresser-Marconi, que propõe retomar o investimento público por compra de títulos do Banco Central? Emitir moeda não é tema controverso?
Bresser – A emissão de moeda jamais causou inflação. O que causa e acelera a inflação é um aumento da despesa pública que se torna maior do que a oferta e, assim, pressiona os preços para cima. Nesse caso, aumenta também a quantidade de moeda na economia, mas a moeda é um mero fator sancionador da inflação. Foi a ortodoxia liberal que inventou essa história, que foi sempre desmentida pelos fatos. Por outro lado, eu fiquei convencido que, no quadro da democracia, é impossível recuperar a poupança pública dos anos 1970. A carga tributária aumentou, mas aumentaram também as despesas sociais, mais do que legítimas, e a pressão do pagamento de juros aos rentistas. Por isso, Nelson Marconi e eu fizemos uma proposta de emenda constitucional que autorizasse o Banco Central a comprar do Tesouro títulos públicos até 5% do PIB, a serem usados exclusivamente para financiar investimentos públicos devidamente previstos no Orçamento. E condicionamos a liberação das verbas a cada três meses por decisão do Conselho Monetário Nacional que avaliará se o país chegou ao pleno emprego e a inflação vai se acelerar, ou se não há esse risco.
Folha – Em 19 de abril de 2020, o senhor afirmou sobre a crise da pandemia: “Não existe um governo federal, na prática. Mais precisamente, nós não temos um presidente”. O país tinha, então, 2.484 óbitos de Covid. Em 14 de maio de 2021, já ultrapassávamos 430 mil brasileiros mortos pela doença. Como cobrar essa dívida?
Bresser – Na condução da pandemia, o governo Bolsonaro está cometendo um genocídio. E não há preço que pague esse número de mortes. O Congresso já devia ter decidido o impeachment desse senhor. Ao não o fazer se torna corresponsável pelas mortes que poderiam ter sido evitadas se o governo federal houvesse tomado medidas adequadas para enfrentar e diminuir os efeitos da pandemia. Ao contrário, esse governo está, todos os dias, estimulando o número de mortes por atos de ação e de omissão.
A partir das 7h da manhã desta sexta (14), quem fecha a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é Betinho Dauaire, ex-prefeito de São João da Barra. Ele analisará o papel do filho Bruno Dauaire (PSC) no governo estadual Cláudio Castro (PSC), de quem é secretário de Desenvolvimento Social e dos Direitos Humanos, e na reinauguração (confira aqui) do Restaurante do Povo em Campos.
Betinho também avaliará os 140 dias do governo Wladimir Garotinho (PSD), aliado político do seu filho, em Campos. Assim como o mesmo período na administração Carla Machado (PP), sua ex-aliada que se tornou adversária política, no segundo mandato consecutivo dos quatro que tem como prefeita de São João da Barra.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
A partir das 7h da manhã desta quinta (13), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, será o secretário de Agricultura de Campos, professor ex-reitor da Uenf, Almy Junior. Ele falará sobre o projeto de reabertura da Ceasa, para recebimento e distribuição da produção agropecuária de Campos.
Almy falará também do Projeto de Lei 1.440/2019 no Congresso Nacional (confira aqui), de autoria do prefeito Wladimir Garotinho (PSD) quando deputado federal, para mudar a classificação do clima do Norte e Noroeste Fluminense para semiárido. O que beneficiaria os produtores rurais de 22 municípios. Por fim, o secretário falará sobre recuperação de estradas vicinais, regularização fundiária e conectividade rural.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
A partir das 7h da manhã desta quarta (12), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o delegado de Polícia Civil Pedro Emílio Braga, titular da 146ª DP de Guarus. Ele falará da ação da Polícia Civil da última quinta (6) na comunidade carioca do Jacarezinho, que deixou o saldo de 28 mortos, inclusive o policial André Frias, e ganhou grande repercussão nacional e internacional. Ele também analisará as acusações de “ativismo” do Supremo Tribunal Federal (STF) e os danos da politização da políticas de segurança pública. Por fim, o delegado fará um balanço das ações policiais em Guarus e Campos.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
A partir das 7h da manhã desta terça (11), o entrevistado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, será o vereador Beto Abençoado (SD). Ele comentará as críticas que sofreu por sua declaração sobre a pandemia da Covid, na análise feita por seis especialistas da ciência (confira aqui). Ele falará também das relações entre os grupos políticos dos Garotinho e dos Bacellar. E avaliará os 130 dias do governo Wladimir (PSD) e da nova Câmara Municipal.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
No último sábado (1º), intitulado “Entre Getúlio e Juscelino, travestis e generais, Covid do Brasil a Campos”, um meu artigo publicado na Folha da Manhã fazia um apanhado da pandemia da Covid-19 no país. Em muito agravada pelo negacionismo do governo Jair Bolsonaro (sem partido) e sua seita, o texto de opinião trazia críticas também à não reserva da segunda dose da vacina chinesa Coronavac em Campos.
Como jornalismo e a própria vida só existem com contraditório, o espaço para se manifestarem sobre a crítica foi aberto e ofertado aos médicos infectologistas Charbell Kury e Rodrigo Carneiro, que comandam o combate ao coronavírus em Campos. Como a posição deles só chegou no final da noite de sexta (07), foi impossível a publicação no mesmo espaço do jornal impresso de ontem (08). Mas segue hoje (09) abaixo, neste blog. Que renova sua aposta na capacidade e comprometimento dos dois profissionais de saúde:
Charbell Kury e Rodrigo Carneiro lideram o combate à pandemia da Covid em Campos (Arte: Eliabe de Souza / montagem: Joseli Mathias)
— A pandemia por Covid-19 em Campos dos Goytacazes tem em suas linhas epidemiológicas de crescimento de casos, óbitos e pressão na rede assistencial uma reflexão fidedigna da epidemiologia da grande maioria dos estados e municípios brasileiros. Assim, verificamos diversos momentos em que houve crescimento de casos, óbitos e ocupação de leitos desde 2020, mas consideramos os meses de março e abril de 2021 os piores momentos da epidemia no Brasil. A maior prova desta teoria se deve à constatação de que o número de óbitos em 2021 já é maior do que todo ano de 2020. De forma mais amiúde, Campos dos Goytacazes teve iniciado o pior momento da infecção na semana de 17 a 24 de março. Quando da sinalização da equipe de vigilância/estatística através do sistema de algoritmo de previsão de atraso que demonstrava o crescimento exponencial de casos nas próximas semanas, culminando com a elevação em uma semana do escore de gravidade do amarelo para o vermelho, permanecendo assim por 5 semanas.
Nesse período, diversas intervenções foram utilizadas, tais como restrições/lockdown; aumento do número de leitos clínicos e de UTI, bem como a aceleração da vacinação. Sobre este último tema, o ministério da Saúde, em seu último documento técnico, já recomendava a utilização da 2ª dose da vacina Coronavac como 1ª dose para assim alcançarmos o maior número de pessoas protegidas. Estudos chilenos com a vacina Coronavac demonstram que a 1ª dose já demonstra alguma proteção, mas é ideal termos as duas doses. Entretanto atraso na remessa do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) da China levou a atraso na programação da 2ª dose em metade dos municípios do Brasil que adotaram a antecipação de doses. Ocorre que neste período os óbitos se reduziram, os casos e as ocupações de leitos também e no, dia 7 de maio, foi alcançada a marca de 100.000 pessoas vacinadas em Campos, 1/5 de nossa população protegida com uma dose, enquanto aguardamos a chegada da Coronavac para completarmos a 2ª dose.
Estamos perseguindo a vacinação para o maior número de pessoas, pois acreditamos ser este o melhor caminho para a proteção e eliminação do vírus.
Dr. Charbell Miguel Haddad Kury, subsecretário de Atenção Básica, Vigilância e Promoção da Saúde, médico infectologista pediátrico
Dr. Rodrigo da Costa Carneiro, diretor de Atenção Básica, médico infectologista
A partir das 7h da manhã desta segunda, o vereador Anderson de Matos (Republicanos), também pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, abrirá semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3. Ele comentará as críticas que sofreu por sua declaração sobre a pandemia da Covid, na análise feita por seis especialistas da ciência (confira aqui) em matéria da Folha da Manhã.
Anderson também falará sobre a polêmica envolvendo seu projeto turístico para Lagoa de Cima, acusado por ambientalistas (confira aqui, aqui, aqui e aqui) de tentar reduzir a área de proteção da margem da lagoa. Por fim, o vereador fará uma análise dos 130 dias do governo Wladimir Garotinho (PSD) e da nova Câmara Municipal.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Arthur Soffiati, eco-historiador, professor e escritor
Três lagoas de Campos e o turismo
Por Arthur Soffiati
Um documento redigido em 1995 por Mônica Miranda Falcão e Verônica da Matta, pesquisadoras da extinta Superintendência Estadual de Rios e Lagoas (SERLA) mostra que o estado do Rio de Janeiro conta com o total de 105 lagoas, das quais 67 se encontram no recorte que recebeu sucessivamente os nomes de Distrito dos Campos Goytacazes, Comarca de Campos e Região Norte-Noroeste Fluminense (Relação das lagoas do estado do Rio de Janeiro. Superintendência Estadual de Rios de Lagoas, 1995). Embora tenha sido um levantamento superficial, pois baseado apenas na Carta do Brasil 1:50.000, lançada em 1968, e sem confirmação no terreno, trata-se de um levantamento pioneiro que confirmou o norte fluminense como a verdadeira Região dos Lagos. Um levantamento histórico revelaria número maior de lagoas, extintas por drenagem e por aterro.
Provavelmente, não existem mais essas 67 lagoas. Várias já devem ter sido drenadas nos 25 anos que se passaram desde o levantamento das duas pesquisadores. Dentre as lagoas levantadas, pelo menos três apresentam ou apresentavam atrativos turísticos. Entre elas, não está a grande lagoa Feia, que sempre impressionou por suas dimensões, mas não por sua beleza, embora seja bela aos olhos de estudiosos. A mais famosa lagoa com potencial turístico é, sem dúvida, a lagoa de Cima, desde o século XVIII elogiada por sua encanto. Com a serra do Imbé ao fundo e com águas aparentemente cristalinas, a lagoa de Cima fascina.
Em 1992, o prefeito Anthony Garotinho sancionou uma lei que a transformou em Área de Proteção Ambiental (APA), mas ele mesmo favoreceu dois hoteleiros a iniciarem a construção de um hotel em área proibida às margens da lagoa. A iniciativa não foi adiante por pressão dos ambientalistas. Recentemente, o subsecretário de meio ambiente de Campos anunciou que vai encaminhar o plano de manejo da APA da lagoa para debate e aprovação. Quase 32 anos após a criação da APA por lei, ainda não existe um plano de manejo em vigor. Enquanto isso, a faixa marginal de proteção com largura de 300 metros foi invadida por pobres e ricos, que, no interior dela, consolidaram suas edificações.
Agora, um vereador de Campos empenha-se em revogar uma lei estadual através de um deputado do seu partido a fim de reduzir essa faixa para 50 metros. Tomando como base os 30 metros definidos genericamente pelo Código Florestal para todo o Brasil, ele ainda se gaba de aumentar essa faixa mínima em 20 metros. Basta uma enchente igual, menor ou maior que a de 2008-9 para afogar todas as casas construídas numa faixa de 50 metros.
A intenção do vereador é promover o turismo com a permissão de construção de hotéis próximos à lagoa. Segundo ele, Campos não pode desperdiçar a oportunidade de auferir rendas com o turismo, já que a situação econômica e financeira do município é crítica. De fato, Campos perdeu a oportunidade de caminhar com as próprias pernas, montando uma estrutura econômica que lhe desse autonomia quando os recursos dos royalties do petróleo jorravam pelas torneiras. O desperdício foi irresponsável. Foi atitude de um novo-rico que não sabe o que fazer com o dinheiro.
Diante da nova situação, não há de ser a lagoa de Cima nem a atividade turística que vão salvar ou atenuar a situação financeira de Campos. Como já dissemos no artigo da semana passada, a região não apresenta atrativos turísticos que tragam pessoas de outras regiões para cá. A região não tem sequer a capacidade de reunir os governantes municipais para traçar um plano de turismo voltado para o turismo interno regional. Dentro da região, quem tem dinheiro e mora em Campos não sairá de sua casa para se hospedar num hotel às margens da lagoa de Cima. Quem mora em outros municípios da região, visitará a lagoa de Cima e se hospedará num hotel da cidade. Quem é pobre e mora longe vai se contentar com algum atrativo no seu município. O pobre que mora em Campos dispõe, no máximo, de recursos para chegar à lagoa de Cima de ônibus. Hospedar-se em hotel é inviável para ele.
Assim, reduzir a faixa de proteção para atrair hoteleiros é um salto no escuro. Construir hotéis na orla da lagoa é um risco financeiro duplo: o hotel pode ser atingido por uma enchente ou falir por falta de hóspedes.
A segunda lagoa é a do Vigário, a mais conhecida lagoa de tabuleiros de Campos. O plano urbanístico Coimbra Bueno, de 1944, pretendia transformá-la num parque para os moradores da cidade de Campos pelo menos. Para tanto, o escritório de urbanismo previu a sua proteção com um anel rodoviário ligando as margens direita e esquerda do rio Paraíba do Sul. Mas o prefeito José Carlos Vieira Barbosa cortou-a ao meio com um aterro para ligar as duas margens por meio da avenida Salo Brandt, hoje Tancredo Neves. Brandt foi prefeito interventor de Campos e, na sua gestão, foi concebido o Plano Coimbra Bueno.
Hoje, a lagoa foi densamente ocupada por edificações e perdeu qualquer atrativo turístico, por mais que a prefeita Rosinha Garotinho tenha maquiado metade do rosto dela para a recreação local. Faltou falar do Lagamar, mas também faltou espaço.
Engenheiro, economista, primeiro reitor da Universidade de Brasília (UNB) eleito após a nossa última ditadura militar (1964/1985), ex-governador do Distrito Federal pelo PT, no qual implantou o Bolsa Escola em 1995, depois adotado no governo federal Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e ampliado como Bolsa Família no carro chefe dos 13 anos petistas no comando do país, Cristovam Buarque foi também ministro da Educação de Lula. E senador duas vezes: uma pelo PT e reeleito pelo PDT, pelo qual disputou a presidência da República em 2006. Como educador e político, é um currículo nacional de destaque. Que se aproxima de Campos nesta sexta (14), no debate virtual “A política econômica do desenvolvimento: de Vargas aos nossos dias”, entre 16h e 19h, promovido pela Fundação Astrojildo Pereira e com transmissão ao vivo pela Folha FM 98,3 e Plena TV. Nesta entrevista, Cristovam falou do seu rompimento com o PT, que o levou a votar como senador pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. De quem reafirma a prática de crime de responsabilidade, contrária à narrativa de “golpe”. Progressista, criticou uma “esquerda brasileira (que) nunca lutou pelo fim das mordomias, privilégios, desperdícios”. A classificou de “exquerda” e acusou de “negacionista” no “vício de considerar o Tesouro como ilimitado”. Ainda assim, prega a aliança entre as forças de oposição contra o que considera o objetivo principal em 2022: “vencer Bolsonaro”.
(Foto: Divulgação)
Folha da Manhã – Governador de Brasília, quando ainda estava no PT, o senhor implantou o Bolsa Escola em 1995, que seria adotado em 2001 pelo governo federal Fernando Henrique Cardoso. Em 2003, no governo Lula, o programa foi incorporado a outros no Bolsa Família, carro-chefe dos 13 anos do PT no poder. Que saldo faz do programa?
Cristovam Buarque – O Lula não acreditava no Bolsa Escola, tanto que não aceitou colocá-lo como proposta no documento “Educação Já”, publicado em nome dele e meu, em 1990, como produto do governo paralelo (ao do presidente Fernando Collor de Mello, eleito em 1989, batendo Lula no segundo turno). Quando assumiu o governo (federal, em 2003), eu disse (a Lula) que o Fome Zero não era necessário. Bastava espalhar e ampliar o valor do Bolsa Escola Federal que o FHC tinha criado, cinco anos depois de Brasília e por muita insistência minha. Quando percebeu a importância da ideia, por influência do Duda Mendonça (publicitário que criou o “Lulinha Paz e Amor” vencedor da eleição de 2002), Lula agarrou-a como seu grande programa, coisa que FHC nunca fez, como se sentisse vergonha diante do mundo de que o Brasil precisasse pagar para as crianças estudarem. Apesar disto, em sua autobiografia (“Minha Vida”, lançado em 2004), Bill Clinton (ex-presidente dos EUA) fez elogios, mantendo o nome Bolsa Escola em português. Mas ao adotar o programa, Lula provocou três deformações que levaram um programa educacional a ficar assistencial. Trocou o nome, o que faz com que uma mãe receba o dinheiro pensando que é porque sua família é pobre, antes era porque seus filhos iam à escola. Tirou do MEC e colocou no ministério da Assistência Social, que se chamava Desenvolvimento Social. E misturou beneficiários de filhos na escola com todos que precisavam de ajuda. Melhorou a gestão e elevou de 4 para 12 milhões de beneficiários. Tirou o Brasil do mapa da fome, mas não fez a mudança estrutural que, graças à Bolsa Escola, a educação teria feito.
Folha – Primeiro ministro da Educação de Lula, o senhor foi demitido por ele por telefone em janeiro de 2004. Mas só saiu do PT em 2005, com críticas ao “desprezo” do partido pela educação. Que foi a bandeira da sua candidatura a presidente pelo PDT em 2006, ficando em 4º lugar. De lá para cá, qual o lugar da educação na agenda de desenvolvimento do país?
Cristovam – Continua menosprezada. Quando me demitiu, Lula disse que queria um ministro dedicado a aumentar o número de alunos na universidade. De fato, minha preocupação maior era com a erradicação do analfabetismo e iniciar um processo de maior cuidado federal com a educação de base. Até hoje deixamos a educação de base para os pobres entregue às prefeituras pobres e desiguais. E financiamos a universidade com dinheiro federal. Há 50 anos melhoramos a passo de tartaruga, mas ampliando três brechas: entre pobres e ricos, entre o Brasil e o resto do mundo, e entre o que ensinamos e o que é preciso ensinar. Melhoramos ficando para trás e por conta disto estamos nos tornando um país de quarta classe. Já fomos emergentes, estamos caminhando para submergentes. São muitas razões, mas o atraso e a desigualdade educacional são as principais. Pior que não podemos colocar a culpa nos portugueses ou nos escravocratas ou nos latifundiários ou na ditadura militar. Nós, democratas progressistas, ficamos 26 anos no poder, 13 deles com o PT, e não fizemos o que sempre prometemos. Deixamos o país com 35 milhões sem água, 100 milhões sem esgoto, 12 milhões de analfabetos, recessão, desemprego, recessão e corrupção.
Folha – Em 2010, ainda no PDT, seu partido apoiou Dilma Rousseff (PT) a presidente. Em 2014 seu apoio foi para Eduardo Campos (PSB) e, após a morte dele, para Marina Silva. Ela foi a chance eleitoralmente mais viável para um progressista romper com a polarização entre PSBD e PT?
Cristovam — Além da origem e biografia, que o Lula também tem, Marina trazia os dois compromissos centrais para o futuro: educação e meio ambiente, com responsabilidade fiscal. E era uma posição de avanço nas propostas e comportamentos dos governos do PT, sem o aparelhamento da máquina do Estado e submissão ao corporativismo de trabalhadores e de empresários.
Folha – Em 2014, a disputa presidencial ferveu. Dilma se disse disposta a “fazer o diabo” para se reeleger, Lula chamou Aécio e o PSDB de “nazistas”, e a campanha do PT contra a ex-petista Marina seria classificada de fake news, termo criado em 2016, pelo presidente do TSE, ministro Luiz Fux. Se não era novidade, o “nós contra eles” radicalizou demais a partir dali?
Cristovam – A esquerda tem tendência a esta divisão com respeito à democracia, Bolsonaro radicaliza nesta posição, sem respeito à democracia. Mas a esquerda tende a se sentir dona da verdade e única defensora dos interesses populares, não aceita facilmente a alternância no poder. A derrota eleitoral é vista como derrota histórica. Por isto os partidos comunistas se perpetuam. Evo Morales tentou quatro mandatos sucessivos e tentaria o quinto, Chávez e Maduro nem sabemos quantos. Verdade que vencendo eleições, mas, como disse a Dilma, fazendo o diabo, porque a derrota do partido é vista como escravidão para o povo e derrocada do país. Some-se a isto o gosto de muitos pelo poder e pela fortuna.
Folha – O senhor é até hoje criticado pelos ex-companheiros petistas por ter votado, após trocar o PDT pelo PPS (atual Cidadania), pelo impeachment de Dilma no Senado. Assim como a favor da PEC do Teto dos Gastos Públicos e da proposta de reforma trabalhista do governo Michel Temer (MDB). Se pudesse voltar atrás, mudaria algo? Por quê?
Cristovam – Quanto à PEC do Teto e reforma trabalhista, não tenho a menor dúvida que eram necessidades. Não sou negacionista e acredito que 2 mais 2 é igual a 4 também nas finanças. Vejo que a inflação sempre empobrece ainda mais os pobres. E que o vício brasileiro de considerar o Tesouro como ilimitado, da mesma maneira que as florestas, tem servido para esmorecer as forças progressistas que reivindicam novos direitos sem cortar velhos privilégios. A esquerda brasileira nunca lutou pelo fim das mordomias, privilégios, desperdícios, subsídios. Prefere reivindicar a lutar, aumentando os déficits públicos, comemorando vitórias e deixando o povo pagar a conta com inflação e juros altos. Também não sou negacionista na realidade dos avanços técnicos e suas consequências nas relações entre capital e trabalho nos tempos atuais, comparados com o tempo da CLT. Naquele tempo não havia nem elevador sem ascensorista, hoje tem avião sem piloto. Não votei a lei da reforma previdenciária porque estava fora do Senado, mas afirmo que nisto também não sou negacionista: nascem menos crianças, os velhos vivem mais e o Estado se esgotou. Teria votado a favor. Quanto ao impeachment, a resposta é mais complicada. Foi um erro lógico diante do que perdi e sofri. Até netas minhas de menos de 10 anos foram atacadas por cartazes em Brasília. Não foi um voto inteligente e lamento ter sido obrigado a votar para manter minha coerência. Foi um voto decidido por razões morais. Passei dois anos alertando a presidente Dilma do crime de responsabilidade que ela cometia e das trágicas consequências de recessão e desemprego e inflação. Votar contra seria inteligente, mas não seria coerente. Fui prisioneiro de minha biografia moral, que arranhou bastante minha biografia política, porque meus eleitores, leitores e amigos se afastaram. Fiquei só com minha consciência e a sensação de ter sido corajoso e coerente. Eu continuei de esquerda, mas para ser de esquerda você não pode ser negacionista, nem covarde e tem que ser contemporâneo da contemporaneidade. Nossa esquerda ficou saudosista e não vê a história passar. Por isto chamo de “exquerda”.
Folha – Apontado em 2018 como alternativa progressista ao PT e à extrema-direita de Jair Bolsonaro (então, PSL), Ciro Gomes também sofreu críticas suas. Em 2015, quando se disse “rifado” do PDT, o senhor falou do cearense: “Não é um quadro que me entusiasme. O PDT está tão ruim, que nem a entrada do Ciro consegue piorar”. Qual era a opção em 2018?
Cristovam – Eu pensei ser o candidato à presidência pelo PPS, repetir a candidatura de 2006 pelo PDT. Mas Roberto Freire (presidente do PPS, hoje Cidadania) não quis e eu, recém ingressado no partido, abri mão em uma reunião do diretório. Ele queria apoiar (Geraldo) Alckmin (PSDB). Os deputados (Arnaldo) Jordy e Rubens Bueno até hoje reclamam dessa minha posição. O PPS apoiou Alckmin que nem ao menos apoiou minha candidatura ao Senado no DF (na qual ficou em terceiro lugar e não se reelegeu ao terceiro mandato). Eu explicitei que meu apoio era outra vez a Marina Silva, como tinha sido em 2014, depois da morte de Eduardo Campos.
Folha – Após o plenário do STF anular as condenações de Lula na Lava Jato de Curitiba, ele voltou com força ao tabuleiro eleitoral de 2022, no qual vem liderando todas as pesquisas ao primeiro turno e batendo Bolsonaro nas projeções do segundo. Como os 30% de intenções de voto de ambos podem ser alcançados por uma terceira via, a menos de 17 meses da urna?
Cristovam – Nossa tragédia é que acho difícil qualquer um chegar ao segundo turno sem apoio do PT e Lula, mas o PT poderá ter dificuldade no segundo turno para vencer Bolsonaro na disputa para ver quem tem menos rejeição. Além disto, a disputa no primeiro turno gera muito antagonismo, que é levado ao segundo. Temo que a luta entre os antibolsonaristas no primeiro turno leve muitos democratas a anularem o voto, viajarem, votarem em branco e o Bolsonaro vença da mesma forma que venceu ao Haddad, um candidato muito melhor e mais qualificado, técnica e moralmente. Tenho defendido que os candidatos atuais se unam logo no primeiro turno, e o eleito se comprometa a ficar um único mandato. Os outros candidatos de hoje adiariam a disputa para 2026. O ideal seria que o PT ajudasse a escolher um candidato sem rejeição. Mas se o PT não perceber que o momento deve colocar o Brasil e a democracia na frente, se não encontrarmos um candidato que unifique, melhor ir com o PT do que o suicídio nacional com um Bolsonaro reeleito, formando o “seu” exército oficial ou não oficial das milícias. Nem Lula, nem Ciro, nem (Luciano) Huck (sem partido), nem (João) Doria (PSDB), nem Tasso (Jereissati, PSDB) tem o direito de abrir caminho para este suicídio. Melhor que abram mão de suas candidaturas e escolham um deles em um esforço para vencer Bolsonaro. Mas parece que cada um está colocando mais a chance de ser presidente e de beneficiar seus partidos com o Fundo Partidário do que salvar o país. Uma das provas de que nossa geração não está à altura do momento é termos feito em nome de fortalecer a democracia um fundo partidário que ameaça afundar o país.
Folha – Os petistas têm encarado o reinício dos processos de Lula como sua inocência. Em seu livro “Por que falhamos — O Brasil de 1992 a 2019”, o senhor lista os erros da esquerda que levaram a Bolsonaro. E diz: “Nossos intelectuais toleraram de maneira subserviente a corrupção explícita”. Se essa leniência voltar ao poder, onde o Brasil pode parar?
Cristovam – Não será um bom destino, mas melhor do que Bolsonaro. Além disto, o PT e Lula devem ter aprendido com os erros. Apesar de que nunca reconhecem isto publicamente.
Folha – Refém do Centrão no Congresso, com mais de 100 pedidos de impeachment na Câmara, CPI da Covid no Senado, 420 mil brasileiros mortos pela pandemia, volta da inflação, desemprego e dólar em alta, e sem nenhum apoio internacional desde a derrota de Donald Trump nos EUA, Bolsonaro ainda mantém cerca de 30% de apoio popular. Collor e Dilma só caíram quando tinham 1/3 disso. O que projetar?
Cristovam – Projeto que Bolsonaro manterá seu núcleo fanatizado e os outros divididos ajudarão para que ele chegue ao segundo turno. A ideia de dois turnos é formidável: no primeiro, o eleitor escolhe o candidato mais próximo, no segundo, o menos distante. Mas em tempo de radicalismo, o primeiro turno elege os extremos que mantêm seus núcleos aguerridos. E, no segundo turno, os não extremos elegem um dos extremos com menor rejeição.
Folha – Quais são suas expectativas para o debate virtual “A política econômica do desenvolvimento: de Vargas aos nossos dias”, junto ao também professor e economista Bresser Pereira, que será promovido pela Fundação Astrojildo Pereira, das 16h às 19h da próxima sexta (14), com transmissão ao vivo pela Folha FM 98,3 e a Plena TV?
Cristovam – Vou me concentrar menos no que os economistas erraram e mais no que eles esqueceram: os limites ecológicos que desde os anos 60/70 já se percebiam; vetor educacional que outros países já percebiam nos anos 60/70, como mais do que um direito de cada pessoa, a alavanca do progresso econômico e da justiça social; a pobreza como um entrave ao crescimento; a perspectiva histórica que cobra a conta da modernidade apressada; e o esgotamento do Estado, fiscal, gerencial e moralmente. Qualquer que fosse o partido no poder nos últimos quase 100 anos, seus economistas não perceberam essas lacunas no pensamento econômico. Concentraram-se em caminhar rápido, sem perceber que estavam em um rumo errado.