Prefeitura de Campos inaugura sala Marcelo Lessa Bastos

 

Promotor de Justiça Marcelo Lessa Bastos (Foto: Folha da Manhã)

 

Será inaugurada às 10h de hoje (16), na Procuradoria Geral do Município, na sede da Prefeitura de Campos, a sala Marcelo Lessa Bastos. É uma homenagem do prefeito Wladimir Garotinho (PSD) e do vice-prefeito, Frederico Paes (MDB), ao promotor de Justiça carioca que marcou época em Campos, morto aos 51 anos no último dia 14 de agosto, vítima de um choque séptico. Sua viúva Viviane e os filhos Maria Fernanda e Gabriel convidam a todos.

Abaixo o convite oficial feito por Wladimir e Frederico:

 

 

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Ciro analisa Campos, RJ e Brasil entre Lula e Bolsonaro

 

Com Arnaldo Neto, Cláudio Nogueira e Matheus Berriel

 

Se há espaço para uma terceira via na eleição presidencial em 2022, entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT) tenta abri-lo com a contundência que se tornou sua marca em 40 anos de vida pública. Sem meias palavras na entrevista ao vivo da manhã de ontem (10), no programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, ele afirmou que Bolsonaro “é um bandido na presidência da República” e representa “a milícia da periferia do Rio de Janeiro que foi ao poder deslumbrado em Brasília”. Da mesma maneira, não poupou o PT: “virou uma organização criminosa”. Tampouco o maior líder do partido, a quem serviu como ministro da Integração Regional entre 2003 e 2006, ao lembrar da “corrupção levada pelo Lula ao centro do modelo de poder no Brasil”. Embora considere Bolsonaro “corrupto”, assim como sua família, e “coordenador do caos social e econômico” do país, o cearense ressalvou: “Não foi ele que criou essa crise, mas ele está agravando tudo”, atribuindo a origem dos graves problemas nacionais ao lulopetismo. Inclusive nas fake news que o partido usou contra sua ex-correligionária Marina Silva (Rede), nas eleições presidenciais de 2014, e que já retoma na pré-campanha de 2022, enquanto acusa o bolsonarismo de produzi-las. Crítico também à esquerda identitária, mas não às suas pautas, o presidenciável propõe conciliá-las com a população mais pobre, no atendimento às suas demandas reais, com respeito à “sabedoria das suas expressões morais e religiosas” e ao trabalho social realizado pelos pastores evangélicos. Ciente da realidade fluminense e goitacá, Ciro respeitou as posições dos pedetistas de maior destaque nas duas esferas. Chamou Caio Vianna de “um grande companheiro” e bateu o martelo a governador: “o meu candidato no Rio de Janeiro chama-se Rodrigo Neves”.

 

(Foto: Divulgação)

 

Folha da Manhã – Na manhã do dia 8, o senhor disse em entrevista ao UOL que o Brasil era outro. Dois dias depois, o que é o Brasil do dia 10?

Ciro Gomes – Continua sendo outro, porque o dia 7 foi uma disruptura muito grave para quem acompanha com responsabilidade a vida brasileira. O que aconteceu foi uma tentativa real de golpe, que fracassou. Se dependesse dos planos delirantes do Bolsonaro, o Brasil estaria chorando, hoje, alguns cadáveres; nós teríamos o constrangimento de termos assistido à invasão de prédios institucionais relevantes, simbólicos do Estado de Direito Democrático. Só a polícia do Distrito Federal teve que reprimir 28 tentativas de invasão ao Supremo Tribunal Federal; o Senado da República suspendeu as sessões por uma semana, e o país todo ficou em sobressalto. Isso se revelou também nos indicadores da economia. Nossa moeda desvalorizou pesadamente; a bolsa de valores, onde especulam os ricos do país, tomou um tombo que não recuperou ainda; e fica como rescaldo a constatação óbvia de que nós temos na presidência da República um celerado. Infelizmente, é uma palavra muito dura, muito difícil de alguém com a minha responsabilidade falar, mas nós temos na presidência da República o chefe da baderna e o chefe do caos social e econômico. E aqui embaixo, meu irmão, deixa eu lembrar, porque essa é a nossa responsabilidade, a economia brasileira está se deteriorando de uma forma que eu nunca vi. Eu fui ministro da Fazenda (do governo Itamar Franco), eu ajudei a fazer o Plano Real; e a inflação brasileira do atacado hoje passa de 32%. Ela que mexe com as tarifas de energia, ela que mexe com o aluguel do povo. Além da política estratégica da Petrobras, de que Campos dos Goytacazes é vítima grave disso também, é um crime. O lucro distribuído para os ricos foi de 3.572% acima do mesmo período do ano passado. Escute o que eu estou dizendo: 3.572% de lucro. Uma empresa que, estando endividada, esse lucro deveria ter ido para abater dívida. Distribuíram às pressas, sem nenhum pagamento de tributos. Cinquenta e oito mil homicídios aconteceram no Brasil nos últimos 12 meses; 15 milhões de desempregados, 6 milhões de pessoas desistiram de procurar emprego, 63,7 milhões de brasileiros estão humilhados no SPC. Estou colocando aqui, com argumentos objetivos, aquilo que é a minha conclusão. O Bolsonaro é um criminoso que tem que ser afastado da presidência da República. Ele percebeu esse fracasso e como um pusilânime líder, como um covarde, ele abandona os seus feridos no campo da batalha. Esse é o pior tipo de covarde que pode surgir na liderança de uma luta. O Supremo Tribunal Federal vai julgar se o filho do Bolsonaro, Flávio (senador do Republicanos/RJ), merece ou não o foro privilegiado, com o qual ele tenta se livrar das acusações de desvios monstruosos do dinheiro público.  De maneira que o Brasil do dia 8 não pode mais ser o Brasil do dia 7. Nós temos que entrar numa quarta fase. Num primeiro momento, o Bolsonaro fazia loucuras, e a gente botava na conta de que é um doido, é um exótico, de que não vai acontecer nada. No segundo momento, nós partimos para o enfrentamento individual, cada partido, cada grupo. Eu mesmo apresentei um pedido de impeachment, lá atrás. No terceiro momento, ele puxou uma confrontação com o Judiciário. E, veja: o Judiciário não pode ser parte política de um conflito, porque o Judiciário, na hora que entra no conflito, já perde, porque é suposto que o acatamento que nós devemos ao Judiciário é pela distância dele, pela isenção, pela insuspeita, com distância das questões em disputa. Quando o Bolsonaro puxa o Judiciário para a arena política, e o Judiciário às vezes entra nisso, ele acaba fazendo uma disfuncionalidade grave. Por isso, a partir do dia 7, é o poder político: somos os democratas, os republicanos da direita até a esquerda. Temos o compromisso com a República e com a democracia, com o Estado de Direito. Precisamos nos reunir para fazer o crime de responsabilidade ser punido com o impeachment. Seria o quarto momento agora, sem nenhuma dúvida, porque o recuo do Bolsonaro é uma cédula de R$ 3 reais. É um covarde, “me segura”. Quando o cara solta: “me segura, senão eu não vou mais”. E é basicamente isso: um grande celerado. E aí, o que ele fez? Ele viu faltar o chão, viu que a democracia reagiu com a dureza necessária, e que se armou sobre ele, inclusive, o isolamento político, em que os estafetas dele no Congresso Nacional ficaram sem argumento, porque quase todos eles também devem contas ao Supremo Tribunal Federal, como é o caso do Arthur Lira, presidente da Câmara; o Ciro Nogueira, ministro da Casa Civil, e essas pessoas não acompanharam o Bolsonaro. Quando ele viu isso, ele faz um recuo covarde para tentar acumular forças. Evidentemente, está se desmoralizando. É um bandido na presidência da República.

 

Folha – Ficou muito claro de que a nota de mea culpa do presidente é do Temer, só assinada pelo Bolsonaro. Como vê essa chamada do Temer como apaziguador? Bolsonaro vai manter esse discurso quando estiver falando, não assinando papel?

Ciro – O Brasil parece ter uma bola de chumbo amarrando nosso povo no passado. Então, você vê o Michel Temer sair da catacumba, ele também um réu. O Michel Temer também é um ex-preso por roubalheira. O Michel Temer tem esse tráfico de influência na Justiça brasileira desde muito tempo, e ele é uma expressão muito clara desse Brasil antigo, viciado, corrupto. O grave e chocante aí, para quem não conhecia e está conhecendo a cada dia mais, especialmente o povo que votou no Bolsonaro enganado, é que ele prometeu que seria o antídoto contra a roubalheira, a corrupção posta como elemento central, denunciando essa mesma contradição com o PT. Lembrando que quem trouxe o Michel Temer para o centro da República, irresponsavelmente, na vice-presidência (da ex-presidente Dilma Rousseff), foi o Lula. Que, por detrás de todo esse bastidor, está nessa mesma trama. O Lula quer ver o diabo e não quer ver o Bolsonaro impedido, porque acaba também a razão de pôr a boa parte do povo brasileiro aborrecidíssima, frustradíssima com o Bolsonaro, para achar que o Lula é a única solução. Ou seja, a mesma bola de chumbo se acertando “com Judiciário, com tudo”. Lembra da frase do (ex-senador pelo MDB/RR) Romero Jucá (“estancar a sangria” da Lava Jato)? E nós precisamos levar o Brasil para o futuro, libertar o Brasil dessa bola de chumbo.

 

Folha – O senhor afirmou que Lula e o PT não querem o impeachment. A última pesquisa XP/Ipespe (feita entre 11 e 14 de agosto) deu 61% de rejeição a Bolsonaro e 45% a Lula. São duas rejeições muito altas. É por isso que Lula quer Bolsonaro no segundo turno?

Ciro – Eu não tenho nenhuma dúvida disso. Não é por uma análise distante, eu conheço bastante bem todos os personagens envolvidos. Eu fui ministro do Lula, tenho um relacionamento com o Lula há mais de 30 anos. O Bolsonaro, eu fui contemporâneo dele enquanto deputado da Câmara Federal, também conheço bastante de perto. Convivo com essas pessoas e sei como é que funcionam as tramas de Brasília. Então, vamos raciocinar juntos, porque todo o nosso povo tem capacidade de amadurecer as coisas, pois elas são muito simples quando a gente tira o véu de cima. Veja uma coisa: para fazer o impeachment do Bolsonaro, nós precisamos reunir 3/5 da Câmara Federal. A Câmara Federal tem 513 deputados. Nós, do grande grupo de partidos do centro à esquerda, somos apenas 130. Evidentemente que quem quer o impeachment do Bolsonaro tem que entender que impeachment não é remédio para governo ruim. O impeachment é uma punição grave para o cometimento de casos pensados, dizemos nós da faculdade de Direito, dolosos: ou seja, em que se quis o resultado criminoso, como é o caso claro do comportamento do Bolsonaro. E, para isso, nós precisamos avançar em direção à direita, fazer um entendimento com a direita. Não é um entendimento sobre o futuro do Brasil, não é um entendimento sobre a economia brasileira, não é um entendimento sobre o modelo econômico, porque essas nossas diferenças têm que ser feridas no ambiente da democracia, do diálogo, da paz, do respeito à diferença, que é o que está faltando ao Brasil. Eliminando o ódio e as paixões. Pois bem, existe um momento em que havia já convocado uma manifestação pelo impeachment do Bolsonaro, cuja única tese é “fora, Bolsonaro”, e que calhou de ser a resposta marcada para o dia seguinte à tentativa mais grave de golpe que a vida brasileira sofreu, numa convocação feita por um grupamento da direita (o MBL). Ora, mas nós vamos fazer o que diante disso? Vamos dizer: “não, vocês da direita vão para lá, que nós, os turistas da esquerda, estamos para cá”? Isso quer que nós não estamos realmente preocupados com o Brasil. Nós fizemos uma reunião, eu pedi pra ligar, o núcleo presidente do PDT ligou para todos os partidos. Fizeram uma reunião, e quebrou o pau lá dentro, o que o povo brasileiro não sabe. A Gleisi (Hoffmann, deputada federal e presidente nacional do PT) e, infelizmente, o Psol, que virou de novo puxadinho do PT, foram os únicos que disseram: “não, nós não vamos”. Os outros, todos entendemos. O raciocínio é óbvio: se a gente só tem 130 e precisa de 305 deputados, nós precisamos dialogar com a direita, para construir um acordo para resolver o impeachment do Bolsonaro e o país poder voltar a ter paz. E, veja: quem toma posse com o impeachment não é ninguém da oposição, não; é o general Mourão (PRTB). E, evidentemente, eu sou oposição ao general Mourão. Mas, eu volto a dizer: não é conveniência de tirar o Bolsonaro porque eu não gosto do Bolsonaro. É porque o Bolsonaro virou um criminoso; comete, sistematicamente, diante de todo o povo brasileiro, crimes de responsabilidade que vão ao constrangimento ao regular funcionamento das instituições da democracia, falta de probidade administrativa, falta de compostura para o cargo, alienação do interesse nacional a interesse de potências estrangeiras, e o crime de genocídio (da pandemia da Covid) continuar. O Brasil não consegue sair do atoleiro de não vacina, de segunda dose, porque o Bolsonaro atrasou a vacina. E agora nós estamos com documentos (na CPI da Covid) mostrando que esse atraso foi causado para permitir roubalheira na vacina. O que está faltando para o Lula se compenetrar? Nada! E o que é que o Lula está vendo? Se o jogo é uma volta ao passado, ele tem chance. Se o jogo é uma discussão do futuro, o Lula afunda nesse passado junto com Bolsonaro. Uma pergunta humilde que eu faço: existiria o bolsonarismo fanático, criminoso, se não fossem as contradições de corrupção e de desastre econômico que o Lula produziu? Setenta por cento do eleitorado do Rio de Janeiro votou (67,95% no segundo turno de 2018) no Bolsonaro. Povo maravilhoso, que nos deu muitas vitórias, muitas vezes. E agora o nosso povo todo se transformou em gado e fascista, como o lulopetismo fanatizado fala? Isso é mentira! E o purismo do Lula se acaba na letra B. Na letra A, ele diz que não faz confraternizar com MBL, mas na letra B ele está almoçando com (ex-senador pelo MDB/CE) Eunício Oliveira, presidente do Senado que fez o “golpe” (impeachment de Dilma) e a quem ele (Lula) deu um contrato de R$ 1 bilhão, sem licitação, para assaltar a Petrobras. Eu tenho documentos para tudo isso. Então, nós precisamos entender que o Brasil não aguenta mais essa redução da política ao ódio e à paixão lulopetista e bolsonarista. Temos que andar para frente.

 

Folha – No Folha no Ar do último dia 20, entrevistamos uma colega sua no ministério do governo Lula, a Marina Silva (Rede). E perguntamos sobre as fake news, que é um termo cunhado em 2016 pela imprensa dos EUA, na disputa presidencial entre Donald Trump e Hillary Clinton, mas que Marina sofreu do PT na eleição presidencial de 2014. E ela se mostrou ainda traumatizada com o que foi feito contra ela pelo ex-partido, acusações inverídicas, sórdidas. Agora, por exemplo, o PT já fala que “quem não quer nem Bolsonaro nem Lula, quer Bolsonaro”. O PT também investe nas fake news que acusa Bolsonaro?

Ciro – Esse é o comportamento deles. Quando você faz o que eles gostam, você é o herói do planeta. É só recuperar aí no Google a opinião do Lula sobre mim: “O cara mais real do mundo, um cara muito inteligente, um cara brilhante”. Nunca teve um amigo tão competente e tão companheiro. Ciro pra cá, companheiro Ciro pra lá. À medida em que eu reajo ao fato de que ele se corrompeu de forma feia e que montou essa estrutura de conchavo político, com o Brasil mais corrupto e atrasado em nome de um projeto eterno de poder, deixo de prestar. O Lula está com 78 anos, não é? Não desmereço a pessoa de 78 anos, mas a pergunta é: o que o Lula quer fazer, já que o povo brasileiro, tão generosamente, deu a ele a oportunidade de fazer por quatro mandatos (dois de Dilma, o último interrompido pelo impeachment), e ele não fez? Eu brinco, porque não costumo ter mau humor, nem rancor, que a única mudança que o Lula introduziu para valer no Brasil foi a tomada de três pinos. Terminou o período e não fez uma reforma. O Brasil tem um sistema tributário mais caótico do mundo e mais injusto; o Brasil tem um sistema previdenciário completamente falido; o Brasil tem um problema de ciência e tecnologia dramáticas; o Brasil destruiu sua indústria nacional: 30% do PIB brasileiro era indústria em 1980, nós éramos maior do que a China, e, na brincadeira de consumismo populista, manipulando as coisas para ganhar a eleição, sem introduzir nenhuma reforma, o Brasil, hoje, tem menos de 9% do PIB industrial. Isso tudo tem explicação: quem produziu essa crise econômica aí foi o PT, foi o Lula. O Bolsonaro tem agravado tudo isso, mas a explosão do crédito, que subiu de 15% para 55% no período do Lula, virou 63,7 milhões de pessoas no SPC. Isso é concreto. Cada brasileiro que está sofrendo isso. Existiria o (ex-governador fluminense, do MDB, preso por corrupção) Sérgio Cabral e toda a tragédia que se abateu no Rio de Janeiro, se não fosse o apoio decisivo central do Lula e do PT a esse projeto de assalto ao Rio de Janeiro? Ontem, eu cheguei no aeroporto do Galeão e não tinha ninguém. Saí do aeroporto de Fortaleza, o aeroporto lotado. Cheguei, tinha um único voo pousando no Galeão. O Rio de Janeiro está com uma crise estrutural. Quem produziu isso foi o Lula junto com Sérgio Cabral. Será que o Lula pensa que todo mundo do Rio de Janeiro é idiota? Que todo mundo esqueceu isso que aconteceu? Então, essa é a questão. E aí, eles querem relativizar. Uma coisa impressionante: como eles têm força, qual é a explicação, se a gente quer o impeachment, para a gente não abrir um diálogo com a direita? É uma explicação simples: 120 votos, 130 votos, isso é o que nós temos; 307 votos, o que nós precisamos para afastar o Bolsonaro. Então, esses votos estão na direita. Como é que nós vamos fazer? Ora, lá atrás, nós engolimos muita coisa pra redemocratizar o país com Tancredo Neves (ex-presidente, do MDB/MG, que morreu sem tomar posse). O Lula ficou contra (o PT expulsou do partido seus deputados federais que votaram em Tancredo). Pelo gosto do Lula, o (Paulo, candidato a presidente contra Tancredo pelo então PDS, partido da ditadura militar, na eleição indireta de 1985) Maluf tinha ganhado a eleição, não é? Quando nós fizemos a Constituição, o Lula ficou contra. Pelo gosto do Lula, a Constituição Brasileira não teria entrado em vigor. Quando Itamar Franco assumiu, Lula ficou contra. Pelo gosto do Lula, o Brasil tinha se desastrado. Quando nós fizemos o Real, o Lula ficou contra. Qual é a explicação? Só existe vida no Brasil se for o Lula no centro do processo? Ele cumpriu um papel, mas agora virou parte grave do problema.

 

 

Folha – A LRF também, o PT ficou contra.

Ciro – Ficou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal. Olha, em tudo ele ficou contra. Ele pediu impeachment do Fernando Henrique, pediu impeachment do Itamar Franco, percebe? E agora fica fazendo discurso de que é a favor do impeachment, mas sabotando profissionalmente o esforço de a gente dialogar para construir a base objetiva do impeachment.

 

 

Folha – Voltando à questão das manifestações do dia 7 de setembro e as consequências nos dias seguintes, nós tivemos reação dos presidentes da Câmara e do Senado, Arthur Lira e Rodrigo Pacheco (DEM/MG), dos presidentes do STF e do TSE, ministros Luiz Fux e Luís Roberto Barroso. Inclusive, estas foram as reações mais fortes, porque foram as instituições mais atacadas. Tivemos também a reação da PGR, do Augusto Aras. Como analisa cada uma dessas reações?

Ciro – Ninguém duvide: o Bolsonaro planejou por três meses, jogou muito dinheiro público, muito dinheiro privado, muito dinheiro estrangeiro clandestino, mobilizou 100% da sua base para preparar o ambiente para fazer um golpe de estado e fracassou. Embora tenham sido manifestações grandes, mas fracassou. E, na medida em que fracassou, as institucionalidades da democracia, sabendo que tinha se armado um golpe, foram obrigadas, algumas, a reagir, como é o caso do Aras: preferia passar em branco e não falar nada, porque, infelizmente, tem se revelado uma pessoa completamente descuidada dos seus deveres para a República e muito alinhado à impunidade do Bolsonaro e da sua quadrilha governamental e familiar. Mas, enfim, tudo foi tão grave que todos se obrigaram a uma reação. Mais intensa ou menos intensa, mas todas tendo em comum o traço do antigolpe, da defesa do Estado de Direito Democrático. Isto é que provocou o pusilânime, viu e covarde recuar do Bolsonaro. Mentiroso, porque não é um recuo de quem, tendo cometido um erro, se desculpa. Isso é humano, é normal. Aquilo não foi um erro do calor do momento, como covardemente anunciou, ontem, assinando uma carta escrita pelo outro grande corrupto da vida brasileira, Michel Temer. Então, essa reação é muito boa. O que que o Bolsonaro está querendo fazer? É descomprimir essa correção, que nasceu a partir da tentativa frustrada de golpe. Vamos vigiar, porque, não duvide: o que o Michel Temer ofereceu ao Bolsonaro pra ele se expor de forma tão covarde e tão vil, onde os seus próprios feridos, que ele deixou no caminho e fugiu, é algum acordo. Não duvidem disso, vamos todos ficar atentos. E eu desconfio que, essa semana, o julgamento do foro privilegiado do filho dele, Flávio Bolsonaro. Porque tudo que o Bolsonaro quer é proteger a família quadrilheira dele.

 

 

Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Folha – E os caminhoneiros fechando estradas em 15 estados, de maneira descontrolada, sem nenhuma organização, sem os líderes nacionais da categoria na greve de 2018, que denunciaram a manipulação bolsonarista? Demonstra um governo perdido? Como deu para trás, o “imbroxável” broxou?

Ciro – Não tenha nenhuma dúvida, até porque jamais foi “imbroxável”, embora eu não goste muito de frequentar esses termos para onde ele quer levar a discussão, e o Rodrigo Maia (deputado federal atualmente sem partido e licenciado para ser secretário estadual de São Paulo, que disse recentemente que Bolsonaro seria um gay não assumido) talvez tenha melhor explicação para o assunto. Mas, eu estou preocupado com as coisas sérias do Brasil. Então, o que está acontecendo é que a base do Bolsonaro está desmilinguindo. O Bolsonaro se elegeu com base em duas pernas relevantes, e ambas tinham a corrupção e o debate do lulopetismo como fundadoras. Primeira: o combate à corrupção. Segunda: a ideia de consertar a economia com o choque liberal, representado pelo tal Posto Ipiranga; o posto Ipiranga que é um grande incompetente, antes de mais nada, Paulo Guedes (ministro da Economia). Então, essa foi a estrutura do Bolsonaro: uma promessa de moralização de “nova política”, e um choque liberal que modernizaria a economia brasileira, devolvendo a nós uma condição de crescer que o PT destruiu. Vamos lembrar que 7% foi a queda do PIB em dois anos da tragédia da Dilma, que estava ali por determinação do Lula, e o Lula dando as cartas. Tanto que é ela chamou o Lula para a assumir o Governo quando teve a crise. Todo mundo lembra disso, menos o Lula, que quer que nós sejamos idiotas e esqueçamos as contradições dele. Bom, então repare: o Bolsonaro é um corrupto, a família do Bolsonaro é corrupta; agora, a ex-esposa, com o tal 04 (Jair Renan Bolsonaro), parece que comprou por debaixo dos panos, com “laranja”, uma outra mansão. Quer dizer, aquilo é a milícia da periferia do Rio de Janeiro que foi ao poder deslumbrado da República, em Brasília. Eles não têm nem sequer o pudor, estão comprando mansões. O Flávio comprou uma mansão, e uma parte é financiada com dinheiro sem origem, a outra parte é com financiamento especial de banco público. Então, é assim, é um canalhocrata que sempre foi. O Bolsonaro roubava dinheiro quando eu fui contemporâneo dele na Câmara Federal, o Bolsonaro roubava o dinheirinho do gabinete. Dinheirinho para nós, porque para o povão era muito dinheiro. O dinheiro da gasolina, o dinheiro do funcionário fantasma, o dinheiro do auxílio-moradia, o Bolsonaro roubava isso e botava no bolso, mas as pessoas não queriam ouvir, porque a corrupção do Lula foi trágica, profunda, foi generalizada. Ninguém pode fazer de conta que o (ex-ministro Antonio) Palocci foi um acidente. Palocci era braço direito, fundador do PT, quem dava as cartas no governo do Lula, e fez uma confissão. E o povo não sabe, mas o Palocci devolveu R$ 100 milhões roubados, e, na delação, ele conta a história de como é que repartiu o dinheiro com o Lula e com os outros. Agora, chegou para mim a delação premiada do filho do outro braço direito, íntimo do Lula, que é o (falecido ex-presidente nacional do PT, Luiz) Gushiken. É chocante, chocante. Então, não dá para esconder. E o Bolsonaro, que prometeu limpar tudo isso, virou a mesma coisa. Então, a base dele está se desmilinguindo toda, mas ele ainda tem um resto fanatizado. Um povo que está sofrido, desesperado, e que devotou a ele uma crença mítica, que ele até chama de “mito”. Mito é o que não existe. É psicologicamente complexo o fenômeno. O cara chama um homem de carne e osso, um político cheio de contradições, de “mito”. Mito por quê? Todos os setores da vida brasileira pioraram. O irmão que está nos ouvindo agora, a irmã evangélica, o irmão caminhoneiro, passa a mão na cabeça e tente se lembrar de que setor da vida brasileira melhorou com Bolsonaro. Tudo piorou, tudo! A corrupção piorou, a mortalidade piorou, a fome piorou, a miséria piorou, o salário mínimo tem o pior poder de compra dos últimos 15 anos, o desemprego é o maior da história, a informalidade, precarização do trabalho, a humilhação do povo no SPC é a pior da história, enfim. Não foi ele que criou essa crise, mas ele está agravando tudo. Então veja, o que que resta é esse grupo que ele traiu ontem, dos caminhoneiros. O que é isso? O caminhoneiro tem uma razão pra protestar: o preço dos combustíveis. Essa é a razão. E a decadência do mercado, que não tem frete para ele, porque a economia está numa estagnação econômica também sem precedentes, que começa lá atrás, com o Lula. Dez anos paralisado o país. Com Lula/Dilma, não é? Com 10 anos da economia parada, seis anos são de Dilma, dois de Michel Temer, que o Lula irresponsavelmente trouxe para a presidência da República, e dois anos de Bolsonaro. Então, o caminhoneiro tinha todas as razões para protestar, porque a renda dele caiu, porque não tem frete. Os caminhoneiros de verdade têm essa agenda. O outros são os fanáticos que partiram para a rua de forma anárquica. E Bolsonaro os traiu miseravelmente.

 

 

Folha – Falando de economia, a inflação no Brasil atingiu patamares que a gente não vê desde a implantação do Plano Real, aumento da taxa de juros, aumento da cesta básica, aumento de combustíveis, R$ 7 a gasolina, R$ 6 o diesel, mais de R$ 100 o botijão de gás, aumento da tarifa de energia elétrica, crise hídrica e promessa de apagão pela frente, 14,6 milhões de desempregados, 35,6 milhões de outros brasileiros na informalidade, prejuízo na lavoura de milho, café, cana, hortaliças, frutas, na pecuária de leite, fuga dos investidores internacionais, a maior retração da produção industrial desde julho de 2015, e queda do PIB no segundo semestre, erodindo qualquer possibilidade de crescimento a longo prazo. Qual é o seu projeto a partir dessa realidade?

Ciro – Eu tenho tentado chamar a atenção dos irmãos e irmãs brasileiros para isso. Nós estamos com o pior dos quadros, que é a inflação. A pior doença que uma economia pode sofrer é uma inflação, ou seja, uma alta de preços combinada com uma estagnação econômica. Então, você tem a renda deprimida pela paralisia econômica e o custo de vida subindo, agravando dramaticamente o sofrimento das classes médias e da pobreza no Brasil, que não tem precedentes. Isso é o que precisa ser debatido. Nisso é o que nós precisamos iluminar a nossa palavra, pedir a Deus que ponha juízo na cabeça desta grande nação, especialmente dos políticos, para que nós possamos fazer um grande debate, porque solução tem. Mas, nenhuma das soluções é simples ou trivial, e todas elas exigem coesão política, que é exatamente o oposto. Daí o crime superior que o Bolsonaro comete, de ser ele mesmo o chefe da baderna e o líder do caos econômico e social que está se generalizando no país. A resposta para isso vocês tem em Campos, uma cidade importante do Brasil, que está com os ovos todos numa cesta só, perigosamente, na dependência dos royalties de petróleo e com a falta de um planejamento estratégico. Isso gera uma espécie de crise política cíclica para vocês todos, com confusão, judicialização da política, enquanto Niterói fez o oposto com a mesma base de grana. Você tem uma estratégia de fazer um fundo reciclável e, necessariamente, diversificar o perfil econômico. O potencial do Norte Fluminense para uma agroindústria tem uma vocação importante para agregação de valor, para serviços, para uma série de outras atividades. Mas, isso não cai do céu, isso tem que ser ordenado. E eu estou dando a comparação com Campos. Tem que ser ordenado num projeto nacional de desenvolvimento, que é o que eu obsessivamente tenho tentado pedir ao povo que preste atenção. Não é que eu quero ser dono da verdade, estou muito longe disso. Eu apenas acumulei uma experiência de muito êxito, muitas experiências concretas em cargos públicos, eu conheço as finanças brasileiras, eu sei as pistas por onde a gente pode resolver o problema tecnicamente. Pode acreditar, tem solução. Inclusive, talvez surpreendentemente para vocês, algumas são soluções de relativamente curto prazo. Vou dar um exemplo aqui de uma proposta que eu tenho tentado e que os bancos tratam de desmoralizar. O consumo das famílias é o principal motor da atividade econômica brasileira. Quando o PIB cresce qualquer coisinha e você vai fazer a radiografia, 60% desse crescimento são puxados pelo consumo das famílias. Ninguém precisa ser economista para entender que se a comida expande o consumo, o comércio aumenta a venda, contrata mais gente, encomenda mais da indústria, que, tendo mais encomenda, contrata mais gente, compra mais matéria-prima, e assim a economia gira. Pois bem, o consumo das famílias no Brasil, responsável por 60% da economia, está sendo deprimido de forma trágica por causa de três fatores: desemprego aberto, o número que você já deu; queda na renda por precarização do trabalho violenta, e pelo colapso do crédito. Vou repetir aqui o número que você não deu, mas aí é chato: 73% das famílias brasileiras estão hiper endividadas e encalacradas na impossibilidade de manejar suas dívidas. A única política pública que é capaz de ser feita nesse motor da economia é uma política pública em relação a reestruturação do crédito, estrangulado das famílias. É só pegar o seguinte: a gente faz isso sistematicamente lá com o nosso Procon em Fortaleza. Então, você pega o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, e convoca o Serasa para mediar um desconto. Qualquer pessoa consegue sozinho um desconto de 90%. É só olhar aí no Google, leilões do Serasa, e dá 90% de desconto. Pois bem, se você conseguir 90% de desconto, a dívida média das famílias fica em R$ 1.400. Só que elas não têm esses R$ 1.400, que são quase dois salários mínimos, para uma cesta básica que está custando quase um salário mínimo. A opção já é comer ou pagar o aluguel, é comer ou pagar o crediário, e as pessoas não têm essa opção mais. Então, você pega o Banco do Brasil e a Caixa e financia isso em 20 vezes, em 30 vezes, cobrando um jurinho módico, mas que remunere bem o Banco do Brasil e a Caixa Econômica. Não haverá prejuízo, e você faz um programa de reeducação financeira. Isso tem efeito de curto prazo muito rápido. O mesmo trabalho com a reestruturação do passivo de 6 milhões de microempresas que estão quebradas no Serasa. Você tem aí dinheiro aonde? Você tem dinheiro nas reservas cambiais do país. Então, nós temos 360 bilhões de dólares em espécie de caderneta de poupança, que eles não sabem usar e ficam reservando só para financiar a goela sem fundo da especulação e da agiotagem financeira. Se você pegar 80 bilhões, 70 bilhões de dólares, vamos fazer aqui um número redondo, nós estamos falando R$ 350 bilhões que você pode injetar na economia, reestruturando criteriosa e seletivamente o passivo das empresas que, com um pouquinho de crédito de capital de giro, voltariam a trabalhar, produzir, a empregar gente. E você também giraria isso com garantias, com aval solidário, coisas que a gente sabe fazer também. Quem duvidar, veja o que nós formulamos lá atrás, chama CredAmigo, do Banco do Nordeste, estamos fazendo agora diretamente através de prefeituras em que nós temos influência, porque eu fico ajudando a encontrar soluções para os problemas. A terceira ferramenta do curto para médio prazo é retomar 24 mil obras públicas paradas no Brasil. Qual é a característica delas? Já passaram a burocracia da licitação? Já passaram a burocracia as vezes infindável da licença ambiental? Algum pepino que tem no Tribunal de Contas, você faz uma força-tarefa e supervisiona aquilo, resolve, tira o pepino. Mas, qual é o efeito disso? É que, no curto prazo, você pode fazer a outra ferramenta de ativação do PIB, que é o investimento público sair de perto de zero para uma crescente que, no meu projeto, chega a R$ 3 trilhões em 10 anos. Por que isso? Dez anos era um planejamento estratégico que não precisa ser eu a executar, mas nada sério se faz no curto prazo. E você então tem a fonte do recurso, você seleciona os investimentos de retorno mais imediato, intensidade de mão de obra, e aí sobre a favela com saneamento básico, com moradia, reestruturação de moradia, titulação de papel da casa. Obra de infraestrutura que tem efeito instantâneo na produtividade da economia, como ferrovias inacabadas, a Transnordestina, a Fiol, a conclusão da Norte-Sul, ou a retomada de outras obras estruturais de moradia popular, de saneamento básico, enfim. De onde é que vem o dinheiro? Aí você tem aqui um capítulo, não sei se você tem paciência, mas eu gosto muito de dizer às pessoas para me diferenciar dessa conversa mole que está infernizando a vida brasileira. Eu vou arrumar aqui os R$ 3 trilhões em 10 anos. Primeiro, R$ 342 bilhões é o que o governo tem a obrigação de receber e não recebe, as chamadas renúncias fiscais. Eu estudei: um corte de apenas 20% dá quase R$ 70 bilhões por ano. Em dez anos, R$ 700 bilhões. Olha aí onde é que nós vamos achando a coisa: só cobrando imposto de quem deve e não paga, não é? Por exemplo, o cara da Localiza, dono da Localiza, 60% do faturamento dele são de vender carro usado sem pagar imposto, quando ele é, na pessoa jurídica, uma empresa de locação de veículo. Quando você chega, em Campos, para alugar um carro da Localiza, a placa é de Belo Horizonte. É por quê? Porque lá não paga imposto, o IPVA. Enquanto o motoqueiro que está carregando caixote de aplicativo nas costas em Campos, de madrugada, chovendo, ele paga 4% do valor da motocicleta de IPVA, o cara da Localiza não paga. Às vezes, a renúncia fiscal é para ter uma contrapartida de emprego, mas não é o caso. Definitivamente, é tudo a propina, tudo favores criminosos que a elite brasileira vai conseguindo. Depois, você tem a tributação de lucros e dividendos empresariais. Só o Brasil não cobra. Eu cobrei, quando fui ministro da Fazenda do Itamar. Aqui dá para arrecadar R$ 80 bilhões. E vocês, quando vão receber aí da Folha? O salário morre com 27,5% na fonte, não tem nem como escapulir. E um cidadão de classe pequena, baixa, de R$ 2.050, começa a pagar imposto de 15%. E no Brasil, quem recebe da pessoa física lucros e dividendos, bilhões, não paga imposto. O IPVA do carro é 4% quatro por cento do valor; e dos jatinhos, lanchas, helicóptero da burguesia do Brasil, não pagam imposto. Para não cansar vocês, eu tenho aí R$ 3 trilhões para incrementar a taxa de investimento e fazer o terceiro grande motor da economia, que é o investimento público: ativar a economia e a geração dos empregos, tão dramaticamente necessitados. E, por fim, aí já existe mais maturação, mas nada que a virada agora é uma retomada forte do processo de industrialização perdida pelo Brasil. Nós denunciamos a política de preço da Petrobras. Vocês, de Campos, têm uma relação imediata, umbilical, de vida ou morte com a Petrobras. Pois bem, a Petrobras do senhor Michel Temer, de Jair Bolsonaro, simplesmente paralisou um 1/3 da capacidade de refino do Brasil. Resultado: a senhora dona de casa de Campos está pagando R$ 110 num gás de cozinha, porque eles dolarizaram criminosamente o preço dos derivados de petróleo do Brasil, quando a razão de ser da existência da Petrobras é verticalizar, dando ao Brasil independência de importação do estrangeiro, e cancelar os investimentos que autonomizariam o Brasil em matéria de refino do petróleo pesado, que é o petróleo do pré-sal. Você tem que retomar isso e transformar o Brasil numa grande potência de petróleo, gás, bioenergia, tirando daí uma indústria 4.0 de polímeros. Sabe quanto tinha sido, antes da pandemia, a importação pelo Governo Federal de coisas da saúde? Dezessete bilhões de dólares. Em um aninho. R$ 85 bilhões saíram do cofre pobre do Brasil para financiar emprego na China, na Índia, na Europa e nos Estados Unidos. E agora chegamos no fundo do poço: estamos importando máscara e insumo da vacina da China. Aliás, ontem o Bolsonaro plantou um elogio para a China, na presença do Xi Jinping (presidente chinês), que deve ter também enchido de vergonha os alucinados enganados por ele. Ele é um canalha voltando e indo de novo, por qualquer ângulo que se queira considerar. Voltando aqui ao nosso raciocínio: como você vê, há saídas para o Brasil. O grande problema é que essas saídas exigem um ambiente político, um ambiente de governança política radicalmente diferente desse que o Lula, o Fernando Henrique, o Bolsonaro, de forma absolutamente igual, praticam. Deixa eu só terminar para população saber o que eu estou dizendo: o Roberto Jefferson, que está preso, que deve estar aí muito interessado, muito feliz com a com o recuo horrível do Bolsonaro. O Roberto Jefferson fez o discurso de defesa do Collor na sessão do impeachment (em 1992). O Roberto Jefferson ganhou do Lula os Correios pra roubar. Dali nasceu o Mensalão. Todo mundo aí lembra da tragédia que aconteceu. E o Roberto Jefferson agora é o homem que defende o Bolsonaro. Esse (deputado federal do PP/PR) Ricardo Barros, líder do governo Bolsonaro, que está suspeito de roubar nas vacinas, era vice-líder da Dilma e do Lula, líder do governo Fernando Henrique e ministro da Saúde do Temer. O irmão brasileiro vai entender o que nos amarra ao passado. Vamos cortar essa corrente e vamos andar pro futuro.

 

 

Folha — O senhor mencionou Campos e Niterói na questão do petróleo. As duas cidades têm quadros políticos fortes do PDT. Niterói tem seu ex-prefeito Rodrigo Neves pré-candidato a governador pelo partido. E Campos tem o Caio Vianna, que foi candidato a prefeito e é pré-candidato a deputado federal. Os dois foram entrevistados recentemente no Folha no Ar. O Rodrigo disse que ele tem nome a presidente, que é o Ciro Gomes, pré-candidato do PDT, “mas nós vamos construir um palanque duplo ou triplo em torno do nosso projeto no estado do Rio de Janeiro. Vamos com Doria, com o PSDB, e com o ex-presidente Lula, com lideranças do Rio de Janeiro do PT”. O Caio, em 2018, como candidato a deputado federal, não pediu votos para você na campanha. E foi questionado sobre isso pelo sociólogo Roberto Dutra, professor da Uenf, para saber se em 2022 o político de Campos faria campanha para o candidato do PDT à presidência. Caio falou que isso está sendo construído, mas que “a gente tem um projeto nacional de partido, acho que Ciro tem transformado, evoluído muito, sem dúvida a gente vai estar engajado nesse processo, mas é uma avaliação pessoal”. Como avalia que os dois ainda não tenham declarado tão claramente o apoio só à pré-candidatura do Ciro Gomes?

Ciro – Eu vejo isso com muita humildade. Quem acumulou a experiência que eu acumulei não pode andar assustado com coisas que são uma imposição ruim, porque eu cultivo a franqueza. Isso é muito ruim para o Brasil: a falta de cara, a falta de rosto, de personalidade própria para permitir ao povo um esclarecimento do ambiente onde você está. Mas é uma inerência da cultura política brasileira. Então, nós, com fricção legal, determinamos o mesmo dia para eleições cujas lógicas são completamente distintas: a eleição para a presidência da República e eleições para os governadores estaduais, às assembleias, ao Congresso Nacional. Esta até tem muito a ver com a eleição do presidente, mas também tem uma dessintonia muito grave. Eu não tenho queixa disso. Tenho um (deputado federal do PDT e campista) Chico D’Ângelo hoje, que é um companheiro; Rodrigo é um grande companheiro; o Caio é um grande companheiro. E eu procuro cumprir a minha tarefa. Eu jamais chegaria em Campos com dubiedade de qualquer natureza. Como não aconteceu. Gravei para ele e tal. Como jamais chegaria em Niterói com qualquer tipo de dubiedade. Enfim, mas é compreensível isso. Ninguém consegue impor de cima pra baixo a mesma linha política do presidente da República, todos os governadores estaduais. A Federação Brasileira tem essas características. Algumas realidades são típicas. Por exemplo: o Marcelo Freixo, no Rio de Janeiro, acredita que o Lula fez uma promessa de apoiá-lo para governador, não é? Ele saiu do Psol e foi para o PSB, na crença de que de que o PSB vai lançá-lo, com apoio do PT. E o Lula, que diz o que a pessoa quer ouvir, está dizendo para o Rodrigo, a quem foi visitar, que também apoia o Rodrigo, mas já disse ao Eduardo Paes (PSD) que vai apoiar seu candidato a governador, que pode ser o (Felipe) Santa Cruz, o grande presidente da OAB, que é a minha organização sindical e trabalhista de categoria, porque eu sou advogado. Então veja, isso tudo é próprio desse mundo. O fundamental, entretanto, que eu acho, é que eu, de um lado, me mantenha firme na linha de oferecer ao povo brasileiro uma alternativa concreta de um projeto nacional, poder fazer uma aposta na inteligência das pessoas, tentar denunciar que ódios e paixões não levarão o Brasil para canto nenhum; tentar sinalizar para a necessidade de uma reconciliação não ao redor da minha personalidade, mas ao redor de um punhado de ideias, de pessoas diferentes, de maneira a fazer o ódio sumir da centralidade que está tomando na vida brasileira. E vou ajudar o PDT a crescer como ferramenta de transformação do Brasil. Portanto, o meu candidato no Rio de Janeiro chama-se Rodrigo Neves. É o meu candidato. Gostaria muito que o Rio de Janeiro prestasse atenção nele, porque ele é um cara que traz experiência concreta de extraordinário êxito em políticas públicas práticas. E só olhar do outro lado da Baía de Guanabara. Estou falando do Rio de Janeiro. Olhar o que ele fez em Niterói em saúde, em educação, em infraestrutura, em segurança pública, os números de cobertura vacinal, os números da economia, a forma com que ele trata essa perigosa receita farta dos royalties de petróleo e, ao invés de gastar por conta, criou uma coisa. E o Caio bateu na trave (na eleição a prefeito de Campos em 2020), não é? Então, é sinal de que o trabalhismo está começando a se enraizar de volta naquilo que é o estado que deu a Leonel Brizola, o nosso grande companheiro e amigo, fundador do PDT, duas extraordinárias governanças no Rio. Vamos esperar para ver quem é que o Lula vai enganar por último.

 

Folha – Além das possibilidades de apoio do PT que o senhor citou, ainda tem ao governador Cláudio Castro (PL). Ex-prefeito de Maricá, o petista Quaquá recebeu Castro recentemente em sua cidade. Não é um apoio possível a Lula a governador também?

Ciro – Quaquá, por exemplo, sem o charme do Lula, vende até a mãe e não entrega.

 

Folha – O Folha no Ar também entrevistou, em 23 de junho, o Benjamin Sicsú, que foi ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio do governo Fernando Henrique. Ele é presidente da maior ONG da Amazônia e conhece muito bem essa questão de matriz energética. Ele disse que a crise hídrica no país era uma coisa irreversível. Segundo os especialistas, o Brasil deveria ter acionado as termelétricas desde outubro do ano passado, para poder poupar o sistema hidrelétrico. E não fez, no medo de Bolsonaro, lá atrás, de aumentar a tarifa, que agora é inevitável. Vê o risco de um novo apagão no Brasil?

Ciro – Eu não tenho a menor dúvida de que acontecerá em horários de pico, especialmente. Mas pode acontecer o racionamento por uma circunstância: um desgoverno absoluto. Quando eu digo que o presidente é o chefe da baderna e o coordenador do caos social e econômico, acredite, eu não estou exagerando. Quem me acompanha nas redes, sabe que, desde fevereiro, eu estou tentando chamar a atenção para isso. Nessa questão, o professor Paulo Rabello de Castro (economista) me avisou, e vi os avisos do (hidrólogo Jerson) Kelman, que foi presidente da Agência Nacional de Água. E a nossa mídia não presta atenção, porque fica aí todo dia no cercadinho, reverberando as maluquices do Bolsonaro. E nós não temos planejamento de nada. Ao contrário, o planejamento na área descontinuou as políticas estratégicas da Eletrobras, porque se anuncia a privatização. Se eu anuncio a privatização, o que é que você acha que o gestor e os conselhos e os técnicos da Eletrobras estão fazendo? Estão cuidando de sobreviver, estão cuidando de limpar as gavetas, cuidando de organizar seus fundos de pensão, suas aposentadorias precoces. E isso é uma descontinuidade grave, gravíssima. Essa é a grande questão, por quê? Porque, com a vacinação, a economia vai voltar a algum nível de atividade, e a oferta está ali na frente estrangulada. Então, no horário de pico, ali por novembro, nós vamos ter constrangimento, sem nenhuma dúvida. O Bolsonaro, ainda ontem, me dão uma notícia de que estava na live dele pedindo para o povo subir cinco andares a pé. Tenha santa paciência! O cara é um irresponsável! Se você reparar, a cada grande constrangimento brasileiro, ele bota um general ou um almirante. Então, o ministro das Minas e Energia que vai pagar esse pato, é um almirante (Bento Albuquerque). O constrangimento do preço da Petrobras, é um general (Joaquim Silva e Luna). O colapso na saúde pública, ele meteu um general irresponsável (Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde). Por quê? Porque é uma vingança que o capitão expulso do Exército está fazendo, desmoralizando o melhor conceito que as Forças Armadas devem merecer da nação brasileira. Como com o comportamento omisso desses bajuladores tipo Braga Neto (general da reserva e ministro da Defesa), que há muito tempo largou a honra para ser um mero puxa-saco de um presidente criminoso e irresponsável. Então, vai ter, sim, constrangimento na oferta de energia elétrica, e hoje a população brasileira já está pagando 52% a mais na bandeira por conta das imprudências e da falta de planejamento do senhor Messias Bolsonaro.

 

Folha – Bolsonaro chamou o Sérgio Malandro para fazer a campanha de economia de energia. Está no ar.

Ciro – Dá vontade de rir, se não fosse trágico para chorar.

 

Folha – O senhor tem dito que após a queda do Muro de Berlim em 1989 e a dissolução da ex-União Soviética, em 1991, com o fracasso do chamado “socialismo real”, a esquerda perdeu a perspectiva da revolução. E a substitui pela pauta identitária, que a afasta da população mais pobre do Brasil pela qual diz lutar e que tem forte tradição religiosa, católica e agora com muita força evangélica, no avanço dos neopentecostais. Como conciliar isso?

Ciro – Vacinando o nosso povo dessa propaganda estrangeira que uma certa esquerda pouco lida, e que não tem nada de esquerda, a não ser a autorreferência e a goela muito barulhenta, mas absolutamente estéril e vazia, porque praticamente nenhum deles jamais deu um dia de serviço à humanidade. Então, nós precisamos trazer para o debate aquilo que está ao alcance da política resolver e onde nós temos que propor um grande consenso ao povo brasileiro. Vamos lá, vamos debater um modelo que resolva emprego salário, renda, educação dos filhos, saúde para a população com decência. Nós precisamos trazer o povo pra discutir isso. O que que eles descobriram, esses caras da direita? É que, se nós formos discutir emprego, salário, educação, saúde, segurança, moradia, 80% do povo vota de forma progressista. E o pobre desempregado de Campos, que entra no ônibus e pula catraca, porque não tem dinheiro para comprar passagem, e o cobrador entende, porque ele está indo procurar um emprego? São 6 milhões de brasileiros que voltam para casa e desistem de procurar emprego. E há 58 mil homicídios (por ano), a pessoa não sabe se o filho ou a filha, na sexta-feira, quando sair de casa para o baile funk, vai voltar inteiro ou se vai ser chamado para o necrotério. Essa é a vida do povo. E, enquanto, isso, você, com bucho cheio, com plano de saúde bem pago, arrota que é de esquerda e dana a fazer a percepção de que o povo é ignorante, de que todos os pastores que prestam serviço inestimável à população estão errados? A minha universidade não foram os bancos da extraordinária escola pública que eu tive, foi a favela, foi a praça, sabe? Eu encontro mães dizendo que o pastor emprestou o dinheirinho para ela pagar o traficante que ia matar o filho; os templos, hoje, do evangélico, estão servindo de verdadeira agência de emprego, em que o pastor liga para o mestre de obra e diz: “me arranja uma vaga de servente”. E além do que, o nosso povo tem uma formação cristã que me é comum. Agora, nós vamos dizer que isso é ignorância, como faz essa gente? Nós vamos dizer que o nosso povo todo é ignorante, e nós, os valentões, déspotas esclarecidos, de cima para baixo, vamos ensinar ao povo como ser progressista? É o que eu estou dizendo: no Rio de Janeiro existiria o Sérgio Cabral e tudo o que aconteceu se não fosse o apoio, o entusiasmo do Lula? Que, aliás, também apoiou o (ex-ministro de Dilma Marcelo) Crivella (Republicanos). Vem para esse papo agora, está querendo enganar quem? Chega, não é? Vamos em socorro do nosso povo. E aí, no que for consenso, a gente constrói um ambiente em que nossas questões identitárias, todas sérias, todas importantes, serão tratadas como tem que ser: tolerância, respeito à diversidade, respeito à diferença, maturidade no debate. Eu estou fazendo esse debate com os pastores evangélicos e propondo pra eles: me ajudem. Qual é a experiência que os senhores trazem? O aborto é uma tragédia. É uma tragédia humana, é uma tragédia emocional, é uma tragédia de saúde, é uma tragédia familiar. Como é que a gente faz diante dessa realidade? Em vez de a gente ensinar para eles, a gente pergunta para eles, que têm muita sabedoria nas suas expressões morais e religiosas. Eu estou nessa.

 

Folha – Qual o caminho para a chamada terceira via, entre Lula e Bolsonaro, na eleição presidencial de 2022?

Ciro – A rigor, o que está acontecendo é o seguinte: o Bolsonaro foi uma grande mentira, está se desmoralizando. E todo dia se reforça a minha impressão de que ele não estará nas eleições. Não estando nas eleições, uma parte do eleitorado que hoje se afirma no Lula, perde a razão de votar no Lula, engolindo com casca e tudo as contradições inexplicáveis e repetidas de forma reiterada pelo Lula, que não mudou nada, está apostando na mesma coisa, na mesma gente, nas mesmas práticas. O Lula anda num avião, quem que paga esse avião? Eu pago a passagem da Gol e sou muito bem tratado, mas o Lula anda de avião para cima e para baixo. Quem paga? Percebe? É a mesma pessoa, as mesmas práticas, as mesmas conexões, não aprende nada e agora acha que o crime compensa. Então, veja, com o Bolsonaro se desmoralizando, uma parte importante da população brasileira vai se ver livre da tarefa de ter que voltar para o Lula, para a corrupção, para a contradição econômica, para a arrogância e para a sustentação do Sérgio Cabral no Rio de Janeiro, por exemplo, e vai procurar alternativa. O que é que eu posso oferecer ao povo brasileiro? Primeiro, uma vida limpa. Eu sou um homem honrado, de 40 anos de vida pública, nunca respondi por um processo de corrupção. Nunca, nem pra ser absolvido. Segundo, uma experiência que ninguém tem. Não pense que estou sendo aqui soberbo, apenas estou apresentando o meu currículo, porque eu sou candidato pela quarta vez à presidência da República e peço uma chance ao povo brasileiro, para mostrar o que eu posso fazer. Eu tenho experiência, ocupei cargos importantes, administrei a Economia do Brasil, fui governador, prefeito, sempre saí melhor avaliado do país. Terceiro, tenho um plano, chego a ser chato nas entrevistas, né? É porque eu tenho uma equipe gigantesca, dedicada a estudar o Brasil, as melhores práticas internacionais, chocar isso com a realidade, com as possibilidades políticas. E, por fim, eu tenho um amor, uma paixão, e só isso explica por que que o cara três vezes candidato permanece aqui, com todo entusiasmo, acordando às 6h30, para chegar no Rio de Janeiro e dar uma entrevista para a nossa rádio Folha.

 

Folha – O senhor disse lá atrás que Lula virou parte do problema. O que quis dizer?

Ciro – Eu acredito, firmemente, em respeito ao povo brasileiro, que 70% do eleitorado de São Paulo, Rio de Janeiro, de Minas Gerais, do Sul do Brasil, do Norte do país e do Centro-Oeste do país, 70%, em números redondos, votaram no Bolsonaro. Não é possível chamar o nosso povo de gado, não é possível reduzir o nosso povo a um punhado de fascistas, sabe? O nosso povo votou nessa proporção porque sentiu na pele a contradição grave da economia nas mãos do Lula. E em cima disso, de uma notícia generalizada de corrupção levada pelo Lula ao centro do modelo de poder no Brasil. Então, eu não tenho nenhum prazer, mas, na minha análise, o Lula é parte central do problema. Ele deveria compreender isso. Se ele tivesse o mínimo de compromisso, aos 78 anos de idade, um presidente que já teve tantas oportunidades, respeitado mundo afora, devia abrir passagem para um petista. Mas, se você olhar, é sombra de mangueira, não nasce nada. Um partido importante como o PT virou uma organização criminosa, todos os tesoureiros presos. E aí não dá pra gente fazer de conta que o povo brasileiro é fascista, não é possível. Então, é um ato meu de dor, mas é preciso que a gente rompa com essa bola de chumbo que representa essa amarração que o lulopetismo faz do Brasil com o passado. E discutir o futuro. O destino econômico brasileiro está sendo destruído, o nosso povo está passando o pão que o diabo amassou. Isso foi consequência dessas irresponsabilidades todas do Lula. Então, o Bolsonaro é um acidente. O Bolsonaro tirou do armário 15% de fascistas, que tem em qualquer lugar do mundo. No Brasil tem também, mas são só 15%. O resto, quem levou esse povo ao desespero foi a tragédia que o Lula produziu no país.

 

Página 3 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Confira nos três vídeos abaixo a íntegra do Folha no Ar na manhã de sexta com Ciro Gomes, pré-candidato do PDT a presidente da República:

 

 

 

 

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Do 11 ao 7 de setembro, Bolsonaro e os EUA no Afeganistão

 

11 de setembro de 2001 em Nova York e 7 de setembro de 2021 em São Paulo (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Capa da Folha da Manhã de 12 de setembro de 2001

Hoje é 11 de setembro. Há 20 anos, se deu o atendado às Torres Gêmeas de Nova York e ao Pentágono, em Washington, com três jatos comerciais sequestrados por militantes islâmicos da Al Qaeda. Um quarto voo caiu na Pensilvânia, após a reação dos passageiros e tripulação. Até hoje não se sabe se o objetivo seria atingir também a Casa Branca ou o Capitólio. O fato é que muitos historiadores consideram aquela data o fim da Idade Contemporânea, iniciada com a Revolução Francesa em 1789. Se ainda não sabemos como será chamado o tempo em que vivemos, no Brasil, setembro também trouxe um marco que será devidamente registrado pela História. Foi a terça, dia 7, singular nos ataques golpistas à democracia brasileira pelo seu próprio presidente, eleito democraticamente em 2018. Que semeou vento e colheu tempestades nas reações firmes das instituições do país, culminando com o pedido público de arrego de um Jair Bolsonaro (sem partido) totalmente isolado na noite de quinta (09).

 

Presidente estadunidense John Kennedy e o premier soviético Nikita Khrushchev evitaram a III Guerra Mundial na crise dos mísseis de Cuba, em outubro de 1962

 

Curiosamente, para se conhecer a origem dos dois eventos históricos setembrinos, dos EUA de 20 anos e do Brasil de hoje, necessário voltar ao mundo bipolar da Guerra Fria. Que foi disputada entre os dois grandes vencedores da II Guerra Mundial (1939/1945), os EUA capitalistas e o “socialismo real” da extinta URSS. Em outra curiosidade, a Guerra Fria teria início em 1947, com a disputa pela influência dos dois blocos mundiais sobre a Grécia, berço da democracia na comercial Atenas, como também do que muitos chamam de proto-comunismo, na militarizada Esparta. “Herdeiros atenienses”, os EUA venceram aquela primeira disputa. Como também venceriam a final, com a queda do Muro de Berlim em 1989 e a dissolução da “espartana” União Soviética, em 1991.

 

Tropas da União Soviética se retiram do Afeganistão, em 1989, após 10 anos ocupando do país (Foto: Ria Novosti)

 

Osama bin Laden

Entre as várias causas da queda da URSS, está a derrota humilhante que a potência militar mundial sofreu na 1ª Guerra do Afeganistão (1979/1989). Os soviéticos invadiram e ocuparam durante 10 anos seu vizinho pobre, asiático e islâmico. Até serem expulsos pelos mujahedin (“guerreiros sagrados” do Islã), não só afegãos, como também os muitos outros que a CIA, agência de espionagem dos EUA, recrutou em todo o vasto mundo islâmico, treinou e armou para combater sua maior rival na Guerra Fria. Entre estes jovens fundamentalistas islâmicos, camaradas em armas do soldado estadunidense mais conhecido de Hollywood, vivido pelo ator Sylvester Stallone em “Rambo 3” (1988, de Peter MacDonald), estava Osama bin Laden. Da Arábia Saudita e então com seus 20 e poucos anos, ele era filho da bilionária família proprietária da Saudi Bin-laden Group, conglomerado de petróleo e gestão de patrimônio, além de maior empresa de construção do mundo.

 

Stallone luta ao lado dos mujahedins do Afeganistão contra a União Soviética, em “Rambo 3”, de 1988

 

Se a ficção fosse realidade, Rambo e Osama lutariam lado a lado contra os soviéticos. Mas após ajudar a expulsar estes do Afeganistão, os EUA se desinteressaram pelo país. Cujo vácuo no poder foi ocupado por um grupo de radicais islâmicos, cujo fundamentalismo religioso foi estimulado pela CIA contra a ateia URSS, e ficaria mais conhecido como talibãs. Que, por sua vez, davam guarida a um grupo formado e liderado por Bin Laden, a Al Qaeda, durante a 1ª Guerra do Afeganistão. Concluída esta em 1989, no ano seguinte o mundo islâmico e do petróleo seria abalado com a invasão do Kwait pelo seu vizinho Iraque, em 1990, governado pelo ditador Saddam Hussein. Que os EUA também tinham armado, inclusive com blindados brasileiros da Engesa, para lutar na Guerra Irã-Iraque (1980/1988). Temendo que a invasão iraquiana ao Kwait se estendesse à vizinha Arábia Saudita, o Pentágono enviou suas forças militares ao país natal dos Bin Laden, onde ficam as duas cidades mais sagradas a qualquer muçulmano: Meca e Medina.

 

Tanque brasileiro Engesa EE-9 Cascavel, danificado e abandonado pelos iraquianos no campo de batalha da 1ª Guerra do Golfo, em 1991

 

Liderando uma coalizão internacional pela disputa das reservas de petróleo do Oriente Médio, os EUA derrotaram Saddam com certa facilidade, na 1ª Guerra do Golfo, em 1991. Mas a presença da potência militar, “infiel” aos islâmicos radicais, tão perto de Meca e Medina, transformou em inimigos os ex-aliados contra a URSS no Afeganistão. E o resultado foram os atentados de 11 de setembro de 2001, ao custo de 2.996 vidas humanas. Feridos em seu coração, os EUA retaliaram iniciando a 2ª Guerra do Afeganistão em 2001, menos de um mês após as duas torres do World Trade Center virem abaixo. E promoveram também a injustificada 2ª Guerra do Golfo em 2003, contra o Iraque que nada tinha a ver com a história. Mas que custaria a cabeça de Saddam, julgado e morto por enforcamento em 2006. Além da caçada a Bin Laden, que só terminaria com sua execução a tiros em 2011, no Paquistão, por forças especiais estadunidenses.

 

Saddam Hussein foi capturado e preso em 13 de dezembro de 2003, por militares dos EUA, no porão de uma fazenda da cidade de Adwar, próxima a Ticrite, sua cidade natal

 

Mordidos pelas serpentes que criaram, os EUA ocupariam o Iraque por oito anos, de 2003 a 2011. E por 20 anos, de 2001 a 2021, o Afeganistão, deixando o país em humilhante retirada, consumada no último dia 30. E o entregaram com relativa facilidade aos inimigos e ex-aliados talibãs. Que na última quarta (8) dispersaram a tiros de fuzil uma manifestação de corajosas mulheres afegãs nas ruas da sua capital, Kabul. Elas faziam protesto pacífico pelo fato do novo governo do seu país, anunciado naquele mesmo dia, não ter nenhuma presença feminina.

 

Durante a retirada dos EUA do Afeganistão, em 19 de agosto, bebê é passado sobre o muro e a cerca de arame no aeroporto de Kabul (Foto: Omar Haidari/Reuters)

 

Um dia antes das mulheres de Kabul, centenas de milhares de brasileiros saíram as ruas de 167 cidades do seu país, inclusive Campos, para prestarem apoio ao governo Bolsonaro. Que usou de todos os meios possíveis para arregimentá-los nos dois meses anteriores. A favor do capitão e contra seu “inimigo” da vez: o Supremo Tribunal Federal (STF), que tem o presidente da República investigado em cinco inquéritos. Aos quais ele respondeu com o que deve gerar outro, por crime de responsabilidade, ao dizer na av. Paulista que nem ele, nem seus seguidores, respeitarão decisões judiciais com os quais não concordem.

 

 

O motivo? Do alto da sua inteligência, o presidente deixou bem claro: “Dizer aos canalhas que eu nunca serei preso!”. Faltou incluir seus filhos, todos igualmente investigados pela prática de crimes: o senador Flávio (Zero Um), o vereador Carlos (Zero Dois), o deputado federal Eduardo (Zero Três) e até Jair Renan (Zero Quatro). Este, não era nada antes do pai assumir a presidência. Mas hoje é um dos proprietários da empresa Bolsonaro Jr Eventos e Mídia, em sociedade com o lobista Marconi Albernaz de Faria. Este, por sua vez, revelado na CPI da Covid como intermediário da Precisa Medicamentos, que negociou com o ministério da Saúde a compra de 20 milhões de doses da vacina indiana Covaxin, por R$ 1,6 bilhão do dinheiro público. Que foi cancelada por suspeita de corrupção no governo do “acabou a mamata”.

 

 

No 7 de setembro da Paulista, Bolsonaro também chamou de “fraude” a eleição presidencial de 2022. O motivo? Ele hoje perderia em todas as simulações de segundo turno, em todas as pesquisas. Nas quais vem derretendo popularidade neste ano de 2021. A última, do PoderData, divulgada dia 2, revelou que 63% dos brasileiros reprovam o seu governo. Não é necessário entender muito de aritmética para constatar que é uma rejeição proibitiva a qualquer candidato em uma eleição com dois turnos. Cujo segundo só existe para que um deles vença pelo mínimo de 50% + 1 dos votos válidos.

 

 

Ainda assim, o presidente mantém resilientes 27% de aprovação. Entre estes, segundo outro instituto de pesquisa, o Datafolha, 12% são os chamados “bolsonaristas-raiz”. É a minoria absoluta, mas fanática e ruidosa, que saiu às ruas no dia que deveria se celebrar a Independência. Dependentes do seu “mito”, se este matar a mãe, em praça pública, provavelmente dirão: “a velha merecia porque era comunista”. Para essa gente, a Guerra Fria, sepultada há 30 anos, ainda não acabou. Acreditam na ameaça comunista como as crianças acreditam no velho do saco.

 

 

Nos dias 8 e 9, Bolsonaro colheu as reações aos crimes de responsabilidade que cometeu. Começou com o presidente da Câmara Federal, Arthur Lira (PP/AL), que não citou os mais de 100 pedidos de impeachment que segura em troca de verbas federais ao Centrão, mas advertiu que não mais admitirá a cantilena do capitão pelo voto impresso. Depois foi o presidente do STF, ministro Luiz Fux, que proferiu o mais duro discurso contra um governante do país nos 213 anos da Corte, uma dúzia de anos mais velha que o Brasil independente de Portugal. Depois — até tu, Augusto Aras? — o procurador-geral da República fez um discurso morno, mas que garantiu o cumprimento da Constituição, que em seu artigo 85 tipifica as palavras de Bolsonaro como crime. Ainda na quarta (8), o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM/MG), se comprometeu com a democracia ameaçada por Bolsonaro, deixando este completamente isolado politicamente. Por fim, na quinta (9), o ministro do STF Luís Roberto Barroso, na condição de presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), fez entre todos a fala mais contundente, colocando o bolsonarismo em seu devido lugar obscurantista.

 

 

Foi esse mesmo obscurantismo, elevado por Bolsonaro à sua enésima potência, que se voltou contra ele mesmo. Na quarta, caminhoneiros que as próprias lideranças nacionais da categoria denunciaram agir a soldo de empresários e produtores rurais bolsonaristas, começaram a fechar estradas, inclusive em Campos, em 15 estados do país. Na quinta, em áudio de tom oposto a quem se intitula “imbroxável”, o presidente arregou pela primeira vez, suplicando aos caminhoneiros a liberação das estradas. O que, ironicamente, foi inicialmente tratado como fake news por quem foi adestrado a se “informar” por elas. E teve que ser confirmado em vídeo pelo ministro da Infraestrutura Tarcísio de Freitas. Mas não sem antes ser parodiado pelo comediante Marcelo Adnet, na mais brilhante crônica política da situação surreal.

 

 

Completamente desmoralizado, Bolsonaro pediu socorro a um dos poucos interlocutores que lhe restaram, o impopular, mas habilíssimo politicamente, ex-presidente Michel Temer (MDB/SP). E, a conselho dele, no mesmo dia, o atual presidente arregou publicamente pela segunda vez. Prometeu respeitar a Constituição que ameaçou rasgar e cumprir as decisões do STF, inclusive as que ameaçou ignorar. E deixou os bolsonaristas com cara de tacho, no papel descartável de peão. Foram mordidos pela serpente que criaram, como os EUA com o Afeganistão. Cujo bote mais letal está armado para daqui a um ano: se confirmarem o voto no primeiro turno presidencial de 2022 em Bolsonaro, levarão Lula (PT) de volta ao poder.

 

Bolsonaro e Temer (Foto: Agência Brasil)

 

Não por acaso, entre os vários memes gerados pelo arrego vergonhoso do capitão, um deles trouxe um jovem bolsonarista, fantasiado de “patriota”, dando de cara em casa com suas malas arrumadas pela mãe. Surpreso, o filho abre o diálogo:

— Mãe, que malas são essas?

— São suas! Você vai para o Afeganistão. Lá é do jeito que você gosta: não tem STF, não tem direitos humanos, não tem urna eletrônica, não tem Congresso… Mas tem arma pra todo mundo e tudo é em nome de deus! — sentencia a sabedoria materna.

 

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Ciro Gomes analisa Brasil e 2022 no Folha no Ar desta 6ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta sexta (10), quem fecha a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é Ciro Gomes (PDT), ex-governador do Ceará, ex-ministro dos governos Itamar Franco e Lula, e pré-candidato a presidente da República. Ele falará sobre o Brasil após as manifestações do 7 de setembro, a reação dos demais Poderes às ameaças feitas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), além do fechamento desastrado das estradas no país por caminhoneiros bolsonaristas. Ele falará também da economia nacional, com a volta da inflação, crises de desemprego e hídrica.

Por fim, Ciro falará das manifestações contra o governo Jair Bolsonaro programadas para este domingo (12) e do caminho à terceira via na eleição presidencial de 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Crime de responsabilidade de Bolsonaro: Lira ignora; Fux, não

 

Luiz Fux, Arthur Lira e Jair Bolsonaro, presidentes, respectivamente, do STF, da Câmara dos Deputados e da República (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Na tarde de hoje, os presidentes da Câmara Federal, deputado Arthur Lira (PP/AL), e do Supremo Tribunal Federal, ministro Luiz Fux, reagiram publicamente aos discursos golpistas feitos ontem, em Brasília e São Paulo, pelo presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido). Lira, político conhecido pela firmeza, miou. Fux, jurista conhecido pela polidez, rugiu.

Lira ignorou o crime de responsabilidade cometido por Bolsonaro, ao dizer em São Paulo que ele e seus apoiadores não cumprirão as decisões judiciais do STF que não concordarem. O deputado foi duro somente ao que a coluna Ponto Final de hoje adiantou: não aceitará mais os questionamentos feitos ontem pelo capitão à decisão plenária da Câmara que sepultou em 10 de agosto a PEC bolsonarista do voto impresso.

No resumo da sua ópera alagoana, Lira garantiu que vamos ter eleição com urna eletrônica em 3 de outubro de 2022 — o que é obrigação constitucional e democrática, não favor. Mas não teremos aberto, pelo menos por enquanto, nenhum dos mais de 100 pedidos de impeachment do capitão.

Por sua vez, com seu sotaque de surfista carioca, Fux deu um recado duro a Bolsonaro, sem citar seu nome em nenhum momento, e aos seus seguidores. Na dúvida ainda das consequências práticas ao que foi dito ontem pelo presidente aos seus “cercadinhos” braziliense e paulistano, expandidos em dois meses de organização intensa, uma certeza: será preciso mais que um cabo e um soldado do Exército, ou dois tanques fumacentos da Marinha, para passar da bravata ao gópi:

— A crítica institucional não se confunde, nem se adequa com narrativas de descredibilização do Supremo Tribunal Federal e de seus membros, tal como vêm sendo gravemente difundidas pelo chefe da nação. Ofender a honra dos ministros, incitar a população a propagar discurso de ódio contra a instituição do Supremo Tribunal Federal e incentivar o descumprimento de decisões judiciais são práticas antidemocráticas, ilícitas e intoleráveis (…) Infelizmente tem sido cada vez mais comum que alguns movimentos invoquem a democracia como pretexto para ideais antidemocráticos. Estejamos atentos a esses falsos profetas do patriotismo (…) Povo brasileiro, não cai na tentação das narrativas fáceis e messiânicas (…) O Supremo Tribunal Federal também não tolerará ameaças à autoridade das suas decisões. Se o desprezo às decisões judiciais ocorre por iniciativa de qualquer dos Poderes, essa atitude, além de representar um atentado à democracia, configura crime de responsabilidade (…) Ninguém, ninguém fechará esta Corte! — garantiu o presidente do STF.

 

Confira abaixo os vídeos com as íntegras dos pronunciamentos de Lira e Fux:

 

 

 

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Marcas, patentes e direito autoral no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quinta, a convidada do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é a consultora de propriedade intelectual e policial civil Kíssila Santos. Ela falará sobre marcas, patentes e direito autoral. Analisará também a participação da mulher nas Forças de Segurança. Por fim, ela falará sobre o Brasil após o 7 de setembro, Estado do Rio e Campos.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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O 7 de setembro bolsonarista entre DF, SP, Rio e Campos

 

Campos foi uma das 167 cidades brasileiras em que bolsonaristas saíram às ruas no 7 de setembro para apoiar o presidente, que na av. Paulista revelaria o real motivo das manifestações (Fotos: Reprodução de vídeo e Genilson Pessanha/Folha da Manhã — Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Ruas de 7 de setembro

Felizmente, o maior temor pelo 7 de setembro não se cumpriu. Não houve enfrentamentos ou violência física. Como não passaram da bravata as ameaças de invasão do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Congresso Nacional. As manifestações de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em 167 cidades, incluisve em Campos, evidenciaram o que todas as pesquisas apontam: o capitão mantém cerca de 25% do eleitorado. Não garante sua reeleição em 2022, como as pesquisas também indicam. Mas é mais que o dobro do que tinham os ex-presidentes Fernando Collor de Mello (hoje, PRB) e Dilma Rousseff (PT) quando sofreram o impeachment.

 

A fotografia e o resto

Após dois meses de organização, Bolsonaro apostava suas fichas nas manifestações em Brasília e São Paulo. Esteve e discursou em ambas. Na capital federal, pela manhã, não nominou. Mas pediu que o presidente do STF, ministro Luiz Fux, enquadrasse seu colega Alexandre de Moraes. E ameaçou: “ou esse Poder pode sofrer aquilo que não queremos”. Deixou no ar a ameaça da decretação de um estado de sítio ou de defesa no país: “Amanhã estarei no Conselho da República (…) com essa fotografia de vocês mostrar para onde nós todos devemos ir”. Conseguiu a fotografia, mas dificilmente conseguirá algo mais.

 

Victor Queiroz, promotor de Justiça

Análise de Bolsonaro (I)

“No art. 2°, inciso II, da Lei 8.041/90, uma das atribuições do Conselho da República é pronunciar-se sobre questões relevantes para a estabilidade das instituições. Atualmente, a única utilidade seria se pronunciar sobre eventual desejo de renúncia. Embora a renúncia seja ato unilateral, caracterizaria iniciativa de rara compostura do Sr. Presidente da República. Quanto a pretender que o Sr. Presidente do STF enquadre outro ministro da Corte, provavelmente, o Sr. Presidente da República tem alguma dificuldade de compreender o que lhe tem dito sua assessoria jurídica”, ironizou o promotor de Justiça Victor Queiroz

 

Priscila Marins, advogada

Análise de Bolsonaro (II)

“Aquele que deveria defender a democracia e a estabilização dos Poderes, resolve dar um ‘ultimato’ ao presidente do STF para que este ‘enquadre’ o ministro Alexandre de Moraes. O art. 52, II da Constituição diz que compete ao Senado julgar os ministros do STF, não o STF. Em outra demonstração de autoritarismo, Bolsonaro anunciou a convocação do Conselho da República, que tem suas competências fixadas no art. 90 da Constituição. Mas, para decretar o estado de sítio, por exemplo, precisa primeiro da autorização do Congresso Nacional, conforme determina o art. 49 da Constituição”, ressaltou a advogada Priscila Marins.

 

Carlos Alexandre de Azevedo Campos, advogado e ex-assessor do STF

Análise de Bolsonaro (III)

“Bolsonaro faz nova ameaça ao STF, dizendo que se Fux não enquadrar Moraes, impedindo-o de tomar decisões contrárias ao governo, o STF sofrerá. É mais um crime de responsabilidade, tipificado no artigo 85, inciso II, da Constituição: atentar contra o livre exercício do Judiciário. Já o Conselho da República é órgão de consulta e pode ser convocado pelo presidente da República para manifestar-se sobre intervenção federal, estado de defesa e ou de sítio. Não há situações que autorizam intervenção, nem estados de sítio e defesa, que dependem do Congresso”, analisou o advogado Carlos de Alexandre de Azevedo Campos, ex-assessor do STF.

 

João Paulo Granja, advogado

Análise de Bolsonaro (IV)

“Há quase duzentos anos, tivemos nossos vínculos quebrados com nossos colonizadores, fato efusivamente celebrado. Após quase dois séculos, o Brasil assiste, apreensivo, ao conflito entre o seu governante e o STF, responsável pela guarda da Constituição. Parece que o sucessor do Dom Pedro I confunde os mais básicos conceitos legais, transformando divergências com um ou dois dos 11 componentes do STF em um conflito entre os dois Poderes constituídos. E assaca normas que só deveriam viger sob o estado de exceção, como o artigo 142 da Lei Maior e o pouco conhecido Conselho da República”, resumiu o advogado João Paulo Granja.

 

Da Paulista à Copacabana

À tarde, em São Paulo, Bolsonaro subiu mais o tom. Nominou Moraes, buscando personalizar sua ameaça de não cumprir decisões do STF. E voltou a atacar a urna eletrônica, rompendo acordo com quem segura seus mais de 100 pedidos de impeachment: o presidente da Câmara de Deputados, Arthur Lira (PP/AL). Que conduziu o sepultamento do voto impresso em 2022. Foi também na av. Paulista que o capitão revelou o real motivo das manifestações: “Dizer aos canalhas que eu nunca serei preso”. Na incerteza sobre os “canalhas”, Fabrício Queiroz, investigado por corrupção com os Bolsonaro, prestigiou o ato bolsonarista de Copacabana.

 

 

Em Campos

Em Brasília, o jornal Valor Econômico revelou que a presença de público, não contabilizada pela PM, teria sido apenas 5% do esperado. Na Paulista, a PM contou 125 mil bolsonaristas, onde eram esperados dois milhões. Em Campos, foram cerca de 300 manifestantes. Entre eles o edil Raphael Thuin (PTB). No ato, ele disse: “O movimento de hoje de 7 de setembro vai muito além das questões políticas de lado A ou B. Nós estamos brigando pela independência do Brasil. E atitudes como STF estava tomando, ser contra o voto auditável”. Com o voto eletrônico e auditável, Thuin foi eleito vereador. E Bolsonaro, presidente.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Sete de setembro em revista no Folha no Ar desta quarta

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quarta (08), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o historiador e professor Arthur Soffiati. Ele analisará os oito primeiros meses do governo municipal Wladimir Garotinho (PSD). Também avaliará os governos federal de Jair Bolsonaro (sem partido) e estadual de Cláudio Castro (PL), projetando as eleições de 2022. Por fim, o historiador dará sua visão das manifestações do 7 de setembro, em Campos e no país.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Cristofascismo no 7 de setembro de Jair Bolsonaro

 

 

Ronilso Pacheco, pastor e teólogo formado pela PUC/RJ

O cristofascismo dos púlpitos e do armário

Por Ronilso Pacheco

 

O teólogo e historiador Fábio Py tem popularizado no Brasil a categoria de “cristofascismo”, com a qual identifica o grupo cristão que, integrando-se ao governo Bolsonaro diretamente ou dando-lhe apoio incondicional, fortalece seu uso da religião e de uma teologia do domínio como escudo para seu caráter autoritário.

Py empresta a expressão da teóloga alemã Dorothee Solle, que a usou no contexto do nazismo para se referir à íntima relação entre líderes cristãos e o partido de Adolf Hitler. Solle cunha a expressão em 1970 no livro “Além da Mera Obediência”, no qual trata dos rumos de uma ética cristã para o futuro.

O cristofascismo pode ser uma categoria ainda em construção no Brasil, mas seu sentido e sua estética são perfeitamente identificáveis. E, nesta semana do 7 de Setembro, eles irão querer mostrar que definitivamente estão dispostos a levar o país ao limite da radicalidade, pregando uma manifestação pacífica enquanto estão plenamente conscientes de que pacifismo e bolsonarismo não se alinham em nenhuma realidade.

Porém o que não pode ser dito ou ignorado sobre esse grupo diz respeito à sua “fidelidade” ao bolsonarismo. Eles mantêm a cara exposta para ser vista, reconhecida e rechaçada. Três anos depois, o bolsonarismo levou o país ao caos, à mediocridade, ao aumento da pobreza e da fome e aos piores índices na qualidade da educação e em investimento em pesquisa e cultura. É um país politicamente mais violento e ameaçador. Mas a ascensão do bolsonarismo tem muito mais do que a adesão fundamentalista e reacionária evangélica.

Se há uma intensa responsabilização dos evangélicos pentecostais e neopentecostais pelo apoio a Bolsonaro e suas aspirações totalitárias e violentas, é hora de olhar para a responsabilidade do mercado financeiro, de grande parte dos grandes banqueiros brasileiros, de parte significativa dos grandes empresários, dos donos da grande mídia brasileira e até dos descolados ideólogos dos movimentos da “nova política” no país, que ignoraram o sujeito Bolsonaro, desde que ele “barrasse a esquerda” e deixasse a economia fluir segundo a cartilha do neoliberalismo.

Neste 7 de Setembro, só um grupo estará majoritariamente nas ruas, convocando seu rebanho para a “guerra”. O outro ficará em silêncio, fingindo-se chocado e surpreso, mesmo sabendo que não sentiu nenhum desconforto (e provavelmente ainda não sente), em ver o país ser governado por quem elogia torturadores, ofende gays, ridiculariza a comunidade negra, zomba do direito dos povos indígenas, despreza as políticas de proteção ambiental e tem uma tara em agredir verbalmente mulheres jornalistas e parlamentares. Adoram todos o mesmo deus.

 

Publicado na Folha de São Paulo.

 

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Folha no Ar desta terça: o que esperar do 7 de setembro?

 

(Arte: Joseli Mathias)

 

A partir das 7h da manhã desta terça (7), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf. Ele falará da parceria entre a Fundação Astrojildo Pereira e o Grupo Folha em debates virtuais, sob sua coordenação, para tentar compreender o momento do país. Avaliará também o governo Jair Bolsonaro (sem partido) e tentará projetar as eleições de 2022, a presidente da República e governador do estado do Rio.

Por fim, Hamilton tentará responder à pergunta que mais tem sido feita pelos brasileiros nos últimos dias: o que esperar das manifestações programadas ao 7 de setembro? Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Do “Independência ou morte!” ao “Acabou, porra!”

 

Dom Pedro I e Jair Bolsonaro (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Do “Independência ou morte!” ao “Acabou, porra!”

 

Daqui a três dias será 7 de setembro. Feriado da independência do Brasil, proclamada em 1822 pelo príncipe regente de Portugal. Cento e noventa e nove anos depois, o país que teve em Dom Pedro I seu primeiro governante espera com apreensão as manifestações nesta terça dos apoiadores do atual ocupante do cargo: o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Que, desde janeiro deste ano, sangra popularidade em todas as pesquisas. Na última, realizada pelo PoderData de segunda (30) a quarta (1º) desta semana, com 2.500 pessoas de 472 municípios das 27 unidades da Federação, Bolsonaro registrou seu pior índice de popularidade na série histórica do instituto. A pouco mais de 12 meses das urnas de 2022, apenas 27% dos brasileiros aprovam o atual governo federal. Os que desaprovam são hoje 63%.

Vencidos 32 meses de governo, o recorde de desaprovação de Bolsonaro reflete a realidade do país. Com volta da inflação, aumento dos juros, da cesta básica, dos combustíveis e da energia elétrica, crise hídrica, 14,4 milhões de brasileiros desempregados, 35,6 milhões de outros na informalidade, prejuízos nas lavouras de milho, café, cana, hortaliças e frutas, além da pecuária de leite, fuga dos investidores internacionais, a maior retração da produção industrial desde julho de 2015 e queda do PIB no segundo semestre erodindo qualquer retomada do crescimento a curto prazo, o cenário interno é tão desalentador quanto a imagem do Brasil no exterior. Tudo, ao juízo bolsonarista, consequência da Covid-19. No mesmo negacionismo que gerou a condução desastrosa da pandemia, econômica e sanitária, com mais de 582 mil vidas humanas perdidas até ontem no país.   

“É a economia, estúpido”, diria na sua frase mais célebre James Carville, estrategista do ex-presidente dos EUA Bill Clinton. O problema é que a estupidez, no Brasil de hoje, desafia os limites da razão. E da vida! No orçamento apresentado no Congresso na terça (31), Bolsonaro anunciou sua “economia” para 2022: reservou à compra de vacina contra Covid 85% menos do que em 2021. Serão R$ 3,9 bilhões para aquisição de imunizantes, contra os R$ 27,8 bilhões deste ano. Ciente do caos, o mercado que ainda dava alguma flutuação ao bolsonarismo desembarcou da canoa furada. Desistiu do “Posto Ipiranga” Paulo Guedes vendendo gasolina a R$ 7,00 o litro.

Na segunda, sete entidades representativas do agronegócio, responsável por 27% do PIB nacional, divulgaram manifesto em defesa da democracia:

— A Constituição de 1988 definiu o Estado Democrático de Direito no âmbito do qual escolhemos viver e construir o Brasil (…) Mais de três décadas de liberdade e pluralismo, com alternância de poder em eleições legítimas (…) O Brasil é muito maior e melhor do que a imagem que temos projetado ao mundo. Isto está nos custando caro e levará tempo para reverter.

Na quinta (02), foi a vez de 300 empresários da Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas), no estado governado pelo bolsonarista Romeu Zema (Novo), darem o seu recado:

— A ruptura pelas armas, pela confrontação física nas ruas, é sinônimo de anarquia, que é antônimo de tudo quanto possa compreender uma caminhada serena, cidadã e construtiva. A democracia não pode ser ameaçada, antes, deve ser fortalecida e aperfeiçoada.

Na mesma quinta, após o tiro no pé de Paulo Guedes ao tentar conter a manifestação da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), esta mandou às favas o ministro da Economia e a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), que urinou para trás. A Febraban não defecou à defecção e foi em frente, junto a outras 200 entidades, entre elas entre elas a Associação Brasileira de Agronegócio (Abag), o Instituto de Desenvolvimento do Varejo (IDV), a Fecomercio e a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Riscaram sua linha no chão:

— As entidades da sociedade civil que assinam este manifesto veem com grande preocupação a escalada de tensões e hostilidades entre as autoridades públicas. O momento exige de todos serenidade, diálogo, pacificação política, estabilidade institucional e, sobretudo, foco em ações e medidas urgentes e necessárias para que o Brasil supere a pandemia, volte a crescer, a gerar empregos e assim possa reduzir as carências sociais que atingem amplos segmentos da população.     

Sem nenhum arremedo de solução aos problemas reais do Brasil, o presidente reage criando outros, para tentar mascarar o que não sabe, nem quer resolver. E abriu uma crise com os demais Poderes da República, sobretudo o Supremo Tribunal Federal (STF), unido contra os arroubos autoritários do chefe do Executivo. Que são personificados nos chamamentos ao 7 de setembro “patriótico”, de camisa amarela e fralda geriátrica:

— Ninguém pode ir a Brasília simplesmente para passear, balançar bandeirinhas e ficar somente acampado (…) Como todos devem saber, nós teremos vários reservistas e R2 (oficiais da reserva), pessoas que têm conhecimento de como podemos fazer formações de grupamento para adentrarmos ao STF e ao Congresso (…) caso haja reações, vamos ter que enfrentar — convocou o coronel da reserva dos Bombeiros do Ceará, Davi Azim.

 

 

— Se em 30 dias eles não tirarem aqueles caras (ministros do STF), nós vamos invadir, quebrar tudo e tirar aqueles caras na marra. Pronto. É isso que você quer saber? É assim que vai ser. Pronto — bravateou o cantor sertanejo Sérgio Reis. Para se dizer em depressão, após receber a Polícia Federal (PF) em sua casa.

— Nós temos que agir agora. Concentrar as pressões populares contra o Senado, e, se preciso, invadir o Senado e colocar para fora da CPI (da Covid) a pescoção. Porque moleque a gente trata a pescoção — pregava o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, preso pelo Mensalão do PT, antes de ser engaiolado novamente no dia 13, pelo ministro do STF Alexandre Moraes. E ser denunciado por incitação ao crime e racismo, no dia 30, pela sub-procuradora geral da República Lindôra Araújo, mais bolsonarista da PGR. Na flor dos seus 68 anos, Jefferson é o mais jovem dos três cavaleiros do apocalipse, travestidos de “patriotas”.

Abandonado por 63% da população brasileira, pelo agronegócio, parte do empresariado e até a Febraban, Bolsonaro também o foi pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM/MG). Que, no dia 25, negou o pedido de impeachment de Moraes feito pelo presidente da República. Cujos mais de 100, por crimes de responsabilidade a escolher, são até aqui seguros pelo aliado que lhe restou nos demais Poderes da República: o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP/AL). Cujo filho, Arthur Filho, é dono da empresa Mídia Nova Representações, sem sede, site ou e-mail oficiais. Mas com contratos com a Caixa Econômica Federal e os ministérios da Saúde e do Turismo.

De pai para filho, na quinta as “rachadinhas” dos Bolsonaro explodiram de vez com a revelação de um ex-funcionário do clã por 14 anos. Marcelo Luiz Nogueira dos Santos denunciou uma série de supostos crimes cometidos pela família. Afirmou que o hoje presidente decidiu transferir para Flávio (01) e Carlos Bolsonaro (02), respectivamente senador fluminense e vereador carioca, o comando de um esquema de corrupção nos gabinetes de ambos. Teria sido após descobrir que era traído por sua então mulher, a advogada Ana Cristina Siqueira Valle. Mãe de Renan Bolsonaro (04), investigado sobre suas atividades empresariais em inquérito aberto pela PF no dia 15, ela e o filho moram de aluguel em mansão em Brasília avaliada em R$ 3,2 milhões. Cujo proprietário no documento, o corretor de imóveis Geraldo Antônio Machado, vive em casa de classe média e não tem nenhuma outra propriedade em seu nome.

 

 

Marcado pelo “Independência ou morte!” de Dom Pedro I, que pelo menos pôde abdicar do trono em favor do filho, o 7 de setembro do atual governante do Brasil, no lugar de golpe contra a democracia, tende a ficar marcado por outra frase: “Acabou, porra!”.

 

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Mourão ao RJ e Cláudio Castro entre Bolsonaro e Lula

Mourão, Castro, Bolsonaro, Lula, Quaquá e Bacellar (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Especulado como candidato a governador fluminense em 2022, o vice-presidente, general na reserva e gaúcho Hamilton Mourão (PRTB), já teria definido seu domicílio eleitoral ao Rio. A informação, creditada ao partido, foi divulgada hoje pela jornalista Berenice Seara, do jornal carioca Extra. A dúvida seria só se Mourão vai concorrer a governador ou ao Senado — que no próximo pleito elegerá apenas um à Câmara Alta de República pelo estado.

Novidade à parte, a jornalista registrou também o óbvio aparente: se Mourão confirmar sua candidatura a governador do RJ, o principal afetado seria o atual, Cláudio Castro (PL), pré-candidato a ficar no cargo que assumiu com o impeachment de Wilson Witzel (PSC). Pelo menos aos seus adversários na corrida ao Palácio Guanabara, Castro é tão ligado ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) quanto o general se distanciou do capitão no governo federal.

Mesmo que Mourão confirme sua candidatura, há muitas variáveis numa eventual disputa sua com Castro. Uma delas é que esta semana o ex-presidente da Juventude Nacional do PT Rodrigo Abel foi oficializado secretário na suposto governo bolsonarista do estado do Rio. Isto depois de  Thiago Pamplona, deputado pedetista licenciado como secretário estadual do Ambiente, ter tornado pública a possibilidade de aliança entre Castro e Lula (PT):

—  O governador e o ex-presidente Lula tem muitos amigos em comum que já estão trabalhando na construção deste movimento — disse Pamplona. Ele adiantou que sairá do PDT, caso o ex-prefeito de Niterói Rodrigo Neves confirme sua candidatura a governador pelo partido. Caso ela não vingue, o secretário de Castro trabalhará para levar a legenda de esquerda, que tem Ciro Gomes como pré-candidato a presidente, para apoiar o governador.

Noves fora o PDT, há mais elementos na salada de frutas política fluminense da aproximação do governador “bolsonarista” com o PT de Lula. Aliança com que também contam outros pré-candidatos a governador, como o deputado federal Marcelo Freixo (PSB), além do pedetista Rodrigo Neves. A despeito disso, o ex-prefeito de Maricá petista Washington Quaquá postou em suas redes sociais no último dia 24, ao recepcionar Castro em sua terra:

— Não sou de participar de eventos oficiais, nem quando era prefeito gostava, mas hoje fiz questão de ir prestigiar a vinda do governador Cláudio Castro. Para quem chegou sem que ninguém levasse muita fé, ele tem demostrado imensa capacidade de diálogo e ao mesmo tempo de vencer a crise administrativa do Estado — pregou um dos grandes nomes do PT fluminense.

 

Fabiano Horta, Cláudio Castro, Washington Quaquá, Rodrigo Bacellar e Zeidan em Maricá, em 24/08 (Foto: Instagram)

 

Junto a Quaquá e Castro, no encontro da semana passada em Maricá, estavam o atual prefeito petista do município, Fabiano Horta, a deputada estadual do PT Zeidan e o secretário estadual de Governo, o deputado campista Rodrigo Bacellar (SD). Cujo pai, o ex-vereador Marcos Bacellar (SD), egresso do movimento sindical dos eletrecitários em Campos, sempre foi admirador confeso do ex-sindicalista dos metalúrgicos Lula.

Paulo Ganime

Pré-candidato a governador pelo Novo, o deputado federal Paulo Ganime se posicionou sobre a salada de frutas fluminense, entre as eleições aos palácios Guanabara e do Planalto em 2022:

— Todos esses nomes (a governador) estão querendo colar no Lula, no Bolsonaro ou no Ciro. Mas os eleitores do RJ querem algo diferente, o RJ precisa de algo diferente.

 

Atualizado às 14h15.

 

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