Felipe Fernandes — Napoleão naufraga em sua condução

 

 

 

Felipe Fernandes, filmmaker publicitário e crítico de cinema

Por Felipe Fernandes

 

Estrategista, conquistador, cônsul, imperador. Napoleão Bonaparte é uma das figuras históricas mais famosas, mas é como general que ele é constantemente lembrado, muito por suas estratégias e vitórias, que o fizeram posteriormente Imperador da França. O cinema é responsável por parte dessa fama. São vários os filmes que direta ou indiretamente abordam a vida de Napoleão, passando inclusive por uma lendária produção que Stanley Kubrick nunca conseguiu tirar do papel.

Agora, chega aos cinemas Napoleão, cinebiografia do líder francês, dirigido por Ridley Scott e que traz o vencedor do Oscar Joaquin Phoenix encarnando o protagonista, em um longa grandioso, que busca um olhar diferente para o personagem e abordar diversos segmentos de sua intensa e controversa história.

O roteiro de David Scarpa traz um recorte de Napoleão planejando sua ofensiva contra o cerco inglês em Toulon, vitória que lhe rendeu o título de general, até o fim de sua vida no exílio. Cronologicamente não é muito tempo, mas dada a intensidade de sua história, o roteiro tenta lidar com muita coisa, usando como foco principal a relação de Bonaparte com sua primeira esposa, Josephine.

Utilizando como base as cartas do protagonista para a Imperatriz, o longa busca construir o personagem por meio de sua intimidade com sua esposa, uma proposta até ousada, mas que não funciona. A química entre Joaquin Phoenix e Vanessa Kirby não existe e o longa dispensa muito de seu tempo em um romance conturbado, que não cativa e não agrega muito à história, deixando em segundo plano questões políticas e até mesmo militares, espaço onde Napoleão fez sua fama.

Quando não se utiliza de cartelas para estabelecer seu contexto e período histórico, uma escolha preguiçosa e pouco elegante, o filme faz uso de diálogos expositivos para estabelecer a questão temporal. Nesse sentido, o filme é realmente uma bagunça. A montagem é problemática, algumas cenas parecem jogadas e passam a sensação de terem sido cortadas ao meio. Essa sensação é muito forte nas cenas no Egito, um período muito mal explorado pelo filme.

Ridley Scott já anunciou uma versão de 4 horas que vai sair direto no streaming da Apple. Uma decisão recorrente na carreira do diretor, mas que ao ser anunciada na mesmo na época de seu lançamento nos cinemas, certamente vai prejudicar a bilheteria do próprio filme e principalmente, vai contra todo o movimento que Hollywood vêm fazendo para que o público retorne aos cinemas. Talvez essa “versão do diretor” corrija muito dos problemas de montagem do longa e consiga abordar melhor questões que ficaram em segundo plano no corte para os cinemas,

A fotografia do polonês Dariusz Wolski (parceiro habitual de Scott) traz várias cenas bem escuras e trabalha cores saturadas, tirando a vivacidade e criando um aspecto desgastado que é eficiente em ressaltar a miséria do período, mas se torna esteticamente pobre. O design de produção é muito rico, repleto de detalhes que reproduzem de forma impressionante a época retratada.

O filme retrata cinco batalhas, que englobam o período histórico abordado dentro da narrativa. As cenas, apesar de serem razoavelmente curtas (com exceção do clímax), são o ponto alto da produção. A primeira delas traz inclusive um Napoleão inseguro, nervoso, uma escolha interessante que humaniza o personagem e contrasta com a imagem prévia que o espectador têm de um comandante seguro e implacável. Ao contrário do restante do longa, as batalhas são intensas e surpreendentemente violentas. Com um bom ritmo e bem dirigidas, as sequências no campo de batalha acabam por se provar um pouco do que poderia ter sido o longa.

Napoleão de Ridley Scott é uma cinebiografia que peca por sua abordagem, não conseguindo construir um personagem complexo e interessante, fugindo dos principais temas da história do protagonista. Ao usar a relação do protagonista com a Imperatriz como base, o filme busca um olhar diferente sobre uma figura conhecida, uma decisão que faz sentido, mas que naufraga em sua condução.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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Subjetivo e objetivo na ação da PF na casa dos Garotinho

 

Rosinha e Garotinho após operação da PF de terça na casa mais famosa da Lapa (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

PF na casa da Lapa

O dia de ontem amanheceu movimentado em Campos (confira aqui e aqui) com a operação Rebote, da Polícia Federal (PF), na casa mais famosa da Lapa. O motivo foi uma suposta fraude na PreviCampos em 2016, durante o governo da ex-prefeita Rosinha Garotinho (hoje, União), que teria deixado um rombo de cerca de R$ 383 milhões. Ao todo, foram cumpridos 18 mandados de busca e apreensão, 12 deles em Campos, a casa de Rosinha entre eles. Não foi a primeira operação policial em Campos relativa ao caso. Em 12 de abril de 2018, na operação Encilhamento, a PF já tinha cumprido (relembre aqui) mandado de busca e apreensão na sede da PreviCampos.

 

Garotinho e Rosinha em live

Após a saída da PF da casa da Lapa, o ex-governador Anthony Garotinho (União) e Rosinha gravaram lá uma live, divulgada em suas redes sociais. “Houve hoje, em nossa residência, um mandado de busca e apreensão, cujo objetivo era recolher algum tipo de documento, qualquer tipo de prova que tentasse envolver Rosinha numa apuração” disse Garotinho. Para perguntar e responder a si mesmo: “Quem é o autor dessa denúncia, feita em 2017? É o ex-prefeito Rafael Diniz (Cidadania). E qual denúncia ele fez: houve uma fraude, um rombo, no Fundo de Previdência (dos Servidores Municipais de Campos, PreviCampos)”.

 

 

Versão da defesa

Depois, Garotinho passou a questionar na live a suposta responsabilização jurídica de Rosinha nos fatos. Mas isso se explica melhor no que o advogado Rafael Faria disse em defesa da ex-prefeita: “Os supostos fatos que ‘justificaramֹ’ a busca e apreensão na casa de Rosinha teriam ocorridos cerca de 10 anos atrás. A única explicação ao que aconteceu na Lapa foi criar um constrangimento à família, pois o fato é completamente atemporal. Não queremos acreditar que seja retaliação ou intimidação política. A única questão imputada à ex-prefeita é ela ter indicado pessoas sem qualificação técnica para a diretoria e o conselho da PreviCampos”.

 

Rafael Diniz como Geni

De volta à live, Rosinha aproveita a deixa de Garotinho: “E logo quem que fez a denúncia? Um ex-prefeito que desmoralizou a cidade, foi o pior prefeito que Campos teve, que deixou pagamentos atrasados, o senhor Rafael Diniz”, disse a ex-prefeita. É fato que Rafael deixou ao governo Wladimir (hoje, PL), filho de Rosinha e Garotinho, duas folhas de pagamento do servidor atrasadas. E que, ao juízo soberano do mesmo eleitor que elegeu Rafael à Prefeitura de Campos em 2016, ainda no 1º turno, com 151.462 votos, ele foi um prefeito ruim. Na tentativa de se reeleger em 2020, teve só 13.530 votos. Perdeu em quatro anos quase 138 mil votos.

 

O que é subjetivo e objetivo?

Dizer que Rafael foi o pior prefeito de Campos é, no entanto, subjetivo. Aos Garotinhos, esse posto sempre foi ocupado pelo prefeito que sucederam, mesmo os que ajudaram a eleger: Sérgio Mendes, Arnaldo Vianna, Alexandre Mocaiber. Ademais, por pior prefeito que Rafael tenha sido, isso não invalida sua denúncia. Questionar a responsabilidade de Rosinha, também subjetiva, é válido. O que não dá para negar é a perda objetiva, no apagar das luzes do governo dela, dos investimentos da PreviCampos. Que, em 31 de dezembro de 2015, tinha investimentos de R$ 1,3 bilhão. E despencou, em 31 de dezembro de 2016, a R$ 804 milhões.

 

(Arte: IFF)

 

Stefania Chiarelli, professora da UFF-Niterói

Década de Letras no IFF

Aberta no dia 7, a programação pelos 10 anos do curso de Letras do IFF traz hoje a palestra “Partilhar a língua: apontamentos sobre a literatura brasileira contemporânea”, da professora Stefania Chiarelli, da UFF. Começa às 19h, no auditório Miguel Ramalho. “Abordará a produção literária do Brasil nos últimos tempos, com uma perspectiva crítica a todos os interessados nas questões literárias”, definiu o professor Ronaldo Freitas, coordenador do curso de Letras do IFF. Cujas comemorações se encerram amanhã, com a mesa “Essa história é só o começo: Apontamentos e desafios para o profissional de Letras 10 anos depois”, a partir das 18h.

 

Canudos da Folha à Harvard

Em 2002, após expedição a Canudos, no sertão da Bahia, a Folha publicou um caderno especial sobre os 100 anos de “Os Sertões”. A obra de Euclides da Cunha narra a Guerra de Canudos (1896/1897), testemunhada por ele. Um dos personagens do caderno foi o sertanejo Paullo de Régis, então com 14 anos, descendente dos personagens do livro e residente do Parque Histórico de Canudos. Hoje, aos 35, ele lá trabalha. E teve sua história e do seu povo também contada este mês pela Universidade de Harvard, dos EUA, em publicação sobre a América Latina. O texto (confira aqui) é da brasileira Anita Rivera Guerra, doutoranda em Português e Espanhol em Harvard.

 

Arte da baixaria

Um artista veterano da cidade se torna parceiro de um artista jovem de município vizinho, após este convidar aquele a participar de um show. O jovem leva de “paga” do veterano uma boquinha na Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL). Até que o jovem alega que a “parceria artística” foi longe demais. E, com receio de perder a boca, abre a sua: a ex-esposa teria sido assediada pelo veterano dentro do Palácio da Cultura. Mesmo antes deste ser reaberto ao respeitável público. Como arte nem sempre rima com caráter, não há certeza. Só duas. Além da tremenda baixaria, que a FCJOL precisa ter mais critério com quem emprega sem concurso.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Em Campos, Napoleão de Ridley Scott entre arte e entretenimento

 

 

“Se eles são famosos, sou Napoleão”. É um conhecido verso da música “Balada do Louco”, composta por Arnaldo Baptista e Rita Lee, na época dos Mutantes. Interessante registrar que a fama de Napoleão Bonaparte ainda seja tão forte e controversa, 208 anos após sua derrota militar definitiva na Batalha de Waterloo, em 1815. E que seu nome seja sempre mais lembrado como general do que como o cônsul da França, depois Imperador, que legou ao mundo os Códigos Napoleônicos, presentes ao cotidiano de todos como base do Direito Civil.

Ainda que a primeira exibição de cinema tenha se dado, pelos irmãos Louis e Auguste Lumiére, na França de 1895, só 74 anos após a morte de Napoleão exilado na ilha britânica de Santa Helena, a sétima arte também investiu desde sempre para ampliar a fama militar do vulto histórico. Foi assim desde o clássico do cinema mudo “Napoleón” (1927), dirigido pelo francês Abel Gance, com 5h21 de duração. E continua assim nas 2h38 do “Napoleão” dirigido pelo inglês Ridley Scott. Que estrou nas telas de Campos e do Brasil na última quinta (23).

Se, com 81 anos completos no último dia 17, o cineasta ítalo-estadunidense Martin Scorsese impressionou pela excelência técnica do seu filme mais recente, “Assassinos da Lua das Flores”, Ridley Scott também impressiona pelo domínio do fazer cinema que ainda exibe aos 85 anos — 86 daqui a cinco dias. Não é o ator estadunidense Joachin Phoenix, que interpreta um Napoleão inseguro e com quem Scott já havia trabalhado em “Gladiador” (2000), o grande protagonista do filme. É o seu diretor, estrategista tão meticuloso quanto a personagem.

As cenas de batalha, no cerco à cidade francesa de Toulon dominada pelos britânicos, nas campanhas napoleônicas do Egito e da Rússia, ou nas batalhas de Waterloo e de Austerlitz, são todas feitas para serem assistidas em tela grande. Mas, mesmo a quem é capaz de reduzir toda a artesania do cinema a uma tela de smartphone — onde trabalhos como a esmerada direção de fotografia do polonês Dariusz Wolski simplesmente desaparecem —, o efeito deve ser o mesmo: olhos vidrados à imagem enquanto o corpo cola à poltrona.

Sequência mais eletrizante do filme, as cenas finais da batalha de Austerlitz, com os soldados austríacos e russos conduzidos como ratos pela tática felina de Napoleão, até afundarem em meio ao fluxo de sangue na água de um lago congelado e liquefeito pelo canhoneio francês, não devem nada às cenas iniciais de “O Resgate do Soldado Ryan” (1998), de Steven Spielberg. Que retrata o desembarque aliado na praia de Omaha, na Normandia do Dia D, dominada por nazistas nas casamatas de 1944 elevadas como a artilharia francesa de 1805.

Para tentar humanizar a personagem para além das cenas épicas em que Scott sempre foi mestre, o roteiro do estadunidense David Scarpa — que também trabalha com o diretor inglês em “Gladiador 2”, em fase adiantada de produção — investe na relação de Napoleão com a sua primeira esposa e imperatriz, Josephine. Que está muito bem, obrigada, na pele da atriz britânica Vanessa Kirby, mais conhecida no Brasil pelo papel da princesa Margareth jovem na popular série The Crown, da Netflix.

A relação infiel, abusiva, complexa e intensa de Napoleão e Josephine, de mão dupla entre os papéis de dominador e dominado, é uma marcha lenta engatada entre a vertigem das cenas de batalha. Mas também pode ser considerada um anticlímax à especialidade de Scott. É uma aposta. Como foi no passado a do diretor alemão radicado nos EUA Henry Coster em “Desirée, o Amor de Napoleão” (1954), com a atriz inglesa Jean Simmons no papel título, trocada pela frívola aristocrata Josephine (Merle Oberon) por um Napoleão vivido por Marlon Brando.

O Napoleão de Phoenix, sempre oscilando entre a grandeza e a insegurança, lembra mais a composição que outro grande ator estadunidense do passado, Rod Steiger, deu à mesma personagem no filme “Waterloo” (1970). Que, dirigido pelo soviético (hoje, seria ucraniano) Sergei Bondarchuk, é ainda o melhor filme para se conhecer a batalha final do Imperador da França de ascendência italiana, nascido na ilha mediterrânea da Córsega.

Quem julga filme dublado um aborto e cinema uma expressão de arte, irá encontrá-la no “Napoleão” de Ridley Scott. Mesmo aquele que, conhecendo o todo da sua obra, continue a considerar seu primeiro filme, “Os Duelistas” (1977), o melhor que ele já produziu sobre as guerras napoleônicas. Quem julga cinema só como entretenimento e prefere filme dublado, mesmo sem ser analfabeto, também pode gostar. Essa conexão com os dois tipos de espectador talvez seja a grande virtude do diretor.

Na França de hoje, 202 anos após a morte de Napoleão, o jornal Le Figaro disse que “Napoleão” poderia ser renomeado como “Barbie e Ken sob o Império”. Enquanto um biógrafo de Bonaparte, Patrice Gueniffey, disse à revista Le Point que o filme é uma versão “muito anti-francesa e muito pró-britânica” da história. O que não deixa de se acentuar pelo final do épico dirigido por um britânico, onde a cifra de 3 milhões de mortos das guerras napoleônicas é o “The End”. “Os franceses não gostam nem de si mesmos”, respondeu Scott às críticas.

Que venha “Gladiador 2”!

 

Capa da Folha Dois de hoje

 

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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Da América do Sul ao mundo, não há coincidência no futebol

 

Em escanteio gerado após a zaga brasileira rebater a única conclusão a gol de Messi no Maracanã de terça, o zagueiro Otamendi ganha o lance pelo alto de André e Gabriel Guimarães para selar a terceira derrota do Brasil seguida nas Eliminatórias da América do Sul à Copa do Mundo, marca inédita em 69 anos

Histórico é um adjetivo muitas vezes usado de maneira fútil. Não raro por quem supõe, justamente por ignorar a História, que esta só passou a existir a partir do seu próprio nascimento ou sua suposta tomada de consciência de determinado assunto.

O futebol é um assunto que sempre envolverá paixão. Vale a ele, mais que talvez a qualquer outro esporte, a ressalva do romântico dos EUA Edgar Alan Poe à poesia: “Se não emocionar, não é nada”. Lógico que a poesia também tem que ser muito mais. Como o futebol.

O Brasil disputa as Eliminatórias da América do Sul à Copa do Mundo desde a de 1954, na Suíça. E, 69 anos depois, nunca tinha perdido nenhum jogo para a Colômbia, nenhum jogo dentro de casa e nunca duas vezes seguidas. Tudo isso caiu em 2023. Quando, depois da terça (21) contra a Argentina, no Maracanã, o “melhor futebol do mundo” contabilizou sua inédita terceira derrota seguida no quintal do próprio continente.

Essas marcas não foram feitas ou perdidas, nem seu vazio ainda mais alargado, por obra do acaso. Nada que se mantém por 69 anos, para virar fumaça em apenas 39 dias, é aleatório.

Antes de ampliar sua série de três derrotas nas Eliminatórias, o Brasil já tinha perdido por contusão seus dois principais jogadores: Neymar e Vini Jr. O primeiro, no 0 a 2 Uruguai de 17 de outubro; o segundo, no 1 a 2 Colômbia de 16 de novembro.

Neymar e Vini Jr. são atacantes. Mas não centroavantes. Escalado na posição por Fernando Diniz contra a Argentina, Gabriel Jesus pareceu atrasado ao admitir após a derrota: “Gol não é meu ponto forte”. Quem o viu escalado por Tite como centroavante titular em todos os cinco jogos do Brasil na Copa do Mundo de 2018, na Rússia, sem marcar um gol sequer, já sabia disso há cinco anos.

A verdade é que desde a aposentadoria de Ronaldo Fenômeno, em 2011, o Brasil não tem um centroavante que inspire confiança. Se tivesse contra a Argentina, teria vencido o jogo em que criou as duas chances mais claras de gol, mas não teve competência para definir.

Antes da Copa do Mundo de futebol ser criada, no Uruguai de 1930, o Brasil teve sua primeira grande conquista internacional no Sul-Americano de Futebol que sediou em 1919. Que teve como craque e artilheiro Arthur Friendereich, apelidado ali de “El Tigre”, com 4 gols.

Na Copa do Mundo de 1938, na França, o Brasil ficou em 3º lugar e deu o artilheiro da competição: Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”, com 8 gols. Com a Copa do Mundo interrompida durante a II Guerra (1939/1945), coube ao centroavante Heleno de Freitas, o “Gilda”, ser o artilheiro do Sul-Americano de 1945, com 6 gols.

Com a volta da Copa do Mundo em 1950, o Brasil a sediou e perdeu a final para o Uruguai, de virada, por 1 a 2, dentro do Maracanã. Ainda assim, voltou a dar o artilheiro da competição: o centroavante Ademir Menezes, o “Queixada”, com 9 gols.

Nas Copas do Mundo de 1958 e 1962, no Bicampeonato do Brasil na Suécia e no Chile, o centroavante Vavá, o “Peito de Aço”, ficou atrás do francês Just Fontaine e de Pelé na artilharia da primeira. E empatado com Mané Garrincha e outros como goleador da segunda. Nas duas, Vavá marcou 9 gols.

No Tri do Brasil em 1970, no México, embora não fosse propriamente um centroavante e tenha ficado atrás do alemão Gerd Müller na artilharia, Jairzinho marcou 7 gols. O “Furacão” é, até hoje, o único jogador a ter marcado gols em todos os jogos de uma Copa do Mundo.

Na Copa do Mundo de 1978, na Argentina, o centroavante Roberto Dinamite ficou atrás do argentino Mario Kempes e de outros na artilharia, mas marcou 3 gols. Na Copa do Mundo de 1982, Zico nunca foi centroavante e ficou atrás do italiano Paolo Rossi e do alemão Karl-Heinz Rummenigge como artilheiro. Mas o “Galinho” fez o grito de gol cantar 4 vezes na garganta.

Nas Copas do Mundo de 1986 e 1990, respectivamente, no México e na Itália, o centroavante Careca ficou atrás do inglês Gary Lineker na primeira, e do italiano Totò Schillaci e de outros na segunda. Mas o brasileiro anotou nas duas 7 gols.

Na Copa de 1994, nos EUA, o centroavante Romário não foi o maior goleador, como disse que seria. Ficou atrás do búlgaro Hristo Stoichkov e do russo Oleg Salenko, e empatado com alguns outros na artilharia. Mas os 5 gols do “Baixinho” foram fundamentais para que ele cumprisse outras promessas mais importantes: ser campeão e craque daquele Mundial.

Do momento em que Friendereich marcou seu nome em 1919, ao que Ronaldo pendurou as chuteiras em 2011, foram 92 anos em que o Brasil produziu, sempre com renovação, alguns dos maiores artilheiros da história do futebol. Em dimensão continental e mundial. Não de campeonatos cariocas, paulistas ou brasileiros. Como este Brasileirão, que tem no veterano Luisito Suárez, do Internacional, seu melhor centroavante. E, hoje, é só banco do Uruguai.

Do plano coletivo ao individual, é autoexplicativa a decadência do futebol brasileiro. Que, ainda assim, jogou melhor que a Argentina na terça. O que pôde ser constatado até por quem estava lá para testemunhar Lionel Messi em seu último jogo oficial no Maracanã.

O único oito vezes Bola de Ouro como melhor jogador da Terra não reeditou a poesia da Copa do Mundo que conquistou em 2022, no Qatar, à Argentina. Mas, após sua única conclusão contra a meta brasileira ser desviada pela zaga, Messi gerou a cobrança de escanteio ao gol de cabeça do zagueiro Otamendi. Que fechou o placar e ampliou à História a escrita do Brasil.

Da América do Sul ao mundo, nunca houve coincidência no futebol.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Comunismo e Jefferson ou Carla no Folha no Ar desta 6ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Presidente do PCdoB em Campos e graduando de geografia da UFF, Maycon Maciel é o convidado para fechar a semana do Folha no Ar nesta sexta (24), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Em meio a tantas fake news sobre o tema, ele tentará explicar o que é, de fato, o comunismo no Brasil.

Maycon também analisará os governos Lula 3 (PT), Cláudio Castro (PL) e Wladimir Garotinho (PP). E falará da aliança do PCdoB com o PT dividido entre o professor Jefferson Azevedo e a deputada estadual Carla Machado a prefeito de Campos, como da noninata do seu partido para 2024.

Quem quiser participar do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Futebol entra em campo no Folha no Ar desta quinta

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Com o radialista Cláudio Nogueira e os jornalistas Matheus Berriel e Aluysio Abreu Barbosa, o futebol entra em campo no Folha no Ar desta quinta (22), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3.

Matheus, Cláudio e Aluysio analisarão os desempenhos de Fluminense, Botafogo, Flamengo e Vasco durante o ano e na reta final do Brasileirão. Por fim, os três falarão do Brasil do treinador Fernando Diniz nas Eliminatórias da América do Sul à Copa do Mundo de 2026. Em que foi derrotado pela Argentina do craque Lionel Messi, dentro do Maracanã, na noite de terça (21).

Quem quiser participar do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Milei presidente da Argentina no Folha no Ar desta terça

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Historiador, professor da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e especialista de História da América Latina, Alberto Aggio é o convidado do Folha no Ar desta terça (21), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ele analisará as causas e possíveis consequências da eleição do anarcocapitalista Javier Milei a presidente da Argentina, no segundo turno do último domingo (19).

Aggio também analisará os 11 primeiros meses do governo Lula 3. E, por fim, falará da guerra de Israel, por enquanto, com o Hamas, na Faixa de Gaza. Quem quiser participar do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Porque hoje é sábado e na terça tem a Argentina de Messi

 

Messi encara a Copa do Mundo após a final de 2014, quando a Argentina foi derrotada para a Alemanha dentro do Maracanã, que o craque admitiu recentemente ter sido a grande frustração da sua carreira

 

“Hoje é sábado, amanhã é domingo”. É o primeiro verso de “O dia da criação”, escrito em 1946 pelo poeta, compositor, diplomata, boêmio e botafoguense Vinicius de Moraes. “Porque hoje é sábado” repete várias vezes como refrão do poema, em chamado e resposta a outros versos. E porque hoje é sábado, última edição da Folha da Manhã antes da seguinte de quarta (22), é a última chance de falar em papel impresso do Brasil e Argentina de terça (21), pelas Eliminatórias da América do Sul à Copa do Mundo de 2026, antes do apito inicial no Maracanã

Não será um Brasil e Argentina qualquer. Será, talvez, o último tango de Lionel Messi no maior estádio de futebol do mundo, em jogo oficial do maior clássico da América do Sul. Se muito se debate quem foi melhor entre Messi e Diego Maradona, nenhum brasileiro, mesmo tendo Pelé acima dos dois argentinos, poderá discordar: por mais brilhante que tenha sido, Maradona nunca levou tantos brasileiros a torcer pela Argentina como faz Messi. De fato, muitos deles irão ao Maracanã no sábado não para ver o Brasil, mas para testemunhar Messi jogar.

Há, no entanto, muitos motivos para se torcer pelo Brasil. Que é hoje o 5º colocado nas Eliminatórias da América do Sul, atrás até da Venezuela. E só não é o 6º porque o Equador iniciou a disputa continental por uma vaga à Copa do Mundo de 2026 com -3 pontos. A punição foi imposta pela Fifa pela utilização de um jogador em condição irregular nas Eliminatórias à Copa de 2022, no Qatar.

Nas Eliminatórias à próxima Copa, que será sediada no México, EUA e Canadá, o Brasil vem reescrevendo para pior sua própria história. Nunca havia perdido um jogo de Eliminatórias para a Colômbia. E perdeu o último na noite de quinta (16), de virada, por 1 a 2, com dois gols do atacante Luis Díaz. Cujo pai havia sido sequestrado, liberto e quase passou mal de tanto que comemorou a façanha do filho nas arquibancadas de Barranquila.

Não bastasse, após a derrota no jogo anterior, de 0 a 2 para o Uruguai, em 17 de outubro, foi a segunda derrota brasileira seguida nas Eliminatórias da América do Sul. Desde que a Conmebol passou a organizar as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1954, na Suíça, foi a primeira vez que o Brasil perdeu dois jogos seguidos no torneio classificatório. Como, até a Colômbia na quinta, foram duas marcas que o futebol brasileiro manteve por 69 anos, não é pouca coisa.

Resta ainda uma estatística favorável que o Brasil tentará manter na América do Sul, diante da Argentina de Messi: o único país com cinco Copas do Mundo conquistadas nunca perdeu um jogo de Eliminatórias dentro de casa. E a casa em questão, mais conhecida como Maracanã, é o estádio Jornalista Mário Filho. Em homenagem ao irmão do jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues que escreveu “O Negro no Futebol Brasileiro”, ainda necessário a quem quiser reconhecer o futebol no Brasil como muito mais que um mero esporte.

Na Miami de 29 de setembro, um dia antes de Messi ganhar sua oitava Bola de Ouro como melhor do mundo, a Adidas promoveu um bate-papo entre o argentino e o ex-craque francês de origem argelina, hoje técnico, Zinédine Zidane. Onde Messi admitiu que a maior frustração da sua carreira vitoriosa é a derrota de 0 a 1 para a Alemanha de Bastian Schweinsteiger. Foi na final da Copa do Mundo do Brasil, em 2014, dentro do Maracanã. O argentino pode ter contas pessoais a acertar no maior estádio do mundo. E sua última chance de tentar fazê-lo.

Na mesma quinta em que o Brasil perdeu sua invencibilidade histórica para a Colômbia nas Eliminatórias, a Argentina também perdeu em plena La Bombonera, mítico estádio do Boca Juniors, seu primeiro jogo desde o tropeço da derrota contra a Arábia Saudita na estreia da Copa do Mundo de 2022 que conquistaria. A vitória de 2 a 0 do Uruguai, além das virtudes de jovens jogadores como o zagueiro Ronald Araújo e o atacante Darwin Núñez, autores dos gols e ambos com 24 anos, se deve ao seu treinador argentino, Marcelo “El Loco” Bielsa.

Só um louco poderia supor, apenas alguns anos atrás, que o Uruguai venceria a Argentina dentro da Argentina, deixando no banco os melhores camisas 10 e 9 do futebol brasileiro. Mas foi assim na quinta, quando, respectivamente, os uruguaios De Arrascaeta (Flamengo) e Luisito Suárez (Internacional) assistiram do banco de reservas à vitória merecida da sua seleção. Bielsa encarnou a ressalva sobre Hamlet: “parece loucura, mas há método”. E faz do Uruguai, após bater Brasil e Argentina em sequência, uma força novamente temida no continente.

Além do banco de reservas do Uruguai, o futebol do Brasil vive outras contradições. Tem no técnico Fernando Diniz uma unanimidade no Fluminense, que conduziu ao título inédito da Libertadores em trabalho autoral. Mas que, na tentativa de resgatar no Brasil uma filosofia de jogo que já foi sua, é unanimemente questionado pelos péssimos resultados. Se não está “preocupado com resultados”, como bravateou após perder para a Colômbia, não deveria ter assumido a Seleção Brasileira. Onde só esquenta lugar ao treinador italiano Carlo Ancelotti.

Sem Neymar e Vini Jr., respectivamente, lesionados contra o Uruguai e a Colômbia, o Brasil vai encarar a Argentina de Messi sem seus dois principais jogadores. Se perder a terceira seguida nas Eliminatórias, continuará a rasgar as melhores marcas do futebol que ainda ufana ser “o melhor do mundo”. Mas não consegue se afirmar nem no próprio continente. E se ganhar da campeã do mundo, contra o melhor jogador do mundo, os “idiotas da objetividade” de Nelson, irmão de Mário, inflarão o peito de pombo para arrulhar: “Comigo ninguém pode no futebol”.

 

“Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo

E para não ficar com as vastas mãos abanando

Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança

Possivelmente, isto é, muito provavelmente

Porque era sábado”

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Tabela de Zidane e Messi a quem ama o futebol

 

Já veterano no Real Madrid, Zidane encarando o jovem Messi pelo Barcelona

 

“É uma pena que eu não tenha podido jogar contigo. Mas hoje, para mim, é o momento de dar-te um passe”. É o que o francês de origem argelina Zinédine Zidane diz antes de passar a bola e a palavra ao argentino Lionel Messi.

O papo entre os dois gênios do futebol, de audição necessária a todos que amam esse esporte, foi gravado em 29 de setembro, em Miami, onde Messi defende o clube Inter Miami. Patrocinadora de ambos, a empresa alemã Adidas promoveu o encontro.

CAMISA 10 — Os dois falaram sobre a mística da camisa 10 que ajudaram a imortalizar. Embora nunca tenha usado o número em seus quatro clubes como jogador, Zidane foi o 10 da França que conquistou a Copa do Mundo de 1998 e a Eurocopa de 2000. Na primeira vez na história do futebol que um time ganhou as duas de maneira seguida.

O francês falou com carinho também da camisa número 5, com que marcou época nos “Galácticos” do Real Madrid. Quando selou os 2 a 1 da conquista da Champions de 2002 sobre o alemão Bayer Leverkusen.

Embora tivesse a direita como melhor perna, Zidane acertou um chute de canhota, de primeira. É até hoje considerado um dos mais belos gols a decidir uma Champions. E Messi, que tinha à época 15 anos e já estava no Barcelona, mostrou se lembrar muito bem.

Notabilizado pelo camisa 10, que hoje usa no Inter Miami, Messi usou outros números em seu início na Argentina e no Barcelona. Neste, estreou como profissional aos 17 anos, em 2004, com a camisa 30. Número que, como lembrou com Zidane, retomou quando jogou no PSG.

Foi com a camisa 10 do Barcelona que Messi conquistou oito dos seus 10 Campeonatos Espanhóis, três das suas quatro Champions e seus três Mundiais de Clubes. Como foi com a 10 da Argentina que ele conquistou da Copa América de 2021 e da Copa do Mundo de 2022.

MARADONA — “Para nós, argentinos, o 10 é um número muito especial, porque automaticamente traz Maradona à cabeça. Crescendo desde meninos no futebol, queríamos ser como ele. Embora nenhum tenha conseguido ser como ele, a ilusão, o desejo era esse”, disse Messi, que viu muito pouco do ídolo, já no final de carreira, quando tinha 6 ou 7 anos.

“É para todo o mundo, não só para os argentinos. Maradona, como tu sabes, era um ídolo para todos, para todo o mundo. Sobretudo tu, falando isso, com sete Bolas de Ouro (Messi ganharia a oitava no dia seguinte), é muito bonito”, pontuou Zidane.

FRANCESCOLI — Além de reverenciarem um dos maiores camisas 10 da história, outros dois da lista lamentaram como esse tipo de jogador anda desaparecendo do futebol. Zidane lembrou do seu ídolo, o uruguaio Enzo Francescoli. Que viu jogar no Olympique de Marselha e Messi veria no River Plate.

AIMAR — “Nós, na França, normalmente víamos jogadores franceses, não havia muitos estrangeiros. Quando vi Enzo, da América do Sul, vimos que era outro futebol. Ele fazia coisas com a bola, era um mágico, e eu queria fazer o mesmo”, admitiu Zidane. Enquanto Messi, abaixo de Maradona, também assumiu como referência o conterrâneo Pablo Aimar.

MESSI POR ZIDANE — “Hoje é um dia importante para mim porque posso dizer a admiração que tenho por ele. Gosto desses jogadores diferentes. Para mim é magia, pura magia. Eu quase sabia o que você iria fazer, como uma conexão. Mas quando vejo você fazer o que faz no campo, digo: é isso”, ditou Zidane sobre Messi.

ZIDANE POR MESSI — “Não é porque ele está presente aqui, porque já disse muitas vezes. Para mim, ele é um dos maiores da história. Sempre o admirei. Ele sempre foi um jogador diferente, elegante, magia, tinha tudo. E sofri também, porque ele estava em Madri e eu no Barcelona. Mas os grandes jogadores ultrapassam a camiseta e o país”, sentenciou Messi sobre Zidane.

MALDINI E THURAM — Entre conselhos aos jovens, ambos destacaram o que parece faltar a muitos dos últimos grandes jogadores brasileiros: foco! Sobre os melhores marcadores, Zidane destacou o ex-lateral-esquerdo e ex-zagueiro italiano Paolo Maldini, pela inteligência. E, pela dureza, o ex-lateral-direito e ex-zagueiro francês Lilian Thuram. Com o que Messi, rindo, concordou.

ZIDANE x RONALDO — Entre os anos 1990 e 2000, Zidane disputou a condição de melhor jogador do mundo com o ex-centroavante brasileiro Ronaldo Fenômeno. E, apesar das posições diferentes, o superou na final da Copa do Mundo de 1998 e nas quartas de final da Copa do Mundo de 2006.

MESSI x CRISTIANO RONALDO — Entre os anos 2010 e 2020, Messi disputou a condição de melhor jogador do mundo com o atacante português Cristiano Ronaldo. E, se alguém chegou a ter alguma dúvida sobre a superioridade do argentino, ela foi desfeita na sua conquista da Copa do Mundo de 2022.

APÓS PELÉ E MARADONA — Após Pelé, entre os anos 1950 e 1970, Maradona foi o grande jogador do futebol mundial dos anos 1980 e 1990. Após Don Diego, ninguém brilhou mais do que Zidane e do que Messi. Ver esses dois gênios em tabela de papo sobre futebol é quase tão encantador quanto tê-los visto jogar.

 

 

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Wladimir com Caio após fim da pacificação com os Bacellar

 

Caio Vianna com Wladimir Garotinho, Bruno Vianna, Frederico Rangel, Rodrigo Bacellar, Helinho Nahim, Marquinho Bacellar, Juninho Virgílio, Carla Machado e Frederico Paes (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Wladimir com Caio

Favorito à reeleição em 2024 em todas as pesquisas de 2023 divulgadas (confira aqui), e até nas não divulgadas, como revelou (confira aqui) na última quinta (9) o deputado estadual e prefeitável Thiago Rangel (PRTB), Wladimir Garotinho (PP) fez um aceno político emblemático no início da noite de segunda (13). Quando recebeu na Prefeitura e postou um vídeo nas redes sociais (confira aqui) ao lado do deputado federal Caio Vianna (PSD). Segundo colocado nas mesmas pesquisas a prefeito que Wladimir lidera com grande vantagem, Caio anunciou emendas parlamentares suas para Campos: R$ 1 milhão para a Saúde, R$ 600 mil para a Pesca e R$ 500 mil para a Agricultura.

 

Passos da nova pacificação

A aproximação entre Wladimir e Caio não começou na segunda. Teve início numa visita do prefeito à Brasília, entre 17 e 18 de outubro. Quando ele oficializou seu ingresso ao PP, tentou negociar com as cúpulas partidárias a retirada de assinaturas de vereadores pela CPI da Educação e também se reuniu com o deputado federal. Seis dias depois, veio a primeira consequência prática desse encontro: em 24 de outubro, chegou à Câmara Municipal (confira aqui) o ofício do PSD, presidido por Caio em Campos, que destituiu o edil de oposição Bruno Vianna da liderança da bancada da legenda. Que passou a ser ocupada pelo governista Fred Rangel.

 

Oposição vê “recado a Rodrigo”

Oficializada na segunda, a pacificação entre Wladimir e Caio foi encarada como um recado ao presidente da Alerj, o deputado estadual campista Rodrigo Bacellar (União). “Qualquer emenda para Campos é importante. Mas foi visível o desconforto do vídeo, para tentar dar algum recado político ao deputado Rodrigo Bacellar. Caso se concretize o acordo com Wladimir, Caio irá para uma possível quinta derrota eleitoral. Isso parece o começo de traição do prefeito de Campos ao governador Cláudio Castro (PL) numa possível aliança com o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD)”, alfinetou o edil de oposição Helinho Nahim (Agir).

 

Ação e reação

O recado de Wladimir e Caio registrado por Helinho ao presidente da Alerj se reforça pela sucessão dos fatos. Em 10 de outubro, o fim da pacificação entre os Garotinho e os Bacellar foi decretado na Câmara (confira aqui), pelo seu presidente, Marquinho Bacellar (SD), irmão de Rodrigo. No mesmo dia ele anunciou a CPI da Educação, que acabaria barrada pela Justiça (confira aqui) no dia 8 por irregularidades formais: não tinha fato determinado nem prazo de funcionamento. A decisão liminar do juiz Leonardo Cajueiro, da 4ª Vara Cível, foi favorável a uma ação impetrada pelos edis governistas Juninho Virgílio (União), Paulo Arantes (PDT) e… Fred Rangel, do PSD de Caio.

 

Histórico de Wladimir com Caio

Não é a primeira vez que Wladimir recorre a Caio, quando as coisas com os Bacellar azedam. Na eleição da primeira Mesa Diretora da atual Legislatura goitacá, a disputa pelos cargos melou o acordo que vinha sendo costurado por Wladimir e Rodrigo. O primeiro recorreu a Caio, então no PDT. Para levar à época os três vereadores do partido que definiram a fatura. Já no PSD e deputado federal, Caio também postou na semana passada, ao som do forró “Se Acabou”, um print de matéria sobre o impedimento jurídico da deputada estadual Carla Machado (PT) em se candidatar a prefeita de Campos em 2022, como articulam os Bacellar.

 

“Pedra” no sapato dos Garotinho

Desde a primeira vez que Anthony Garotinho (hoje, União) se elegeu prefeito de Campos, em 1988, incluído seu segundo governo municipal a partir de 1997 e os dois seguidos de Rosinha (hoje, União), entre 2009 e 2016, o clã Garotinho sempre teve dificuldade na chamada “pedra”. Com o eleitor de classe média, do centro da cidade, das antigas 98ª e 99ª Zonas Eleitorais (ZEs) depois reunidas na atual 98ª ZE. Das quatro ZEs de Campos, a 98ª foi a única em que Caio venceu Wladimir no segundo turno a prefeito que os dois disputaram em 2020: 60,31% dos votos válidos contra 39,69% do prefeito. Que se elegeu no geral por 52,4% a 47,6%.

 

Vice da “pedra”

Antes de se tornar o vice-prefeito de Campos com maior papel ativo no governo, pelo menos desde a Constituição Federal de 1988, o industrial, engenheiro agrônomo e produtor rural Frederico Paes (MDB) teve na eleição o papel de atenuar o histórico antigarotismo da “pedra”. Quase três anos depois daquele segundo turno a prefeito de Campos em 2020, hoje o próprio Frederico admite que Wladimir não precisa mais dele para penetrar eleitoralmente na “pedra”. Para o seu vice, o prefeito hoje conquistou expressiva parte do eleitor campista de classe média por conta própria. O que Garotinho e Rosinha nunca conseguiram.

 

Virada na “pedra”

Para além da impressão, três pesquisas eleitorais de Campos feitas em 2023 foram divulgadas, todas pela Folha. Foram a GPP de março (confira aqui), a Iguape de julho (confira aqui) e a Prefab Future de agosto. Das três, apenas a GPP fez o recorte por regiões. Dividiu sua amostragem em quatro, não exatamente as quatro ZEs de Campos. Na Região B, equivalente à 98ª ZE, Wladimir já liderava com 43,5% das intenções de voto a prefeito na consulta estimulada, com os nomes dos candidatos. Onde venceu em 2020, Caio já perdia em março de 2023, quando ficou em 2º lugar, com 21,2% de intenções de voto a 2024. Em 3º, Marquinho Bacellar teve 4,2%.

 

Quarenta e três pontos?

Se aquela amostragem de março estiver certa, a depender da urna de 6 de outubro de 2024, daqui a pouco mais de 10 meses, Wladimir parece ter virado ao seu favor quase 43 pontos na 98ª ZE, desde sua derrota parcial nela para Caio, no segundo turno de 2020. Noves fora o número absoluto de eleitores, é um feito estatístico impressionante dentro da classe média goitacá. Não é preciso ser um observador arguto para concluir que esse crescimento de Wladimir na “pedra” se deve também à sua imagem pessoal afável e agregadora, diferente do pai. Que, no caso do filho, pode ainda se reforçar com a aliança de ocasião com Caio.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Felipe Fernandes — O assassino e seu método

 

 

 

 

Felipe Fernandes, filmmaker publicitário e crítico de cinema

O assassino e seu método

Por Felipe Fernandes

 

Após realizar um projeto bem pessoal, a cinebiografia do roteirista Herman J Mankiewicz, em um roteiro escrito por seu pai que nunca havia saído do papel, o diretor e roteirista David Fincher retorna ao gênero que o consagrou. Para narrar a história de um assassino metódico e calculista que precisa lidar com as consequências após um serviço que termina de uma maneira inesperada.

Baseado na HQ francesa homônima escrita por Alexis Nolan (conhecido como Matz) e desenhada por Luc Jacamon, “O Assassino” é um exercício narrativo que traz uma abordagem bem crua sobre o universo dos assassinos. E traz o olhar muito particular do protagonista como fio condutor.

Praticamente todas as falas do protagonista (que não tem um nome oficial) são narrações, que ora funcionam como o protagonista falando consigo mesmo, reforçando todo o seu método. E em alguns momentos parecem explicar o funcionamento de sua profissão e daquele universo. Como se ele falasse para o expectador, uma característica que remete diretamente à natureza em quadrinhos da obra original, que traz uma certa sensação de intimidade.

Metódico, frio e calculista, o ritmo do longa acompanha seu narrador, que já na primeira e longa sequência explica os pormenores da profissão, apresentando detalhes que enriquecem a imersão no tipo de trabalho. Ao mesmo tempo que mostram como o personagem lida internamente com todo o processo. E como o como seu método vai sendo afetado de acordo com os acontecimentos.

O roteiro escrito por Andrew Kevin Walker (em sua segunda parceria com Fincher, ele escreveu o roteiro de “Seven”) é bem simples e dividido em capítulos, com cada um deles se passando em um local diferente e englobando uma parte da jornada do assassino. Um artifício que funciona dentro da proposta, já que cada momento tem um alvo e um objetivo diferente.

Com suas cores frias, uma direção de arte clean, sem personalidade e o rosto inexpressivo do protagonista, o longa desconstrói qualquer sentido de espetacularização ou charme, com uma abordagem sóbria, que torna tudo muito crível. Com momentos pontuais de violência. que em muitos momentos ocorrem de forma inesperada e por isso carregam um peso maior, o longa provoca uma sensação de perigo constante.

Merece destaque a atuação de Michael Fassbender, que conduz uma narração em um tom praticamente único, mas sempre frio, sem demonstrar qualquer tipo de emoção. Ao mesmo tempo, ele realiza um trabalho corporal muito interessante, que convence da segurança do protagonista em sua profissão, com movimentos precisos e uma postura segura, que são fundamentais na construção do personagem.

Em seu segundo longa em parceria com a Netflix, Fincher constrói um thriller que funciona como um estudo de personagem em sua jornada de vingança. Não é uma história muito original, mas a forma como Fincher narra a história engrandece a narrativa, construindo um longa diferente dentro do gênero, ao desconstruir as convenções para se aprofundar em seu protagonista, seu método e suas convicções.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Confira abaixo o trailer do fime:

 

 

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A paternidade e a literatura — Seis meses sem Ícaro

 

Na Israel de 27 de janeiro de 2023, Ícaro e Aluysio Abreu Barbosa na Eremos Grotto, gruta diante do Mar da Galiléia onde Jesus meditava e orava (Foto: Ícaro Barbosa)

 

 

A paternidade e a literatura — Seis meses sem Ícaro

Com Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Sérgio Arruda

 

Hoje se completam seis meses sem a presença física de Ícaro. Tanto para Dora, sua mãe, quanto para mim, o dia 13 de cada mês passou a ter um significado que nenhum azar poderia supor. Cuja dor da perda, por mais lancinante, tem que ser vencida. Pelos 23 anos da breve aventura de existência de um homem que, muito jovem, fez sua opção de voar perto do sol. Buscou seu brilho mais intenso, o refletiu na retina úmida de vida e, por isso, a consumiu mais precocemente.

O poeta português Fernando Pessoa teve sua vida e obra marcada pelos heterônimos, fenômeno de explicação espírita para alguns, de psiquiatria certamente mais complexa e profunda do que o simples pseudônimo. Quatro, em Pessoa, eram poetas: o próprio Fernando; Alberto Caeiro, mestre dos demais; Ricardo Reis, marcado pelo apego ao classicismo latino; e seu oposto em estilo Álvaro de Campos, o mais modernista do quarteto.

Em seu poema “Se te queres matar, por que não te queres matar?”, Álvaro de Campos verseja:

 

“A mágoa dos outros?… Tens remorso adiantado

De que te chorem?

Descansa: pouco te chorarão…

O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,

Quando não são de coisas nossas,

Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,

Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros…

 

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda

Do mistério e da falta da tua vida falada…

Depois o horror do caixão visível e material,

E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.

Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,

Lamentando a pena de teres morrido,

E tu mera causa ocasional daquela carpidação,

Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas…

Muito mais morto aqui que calculas,

Mesmo que estejas muito mais vivo além…

 

(…)

 

Depois, lentamente esqueceste.

Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:

Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;

Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.

Duas vezes no ano pensam em ti.

Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,

E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

 

(…)

 

Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem,

Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

 

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.

És tudo para ti, porque para ti és o universo,

E o próprio universo e os outros

Satélites da tua subjetividade objetiva.

És importante para ti porque só tu és importante para ti.

E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?”

 

Pessoa não teve filhos. Nem ortonimamente, nem por nenhum de seus heterônimos. Por melhor poeta que fosse, por mais gigantesca que fosse sua sensibilidade, nunca pôde descobrir o que é deixar de ser o centro do próprio universo. Jamais trocou a condição de sol da sua vida pela de lua, satélite que passa a orbitar com gratidão e muito cuidado em torno de uma gravidade maior.

Penso em Ícaro todos os dias. Como, creio, sua mãe também. Seja nos sonhos em que ele cotidianamente nos visita, cabelos e barba longos, abertos na vereda do seu riso largo, fácil e sacana, seja no plano consciente da luz do dia. Em ambos, entra sem pedir licença. Como foi, em vida, a única pessoa que tinha prazer em receber à casa sem avisar.

Na contraposição à dureza órfã de filho de Álvaro de Campos, Ícaro sempre esteve e estará para mim como o Menino Jesus herético de Alberto Caeiro:

 

Menino Jesus e Fernando Pessoa

 

“A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me todas as coisas que há nas flores.

Mostra-me como as pedras são engraçadas

Quando a gente as tem na mão

E olha devagar para elas.

 

(…)

 

A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segredo comum

Que é o de saber por toda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena.

 

A Criança Eterna acompanha-me sempre.

A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.

O meu ouvido atento alegremente a todos os sons

São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro,

Mas vivemos juntos e dois

Com um acordo íntimo

Como a mão direita e a esquerda.

 

(…)

 

Ele dorme dentro da minha alma

E às vezes acorda de noite

E brinca com os meus sonhos.

Vira uns de pernas para o ar,

Põe uns em cima dos outros

E bate as palmas sozinho

Sorrindo para o meu sono.

 

……

 

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.”

 

Estava ao final de tarde de sábado (11) na posse do professor da Uenf e escritor Sérgio Arruda na Academia Campista de Letras (ACL). Enquanto ele falava, como costuma acontecer por vezes e sem motivo aparente, fui tomado de uma imensa saudade de Ícaro, da angústia da sua ausência. Chorei e despertei das lágrimas à secura real do cair do dia quente, onde ecoava a voz de Sérgio sobre o fundo baixo do ar condicionado em movimento. Sem combinar, ouvi e tive consolo no que pensei ter sido escrito ao meu filho e a mim:

 

 

“Sinto o respeito aos mortos como uma atividade solene e viva. Fixados no grande e difuso painel da memória, eles, os mortos, reclamam vida — não vida de carne e osso e sangue, mas de legados.

Quando buscaram alguma glória na literatura, buscavam algo primeiro para si. E fizeram isso na palavra grafada em papel, deixando em terra de vivos insumos para a eternidade.

Não é o escritor(a) que é imortal; é a literatura.

Este mundo de escritas mantém-se vivo por esse desejo de glórias — embora sempre ameaçadas pela poeira do tempo.

Signatária de grandes propósitos no mundo, a literatura ergueu palácios de sonhos e fantasias disfarçados de choupana e palafitas sobre a maré.

Eis porque devemos tanto à literatura. Ela é anterior à própria filosofia. Ela é anterior à ciência.

Ela é anterior à teoria literária, à crítica literária.

Parece até que anterior à própria palavra.”

 

Descobri nas palavras de Sérgio que a paternidade e a literatura, pela qual Ícaro tinha paixão, são também irmãs.

 

Abaixo, o encontro de Ícaro com a ave canora no alto da Fortaleza de Massada, Canudos do povo judeu, na Israel de 3 de fevereiro de 2023:

 

 

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