Brasil de Bolsonaro — De “Onde está Queiroz?” a “Onde está a mulher do Queiroz?”

Semana fria em Atafona, enquanto as coisas esquentavam no Brasil. Os fogos de artifício lançados sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) na noite de sábado (13), por um grupo de 30 apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), simularam o que a maioria deles queria fazer com as instituições fundamentais à democracia de qualquer país. Em vídeo, um dos participantes bravateou nas redes sociais: “Desafiem o povo. Vocês vão cair. Nós vamos derrubar vocês, seus comunistas”. Do delírio bolsonarista à realidade dos dias seguintes, a resposta foi artilharia pesada.
Na manhã de segunda (15), seria a vez de Sara Geromini, ex-feminista convertida em bolsonarista fanática e líder do grupo “300 do Brasil”, ser presa pela Polícia Federal (PF). Foi a pedido da Procuradoria Geral da República (PGR), em desdobramento do inquérito das manifestações antidemocráticas, conduzido no STF pelo ministro Alexandre de Moraes, que determinou a prisão. Em Campos, no dia 15 de março, dois depois de o município anunciar o isolamento social por conta da pandemia da Covid-19, cerca de 150 apoiadores do presidente se reuniram na praça 5 de Julho, diante da Igreja Nossa Senhora do Rosário. E exibiram a faixa: “Estamos com Bolsonaro/ Intervenção militar já/ Fechem o STF, Senado e Câmara”.

Na terça (16) sobrou também para a campista Érica Viana, auxiliar de creche no município, presa após se mudar da planície goitacá ao Planalto Central para integrar os “300 do Brasil”. Na quarta (17), as duas dividiram a mesma caçamba do camburão que as transferiu da sede da PF à Penitenciária Feminina de Brasília, conhecida como “Colmeia”. No mesmo dia o advogado Claudio Gastão da Rosa Filho abandonou o caso de Sara. Que ontem (19) teve outro habeas corpus negado pela ministra Carmem Lúcia e sua prisão temporária prorrogada, em mais cinco dias, por Alexandre de Moraes.

Na quinta (18), seria a vez do Brasil responder à pergunta: “Onde está Queiroz?”. PM reformado, amigo de longa data de Jair Bolsonaro e ex-assessor parlamentar do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos), Fabrício Queiroz é apontado pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ) como coordenador do esquema de “rachadinha” do filho mais velho do presidente, quando era deputado estadual. Queiroz estava escondido na casa de Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro e conselheiro jurídico do governo. Emblematicamente, no mesmo município paulista de Atibaia, onde fica o famoso sítio custeado por empreiteiras e que servia ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e sua família.


Queiroz é também apontado pelas investigações do MP-RJ como elo do clã Bolsonaro com o Escritório do Crime, milícia da Zona Oeste carioca. Cujo ex-chefe e ex-capitão do Bope, Adriano Magalhães da Nóbrega, era acusado de envolvimento no assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Moreira, em 14 de março de 2018. Adriano chegou a depor sobre o caso, antes de ficar foragido por mais de um ano e ser morto pela PM em 9 de fevereiro, enquanto estava escondido na Bahia. À época, sua esposa e advogado denunciaram “queima de arquivo”. Como se teme agora pela vida do seu amigo Queiroz.

Em vida, o miliciano carioca tinha outros amigos. Em abril de 2005, quando estava preso pela morte do guardador de carros Leandro dos Santos Silva, Adriano foi defendido em emocionado discurso na tribuna do Congresso Nacional, pelo então deputado federal Jair Bolsonaro. Que chamou o então tenente da PM de “brilhante oficial”. Em setembro daquele mesmo ano, ainda preso, Adriano ganhou a Medalha Tiradentes, maior condecoração da Alerj, do então deputado estadual Flávio Bolsonaro. Que depois, segundo ele a pedido de Queiroz, empregou como assessoras parlamentares a mãe e a esposa do chefe de milícia já assumido e foragido.

Logo após explodir o caso da “rachadinha” de Flávio, em dezembro de 2018, sua então assessora e mãe de Adriano, Raimunda Magalhães da Nóbrega, apareceu em relatórios do Conselho de Controles de Atividades Financeiras (Coaf) como uma das que fizeram depósitos em dinheiro suspeitos na conta de Queiroz. Após a morte — ou execução? — do miliciano, o já presidente Jair Bolsonaro admitiu que foi ele quem pediu ao filho para homenageá-lo da Alerj. E reafirmou que, na época, era “um herói”. Quando vivo, o “herói” bolsonarista teve como advogado Paulo Emílio Catta Preta, o mesmo agora de Queiroz.

Transferido de Atibaia para Bangu 8, Queiroz chegou visivelmente constrangido e, segundo agentes penitenciários, chorou muito em sua primeira noite preso. Na mesma noite, em live nas redes sociais, Bolsonaro chamou a prisão do velho amigo de “espetaculosa”. E disse: “Da minha parte, está encerrado aí o caso Queiroz”. Na manhã seguinte, do delírio aos fatos, o presidente mandou de avião os três principais nomes do núcleo jurídico do seu governo se reunirem com Alexandre de Moraes em São Paulo.

Se André Mendonça, ministro da Justiça e Segurança; Jorge Oliveira, da Secretaria Geral; e José Levi, da Advocacia Geral da União (AGU), foram ao ministro do STF tentar levantar uma bandeira branca, ou se ela foi aceita, só o tempo dirá. Na dúvida, além de comandar o inquérito das manifestações antidemocráticas, Moraes está também à frente do inquérito das fake news. Nele, para muita gente que acompanha de perto a mais alta Corte da República, o ministro só não pediu ainda a prisão do vereador carioca Carlos Bolsonaro (Republicanos), apontado pela PF como comandante do “gabinete do ódio”, por um motivo: porque não quer.


Enquanto isso, a pergunta que não quer calar mudou. Agora é: “Onde está a mulher do Queiroz?”. Foragida da Justiça, Márcia de Oliveira Aguiar já está na lista de procurados da Interpol. Quem se lembra de como a Java Jato começou, em março de 2014, não deve ter esquecido que ela só andou quando, após prender o então diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, a mesma ameaça chegou à sua família. Só daí ele falou o que sabia. E deu no que deu.

Publicado hoje (20) na Folha da Manhã

















“Voltem para os porões dos navios negreiros, pras (sic) senzalas ou pros (sic) quilombos”. “A pia da cozinha de casa deve está (sic) com bastante panela suja”. “Engraçado eu não posso abrir o comércio (sic) mas esses desocupados podem se reunir e ficar gritando no centro! Agora basta não jogar bomba e nem quebrar nada para não tomar gás da PM!”. “Manda trabalhar pra ver, vai falar que está com Covid”. “Trabalhar ninguém quê (sic) né!”. “Vão pra casa desgraçados”. “Filhos da p(…). Vão para casa. Não coloquem nós médicos em risco. Nojentos”. Essas foram alguns comentários postados pelos autointitulados “patriotas” e “cidadãos de bem” na página do Folha1 no Facebook, nos link das lives do protesto “Vidas Negras Importam”. Que no início da tarde da última quarta (10) reuniu (confira 











O manifesto assinado pelo Movimento Unificado de Negros e Negras de Campos, mais 36 instituições e grupos da cidade, pareceu também antever as reações dos defensores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido): “Seus seguidores, cada vez mais, demonstram ser racistas”. E o link da live do ato antirracista na página do Folha1 no Face, recebeu respostas como: “Até os terreiros e as casas estão fechadas, e vcs fazendo esta palhaçada, por conta de um negro morto nos EUA. Sabe quantos morreram hoje no Brasil, por conta da Covid-19? Seria mais útil e responsável, inclusive, deixando Exú (sic) e Oxalá mais felizes. Loirinha falsa”; ou “Pior é a Folha da Manhã, com várias reportagem (sic) disso, falta de coça nesse povo”.






Depois da ação da PM na última sexta (5), que usou (confira 










