Artigo do domingo — Presidente da República, Bolsonaro reduz a verdade a cinzas
Bolsonaro reduz verdade a cinzas
Tarde quente de dezembro de 2002. O sol malhava como bigorna no solo de cascalho. A vegetação retorcida, raquítica e agressiva dava significado ao nome caatinga. Em tupi: ka’a, mato + tinga, branca. Por branca, entenda-se oposição ao verde, que só aparece quando chove. A não ser o juazeiro. Mas, sem vento, chove só uma vez ao ano naquele trato de sertão baiano.
Era o centenário da publicação de “Os Sertões”. Euclides da Cunha o escreveu com base em seu trabalho de campo, como correspondente da Guerra de Canudos (1896/1897) para o Estado de São Paulo — Província de São Paulo nos tempos do Império pelo qual os sertanejos ainda guardavam devoção. Império que caiu no nosso primeiro golpe militar, de 1889.
A República ainda engatinhava. Pressionado pelos militares que a fundaram, nosso primeiro presidente civil, Prudente de Moraes, teve que convocar reservistas para lutar contra brasileiros excluídos socialmente, mas unidos pela fé cristã, no sertão da Bahia. Com 25 mil almas arrebanhadas na liderança do místico Antônio Conselheiro, Canudos era então a segunda maior cidade daquele estado, atrás apenas da capital Salvador.
Com base nas prédicas de Conselheiro, os códigos civil e penal de Canudos eram Mateus, Marcos, Lucas e João. Mesmo com o dinheiro abolido dentro do arraial, foi um sucesso econômico, que atraía a mão de obra antes barata e farta de todo o sertão do Nordeste. Reunidos pela fé, os antigos servos romperam com o feudalismo dos coronéis. Por incrível que pareça, deu certo. E incomodou. Foi por isso alvo de quatro expedições do Exército Brasileiro. Às quais resistiu com tenacidade desconhecida até dos veteranos da Guerra do Paraguai (1864/1870).

“Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo”, abre Euclides, natural da nossa vizinha Cantagalo, a sua obra. E segue ao epílogo: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo. Vencido palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5 (de outubro de 1897), ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados”.
Depois de um dia colhendo histórias dos parentes de conselheiristas em Bendegó, batizada pelo meteoro que caiu ali e depois resistiu ao incêndio que destruiu o Museu Nacional, o destino era o sítio histórico de Canudos. Lá, o repórter e o fotógrafo pegaram como guia o menino Paullo. Conhecido do encontro ao acaso no dia anterior, tinha sido rebatizado Pablo, na confusão entre sotaques da mesma língua. Mas também em homenagem ao parceiro de João de Santo Cristo, na música “Faroeste Caboclo”, hino de brasilidade a quem foi adolescente e jovem nos anos 1980.

O menino Pablo levou os dois jornalistas sulistas ao Vale da Morte, onde foram ateados querosene e fogo sobre os mortos do maior genocídio que o Brasil pode fazer com o Brasil. Vinte e cinco mil corpos, incluindo mulheres e crianças, mais dos soldados que os mataram, mas morreram, não comportavam enterro individual em caixão. Com 70 kg em média de osso, carne e sangue coagulado por cada um dos mortos, todos queimados no mesmo lugar, imagina-se a quantidade de cinzas. Mesmo mais de 100 anos depois, sem vento e com pouca chuva, essas cinzas ainda estão lá, em meio ao cascalho do chão.
Caetano e Gil cantaram: “O Haiti é aqui”. No sertão do Brasil, Auschwitz também.
O repórter vê aquela quantidade imensa de cinzas, ajoelha-se sobre elas, toma-as com a mão direita, entre o cascalho. Ergue-se, tonto por tê-lo feito rápido, pelo calor e o que está ali, diante de seus olhos. Que fixa na grande umburana. Destaca-se por ser a única árvore de talo largo da caatinga. E pelo fato de, destituída das folhas que só brotam quando chove, fazer sua fotossíntese pela resina esverdeada escorrida do tronco. O que lhe dá aspecto de grande confeito, guloseima plantada ao solo pela bruxa da história infantil de João e Maria.

Vagarosamente caminhando a ela, o repórter lembra: “Jobim dizia que era bom abraçar árvore”. E, com o tronco da umburana entre seus braços, desaba e umedece o sertão em crise convulsiva de choro. O fotógrafo, que já conhecia a pessoa do repórter, não intervém na catarse, em meio às cinzas dos tantos mortos que batizam o vale. Por sua vez, o menino Pablo observa aparentemente impassível.
Noite daquele dia cheio de dezembro, bebiam cerveja em boteco da Nova Canudos, arquitetada em típico quadrado de povoamento português. Era outro quadrado à mesa: o repórter, o fotógrafo, mais outro companheiro de expedição, já curado da ressaca do forró da véspera, e o poeta local José Américo. Falavam das venturas e desventuras do dia. Até que alguém toca no ombro do repórter.
Era o menino Pablo. Na escuridão da noite, tinha caminhado a pé os oito quilômetros que separam a Nova Canudos do sítio histórico de Canudos, às margens do açude do Cocorobó, onde mora. Trazia um galho na mão, entregou-o ao repórter e revelou: “É uma muda daquela umburana que você abraçou”. E mais não disse. Deixou a muda e emudecida a mesa de bar. Virou-se e caminhou até sumir na escuridão, para vencer os oito quilômetros de volta.
Difícil descrever em palavras o que o repórter sentiu, quando abraçou a árvore e chorou de poça no Vale dos Mortos. A impotência diante do que homens puderam fazer com homens naquele sertão da Bahia, foi muito próxima do sentido ao ouvir um presidente de origem militar, 122 anos depois do nosso primeiro presidente civil, dizer de uma OAB que cumpriu sua função institucional (e constitucional) de defender um advogado:
“Por que a OAB impediu que a Polícia Federal entrasse no telefone de um dos caríssimos advogados (do Adélio Bispo, autor da famosa facada)? Qual a intenção da OAB? Quem é essa OAB?”, indagou Bolsonaro a jornalistas na manhã da última segunda (29). E revelou na sequência, com o prazer sádico do riso, quem é a pessoa do presidente da República: “Um dia se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, eu conto para ele. Ele não vai querer ouvir a verdade”.

O pai de Felipe foi Fernando Santa Cruz, estudante de Direito, servidor público e militante do grupo Ação Popular Marxista-Leninista (APML). Ele desapareceu em 22 de fevereiro de 1974, aos 25 anos, deixou para trás um filho de apenas 2, e nunca mais foi visto. Nos 45 anos seguintes, sua mãe, dona Elzita Santa Cruz, jamais deixou de buscar o corpo do filho. O fez incansavelmente até falecer em junho deste ano, 105º da sua vida.
Depois da reação nacional às declarações de Bolsonaro, este gravou uma live na tarde daquela mesma segunda. Enquanto cortava o cabelo, afirmou que Fernando Santa Cruz teria sido morto por integrantes da própria APML. Só que o relatório secreto RPB 655, do Comando Costeiro da Aeronáutica, atesta que Fernando Santa Cruz foi preso pela ditadura em 22 de fevereiro de 1974. Em bom português: o presidente da República mentiu!

O mesmo repórter passou a correr atrás da história, após ser alertado por outros dois jornalistas, um de Itaperuna, outro radicado na Califórnia, que o destino de Fernando Santa Cruz teria sido a incineração nos fornos da usina Cambaíba, em Campos dos Goytacazes. Quem contou isso com riqueza de detalhes foi o ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) Cláudio Guerra, no livro “Memórias de uma Guerra Suja”, de 2012. Com base em seus relatos o Ministério Público Federal (MPF) de Campos concluiu, desde o último dia 26, que os corpos de Fernando e outros 11 presos políticos da ditadura teriam sido queimados nos fornos da usina de Campos. Para que se torne fato histórico, demanda o julgamento da Justiça Federal.

Bem verdade que, ainda em 2012, logo após o lançamento do livro, o Ministério Público Estadual (MPE) de Campos pediu o arquivamento da investigação “desses supostos assassinatos ou ocultação de cadáver, não há o menor indício sério e idôneo de quem possam ter ocorrido em território campista”. E o fez sem ouvir Cláudio Guerra, base para o inquérito do MPF. Sobre seus motivos, fala sete anos depois (aqui) o promotor Marcelo Lessa, na página 2 desta edição.
Para a Comissão Nacional da Verdade, que também se debruçou sobre o caso, não há dúvida de que Fernando foi preso, torturado e executado pela ditadura. Mas, sobre o destino do corpo, aponta duas opções: ou foi enterrado numa vala comum no Cemitério dos Perus, em São Paulo; ou, como Guerra conta, foi assassinado na Casa da Morte em Petrópolis, e de lá levado para ser incinerado em Cambaíba. Pelos 45 anos que nos separam dos fatos, é praticamente impossível ter certeza. Só uma sobrevive documentada: diferente do que disse Bolsonaro, o pai do presidente da OAB foi preso, torturado e morto pelo Estado.
Conhecer os pormenores da história trágica de Fernando, como a dos outros 11 presos políticos que também teriam sido incinerados nos fornos de Cambaíba, é um experimento doloroso para a alma. No vale dessas cinzas do passado mal resolvido do país, revisitado por um presidente sem escrúpulos de moral para queimar, não há árvore para abraçar enquanto se chora.

Lenitivo foi ganhar aquela muda de umburana em Canudos, hoje árvore de três metros de altura, frondosa e cheia de folhas no clima mais úmido de Atafona. Como se tornou homem o menino Paullo. Adotou o nome Pablo e vive de contar as histórias de brasileiros que reduzimos a cinzas.
Publicado hoje (04) na Folha da Manhã



































