“Boca suja” e “bandido” no lugar de saúde, transporte e educação

 

Wladimir Garotinho e Madeleine Dykeman (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

O poder das palavras

Quando desceu do palanque da convenção do União que a lançou candidata a prefeita de Campos, em 26 de julho, a delegada Madeleine Dykeman foi filmada dizendo “vai acontecer, porra”. Repetiu seu slogan de campanha e o pontuou com uma palavra que, se de baixo calão, dificilmente geraria questionamento se estivesse na boca de um candidato homem. Esse vídeo teria sido usado por grupos de WhatsApp da militância de Wladimir Garotinho (PP), chamando a adversária evangélica e conservadora de “boca suja”. E gerou resposta do inspetor de Polícia Civil Cristiano Dykeman, marido de Madeleine.

 

Mais palavras

Em status do WhatsApp, que sai do ar após 24 horas, Cristiano escreveu: “O problema não é xingar! O problema é roubar por anos um povo e ter os pais presos #vaiacontecer. Sua hora está chegando! Sivis pacem para bellum (‘se você quer paz, prepare-se para a guerra’)”. O que Wladimir entendeu como ameaça e representou (confira aqui) contra o policial no Ministério Público e na Corregedoria de Polícia Civil. Cristiano preferiu só falar do caso nas representações. Por sua vez, Madeleine postou ontem (9) no Instagram: “Não vai ser com intimidação que vão me calar. Honro minha família, não tenho medo de bandido e farei tudo para protegê-la”.

 

E as palavras saúde, transporte e educação?

A “guerra”, como definiu seu maior teórico moderno, o alemão Carl von Clausewitz, “é a política por outros meios”. Pode tanto ser entendida como metáfora ao enfretamento político natural de uma eleição, como por esses “outros meios”. Wladimir assim entendeu: “não vão transformar a política de Campos nesse vale tudo, não vão mesmo. Política não é lugar de intimidação e ameaça, nem a mim e nem a nenhum outro candidato”. Os ânimos estão acirrados, hoje, só a 57 dias das urnas de 6 de outubro. Para serená-los, dentro do que interessa ao eleitor, como saúde, transporte e educação, lamentável o tratamento mútuo entre “boca suja” e “bandido”.

 

Felipe Drumond, advogado criminalista

O que é uma ameaça?

Mas o que é, de fato, uma ameaça? O advogado criminalista Felipe Drumond definiu juridicamente à coluna: “O crime de ameaça se configura com a promessa a alguém, por palavras, escritos, gestos ou qualquer meio simbólico, de causar mal injusto e grave. O delito tem por objetivo proteger a tranquilidade e a paz de espírito de cada indivíduo. Para que ocorra o crime de ameaça não se exige que a promessa consista na prática de um crime, mas é preciso que se identifique a presença de menção a uma conduta que seja capaz de gerar dano à pessoa ameaçada ou a qualquer terceiro com quem tenha vínculos afetivos”.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Marquinho, Dudu, Thamires, Abdu ou Anderson?

 

Rodrigo Bacellar, Wladimir Garotinho e Thiago Rangel medirão seu tamanho eleitoral também pelas votações, respectivamente, de Marquinho Bacellar, Dudu Azevedo e Thamires Rangel à Câmara Municipal (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Rodrigo Bacellar, Wladimir Garotinho e Thiago Rangel medirão seu tamanho eleitoral em Campos também pelas votações, respectivamente, de Marquinho Bacellar, Dudu Azevedo e Thamires Rangel à Câmara Municipal (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Marquinho, Dudu, Thamires, Anderson e Abdu?

Não há nenhuma pesquisa a vereador de Campos registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) à eleição de 6 de outubro. Mesmo se houvesse ou houver, pesquisas a eleição proporcional são sempre bem mais imprecisas que as de eleição majoritária, como a prefeito. Sem dado estatístico, o que se comenta nos bastidores, no entanto, é que algumas candidaturas a vereador estariam brigando, mais que pela eleição, pela maior votação à Câmara Municipal de Campos. A do seu atual presidente, Marquinho Bacellar (União), a de Dudu Azevedo (REP) e de Thamires Rangel (PMB). Além dos edis Abdu Neme (PL) e Anderson de Mattos (REP).

 

Disputa de caciques

Em seu 5º mandato de vereador, Abdu foi o mais votado ao cargo em 2020. Dublê de pastor e vereador, Anderson será o primeiro da Igreja Universal, que tem cadeira cativa na Câmara de Campos em rodízio desde 1992, a tentar bisar o mandato. Mas o primeiro é candidato de força individual, e o segundo de uma agremiação religiosa. É atrás dos outros três que está a grande disputa dos caciques eleitorais locais e seus grandes egos: Marquinho, do irmão e presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União); Dudu, do amigo e prefeito candidato à reeleição, Wladimir Garotinho (PP); e Thamires, do seu pai, o deputado estadual Thiago Rangel (PMB).

 

Surpresas, céu e terra

Pesquisas e bastidores à parte, toda a eleição a vereador de Campos costuma trazer surpresas. Às vezes, aqueles de quem se espera votações consagradoras não chegam nem a se eleger. Como, quase sempre, são eleitos nomes pelos quais ninguém dava muita coisa antes da apuração das urnas. Ademais, se todas as previsões dos partidos e federações a vereador se confirmassem, Campos teria que ter umas 100 cadeiras em sua Câmara, no lugar de 25. Mas é certo que Rodrigo, com Marquinho; Wladimir, com Dudu; e Thiago, com Thamires, moverão céus e terras para mostrar quem tem o maior cacife eleitoral. A ver.

 

Pesquisa com Carla e Thiago

A única pesquisa de Campos até aqui registrada (confira aqui) no TSE, da Prefab Future, foi a prefeito. Nela, Wladimir teve na consulta estimulada 53,7% de intenção de voto. E aprovação de governo de 70,5%. São números que indicam possibilidade de reeleição no 1º turno, como indicavam todas as pesquisas de 2023. O que, se confirmado na urna, pode trazer a reboque a maior bancada de vereadores. O problema é que essa última pesquisa é de 26 de abril, quando os deputados estaduais Carla Machado (PT) e Thiago ainda eram prefeitáveis. Carla teve 18,7% de intenção de voto na estimulada, com 2,5% de Thiago. Só que os dois desistiram da disputa.

 

Madeleine, Thuin e Jefferson

A delegada de Polícia Civil Madeleine Dykeman (União) teve 6,8% na consulta estimulada do final de abril. Sem Carla e com o apoio de Rodrigo, tudo indica que ela assumirá o 2º lugar da disputa, mesmo que à distância de Wladimir. Pesquisas internas, tanto dos Garotinhos, quanto dos Bacellar, indicam isso. Mas é preciso a confirmação por números registrados no TSE. Atual vereador, Raphael Thuin (PRD) seria vice de Thiago. Após este pular fora, assumiu a candidatura a prefeito. Se terá os votos ou apoio efetivo do deputado, é tão incerto quanto dizer que o professor Jefferson Azevedo (PT) herdará votos e apoio da correligionária Carla.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Reitora da Uenf fecha nesta sexta a semana do Folha no Ar

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Reitora da Uenf, a professora Rosana Rodrigues é a convidada para encerrar a semana do Folha no Ar nesta sexta (9), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ela falará sobre a denúncia anônima (confira aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) de assédio na universidade e do papel desta (confira aqui e aqui) na reforma do Solar dos Jesuítas, prédio do séc. XVII que abriga o Arquivo Público Municipal.

Rosana também fará um balanço dos seus oito primeiros meses na reitoria da Uenf, apontando acertos, erros e principais projetos. Por fim, com base nas pesquisas (confira aqui, aqui e aqui), ela tentará projetar as eleições a prefeito e vereador de Campos em 6 de outubro, daqui a exatos 59 dias.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.

 

Felipe Fernandes — “Deadpool e Wolverine” promete e entrega

 

 

Felipe Fernandes, cineasta publicitário e crítico de cinema

Reinício e fim no Multiverso

Por Felipe Fernandes

 

Criado em 1991 pelo controverso Rob Liefeld, Deadpool surgiu como um vilão, que era uma paródia do vilão Exterminador da DC Comics. Somente em 1998 ele começou a ganhar algum destaque e suas principais características, como seu humor ácido, referências satíricas à cultura pop e a quebra da quarta parede.

Ganhou sua primeira versão cinematográfica no tenebroso “X-men Origens: Wolverin”. E e em 2016 ganhou um filme solo, que trouxe de fato o personagem dos quadrinhos para as telas, se tornando um grande sucesso, em um projeto arriscado que só saiu do papel devido ao empenho do ator Ryan Reynolds.

Passados 8 anos, o mercenário tagarela chega ao seu terceiro filme solo, em um longa que introduz o personagem ao Universo Cinematográfico da Marvel e faz uso do multiverso para construir uma narrativa que homenageia os filmes de super-heróis da Fox (hoje parte do conglomerado Disney) e traz de volta o ator Hugh Jackman revivendo Wolverine, um dos personagens mais queridos dos fãs de quadrinhos.

Em uma recente entrevista o diretor James Mangold (“Wolverine” e “Logan”), relatou que o multiverso é a morte da narrativa. Não dá pra tirar sua razão, é uma ferramenta que permite muita originalidade, mas que ao mesmo tempo pode retirar o peso dramático de qualquer acontecimento.

Um dos elementos característicos das histórias do Deadpool é o alto grau de violência, um perfil que não combina muito com a Disney. Porém, o novo longa do personagem teve liberdade criativa para manter o nível de violência gráfica e verbal, que convenhamos, é intrínseco aos dois personagens.

O longa faz uso do multiverso para trazer Wolverine de volta, de uma forma que não desonra o legado deixado pelo personagem na franquia X-men e, principalmente, em seu último filme solo. Basicamente, é uma desculpa para trazer o mesmo personagem de volta, sem na teoria ser o mesmo personagem. O tipo de bagunça muito recorrente nos quadrinhos, que a Marvel resolveu levar para os cinemas.

O filme trabalha uma história meio absurda, com um conceito interessante de uma espécie de limbo para personagens, funcionando como uma grande homenagem aos filmes de super-heróis da Fox. Que, no final dos anos 90, foi quem deu pontapé para essa febre que se tornaram os filmes de super-heróis.

Com um ritmo intenso, muitas piadas (algumas delas com críticas à própria Marvel) e violência, o filme é repleto de participações especiais, que vão fazer a alegria dos fãs. É um longa que existe em função do fan service e de suas piadas, tendo uma história costurada em torno disso. É sem dúvidas uma experiência divertida, mas muito dependente desse efeito surpresa.

É prazeroso rever Hugh Jackman como Wolverine, em uma versão amargurada do personagem, criando um contraste com Deadpool, um personagem que não leva nada a sério. O filme cria essa improvável dupla de personagens, buscando uma mistura de humor com doses de drama, que nem sempre funciona.

Reynolds e Jackman são atores que estão extremamente confortáveis em seus personagens — difícil imaginar outros atores interpretando qualquer um dos dois. E a amizade entre eles transborda às telas, construindo uma parceria de personagens em busca de redenção e propósito, que funcionam como motivações básicas.

Um dos grandes sucessos do ano, “Deadpool e Wolverine” é uma grande homenagem aos filmes da Fox, que funciona como fusão desses dois universos. É uma aventura descompromissada, repleta de surpresas e com dois personagens muito queridos. Se propõe a ser um bom entretenimento e entrega o que promete.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Confira o trailer do filme:

 

Adeus a Adílio, lenda do Flamengo e do futebol brasileiro

 

Adílio, craque e eterno camisa 8 do Flamengo campeão do Mundial de Clubes e da Libertadores da América em 1981, tricampeão do Brasileirão de 1980, 1982 e 1983, no qual marcou o gol do título (Foto: Divulgação)

 

Adílio formou o maior meio de campo da história do Flamengo, ao lado de Andrade e Zico (Foto: Divulgação)

Dia contraditório em emoções. Sobretudo aos rubro-negros. Pouco depois da atleta do Flamengo Rebeca Andrade conquistar o ouro em Paris na apresentação solo da ginástica, e se tornar a (o) maior medalhista da história do Brasil nas Olimpíadas, partiu o grande Adílio, aos 68 anos. Vítima de câncer no pâncreas, foi uma lenda do Flamengo e do futebol brasileiro.

Eterno camisa 8 da Gávea, foi campeão da Libertadores da América e do Mundial de Clubes, no qual marcou um dos 3 a 0 na final contra o Liverpool, em 1981. E foi tricampeão do Brasileirão em 1980, 1982 e 1983. Neste, mesmo com Zico em campo, foi Adílio o grande craque da final contra o Santos, em outro 3 a 0, no qual marcou o gol do título. Naquela campanha de 1983, testemunhei o Flamengo 7 a 1 Rio Negro, na primeira vez em que eu e meu irmão, o tricolor Christiano, fomos ao Maracanã, com nossos pais.

Também tricolor, meu pai se ufanava de ter visto Pelé, Garrincha, Puskás, Didi, Zizinho e tantos outros grandes craques do passado jogarem no Maracanã. E, para mim, ainda é do velho Aluysio, ex-campeão juvenil do futebol de Campos pelo Rio Branco, a melhor definição que já ouvi sobre o Adílio: “esconde a bola no pé”.

 

 

Como parece agora relevante a conversa recente que tive com Chiquinho, boleiro sexagenário, motorista da Folha e entre as pessoas que mais gosto de conversar sobre futebol. Ao elogiar o futebol do De La Cruz com Chiquinho, eu disse: “lembra até Adílio”. A quem o viu jogar, cria da comunidade da Cruzada São Sebastião, ao lado da Gávea, a referência mais alta é Adílio, não o craque uruguaio.

Na Seleção Brasileira, Adílio teve o azar de jogar na mesma época de Sócrates. Mas, diferente deste, foi campeão do mundo. Condição que, no futebol de clubes, concedeu a uma geração de flamenguistas ainda crianças, nascidos só após o Tri do Brasil em 1970 e que só veriam o Tetra em 1994 já adultos.

Adílio foi um herói da minha infância. Sempre será!

 

Edmundo Siqueira — Venezuela e a banalização da moral

 

Repressão das forças de segurança, militares e paramilitares do regime Nicolás Maduro a protestos do povo da Venezuela contra a suposta fraude eleitoral no país já deixou 21 mortos (Foto: Samir Aponte/Reuters)

 

 

Edmundo Siqueira, jornalista, servidor federal, blogueiro do Folha1 e membro da bancada do Folha no Ar

A banalidade da moral

Por Edmundo Siqueira

 

Conceituar a “moral” sempre exige um exercício de compreensão da sociedade, uma vez que é nela e a partir dela que será definido o que é algo moralmente aceito como conduta individual. Pela coletividade, temos o conceito da ética, que se confunde com a moral, mas se trata de algo mais coletivista, inclusive classista, como os códigos de ética relativos à determinada categoria social.

A moral é, portanto, um conjunto de valores, sejam eles individuais ou coletivos. A questão é sobre a sua universalidade. Caberia a mesma moral da sociedade brasileira em um país vizinho? A característica de laicidade do sistema político do Brasil permite que os mesmos preceitos éticos e morais sejam aplicados em uma teocracia muçulmana? Ou ainda, caberia a mesma moral em uma comunidade periférica e um bairro abastado da mesma cidade?

A partir de uma visão revolucionária, baseada na luta de classes, principalmente de origem marxista, é possível encontrar o conceito da “moral tradicional”. Para alguns pensadores dessa linha, há valores que são apregoados como universais e dogmáticos, mas que na realidade, na práxis, eles estariam a serviço dos interesses da burguesia, ou de suas representações temporais (hoje, algo como o empresariado ou comerciantes). E estariam essas morais dogmáticas sendo usadas para impedir que movimentos revolucionários fossem aceitos na sociedade, ganhassem forma.

Essa moral tradicional seria defendida e apoiada pela “pequena burguesia intelectual”. Esses “pequenos burgueses” com atuação intelectual poderiam ser jornalistas, acadêmicos, escritores, professores e parte do funcionalismo público intelectualizado e burocrático.

Segundo essa perspectiva revolucionária, a moral e ética, e a democracia, em última análise — e quem as sustentam — são artifícios para a manutenção do status quo e a perpetuação dos interesses dominantes. Mas, temos exemplos contemporâneos que mostram que revoluções são usadas para apenas alterar os grupos dominantes. Um caso notório é o da Venezuela, onde a figura do presidente Nicolás Maduro se torna central na discussão.

Maduro, herdeiro político de Hugo Chávez, tem sido alvo de acusações de fraudes eleitorais e repressão política. As eleições do último domingo foram amplamente contestadas, com alegações de manipulação de votos e intimidação de opositores. Organizações internacionais, como a Organização dos Estados Americanos (OEA) e o Centro Carter não puderam atestar que as eleições foram limpas. A União Europeia e os EUA questionaram a legitimidade do processo, classificando-o como uma fraude que minou a vontade popular.

A crise venezuelana não é apenas uma questão de fraude eleitoral; envolve também uma complexa rede de interesses econômicos e geopolíticos. A moral e a ética, aqui, se tornam ferramentas de retórica tanto para o governo quanto para a oposição. Maduro e seus aliados frequentemente evocam a moral revolucionária e o anti-imperialismo para justificar suas ações, enquanto a oposição apela para princípios democráticos e direitos humanos universais.

O que se observa, portanto, é uma batalha pela definição e controle da moralidade pública. Os valores proclamados pelo governo Maduro são apresentados como defensores da soberania nacional e dos direitos dos desfavorecidos, enquanto a oposição e grande parte da comunidade internacional os denunciam como pretextos para a perpetuação do poder e a violação das liberdades civis.

Assim, a discussão sobre a moralidade e a ética, seja na Venezuela ou em qualquer outra sociedade, transcende a simples análise de valores individuais ou coletivos. Ela se revela um campo de batalha onde se travam lutas intensas pelo controle narrativo e pela legitimação do poder. A questão venezuelana ilustra com clareza brutal como, em tempos de crise, a moral e a ética são armas de retórica, brandidas com fervor por todos os lados. Nesse cenário, a moral não é um farol de princípios universais, mas um espelho fragmentado, refletindo os interesses de quem detém a força para moldar a realidade conforme suas ambições.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Apoio do PT a Maduro na América do Sul e nas urnas do Brasil

 

O venezuelano Nicolás Maduro, o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, o chileno Gabriel Boric, o uruguaio Pepe Mujica e os campistas Carla Machado, Jefferson Azevedo e Wladimir Garotinho (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Venezuela divide a esquerda na América do Sul

A aparente fraude eleitoral para perpetuar Nicolás Maduro presidente da Venezuela, no domingo (28), pode ser um divisor de águas na esquerda da América do Sul. De um lado, o futuro com a esquerda democrática. Representada pelo jovem presidente do Chile, Gabriel Boric, que disse (confira aqui) sobre a suposta vitória de Maduro: “é difícil de acreditar”. Do outro lado, a esquerda do passado. Representada, com ditaduras “companheiras”, pelo PT. Cuja nota oficial na terça (30), chamou a crise da Venezuela de “jornada pacífica, democrática a soberana”. Cujo resultado anunciado revoltou sua população, reprimida com 21 mortes (confira aqui) e 1,2 mil presos (confira aqui).

 

Geracional ou compromisso com a democracia?

Líder maior do PT, o presidente Lula tem 78 anos. Condutor da sua política internacional, Celso Amorim tem 82. Presidente do PT, a deputada federal Gleise Hoffmann tem 58. Presidente chileno, Boric tem só 38. Mas a diferença na defesa da democracia no continente não é apenas geracional. Ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica tem 89 — 11 a mais que Lula, 7 a mais que Amorim, 31 a mais que Gleisi. E o uruguaio mais emblemático à esquerda sul-americana disse (confira aqui) sobre Maduro: “pode chamá-lo de ditador”. Ao considerá-lo “democrático”, o PT pode pagar o ônus nas eleições municipais do Brasil de 6 de outubro, daqui a apenas 64 dias?

 

Compromisso moral de Lula e do PT

Lula foi eleito pela 3ª vez presidente (confira aqui) na perspectiva de defender a democracia do país dos ataques reincidentes do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Que se materializariam na tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro de 2023. Dos maus perdedores das urnas do 2º turno presidencial de 30 de outubro de 2022 por apenas 1,8 ponto — nos votos válidos, Bolsonaro 49,1% a 50,9% Lula. Por diferença tão pequena, Lula só se elegeu, para além dos petistas, com o voto de quem acreditou que ele era a opção viável para preservar a democracia no Brasil. Lula e o PT teriam, portanto, compromisso moral de defendê-la também nos países vizinhos.

 

Influência nas eleições municipais do Brasil

Cientista político e CEO da Quaest, conceituado instituto de pesquisa do Brasil, Felipe Nunes já disse que quanto maior for o município, maior será a influência na sua eleição da polarização política nacional e internacional. Quanto menor, afetará menos. Assim, pode ter uma importância maior na cidade de São Paulo, em que as pesquisas apontam o empate técnico na liderança (confira aqui) do atual prefeito, Ricardo Nunes (MDB), com o deputado federal Guilherme Boulos (Psol) e o apresentador José Luiz Datena (PSDB). E pode ter pouca importância numa cidade de porte médio, mesmo de maioria bolsonarista (confira aqui), como Campos. Menos ainda em cidades pequenas.

 

Ricardo Nunes, Guilherme Boulos e José Luiz Datena lideram a última pesquisa Quaest a prefeito de São Paulo em empate técnico na margem de erro

 

Hamilton Garcia, cientista político e professor da Uenf

O projeto bolivariano

“O projeto bolivariano na Venezuela é uma atualização do modelo revolucionário clássico, com Cuba como modelo. A disputa eleitoral só era aceita se legitimasse o ‘poder revolucionário’. O jogo democrático tinha só valor instrumental, com a destruição das instituições, como a divisão entre os Poderes do Estado e a liberdade de opinião. Quando as urnas começaram a se desencontrar do ‘poder revolucionário’, a partir da queda no preço do petróleo em 2014, a repressão à contestação política e ao direito de opinião se agravaram dramaticamente”, contextualizou outro cientista político, Hamilton Garcia, professor da Uenf.

 

Não ajuda o PT de Campos

“A autoproclamada vitória de Maduro, ao arrepio dos documentos eleitorais, é a crônica da morte anunciada da democracia venezuelana. O PT e o MST estiveram, desde sempre, ao lado dos objetivos ‘revolucionários’ do bolivarianismo. Parcelas importantes de sua ala radical possuem a mesma visão ‘revolucionária’ ao Brasil. O desenlace venezuelano terá impacto efetivo sobre a imagem do lulopetismo na eleição de 6 de outubro, sobretudo nas capitais. E pode, em 2026, esgarçar as franjas centristas que apoiaram Lula em 2022. Em Campos, onde o PT tem poucas perspectivas a prefeito, não ajudará a eleger vereador”, advertiu Hamilton.

 

George Gomes Coutinho, cientista político, sociólogo e professor da UFF-Campos

Limites da influência

“Há uma importação da questão venezuelana, por vezes em termos caricatos e simplistas. Mirando o curto prazo nas eleições municipais brasileiras: 1) o tema irá mobilizar grupos e agentes já suficientemente ideologizados; 2) a agenda internacional não costuma alterar a percepção política de eleitores comuns; 3) estados brasileiros que estão geograficamente mais próximos da Venezuela podem importar, por razões concretas, a pauta das eleições por lá; e 4) em Campos já há um conjunto de pautas ao eleitor comum: empregos, saúde, transporte”, avaliou outro cientista político, George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos.

 

Condição minoritária

George não crê que a crise da Venezuela e a posição do PT sobre ela afete o partido em Campos: “A exploração do tema contra o PT campista é improvável. O PT é uma minoria política, talvez não atraia ataques persistentes por sua condição minoritária, o que não se pode falar do prefeito (Wladimir Garotinho, PP, candidato à reeleição e líder em todas — confira aqui e aqui — as pesquisas). Eleitores que não votariam no PT continuarão não votando. Petistas simpatizantes votarão no PT. E os eventuais eleitores passíveis de serem seduzidos a votar no PT nestas eleições municipais talvez não sejam demovidos pela questão venezuelana”.

 

“Maduro ditador” e “castelo de areia”

No Folha no Ar da manhã de ontem, o sociólogo Fabrício Maciel, professor da UFF-Campos e da Uenf, foi direto ao avaliar a real condição de Maduro e sua tentativa de relativização pelo PT: “Maduro é um ditador. Isso é a pura verdade, não dá para aliviar. A figura de Maduro, hoje, não tem nada a ver com democracia. Mas a Gleisi Hoffmann pode soltar uma nota, como petista clássica, dizendo isso? Não pode! Porque ela está presa a um certo negacionismo. É uma mentira que um partido de esquerda precisa manter, num certo sentido. Porque se abre o jogo e diz, você tem um castelo de areia”.

 

 

“Muito difícil tirar de Wladimir”

“Carla Machado (deputada estadual que desistiu — confira aqui — da pré-candidatura a prefeita de Campos por — confira aqui e aqui — impossibilidade jurídica) tem votos por causa dela. Não tem nada a ver com o PT. É uma política tradicional, conhecida na região. O Jefferson (Azevedo, candidato a prefeito de Campos pelo PT) vai ter dificuldade em (confira aqui) herdar votos aí. Também não há influência da polarização nacional numa cidade como Campos. É difícil alguém tirar essa (eleição) de Wladimir. Está muito cristalizada a situação, ele fez um governo estável. Mais uma vez a ideia (confira aqui) do meu querido amigo George: não vai haver surpresa nessa eleição”, apostou Fabrício.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Livro, Venezuela e eleição de Campos no Folha no Ar desta 6ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Sociólogo, escritor e professor da UFF-Campos, Fabrício Maciel é o convidado para encerrar a semana do Folha no Ar nesta sexta (02), a partir das 7h da manhã, ao vivo, na Folha FM 98,3. Ele falará do lançamento do livro “Re-trabalhando as classes no diálogo Norte-Sul: trabalho e desigualdades no capitalismo pós-covid”, do qual é um dos organizadores.

Fabrício também analisará a crise aberta com as suspeitas de fraude na reeleição de Nicolás Maduro como presidente da Venezuela, sua repercussão pelo mundo e a posição do PT, que chamou de “pacífico, democrático e soberano” um processo que já contabiliza 21 venezuelanos mortos (confira aqui) e mais de mil presos (confira aqui). Por fim, com base nas pesquisas (confira aqui, aqui, aqui, aqui) ele tentará projetar a eleição a prefeito e vereador de Campos em 6 de outubro, daqui a exatos 66 dias.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.

 

Venezuela e consequências ao Brasil no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Como analisar o resultado anunciado das eleições presidenciais da Venezuela no último domingo (28) e as reações que gerou pelo mundo, inclusive na hoje dividida esquerda sul-americana? É o que tentarão no Folha no Ar desta quinta (1º), ao vivo, a partir das 7h da manhã, o radialista Cláudio Nogueira e os jornalistas Aluysio Abreu Barbosa e Edmundo Siqueira.

Os três também analisarão a posição oficial do PT, classificando a eleição venezuelana (confira aqui) de “jornada pacífica, democrática e soberana”. E dos possíveis efeitos disso na popularidade do governo Lula3 e nas eleições municipais do Brasil em 6 de outubro, daqui a exatos 67 dias.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.

 

Rio sem toxina e tratado com carvão ativado contra geosmina

 

Paraíba do Sul em tempo de estiagem em análise por Carlão Rezende, Guilherme Souza, Giuliano Tinoco e João Gomes Siqueira (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Geosmina na água do Paraíba

A falta de chuva e o baixo nível do rio Paraíba do Sul provocaram o efeito da geosmina (composto orgânico da proliferação de algas) na água captada e distribuída em Campos. O que gerou inúmeras queixas da população sobre seu gosto e odor. Muito embora a geosmina não seja danosa à saúde, a incerteza gerou especulações e áudios anônimos alarmistas em grupos de WhatsApp, crescendo a procura de água mineral na cidade. A concessionária Águas do Paraíba reforçou o tratamento contra a geosmina com carvão ativado. O que provocou uma tonalidade mais escura no rio na manhã de ontem (30). E voltou a gerar especulações.

 

Com tratamento de carvão e sem toxina

O tratamento do alarmismo foi a verificação dos fatos pela ciência. O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) informou que “após a análise realizada por um técnico do instituto, foi constatado que a mancha resultou do carvão ativado utilizado pela concessionária no tratamento da água”. Enquanto resultado prévio do exame da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) enviado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na investigação da 1ª Promotoria de Investigação Penal do Ministério Público Estadual em Campos, revelou que a água do Paraíba não contém a toxina saxitoxina. Como a Águas do Paraíba já tinha informado.

 

Análise da Uenf

Na matéria da Folha de sábado (27), da jornalista Ingrid Silva, o fenômeno da geosmina foi esclarecido pelo professor Carlão Rezende, do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) da Uenf, que testou a água do rio: “O que há é a produção de um composto chamado geosmina. Não existe nada na literatura que aponte efeitos toxicológicos à população humana, mas ele gera alteração no padrão organoléptico (odor e sabor). O que a gente está vendo é se, junto com isso, não tem outras coisas. Mas, em relação a esse cheiro e o gosto, a substância não produz risco para a população”, garantiu o cientista. Que hoje fala do assunto no Folha no Ar.

 

Análise do Projeto Piabanha

Também na Folha de sábado, a informação sobre a geosmina foi confirmada pelo biólogo e diretor técnico do Projeto Piabanha, Guilherme Souza: “Planta precisa de sol. Alga é planta, só que fica debaixo d’água. Quando temos um momento como esse, sem inverno, pouco volume de água no rio e muito adubo na água, é tudo que a planta quer. Aí tem uma proliferação excessiva naquele ecossistema aquático, que é essa cor verde. Quanto maior a quantidade de sol que entra naquele sistema, mais ela vai fazer a fotossíntese. Mas, em um rio saudável, ele não fica verde, porque é nutriente limitante: nitrogênio e fósforo”, explicou o biólogo.

 

Versão da Águas do Paraíba (I)

Na segunda (29), o diretor executivo da Águas do Paraíba, Giuliano Tinoco, foi o entrevistado do Folha no Ar. Ele afirmou: “Respondendo à pergunta mais importante, a água está própria para consumo. A gente vem afirmando isso desde terça (23). Apesar de as notas serem acrescidas de novas informações, com novos laudos, a informação de que a água está própria para consumo, saudável e segura é a mesma desde sempre. As reclamações começaram na segunda e começamos a dosar o carvão ativado, ainda sem nenhuma análise que confirmava a presença de algas, geosmina”, garantiu o diretor da concessionária.

 

Versão da Águas do Paraíba (II)

“Pela questão das queixas, já na segunda a gente começou a dosar. Mas, de fato, na terça (24) aumentou bastante o número de reclamações. A gente atende a 165 mil residências. Se você multiplicar uma média de três pessoas, a gente deve estar falando aí em torno de 400 mil pessoas abastecidas pela água do Paraíba do Sul. As pessoas conseguiram reclamar, abrir suas solicitações, as equipes foram aos locais, fizeram a verificação, coletaram água para análise. Adotamos o mesmo processo de qualidade que é sempre feito nesses casos”, explicou Giuliano Tinoco, falando em nome da Águas do Paraíba, na Folha FM 98,3.

 

Problema recorrente em ano sem chuva

No Folha no Ar de ontem (30), o entrevistado foi João Gomes Siqueira, diretor do Comitê da Bacia Hidrográfica do Baixo Paraíba. Ele alertou: “Uma coisa que precisa se precisa ter em mente é que isso é recorrente. Em anos de chuva, como o ano passado, isso não ocorre. A chuva está diretamente ligada à qualidade da água. Quando estamos como agora, há 60 dias sem chover aqui e em Minas (Gerais), na Bacia do Paraíba do Sul, a qualidade da água cai muito. É importante a população saber que uma coisa é a agua bruta, que passa no rio Paraíba, outra coisa é a água que sai da torneira. No caso da geosmina, é difícil tirar ela no tratamento. É preciso carvão ativado e outras coisas que estão sendo feitas, pela Águas do Paraíba”.

 

Abaixo do mínimo necessário

“Dependemos da natureza. Sem chuva, a vazão do rio diminuiu muito, a cerca de 4,63 metros de cota. Isso equivale a uma vazão de 177 metros cúbicos por segundo. A vazão mínima para o rio sobreviver, não só em qualidade de água, seria de 252 metros cúbicos por segundo. Isso está definido em estudos. Ou seja, estamos com 30% a menos que o mínimo necessário. E o que estamos vendo é isso: o rio está morrendo. E sua água bruta é de péssima qualidade. A Águas do Paraíba faz todos os esforços para tratar, mas como tratar uma coisa naturalmente ruim?”, questionou, na Folha FM, o diretor do Comitê da Bacia Hidrográfica do Baixo Paraíba.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Teste da água do Paraíba pela Uenf no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Professor do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) da Uenf, Carlão Rezende é o convidado do Folha no Ar desta quarta (31). Ele falará sobre os testes que fez (confira aqui, aqui e aqui) na água do rio Paraíba do Sul, após a população se queixar do odor e sabor da água fornecida em Campos.

Carlão também falará do efeito da geosmina (derivado da proliferação de algas) que teria causado o problema, do carvão usado no tratamento da água que ontem teria gerado (confira aqui) uma tonalidade escura no Paraíba e da periodicidade do monitoramento do rio. Por fim, como ex-candidato duas vezes a reitor da Uenf, ele analisará o caso (confira aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) da denúncia anônima de assédio na universidade, bem como sua apuração administrativa e criminal.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.

 

Água do Paraíba ao campista no Folha no Ar desta terça

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Diretor do Comitê da Bacia Hidrográfica do Baixo Paraíba, João Gomes Siqueira é o convidado do Folha no Ar nesta terça (30), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ele falará sobre as queixas da população sobre o odor e o gosto da água (confira aqui e aqui) fornecida em Campos.

João também falará sobre fontes de captação d’água em Campos para além do Paraíba. Por fim analisará a seca do rio com a estiagem e questão local dentro das mudanças climáticas do planeta.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.