Cláudio Castro, governador do estado do Rio de Janeiro
Mais investimentos no Rio de Janeiro com contas sob controle
Lei Orçamentária Anual do Governo Estadual prevê déficit zero para 2022
Por Cláudio Castro
Desde que assumi o governo, deixei claro que o diálogo, o trabalho e a simplicidade seriam a base da minha gestão, e a responsabilidade fiscal seria a tônica da minha gestão. A partir daí, nos esforçamos diariamente para recolocar o Rio de Janeiro no caminho certo. Realizamos a concessão do saneamento, temos mantido as contas e os salários dos servidores em dia e anunciamos o maior pacote de investimentos do governo para os próximos anos: o PactoRJ, o alicerce da retomada do crescimento econômico e mola propulsora na melhora da qualidade de vida de milhões de fluminenses.
Agora, enviamos para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro todo o nosso planejamento financeiro para o ano que vem, o Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2022, com déficit zero. Isso significa que todas as nossas despesas previstas serão honradas. É o que a sabedoria popular ensina: a gente só gasta o que pode pagar.
E por que algo que deveria ser corriqueiro, se tornou um marco?
Primeiro, porque desde 2017 vivíamos no vermelho. Em 2021, começamos o ano com um rombo de R$ 23 bilhões nas contas estaduais. Em harmonia e em colaboração com todos os Poderes, revertemos o que parecia sem solução.
Depois, porque as despesas previstas para 2022 não são apenas as obrigatórias ou as que servem somente para a manutenção da máquina pública. Nesta proposta orçamentária, destinamos mais de R$ 6 bilhões para investimentos, o que vai permitir a realização de projetos que trazem melhorias para todo o estado. Só em infraestrutura, serão aplicados mais de R$ 3 bilhões, que vão resultar em contratações, geração de emprego e desenvolvimento econômico. Em nosso planejamento, também não nos esquecemos dos que mais precisam. Reforço nosso compromisso com os mais pobres, ao garantir no orçamento mais de R$ 1 bilhão para ações de desenvolvimento social e cidadania, o quádruplo do que foi destinado em 2021.
Diante do empenho de nossa equipe econômica, a perspectiva é de aumentar a arrecadação em quase 20%, em relação a 2021, o que confirma que o Estado conseguiu reativar sua economia. Além disso, controlamos as despesas de pessoal e mantivemos as de custeio no mesmo patamar do ano anterior, por meio do acompanhamento diário dos gastos públicos.
Os números positivos vêm acompanhados da adoção de inovações gerenciais. Trabalhamos para integrar o planejamento e orçamento do Estado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, medida que nos colocará totalmente alinhados às necessidades e apelos do planeta.
Outra novidade será a abertura do ano orçamentário, especificamente para investimentos, em 2 de janeiro de 2022. A medida inovadora vai permitir que o governo ganhe tempo com a execução do planejamento.
O processo de retomada levará algum tempo e não será de um dia para o outro. Neste último ano, construímos os pilares para o crescimento econômico e a geração de empregos. Estamos consolidando novos tempos que permitam ao nosso povo sonhar com um futuro melhor. Muita mais que apenas números, o reflexo da gestão é percebido também em cada oportunidade de trabalho criada, cada empresa desembarcando no Rio e cada vida transformada.
Com Arnaldo Neto, Cláudio Nogueira e Matheus Beriel
Ainda que incapaz de fazer valer sua oposição e desejo do impeachment do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na bancada federal do Partido Novo que fundou em 2010, mesmo sendo ex-presidente da legenda e pré-candidato por ela a presidente da República em 2018, o empresário e engenheiro João Amoêdo levanta a bandeira do liberalismo pela necessidade de uma terceira via na eleição presidencial de 2022. Usada pelo capitão para se eleger, a quem apoiou no segundo turno, a face nacionalmente mais conhecida do Novo julga que qualquer compromisso com o liberalismo na economia do país, assim como com a luta contra a corrupção, foram abandonados pelo governo federal. Amoêdo, no entanto, não vê no ex-presidente Lula (PT), favorito em todas as pesquisas e principal opositor de Bolsonaro, uma opção melhor para governar o país, nas urnas de daqui a um ano. Em entrevista ao programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, na manhã de ontem (1º), ele disse que votaria nulo em um segundo turno entre o ex-presidente e o atual. Homem do mercado, criticou os empresários que ainda continuam apoiando Bolsonaro. Assim como o PT que “em nenhum momento teve a hombridade e a coragem de dizer ‘nós erramos’. E quando alguém não reconhece os seus erros, a minha leitura é de que ele está pronto para cometê-los novamente”.
João Amoêdo (Foto: Divulgação)
Gravidade da crise econômica no Brasil – Realmente, o quadro é muito ruim. E o reflexo disso, que é a pior coisa, é que nós temos aí 19 milhões de brasileiros passando fome e 110 milhões de brasileiros numa insegurança alimentar, quer dizer, não sabem se terão um prato de comida no dia seguinte. Nesse cenário de inflação, nesse mês de agosto, a gente teve o IPCA que foi o mais alto desde o Plano Real. Então, é um quadro dramático. E, infelizmente, o que eu entendo é que está por trás disso a falta de ação do governo. O resultado disso é que o Brasil, apesar de crescer, provavelmente vai crescer um pouquinho superior a 1%. E as previsões para 2022, que começaram lá na faixa de 2%, por bancos, instituições financeiras, hoje já estão na casa de 0,5%. Então, é um cenário muito ruim para 2022, certamente também terá impacto aí no quadro eleitoral. O Brasil já vem há muito tempo, alguns anos, com um quadro onde gasta mais do que arrecada. Então, nós temos um déficit nas contas públicas mesmo antes de fazer o pagamento dos juros. Isso faz com que o governo acabe demandando capital, acabe demandando investimentos para pagar suas contas, demanda dinheiro do poupador. Esse dinheiro, que poderia estar indo para a geração de emprego, para iniciativa privada, boa parte vai financiar a dívida pública. E, além disso, você tem um nível de insegurança muito grande no quadro político brasileiro, muitas incertezas, até mesmo em relação ao processo eleitoral conduzido pelo presidente da República.
Sem reformas e venda de estatais – Nós teríamos que fazer reformas estruturais. No Brasil, a gente gasta mais de 50% do gasto do Estado com pagamento de aposentadorias. A reforma da Previdência foi feita. Só que toda a economia que foi prevista para os próximos 10 anos foi gasta aí praticamente durante a pandemia. Nós precisaríamos fazer também uma reforma tributária, porque o Brasil é um país que tem não só uma carga elevada de tributos, como ela é muito complexa. Então, você, para calcular os seus impostos, gasta muito tempo. Isso traz uma série de inseguranças e, depois, passivos fiscais. O Brasil é um país que tem muitos privilégios, especialmente na classe política, e em certo nível de servidores públicos. Isso também precisaria ser feito com a reforma administrativa, que trouxesse eficiente a máquina, e não foi feito. A reforma tributária não aconteceu, o Brasil não conseguiu equilibrar suas contas. Havia uma promessa também de que nós vendêssemos estatais, porque o governo deveria estar atuando naquilo que é essencial paro brasileiro: saúde, segurança, educação, e não administrando posto de gasolina, administrando extração de petróleo, instituições financeiras. E isso também não aconteceu. E nós temos ainda no Brasil quase R$ 350 bilhões que são benefícios fiscais dados por determinados setores, dados para determinados grupos. É dinheiro que sai do bolso do pagador de impostos para privilegiar setores que conseguem justamente colocar seus interesses aí à frente dos interesses da grande maioria. Então, tudo isso precisaria ser revisto.
Promessas x prática – Apesar do discurso do ministro Paulo Guedes e das promessas de campanha do presidente Bolsonaro, isso não aconteceu na prática. E, claro, com todo o quadro da pandemia, nós estamos ficando para trás. Estamos, hoje, num cenário de estagflação. Você está estável, você não cresce e, ao mesmo tempo, você tem inflação. Então, apesar de não crescer, o Banco Central sobe a taxa de juros para desestimular a economia. Então, nesse cenário, como é que a gente vai gerar renda, como é que a gente vai permitir que as pessoas tenham emprego quando o cenário é muito adverso? Então, eu volto a dizer, o que a gente deveria fazer seria implementar essas reformas. O governo privatizar, diminuir o ruído político, para que as pessoas pudessem ter segurança no Brasil para investir. Não só os brasileiros, mas também aqueles investidores externos. Em razão de tudo isso, eu acho que nós temos um quadro muito preocupante. A gente vê esses sinais todos não só na economia real, quanto no mercado também. Dólar subindo, consequentemente sobe a gasolina, consequentemente há uma série, vamos dizer, um ciclo vicioso que nos impede de crescer e gerar renda. O Brasil, nos últimos 10 anos, teve praticamente um crescimento negativo da renda per capita, né? Então, de novo, nós não estamos conseguindo combater a pobreza na medida em que o país não consegue gerar riqueza.
Guedes “virou a chave” – Paulo Guedes sempre teve um bom discurso de linha liberal, na linha das reformas que precisavam ser feitas no Estado brasileiro, para permitir que o empreendedor, especialmente o pequeno, possa sobreviver, e não apenas os grandes, no ambiente com pouca concorrência. Isso era para melhorar a vida das pessoas, gerar mais emprego. Então, ele sempre teve um discurso alinhado naquilo que eu acredito. Mas, infelizmente, na execução foi muito ruim. Não foi capaz de colocar o Congresso para tratar esses temas como a pauta prioritária. Ultrapassamos agora mil dias de governo e praticamente nada foi feito, com exceção da reforma da Previdência, que já vinha do governo Temer. Guedes se comprometeu com várias coisas, inclusive dando prazos, e nada aconteceu. Ficou transparente que ele mudou a chave. Passou a trabalhar com propostas que têm como principal objetivo não resolver a vida do brasileiro, mas dar algum alívio temporário, única e exclusivamente com foco nas eleições de 2022, sem fazer as reformas estruturais que são relevantes. E eu não vejo ele mudando esse roteiro. O que ele vai tentar fazer é aumentar um outro auxílio emergencial, mas não serão reformas estruturais. Então, obviamente, para quem quer investir, fica a sensação de que nada mudou. E, consequentemente, você não atrai recursos para reverter esse fato. Ele passou a ser muito mais um propagandista do governo. Está mais para ministro da Comunicação do que ministro da Economia, infelizmente.
Racha no Novo por impeachment de Bolsonaro – O Novo está muito consciente dessa pauta econômica. As grandes desavenças que existem no partido, hoje, estão mais ligadas a um apoio político ou não ao presidente Bolsonaro. Enquanto o partido se declarou como oposição, inclusive a favor do impeachment do presidente, a bancada federal, que eu diria que é o grupo de mandatários mais relevantes do Novo, esse grupo não se coloca majoritariamente favorável ao partido se colocar como oposição e a favor do impeachment. Então, isso, no meu ponto de vista, como filiado e como eleitor, cria uma dubiedade. Afinal de contas, esse partido é oposição a esse governo ou esse partido apoia esse governo? Eu acho que talvez fosse uma dúvida que pudesse existir nos primeiros seis meses, quando você fica esperando que as promessas de campanha sejam cumpridas. Mas, passados aí mil dias, tendo visto tudo o que foi feito e, principalmente, o que não foi feito, o desempenho do governo do presidente durante a pandemia, esse quadro econômico, na minha avaliação, nada justifica ainda não ter uma postura de oposição em relação ao governo.
Liberalismo é viável no Brasil? – Eu diria que o liberalismo não é só viável, como é muito necessário no Brasil. E é importante entender isso, porque muita gente diz o seguinte: “Bom, o Brasil é um país muito pobre. Como é que nós podemos diminuir o tamanho do Estado num país que tanto tem tantas carências?”. O problema é que o Estado brasileiro cresceu e inchou não para atender aos interesses do cidadão; ele cresceu e inchou, para atender a certos grupos privilegiados, para atender à classe política que se perpetua no poder. E todo esse crescimento deixou um ônus ao cidadão brasileiro. Nós temos incentivos fiscais de R$ 350 a 360 bilhões, que são 10 vezes o volume do Bolsa Família. Então, há uma inversão no nosso processo. É um Robin Hood às avessas. Ele concentra a renda para quem mais tem, tirando daquele que precisa. E qual é a ideia do liberalismo? A ideia do liberalismo é que o Estado de novo coloque o cidadão no centro do poder; tire o poder do grupo de privilégios, de grupos de interesse. É óbvio que nós precisamos de um Estado eficiente, de um Estado que possa atender aos mais pobres através de programas sociais que funcionem, mas que também, principalmente, crie um sistema educativo em que as pessoas possam crescer, que dê liberdade para elas empreenderem. Se tem uma carga tributária tão complexa, tão difícil, que você acaba viabilizando exclusivamente os grandes grupos, o que faz com que diminua a concorrência.
Como ficariam programas sociais com Banco do Brasil e Caixa Econômica privatizados? — Essa é uma boa questão. Eu continuo totalmente favorável à privatização da Caixa e do Banco do Brasil. Eu entendo que esses bancos privatizados teriam eficiência maior na sua atuação. Os programas assistenciais são importantes, especialmente o Bolsa Família, do qual sempre fui um grande defensor. A única coisa sempre que eu pontuo é que o sucesso do programa deve ser não pela quantidade de pessoas que ele atende, mas pela quantidade de pessoas que ele deixa de atender. Isso mostra que a pessoa, a partir de determinado momento, conseguiu montar o seu pequeno negócio, conseguiu um emprego e não está mais dependente daquilo. Essa é a única ressalva que eu faço. E esses programas que são conduzidos pelo Banco do Brasil, pela Caixa, eles recebem dinheiro do governo. Por exemplo, o próprio auxílio emergencial, que foi o único e exclusivamente distribuído pela Caixa. A verba veio do governo. Essa verba poderia ter sido direcionada para qualquer banco. Qualquer instituição poderia ter feito esse trabalho pelo governo, até talvez melhorasse para o cidadão. A gente viu, durante a pandemia, pessoas fazendo fila na Caixa Econômica para receberem o auxílio. Se, ao invés da Caixa apenas, tivéssemos o Banco do Brasil ou uma instituição privada, o Bradesco, o Itaú, participando disso também, seria melhor serviço. Então, acho que os produtos, hoje, os serviços podem, sim, continuar suportados pelo governo, mas não necessariamente com exclusividade para os bancos públicos, porque isso também é uma armadilha dos nossos políticos. Ao colocar o dinheiro, por exemplo, pela Caixa, parece que aquilo é algo que está sendo feito pelo presidente da República, quando, na verdade, aquilo é uma ação do Estado. Dá, sim, para fazer a privatização e manter os programas, de forma até talvez mais eficiente.
Privatização da Petrobras com várias estatais do petróleo no mundo – Primeiro, é interessante, e eu acho que essas menções até ajudam a mostrar a importância da privatização. Várias das empresas dos países citados são em países de estado árabe. Países claramente com viés estatal, como a China. Interessante que nessa lista, vamos deixar a Noruega de lado, a gente já volta a ela, que talvez seja o único ponto fora da curva aí, mas nós não tivemos nenhuma empresa da Alemanha, nenhuma empresa dos Estados Unidos, nenhuma empresa da Austrália, onde, justamente, a qualidade de vida do cidadão é muito melhor do que desses países citados. Isso é muito interessante. Quer dizer, a renda per capita dos países que não têm empresas estatais é muito maior, a qualidade de vida é muito melhor. Por quê? Porque, com a concorrência, você tem preços melhores. Porque não cabe ao Estado fazer esse trabalho de prospecção, ele pode ser feito pela iniciativa privada, e preferencialmente sem que monopólio. Hoje, mais de 90% do refino de petróleo no Brasil é feito único e exclusivamente pela Petrobras. Então, você tem um monopólio na atuação. E o ideal para o consumidor é que você tenha concorrência, para que ele tenha preços mais competitivos, serviços melhores. A Noruega é um país bem menor, tinha uma tradição já de uma economia diferente da nossa. Acho que um exemplo citado também, que é a Venezuela, é um país rico em petróleo e que tem um caos na sua economia. Então, fica claro que esses países foram por esse caminho, basicamente, porque têm uma visão de concentração no Estado, de concentração de poder, e não de melhoria de vida da população.
Porto do Açu e nova termelétrica GNA – Eu acho que é um importante investimento, sem dúvida. O Rio é um polo no setor de gás e óleo. Então, é fundamental a gente poder usar isso como uma vantagem competitiva, para nós crescermos. Mas acho que quando isso vem junto com a iniciativa privada, você tem algo muito mais sustentável e mais eficiente. Eu acho que é uma melhor alocação dos recursos. Então, se puder sempre, nesses casos, serem feitas parcerias público-privadas, sai um processo mais interessante, com maior capacidade de crescimento. Mas, sem dúvida, o Rio tem esse destaque e tem que aproveitar essa sua vantagem competitiva nesse segmento.
Série de painéis da Folha aponta retomada da vocação agropecuária, parceria com universidades e pregão eletrônico como soluções à crise financeira de Campos — Eu gosto muito das três. Se eu tivesse que acrescentar mais uma, até aproveitando a questão do polo universitário, que é algo fundamental hoje no mundo, seria mais inclusão digital. Quer dizer, geração de tecnologia, geração de software. Eu acho que a gente, o Rio de Janeiro, e aí falo não de Campos, mas do estado como um todo, poderia, sim, ser como a gente brinca que tem nos Estados Unidos um Vale do Silício. Quer dizer, o Rio poderia ser um lugar para formação nessa área tecnológica, de um ambiente mais digital. Quer dizer, geração de softwares, usando a inteligência que existe das pessoas no estado, o preparo para isso. Então, eu acrescentaria apenas esse quarto polo. Mas, acho que é um ótimo caminho, porque sempre esses programas e a estrutura que se faz têm que ser baseados nas suas vantagens competitivas. Acho que o ponto de partida é esse. Então, acho que foram muito bem acertados os pontos que vocês levantaram aí.
Página 2 da Folha da Manhã de hoje
Empresariado é hoje único segmento em que Bolsonaro tem maioria – Apesar de Bolsonaro estar em tendência clara de derretimento, ainda tem essa aceitação no grupo empresarial (47%, segundo a Datafolha de setembro). Na sua campanha, Bolsonaro se comprometeu com a Lava Jato, não se aliar a forças do Centrão, retomar o crescimento econômico, fazer privatizações, liberar economia, aumentar a nossa competitividade, fazer as reformas. E nada disso aconteceu. Quer dizer, o Bolsonaro foi exatamente na direção contrária: desfez a Lava Jato, aparelhou órgãos de Estado, tinha trazido o ministro Sérgio Moro no primeiro momento e tirou. No plano econômico, tem a atuação muito ruim do ministro da Economia, com volta de inflação e desemprego. Para piorar tudo isso, há duas características que, no meu entender, são muito graves: primeiro, o tratamento que ele deu à pandemia. Lá em março de 2020, ele disse que aquilo não era um problema, que poucas mortes existiriam. A partir de então, ele trabalhou a favor do vírus, privilegiando manifestações, não usando máscara, retardando a compra da vacina, não dando exemplo. Isso tudo foi muito ruim. E o segundo é o ataque às instituições democráticas, o questionamento do nosso sistema eleitoral, que vem funcionando há muitos anos. Com tudo isso e com os resultados que ele tem apresentado, no meu entender, a avaliação deveria ser ainda pior. E eu acredito que irá piorar, sim, porque o brasileiro está sentindo no bolso. Essa semana, a gente teve aí fotos das pessoas indo atrás de ossos, porque estão passando fome. É uma situação deplorável, fruto de uma má gestão pública. Não há nenhuma avaliação positiva do governo federal, em nenhuma frente. Para complementar, a questão do meio ambiente. Fazendo com que o Brasil, inclusive, tenha uma imagem no exterior hoje muito ruim. E o presidente vai à ONU e faz um discurso totalmente descolado da realidade. Então, de novo, eu me admiro com esses 47% dos empresários que ainda dão como positivo. Em março de 2020, no pronunciamento do Bolsonaro sobre a pandemia, me coloquei já defendendo que ele renunciasse. E, logo no mês seguinte, em abril de 2020, há praticamente um ano e meio, passei a defender o impeachment, pelos inúmeros crimes de responsabilidade que ele já tinha cometido. E continua cometendo.
Dos oito deputados federais do Novo, só três votaram com a orientação do partido contra o voto impresso – Eu acho que não tem explicação. Previamente à votação (em 17 de agosto, na Câmara Federal), eu coloquei nas redes sociais uma menção dizendo que, infelizmente, a gente, naquele dia, veria mais uma vez alguns integrantes da bancada do Novo votando contra a orientação do partido. Como a gente já sabia que havia posicionamentos destoantes em relação a ser oposição e ao impeachment. Eu fiz exatamente essa observação, que causou até um certo incômodo: se não há alinhamento dos mandatários com o partido nas pautas relevantes, não me parece que faria sentido aqueles mandatários concorrerem novamente pelo partido num próximo pleito. Eles podem ter lá os motivos pelos quais votaram diferente da instituição, mas não faz sentido você estar na instituição se, para temas relevantes, você tem um entendimento tão distinto. E o governo Bolsonaro, claramente, não segue os princípios e valores do Novo: os princípios da transparência, os princípios de cortar privilégios e benefícios. Bolsonaro é o presidente que mais gasta cartão corporativo. É um governante que ataca constantemente as instituições, ataca a imprensa, não tem preocupação com a vida humana. São coisas que nós assistimos frontalmente contrárias ao que o Novo acredita, ao que o Novo nasceu para existir. Então, não tem como, na minha avaliação, um partido político que foi concebido com princípios, com a vocação diferente, diametralmente oposta à do Bolsonaro, não se colocar como oposição a isso tudo. Centenas de milhares de brasileiros morreram pela irresponsabilidade do presidente da República. Não tem como, enquanto partido político, nós ficarmos calados e não nos colocarmos como oposição, uma voz forte gritando contra isso. Mas, hoje, eu sou apenas um filiado.
Experiência da eleição presidencial de 2018 – Eu digeri extremamente bem as eleições de 2018. Eu acabei chegando em quinto lugar, não sendo uma figura pública, no primeiro pleito em que eu participei, num partido pequeno, sem usar dinheiro público, sem participar de nenhum debate. E, mesmo assim, cheguei à frente de pessoas que estão na política há muito tempo, como o senador Álvaro Dias (Podemos), a ex-senadora Marina Silva (Rede), o ex-ministro Henrique Meirelles (MDB). E relativamente próximo do candidato do PSDB (ex-governador paulista Geraldo Alckmin), que gastou muito mais recurso e tinha uma estrutura muito maior. Então, óbvio que eu digeri muito bem. Meu grande problema é com as realizações ou a falta de realizações do governo Bolsonaro.
Bolsonaro renova a força do PT – A minha crítica a Bolsonaro, forte, não tem nada a ver com o pleito de 2018. Mas, sim com a atuação dele após as eleições. Inclusive, como a gente está vendo nas pesquisas, muita gente dizia que estava votando no Bolsonaro porque não gostava do PT, para derrotar o PT, e o que estamos assistindo hoje é um PT mais forte do que nunca, apesar de tudo o que fez lá atrás, basicamente pela aversão que o Bolsonaro criou em torno de si e do seu governo. Olhando 2022, o que que a gente vê hoje, a grosso modo, são 40% a 45% dizendo que votarão no Lula, 25% a 30% dizendo votarão no Bolsonaro.
Terceira via – Os outros cerca de 30% entre indecisos, brancos, nulos e distribuídos aí em meia dúzia de candidatos. E ninguém conseguiu ainda ser um polo catalizador desse desejo do nem Lula e nem Bolsonaro. Na medida em que o tempo passa e nenhum desses se torna esse polo e a aversão ao Bolsonaro vai ganhando mais espaço, o Lula, mesmo sem aparecer, mesmo sem fazer nada, vai conquistando esses votos. E a plateia, vamos dizer, os eleitores fiéis do Bolsonaro vão diminuindo, mas tem um núcleo duro que permanece com ele. Aparentemente, hoje, esse é o cenário que vai se consolidando. A minha visão é de que, nos próximos 30, 60 dias, teremos aí várias definições. A primeira é essa questão do PSDB, que terá suas prévias. Então, a gente vai saber se se será Eduardo Leite ou João Dória, está muito indefinido ainda. Outra questão importante é se o Moro, que tem também aí a questão da Lava Jato, é reconhecido como alguém que combateu a corrupção de forma muito eficaz, vai entrar ou não no pleito. Mas, mesmo essas definições podem ainda fazer com que a gente continue nessa situação. O que eu acho que mudaria radicalmente esse quadro seria, de fato, o impeachment do Bolsonaro, que é devido. Acho que é um quadro que seguirá indefinido por um tempo.
Divisão na divisão – Esse é um problema que acontece hoje: as candidaturas, não podia ser diferente, elas nascem dentro dos partidos. E os partidos políticos, hoje, têm uma divisão interna. A gente falou um pouco do Novo, mas não é só no Novo. Vários partidos: o DEM, o MDB, o PSDB, estão entre uma ala mais pró-governo e uma ala antigoverno. E essas divisões internas têm dificultado o endosso de uma candidatura única naquele partido. O Mandetta, por exemplo, na minha avaliação, é o exemplo disso: ele já se colocou lá como quadro no DEM, mas acaba não tendo, por parte do partido, a validação. Porque o DEM, ao mesmo tempo, tem quadros estaduais que são favoráveis ao Bolsonaro e que querem concorrer. Então, você tem uma Tereza Cristina, atual ministra da Agricultura, que vai sair para Mato Grosso do Sul; um Onyx Lorenzoni, ministro do governo Bolsonaro, que vai provavelmente sair para o Rio Grande do Sul. Então, eu acho que nós teremos ainda muitas indefinições no nível federal, enquanto os partidos, os seus membros vão tentar fazer as estratégias locais dentro do seguinte raciocínio: se no final das contas a gente realmente ficar numa eleição totalmente polarizada, com pouca chance de reverter, deixa eu pelo menos fazer a minha bancada de deputados e os meus representantes majoritários.
Siga o dinheiro – Por que que a bancada de deputados é muito importante para esses partidos? Porque eles vivem do fundo eleitoral e do fundo partidário. E esses recursos são proporcionais à quantidade de deputados federais que você tem. É um sistema muito ruim, porque é dinheiro do cidadão brasileiro que deveria estar indo para saúde, para educação. O Novo não usa fundo eleitoral e não usa fundo partidário, dinheiro que poderia estar sendo alocado em outras áreas e está sendo utilizado para campanhas políticas ou para manutenção de partidos e até de salários. Recentemente, saiu uma matéria mostrando que o ex-presidente Lula, o Ciro Gomes (PDT) como (pré-)candidato, o Roberto Jefferson (PTB), todos eles recebem remunerações dos partidos, que são bancadas pelo dinheiro público. Quem está nos assistindo, é bom saber que está pagando algum imposto em algum produto, que um pedaço desse imposto está indo pagar o salário do Roberto Jefferson. Então, eu acho que esse quadro ainda está muito indefinido e, pelos partidos, vai ser difícil uma reversão, na minha avaliação.
Pouca evolução – Uma mobilização da sociedade, em manifestações e em outras formas, nas mídias sociais, vai ser fundamental para a gente dar viabilidade a um candidato. Essa terceira via evoluiu muito pouco nessas discussões. Eu cheguei a participar de um ou outro movimento, quando a gente fez uma carta em defesa da democracia, mas o fato é que esse grupo pouco evoluiu. Acho que deveria ter evoluído numa pauta comum para retomada da economia, que é fundamental para o Brasil. Uma pauta comum para defesa do meio ambiente, para responsabilidade fiscal, para problemas sociais, e também um compromisso de que o próximo governante deste bloco se comprometesse a um único mandato. Seria uma forma de você não estar preocupado com reeleição, não ter nenhum acordo que pudesse trazer qualquer tipo de interesse contrário ao cidadão brasileiro. Mas, houve pouca evolução. Ainda tenho esperança que isso possa acontecer, mas o tempo está passando. A gente está aí a 12 meses exatos do pleito. Eu ainda estou vendo com algum ceticismo o combate a essa polarização hoje existente, o que não quer dizer que eu não vá continuar a trabalhar como cidadão e aproveitando a exposição dada pelo pleito de 2018 para tentar viabilizar algo. De novo: um programa, um pleito e alguns compromissos daquele que poderia ser o único representante, para que a gente possa agregar e ter mais chance nessa briga com os dois, que têm, obviamente, uma base eleitoral, uma exposição muito maior do que os demais nomes.
Pouco público nas manifestações antibolsonaro de 12 de setembro sem PT e Psol – Em termos de público, as manifestações de 12 de setembro, de fato, foram fracas. Mas elas tiveram um componente que eu julguei muito relevante. Estavam lá praticamente ou participaram dela, em tese, todos os presidenciáveis do outro lado. Estavam nas manifestações o Eduardo Leite, a Simone Tebet (MDB), o Henrique Mandetta, Ciro Gomes, o Alessandro Vieira (Cidadania). Então, assim, se mostrou ali que existe uma possibilidade de união. Nesse sentido, eu achei muito positivo. Agora, de fato, a gente volta ao ponto que eu comentei: a sociedade precisa se engajar, precisa participar. Sem isso, sem demonstrar que há um desejo genuíno da sociedade de mudança, que não pode ser expresso apenas numa vontade quando perguntado sobre uma pesquisa de como é que vai o governo Bolsonaro, tem que ser um processo muito mais ativo. E que isso não aconteceu nas manifestações.
Possibilidade de liquidar a fatura no primeiro turno – Se não houver esse enfrentamento, fica mais provável, de fato, a gente ter, daqui a 12 meses, uma polarização muito forte já no primeiro turno. E, eventualmente, até uma definição no primeiro turno. Agora, a gente precisa ter consciência também de que todo esse recuo do Bolsonaro, essa carta escrita pelo Temer, isso tudo são movimentos estratégicos com os quais ele não tem nenhuma convicção. Ele fez apenas para ganhar terreno, um terreno em que ele avançou fortemente. Ele cruza as barreiras e depois retrocede um pouquinho. Mas ele vai, com isso, ganhando espaço mais à frente. E se a gente não fizer como sociedade, dado que o Congresso não está fazendo isso, esse bloqueio, essa conta será nossa lá em 2022.
Nem Lula, nem Bolsonaro – Não gostaria de ter nenhum dos dois como presidente da República: o Bolsonaro, por todos o desgoverno que ele fez, por todos os atentados à democracia. E vamos imaginar num cenário em que ele é eleito, isso será ainda pior, né? Sem ter que fazer as promessas que no primeiro momento ele fez, ele vai dobrar as apostas. E, do outro lado, um presidente que participou de um partido que teve o Petrolão, teve o Mensalão, teve recessão (no governo Dilma Rousseff), e um partido que em nenhum momento teve a hombridade e a coragem de dizer “nós erramos”. E quando alguém não reconhece os seus erros, a minha leitura é de que ele está pronto para cometê-los novamente. E com projeto também de perpetuação no poder, numa linha populista.
O que falta? – Esse quadro me preocupa muito. Para revertê-lo, a gente precisa ter consciência, de fato, que só acontecerá se houver engajamento da população. Então, hoje, o cenário ainda é preocupante, porque não adianta nós ficarmos achando que virá alguém que, do nada, aparecerá e será capaz de conjugar um excelente plano de governo, conjugar a popularidade, um carisma, um cacife eleitoral que, nesses próximos meses, irá suplantar esses dois. É um processo difícil. Vamos lembrar que o Lula, antes de ser eleito, concorreu três vezes à presidência. Ele foi eleito na quarta, né? E é uma pessoa que fala bem, tem carisma. Podemos discordar do que ele fala, e eu discordo frontalmente dos conceitos, mas é uma pessoa que tem essa capacidade. Mas, mesmo assim, teve vários pleitos até ser eleito.
Voto nulo entre Lula e Bolsonaro – E até brinquei uma vez numa entrevista: você prefere morrer enforcado ou com um tiro? Porque, assim, eu me sinto morrendo junto com o Brasil e perdendo, eventualmente, mais uma década. Porque os dois, vamos lá: o Bolsonaro é um péssimo gestor, nunca foi um mandatário relevante, isso é fato. Com 28 anos, ele se mostrou, na prática, incapaz de colocar uma equipe, não tem conceitos em relação ao que deve ser o Estado. As suas prioridades, hoje, a um ano de eleição, e já há algum tempo, sempre foram eleitoreiras. Ele mostra que não está muito preocupado com o Brasil, foi um péssimo gestor, populista, não foi um líder, foi um mau chefe, eu diria. Escolheu pessoas em algumas pastas em que a gente teve muitos problemas, né? Meio Ambiente, Educação, o outro no Ministério das Relações Exteriores, uma série de cenários. Está muito mais preocupado consigo e sua família, com os filhos, em se proteger de acusações, do que propriamente governar o país. Para o que ele não tem nem vontade nem capacidade, e o país precisa muito disso. O presidente que assumir em 2023 vai pegar uma economia dilacerada, pessoas passando fome, um meio ambiente totalmente destruído, as instituições enfraquecidas. Então, não será um trabalho fácil. Do Lula, do outro lado, muita gente diz: “não, mas o Lula é mais democrático”. Eu não tenho esse entendimento, porque um partido que fez um esquema de voto de compra de votos nacional não me parece algo democrático. Você está indo brutalmente contra a democracia quando você está comprando pessoas lá. De novo: nos entregou, por ideias equivocadas, especialmente no trato da economia, um período de também realizações ruins. No governo da Dilma, não vamos esquecer, tivemos recessão forte em dois anos, e muito do crescimento que o Lula disse que teve, se mostrou que é insustentável. Programas assistenciais que não fizeram com que o Brasil, de forma consistente, saísse estruturalmente da pobreza. E tem o mesmo discurso populista de salvador da pátria. Acho que os dois têm essa característica. Não é isso que a gente precisa para a nação. E tem práticas também contra a liberdade, liberdade de imprensa, ele já falou que pretende regulamentar a mídia. Então, assim, são dois cenários, motivos alguns semelhantes, outros um pouco diferentes, mas que não farão com que o Brasil possa ser um país onde as pessoas tenham uma qualidade de vida melhor. Por isso coloco um voto nulo aí, porque não gostaria de endossar nenhum dos dois. E deixar esse alerta, de que a gente precisa trabalhar fortemente para ter outra opção.
Eleição a governador do Rio – Estou fora lá do Novo, até do processo seletivo. Eu não sei se o (deputado federal) Paulo Ganime já é definido (como pré-candidato a governador pelo Novo). A notícia que eu tenho é de que também tem outra pessoa, que é a Juliana Benicio, que foi candidata pelo Novo à Prefeitura de Niterói, que também me parece que vai participar ou já está participando da disputa interna pela vaga de candidata. Então, do Novo, talvez ainda tenha essa indefinição aí de quem seria o candidato. De novo, no Rio eu acho que está se formando também essa mesma polarização que a gente tem em nível nacional. Eu diria que de um lado, pelo governo Bolsonaro, a gente tem o Cláudio Castro (PL), atual governador, representando isso. E do outro lado, apesar de não estar concorrendo, o Eduardo Paes (PSD, prefeito do Rio) acho que se coloca como uma liderança principal nesse processo. E, ao que tudo indica, com o apoio do ex-presidente Lula. E aí, trazendo quadros como o Molon (PSB), talvez até como o Freixo (pré-candidato a governador do PSB), para participar desse processo. Há um certo afastamento dos extremos. Acho que, no Rio, a gente tende a ter esse embate, Lula e Bolsonaro, representado por esses candidatos (Freixo e Castro). O quadro me parece ainda muito incerto. Há também a ideia de que talvez viesse o presidente da OAB, o Felipe Santa Cruz, representando um nome trazido pelo Paes, com o apoio do Lula, junto com Alessandro Molon. Então, ainda está difícil a gente vislumbrar o que vai ser aqui no Rio. A gente sabe que as eleições no Rio sempre causam surpresa. A gente viu isso quando o Witzel (PSC, ex-governador), que era uma pessoa bastante desconhecida, do nada apareceu ali. Mas, na minha visão, eu acho que a gente vai ter essa polarização entre Lula e Bolsonaro refletida no ambiente estadual. E, de novo, como eu acho que o Bolsonaro continuará essa curva, pelas pesquisas, de aumento da sua rejeição. Portanto, o lado contrário ao Bolsonaro tende a ganhar força aí nesse processo. Vamos ver se surge algo independente que pudesse aí nos tirar dessa polarização e estar realmente focado na gestão do estado. E não nessa briga política que não nos interessa como cidadão fluminense.
Página 3 da edição de hoje da Folha da Manhã
Confira abaixo, nos três blocos, a íntegra dos vídeos com a entrevista de João Amoêdo na manhã de ontem (1º) ao Folha no Ar, na Folha FM 98,3:
Igor Franco, especialista em Finanças e professor do Uniflu
O ocaso liberal
Por Igor Franco
Na sexta-feira, o presidenciável João Amoêdo, um dos fundadores do Novo, partido declaradamente liberal, foi o entrevistado do programa Folha no Ar. Profissional oriundo de uma carreira de sucesso no mercado financeiro — o que até hoje lhe rende a injusta qualificação de “banqueiro” —, Amoêdo tornou-se a face mais conhecida do seu partido.
Criado com o objetivo de romper com a tradição da maior parte dos partidos, o Novo adotou práticas inovadoras na democracia partidária brasileira: rejeitou verba pública, promoveu uma espécie de processo seletivo para seus candidatos, defendeu abertamente privatizações e redução do tamanho do Estado, num tempo em que tais ideias ainda eram amaldiçoadas no país. Outrora, o Novo causava curiosidade, deslumbramento dos entusiastas e críticas do campo ideológico contrário.
Fosse há poucos anos, provavelmente Amoêdo teria tido vida mais fácil perante os entrevistadores e os sempre atentos e incisivos ouvintes do programa. Sexta-feira, porém, o presidenciável se viu obrigado a responder questionamentos que iam desde as denúncias de corrupção envolvendo o ex-ministro Ricardo Salles — que fez parte dos quadros do partido —, passando por uma aparente ruptura interna com membros extremamente alinhados ao presidente Jair Bolsonaro e chegando à contestada capacidade do programa liberal de responder aos desafios recentes. A impressão é que, apesar de nunca ter feito parte da base do governo, pelo menos de forma oficial, o apoio do Novo a diversos pontos da plataforma bolsonarista desgastou o partido e traz, inclusive para seus apoiadores, a dúvida quanto à viabilidade do projeto para o Brasil. O liberalismo do Novo envelheceu.
Surgido no século XVII, o liberalismo político surge num contexto de muitas restrições às liberdades civis e à mobilidade social dos cidadãos. Suas ideias são rapidamente abraçadas com entusiasmo na classe burguesa. À época, uma classe emergente que ameaçava a hegemonia da aristocracia e, por conseguinte, dos monarcas. Numa espécie de aplicação sociológica da ideia da “Mão-Invisível” de Adam Smith, o auto-interesse de preservação das recentes conquistas da burguesia culminou em uma sucessão de revoluções sociais e culturais motivadas pelas ideias de liberdade. E acabou nos legando uma série de conquistas consideradas como pilares da civilização moderna. A limitação de poderes dos governantes, o reconhecimento de direitos inalienáveis, a proteção à propriedade privada, o sistema de freios e contrapesos, entre outras conquistas, são legados inegáveis do movimento liberal.
Após a luta contra o poder absolutista, o liberalismo político ganhou novo impulso com os movimentos de independência das colônias europeias. Mais recentemente, a doutrina das liberdades individuais passou a superar obstáculos lentamente nas liberdades civis e identitárias. Já o liberalismo econômico, após o ostracismo causado pela Grande Depressão de 1929, retorna com protagonismo na década de 1970, sendo rapidamente adotado como doutrina econômica dominante desde então. Embora resumido em poucas linhas, as ideias liberais já percorreram longos 400 anos desde o seu surgimento.
A contradição entre a suposta ou aparente defesa da liberdade e a conexão a autoritarismos de diversas naturezas, porém, não é novidade no liberalismo. John Locke, um dos primeiros teóricos do liberalismo, justificava a escravidão ao mesmo tempo em que estabelecia marcos históricos em favor das liberdades políticas e de culto. George Washington, um dos fundadores da república americana, era senhor de escravos. Milton Friedman, considerado o pai do “neoliberalismo”, foi mentor intelectual de uma série de políticos proeminentes do regime ditatorial de Pinochet, no Chile.
No Brasil, onde as ideias de liberdade nunca foram tão populares e cuja história pode ser contada através de diversos golpes e regimes autoritários se sucederam há até trinta anos atrás, o liberalismo político, mais que uma necessidade, seria uma decorrência natural da nossa história. Porém, em roteiro bem tupiniquim, nossa primeira experiência liberal começa no período Imperial e termina logo quando da República de 1989. A carência de expoentes políticos faz de Roberto Campos o mais famoso liberal de nossa história. Embora dono de uma coleção de entrevistas e escritos memoráveis em favor do liberalismo, Campos tem sua biografia marcada pela sua contribuição ao regime autoritário de Vargas e como ministro do Planejamento do governo Castelo Branco, logo após o golpe de 1964.
Hoje, a história parece se repetir com o apoio dado por grande parte dos deputados do Novo à agenda do governo federal — que não envolve a área econômica — tocada, aliás, pelo ministro Paulo Guedes, um dos acadêmicos mais abertamente liberais de nossa história. Sob uma aparente tentativa de ceder parte da liberdade política por maior liberdade econômica e reformas estruturais, muitos liberais parecem não perceber o fracasso desse movimento, que acaba por colher mais autoritarismo e menos desenvolvimento. O que torna o movimento sócio de um fracasso retumbante na condução do país. Como bem definido por críticos do governo brasileiro, a tentativa de “liberalizar” Bolsonaro se converteu fatalmente numa “bolsonarização” do liberalismo tupiniquim.
Como liberal saudoso de um tempo que não chegou, me resta apenas torcer para que haja um ponto de retorno e que nossos quatrocentos anos passem rápido.
Gás de cozinha chega a R$ 120,00 com governo Jair Bolsonaro
Relatado pelo deputado federal Christino Áureo (PP/RJ), o Projeto de Lei (PL) 1.374/21, que cria o Programa Gás Social, destinado a famílias de baixa renda, foi aprovado na Câmara dos Deputados ontem (29). A proposta estabelece um auxílio, no modelo de transferência de renda, cuja referência será, no mínimo, equivalente ao preço médio mensal do produto. A ideia é permitir, pelo menos, a aquisição de um botijão de 13 quilos a cada dois meses. Agora, a matéria segue para análise do Senado.
Deputado federal de Macaé, Christino Áureo (Foto: Divulgação)
— A aprovação do Gás Social era mais do que necessária. É uma situação emergencial. As famílias brasileiras não conseguem sequer acompanhar os aumentos de preços internos. Como explicar para elas a variação do dólar ou do preço do barril no mercado internacional? Essa responsabilidade tem que ser assumida pelo Orçamento Público. Do contrário, veremos o agravamento da miséria e da fome — afirmou Christino Áureo.
O PL determina que os beneficiários, inscritos no CadÚnico, receberão créditos exclusivamente para a aquisição do produto. Esses créditos poderão ser utilizados por meio de cartão eletrônico ou outro meio previsto na regulamentação.
Estima-se que, de um contingente aproximado de 16 milhões de inscritos, será possível começar atendendo cerca de um terço. Também serão contempladas mulheres vítimas de violência doméstica:
— Temos assistido, semanalmente, a notícias de acidentes que acontecem dentro das casas por causa da utilização de produtos que não são seguros e nem adequados para cozinhar, como álcool, lenha e carvão. Isso acontece justamente porque as famílias não têm condições de comprar um botijão de gás para proverem a sua alimentação — explicou o deputado.
A elevação dos preços dos combustíveis derivados de petróleo, em especial do gás de cozinha, pressiona muito a renda das famílias mais pobres, tornando praticamente impossível às famílias em situação de extrema pobreza ter acesso ao produto no valor atual, que chega a quase R$ 120.
Custeio do programa
Os recursos para custeio do programa virão da parcela dos royalties e de Participação Especial decorrentes da exploração de petróleo e gás natural que cabe à União e a partir da arrecadação da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide).
A partir das 7h da manhã desta sexta, 1º de outubro, quem fecha a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é João Amoêdo, engenheiro, banqueiro, empresário, fundador do Partido Novo e ex-candidato a presidente em 2018. Ele analisará o liberalismo de Paulo Guedes no ministério da Economia e grave crise econômica do país. Também falará do governo Jair Bolsonaro (sem partido) como um todo e, nele, do papel do mercado e do Novo.
Por fim, Amoêdo dará suas projeções às eleições de 2022 a presidente e governador do RJ. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
No conceituado grupo de WhatsApp que este blog divide com o programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, sou lembrado pelo advogado Cléber Tinoco que hoje se completam 113 anos da morte de Machado de Assis. A lembrança é necessária, inclusive para contrastar o que o Brasil já foi capaz de produzir com as trevas que hoje comandam o país.
Em memória ao nosso luminoso Mulato, republiquei no grupo e, agora, também neste blog, a crônica “A última visita”. Que Euclides da Cunha, autor de “Os Sertões”, escreveu sobre a morte do nosso maior prosista, publicado no Jornal do Comércio a 30 de setembro de 1908. Particularmente, considero o texto mais belo entre os que já li no jornalismo brasileiro.
Astrojildo Pereira
A título de curiosidade, o adolescente anônimo da crônica era Astrojildo Pereira. Autodidata, depois reconhecido como um dos maiores estudiosos da obra de Machado e fundador do Partido Comunista Brasileiro (PCB, atual Cidadania), batiza hoje Fundação homônima. Com a qual o Grupo Folha, por intermédio do cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf, promoveu os debates nacionais “A política econômica do desenvolvimento: de Vargas aos nossos dias”, em 30 de maio, e “A questão militar: do Império aos nossos dias”, em 30 de julho. Que tiveram transmissão ao vivo na Folha FM na PlenaTV.
Abaixo, os últimos momentos de Machado de Assis e o ainda anônimo Astrojildo Pereira, “menino” e “maior homem da sua Terra”, na “precisão integral do termo” por Euclides da Cunha. E, se depois de lê-la, que a animação sirva que você leia também “Dom Casmurro”, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Esaú e Jacó”, “O Alienista” e “Páginas Recolhidas”. Se for pela primeira vez, não sabe a inveja danada que tenho de você.
Euclides da Cunha
A última visita
Por Euclides da Cunha
Na noite em que faleceu Machado de Assis, quem penetrasse na vivenda do poeta, em Laranjeiras, não acreditaria que estivesse tão próximo o desenlace de sua enfermidade. Na sala de jantar, para onde dizia o quarto do querido mestre, um grupo de senhoras — ontem meninas que ele carregara no colo, hoje nobilíssimas mães de família — comentavam-lhe os lances encantadores da vida e reliam-lhe antigos versos, ainda inéditos, avaramente guardados em álbuns caprichosos. As vozes eram discretas, as mágoas apenas rebrilhavam nos olhos marejados de lágrimas, e a placidez era completa no recinto, onde a saudade glorificava uma existência, antes da morte.
No salão de visitas viam-se alguns discípulos dedicados, também aparentemente tranquilos.
E compreendia-se desde logo a antilogia de coração tão ao parecer tranquilo na iminência de uma catástrofe. Era o contágio da própria serenidade incomparável e emocionante em que ia a pouco e pouco extinguindo-se o extraordinário escritor. Realmente, na fase aguda de sua moléstia, Machado de Assis, se por acaso traía com um gemido e uma contração mais viva o sofrimento, apressava-se a pedir desculpas aos que o assistiam, na ânsia e no apuro gentilíssimo de quem corrige um descuido ou involuntário deslize. Timbrava em sua primeira e última dissimulação: a dissimulação da própria agonia, para não nos magoar com o reflexo da sua dor. A sua infinita delicadeza de pensar, de sentir e de agir, que no trato vulgar dos homens se exteriorizava em timidez embaraçadora e recatado retraimento, transfigurava-se em fortaleza tranquila e soberana.
E gentilissimamente bom durante a vida, ele se tornava gentilmente heroico na morte…
Mas aquela placidez aguda despertava na sala principal, onde se reuniam Coelho Neto, Graça Aranha, Mário de Alencar, José Veríssimo, Raimundo Correia e Rodrigo Otávio, comentários divergentes. Resumia-os um amargo desapontamento.
De um modo geral, não se compreendia que uma vida que tanto viveu outras vidas, assimilando-as através de análises sutilíssimas, para no-las transfigurar e ampliar, aformoseadas em sínteses radiosas — que uma vida de tal porte desaparecesse no meio de tamanha indiferença, num círculo limitadíssimo de corações amigos. Um escritor da estatura de Machado de Assis só devera extinguir-se dentro de uma grande e nobilitadora comoção nacional.
Era pelo menos desanimador tanto descaso — a cidade inteira, sem a vibração de um abalo, derivando imperturbavelmente na normalidade sua existência complexa, quando faltavam poucos minutos para que se cerrassem quarenta anos de literatura gloriosa…
Neste momento, precisamente ao enunciar-se este juízo desalentado, ouviram-se umas tímidas pancadas na porta principal da entrada.
Abriram-na. Apareceu um desconhecido: um adolescente, de 16 a 18 anos no máximo. Perguntaram-lhe o nome. Declarou ser desnecessário dizê-lo: ninguém ali o conhecia; não conhecia, por sua vez, ninguém; não conhecia o próprio dono da casa, a não ser pela leitura de seus livros, que o encantavam. Por isto ao ler nos jornais da tarde que o escritor se achava em estado gravíssimo tivera o pensamento de visitá-lo. Relutara contra essa ideia, não tendo quem o apresentasse: mas não lograra vencê-la. Que o desculpassem, portanto. Se não lhe era dado ver o enfermo, dessem-lhe ao menos notícias certas do seu estado.
E o anônimo juvenil — vindo da noite — foi conduzido ao quarto do doente.
Chegou. Não disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre; beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-o depois por algum tempo ao peito. Levantou-se e, sem dizer palavra, saiu.
À porta José Veríssimo perguntou-lhe o nome. Disse-lho.
Mas deve ficar anônimo. Qualquer que seja o destino dessa criança, ela nunca mais subirá tanto na vida. Naquele momento o seu coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo — no meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis — aquele menino foi o maior homem de sua Terra.
Ele saiu — e houve na sala há pouco invadida de desalentos uma transfiguração.
No fastígio de certos estados morais concretizaram-se às vezes as maiores idealizações. Pelos nossos olhos passara a impressão visual da Posteridade.
Temelétrica da GNA, que entrou em operação no Porto do Açu no último dia 16 (Foto: Divulgação)
André Ceciliano, deputado estadual pelo PT e presidente da Alerj
A energia que vem do Norte
Por André Ceciliano
O Rio de Janeiro tem um conjunto de oportunidades que devem ser exploradas na área de desenvolvimento econômico. E o Norte Fluminense é abençoado por características especiais que o tornam capaz de captar uma série de empreendimentos que se apresentaram. O enfrentamento da crise energética que se coloca no país, hoje e para os próximos anos, é uma delas.
Nessa linha, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), sob minha condução, aprovou o Projeto de Lei que resultou na Lei nº9214/21, de 17 de março último, com objetivo de incentivar projetos de geração elétrica, especialmente através do gás natural, o que já está incentivando uma série de investimento no Norte Fluminense.
Nesse sentido, já se destaca a termoelétrica GNA, no Porto do Açu, que acaba de entrar em operação, inicialmente com Gás Natural de Liquefeito (GNL). Outras termoelétricas virão, a partir da contratação da reserva de carga recém-lançada pela Portaria Normativa Nº 24/GM/MME, de 17 de setembro de 2021, do ministério de Minas e Energia.
É muito importante aproveitar esse momento para transformar o Estado do Rio de Janeiro, especialmente o Norte Fluminense, num grande cluster de geração de energia, favorecendo a atração de empresas, sobretudo indústrias.
A possível Rota 5, recentemente anunciada pela Equinor, que entrará por Macaé, trará também um grande potencial para desenvolver novos projetos, especialmente depois que se estabelecer ali um gasoduto que distribua e possa transferir esse gás para os diversos municípios do Norte Fluminense, como Campos e até o Porto do Açu, em São João da Barra.
Esses novos empreendimentos de geração de energia elétrica, além de gerarem milhares de empregos durante a sua construção, favorecem o desenvolvimento de uma série de outros projetos industriais. E também se potencializa a sinergia com o Porto do Açu, principal projeto logístico portuário privado do país, que precisará — e essa é uma luta nossa — de uma interconexão ferroviária, além da melhoria do acesso rodoviário, que se dará após a nova concessão da Rodovia BR 101 Norte.
Dentro das chamadas “energias alternativas”, também a Alerj aprovou uma série de incentivos para o sistema de energia solar, aumentando o tamanho dos projetos que podem se beneficiar dos incentivos estaduais, como caso da Lei 9922/20, também de minha autoria. Trata-se de uma tendência de futuro, de energia limpa. Neste sentido, o Norte Fluminense, abençoado pelo sol que brilha o ano inteiro, também terá muito a se beneficiar.
Também conseguimos aprovar, recentemente, projeto de minha autoria, transformado na lei 9360/21, que isenta o ICMS cobrado em energia para produtores rurais, desde que comprovem que de fato se enquadram nesta categoria.
Por tudo isso, a Alerj começará no fim do ano a rodar o estado para discutir a regulamentação do nosso Fundo Soberano, criado a partir de emenda constitucional de minha iniciativa. Abastecido com 30% do crescimento da arrecadação dos royalties, só este ano a previsão é que seja depositado R$ 2 bi nesse fundo. Dinheiro que deve ser investido em projetos estruturantes para cada região. E ninguém com mais autoridade para definir que é estruturante para as cidades do que quem vive nelas, os cidadãos. Vamos ouvi-los.
Tassiana Oliveira denunciou hoje os ataques à sua honra, feitos por Rodrigo Bacellar, na Deam (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)
“Após muita reflexão e oração buscando entendimento sobre o ocorrido, decidi escrever esta nota.
A vida das mulheres nunca foi fácil, passamos por muitos percalços ao longo da história para termos reconhecimento e conseguir ocupar espaços, seja na esfera pública ou privada. A luta de uma, é a luta de todas. São milhares que sofrem todos os dias com agressões físicas, emocionais e psicológicas. Dessa vez foi comigo. Fui vítima de um ataque baixo, machista e intolerável por um ocupante de cargo público que deveria lutar pelos direitos de nós mulheres e não incentivar o sexismo.
Se eu me calo, eu estaria motivando a continuidade de atos praticados todos os dias contra nós. A nossa liberdade não tem preço, tem valor.
Participei recentemente da inauguração do Centro Especializado de Atendimento a Mulher (Ceam) em Campos, me lembro dos depoimentos e de uma frase que me marcou: “não fiquem caladas”. Por mim e por todas as mulheres eu não tenho o direito de ficar, mesmo correndo o risco de me expor ainda mais. Além dessa nota registrei denúncia na Delegacia Especializada de Atendimento a Mulher (Deam) e ingressarei com ações de judiciais cabíveis.
Sou mulher, sou filha e sou mãe e peço a Deus que abençoe a família do meu agressor, a sua mãe, a sua esposa e todas aquelas com quem ele convive, para que nunca passem pelo constrangimento de serem agredias e afrontadas moralmente como eu fui.
Construí a minha família com quem amo e admiro, são 16 anos de união, cumplicidade e desafios ao lado de uma única pessoa.
Por fim, peço a primeira dama do estado, Analine Castro, mulher de família e de honra, que não permita o avanço desse comportamento por parte de integrantes do governo. Os direitos das mulheres devem ser defendidos por todos, principalmente por quem Deus permitiu estar onde está.
Celeuma entre Rodrigo Bacellar e Wladimir Garotinho foi pauta hoje no Rio de Janeiro, com a jornalista Berenice Seara, na Rádio CBN (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
— Se algum conselho posso oferecer ao primeiro mandatário do nosso estado, é desratizar o Palácio Guanabara enquanto ainda há tempo.
Confira abaixo, em áudio da CBN, como o infeliz episódio da política goitacá foi analisado na capital:
Atualização às 15h46, para noticiar também a manifestação do coletivo feminista “Nós por nós”. Que condenou como machista as declarações do secretário Rodrigo Bacellar. E se solidarizou com a primeira-dama goitacá, Tassiana Oliveira, e com a advogada feminista Kelly Vitter, diretora da OAB Mulher de Campos:
O Estado tem cor, gênero e classe social: personificado, majoritariamente, pela figura de um homem branco, rico, racista, machista e hetero-patriarcal.
Nós, mulheres, sofremos violência em todos os espaços, sejam públicos ou privados. Nenhum lugar é seguro para nós — nem mesmo a nossa própria casa ou trabalho. Somos agredidas por desconhecidos, por nossos companheiros e até mesmo por esse Estado masculino.
Hoje (ontem) presenciamos mais um triste episódio de violência de gênero praticada por um representante do Estado que deveria, sobretudo, cumprir seu dever estatal de garantir o respeito, segurança e a igualdade entre seus cidadãos.
O secretário estadual de Governo Rodrigo Bacellar atacou politicamente uma mulher (Tassiana Oliveira) ao publicizar e questionar fatos de sua vida particular, como seus relacionamentos passados, a fim de atingir sua honra e utilizar tal violência como manobra política.
A violência política de gênero tenta desmoralizar as mulheres ao questionar seus comportamentos, aparências, vidas pessoais e relacionamentos, com objetivo de diminuir sua atuação profissional/política, com base em conceitos e pensamentos conservadores e machistas.
Após a violência praticada pelo secretário, a OAB Mulher de Campos, representada por sua diretora @kellyviter.adv, manifestou-se por meio de nota em repúdio à violência política de gênero praticada, tendo sido ratificada por meio da direção da OAB Mulher do Estado do RJ.
Logo após, Kelly Viter foi atacada por um veículo de imprensa (Click Campos) que trabalha politicamente para Bacellar, sofrendo, também, violência de gênero, ao ter seu trabalho profissional e até o seu ativismo questionado e relativizado por se colocar publicamente contra as práticas machistas do Estado.
Kelly, além de advogada e diretora da OAB Mulher, é fundadora do projeto social @poramoraooutro e parceira do Nós Por Nós. Sua trajetória de militância em prol da defesa dos direitos das mulheres é notória para todas nós. A história do feminismo em Campos é marcada por seu ativismo e luta pelo fim da violência de gênero na sociedade, inclusive a violência em que agora é vítima.
Entendemos esta prática como uma típica medida intimidadora a fim de calar a voz de mulheres que se colocam a fim de denunciar as estruturas machistas da nossa política.
Reforçamos que tal prática é uma afronta aos direitos humanos, sobretudo aos direitos das mulheres.
Por isso, o Coletivo Nós Por Nós se manifesta por meio da presente nota a fim de repudiar tais opressoes e reafirmar que não aceitaremos nenhuma intimidação nem machismo, tampouco de senhores engravatados que representam a perpetuação da velha política misógina.
Enquanto Coletivo feminista, lutaremos sempre contra as práticas machistas e de violência de gênero contra todas as mulheres, pois nenhuma mulher deve ou merece ser agredida.
Ex-vereador que marcou época como presidente da Câmara Municipal de Campos, Marcos Bacellar (SD) enviou ontem ao blog uma nota sobre o infeliz ocorrido entre seu filho, o secretário estadual de Governo Rodrigo Bacellar (SD), e o prefeito Wladimir Garotinho (PSD). Infeliz, sobretudo, pelo fato de Rodrigo ter colocado a primeira-dama Tassiana Oliveira numa discussão, provocada por Wladimir, que deveria ser apenas política.
Rodrigo, à sua maneira, se desculpou ainda na noite de ontem, em nota oficial publicada em seu perfil no Instagram, por qualquer eventual ofensa que tenha feito a Tassiana. O secretário estadual disse:
— Não conheço a senhora Tassiana e minhas palavras, deturpadas por eles, não foram ofensivas contra ela, que tem sido inserida por seu marido no meio político com intenções eleitorais. Não a ofendi, como não gostaria que a minha esposa fosse, assim como não citei nenhuma informação que não seja de conhecimento público, mas caso tenha se sentido ofendida, peço desculpa. Porém, a alerto de que, quem a vida toda ofendeu adversários, foi a família que ela entrou, onde desrespeitam até pessoas que já morreram ou ainda estavam em tratamento contra o câncer.
Abaixo, o texto do pai de Rodrigo, Marcos Bacellar, sobre o assunto. Que enviou ao blog por WhatsApp, assinando-o como “o terror de Chucky”, em referência ao personagem da franquia de filmes de terror, com o qual ele apelidou o ex-governador Anthony Garotinho (sem partido) no passado:
Marcos Bacellar, líder sindical e ex-vereador
“‘O cavaco não cai longe do pau’
Anthony Garotinho nunca respeitou ninguém, mete o pau em tudo e em todos. Fez política a vida toda assim, fazendo alianças com quem joga rasteiro, usando e jogando pessoas no lixo. Não respeita as diferenças, a família, a mídia e a Justiça. Xingava e humilhava todos que discordavam das suas ideias.
Fui um dos pioneiros a enfrentar Garotinho no mesmo tom, inclusive entrando ao vivo na rádio dele e chamando de pilantra.
Agora seu filho, Wladimir, segue usando os seus ‘poderes’, jogando no mesmo estilo do seu pai, sendo um moleque raivoso, birrento e covarde.
Não respeita ninguém, usa todos que pode, de jornaleiros a jornalistas, usa a OAB e qualquer outra entidade que consiga manipular através de cargos que mamam nas tetas do erário municipal.
Vale lembrar quantas famílias eles atacaram, quantas mulheres eles desonraram e desrespeitaram. Como sempre, jogam baixo, atacam, mas não são capazes de aceitar e enfrentar as respostas dos seus atos. Preferem se vitimizar, como os covardes que sempre foram e sempre vão ser.
Deixa de tolice, me chamando disso e daquilo. É na sua casa que o camburão costuma ir e é lá que ele vai voltar pra terminar o serviço.
O que o ditado diz é verdade: o cavaco não cai longe do pau. A diferença é que enquanto eles são sinônimo de covardia, nós somos sinônimo de luta.
Senhora Tassiana Oliveira, me desculpe, mas será que a senhora não sabia em qual família estava entrando? A minha sabe muito bem que é pau, porrada e bomba.
Agora, se quiser, é só falar com seu marido e sogro pra esquecerem a família Bacellar, que daqui eu prometo o mesmo. E vamos lutar em favor do povo de Campos.
A luta continua, forte abraço!”
Além de Bacellar, houve também manifestações de quem, certamente, tem o “lugar de fala” nesse caso: mulheres que admiro e respeito tanto quanto ao ex-vereador. E, sobre a postagem publicada ontem sobre o assunto neste “Opiniões”, elas se posicionaram no grupo de WhatsApp que este blog divide com o programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3.
Personificado nessas mulheres, fica o desejo sincero de que o infeliz episódio seja o quanto antes superado. Para tanto, bom seria que os homens da política goitacá aprendessem um pouco da didática feminina na terra de Benta Pereira, heroína histórica da cidade no século 18:
Dora Paula Paes, jornalista
“Como mulher e jornalista atuando na política de Campos, os dois jovens políticos têm nos seus pais exemplos de truculência no tratar com as mulheres. Já fui vítima dos dois. Quanto à primeira-dama, nunca nos falamos, lamento ela ter sua vida jogada dessa forma na fossa do poder. Como mulher não posso deixar de dizer que sou solidária”.
Rafaela Machado, historiadora e diretora do Arquivo Público de Campos
“Aluysio Abreu Barbosa tem aqui o registro da minha admiração pelo posicionamento. Como cidadã e como mulher afirmo que é um posicionamento necessário, posto que o que está em questão aqui vai além de um mero caso político, ou de uma briga político-partidária. O ataque envolve a todas nós, mulheres, que sofremos cotidianamente ataques, achincalhamentos e assédios dos mais variados tipos. Hoje ele está personificado na primeira-dama, Tassiana Oliveira, como antes esteve na Isa Penna (advogada trabalhista e militante feminista, deputada estadual em São Paulo pelo Psol), por exemplo. Ele — o ataque — existe e é cotidiano e recorrente. E devemos, sim, usar o que aconteceu para cada vez mais darmos visibilidade a casos assim. E deixar quem comete tais atos pérfidos no lugar que lhes cabe: o lugar do agressor — seja essa violência física, verbal, ou quaisquer outras.
Que possamos todos prestar nossa solidariedade a Tassiana e a todas as mulheres que são vítimas cotidianamente de ataques que colocam em questão a sua idoneidade, a sua moral e as suas próprias escolhas. Que possamos dar cada vez mais visibilidade a casos como esse para questionar a permanência de laços historicamente construídos e que teimam em determinar que o lugar da mulher é escolhido por qualquer um, menos por ela mesma”.
Vera Marques, médica
“É assustador que em pleno século XXI a mulher passe por isso e que não possa externar a sua sexualidade, entre tantas outras questões, nesse mundo machista que, parece-me, que foi exacerbado nesse momento no Brasil”.
Cynthia Cordeiro, médica
“Parabéns pelo seu posicionamento! A mulher tem que ser respeitada, independente do cargo, profissão, religião, raça, opção sexual ou política, jeito de vestir ou falar. Inadmissível e vergonhoso assistir esse tipo de postura, ainda mais vindo de quem deveria nos representar. Que usem outros caminhos para discussão de desavenças políticas!”
Graciete Nunes, professora e sindicalista
“Parabéns pelo posicionamento acertado. Abominável a postura do deputado, hoje secretário. É inadmissível o ataque às mulheres já que ‘mexeu com uma, mexeu com todas’. Independente das diferenças políticas é importante manter o bom nível do debate e uma relação de urbanidade e respeito”.
Rodrigo Bacellar e Wladmir Garotinho diante do mesmo microfone do Folha no Ar, na Folha FM 98,3 (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Para quem acompanha a política de Campos desde a eleição municipal de 1988, antes mesmo de valerem as novas regras da Constituição Federal promulgada naquele ano, não há favor em reconhecer o talento de jovens e promissores políticos goitacá. Como são o secretário de Governo do estado do Rio, Rodrigo Bacellar (SD), e o prefeito Wladimir Garotinho (PSD).
Os dois políticos de Campos são da mesma geração, à qual pertencem também o ex-prefeito Rafael Diniz (Solidariedade) e o secretário de Ciência e Tecnologia Caio Vianna (PDT). Que é marcada tanto pelas redes sociais e sua diarreia verbal, quanto pelo respeito masculino devido ao empoderamento feminino na vida cotidiana e pública. O lugar da mulher na sociedade é onde ela quiser estar. Está aí a ainda chanceler da Alemanha Angela Merkel, reverenciada pelo mundo, para servir como exemplo.
Apesar de serem ambos aliados políticos do governador Cláudio Castro (PL), Rodrigo e Wladimir vêm trocando farpas nas redes sociais desde o processo eleitoral de 2020, no qual o segundo se elegeu prefeito. Mas ontem, infelizmente, essa polarização ultrapassou qualquer limite civilizacional aceitável.
Não está incorreto quem lembra que o ex-governador Anthony Garotinho (sem partido) já usou publicamente das mesmas insinuações levianas e desrespeitosas contra a honra de mulheres, adversárias políticas ou esposas de quem julgava ser. Só que isso está em um passado que não merece ser revivido. E, sobretudo, certo está quem lembra que Wladimir, embora filho e herdeiro político, não é Garotinho.
No presente, o prefeito errou ao iniciar as provocações contra Rodrigo e Rafael. Mas o secretário perdeu qualquer razão ao envolver a primeira-dama Tassiana Oliveira nessa discussão, atentando contra sua honra enquanto mulher, esposa e mãe de família. Não por outro motivo, Bacellar, que é advogado, mereceu na tarde de hoje a manifestação de repúdio da OAB-RJ e OAB Mulher Campos:
repudia veementemente toda e qualquer violência sofrida pelas mulheres e por Tassiana Oliveira. Recentemente a primeira-dama de Campos dos Goytacazes/RJ se deparou com a produção e distribuição de conteúdo em mídias sociais, veiculando sua imagem à frase difamatória, de cunho sexista e misógino, implicando em desrespeito à dignidade humana, com a finalidade de desqualificar e deslegitimar a sua imagem.
É inadmissível que tal violência seja perpetrada por pessoas revestidas em cargos políticos, fragilizando assim diretamente a democracia.
As violências sofridas pelas mulheres, sejam elas físicas, patrimoniais, morais, sexuais, psicológicas, ou políticas de gênero são violências que superam o âmbito regional e até mesmo nacional.
Historicamente a política é um espaço masculino que exclui e marginaliza as mulheres e outros grupos subalternizados, reflexo do caráter machista e patriarcal enraizado nas estruturas institucionais e na cultura social.
Diariamente mulheres sofrem todos os tipos de violência em todo o mundo, personificando-se nas mídias sociais com conteúdos sexistas para deslegitimar sua imagem. São vítimas de ameaças de morte, são mortas para serem silenciadas, perseguidas, exiladas, agredidas, estupradas, além de terem seus corpos objetificados.
Por certo, rechaçamos que toda violência contra as mulheres deve ser combatida e com a devida responsabilização das condutas praticadas, que configuram crimes previstos no Código Penal. É inaceitável normalizar essa prática que reafirma uma cultura que deve ser desconstruída recorrentemente e combatida por toda sociedade e autoridades com a adoção das medidas cabíveis.
Reitera-se o compromisso desta Diretoria e Comissão com a constante defesa pela igualdade de gênero, proteção às mulheres, bem como a preservação do princípio da dignidade humana.
Marisa Gaudio – Diretora de Mulheres da OAB-RJ
Kelly Viter – Presidente da OAB Mulher Campos-RJ
Antonio Roberto de Góis Cavalcante, o Kapi (Foto: César Ferreira)
Na noite de sexta (24), no foyer do Teatro Trianon, tive a honra de participar do bate-papo “Vida e obra de Antonio Roberto de Góis Cavalcante Kapi”. Parte da programação do 4ª Festival Doces Palavras (FDP!), a conversa foi mediada pelo jornalista e poeta Ocinei Trindade, com a poeta, atriz e professora Adriana Medeiros, e comigo. Contamos um pouco das nossas muitas histórias pessoais com Kapi, bem como da sua obra gigantesca como poeta, diretor teatral, carnavalesco e turismólogo.
Aluysio Abreu Barbosa, Adriana Medeiros e Ocinei Trindade falam sobre Kapi, no foyer do Trianon (Foto: Antônio Filho)
O evento não deixou de ser uma oportunidade de celebrar as pazes do maior artista que esta terra de planície já produziu. Que morreu precocemente aos 59 anos, de complicações do HIV, em 2 de abril de 2015. Sem que merecesse do poder público municipal ser velado naquele mesmo foyer do Trianon. Teatro que ele inaugurou, ainda no esqueleto, em 1995, com a montagem da peça “Gota D’Água”, adaptação de Chico Buarque e Paulo Pontes da tragédia grega “Medeia”, de Eurípedes (480 a.C/ 406 a.C.).
Pela oportunidade de comungar um pouco da vida e da obra de um homem genial e amigo muito querido, agradeço a Adriana e ao Ocinei. Assim como à presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Auxiliadora Freitas; sua gerente de Arte e Cultura, a diretora teatral Kátia Macabu; ao assessor de imprensa Antônio Filho e toda a equipe da FCJOL. Além dos curadores do FDP!, a médica Vanda Terezinha, presidente da Academia Campista de Letras (ACL); e o jornalista Wellington Cordeiro, presidente da Associação de Imprensa Campista (AIC).