O que Datafolha e Ibope revelam das eleições a governador e presidente

 

 

Paes, Romário e Garotinho

Após o Ibope, na segunda (20), ontem (22) foi a vez da Datafolha divulgar suas consultas para governador do Rio e presidente da República. Entre os dois institutos de pesquisa mais conceituados do país, houve muitas similaridades e algumas diferenças. Na disputa ao Palácio Guanabara, a liderança de Romário Faria (Pode), que já não era isolada no Ibope, não existe mais no Datafolha. Na estimulada deste, Eduardo Paes (DEM) teve 18%; Romário, 16%; e Anthony Garotinho (PRP), 12%. O político de Campos só fica em empate técnico na liderança se forçada ao máximo a margem de erro de três pontos percentuais para mais ou menos.

 

Rejeição a governador

No pelotão intermediário a governador, outra diferença entre Ibope e Datafolha. O primeiro instituto colocou Tarcísio Motta (Psol), com 5%, à frente de Indio da Costa (PSD), com 3%. Enquanto o segundo transformou o empate técnico em absoluto: Tarcísio e Indio estariam com os mesmos 3%. Definidoras do primeiro turno, as intenções de voto são sempre limitadas no segundo pela rejeição. E, no índice negativo, o líder isolado nos dois institutos é Garotinho: após bater impressionantes 55% no Ibope, ele registrou 45% no Datafolha. Neste, foi seguido à distância na rejeição a Paes (32%), Romário (23%), Indio (19%) e Tarcísio (10%).

 

Recordar é viver

Entre as duas pesquisas ao Palácio Guanabara, a comparação entre os três líderes no empate técnico indica uma curva descendente de Romário e outra ascendente, de Paes. Garotinho está na briga pelo primeiro turno, mas sua enorme rejeição indica dificuldades no eventual segundo, contra qualquer adversário. É um limitador que ele encara desde 2014, quando chegou a liderar a corrida, mas morreu na praia, ficando fora do turno final entre o governador Luiz Fernando Pezão (MDB) e Marcelo Crivella (PRB). Este hoje apoia o político campista, mas sofre grande desgaste como prefeito do Rio.

 

Voto de Lula

De governador do Rio a presidente do Brasil, Ibope e Datafolha apontam a liderança isolada de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Se, na estimulada do primeiro, ele bateu 37%, subiu ainda mais no segundo: 39%. Preso desde 7 de abril e virtualmente inelegível pela Lei da Ficha Limpa que sancionou quando presidente, é favorecido pela condição de vítima. Nas fatias dos institutos, seu eleitor tem o perfil delineado: é sobretudo feminino, tem 45 anos ou mais, cursou só o fundamental, ganha até dois salários mínimos e se concentra no Nordeste e Norte. Afirmar que o pobre de pouco estudo vota em Lula, além do maniqueísmo, tem critério estatístico.

 

Capitão pró e contra

Sem Lula na disputa, como todos os institutos registram há dois anos, o líder isolado é Jair Bolsonaro (PSL). Ele teve 18% na estimulada do Ibope e 22%, no Datafolha. Salvo o imponderável, como a gravação do presidente Michel Temer (MDB) pelo empresário Joesley Batista, tudo indica que o ex-capitão do Exército estará no segundo turno. Mas uma vez lá, pelas simulações do Datafolha, seria batido por quase todos os principais adversários: 34% a 45% por Marina Silva (Rede), 33% a 38% por Geraldo Alckmin (PSDB) e 35% a 38%, por Ciro Gomes (PDT) — empate técnico na margem de erro de dois pontos para mais ou menos.

 

Voto de Bolsonaro

As projeções ruins no segundo turno têm motivo simples: 39% do eleitorado não votariam em Bolsonaro de jeito nenhum. Líder de rejeição, ele é seguido por Lula (34%), Alckmin (26%), Marina (25%) e Ciro (23%). Embora Fernando Haddad, candidato estepe do PT, tenha rejeição só de 21%, é o único de quem o ex-capitão ganharia no segundo turno: 38% a 29%. O eleitor padrão de Bolsonaro também é descrito pelo Datafolha: masculino, entre 35 e 44 anos, ensino superior, ganha mais de 10 mínimos e se concentra no Sul do país — única região onde supera até Lula, por 28% a 25%. Seu voto majoritário é do homem rico que fez faculdade.

 

Debate na Uenf

Quem esteve ontem em Campos, para participar de um debate da Uenf, foi o deputado federal Wadih Damous (PT). Ex-presidente da OAB-RJ, ele tem também atuado na defesa de Lula. Após a exibição do documentário “O processo”, dirigido por Maria Augusta Nunes, Damous participou de um debate na sala de cinema da universidade, com o jornalista Marcel Silvano e a professora Luciane Soares, presidente da Aduenf. Lançado em 2018, o filme narra o processo de instabilidade política do país iniciado em 2013, culminando no processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), concluído em 2016.

 

Publicado hoje (23) na Folha da Manhã

 

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Guilherme Boulos abre nesta quinta a série de entrevistas da Folha

 

Guilherme Boulos, candidato a presidente pelo Psol (Foto: reprodução de Facebook)

 

“Vamos aquecer a economia local e recuperar empregos perdidos, reativando os setores de petróleo e gás, com a reestatização da Petrobras, e também de infraestrutura, com o programa ’Levanta Brasil’. Paralelamente, vamos apoiar com uma linha especial de crédito do BNDES micro, pequenas e médias empresas, além de produtores rurais locais.”

Foi o que o candidato a presidente Guilherme Boulos (Psol) prometeu fazer por Campos, Norte e Noroeste Fluminense, se eleito ao Palácio do Planalto. A entrevista exclusiva com o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) será publicada nesta quinta (23). E será a primeira da série que a Folha da Manhã fará com os candidatos a presidente da República e governador do Rio.

As datas das publicações foram sorteadas (aqui) na sede da Folha, com presença dos representantes locais das candidaturas. Todos foram convidados. A última tem públicação prevista para 30 de setembro, no domingo anterior às urnas de 7 de outubro.

Conheça a ordem das entrevistas definidas em sorteio:

 

 

Leia a íntegra da entrevista de Guilherme Boulos na edição desta quinta (23) na Folha da Manhã

 

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Gustavo Alejandro Oviedo — A catimba intelectual

 

Nazista 1: – O senhor também estudou Direito. Como o aplica?

Nazista 2: – Me serve para desconfiar das palavras. Uma pistola nunca é mal interpretada.

Diálogo do Filme ‘Conspiração’, de Frank Pierson.

 

 

Por 3 votos a 2, a segunda turma do STF decidiu ontem que José Dirceu pode aguardar em liberdade o julgamento do seu recurso especial perante o Superior Tribunal de Justiça. Dirceu foi condenado pelo TRF-4 a mais de 30 anos de prisão, por lavagem de dinheiro, organização criminosa e corrupção passiva, e esse tribunal tinha determinado o cumprimento imediato da pena, conforme permissão do Supremo Tribunal  Federal.

Os ministros Toffoli, Mendes e Lewandoski — a maioria da 2ª turma — entenderam que havia ‘plausibilidade jurídica’ de que a condenação fosse revisada no Tribunal Superior, e por isso revogaram a prisão provisória, confirmando o Habeas Corpus que Toffoli tinha concedido de ofício, isto é, por própria iniciativa, sem provocação da defesa de Dirceu.

Para o leigo, tudo isto pode parecer complicado de entender. Se esse é seu caso, fique tranquilo: para quem conhece de Direito, também é confuso.

Na prática, quase todo recurso mais ou menos bem fundamentado tem ‘plausibilidade jurídica’ de ser concedido. Como também tem plausibilidade de ser negado. Para definir isso é que existe o julgamento dele, que neste caso cabe ao STJ. Quando o trio de ministros garantistas do STF diz que ‘há plausibilidade’ está fazendo um prejulgamento que não lhe compete. Estão nos lembrando, em palavras simples, ‘não gostamos da prisão a partir da segunda instância’. Essa opinião já era conhecida, pois eles, junto com o ministro Marco Aurélio, foram muito eloquentes na ocasião em que o plenário do Supremo discutiu o assunto. Mas perderam.

Afinal, se é possível adiantar a pena, ainda havendo possibilidade de recurso aos tribunais especiais, é lógico que sempre existirá a chance, por pequena que for, de modificar a condenação. No entanto se, raciocinando como os ministros fazem, a pena não deve ser cumprida porque poderia haver eventual modificação, logo não é possível adiantar nunca a pena — contrariando justamente o que a maioria do Supremo tinha permitido.

Não há necessidade de notório saber jurídico para compreender que se trata de uma artimanha lógica, onde a vontade se antepõe ao Direito. Ou seja, onde o parecer jurídico de um ministro se amolda a uma preferência prévia. É o famoso ‘salto triplo carpado hermenêutico’, expressão do ex ministro Ayres Britto.

Aparentemente, o ser humano, por razões diversas, primeiro gosta ou desgosta (de uma coisa, uma pessoa, ou atitude) e só depois tenta criar uma estrutura lógica que se ajuste a esse gosto/desgosto. Muitas vezes essa justificativa posterior não é suficiente para sustentar o que sentimos, e podemos ser facilmente refutados. No entanto, dado que somos teimosos, seguimos em frente: complicamos o raciocínio, trocamos inteligência por astúcia e dizemos “não é tão assim, é mais complexo, etc”. É uma espécie de catimba intelectual.

Quando a catimba intelectual é utilizada por aqueles que deveriam se ajustar ao Direito, estamos em problemas. Isso pode, Arnaldo?

 

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Cenário da eleição a presidente e governador a 47 dias das urnas

 

 

 

Após debates, pesquisas

Após dois debates entre os candidatos a presidente e um a governador, o clima de campanha esquentou de vez com a divulgação de três pesquisas ontem. Também foram duas ao Palácio do Planalto e uma ao Guanabara. Na primeira disputa, as consultas CNT/MDA e Ibope colocaram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) bem à frente dos demais. Mas preso desde 7 de abril e virtualmente inelegível pela Lei da Ficha Limpa, Lula teve grande diferença na capacidade de transferência de votos pelos dois institutos. A governador, o Ibope apontou um empate técnico entre Romário (Pode), Eduardo Paes (DEM) e Anthony Garotinho (PRP).

 

Igual e (bem) diferente

Com Lula como opção, os números CNT/MDA e Ibope foram muito parecidos. O líder petista liderou nos dois, respectivamente, com 37,3% e 37%; seguido de Jair Bolsonaro (PSL), 18,3% e 18%; Marina Silva (Rede), 5,6% e 6%; Geraldo Alckmin (PSDB), 4,9% e 5%; Ciro Gomes (PDT), 4,1% e 5%; e Álvaro Dias (Pode), 2,7% e 3%. Mas a consulta que a realidade projeta é sem Lula. E nela a diferença foi abissal entre os dois institutos. Enquanto, para o CNT/MDA, o ex-presidente transfere 17,35% de intenções de voto ao seu substituto Fernando Haddad (PT), este não passou dos 4% no Ibope.

 

47 dias (I)

Assim, os petistas que no almoço comemoraram o desempenho de Haddad no CNT/MDA, tomaram uma ducha de água fria no jantar, quando o Ibope revelou seus números. Sem Lula, Bolsonaro segue líder, com 20%, acompanhado de Marina, 12%; Ciro, 9%; e Alckmin, 7%. Atrás do tucano, Haddad (4%) só ficou à frente de Álvaro Dias (3%). Além de Eymael (DC), Henrique Meirelles (MDB), João Amoêdo (Novo), Cabo Daciolo (Patri), Vera (PSTU) e João Goulart Filho (PPL), todos com 1%. A diferença se deu porque o CNT/MDA colocou Haddad como “candidato de Lula”. Ligação mais difícil de ser feita a cada dia, nos 47 que ainda separam eleitor e urna.

 

47 dias (II)

Enquanto o PT finge que Lula será candidato, a maior herdeira dos seus votos é uma ex-petista. Sem o ex-presidente, de quem foi ministra, Marina pula de 6% a 12%. Seu quinhão de seis pontos percentuais do eleitorado lulista supera os 4 que ganham Haddad e Ciro, ou dos 2 que sobram até para Alckmin e Bolsonaro. Na margem de erro de dois pontos para mais ou menos do Ibope, que ouviu 2.002 pessoas de 17 a 19 de agosto, Marina teve empate técnico em segundo com Ciro. Mas o fato é que Bolsonaro e ela só ficam atrás de Lula nas pesquisas. Não apenas ontem, mas há dois anos. Os demais têm 47 dias para mudar o jogo.

 

Líderes no RJ

A disputa também é acirrada ao governo do Rio. Divulgada ontem, a pesquisa Ibope ouviu 1.204 eleitores, entre 17 e 20 de agosto. Em empate técnico, na margem de erro de três pontos para mais ou menos, lideram Romário Faria (Pode), com 14%; Eduardo Paes (DEM) e Anthony Garotinho (PRP), ambos com 12%. Além da queda de Romário, que liderava a com folga, surpreendeu o crescimento de Tarcísio Motta (Psol), com 5%, superando Indio da Costa (PSD), com 3%. Mesmo no empate técnico, parece reflexo do debate da Band, no dia 16, onde Tarcísio teve bom desempenho, enquanto Indio fez escada para Garotinho bater em Paes.

 

Todos juntos…

A inelegibilidade de Lula parece certa. E a possibilidade de outra assombra um dos principais concorrentes ao Palácio Guanabara. Ontem, o Ministério Público Eleitoral (MPE) pediu a impugnação de Garotinho, baseado em sua condenação em segunda instância pelo desvio de R$ 234,4 milhões da Saúde em 2005 e 2006, quando era secretário do governo Rosinha. Isso depois dele ter afirmado no debate da Band, em tabela com o ex-juiz federal e também candidato Wilson Witzel (PSC), que estavam para sair os mandados de prisão advindos da delação de Alexandre Pinto, ex-secretário de Obras de Paes na Prefeitura do Rio.

 

…E misturados

Numa disputa entre os líderes da corrida ao governo do Rio, um dia depois do debate da Band, na sexta (17) foi divulgado que Romário teve um Porsche apreendido em sua casa, para pagamento de dívidas. O ex-craque alegou que o veículo avaliado em R$ 350 mil era da sua irmã e ele apenas “usava emprestado”. Por sua vez, Garotinho se defendeu do pedido de inelegibilidade do MPE: “Criaram a figura do enriquecimento ilícito de terceiros. A Lei da Ficha Limpa diz que tem que ter enriquecimento ilícito do agente público. Até agradeço ao MPE por ter reconhecido minha honestidade, já que não houve enriquecimento ilícito meu”.

 

Publicado hoje (21) na Folha da Manhã

 

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Alexandre Buchaul — Um fato, duas versões

 

 

Somos bombardeados por tantas informações vindas de nossos sentidos que o cérebro precisa filtrar aquilo que considera mais importante a fim de evitar uma pane. Seríamos sobrecarregados e impossibilitados de racionalizar não fosse por isso. Os filtros estabelecidos pelo cérebro com base em experiências passadas, expectativas e desejos eliminam tudo o que não importa muito a nós.

Um exemplo disso é quando desejamos comprar um determinado modelo de carro e como num passe de mágica, eles se multiplicam pelas ruas e passam a ser vistos a todo o momento. Outro exemplo se dá quando dois indivíduos narram uma cena e, ao ouvinte, parecem se tratar de cenas completamente diferentes.

Após o debate dos presidenciáveis na Rede TV na última sexta-feira, 17 de agosto, Bolsonaro e Marina protagonizaram o diálogo mais repercutido nas redes, ao menos para os meus filtros, e, não estranhamente, seus admiradores parecem ter assistido a dois filmes diferentes. Para os bolsonáticos foi um massacre ter enquadrado Marina como evangélica de araque por cogitar plebiscito para questões como aborto e legalização de drogas. Para os marináticos o enquadramento foi inverso, ao Marina ter retrucado, citando Provérbios e dizendo ser o Estado laico e que Bolsonaro ensinaria as pessoas a ganhar no grito e ainda teria “corrompido” uma criança ao ensiná-la a fazer  gesto com a mão imitando uma arma.

O episódio nos revela que debates talvez não sejam mais que inúteis, que são incapazes de persuadir o eleitor a mudar de opinião e que, talvez, não sirvam a mais que fazer decisões já tomadas serem ainda mais consolidadas e a polarização se tornar ainda mais forte. Mas… isso pode ser apenas o meu filtro.

 

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Artigo do domingo — Vitória da moral sobre o moralismo

 

“Instrui o menino no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não se desviará dele”

(Provérbios de Salomão, 22:6)

 

 

Muito se tem discutido sobre a imposição da pauta politicamente correta no Brasil. Independente da opinião pessoal que se tenha sobre cotas raciais, feminismo e questões de gênero, inegável que a reação do cidadão médio a esses temas é uma das principais causas ao avanço do conservadorismo no país. E ninguém soube surfar essa onda melhor do que o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL). Não por outro motivo, a exatos 50 dias das urnas, ele hoje detém razoável folga na liderança de todas as pesquisas ao Palácio do Planalto sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Embora as mesmas pesquisas também indiquem que Bolsonaro bateu seu teto de intenções de voto, com cerca de 20% delas, ele caminha a passos largos para tentar garantir uma das duas vagas ao segundo turno. Numa eleição pulverizada, com quatro ou cinco candidaturas competitivas, é provável que um presidenciável com 20% dos votos em 7 de outubro esteja novamente como opção ao eleitor nas urnas do dia 28 do mesmo mês. Se candidatos como Geraldo Alckmin (PSDB), João Amôedo (Novo) e Henrique Meirelles (MDB) não avançarem juntos pelo menos 10 pontos percentuais no numeroso voto conservador e antipetista, tudo indica que seu candidato final será o ex-capitão do Exército.

Para entender o que acontece agora, necessário recuar um pouco no tempo. Em 2011, junto com a bancada evangélica, Bolsonaro liderou a reação contra o projeto “Escola sem Homofobia”. Pejorativamente chamado de “kit gay”, pretendia levar a discussão, exemplificada em material didático, às salas de aula de crianças e adolescentes em todo o país. Curiosamente, quem estava à época no comando do ministério da Educação era Fernando Haddad, hoje candidato a presidente estepe do PT. E o capitão foi vencedor daquela contenda, depois que o estreante governo Dilma Rousseff (PT) desistiu de distribuir o material. Com o apoio, inclusive, de mães e pais progressistas que se acharam no devido direito de restringir aos seus lares esse tipo de debate com seus filhos.

A visão crítica do atrelamento do “politicamente correto” às esquerdas do Brasil, e do mundo, não é exclusividade da direita. Ministro dos governos Lula e Dilma, aos quais serviu como principal elo entre PT e PCdoB, Aldo Rebelo hoje está no Solidariedade. Em entrevista à BBC Brasil, em maio deste ano, ele admitiu:

— Entrei no PCdoB em busca da realização de ideias que julgava importantes na minha juventude, quando o nacionalismo era muito forte. Queria lutar por um país mais equilibrado e justo. Mas os tempos e as agendas mudaram. A questão nacional passou a ter peso pequeno na agenda das esquerdas. As agendas identitárias e o multiculturalismo passaram ter muito mais importância. Isso me levou a um afastamento dessa esquerda moderna, do politicamente correto.

O que isso significa foi bem contrastado em duas noites/madrugadas recentes. De quinta (16) para sexta (17), se deu o primeiro debate entre os candidatos a governador do Rio. Promovido pela Band, nele a petista Márcia Tiburi evidenciou como um partido que até recentemente foi o maior do cenário político nacional, hoje se reduziu a um palanque de defesa de Lula — naquilo que o presidenciável Ciro Gomes (PDT) batizou de “viagem lisérgica”. Como descrito na coluna “Ponto Final”, em sua edição ontem (18):

— Professora de filosofia, Tiburi tem boa articulação verbal, mas se revelou militante travestida de candidata. Não por usar camisa e colar com as imagens do ex-presidente Lula, mas pelo caráter meramente panfletário das suas intervenções. No último bloco resumiu as perspectivas reais da sua candidatura: “Lula vai vencer e eu também”. Depois, concluiu com sua proposta: “fazer um Rio de Janeiro feliz para as pessoas”. A petista lembrou ser a única mulher entre os candidatos. E ressalvou não haver entre eles nenhum negro. Romário reivindicou a cota e disse que o negro ali era ele. Pelo que ambos mostraram no debate, as condições para governar o Estado não dependem de gênero ou raça.

Hasteado como bandeira pelos dois candidatos a governador do Rio mais fracos do debate, o politicamente correto teve o auxílio do Rei Salomão para que Bolsonaro recebesse sua primeira enquadrada num debate presidencial. Coincidência ou não, a tarefa coube a uma mulher negra, Marina Silva (Rede), no evento da Rede TV entre sexta e sábado (18).

Talvez preocupado com a candidata que todas as pesquisas sem Lula apontam estar em segundo lugar na corrida, e projetam ser a mais difícil de ser batida num eventual segundo turno, o ex-capitão leu uma cola na palma da mão esquerda para escolher a ambientalista, chamá-la ao centro do palco e, em pé diante dela, perguntar:

— (…) Armamento, eu sou favorável que o cidadão de bem tenha posse de arma de fogo. A senhora concorda com isso ou não?

— Não. Antes que queria te dizer uma coisa, Bolsonaro. Você disse que a questão dos salários menores para as mulheres é uma coisa que a gente não precisa se preocupar porque já está na CLT. Só uma pessoa que não sabe o que significa uma mulher ganhar um salário menor do que um homem e ter as mesmas capacidades, a mesma competência (…) Porque quando se é presidente da República, a gente tem que fazer cumprir o artigo 5º da Constituição, que diz nenhuma mulher deve ser descriminada. Não fazer vista grossa (…) Tem que se preocupar, sim. Um presidente da República está lá para combater injustiça.

Visivelmente constrangido pelo “sermão” de Marina, que recebeu evitando encará-la, enquanto aparentemente buscava com os olhos a orientação de um assessor fora do plano da câmera, Bolsonaro foi ao ataque na réplica. E, finalmente olhando para a adversária, disse:

— Temos aqui uma evangélica que defende um plebiscito para aborto e para maconha. E quer agora defender a mulher. Você não sabe o que é uma mulher, Marina, ter um filho jogado no mundo das drogas. (…) Eu defendo a mulher. Inclusive defendo a castração química para estupradores. (…) No tocante a arma de fogo, eu defendo, sim, que a mulher inclusive, caso queira, a mulher de bem, a mulher preparada, que tenha a posse de uma arma de fogo dentro de casa para se defender, se assim ela o desejar.

— Você acha que pode resolver tudo no grito, na violência. Nós somos mais. (…) A coisa que uma mãe mais quer é ver seu filho ser educado para ser um cidadão de bem. Você fica ensinando aos nossos jovens que tem que resolver as coisas na base do grito, Bolsonaro. Você é um deputado, você é pai de família. Você um dia desses pegou uma mãozinha de uma criança e ensinou como é que se faz para atirar. Você sabe o que a Bíblia diz sobre ensinar uma criança? “Ensina a criança no caminho em que deve andar. E até quando for grande, não se desviará do caminho”. (…) E, numa democracia, o Estado é laico.

Dificilmente definirá a eleição, mas essa vitória da moral sobre o moralismo foi o melhor momento do debate. E lavou a alma de muitas mães e filhos Brasil afora.

 

 

Publicado hoje (18) na Folha da Manhã

 

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Hamilton Garcia — Em busca do desenvolvimentismo perdido

 

 

Se é verdade, como vimos no artigo anterior, que a social-democracia fracassou em seu intuito original de reformar a sociedade capitalista em sentido socialista — onde os arranjos produtivos fossem diversificados e institucionalizados sob a direção de novas forças sociais, quer sob a forma estatal de uma tecnocracia socialmente orientada, quer sob a forma pública de uma tecnoestrutura[i] produtiva autogerida, no nível mais alto da produtividade social —, é certo que ela alcançou um nível de democratização social inédito, no velho continente, por meio do direcionamento direto das políticas públicas em prol das necessidades sociais e não indireto por meio do mercado (lucro) como no passado.

Quem costuma minimizar a importância desse construto ecumênico entre liberais e socialistas, deveria olhar para a reação dos liberais dissidentes da nova ordem, como Joseph Schumpeter (1883-1950), e suas críticas à “Marcha para o Socialismo” na Europa, onde os assuntos econômicos emigravam “da esfera privada para a esfera pública” sob a égide de “uma vasta máquina burocrática administrando os processos (…) produtivo e distributivo” em nome de “órgãos democráticos como os que hoje conhecemos (…), escolhidos pelo voto” no seio do Estado[ii].

É nesta tradição regulacionista — hoje majoritariamente rechaçada pelos liberais ocidentais por sua necessária proteção cambial e de capitais — que podemos ancorar a possibilidade de um programa mínimo da esquerda, buscando a retomada do desenvolvimento econômico em proveito da estabilidade democrática e social.

Embora “mínimo”, tal programa, sobretudo em países da periferia capitalista, como o Brasil, está longe de ser mido ou menor, visto que em nossa história republicana tal desiderato se viu em divórcio persistente na realidade, tanto sob os governos populistas (era Vargas), como dos nacionalistas de direita (período militar), para não falarmos no recente fracasso/desastre do período lulo-petista — onde o divórcio, eludido pela exuberância do comércio internacional, de um lado, e pela capilaridade da venalidade política, de outro, mostrou-se em sua inteireza na pior recessão da nossa história.

É certo também que, para tal, precisaremos forjar um novo ecumenismo liberal-progressista em torno da nossa própria tradição regulatória (ou da superação dela), o nacional-desenvolvimentismo, cujo esgotamento não pode ser confundido com impertinência ou fracasso. Ao contrário da social-democracia, cuja origem está numa proposta radical de transformação social, o nacional-desenvolvimentismo — não obstante ter obtido a adesão comunista na Declaração de Março de 1958 — sempre foi um projeto de liberal-democrático de consolidação da “revolução burguesa”, que entre nós tangenciou a democracia política e evitou o quanto pode a social.

A dificuldade não está só no fato de que, também aqui, o apoio liberal ao desenvolvimentismo parece ter refluído depois da crise do regime militar, mas também no fato de que a esquerda latino-americana acabou tragada pelo regressismo engendrado pelo apoio acrítico à prometida e malograda transformação socialista da ilha cubana (1959) — da qual o bolivarianismo é o filho dileto —, onde a perspectiva da distribuição/equalização suplantou largamente a da produção engendrando uma estagnação que só agora, quase 60 anos depois, com a morte de Fidel Castro, parece ser admitida e, finalmente, enfrentada pela elite comunista.

Embora os herdeiros do guevarismo entre nós tenham abraçado tardiamente o nacional-desenvolvimentismo, o fizeram sem levar em conta os percalços e equívocos do populismo — do qual o nacional-desenvolvimento foi, de certa forma, refém ao longo dos anos 1950-60 —, que, ao longo da história, desperdiçou as conquistas teóricas dos pensadores nacionalistas, consolidada nos debates regionais no âmbito da CEPAL, e esterilizadas em posturas político-eleitorais inconsequentes, como a majoração de 100% do salário mínimo, em 1954, o ataque ao Plano Trienal, em 1963, e a própria radicalização (“reformas na lei ou na marra!”), em 1964, que fez a hora para a direita conservadora.

A inapetência da velha esquerda (PTB nacionalista e PCB) em elaborar programas de governo efetivos, portanto, capazes de sustentar alianças políticas e econômicas sustentáveis, à moda do reformismo europeu, não medrou entre nós mesmo com as importantes mudanças produzidas pelo aparecimento do PT no campo progressista.

Isto pode ser explicado por variados motivos, dentre eles: o desinteresse da jovem militância no debate teórico o significado das mudanças, a persistência de segmentos populares e sindicais com elevado déficit de escolaridade e sem intimidade com a linguagem literária, a renovada influência doutrinária religiosa tendente ao milenarismo, e a prioridade das elites dirigentes petistas em amalgamar correntes ideológicas e estratos sociais muito distintos — como o trotskismo e a socialdemocracia dos intelectuais, o stalinismo e o maoísmo dos quadros organizadores, e o socialismo cristão popular das CEBs e o ambientalismo da classe média verde, entre outras denominações e segmentos sociais —, ao mesmo tempo em que perseguia a conquista do poder de Estado nos velhos moldes exclusivistas do bolchevismo, embora sem revolução à vista; tudo isso afastando o PT da solução positiva da tradição programática derrotada em 1964 e antropofagicamente resgatada pelo nacionalismo de direita.

Antes de discutir, num próximo artigo, a prometeica perspectiva atualizadora do Prof. Bresser Pereira (novo desenvolvimentismo), que no PSDB, outrora, não encontrou eco, é necessário sublinhar a oportunidade perdida pelo PT, em 1989, quando se tornou o partido líder da esquerda brasileira, desbancando o nacionalismo de Leonel Brizola (PDT), sem colocar de pé a alternativa programática (reformista-democrática) que seus antecessores não foram capazes de equacionar, em termos políticos, entre 1961-1964, não obstante os alertas e esforços de San Thiago Dantas, Celso Furtado, Armênio Guedes e Marco Antônio Coelho, dentre outros — os dois últimos na semilegalidade.

O PT “resolveu” o impasse programático de 1989 elaborando uma narrativa abstrata de mudanças que, de um lado, não ofendesse a percepção anticapitalista da maioria de seus dirigentes e militantes, e, de outro, não assustasse a sociedade, as instituições republicanas e os potenciais aliados liberais-moderados, ao mesmo tempo que permitia aos dirigentes ampla margem de arbitragem em um eventual governo. Uma “solução” que manteve o partido unido e em rota de ascensão, mas o impediu de não só conquistar o governo na ocasião, como de poder exercê-lo depois da Carta aos Brasileiros (2002), quando Lula se comprometeu a seguir as linhas mestras do Plano Real tucano, numa perspectiva mais inclusiva, corrigindo apenas em parte o problema das bases materiais da inclusão sustentável — como se pode ver pela radicalização fiscal-populista do período Dilma.

 

[i] Para a discussão do papel da tecnoestrutura na moderna produção industrial, ver John Kenneth Galbraith, O Novo Estado Industrial, ed. Abril Cultural/SP, 1982.

[ii] Capitalismo, Socialismo e Democracia, ed. FC&Ordem Livre, 1961, p. 475.

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Destaques negativos e positivos no primeiro debate a governador do Rio

 

Final do primeiro debate entre os candidatos a governador do Rio, encerrado na madrugada de hoje

 

Acabou nesta madrugada o primeiro debate entre os candidatos a governador, promovido pela Band. E o desempenho dois oito presentes não foi exatamente o mesmo das intenções de voto reveladas no dia anterior. Pela sondagem estimulada do instituto Real Time Big Data, Romário (Pode) tem 25%; Eduardo Paes (DEM), 19%; Anthony Garotinho (PRP), 14%; Indio da Costa (PSD), 6%; Tarcísio Motta (Psol), 3%; Márcia Tiburi (PT), 3%, Pedro Fernandes (PDT), 3%; e Wilson Witzel (PSC), 1%. Líder na pesquisa, Romário foi pouco atacado no debate. Ainda assim, o ex-craque se juntou à petista Tiburi na disputa pelo desempenho mais fraco na Band.

Romário teve dificuldades em articular quase todas suas respostas. E mais ainda quando teve que perguntar. Quando instado a falar das finanças falimentares do Estado, demonstrou ignorar economia ainda mais que o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL). Seu incômodo e nervosismo foram fisicamente denunciados durante todo o debate, na quantidade de vezes em que teve usar a língua para molhar os lábios. Com a boca seca, o “Peixe” estava claramente fora d’água.

Professora de filosofia, Tiburi tem boa articulação verbal, mas se revelou militante travestida de candidata. Não por estar usando uma camisa e um colar com as imagens do ex-presidente Lula, mas pelo caráter meramente panfletário das suas intervenções. No último bloco resumiu as perspectivas reais da sua candidatura: “Muitos candidatos aqui falam em prender e arrebentar e daqui a pouco acabam eles presos (…) Lula vai vencer e eu também”. Depois, concluiu com sua proposta de governo: “fazer um Rio de Janeiro feliz para as pessoas”.

Tiburi lembrou ser a única mulher entre os candidatos. Mas ressalvou que entre eles não havia nenhum negro. Romário reivindicou a cota e disse que o negro ali era ele. Pelo que ambos mostraram, as condições para governar o Estado não dependem de gênero ou raça.

Se não restou dúvida dos piores desempenhos da noite/madrugada, é difícil falar em melhores. Certamente, Tarcísio, Garotinho e Indio mostraram traquejo adquirido com experiência. Que também não falta a Paes, mas ele foi a Geni do debate, por conta da ligação com o ex-governador Sérgio Cabral. Se já era de se esperar, o que surpreendeu foi a dobradinha entre Garotinho e Indio para bater no ex-prefeito carioca. Sobretudo porque, em entrevista à Folha da Manhã publicada (aqui) em 6 de agosto de 2016, repercutida na mídia carioca (aqui e aqui), Indio declarou: “a política de Garotinho é manter o pobre na pobreza”.

Na primeira oportunidade que teve no debate, Índio rolou a bola com açúcar e afeto a Garotinho, ao lhe perguntar como Clarissa tinha encontrado a Prefeitura do Rio herdada de Paes, na condição de secretária de Marcelo Crivella (PRB). O político de Campos bateu com tanta força que gerou direito de resposta. Nele, o candidato do DEM disse que Garotinho havia levado até Rosinha à cadeia, “numa das três ou quatro vezes que foi preso”. Em seu direito resposta, o ex-governador alegou que sua esposa foi desrespeitada por Paes, porque este convive com agressor de mulher, em referência ao deputado federal Pedro Paulo (DEM).

Em nível bem mais elevado, se mostrou Tarcísio. Ao ser perguntado por Pedro Fernandes sobre o destino dos palácios do governador, o candidato do Psol primeiro se solidarizou com o adversário, cujo pai desapareceu recentemente num acidente de aviação. Tarcísio foi quem melhor atingiu em Garotinho, dizendo e dando exemplos de como este, quando governador, não foi diferente de Cabral. Mas, pelo bom papel que fez como candidato a governador em 2014, seu desempenho no primeiro debate de 2018 não surpreendeu.

As novidades positivas ficaram por conta de Fernandes e Wilson Witzel. O pedetista demonstrou sinceridade ao propor austeridade e exemplifica-la nos benefícios de que abriu mão como deputado estadual. Por sua vez, com a carreira de juiz federal que abandonou para ser candidato, Witzel mostrou embasamento e, sobretudo, firmeza em suas propostas contra a corrupção. Pareceu estar falando bastante sério quando as assumiu como tentativa de estender a experiência da Lava Jato ao governo do Estado do Rio.

Com 2% de intenções de voto na pesquisa, Marcelo Trindade (Novo) não participou do debate porque seu partido não ocupa o mínimo de cadeiras no Congresso Nacional.

 

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Guilherme Carvalhal — A âncora

 

 

Durante minha infância, meus pais me levavam ao cais para apreciar a velha âncora. Tiraram-na de um antiquíssimo galeão português naufragado séculos atrás e ali a deixaram como um objeto de interesse turístico.

Chamava a atenção que, após tantos anos imersa na água salgada e agora tomando os ventos da maresia, a mesma apresentava escassas marcas de oxidação. Ganhou um caráter não apenas de estabilidade, mas também de jovialidade, como se infundisse em quem a tocasse a sensação de vida eterna.

Para as crianças, a âncora proporcionava imensa diversão. Corríamos em volta dela, pulávamos, dançávamos. Deixávamos um dízimo ali, contribuindo com alegria e recebendo em troca a promessa de prosperidade e equilíbrio.

Os anos passaram e as visitas à âncora, apesar de existentes, se tornaram mais e mais espaçadas. A correria do dia a dia impedia uma viagem à área litorânea onde me criei e a vegetação de restinga e os pés cravados na areia se convertiam mais em objetos da memória. Ainda assim, nas ocasiões de presença, eu constatava como a âncora permanecia imperturbável no remanso onde sempre repousava.

O tempo passou e a velhice vagarosamente me consumiu. O vigor se foi, os cabelos caíram, a pele murchou. O médico deu o diagnóstico, câncer de próstata. Poucos meses de vida me restaram. Portanto, fiz meus netos me levarem até a âncora para eu me despedir.

Empurraram-me pela calçada de cadeira de rodas e me pegaram no colo para atravessar a areia. Lá chegando, diversas outras pessoas de minha idade rodeavam a âncora. Eu me recordava delas: as crianças com quem eu brincava nesse mesmo local.

Atraídos por igual força, fomos render as últimas homenagens. Nossas vidas iriam, ela permaneceria. Novas crianças retornariam e brincariam e deixariam a seiva vital drenada pelas dobras metálicas. Então só depois de muitos anos se dariam conta de que a eternidade da âncora se devia à ruína e decadência de homens e mulheres.

 

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“Rainha de nossas almas” — A vida e o legado de Aretha Franklin

 

Para a Rolling Stone, o maior cantor de todos os tempos

Morreu hoje a cantora Aretha Franklin, em Detroit, cercada de familiares e amigos. Aos 76 anos, a “Rainha do Soul” foi vítima de um câncer no pâncreas, contra o qual lutava há oito anos. Para quem talvez não tenha a dimensão do que essa grande mulher tenha sido, fica sua definição pelo jornalista David Remick, biógrafo de ícones negros dos EUA (e do mundo), como o pugilista Muhammad Ali (1942/2016) e o ex-presidente Barack Obama: “Aretha foi a maior cantora da música popular do pós-guerra”. Bíblia do rock e da cultura pop, a revista Rolling Stone a ecoou uma oitava acima, incluindo do gênero: “maior cantor de todos os tempos”.

Como tantas outras crianças e adolescentes da década de 80 do século passado, conheci Aretha por sua pequena, mas solar participação no clássico do cinema “Os Irmãos Cara de Pau” (“The Blues Brothers”, 1980). O filme era dirigido por John Landis, que dois anos depois assinaria também a direção do clipe “Thriller”, de Michael Jackson (1958/2009), divisor das águas da música popular do mundo em antes e depois.

No filme, a cantora interpreta a senhora Murphy, que administra uma lanchonete com o marido (o tecladista Murphy Dunne). Ele é convocado para recompor a banda itinerante dos irmãos Jake e Elwood Blues, interpretados pelos comediantes Jonh Belushi (1949/82) e Dan Aykroyd. Antes de perdê-lo novamente para a música e a vida da estrada, Aretha convoca o marido à reflexão e canta uma composição própria: “Think” (“pense”).

 

 

Desde aquelas reprises do primeiro filme na “Sessão da Tarde” da Globo, nunca mais deu para deixar de pensar em Aretha e sua poderosa voz. Talvez tenha sido, depois de Ella Fitzgerald (1917/96), a cantora de maiores recursos vocais na história da música popular. A mezzo-soprano era capaz de alcançar os agudos mais rarefeitos, aterrissando com segurança nos registros mais graves, sem nunca perder o vibrato sedutor de grande diva da música negra. Quando aquela mulher abria a boca, libertava uma força da natureza.

As origens da voz de Aretha confluíam com sua própria vida. Filha do pastor batista itinerante Clarence LaVaughn Franklin, ela nasceu em Memphis, no delta do rio Mississipi, manjedoura do blues. Ainda bebê se mudou para Buffalo, Nova York, antes de fixar residência em Detroit. Cidade da indústria automobilística dos EUA, concentrava grande população negra, que trabalhava na construção dos veículos que revolucionaram o mundo no séc. XX.

Ainda aos 10 anos, Aretha começou cantando no coral dos cultos do pai, no chamado e resposta do protestantismo cristão impressos nos versos de Walt Whitman (1819/92), capazes de converter no arrepio da pele de qualquer ateu. Ainda criança, passou a ser conhecida como “A Voz de Um Milhão de Dólares”.

C.L. Vaughn era amigo de outro ativo pastor batista, um tal de Martin Luther King (1929/68). E junto dele, pai e filha ingressaram na militância pacifista pelos direitos civis dos negros nos EUA. Por conta disso, cresceu e foi influenciada desde cedo pelos grandes nomes da música negra que frequentavam a sua casa, como a diva do jazz Dinah Washington (1924/63), a “Rainha do Gospel” Mahalia Jackson (1911/72) e os mestres do soul Sam Cooke (1931/64) e Jackie Wilson (1934/84).

 

Aretha Fraklin e Martin Luther King

 

Com o apoio do pai, Aretha gravou o primeiro disco aos 14 anos, em 1954: “Songs of Faith”. Foi na mesma época em que teve o primeiro dos quatro filhos. Depois, se mudou a Nova York e migrou da música gospel à secular. Passou sua vida por quatro gravadoras: a Columbia, a Atlantic, a Arista e a DMI.

Na primeira, ficou entre 1961 e 1966, quando conquistou a crítica nas mãos do lendário produtor John Hammond (1910/87), que enxergava na cantora a nova Billie Holiday (1915/59), insistindo no repertório de jazz e blues. Nele, emplacou sucessos como “Today I Sing The Blues”, “Won’t Be Long”, “Cry Like a Baby”, “Sweet Bitter Love” e “Rock-a-bye Your Baby with a Dixie Melody”.

 

 

Foi nesse período que Aretha cantou junto de Mahalia para arrecadar fundos à Grande Marcha a Washington, em 28 de agosto de 1963. Ao seu final, diante de 250 mil pessoas reunidas na capital dos EUA para orar e cantar por liberdade, trabalho, justiça social e fim da segregação racial, Luther King faria diante do monumento a Washington seu mais célebre discurso: “I have a dream!” (“Eu tenho um sonho!”).

 

Martin Luther King e as 250 mil pessoas reunidas pelo fim da segregação racial,  diante do monumento de Washington

 

Cinco anos depois, Aretha cantaria “Precious Lord, Take Me Hand” no velório do grande líder negro, morto a tiros por um supremacista branco na mesma Memphis em que ela nasceu. Em tempos mais felizes, também adornou com sua voz as posses de três presidentes dos EUA, dois brancos e um negro, todos democratas: Jimmy Carter, Bill Clinton e Barack Obama. Hoje, até o republicano Donald Trump lamentou publicamente sua morte.

 

 

 

Mas foi na Atlantic, onde ficou de 1967 a 1970, mergulhando fundo no rythm and blues, no soul e na música pop, que a cantora se tornou um grande sucesso popular. Logo na estreia dessa nova fase, ela gravou “Respect” (“Respeito”). Apesar de composta por um homem, Otis Redding (1941/67), a canção se tornaria quase uma assinatura da sua maior intérprete, além de hino do feminismo e da luta pelos direitos civis mundo afora. Tempos depois, ela definiria a música: “Um hino da mulher, um grito de guerra, um mantra. Todos nós queremos respeito”.

 

 

Em julho de 1968, a primeira negra na capa da revista Time

Em 1980, já na Arista Records, ela realizou seu primeiro show no Royal Albert Hall, secular casa de espetáculos de Londres, diante da rainha Elizabeth II. Mas seus títulos nobiliárquicos eram outros: foi a primeira negra a ser capa da revista Time, a primeira mulher a entrar para entrar no Hall da Fama do Rock, ganhou uma estrela na calçada da fama de Hollywood, recebeu a Medalha da Liberdade dos EUA — maior condecoração civil daquele país —, levou 18 Grammys e, antes que os discos se tornassem peças de colecionador, vendeu 76 milhões deles.

Após a sua morte, Obama testemunhou: “Aretha ajudou a definir a experiência americana. Em sua voz, nós podíamos sentir nossa história, toda ela em todos os tons: nosso poder ou nossa dor, nossa escuridão ou clareza, nosso questionamento ou redenção e nosso respeito duramente conquistado”. Por sua vez, o ex-Beatle Paul McCartney pediu: “Vamos todos parar um momento para agradecer pela bela vida de Aretha, a Rainha de nossas almas”.

Para quem nasceu, cresceu, formou identidade e envelheceu sob o poder da voz de Aretha, impossível não contrastar seu canto e sua vida com os tempos de intolerância em que hoje vivemos. Diante da perda, talvez tudo que fique sejam os versos de um dos seus sucessos na Atlantic, em composição do sobrevivente Burt Bacharach e Hal David (1921/2012): “I say a little prayer for you/ Forever, and ever, you’ll stay in my heart” (“Eu faço uma pequena oração para você/ Para sempre e sempre, você ficará no meu coração”).

 

 

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Seis meses de intervenção militar e 149 homicídios em Campos no ano

 

 

Charge do José Renato publicada hoje (16) na Folha

 

Intervenção x homicídios

Hoje, a intervenção militar na Segurança do Estado do Rio completa seis meses. Em Campos, deu o ar da graça numa megaoperação em Guarus na última quinta (9), com 800 homens da PM, Bombeiros, PRF, PF e Exército, além de três carros blindados. Diante de tanto aparato, o resultado foi aquém do esperado: com o objetivo de cumprir 162 mandados de prisão, só 30 suspeitos foram presos. E seu residual foi nenhum: ontem (15), Campos teve mais três homicídios no espaço de apenas oito horas, dois em Guarus. Em episódios diferentes, dois jovens, de 19 e 20 anos, foram executados a tiros, assim como um trabalhador de 46 anos.

 

Guarus e Pelinca

Em sua edição de 17 de maio, esta coluna detalhou (aqui) o problema específico de Guarus, onde uma guerra entre facções rivais explodiu após a prisão, em 8 de março, de quem foi apontado pela Polícia como líder do tráfico na região: Francio da Conceição Batista, o Nolita. O Ponto Final voltaria a abordar o quadro alarmante, que deveria ser assim encarado por todos os campistas, independente em qual margem do Paraíba se resida. Em 25 de maio e 6 de junho, foi ecoado aqui (e aqui) o alerta: “a sociedade parece esperar que alguém tenha menos sorte na Pelinca, para se revoltar contra o que banaliza enquanto Guarus é o foco”.

 

Pelinca e Guarus

Por ser óbvio, o que era previsto ocorreu. Por sorte, outra ação criminosa não provocou nenhum óbito. Mas foi emblemático que, na noite do último sábado (9), o Bob’s da Pelinca sofresse um assalto. Por volta das 19h, dois bandidos entraram na lanchonete, fazendo funcionários e todos os clientes de reféns, sob a mira de armas. Pelo menos dessa vez, no lugar de vidas humanas, levaram apenas dinheiro e celulares. Mas talvez tenha servido para evidenciar às classes mais abastadas de Campos: ninguém está livre dessa explosão de violência que, em Guarus, há muito tempo ganhou contorno de guerra civil.

 

Crime mira símbolos

Além das franquias de fast-food, cuja vinda ao município já foi encarada como sinônimo de progresso, dois outros símbolos campistas também foram alvos de ações criminosas. A partir da exploração de petróleo na Bacia de Campos, os petroleiros se tornaram uma categoria importante na cidade. Na última segunda (13), enquanto sete deles estavam embarcados, seus veículos eram roubados num estacionamento particular do Farol. No mesmo dia, mais um aluno do IFF foi assaltado num ponto de ônibus, forçando a tradicional instituição de ensino a providenciar transporte particular para tentar garantir a integridade física dos seus estudantes.

 

Saldo de guerra

Apesar do golpe militar de 1964, que agora se nega ter existido, o Exército Brasileiro é uma instituição que merece o respeito da população. Mas é inegável que falhou solenemente na intervenção na Segurança do Rio. O fracasso teve o testemunho do comandante das Forças Armadas mais poderosas da Terra. Em passagem pelo Rio, o secretário de Defesa dos EUA, general James Mattis, disse ontem, após ter ouvido do seu quarto de hotel o tiroteio nos morros vizinhos: “Quando se ouve um desses tiros, a vida de alguém pode estar mudando”. É vida que não muda mais para os 149 assassinados em Campos em 2018, sete só em agosto.

 

PT, Bolsonaro e Alckmin

Enquanto isso, circulou ontem nas redes sociais: “O PT nacional pede para não reproduzir os posts e matérias sobre Bolsonaro. Está relacionado ao logaritmo do Facebook. A indicação é evitar digitar o nome para que não entre nos ‘trend topics’”. A quem não é petista, difícil não falar do líder em todas as pesquisas presidenciais sem Lula. Mas com a segurança como pleito, talvez seja necessário constatar que, pela sensível redução dos homicídios no Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) é opção consistente para quem busca fatos, não bravatas. Só que depôs ontem sobre doações de caixa dois da Odebrecht. E se aliou à quadrilha do Centrão.

 

Publicado hoje (16) na Folha da Manhã

 

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Como a esquerda e a grande mídia trabalham para eleger Bolsonaro

 

 

 

Advogado Cañadas Fernando

Porque a esquerda elegerá o nosso Trump tupiniquim

Por Cañadas Fernando

 

É impressionante o que estamos assistindo no Brasil e que muitos parecem não dar conta.

A campanha à presidência de Jair Bolsonaro está trilhando exatamente os mesmos passos da campanha de Donald Trump nos Estados Unidos, há dois anos. E o final desse filme por lá nós sabemos qual foi.

Relembrando o roteiro.

Um candidato carismático e engraçado, que “fala a língua do povo” e que, inicialmente, ninguém levou a sério.

Um candidato que aparece como uma reação dos conservadores e da direita em geral aos anos de esquerda no poder e que deixaram o país carregado de problemas.

Um candidato que carrega em seu histórico piadas e declarações homofóbicas, misóginas e racistas, as quais ofendem aos seus opositores, mas agradam parte do seu eleitorado ou, ao menos, não o ofende a ponto de fazê-lo mudar seu voto, por serem consideradas questões menores do que aquelas que mencionei acima.

Um candidato muito bem treinado, espirituoso e preparado para rebater as armadilhas fáceis que entrevistadores e debatedores tentam lhe impingir.

Agora, mais recentemente, temos a nova etapa dessa campanha, que é o ataque feroz da grande mídia. Tal como ocorreu nos Estados Unidos, vemos hoje todos os grandes veículos tentando imputar a Bolsonaro crimes de improbidade por empregar um irmão ou uma funcionária fantasma.

Exatamente como aconteceu com Trump quando pipocavam diariamente denúncias de assédio sexual, espionagem, etc.

Com todo o respeito, a imprensa brasileira, majoritariamente de esquerda, parece ser inacreditavelmente ingênua, para não dizer burra mesmo. Não percebe que esse é o tipo de campanha que só dá força ao candidato. Comparar a “improbidade” decorrente da contratação de uma empregada que ganhava R$ 1.300,00 por mês à canalhice que se sabe generalizada de toda a classe política, inclusive de alguns candidatos que com ele concorrem, é de uma infantilidade atroz.

A mim parece óbvio e ululante que, quanto mais baterem nele dessa forma, só o farão crescer.

Quem sou eu para ensinar a velha guarda do jornalismo, mas pensem bem: se o objetivo dessa grande mídia é não permitir que ele ganhe, façam o fácil, pelo amor de Deus. Façam como o volante do time de futebol que quer mostrar ao técnico que joga mais do que o meia armador: passe a bola para ele no meio campo, toque de lado. As chances de o sujeito se enrolar são grandes.

Perguntem então o que Bolsonaro provavelmente não saberá responder: sobre o seu programa de governo na área de educação, de saúde, de economia, de transportes, etc. Perguntem ainda porque ele votou a vida toda, como parlamentar, em sentido contrário ao que hoje ele apresenta em seu projeto de governo. Indaguem essa sua guinada repentina ao liberalismo, se sempre foi um estatista de carteirinha. Jair já cansou de se embananar nessas questões, porque ele simplesmente sabe muito pouco a respeito delas.

Mas não, a imprensa se comporta como o ponta-direita que cruza perfeitamente na cabeça do centroavante, fazendo questões lacradoras “polêmicas” e periféricas (ao menos para o seu eleitorado), cujas bolas ele mata no peito e manda para o fundo das redes.

Sinto uma enorme sensação de déjà vu, vendo emergir a eleição de nosso Trump tupiniquim, com a grande ajuda de seus opositores.

Porque inacreditavelmente são justamente eles, os que odeiam Bolsonaro, vide os eleitores de esquerda e a grande mídia, que provavelmente serão os principais responsáveis por sua eleição.

Sim, porque essa turma está trabalhando de tal forma nesse sentido que, cá no meu íntimo, às vezes chego a duvidar se não é exatamente isso o que ela quer.

 

Publicado aqui, nas redes sociais

 

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