Mulherão da porra! — Merkel e o feminino no mundo

 

Um mulherão da porra!

 

(A Diva Abreu Barbosa)

 

Amanhã, domingo, dia 26, chega ao fim uma era. Que marcou a Europa e o mundo. Angela Merkel deixará o poder na Alemanha, que comandou por 16 anos e quatro mandatos consecutivos como chanceler. Em paralelo tupiniquim, ela conseguiu o que homens públicos marcantes, para o bem e o mal, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o atual, Jair Messias Bolsonaro (sem partido), sonham acordados fazer. E, muito dificilmente, conseguirão realizar antes de fecharem os olhos pela última vez.

Apelidada por seus conterrâneos de “Mutti” (“mamãe”), Merkel é, sem sombra de dúvida, a mulher mais importante deste nosso primeiro quarto do século 21 ainda em curso. Sobretudo para a tal Civilização Ocidental, ou greco-romano-judaico-cristã. Onde a correta máxima “o lugar da mulher na sociedade é onde ela quiser estar” tem eco ao sol real. A alemã ocupa a posição de destaque que, no século 20, pertenceu a Magaret Tatcher, ex-primeira-ministra conservadora do Reino Unido. E que, entre os séculos 16 e 17, teve na rainha da Inglaterra Elizabeth I a precursora daquilo hoje chamado de empoderamento feminino.

Malala Yousafzai

A realidade de Merkel é diferente das três civilizações que dividem conosco o mesmo tempo e espaço: a Chinesa, a Indiana e a Islâmica. Ainda que as duas últimas tenham produzido figuras femininas marcantes, como as ex-primeiras-ministras da Índia, Indira Ghandi; e do vizinho islâmico Paquistão, a polêmica Benazir Bhutto. Ou, também paquistanesa, a jovem e brava ativista Malala Yousafzai, que sobreviveu a um tiro no rosto disparado por um radical do Talibã, porque queria que as mulheres tivessem direito a… estudar. O fato é que, infelizmente, elas ainda são a exceção em suas sociedades fundamentalmente patriarcais, não regra.

Sun Chunlan, vice-primeira-ministra da China

Incensada por boa parte da esquerda no mundo, pelo capitalismo de estado com partido único que transformou sua ditadura em maior economia da Terra, a China de Mao Tsé-Tung, Deng Xiaoping e do sucessor de ambos, o hábil presidente Xi Jinping, ainda não teve uma presença feminina no comando do país, desde que deixou de ser um Império em 1912. Ainda que, mais recentemente, mulheres como Wu Yi e Liu Yandong tenham ocupado o cargo de vice-primeira-ministra da China. Que hoje é desempenhado pela colega de ambas, Sun Chunlan.

 

Park Geun-hye e Dilma Rousseff

 

Vizinha chinesa, na Coréia do Sul o exemplo solitário de Park Geun-hye na presidência foi tão exitoso quando o de Dilma Rousseff (PT) no Brasil. Ambas foram alvo de suspeitas de corrupção em seus governos e processo de impeachment. No Japão, entre os 63 nomes que ocuparam o cargo de primeiro-ministro desde 1885, nunca houve uma mulher.

Margaret Tatcher e Ronald Reagan

Esse é o mundo marcado por Merkel. Que não precisou de um par masculino mais poderoso, como foi o ex-presidente dos EUA Ronald Reagan para a inglesa Tatcher nos 1980. Quando juntos os dois selaram a vitória do capitalismo sobre o “socialismo real” da ex-União Soviética, pondo fim à Guerra Fria. Dissolvido em 1991, aquele país duraria só dois anos após a queda do Muro de Berlim, em 1989. Dividida desde o fim da II Guerra Mundial (1939/1945), o episódio emblemático em sua capital seria o estopim à reunificação da Alemanha em 1990.

Aquele movimento foi liderado pelo então chanceler da Alemanha Ocidental Helmut Kohl, correligionário democrata-cristão de Merkel, quando esta deixou a pesquisa científica e iniciou na vida pública. Química quântica vinda da Alemanha Oriental comunista, seria eleita deputada da Bundestag (Câmara Baixa alemã), nomeada ministra da Mulher e Juventude, e depois ministra do Meio Ambiente e da Segurança Nuclear de Kohl. Eleita chanceler pela primeira vez em 2005, caberia a ela sedimentar o processo da reunificação germânica.

 

Angela Merkel e Helmut Kohl

 

Nestes últimos 16 anos de Merkel no poder, a Alemanha levou nas costas a União Europeia. Mesmo após a saída desastrada do Reino Unido, com o Brexit de 2016. Sob o comando de uma mulher comedida e republicana, os alemães fizeram, na economia do século 21, o que não conseguiram pelas armas no século 20, sob lideranças masculinas consideradas fortes. Como a do kaiser Guilherme II, na I Guerra Mundial (1914/1918), ou de Adolf Hitler, na II Guerra.

Theresa May

Em seu tempo, a chanceler da Alemanha foi a mulher mais poderosa da Europa e do mundo. Lidou de igual para igual, não raro superando, homens como o presidente russo Vladimir Putin, todos os presidentes franceses de Jacques Chirac a Emannuel Macron, e todos os primeiros-ministros britânicos, de Gordon Brown a Boris Johnson, passando por uma Theresa May derrotada pelo Brexit, que nunca conseguiu espelhar a força da alemã. Sem contar, do outro lado do Atlântico Norte, os presidentes dos EUA, de George W. Bush a Joe Biden. Incluindo Barack Obama, de quem Merkel foi aliada. Mas que enfrentou no episódio dos grampos ilegais de líderes estrangeiros, revelado em 2013 pelo ex-agente da CIA Edward Snowden.

 

Refugiado sírio Aylan Kuri, de 3 anos, afogado em 2015 na praia de Bodrum, na Turquia

 

Reeleita à chancelaria alemã em 2009 e 2013, Merkel enfrentou a crise financeira global de 2008, o colapso econômico da Grécia em 2010, a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2014 e a crise migratória de 2015, com centenas de milhares de pessoas tentando entrar na Europa. Fugiam de guerras, fome, conflitos étnicos, intolerância religiosa, mudanças climáticas e violação dos direitos humanos em seus países de origem, no Oriente Médio e na África.

 

Merkel entre Trump e Putin

 

Líder da União Europeia em todas essas crises, ela planejava se aposentar politicamente em 2017. Mas decidiu se reeleger mais uma vez para enfrentar outro desafio: o populismo de extrema direita de Donald Trump, eleito presidente dos EUA em 2016. Bem como seus satélites europeus na Polônia de Andrzej Duda e na Hungria de Viktor Orbán, isolados por Merkel em seus retrocessos xenófobos e de liberdades individuais. Anteparo europeu a Trump por um lado e a Putin, pelo outro, não foi derrotada por combater em duas frentes, como foi Hitler. E teve papel decisivo também no enfrentamento da Alemanha à pandemia da Covid-19.

 

Merkel e Orbán

 

Mais recentemente, na retirada das tropas alemãs do Afeganistão neste ano, teve autocrítica, uma das suas características mais presentes enquanto política, para admitir que participar da invasão e ocupação do país asiático na coalizão comandada pelos EUA foi um erro. E no último dia 9, finalmente assumiu: “Ja, ich bin Feministin” (“Sim, eu sou uma feminista”). Uma que preferiu marcar sua posição pelas ações pessoais e públicas, mais que com palavras.

 

“Ele não!” na praça do Santíssimo Salvador, como em todo o Brasil, em 29 de setembro de 2018. O resultado? Segundo pesquisa Ibope feita naquele dia e no seguinte, Bolsonaro cresceu só no voto feminino brasileiro de 18% a 24%

 

Camille Paglia

Merkel sempre foi criticada pela ala mais conservadora do seu partido União Democrática Cristã (CDU), por ser, na verdade, uma socialdemocrata — ou “socialista fabiana” nos delírios bolsolavistas. Como sempre foi taxada de conservadora por parte da esquerda internacional. Cega ideologicamente a quem fez mais pela afirmação da mulher do que qualquer “marcha das vadias”, “ele não!” e congêneres, aprisionadas ao seu “lugar de fala” identitário. Que, não raro, alimentam reações como a eleição de Bolsonaro em 2018. E cujas entusiastas são melhor definidas pela feminista e crítica cultural dos EUA Camille Paglia: “mulheres burguesas de classe média que pensam poder transformar o mundo em sua sala de estar”.

 

Cena do documentário “O Homem de Aran” (1934), de Robert Flaherty

 

Por sua vez, desde seu primeiro mandato como chanceler, Merkel jamais aceitou morar na residência oficial de governo. Habita com o marido em um apartamento normal de Berlim. Em tempos de polarização política no mundo, ela se manteve 16 anos “wie ein Fels in der Brandung” (“como uma rocha no mar agitado”), como dizem os alemães. Nunca teve conta no Twitter, mudou seu corte de cabelo ou o guarda-roupa discreto. Pelo que foi e fez, a mulher que amanhã deixará de comandar o povo que derrubou o Império Romano, reformou o cristianismo, inventou a música como a conhecemos e criou a maior escola de filosofia desde os gregos antigos, seria chamada de outra coisa abaixo do Equador: um mulherão da porra!

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Deputado: Promar dará novo rumo à Bacia de Campos

 

(Foto: Divulgação)

 

O Brasil é, hoje, o 7º maior produtor de petróleo do mundo e vem atingindo recorde de exportação. De acordo com o Ministério de Minas e Energia, o país exportou 1,4 milhão de barris por dia em 2020. Embora haja o aumento na produção, com 2,9 milhões de barris diários, verifica-se, nas últimas décadas, a queda acentuada na produção da Bacia de Campos.

Com o Programa de Revitalização e Incentivo à Produção de Campos Marítimos (Promar), o Ministério de Minas e Energia visa melhorar o aproveitamento dos recursos petrolíferos nacionais, o que vem gerando expectativas no setor.

O Promar também tem como objetivo ampliar o pagamento das participações governamentais e da indústria de bens e serviços voltados para a exploração e produção de petróleo e gás natural em áreas marítimas.

Christino Áureo, deputado federal

O presidente da Frente Parlamentar para o Desenvolvimento Sustentável do Petróleo e Energias Renováveis (Freper), deputado federal de Macaé, Christino Áureo (PP), acredita no impacto positivo do Promar na economia fluminense:

— Esperamos que, com a flexibilização da incidência de royalties sobre os campos maduros, possamos aumentar a arrecadação das participações governamentais, ao mesmo tempo em que retornamos aos municípios um grande percentual dos empregos que já tivemos no passado.

O Promar gerou a expectativa do aumento da produtividade e a extensão da vida útil dos campos maduros, fomentando a instalação de novas empresas e investimentos no setor.

— Precisamos demonstrar a capacidade do estado do Rio de atrair investimentos, principalmente no Norte Fluminense, onde cidades como Campos e Macaé terão a economia diretamente impactada pelo programa. E discutir o marco regulatório, junto à Câmara e Senado, oferecendo melhores condições para as empresas interessadas em investir. É necessário trabalharmos em conjunto para darmos um importante passo para toda a sociedade civil, não somente da região produtora, mas para beneficiar todo o Estado — ressaltou Christino.

 

Produção na Bacia de Campos

Com mais de 40 anos de operação, a Bacia de Campos atingiu seu máximo de produtividade em 2009, chegando a ser responsável por 85% da produção nacional.

Com a descoberta do pré-sal, em 2007 e 2008, ocorreu um declínio da produção e, hoje, a mesma Bacia de Campos produz 22% do petróleo nacional, enquanto o pré-sal da Bacia de Santos tem 72% da produção total.

Alcimar Chagas, economista e professor da Uenf

A grande discussão é: como revitalizar a Bacia de Campos para voltar a gerar aumento da produtividade, a extensão da vida útil dos campos e o aumento do fator de recuperação?

— A revitalização é possível e interessante. A infraestrutura está montada: foi descoberta a Bacia, explorada, todos os equipamentos estão disponíveis, só que é preciso entrar com novas tecnologias, novos investimentos, para que realmente você possa revitalizar. Um poço de petróleo tem o histórico de recuperação. No caso da Bacia de Campos, o fator médio de recuperação é em torno de 14% (você retira 14% do que tem lá). No Mar do Norte, esse fator de recuperação é de 45%. Podemos avançar um pouco mais ainda, mas, para isso, são necessários novos investimentos — lembrou o economista, pós-doutorado em Economia e professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Alcimar das Chagas Ribeiro.

De acordo com Alcima, com o ingresso de novas empresas, com novas tecnologias, seria possível a Bacia de Campos voltar às condições de 2014, antes da crise do petróleo:

— Poderíamos chegar a 25% ou dobrar esse número de fator de recuperação. Voltar com a atividade petrolífera, nas condições que tínhamos antes de 2014, na Bacia de Campos. É o que todo mundo quer, o ambiente melhor que se espera. São necessárias muitas mudanças, principalmente no campo do marco regulatório, para que essas empresas possam investir e usar essa nova tecnologia de maneira a fazer com que essa Bacia volte a gerar emprego e royalties no estado do Rio — destacou o economista e professor da Uenf.

 

Da assessoria do deputado Christino Áureo.

 

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Governo Castro na região no Folha no Ar desta 6ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta sexta (24), o convidado para fechar a semana do Folha no Ar é o secretário de Desenvolvimento Econômico do estado do Rio de Janeiro, Vinicius Farah, deputado federal licenciado do MDB e ex-prefeito de Três Rios. Ele falará sobre os projetos estaduais Pacto RJ e Supera RJ aos municípios do Norte e Noroeste Fluminense. Também falará do Porto do Açu e das promessas do governador Cláudio Castro (PL) à região, como a retomada das obras da Ponte da Integração, entre São João da Barra e São Francisco de Itabapoana, e a instalação de um Restaurante Popular em Guarus.

Por fim, o secretário estadual e deputado federal licenciado dará sua projeção para as eleições de 2022, no estado do Rio e no Brasil. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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IFF Solidário e crise econômica no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quinta (23), os convidados do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, são o professor Jefferson Manhães de Azevedo e o empresário Lucas Barcelos, respectivamente, reitor do IFF e diretor financeiro do Grupo Barcelos, da rede de supermercados Super Bom. Eles falarão sobre o projeto e as parcerias do IFF Solidário, para arrecadar alimentos à população carente da região. Falarão também do agravamento da crise econômica e consequente volta da fome no Brasil.

Por fim, Jefferson e Lucas analisarão a crise financeira de Campos (confira aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aquiaqui, aqui, aquiaqui e aqui), suas alternativas e sinais recentes de melhora. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Campos: R$ 600 milhões a mais em nota fiscal que 2020

 

(Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

 

 

Dinheiro e divisas a Campos

Apesar da derrota na cobrança retroativa do IPTU, em decisão liminar da Justiça de sexta (17) que mandou suspendê-la, o prefeito Wladimir Garotinho (PSD) tem motivos para comemorar. Em todo o ano de 2020, Campos gerou R$ 1,6 bilhão em notas fiscais de serviço emitidas pelos CNPJs do município. Até a semana passada, com pouco mais de oito meses de 2021, esse valor já tinha chegado a R$ 2,2 bilhões. E o governo goitacá projeta que possa chegar perto dos R$ 3 bilhões até o fim do ano, com as vendas do Dia da Criança, em 12 de outubro, e, principalmente, do Natal. É mais dinheiro circulando, declarado e gerando divisas à cidade.

 

Menos IPTU, mais royalties

A derrota na cobrança extra do IPTU, comemorada pelo contribuinte, foi fruto de uma ação do advogado tributarista Carlos Alexandre de Azevedo Campos. Ex-assessor do Supremo Tribunal Federal (STF), ele já derrubou IPTUs da mãe de Wladimir, Rosinha Garotinho (hoje, Pros), quando esta era prefeita. Curiosamente, a relação pessoal do jurista com o prefeito é boa. Mas, amigos, amigos, impostos e leis à parte. O fato é que, com o aumento substancial também no recebimento de royalties de setembro (R$ 45,5 milhões), em relação ao mesmo mês de 2020, e a agosto deste ano, Campos parece começar a sair da crise financeira.

 

Campos/EUA

Outro fato que aponta a saída da crise, não do município governado por Wladimir, como de outros da Bacia de Campos, é a retomada de reservas de voo pelo aplicativo da Azul para Fort Lauderdale, na Flórida. Saindo de Campos, Macaé e Cabo Frio, fazem escala nas cidades do Rio de Janeiro, de São Paulo e Campinas, com destino à costa sudeste dos EUA. Não por coincidência, logo após o blog Opiniões divulgar a retomada dos voos da Azul na segunda (20), o governo Joe Biden anunciou a suspensão, em novembro, das restrições para passageiros internacionais, incluindo brasileiros, que estiverem vacinados contra a Covid.

 

Campos no mundo

Se o capitalismo do comércio goitacá, das petrolíferas, das companhias aéreas e dos EUA não dá ponto sem nó, a recuperação econômica da cidade, do Brasil e do mundo depende de muitos fatores. Que estão interligados e podem ser, às vezes, conflitantes. A um município petrorrentista como Campos, o dólar alto em relação ao Real, como ocorre sob o governo Jair Bolsonaro (sem partido), pode ser ruim ao Brasil, mas bom à cidade. E a situação difícil de uma grande construtora como a Evergrande da China, inimiga imaginária do bolsonarismo, pode derrubar a economia do mundo. Incluindo o pequeno comerciante bolsonarista de Campos.

 

(Foto: UN Photo/Cia Pak)

 

Brasil diferente

Bolsonaro não poderia entrar nos EUA, sem estar vacinado contra a Covid, não fosse presidente do Brasil. Só por isso sua entrada foi aceita em Nova York. Mas teve que comer do lado de fora de uma pizzaria e de uma churrascaria na maior cidade dos EUA, barrado por não estar imunizado contra o vírus que matou quase 600 mil pessoas no país que governa — ou deveria. Ontem ele abriu a 76ª Assembleia Geral da ONU, honra que tradicionalmente cabe ao presidente brasileiro. Prometeu apresentar um Brasil diferente do que mostra a mídia do mundo. E cumpriu a promessa: apresentou um Brasil diferente dos fatos.

 

Uma verdade

O Brasil real sofre com a volta da inflação, o aumento da cesta básica, dos juros, do dólar, dos combustíveis e da energia elétrica; a crise hídrica, os 14,4 milhões de desempregados, os 35,6 milhões na informalidade, os prejuízos nas lavouras, a fuga dos investidores, a queda do Ibovespa, do PIB e da produção industrial. Já o Brasil de Bolsonaro estava “à beira do socialismo” de… Michel Temer (MDB). Tratou a ONU como seu cercadinho do Alvorada. E após produzir prova contra si mesmo, ao defender diante do mundo o “tratamento precoce” contra a Covid, sentenciou uma verdade: “A história e a ciência saberão responsabilizar a todos”.

 

População de rua improvisa abrigos no Jardim São Benedito (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

IFF solidário

Foi atento ao Brasil real, cuja miséria da crise se espraia na volta da fome e no aumento da população de rua em Campos e nos demais 10 municípios onde está instalado, que o Instituto Federal Fluminense (IFF) resolveu tomar uma atitude cidadã. E com apoio do Grupo Folha e do Grupo Barcelos, da rede Superbom, criou o projeto IFF Solidário. Seu lançamento oficial será amanhã (23), mas qualquer um já pode fazer doações através de transferência bancária à conta Sicoob Agência 4222 C/C: 2671-9, ou por Pix em fundproiff@gmail.com. Todo o dinheiro arrecadado será integralmente revertido em cestas básicas à população carente.

 

A lição

A arrecadação e a aplicação do dinheiro serão fiscalizadas pelo conselho curador formado por um integrante de cada uma das três instituições. Segundo o reitor do IFF, professor Jefferson Manhães de Azevedo, as doações serão feitas aproveitando os cadastros de assistência social de Campos (Centro e Guarus), São João da Barra, Quissamã, Macaé, Cabo Frio, Itaperuna, Cambuci, Bom Jesus do Itabapoana, Santo Antônio de Pádua, Cordeiro e Maricá, municípios onde a instituição de ensino está instalada. A lição tem 2 mil anos, sobreviveu à crucificação e permanece atual: “Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer” (Mateus 25:35).

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Bacia de Campos e 2022 no Folha no Ar desta 4ª

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quarta (22), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é William Passos, geógrafo e consultor especializado em estatística e desenvolvimento regional. Ele falará do estudo da região da Bacia de Campos, ao qual se dedica em sua tese de doutorado no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ippur/UFRJ). Também analisará a crise econômica do município de Campos (confira aquiaquiaquiaquiaqui, aquiaqui, aqui, aquiaqui e aqui) e suas perspectivas de crescimento populacional.

Por fim, o acadêmico usará seus conhecimentos na Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE para tentar projetar as eleições de 2022 a presidente e governador do estado do Rio. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Brasil vira uma fake news com Bolsonaro na ONU

 

(Foto: UN Photo/Cia Pak)

 

Hoje, na 76ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) quis vender ao mundo uma fake news do Brasil que governa — ou deveria. Diametralmente oposto ao Brasil real, que vive a volta da inflação em patamares inéditos desde a implantação do Plano Real em 1994, o aumento da cesta básica, dos juros, do dólar, dos combustíveis e da energia elétrica. Que vive a crise hídrica, os 14,4 milhões de brasileiros desempregados, os 35,6 milhões de outros na informalidade, os prejuízos nas lavouras e pecuária de leite, a fuga dos investidores internacionais, a retração da produção industrial, a queda do Ibovespa e do PIB. Um Brasil que tem quase 600 mil mortos pela condução criminosa da pandemia da Covid-19. E cujo principal responsável foi hoje à ONU produzir provas contra si mesmo, talvez a um futuro julgamento na Corte Penal Internacional de Haia, ao defender o “tratamento precoce”.

Bolsonaro foi à ONU pregar contra o “passaporte da vacina”, após humilhar o Brasil que viu seu presidente ter que ser atendido do lado de fora de uma pizzaria e de uma churrascaria em Nova York, barrado porque não se vacinou contra a Covid. Bolsonaro foi à ONU dizer que seu governo não tem “nenhum caso concreto de corrupção”, quando ele, seu governo e seus quatro filhos são investigados por corrupção, das “rachadinhas” à cobrança de propina na compra de vacinas de origem para lá de duvidosa. Bolsonaro foi à ONU dizer que “600.000 índios vivem em liberdade” no Brasil, enquanto índios reagem a flechadas em Brasília à proposta do governo do marco temporal, para concessão de posse das suas terras ancestrais, invadidas por garimpeiros, grileiros e madeireiros ilegais. Bolsonaro foi à ONU se ufanar pela legislação ambiental brasileira, que seu governo assumidamente “passa a boiada” para descumprir, gerando a média/ano de 10 mil quilômetros quadrados de florestas brasileiras devastadas, quase o dobro da média anterior até 1º de janeiro de 2019.

Bolsonaro foi hoje à ONU para querer transformar o mundo em um cercadinho do Alvorada. E nele falar de um Brasil dissociado do país evidenciado a cada nova pesquisa de avaliação do governo federal e intenções de voto a 2022. Nas quais o brasileiro deixa claro ao seu presidente, com os 60% que hoje não votariam nele de maneira nenhuma, que não há chance aritmética para sua reeleição. E que quem votar no primeiro turno para tentar eleger o capitão no segundo, tem grandes chances de levar Lula de volta ao poder. Até lá, se nada mudar, Bolsonaro e bolsonaristas restantes continuarão como “Alice no País das Maravilhas”, ao eco de uma Rainha de Copas tirânica e enfurecida, pedindo o corte de cabeças, como no 7 de setembro. Com tios e tias do WhatsApp fazendo as vezes do “Chapeleiro Louco”. Que creem terem assumido o Brasil “à beira do socialismo” de… Michel Temer (MDB).

Hoje, na Assembleia Geral da ONU, o Brasil foi dividido por atual seu presidente em dois. Um, é a fake news que os bolsonaristas, os “não sou bolsonarita, mas…” e seu “mito” juram existir. O outro é o país que a gente vive, atolado até o pescoço, e o resto do mundo vê.

 

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FDP! e cultura de Campos ao Brasil no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta terça (21), os convidados do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, são a professora Vanda Terezinha e o jornalista Wellington Cordeiro, presidentes, respectivamente, da Academia Campista de Letras (ACL) e da Associação de Imprensa Campista (AIC). Ambos falarão sobre a programação do 4ª Festival Doces Palavras (FDP!) na cidade, promovido pela Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), que tem a ACL e AIC como curadoras.

Vanda e Wellington também analisarão a política do governo Wladimir Garotinho (PSD) na arte e cultura goitacá. E falarão do papel do jornalismo e da literatura no Brasil do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Azul retoma voos de Campos, Macaé e C. Frio com EUA

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

A Azul retomou neste mês de setembro a venda de passagens aéreas de Campos, Macaé e Cabo Frio para a cidade de Fort Lauderdale, na Flórida, na costa sudeste dos EUA. Mesmo com sua fronteira fechada para turismo e exigência de quarentena de 14 dias fora dos EUA (medida que será suspensa a partir de novembro, incluindo aos brasileiros, segundo anunciado hoje pelo governo Joe Biden), sem contar a grave crise econômica no Brasil, é uma prova da pujança da região da Bacia de Campos, que os três municípios do interior fluminense integram. Saindo dos aeroportos de Campos, Macaé e Cabo Frio, as conexões são feitas nas cidades do Rio de Janeiro, de São Paulo, ou de Campinas, com destino final à Flórida.

William Passos, geógrafo e consultor especializado em estatística e desenvolvimento regional

Geógrafo e consultor especializado em estatística e desenvolvimento regional, William Passos tem se dedicado ao estudo da Bacia de Campos, para sua tese de doutorado no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ippur/UFRJ). O acadêmico é um dos que mais dominam as estatísticas da região, após cursar um ano na Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE. Para ele, a retomada dos voos da região com os EUA é fruto também do monopólio da Azul:

— Com a decadência de companhias áreas como a Gol e a Latam, também por conta da crise da pandemia da Covid, a Azul pode monopolizar os voos da região da Bacia de Campos, como tem feito em várias outras regiões do interior do Brasil. Só assim, aeroportos que seriam naturalmente competidores, como os de Campos e Macaé, municípios distantes por apenas duas horas de carro, podem passar a ser complementares. É uma prova também da importância econômica da região da Bacia de Campos, que começa a retomar suas atividades, parcialmente interrompidas durante a pandemia — explicou o geógrafo William Passos, que no último sábado (19), foi personagem de matéria da Folha da Manhã, feita pela jornalista Joseli Mathias, sobre a projeção do crescimento populacional de Campos e região.

 

Atualizado às 17h17 para acréscimo de informação.

 

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Cesar Maia: RJ e “fracasso total” do governo Bolsonaro

 

Com quase três anos de governo federal, o fracasso é total. Caberá ao próximo presidente recuperar a economia brasileira”. Ex-prefeito do Rio de Janeiro, onde hoje é vereador, Cesar Maia (DEM) deu seu diagnóstico como economista logo na abertura desta entrevista à Folha da Manhã, com respostas curtas, mas nem por isso menos contundentes. Como o agravamento da crise econômica no país, para ele não é o mercado que está desembarcando do governo Jair Bolsonaro (sem partido), mas “Bolsonaro que desembarcou do mercado”.

Pai do ex-presidente da Câmara Federal, o deputado licenciado Rodrigo Maia (sem partido), defendeu o fato do filho não ter aberto nenhum dos mais de 100 pedidos de impeachment presidencial: “sem chance de alcançar os 2/3 seria fortalecer Bolsonaro”. Sobre a eleição a governador do Rio em 2022, cargo que disputou e perdeu para Anthony Garotinho (hoje, sem partido) em 1998, Maia vê hoje “um quadro imprevisível”. Só aposta que a onda bolsonarista de 2018, que elegeu Wilson Witzel (PSC) governador, “não se repetirá agora”. Ele elogiou seu sucessor na prefeitura carioca, Eduardo Paes (PSD). Sobre o governo Wladimir Garotinho (PSD) em Campos, admitiu: “não estou acompanhando de perto”. Mas ressalvou: “talvez ele tenha se precipitado na aproximação pragmática com o governador” Cláudio Castro (PL).

 

Cesar Maia (Foto: Divulgação)

 

Folha da Manhã – Economista, como vê e projeta o Brasil com volta da inflação, aumento dos juros, do dólar, da cesta básica, dos combustíveis e da energia elétrica, crise hídrica, 14,4 milhões de brasileiros desempregados, 35,6 milhões de outros na informalidade, prejuízos nas lavouras e pecuária de leite, fuga dos investidores internacionais, maior retração da produção industrial desde julho de 2015, queda das bolsas e do PIB?

Cesar Maia – A pergunta já traz a resposta. Com quase três anos de governo federal, o fracasso é total. Caberá ao próximo presidente recuperar a economia brasileira.

 

Folha – Como avalia a atuação de Paulo Guedes no ministério da Economia?  À exceção da reforma da Previdência, cujo crédito se deve muito à atuação do seu filho e então presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia, o governo Jair Bolsonaro cumpriu a agenda liberal que usou para se eleger em 2018?

Maia – Conheci bem o Paulo Guedes, um importante economista liberal. Creio que, ao assumir o ministério da Economia, ele se encantou com a função. E passou a atuar de forma pragmática para se manter na cadeira. As crises econômica e fiscal que acompanharam o governo Dilma impuseram a reforma da Previdência. Sem elas, essa reforma não viria.

 

Folha – Com as ameaças de invasão ao STF e ao Congresso, nas convocações às manifestações de 7 de setembro, centenas de entidades dos setores produtivo e financeiro assumiram a defesa da democracia. O mercado desembarcou do governo Bolsonaro?

Maia – Melhor seria dizer que Bolsonaro desembarcou do mercado.

 

Folha – Como avalia as manifestações de 7 de setembro e 12 de setembro? Considera as primeiras uma tentativa frustrada de golpe, redundando no recuo do dia 9, na nota redigida pelo ex-presidente Michel Temer (MDB) e assinada por Bolsonaro? E quanto aos atos de domingo (12), contra o presidente, foram esvaziadas pelo boicote do PT e Psol?

Maia – Nunca se viu um golpe de estado com data marcada. Na verdade, foi um blefe. Mas serviu para mostrar a força das instituições construídas em 1988 pela Constituição. As manifestações antibolsonaristas foram proporcionais às expectativas de cada um dos segmentos. Quanto o refluxo do PT e do Psol, é uma clara demonstração disso.

 

Folha – Nome mais bem avaliado nas pesquisas entre as opções para tentar furar a polarização Lula/Bolsonaro nas eleições de 2022, Ciro Gomes (PDT) disse à Folha FM 98,3, no dia 10, que o PT não quer o impeachment do presidente, por apostar no segundo turno contra ele como sua melhor chance de voltar ao poder. Concorda?

Maia – A fragilidade da política brasileira nos ensina a não antecipar as eleições. No segundo semestre de 2022, se poderá avaliar com maior precisão esse quadro. A declaração de Ciro, de que Lula e o PT não quereriam o impeachment de Bolsonaro, responde à sua própria condição de candidato declarado a presidente no próximo ano.

 

Folha – Após as ameaças de Bolsonaro no 7 de setembro, Rodrigo Maia disse: “O presidente estourou a corda e não há retorno”. Licenciado como deputado para ser secretário no governo paulista de João Doria (PSDB), seu filho é criticado por não ter aberto nenhum dos mais de 100 pedidos de impeachment contra Bolsonaro. Ele errou ou acertou? E o sucessor dele, Arthur Lira (PP/AL)? 

Maia – Iniciar um processo de impeachment sem chance de alcançar os 2/3 seria fortalecer Bolsonaro. No dia seguinte a oposição estaria fragilizada. A presidência da Câmara por Arthur Lira responde à base que lhe dá sustentação heterogênea.

 

Folha – E o quadro econômico do estado do Rio, que desde 2017 só paga suas contas graças ao regime de recuperação fiscal com a União? O que esperar da partilha dos royalties do petróleo, aprovada pelo Congresso em 2013 e, desde então, suspensa por uma decisão liminar monocrática do STF, da ministra Cármem Lúcia?

Maia – A falência do estado do Rio criou um beco sem saída. Fato superado. Agora é planejar e executar bem e evitar a contaminação eleitoral. Não há nem ambiente nem apoio majoritário para alterar a partilha dos royalties nesta Legislatura.

 

Folha – Como viu a venda da Cedae, um dos últimos ativos fluminenses, que rendeu mais de R$ 22 bilhões? São R$ 7,688 bilhões distribuídos pelos 28 municípios que aderiram ao plano de concessão de saneamento, e R$ 14,478 bilhões ao Governo do Estado. Como e onde investir? E qual a sua avaliação do governo Cláudio Castro?

Maia – A execução dos bilhões que virão precisa ser bem planejada. A confusão com o período eleitoral deve prejudicar. Todo o processo de preparação das ações, licitações, indicam que mais da metade desses recursos só poderá ser efetivada no próximo governo. Senti a falta de recursos para ciência e tecnologia, portanto, a falta de uma visão estratégica.

 

Folha – E a disputa ao Palácio Guanabara em 2022? Como avalia as chances entre os nomes postos: Castro, os deputados federais Marcelo Freixo (PSB) e Paulo Ganime (Novo), o ex-prefeito de Niterói Rodrigo Neves (PDT) e o presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz? Crê na candidatura do vice-presidente, general Hamilton Mourão (PRTB)?

Maia – As pesquisas divulgadas mostram um quadro imprevisível.  Ainda são metade dos eleitores sem escolha efetiva. Há que se esperar pelo menos a janela de março, que vai movimentar os partidos. Impossível fazer uma análise neste momento, enquanto o quadro de candidatos não estiver definido.

 

Folha – Também à Folha FM, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, garantiu que não será candidato a governador em 2022. E gostou da analogia de que, na disputa por seu apoio, ele será a “noiva preferida” dessa eleição. O que foi confirmado, também à Folha, por Castro, Neves, Ganime e até Freixo. Vereador carioca, como vê a nova gestão Paes, que começou como seu subprefeito da Barra, e o papel dele na eleição a governador?

Maia – O prefeito Eduardo Paes está indo bem. Ter seu caixa reforçado bem antes da sua reeleição vai ajudar. Poderá pensar com rigor a aplicação desses recursos. Acho que Paes não se envolverá diretamente na campanha de governador. Creio que vai priorizar fazer boas bancadas de apoio legislativo.

 

Folha – O senhor não se elegeu ao Senado em 2018, mesmo com duas vagas, preenchidas na onda bolsonarista por Flávio (hoje, Republicanos) e Arolde Oliveira (PSD), falecido por Covid em 2020. Foi a mesma onda que elegeu Wilson Witzel governador, até o impeachment de 30 de abril. Com o recuo dessa onda, e até Castro agora querendo fugir da pecha de “bolsonarista”, o que a ressaca deixou ao RJ?

Maia – Mesmo com o apoio dos Bolsonaro ao Arolde, perdi por uma diferença mínima. A hora não era a melhor. O quadro eleitoral é muito diferente agora, a começar pela avaliação popular do presidente. No estado do Rio, essa onda não existe neste momento. A onda de 2018 não se repetirá agora.

 

Folha – À distância, como vê o governo Wladimir Garotinho em Campos?

Maia – Confesso que não tenho acompanhado de perto a gestão do prefeito de Campos. Mas talvez ele tenha se precipitado na aproximação pragmática com o governador.

 

Folha – Em série de 11 painéis publicados pela Folha entre julho e setembro de 2020 (confira aquiaquiaquiaquiaqui, aquiaqui, aqui, aquiaqui e aqui), ouvindo 34 representantes diversos da sociedade civil organizada sobre a crise financeira de Campos, três alternativas foram consensuais: resgate da vocação agropecuária do município, parceria deste com o polo universitário da cidade e adoção integral do pregão eletrônico nas compras públicas. Como as avalia?

Maia – Seria fundamental que o polo universitário de Campos ganhasse destaque com recursos e autonomia. O futuro está na ciência e tecnologia. O quadro é completamente diferente agora, inclusive o agronegócio.

 

Folha – Filiado ao PCB e preso pela ditadura militar em 1964, o senhor foi exilado político no Chile em 1968, onde se formou em economia, casou e teve filhos. Voltou ao Brasil em 1973 e à política com Leonel Brizola, no início dos anos 1980, como seu secretário estadual de Fazenda. Foi deputado federal constituinte e se reelegeu, antes de mudar ideologicamente com a queda do “socialismo real” e da União Soviética em 1991. E se elegeu três vezes prefeito do Rio, realizando governos considerados liberais. Personagem da Nova República, com suas idas e vindas, como reage a quem diz que ela morreu?

Maia – Agradeço por listar com precisão minha biografia. Com a experiência acumulada creio que tenho muito a ajudar o meu estado. Talvez o maior sucesso que tive foi como secretário estadual de Fazenda, que me deu uma ampla visão estadual.

 

Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

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Jacaré com cobra d’água — Eleição a governador do RJ

 

Cláudio Castro, Eduardo Paes, Marcelo Freixo e Rodigo Neves (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Orlando Thomé Cprdeiro, consultor em estratégia

Jacaré com cobra d’água

Por Orlando Thomé Cordeiro

 

Os atores que estão buscando se viabilizar para entrar em campo no jogo eleitoral em 2022 andaram algumas casas nas últimas semanas.

O governador Cláudio Castro, dando continuidade a seu trabalho de articulação com prefeitos e prefeitas, tem marcado presença em diversas solenidades onde formaliza o repasse de recursos aos municípios, principalmente aqueles decorrentes do leilão da Cedae. Na semana passada foi a vez da capital.

Chamou à atenção o clima de absoluta cordialidade e simpatia entre o prefeito Eduardo Paes e o governador. Em nada lembrava os momentos de refregas que marcaram a relação entre os dois no primeiro semestre, com troca de estocadas nas redes sociais. Na solenidade, eles pareciam quase amigos de infância. O que mudou?

Vamos recordar que no início do ano o governador estava em tratativas avançadas para sair do PSC e ingressar no PSD. Tudo parecia caminhar bem, mas em maio ele foi surpreendido com a divulgação da filiação de Paes ao PSD pelas mãos de seu presidente nacional, Gilberto Kassab. Diante dessa notícia, só restou a ele buscar abrigo em outra legenda, no caso o PL.

E a disputa era tão evidente que ambos se filiaram às suas novas legendas no mesmo dia, 26 de maio, em solenidades públicas, sendo que a do governador foi em Brasília com a presença do presidente Bolsonaro. Desde então, começaram a rivalizar na busca de apoio para seus projetos eleitorais, com o governador se apresentando como o candidato do presidente e o prefeito lançando a candidatura de Felipe Santa Cruz, presidente nacional da OAB.

Além desses citados acima, são públicas as pré-candidaturas de Marcelo Freixo e Rodrigo Neves. O primeiro, muito conhecido por anos de militância no Psol, resolveu se filiar ao PSB em um movimento para tentar atrair o eleitorado mais ao centro. Já o segundo saiu da prefeitura de Niterói muito bem avaliado, inclusive elegendo seu sucessor, mas que ainda é pouco conhecido da maioria da população.

Aparentemente, esse era o cenário de candidaturas que se desenhava, sem nenhuma novidade à vista, mas nada como um dia após o outro, com a noite no meio. O crescimento acentuado da desaprovação de Bolsonaro tem gerado novas movimentações do governador no sentido de tentar se desvencilhar da pecha de bolsonarista.

Essa talvez seja a explicação para estarmos presenciando a retomada da narrativa utilizada por ele durante o período em que assumiu o governo interinamente, quando se apresentava como um gestor exclusivamente preocupado em promover um grande pacto em defesa da recuperação do estado.

Somem-se a isso os constantes recados enviados por articuladores políticos de seu entorno ressaltando que, por estar impedido de concorrer à reeleição, apoiá-lo em 2022 não prejudica os concorrentes que teriam a pista livre em 2026.

Recentemente, fiquei sabendo por fontes muito próximas ao governador que seu sonho de consumo é formar uma chapa com um candidato a vice-governador indicado pelo prefeito Eduardo Paes e ter o deputado estadual André Ceciliano, do PT, como candidato ao Senado. Neste sentido, do ponto de vista deles, seria natural uma ampla aliança sem vinculação obrigatória com a disputa presidencial. Cada um faria a campanha para o candidato a presidente de seu partido, mas todos estariam juntos no palanque estadual.

Para quem não se lembra, já tivemos situações semelhantes na história política recente. Quem não se lembra que nas eleições de 2006, em MG, foi criada a chapa Lulécio, juntando Lula para presidente e Aécio para governador. Já em 2014 tivemos no RJ o Aezão, com Aécio presidente e Pezão governador.

Ainda no terreno das lembranças, no mês passado viralizou um vídeo do ex-prefeito de Maricá, Washington Quaquá, do PT, em que agradecia os recursos do governo do estado para aquele município, falando “É Lula e Castro em 2022”.

Outro elemento relevante numa eventual composição a ser liderada por Cláudio Castro é a indicação para a próxima vaga a ser aberta no TCE-RJ em razão da possível aposentadoria compulsória do conselheiro Aloysio Neves. Com os deputados estaduais Marcio Pacheco (PSC) e Rosenverg Reis (MDB) aparecendo como candidatos mais fortes.

Caso essas articulações prosperem, o principal prejudicado seria Freixo. Afinal, cairia por terra todo seu esforço para articular uma chapa agregando o PT do ex-presidente Lula, outros partidos de esquerda e partidos de centro, de forma a evitar repetir a situação vivida por ele em eleições majoritárias que disputou anteriormente: chegava ao segundo turno, mas acabava derrotado.

Claro que ainda falta mais de 1 ano para o pleito e muita água ainda vai passar debaixo dessas pontes. Porém, não se pode descartar a possibilidade de que essa chapa seja construída. Seria mais um casamento de jacaré com cobra d’água. 

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Lágrimas na chuva — Centenário da vida do Mestre Ziza

 

Zizinho, o Mestre Ziza

Na última terça, se fosse vivo, Thomaz Soares da Silva teria completado 100 anos. Nasceu em São Gonçalo, morou e viveu em Niterói. De onde atravessava a Baía de Guanabara nas barcas, em um tempo antes da Ponte Rio/Niterói, para brilhar no futebol carioca, brasileiro e do mundo. Considerado o jogador mais completo antes de Pelé e único ídolo nos campos assumido por este, passaria a história como Zizinho, ou Mestre Ziza. Prejudicado pela II Guerra Mundial (1939/1945), foi eleito pela imprensa internacional como grande craque da única Copa do Mundo que jogou, no Brasil, em 1950. Preterido injustamente na Copa de 1954, na Suíça, viu surgir nesta seu sucessor, como camisa 8 e cérebro da Seleção Brasileira: o campista Didi.

Dois maiores meias direita da história do futebol brasileiro: Zizinho e seu “herdeiro” Didi

Fã de Didi, meu pai, o jornalista Aluysio Barbosa, viu ambos jogarem. E morreu em 2012 sem nunca decidir, entre os dois, quem foi o maior meia armador da história do futebol brasileiro. Mas o velho Aluysio não tinha dúvida em testemunho que sempre me impressionou. Para ele o grande craque de todos os tempos do Flamengo não era Zico, mas Zizinho. E, sabendo por conta própria o que foi o Galo ao Rubro-negro, me perdia desde criança na vertigem de tentar imaginar o que pudesse estar ainda acima.

Só na noite de terça vi o aviso do editor de Esportes da Folha, Matheus Berriel, sobre o centenário de Zizinho naquele mesmo dia. Já era tarde para a edição impressa de quarta, mas não para assistir a um documentário, produzido e exibido pela ESPN Brasil, no finalzinho da terça. Emocionei-me, às lágrimas, vendo o especial sobre os 100 anos de Zizinho. Gênio antes da TV, cujo teto da Sistina não vemos e 9ª Sinfonia não escutamos. Herói trágico e esquecido, talvez por isso ainda mais belo, de um país sem memória.

Não por outro motivo e antes tarde do que nunca, republico hoje um texto que escrevi para este mesmo jornal, em 17 de fevereiro de 2002, nove dias após a morte do Mestre, sobre uma tabela que a vida nos deu:

 

“Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?

Será essa, se alguém a escrever,

A verdadeira história da humanidade”

(Álvaro de Campos/Fernando Pessoa)

 

“Vi coisas que vocês nem imaginariam.

Vi naves em fogo na encosta de Orion.

Vi raios cósmicos cingindo o espaço em Tanhauser Gate.

E esses momentos ficarão perdidos para sempre…

como lágrimas na chuva”

(Do filme “Blade Runner”)

 

Heróis do meu pai: Barbosa, Augusto, Danilo, Juvenal, Bauer e Bigode, em pé; Friaça, Zizinho, Ademir Menezes, Jair Rosa Pinto, Chico e o massagista Mário Américo, agachados

 

Lágrimas na chuva

 

Sou filho de um adolescente de 14 anos, cuja grande frustração foi não ter ido, junto com seu pai e irmão mais velho, à final da Copa de 1950, em 16 de julho, no recém-inaugurado Maracanã. Daqui de Campos, pelo rádio, o garoto (?) vibrou com o primeiro gol do jogo, de Friaça, que certamente abriria a contagem para mais uma goleada, igual às dos dois últimos jogos — 7 a 1 sobre a Suécia, campeã olímpica de 1948, e 6 a 1 diante da Espanha, quando um coro demais de 200 mil pessoas cantava “Touradas de Madri” das arquibancadas.

O belo gol, emendando de primeira, de Juan Alberto Schiaffino — cracaço da Celeste Olímpica, integrante da lista oficial dos dez maiores camisa 10 que o mundo já viu, mesmo 50 anos após sua maior conquista — fez com que meu velho (?) e toda uma nação despencassem de nuvens soberbas com a cara no chão, passando a torcer como doidos pelo empate que garantiria o título. Dez minutos mais tarde, aos 34 do segundo tempo, após uma arrancada pela direita, veio aquele chute fatal de Ghiggia, quase sem ângulo, entre Barbosa e a trave. Que selou a história que todo brasileiro já ouviu falar e os uruguaios, chamando-a “Maracanazzo”, até hoje se ufanam ao contar.

 

Gol de Alcides Ghiggia, sem ângulo, que selou a maior derrota do Brasil no Maracanã: 2 a 1 ao Uruguai, na final da Copa de 1950

 

Com a dimensão, desde muito novo, desse fantasma do imaginário nacional, “tragédia maior que a de Canudos”, nas palavras de Nelson Rodrigues, me interessei pela história até esgotar as narrações de meu pai. Além, passei a ler o que me caísse à mão sobre aquele grande time marcado pela fatalidade. Tomei ciência, por exemplo, de que nosso scratch — para usar um anglicismo recorrente à crônica da época — era regido por um meia direita que a crítica internacional, aqui presente pela Copa, elegeu como jogador mais completo que já havia surgido no mundo até então: Zizinho, o Mestre Ziza.

E olha que naquela Copa ainda jogaram, além de Schiaffino, craques do porte do também uruguaio Julio Perez, do iugoslavo Rajko Mitic, do inglês Stanley Matthews, além dos próprios brasileiros Jair Rosa Pinto, Ademir Menezes, Danilo e Bauer. Como disse nosso tacanho Felipão e o Fernando Calazans vive satirizando em sua coluna: eram aqueles (bons) tempos em que se amarrava cachorro com linguiça.

Quando Péris Ribeiro, amigo daquele adolescente de 1950, lançou seu “O Brasil e as Copas”, em 1986, me presenteou, além dele, com um livro sobre a vida do Mestre Ziza, cujo título e autor não recordo, pois fiz a besteira de depois emprestá-lo. O primeiro livro me deu a base histórica de todo deslumbramento que colhi em 1982, nos injustos gramados de Espanha, com Zico, Sócrates, Falcão, Leandro, Júnior, Luisinho, Cerezzo e cia. — “Maracanazzo” da minha geração. Já o segundo, me proporcionou a dimensão completa daquele grande mestre do futebol de que tanto ouvira falar.

 

Flamengo Tricampeão de 1944: Jurandir, Newton, Quirino, Valido, Jaime, Bria, Pirilo, Zizinho, Tião, Biguá e Vevé

 

Zizinho pelo São Paulo e seu fã Pelé, pelo Santos

Além da tragédia épica de 50, descobri ter sido Zizinho o grande ídolo de Pelé e, muito mais importante, herói da primeira grande conquista de meu time, construída ao lado de gente como Domingos da Guia, Jurandir, Biguá, Valido e Vevé: o tri estadual do Flamengo de 1942/1943/1944. Vendido ao Bangu numa dessas imutáveis sacanagens dos cartolas, foi depois, já velho, jogar pelo São Paulo, ao qual conduziu ao título estadual de 57.

Algum tempo depois, quando Péris lançou seu “Didi, o gênio da folha seca”, em 1993, numa livraria do Leblon, fui ao Rio prestigiar o amigo. Comigo foram Luiz Costa — que cobriu o evento pela Folha — e Adelfran Lacerda, todos conduzidos pelo hábil volante (de carro) Leonardo Moreira. Pegando chuva desde Rio Bonito, chegamos ao Rio e paramos em Copacabana, para apanhar Christiano, meu irmão, então estudante universitário da PUC/RJ.

Ouvindo as impagáveis histórias de Leonardo, fui durante a viagem me preparando psicologicamente para o encontro cara a cara com o campista Didi, maior jogador da Copa de 1958, na Suécia, nosso primeiro Mundial; bicampeão pela Seleção, em 1962, no Chile; e, não fosse mais nada, herdeiro de Mestre Ziza. Aí eu entro na livraria e vejo não só Didi, mas também Ademir Menezes, Jair da Rosa Pinto, Nilton Santos, Vavá, Belini, Gerson, Afonsinho e… Zizinho.

Num dos poucos momentos em que despertei do meio transe no qual permaneci durante quase todo o coquetel, em meio a todos aqueles semideuses da bola, vi Luiz Costa indagar a Zizinho: “Você foi tido em sua época como o maior jogador do mundo e muitas pessoas hoje não têm essa dimensão. A que credita isso?”.

Ele respondeu: “O Brasil não sabe preservar sua história. Os jovens de hoje só querem saber de ouvir música americana no rádio e ver televisão. E eu não joguei na época da televisão!”.

A amargura do ídolo entrou pelo meu ouvido e ficou como fel salivando na boca. Talvez por isso não tenha tirado os olhos dele até que saísse do evento, acompanhado da esposa. Passaram pela porta, e, enquanto ela abria a sombrinha para protegê-los da chuva, enfrentei a timidez, saí também, me dirigi a eles e gritei: “Zizinho!”.

Ele se virou. Eu disse: “Ouvi o que você falou lá dentro para o repórter. Pois eu sou jovem, gosto de música americana, mas ouvi e li muito sobre você. Você foi o melhor do mundo, jogou no meu time e foi campeão por ele. Nunca te vi jogar, mas você é um dos meus ídolos no futebol”.

Em meio à chuva fina, olhos marejaram e sorrisos se revelaram. Nos demos as mãos e o cumprimento virou um abraço. Após, ele deu um tapinha paternal na minha face e disse: “Valeu, garoto!”. Virou-se pela última vez, se abraçou à mulher, que também sorria com olhos infiltrados, e juntos saíram pela noite chuvosa, caminhando com a mesma classe que sempre atribuí, em minha imaginação, às suas passadas nos campos.

O Mestre morreu, mas nunca vou esquecer essa tabela que a vida nos deu.

 

Página 12 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

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