Protesto de ontem, em frente ao Sesc Pompéia, contra a presença da filósofa Judith Butler, assumiu sua inspiração na Inquisição (Foto Paulo Lopes – Futura Press)
Obscurantismo (I)
Presente ontem em Campos para receber o prêmio Folha Seca, homenagem que a Folha da Manhã presta anualmente aos campistas que se destacam nas mais diferentes áreas, o gestor cultural Danilo Miranda estava preocupado com os protestos, também ontem, diante do Sesc Pompéia, na cidade de São Paulo. Apesar de ter sido convidada para um debate sobre democracia, a filósofa estadunidense Judith Butler teve sua presença no Brasil contestada, assim como apoiada, na divisão dos cerca de 70 manifestantes, por ser referência mundial na discussão das questões de gênero. Danilo é campista e diretor do Secs-SP desde 1984, onde se tornou referência nacional e internacional no trabalho em prol da cultura e da educação.
Obscurantismo (II)
Judith Butler leciona na Universidade de Berkeley, na Califórnia, que realizou o evento de ontem em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e o Sesc-SP. Independente da concordância, ou não, com sua pregação sobre a chamada “ideologia de gênero”, protestar contra a simples presença da filósofa para debater um outro assunto, chegando a queimar bonecas com sua foto e a chamando de “bruxa”, remete ao pior obscurantismo já produzido pelo homem. Afinal, as fogueiras da Inquisição que queimaram até a morte mulheres acusadas de bruxaria, foram as mesmas que ameaçaram o astrônomo italiano Galileu Galilei (1564/ 1642) e o obrigaram a negar que o Sol, não a Terra, era o centro do nosso sistema.
Para elevar o debate
Enquanto a discussão política brasileira parece retroceder à Idade Média, um esforço coletivo em sentido contrário será feito hoje. No “Diálogo entre Visões de Esquerda e Direita”, o debate virtual que começou no blog “Opiniões”, hospedado no Folha 1, terá uma edição real a partir das 18h30 desta quarta, no auditório da Faculdade de Direito de Campos (FDC). Nele, as visões de esquerda serão representadas pela cientista social Vanessa Henriques e o jornalista e servidor federal Ricardo André Vasconcelos. As de direita ficarão por conta do bacharel em administração Igor Franco e do advogado Gustavo Alejandro Oviedo. Mediado pelo jornalista Aluysio Abreu Barbosa, diretor de redação da Folha, o evento é aberto ao público.
Jogos por segurança
Após o ministro da Justiça, Torquato Jardim, fazer críticas severas à segurança pública do Rio, o governador Luiz Fernando Pezão esteve reunido, ontem, em Brasília, com o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Sérgio Etchegoyen, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, o presidente do Senado, Eunício de Oliveira, além de governadores e representantes de outros 14 estados, para discutir pautas comuns. O principal tema tratado nas reuniões foi segurança pública. Pezão reafirmou a importância da ajuda do governo federal no combate ao crime organizado. Ele os demais governadores propuseram que seja votado projeto legalizando os jogos no país e destinando os recursos dos impostos cobrados para um fundo de Segurança Pública.
Em audiência
A vereadora Joseane Morumbi está numa correria só. Ela prepara sua primeira audiência pública, na Câmara Municipal de Campos, como propositora, para abordar a questão do desenvolvimento econômico. O ponto alto será a presença do ministro da Indústria e do Comércio, Marcos Antônio Pereira, que, inclusive, vai falar logo no primeiro painel sobre “O papel da exportação no desenvolvimento econômico”, além de também anunciar no município um novo programa do governo federal para aquecimento do setor. A audiência acontece amanhã, às 17h.
De olho
Arrocho contra irregularidades em postos de combustíveis em Macaé. Pela primeira vez no estado, a Procuradoria Adjunta de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon Macaé) e Agência Nacional do Petróleo (ANP) atuam em parceria para fiscalização de 30 postos de combustíveis. A operação começou na segunda e seguirá até sexta-feira (10). Estão sendo verificadas a qualidade da gasolina e etanol, além de analisada a quantidade que sai da bomba. A ação é boa para consumidor.
Sexto lote
Para quem está esperando mais remessa de dinheiro no fim do ano a notícia é que a consulta ao sexto lote de restituição do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) de 2017 será aberta hoje. O lote contempla 2.358.433 contribuintes, totalizando mais de R$ 2,8 bilhões, informou a Receita Federal. O lote multiexercício de restituição do IRPF contempla também restituições residuais dos exercícios de 2008 a 2016. O crédito será efetuado no dia 16 de novembro.
Estamos passando por este espaço (ou ciberespaço?), a propósito do sesquicentenário de Nilo Procópio Peçanha, nascido em 1867 na zona rural de Morro do Coco, sendo até hoje o maior dos políticos nascido no âmago das terras Goytacazes, para lembrar, aos mais esquecidos, que este importante vulto da história nacional, perdeu as eleições para Presidência da República em 1922, sendo derrotado, inclusive em sua terra natal, por um mineiro chamado Artur Bernardes (1875-1955).
Poderia usar a filosofia cristã, para explicar (como se fosse explicável) que ninguém é profeta em sua própria terra. E com Nilo, político hábil no dizer do historiador Gilberto Freire, não foi diferente, porque, por questões meramente politiqueiras, não conseguir impor-se com o discurso reformista do Partido Republicano Fluminense no embate contra a decantada política café-com-leite, que alternava o poder entre os representantes de Minas Gerais e de São Paulo.
Naquele tempo, por força da Constituição de 1891, a primeira da República recém-implantada com o golpe militar contra Pedro II, só se admitia o voto para os homens maiores de 21 anos de idade, com exceção dos analfabetos, religiosos e militares, mas a maioria, não obrigada, não comparecia às urnas tornando as campanhas cada vez mais difíceis, considerando, ainda, os currais eleitorais de propriedade dos republicanos oligárquicos espalhados por todo país.
Mesmo assim, Nilo Peçanha conseguiu 317.714 votos contra 466.877 de Artur Bernardes, provando que o eixo Minas Gerais e São Paulo agiu com maior esperteza na captação dos sufrágios. Todavia, a derrota do republicano fluminense não foi em vão, pois sepultou, de vez, o contexto café-com-leite, esterroado com a Revolução de 1930. Mas causou-lhe, ele que tinha feito um excelente governo durante os 17 meses que substituiu, como vice-presidente, o pranteado Afonso Penna, uma grande decepção, tanto que veio a falecer, com 57 anos de idade, no dia 31 de março de 1924.
Em Campos dos Goytacazes, os republicanos fluminenses perderam, pois havia por aqui, como ainda há, um resquício pernicioso da aristocracia rural, substituída após o golpe de 1889, pelos barões e coronéis do açúcar e do café, que mandavam e desmandavam nos diferentes cenários políticos e econômicos. Chegaram ao ponto de sugerir no projeto de espraiamento urbano de Campos, na primeira metade do século passado, o nome de Artur Bernardes para a principal perimetral da cidade.
A perimetral começou no governo Alexandre Mocaiber e ganhou sua conclusão, até a avenida Alberto Lamego, em frente à Uenf, no Governo Rosinha Garotinho. Bernardes, político de Minas Gerais, nunca veio a Campos e sua presença no espaço público, desconfia-se, é apenas para lembrar que ele ganhou a eleição de 22 em cima do conterrâneo, Nilo Peçanha, que passou desta para a vida dos espíritos, no Rio de Janeiro, sendo sepultado no Cemitério de São João Batista.
A classe dominante planiciana, cheia de inveja, através das mídias, se referia a Nilo Peçanha como “O Mulato de Morro do Coco”. Mostrando todo seu poder, e ainda mostra, quando se trata de entender que nem todos os políticos vocacionados desta urbe nascem/nasceram em seus berços de ouro. O olhar discricionário, com ranço provincial, continua focalizado nas suas expressões mais indignas e nem se importam que deverão responder por esses equívocos perante a história.
Começamos, enquanto Presidente do Coppam a conversar com o Dr. Edson Batista, presidente da Câmara, que se mostrou bastante interessado, para a mudança do nome da perimetral. Muitos campistas, neocolonialistas ou não, são mais merecedores desse encômio do que o trêfego político Artur Bernardes, que nada tem a ver com “esta planície de luz e madrigais”, no dizer das palavras amantes de Azevedo Cruz.
Data de 1948 um famoso debate (aqui) transmitido pela BBC entre o padre católico Frederick Charles Copleston e o matemático Bertrand Russell. Em comum, ambos possuíam sólida formação filosófica e o interesse pela lógica e pela metafísica. Em divergência, todo o resto. Russell tornou-se famoso por suas contribuições à lógica, mas foi recentemente resgatado por certas correntes de filosofia pela sua negação à existência de Deus. Durante o debate, editado diversas vezes como livro e cuja transcrição dos áudios originais está amplamente disponível na internet, padre Copleston e Bertrand Russell digladiam-se ao longo de diversas batalhas que percorreram os pontos mais comuns de divergência filosófica quanto à realidade do divino: o argumento moral, o argumento da contingência, a experiência do divino entre outros. Um ponto, porém, é distintivo na guerra travada entre os dois sábios: a polidez com que se tratavam e os termos claros com os quais expunham seus argumentos. Não havia desrespeito, tecnicalidades ou mesmo fuga das controvérsias levantadas.
Não consigo imaginar qualquer outro grande debate que não possa ser nuançado ou matizado a depender de determinada abordagem ou experiência histórica. Na disputa pela validade ou não da metafísica, não pode haver meio termo. Ou bem Deus existe e, nesse caso, tudo o que Bertrand Russell propagava estava completamente equivocado, ou bem o Altíssimo é ficção e cai por terra não só a metafísica do padre Copleston, mas a maior parte do seu sistema de valores. A aniquilação do outro lado era conditio sine qua non da validade argumentativa de qualquer um dos debatedores.
A ingrata tarefa daqueles debatedores possuía um outro agravante: a resposta não pode ser conhecida pelos envolvidos. Ao tratar de algo além da física, além da experiência, além do real, somente os termos definitivos jamais estariam ao alcance daqueles debatedores ou de quaisquer outros que empreendessem a mesma jornada. Nada disso, porém, impediu a crença na liberdade de ambos defenderem o que acreditavam e, mais que isso, fossem respeitados por suas ideias.
Remonta ao filósofo pré-socrático Parmênides a fundação da metafísica. Sua única obra conhecida tratando do Ser e do Não-Ser inaugura uma tradição que terá como expoentes imediatos Platão e Aristóteles. A metafísica helênica encontra abrigo e transformação na tradição judaica que é transformada em doutrina cristã. Santo Agostinho, Santo Anselmo e, principalmente, Santo Tomás de Aquino alicerçaram a ideia filosófica do Deus cristão sobre o terreno preparado anteriormente. Kant, entretanto, emerge para decretar a morte da metafísica a reboque da crescente contestação religiosa empreendida pelo ceticismo e pelo racionalismo. A partir daí, o desenvolvimento da metafísica é interrompido e sua sobrevivência depende de confrontos diretos com outras correntes de pensamento – como exemplificado na disputa Copleston-Russell.
Faço essa longa introdução para saudar o evento a ser sediado (aqui) na próxima quarta-feira no auditório da Uniflu (prédio da Faculdade de Direito de Campos) às 18:30, quando, além deste escriba, outras pessoas se empenharão em elevar o debate que permeia a vida política brasileira há pelo menos quatro anos. A partir das Jornadas de Junho, lembradas (aqui) nesta Folha na última edição de domingo, tem início uma vida ativa nas redes sociais em que a disputa pela hegemonia do discurso muitas vezes descaminha para agressões verbais e abalo em relações de amizade ou mesmo familiares.
Alegremo-nos por tratarmos de temas que não representam uma necessária anulação da outra parte em caso de razão pontual. Diversos acontecimentos históricos provam que o fim da história não pode ser previsto para um determinado tempo, ou mesmo identificado em ocorrências passadas. A queda do muro de Berlim e a crise financeira de 2008 demonstram a força das ideias e a capacidade de adaptação das mais variadas correntes de pensamento que transformam e são transformadas pelo mundo.
Que na próxima quarta possamos contribuir para o aumento da tolerância e para, sem dúvidas, o objetivo maior de cada um: o desenvolvimento do país com justiça, liberdade e prosperidade. Que lutemos o bom combate!
Os leitores deste “Opiniões” já devem ter constatado sua recente guinada aos temas nacionais. Ela foi dada desde a matéria “Brasil entre Lula e Bolsonaro?”, publicada no blog e na Folha da Manhã em 22 de outubro.
Na semana seguinte, após eleição entre os colaboradores do blog, que nele se alternam quinzenalmente entre segunda e sábado, cada um deu seu sua visão sobre o tema “avanço da direita no Brasil”. Iniciada em 23 de outubro, a rodada de análises se encerrou ontem (04/10).
Aberto na tentativa de qualificar um debate que interessa diretamente a 207,7 milhões de brasileiros e que tem se dado de maneira muitas vezes pobre nas redes sociais, a dicussão ganhou eco.
Fruto dessa reverberação, nesta quarta-feira (08), às 18h30, no auditório da Faculdade de Direito de Campos, quatro colaboradores do blog serão mediados pelo blogueiro no debate intitulado “Diálogos entre Visões de Esquerda e Direita”.
À esquerda no debate, estarão a cientista social Vanessa Henriques e o jornalista e servidor federal Ricardo André Vasconcelos. À direita, ficarão o bacharel em administração Igor Franco e o advogado e publicitário Gustavo Alejandro Oviedo.
Serão três blocos, nos quais cada debatedor tratará dos temas:
1 – Origem dos conceitos de esquerda e direita e sua evolução ao longo dos tempos;
2 – ascensão e declínio da direita e da esquerda no Brasil e na América do Sul, entre os anos 1960 e 2010;
3 – avanço da direita no Brasil e no mundo, e expectativa às eleições presidenciais de 2018.
Encerrados os três blocos, pouco depois da metade do tempo das 2h de duração do evento, o debate será aberto ao público.
Pela realização do encontro, necessário agradecer ao esforço do Igor, bem como ao interesse de Rafael Crespo Machado, advogado e professor da FDC. A entrada e a participação no debate, no esforço comum de tentar qualificá-lo, são abertas a todos.
(Arte da Faculdade de Direito de Campos)
Quem quiser ler ou reler as postagens do blog referentes ao tema do debate, é só clicar nos links abaixo:
Em 20 de junho de 2013, passeata dos “Cabruncos Livres” saiu da Praça São Salvador à Prefeitura, levando mais de 4 mil pessoas às ruas de Campos (Foto: Folha da Manhã)
Por Aluysio Abreu Barbosa
Se veio no ano seguinte às grandes manifestações de rua das “Diretas Já”, a redemocratização brasileira da Nova República, a partir de 1985, não trouxe solução ao pior problema legado pelos militares, após 21 anos de ditadura: a inflação. Sete anos depois, em 29 de setembro de 1992, Itamar Franco (1930/2011) assumiu a presidência com o impeachment de Fernando Collor de Mello, que ganhou corpo nas ruas dos “caras pintadas”. A inflação fecharia aquele ano em 1.100%. Em 1993, mais que dobraria para 2.708,55%. Ainda assim, talvez pela ressaca das manifestações que ajudaram a derrubar Collor, os 15 meses de governo Itamar não foram marcados por grandes mobilizações populares.
Após trocar várias vezes os ministros da economia, Itamar nomeou Fernando Henrique Cardoso ao ministério da Fazenda, em 19 de maio de 1993. Sociólogo, ele reuniu a equipe de economistas que elaborou o Plano Real, iniciado em 27 de fevereiro de 1994, a despeito da oposição do PT, das centrais sindicais e da Federação da Indústrias de São Paulo (Fiesp). A nova moeda entrou em circulação em 1º de julho daquele ano. Até este mês, a inflação acumulada já era de 815,60%, enquanto a primeira registrada depois foi de 6,08%, mínima recorde.
Com a estabilização da economia, Fernando Henrique saiu da Fazenda para poder se candidatar em 1994 à presidência. Apesar de Lula iniciar a corrida como favorito, o tucano bateu ele e todos os demais concorrentes ainda no primeiro turno.
Na primeira gestão FHC, o protesto de rua de maior vulto foi a marcha do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Brasília. Em 17 de abril de 1997, cerca de 30 mil pessoas participaram do ato marcado para lembrar o aniversário de um ano do massacre dos sem-terra em Eldorado dos Carajás (PA). Políticos de oposição como Leonel Brizola (PDT) e o então deputado federal José Dirceu (PT) aproveitaram para protestar contra as privatizações e a política econômica “neoliberal” do governo federal.
Em 17 de abril de 1997, a manifetação do MST levou 30 mil pessoas às ruas de Brasília
Diante da nova realidade econômica, os protestos não tiveram eco na sociedade. Mesmo acusado pela compra de votos de deputados para aprovar a emenda constitucional que possibilitou a reeleição, em 1997, o presidente venceu nas urnas no ano seguinte, novamente em turno único.
Mas o segundo governo FHC teria problemas com a crise econômica dos Tigres Asiáticos de 1997, a desvalorização do Real, os juros altos, o desemprego na casa dos 10 milhões e o drama nacional do apagão e do racionamento de energia. O PT aproveitou a oportunidade para testar seu domínio da esquerda e das ruas brasileiras. Em 26 de agosto de 1999, promoveu a “Marcha dos Cem Mil” em Brasília, onde liderou os partidos de oposição, além de seus braços na União Nacional dos Estudantes (UNE, protagonista do impeachment de Collor), na Central Única dos Trabalhadores (CUT) e no MST.
“Marcha dos 100 mil em Brasília”, em 26 de agosto de 1999, entoou o “Fora FHC” que a sociedade não ecoou
Após o protesto, que mereceu destaque em todos os telejornais, Lula declarou: “Que FHC e sua corja nunca mais ousem duvidar da capacidade de organização da sociedade”.
O “Fora FHC”, no entanto, não foi além disso. Em sua quarta tentativa, Lula finalmente foi eleito presidente em 2002, após bater no segundo turno José Serra (PSDB), candidato do governo. A genuína emoção coletiva da sua posse, que contagiou até o opositor que lhe passou a faixa presidencial, só teve paralelo na popularidade do seu governo.
O ex-operário Luiz Inácio Lula da Silva recebe a faixa presidencial do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, em 02 de janeiro de 2003
Revelado em maio de 2005, pela mesma revista Veja que denunciara Collor em 1992, o escândalo do “Mensalão”, como ficou conhecido o esquema de desvio de dinheiro público para compra da base parlamentar, abalou o presidente e correligionários, com alguns saindo do PT ao Psol, fundado por dissidentes desde 2004. Também causou a saída de José Dirceu do ministério da Casa Civil, como depois geraria sua cassação do mandato de deputado federal, sua condenação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e sua prisão.
Mas com a economia indo bem, capitaneada pelo petista Antonio Palocci na Fazenda e o ex-tucano Henrique Meirelles, no Banco Central, não houve protestos nas ruas. Os movimentos sociais, que sempre caminharam junto ao PT, pareciam acomodados após virarem poder com Lula:
Guiomar Valdez, historiadora
— Ancorado paradoxalmente no pragmatismo político, na “desideologização” da vida, na burocratização centralizadora, no liberalismo econômico/social e na liderança carismática, articulados ao presidencialismo de coalizão e suas mazelas, o lulismo empreendeu um amálgama no mosaico cultural e social brasileiros. As pautas sociais foram fragmentadas sem nenhuma articulação e posicionamento político-social mais ampliado. O sindicalismo mergulhou no oficialismo, nas lutas por cargos e espaços de controle político/financeiro, reduzindo sua capacidade de inovação, de crítica e de autocrítica. O PT crítico, histórico, não dominado pela corrente hegemônica lulista, é sufocado com o descolamento de sua criatura — analisa a historiadora Guiomar Valdez, professora do Instituto Federal Fluminense (IFF).
A popularidade da “criatura” foi confirmada em sua reeleição em 2006, após vencer Geraldo Alckmin (PSDB) no segundo turno. Mesmo com a evolução das investigações do Mensalão, o carisma de Lula junto à população permanecia inalterado.
Em setembro de 2008, com o estouro da bolha imobiliária nos EUA, veio a crise econômica mundial, mais grave desde a Grande Depressão de 1929. O presidente reeleito a chamou de “marolinha”. Mas seu espraiar levou o governo brasileiro a uma guinada radical naquilo que vinha dando certo desde Itamar: lançada a “Nova Matriz Econômica”, os bancos estatais, sobretudo o BNDES, passariam a ser usados como principais ferramentas de expansão ao crédito.
Pelo menos no início, deu certo. Sem contestação das ruas também no segundo mandato, Lula pôs à prova sua popularidade em 2010, quando elegeu Dilma Rousseff (PT) a primeira mulher presidente do Brasil. Ex-ministra da Casa Civil, ela nunca havia ocupado nenhum cargo eletivo antes daquele pleito. Bem mais experiente, Serra acabou derrotado mais uma vez no segundo turno de 31 de outubro daquele ano.
Um mês e meio mais tarde, outro fato internacional iria influenciar os acontecimentos brasileiros. De 18 de dezembro de 2010 a meados de 2012, a “Primavera Árabe” começou na Tunísia para tomar todo o Norte da África e o Oriente Médio. Diante das demandas reprimidas por sociedades teocráticas e governos ditatoriais, foi a primeira grande mobilização de massas da história construída não em partidos políticos, sindicatos, quartéis militares, movimentos religiosos ou nenhuma organização de classe, mas através das redes sociais.
Em 23 de janeiro de 2011, manifestantes nas ruas de Túnis, capital da Tunísia, pelo fim de todos os resquícios do regime do ex-presidente Ben Ali (Foto: Zohra Bensemra – Reuters)
Em 2013, o mesmo tipo de mobilização a partir das redes sociais levou o Brasil àquilo que ficaria mais conhecido como “Jornadas de Junho”. Entre os dois fenômenos próximos em tempo e aproximados pela internet em espaço, a analogia é do sociólogo e cientista político George Gomes Coutinho, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) de Campos:
Goerge Gomes Coutinho, sociólogo e cientista político
— Os métodos de mobilização, até então jamais vistos no cenário tupiniquim, foram depois largamente utilizados. Inclusive há semelhanças de métodos com o que ocorreu aqui e na “Primavera Árabe”: redes sociais, novas formas dinâmicas de interação. A chamada revolução informacional, que se potencializa a partir do final da década de 1990, já inclui novas formas de comunicação e interação na sociedade. Ao mesmo tempo tivemos os anos do lulismo neste século XXI, onde os atores tradicionais da esquerda ingressaram nas instituições e tanto passaram a ser “vidraça”, quanto tiveram sua atuação contestatória consideravelmente diminuída. Afinal, movimentos e partidos tornaram-se governo.
Antropólogo José Colaço
— As manifestações no espaço público e as mobilizações políticas colocadas em prática no século XXI apontam para algumas novidades que talvez as “Jornadas de Junho” sejam o melhor exemplo, uma vez que sua existência não dependeu dos mecanismos de organização que tradicionalmente marcaram a ação política no país. O advento e a popularização das redes sociais na última década, sobretudo em nosso país, e o surgimento de uma nova geração que vem, de várias maneiras, negando as formas mais convencionais de se “fazer política”, tais como partidos organizados, democracia representativa e sindicatos, são boas pistas para pensarmos a política atualmente. A efervescência das redes sociais transbordou para novas performances políticas, que nos últimos tempos têm ganhado as ruas — segue na mesma linha de interpretação o antropólogo José Colaço, também professor da UFF-Campos.
Na verdade, as primeiras manifestações aconteceram ainda em 2012, no Rio de Janeiro e em Natal. Inicialmente foram estimuladas por partidos mais à esquerda, como a dissidência petista do Psol, e tinham como alvo apenas o reajuste nas tarifas do transporte público. Quando 2013 chegou, protestos no primeiro semestre foram registrados em Porto Alegre, Natal e Goiânia. Todos eram formados majoritariamente por jovens, como foram os “cara pintadas” que 21 anos antes haviam derrubado Collor.
O movimento de 2013 ganharia dimensão nacional no mês que o batizou. Em 6, 7 e 11 de junho, as manifestações em São Paulo foram crescendo gradualmente, até se espalharem no dia 13 por diversas outras cidades brasileiras. A violência da PM paulista na repressão a este protesto fez com que ganhasse maior atenção da mídia e simpatia popular, depois perdida com a radicalização dos black-blocks. No dia 17, cerca de 300 mil pessoas saíram às ruas de 12 cidades brasileiras.
PM reprime com violência o protesto de 13 de junho de 2013, em São Paulo
Nos cinco dias seguintes, não houve um deles sem manifestações pelo país. No dia 20, o pico de 1,4 milhão de participantes seria contabilizado em mais de 120 cidades. Entre elas, Campos, onde o movimento “Cabruncos Livres” reuniu mais de 4 mil pessoas numa passeata da Praça São Salvador à Prefeitura, com palavras de ordem entoadas contra o governo Rosinha Garotinho (PR). Antes, em frente à Câmara, um advogado do grupo rosáceo tentou subir num trio elétrico e foi forçado a descer pelos jovens, que gritaram: “É o advogado do Garotinho”.
Protesto de 20 de junho de 2013 em São Paulo
Com a redução da tarifa do transporte público atendida em diversas cidades, a pauta de reivindicações se ampliou. Passou a ser também contra a PEC 37, que queria impedir o Ministério Público de investigar; contra o polêmico projeto da “cura gay”, do pastor evangélico e deputado federal João Campos (PSDB/GO); contra os gastos com a Copa das Confederações, em 2013, e a Copa do Mundo, em 2014; e contra a corrupção. Coincidentemente, em junho de 2013, começaria também a operação Lava Jato. Em artigo no jornal El País, o correspondente Juan Arias chamou os manifestantes de “filhos rebeldes de Dilma e Lula”.
Em pronunciamento pela TV no dia 21, Dilma saudou o “desejo da juventude de fazer o Brasil avançar”, mas condenou a violência e o vandalismo, que creditou a “uma pequena minoria”. A presidente garantiu: “A mensagem direta das ruas é pacífica e democrática. Ela reivindica o combate sistemático à corrupção e ao desvio de recursos públicos. Todos me conhecem: disso eu não abro mão”. Por sua vez, Lula diria só em 11 de agosto deste ano, novamente pré-candidato à presidência: “Nós nos precipitamos ao achar que 2013 foi uma coisa democrática”.
Sociólogo José Luis Vianna da Cruz
— No Brasil, depois de 1964, quando os setores conservadores foram às ruas apoiando o Golpe Civil-Militar, elas voltaram a se sentir à vontade para se manifestar após junho de 2013, quando explodiram as insatisfações com os serviços urbanos em São Paulo, uma vez que a resposta do Governo Dilma foi totalmente equivocada, alternando entre ouvidos moucos e disputa com as lideranças de novos movimentos e organizações urbanas. O PT não percebeu que ter aparelhado a administração pública com lideranças sindicais e de movimentos sociais esvaziou esses pilares da democracia e neutralizou a autonomia e independência tão necessárias aos mesmos — explica o sociólogo José Luis Vianna da Cruz, professor da UFF-Campos e da Cândido Mendes.
Filósofo Vladimir Safatle
— Eu acho que 2013 foi a maior oportunidade perdida pela esquerda brasileira. Eu acho difícil um grupo político se recompor depois de perder uma oportunidade daquele tamanho. O embate ideológico brasileiro, que estava recalcado, aparece de maneira muito forte. E vai para as ruas. Que era o lugar natural da política brasileira e sempre foi. A esquerda deveria estar à altura do que 2013 pedia. Era a crise da representação política, da imprensa, do sindicato, e uma consciência muito clara que o processo de desenvolvimento econômico tinha parado. Quando você ouvia “Eu quero escola padrão Fifa”, estava muito claro. Essas pessoas começaram a ter ascensão social. E a primeira coisa que elas fizeram foi tirar os filhos da escola pública e botar na escola privada. Vinte e quatro milhões de pessoas saíram do sistema público brasileiro para o privado. A segunda coisa que elas fizeram foi abrir mão do SUS e comprar um plano de saúde. A terceira coisa foi comprar um carro. Essas famílias foram corroídas por esses três gastos. Quando elas saem para pedir mais serviço, estava claro: esse processo econômico parou, paralisou — conclui o filósofo Vladimir Safatle, entre os principais intelectuais na esquerda do país, e professor da Universidade de São Paulo (USP).
Nada é mais divertido do que uma boa discussão sobre direita e esquerda. Talvez por isso, os colaboradores deste blog Opiniões optaram pelo tema “Avanço da Direita no Brasil” nesta rodada de reflexões. O tema é atual, já que convivemos diariamente com vários personagens. Tem “direita coxinha”, “direita bolsonática”, “direita programática” e tem até a direita travestida de esquerda. São os militantes violinistas: seguram o instrumento com a esquerda e tocam com a direita. Mas afinal, quem ajudou a fabricar tantas coxinhas e bolsonáticos? Não é preciso uma grande pesquisa para notar que, após 13 anos da esquerda no poder (Lula, Lula de novo, Dilma, e Dilma de novo até o impeachment), seria natural uma onda conservadora.
Em São Paulo, por exemplo, após uma série de pesquisas qualitativas, o empresário João Doria lançou o seu personagem, apontado como coxinha, e venceu a disputa pela Prefeitura, que estava sob o comando do PT. No plano nacional não é diferente, mas as pesquisas mostram que não basta ser coxinha para entrar na briga. É preciso falar mais grosso e defender com firmeza algo que deveria ser obrigação: honestidade. Nesse embalo o deputado federal Jair Bolsonaro vai moldando o seu personagem para ser aceito por vários grupos. O tema central do seu discurso é a honestidade, batendo firme nos escândalos de corrupção que envolvem políticos dos mais variados partidos. No entanto, Bolsonaro se encontra em uma espécie de sinuca. Ele precisa agradar seus eleitores de extrema direita, lunáticos defensores da ditadura, por exemplo, sem desagradar a direita mais branda. Se optar pelo discurso radical, Bolsonaro sabe que terá um teto e dificilmente conseguirá avançar nas pesquisas. Para completar a dificuldade de Bolsonaro, ele é um candidato raso, que não suporta um debate sério sobre temas complexos.
Ciente da sua parcela no fortalecimento de coxinhas e bolsonáricos, o PT já demonstra que não irá voltar as suas raízes, como havia defendido o ex-presidente Lula em recentes discursos. Jogando o jogo político com as cartas que possui e conhecendo muito bem o tabuleiro que dominou por quase 15 anos, os petistas apostam no fisiologismo e já começam a formar alianças visando as eleições de 2018. Em seis estados o partido deverá caminhar ao lado do PMDB, legenda que os seus militantes classificam como “golpista”. Em Alagoas, Ceará, Minas Gerais, Paraná, Piauí e Sergipe, os partidos deixaram a rixa do impeachment para trás e estão namorando sério. Os senadores peemedebistas Renan Calheiros e Eunício Oliveira, por exemplo, foram favoráveis à saída de Dilma Roussef, mas estão ao lado do ex-presidente Lula.
Para os que acompanham a política mais de perto, chega a ser cômico ver duelos nas redes sociais entre os admiradores dos principais representantes da direita e da esquerda no Brasil. Cegos em suas ideologias, eles não percebem o quanto alguns líderes são parecidos. Até porque, a canalhice em nosso país vai muito além da direita e da esquerda: ela é ambidestra.
Um aspecto modernizador interessante a se abordar sobre a Direita no Brasil e em todo o mundo ocidental, especialmente, é que ela (empresariado), não satisfeita com o controle total do seu poder econômico, aprendeu e gostou, de participar da vida política explicitamente! Trocaram as ‘coxias’ ou os ‘bastidores’, para entrar em cena, nem que seja no papel de coadjuvante. Ampliando assim, sua capacidade de fazer política e de intervenção, seja ela, ‘quente’, em momentos de grave crise nas relações de poder, colocando em risco seus interesses e hegemonia nos espaços institucionais e decisórios do Estado, quando a Democracia é escancaradamente relegada ao lixo histórico.
Novidade, de grande sofisticação e complexidade, é a sua participação no fazer político em tempos de intervenção ‘fria’, em tempos de ‘normalidade democrática’, onde ela ocupa não apenas os espaços formais no executivo, no legislativo e no judiciário em todos os territórios e níveis da Federação, mas, no domínio dos meios de comunicação, criando e atuando em Instituições e Entidades da Sociedade Civil (lembro que a direita/elite dominante/empresariado, tem também sindicatos, tem federações e confederações classistas, Ongs, etc), como também, ocupando as ruas abertamente!
Ou seja, a Direita está na política sempre; está em luta sempre, para conservar seus interesses e sua reprodução! Ela não engana aos desavisados! Hoje, ela deixou de apenas financiar, de fazer ‘caixinhas’, de construir ‘lobbies’, de alimentar a corrupção e de ter seus intermediários, ela atua diretamente na ‘sociedade civil’ e na ‘sociedade política’. Importante destacar, que o domínio econômico e cultural que sofremos enquanto país periférico/subalterno, não é destino, nem muito menos automático. Ele é histórico! Com a nossa modernização-conservadora, quando nos tornamos um país urbano-industrial, as relações entre a Direita/empresariado e o empresariado internacional, fundiu-se, tornando-se mais sofisticada e imbricada. É o ‘empresariado transnacional associado’ que existe de fato. É dele que falamos.
Com o domínio internacionalizador e globalizante do capital/empresariado/burguesia, também suas ações políticas se internacionalizaram ou melhor, se transnacionalizaram. Dessa forma que a vida política também se transnacionalizou, sem purismos, ora explicitamente, ora não! E o Brasil não está fora deste circuito, muito pelo contrário. A ação política das classes dominantes (associadas) extrapola o espaço nacional, articula-se com seus pares além território e com os organismos internacionais governamentais ou não-governamentais afins, catalisadores de ações coletivas, ratificando o lugar e a posição de cada um no processo reprodutor do status-quo.
Uma verdadeira ‘Internacional Capitalista’, é construída pela Direita, agora, transnacional-associada, com um fôlego impressionante, com uma competência técnica e política de ‘tirar o chapéu’, com suas estratégias e táticas muito bem elaboradas. Um verdadeiro ‘Estado-Maior’! Nada é feito sem pensar; nada é feito sem planejar a curto, a médio e longo prazos; nada é feito sem analisar os ‘pontos fortes e fracos’. E dois pontos são tratados como princípio fundante: nenhum processo, ação, tempo e espaço podem ser negligenciados na análise do real; e todo cuidado com as ‘diferenças’ e/ou ‘distúrbios’ entre seus pares, porque a unidade entre as diversas frações de classe, é o fundamento de suas vitórias. Ou seja, dividir para dominar, só com os seus opositores!
Dessa forma, o exercício do poder dominante, sua ação política (ofensiva e/ou defensiva), seu convencimento, são desenvolvidos por vários meios, por variadas operações – coercitivas, midiáticas, econômicas, sócio-culturais e administrativo-institucionais. Através de seus intelectuais orgânicos, de seus simpatizantes em todas as classes sociais e de suas alianças ideologicamente cooptadas, espalhados em todos os lugares, até naqueles inimagináveis; institucionalizados no ambiente público-estatal ou não, o exercício do poder da Direita torna-se capaz de viver, sobreviver e conviver, mesmo em ambientes democráticos! Esta modernidade política da Direita no Brasil – ‘burguesia transnacional associada’, tem no Golpe Civil-Militar de 1964 sua estreia, através de uma ‘intervenção quente’, promovendo sua consolidação nos espaços de poder.
Esgotados no centro os mecanismos de acumulação e reprodução do sistema capital fruto de suas contradições, lá pelos idos das décadas de 1970/80, baseados no fordismo-taylorismo, no keynesianismo/Estado de Bem-Estar-Social, articulados às contradições, crises e desaparecimento do bloco socialista vigente, a Guerra Fria se esvai…o ‘mundo seguro do bem-estar’, do ‘capital humanizado’, vivencia a máxima de que ‘tudo que é sólido se desmancha no ar’.
No seu lugar, uma reestruturação do mundo sob os auspícios da ‘liquidez’, que expulsa seres humanos como algo descartável e inútil ao sistema produtivo; que minimiza os Estados no seu papel de garantidor dos direitos sociais/humanos, destruindo-os e os maximaliza como garantidor dos ganhos/acumulação oriundos da financeirização especulativa de capitais; que suporta o reconhecimento das questões das ‘minorias’, desde que desarticuladas, como um fim em si mesma; etc, etc, etc.
Neste contexto, o Brasil vive o paradoxo da ‘Nova República’, que nasceu como tática pelo olhar, condução e participação negociada, pactuada da Direita. Apesar das contradições e limites da Constituição de 1988 e de suas regulamentações, como compreender os avanços sociais e políticos, o papel do Estado ‘protetor’, nela contidos, fora de uma contextualização mais ampla interna e externa? A ‘Nova República’ e todos os seus elementos simbólicos, nasceram para morrer logo. No seu brevíssimo caminhar histórico, foi se desfigurando, (R)EMENDANDO, REFORMANDO as leis e as práticas, destituindo direitos nelas conquistados, afastando qualquer pensamento ou iniciativa de um projeto de Nação soberano.
Na sua constante e necessária luta política, a Direita no Brasil, encontrou resistências, sim! Encontrou oposição, sim! Que foram para os parlamentos e para as ruas, sim! Não foi fácil para ela negociar a construção da ‘Nova República’, mesmo considerando a recém e difícil recomposição histórica das esquerdas em nossa sociedade a partir da crise final da Ditadura Civil-Militar até hoje. Foi essa esquerda, em suas diversas versões, que alavancou a oposição, o contraponto, as conquistas político-sociais presentes no Estado Democrático de Direito vigente. Infelizmente, a História nos indica que foram conquistas sob o ‘fundamento e palco da liquidez e da efemeridade’.
Foi a Direita (transnacional-associada) o condottiere da redemocratização. Não podemos esquecer isso! Sua presença foi e é constante, inclusive, e, principalmente, escancarando a partir deste tempo, a novidade sofisticada no ‘fazer político’, com as suas intervenções ‘frias’, típica dos períodos de ‘normalidade democrática’, já caracterizado anteriormente. Por isso, às vezes pensamos que a Direita esteve ‘acuada’, ‘controlada’. Como? Se desmontou, por exemplo, a Constituição de 1988, através das famosas PECs? Se pactuou em todas as eleições presidenciais – Collor, FHC, Lula e Dilma? Se esteve presente diretamente, ocupando postos chaves/estratégicos em todos esses governos, predominando a sua política econômica? Se, com isso, conseguiu reafirmar nossa condição de país subalterno, desindustrializante, primário-exportador, tão necessário frente a ordem internacional e globalizante pós-Guerra Fria?
Diante da grave e profunda crise mundial do sistema capital instalada em 2008, a crise e as contradições internas se avolumam, no período em que vivenciávamos o pacto Direita – Partido dos Trabalhadores/’Lulismo’, iniciado a partir do Governo Lula e que sobreviveu até o primeiro mandato da presidenta Dilma. O ano de 2013 e suas ‘jornadas’ nas ruas, apontou algo de ‘novo’ para esta ‘parceria’. O pacto sobreviveu a mais uma eleição presidencial conturbadíssima (2º mandato de Dilma), mas, que elegeu, um parlamento que ousou subestimar qualquer avaliação – altamente pragmático, conservador, reacionário, considerado por muitos, o parlamento mais desqualificado do ponto de vista ético da nossa História – sustentação de toda trama de ruptura do pacto e desestabilização vigente!
O Golpe político-jurídico-midiático, acontecido no ano de 2016, dentro da ‘normalidade democrática’, pode ser entendido como o fim do que se denominou ‘Nova República’. A Direita – transnacional-associada, já há tempo modernizada em suas ações políticas, que nunca saiu do poder, e, muito menos, foi coadjuvante, apresenta-se diante da crise, forte e muito bem preparada para as lutas políticas, que preservem e ampliem seus interesses de classe. Lava-Jato, corrupção, Temer, Supremo Tribunal Federal, Câmara Federal, mídia, são as táticas[1] para extirpar qualquer obstáculo a um novo reordenamento que busque a segurança política, a ordem social necessária para ela, costuradas ‘pelo alto’. Enquanto caminho tático, nada de novo ‘sob o sol’, o que não está claro ainda, é a nova ‘costura’ de um novo pacto – ‘quente’ ou ‘frio’. Nenhum ator/liderança política está fora do arco possível desse pacto vindouro. Aguardemos, atentos!
Enquanto isso, nada melhor que desemprego (real e não imaginário), nada melhor do que criar medo, insegurança, pavor; nada melhor como liberar o ódio e intolerância contidos em ideias e práticas, usando, inclusive as ruas em pequenas e grandes manifestações; nada melhor do que minar as forças e as mentes dos opositores; nada melhor que a desestabilização e a desesperança!
Aprendi ao longo da minha vida de oposição ao sistema capital, que a Direita não está avançando! A Direita continua avançada!
Tudo está perdido? Claro que não! Que fazer? Aí são ‘outros quinhentos’!
[1]“Arte ou ciência da detalhada direção e controle do movimento ou manobra, através do emprego dissimulado de recursos especiais e variados, para conseguir um fim ou realizar uma ou mais operações que visam, per se ou interligadas, a um objetivo ou sequência de objetivos para alcançar um fim. […]Assim, no plano das relações de força entre adversários ou no plano das relações políticas entre os conjuntos que compõem a estrutura social, a tática é a organização e (pre)disposição adequada (no terreno dos acontecimentos e nos diversos campos possíveis de enfrentamento) à luta dos diversos meios para desenvolver ações de teor defensivo, preventivo, de dissuasão ou agressivo.”(René Armand Dreifuss)
Jovem promessa Vinícius Júnior, de 17 anos, entrou ontem para mudar o Fla x Flu no Maracanã
Com o tempo, ou por falta dele, deixei de acompanhar futebol. Mas vi ontem o Fla 3 x 3 Flu no Maracanã, pelas quartas-de-final da Copa Sul-Americana. Digno do seu palco, o jogo foi épico, daqueles em que as veias das pernas dos jogadores se confudem com os cadarços das suas chuteiras.
Nelson Rodrigues, maior dos tricolores
Virtualmente eliminado, após o Flu fazer 3 a 1, o Fla se incendiou com a entrada do veloz e incisivo atacante Vinícius Júnior, de apenas 17 anos, cujo passe já pertence ao Real Madri. Ele iniciou a jogada que acabou no segundo gol rubro-negro, com destaque ao passe de calcanhar do meia Éverton Ribeiro, para depois sofrer a falta que originou o terceiro. E, por muito pouco, a jovem promessa não marcou o quarto.
Recentemente, um amigo botafoguense me fez a observação: “Vocês olham de cima para nós e o Vasco. Mas quando é com o Fluminense, vocês respeitam”. E é verdade. Talvez por conta do mito grego entre pai e filho, já que o futebol do Clube de Regatas do Flamengo foi fundado por uma dissidência de jogadores do Fluminense Football Club. É coisa que se repete, por exemplo, entre Brasil e Uruguai, ex-província brasileira responsável por nossa maior tragédia no futebol, na final da Copa de 1950.
Superior aos outros três grandes clubes cariocas em todas as estatísticas, como número de torcida, de títulos, confrontos diretos e saldo de gols, o Flamengo só perde para o Flu no scout dos jogos decisivos. Como foi o de ontem, disputado pela vaga à semifinal da Sul-Americana, no qual o time das Laranjeiras jogou de igual para igual, por vezes melhor, contra uma equipe mais técnica.
Maior dos tricolores, o dramaturgo Nelson Rodrigues (1912/80) dizia que o primeiro Fla x Flu foi disputado “quarenta minutos antes do Nada”. Se foi, o jogo de ontem esteve à altura da sua gênese.
Em um engarrafamento no Centro de Campos, três pessoas conversam sobre os rumos políticos do país em um momento no qual os cidadãos buscam soluções rápidas. No cenário nacional, debates e divergências — em sua maioria, dominados por muitas vozes e poucos ouvidos, devido à incapacidade de escutar o próximo — aceleram o descrédito em relação ao futuro. Redes sociais afogam-se em brigas ideológicas infrutíferas. De um lado, quem acredita na violência como solução para a violência. Do outro, quem continuar a crer a despeito dos anos de desgaste.
Ao volante, o homem, firme em suas posições, aponta que não há outra solução a não ser Jair Bolsonaro na presidência. Ele, sim, em sua concepção, pode consertar o Brasil. Os argumentos vão da conhecida violência até o crescimento da discussão sobre a questão de gênero:
— Criança é criança. Não pode ser assim. Querem colocar até em livros didáticos. Eu nunca vi o país desse jeito. É muita bagunça. Mas é minha opinião.
Mas a opinião dele era partilhada por, em média, 30% dos brasileiros, entre 16 e 33 anos, que, de acordo com pesquisas recentes, votariam em Bolsonaro em situações simuladas durante a coleta dos dados. No entanto, não só essas gerações se posicionaram a favor do militar. Acima dos 40, é possível encontrar outros eleitores do candidato. Entre eles, está um comerciante de Campos.
Em setembro, o homem foi vítima de uma tentativa de assalto dentro de seu estabelecimento comercial. Outros homens chegaram e pediram que ele passasse seu cordão. Enquanto fingia tirá-lo de seu pescoço, ele caminhou até seu carro, abriu a porta e afirmou estar armado para afastar os bandidos, que atiraram e quase atingiram uma pessoa que estava no local.
No momento em que narrava o caso, sendo atentamente ouvido por clientes apavorados com a crescente violência, no caixa da padaria, o homem fez elogios ao período ditatorial:
— Na ditadura, a gente podia andar tranquilamente pelas ruas a qualquer hora. Não tinha esse perigo, não. Não houve nada disso de que falam. Eu vivi esse período. E sou eleitor de Bolsonaro.
Apesar da crise política pela qual passa o Brasil, com somente 3% da população aprovando o governo de Michel Temer — que escapou de investigações sobre evidenciados atos de corrupção e se mantém no poder por meio de conchavos com deputados e senadores —, é necessária uma retrospectiva para compreender melhor os ideais do segundo principal candidato à presidência da República. Marcado por tentativas de vandalismo em quartéis e outros pontos do Rio de Janeiro, Bolsonaro também é lembrado por celebrar torturadores do período ditatorial e por sua comemoração solitária dos 51 anos do golpe militar.
No dia 31 de março de 2015, em frente à Esplanada dos Ministérios, em Brasília, o deputado estendeu uma faixa em que parabenizava os militares, agradecendo-lhes por terem impedido o Brasil de se tornar Cuba. Na ocasião, ele soltou rojões e usou o artifício para chamar atenção para si, visto que, até se destacar por polêmicas, sua atuação era pouco conhecida por grande parte da sociedade.
Pouco mais de um ano depois, em 18 de abril de 2016, durante a votação do processo de Dilma, que resultou em seu impeachment, o deputado federal dedicou seu discurso aos militares de 1964 e seu voto favorável à retirada da presidente “à memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (único militar brasileiro reconhecido pela Justiça como torturador), o pavor de Dilma Rousseff”. Em outro episódio recente, ocorrido em dezembro de 2014, Bolsonaro afirmou que não estupraria a deputada Maria do Rosário porque ela não merecia e por achá-la feia.
Atualmente mais contido em seus posicionamentos, visando à corrida eleitoral de 2018, Jair Bolsonaro busca a consolidação de uma imagem diferente da já conhecida pelos brasileiros. Mas, para que os eleitores não sejam novamente trapaceados, é necessário sempre se recordar da trajetória do candidato. No artigo “No 40º triste aniversário do triste evento de 1964: o golpismo contra a História”, o historiador e cientista brasileiro Jacob Gorender alertou a sociedade sobre a fragilidade do nosso sistema de governo: “Há muita criminalidade, o país está longe de ser um paraíso, mas é uma democracia. Trata-se, contudo, de uma democracia que veio à luz num parto difícil, cuja sobrevivência e consolidação exigem vigilância constante e esforço político incansável”.
Luiz Ruffato é conhecido por ser um dos maiores prosistas brasileiros da atualidade. Mineiro de Cataguases, filho de um pipoqueiro e uma lavadeira, se formou pelo Senai como torneiro mecânico, ofício que exerceu antes de se graduar em Comunicação. Trabalhou na imprensa de Minas e São Paulo até abandonar o jornalismo em 2003. Em caso raro no Brasil, passou a se dedicar integralmente à literatura.
Atualmente, Ruffato só mantém sua atuação na imprensa como articulista. Em texto publicado hoje (01), no jornal El País, o escritor analisou a corrida pela eleição presidencial de 2018. Após as pesquisas Datafolha e Ibope sobre a disputa, ele identificou uma polarização entre a corrupção à esquerda e a ameaça do autoritarismo, à direita.
Muitas da conclusões a que o escritor chegou em seu artigo de hoje, caminham juntas com análises publicadas neste “Opiniões”, e na Folha da Manhã. Mesmo na curta envergadura de um blog e um jornal de interior, é gratificante constatar que a análise política nacional se assemelha à visão de quem abandonou o jornalismo para se consolidar como um dos maiores escritores brasileiros.
Para ler ou reler as advertências publicadas neste blog, basta conferir aqui, aqui, aqui e aqui. Já para se ter acesso à visão muito parecida de Ruffato, basta conferir aqui ou na reprodução abaixo:
Palácio do Planalto (Foto de Valter Campanato – Agência Brasil)
Escritor Luiz Ruffato
O Brasil, entre a corrupção e o autoritarismo
Por Luiz Ruffato
A pesquisa do Ibope, divulgada no domingo, 29, confirma a tendência, já apontada pelo Datafolha, de fortalecimento da candidatura do deputado federal Jair Bolsonaro, de extrema-direita. Segundo dados daquele instituto, Bolsonaro, com 13% das intenções de voto, disputaria o segundo turno com o petista Luiz Inácio Lula da Silva, que continua estacionado em 35%. A candidatura de Bolsonaro vem se alimentando das incertezas provocadas pela derrocada dos partidos tradicionais, envolvidos em escândalos de corrupção.
Condenado a nove anos e seis meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, o PT sequer sabe se Lula poderá ou não ser candidato – e, pior, o partido não tem alternativa ao personalismo de seu líder. Sem Lula, seu possível substituto, Fernando Haddad, contaria, segundo o Ibope, com 1% das intenções de voto – é bom lembrar que Haddad, candidato à reeleição na Prefeitura de São Paulo em 2016, perdeu, ainda no primeiro turno, para o tucano João Dória, que teve três vezes mais votos que o petista.
Dória, aliás, que ensaiou ser uma opção para as eleições presidenciais de 2018, pelo PSDB ou qualquer outra sigla, já é carta fora do baralho. A avaliação de seu desempenho à frente da Prefeitura despencou, segundo pesquisa Datafolha, de 41% de ótimo/bom para 32%, em apenas quatro meses. Mas, o mais importante: 58% dos eleitores paulistanos disseram que preferem sua permanência à frente da Prefeitura e 55% revelaram que não apoiariam de jeito nenhum sua possível candidatura ao Palácio do Planalto.
O problema, para o PSDB, que mantém uma relação incestuosa com a corrupção deslavada do governo do presidente não eleito, Michel Temer, é que a candidatura do insípido governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que tem em seu currículo uma derrota para Lula dez anos atrás, não consegue decolar. O tucano aparece, na pesquisa Ibope, com 5% das intenções de voto num cenário com Lula candidato, percentual que praticamente não muda num cenário sem Lula, 7%.
Sem Lula, quem cresce é a candidatura da omissa Marina Silva (Rede). Se no cenário com o petista candidato, Marina obtém apenas 8% das intenções de voto, no cenário sem Lula ela dobra o percentual para 15%, empatando, nesse caso, com Jair Bolsonaro, indo os dois para a disputa do segundo turno. Duas vezes candidata à Presidência da República, em 2010, pelo PV, e em 2014, pelo PSB, em ambas terminou em terceiro lugar, com uma média de 20% do total dos votos válidos.
A menos de um ano das eleições presidenciais, essa indefinição acaba colaborando para o surgimento de candidaturas messiânicas. O primeiro balão de ensaio, o prefeito João Dória, resultou murchar muito rápido, pressionado internamente pelos tucanos alinhados com Alckmin, e externamente pela opinião pública paulistana, insatisfeita com seu prefeito viajante. Agora, a aposta é na força do nome do apresentador da Rede Globo, Luciano Huck.
Huck, que oficialmente nem pré-candidato é, mas que não esconde sua pretensão de “participar deste processo de renovação política no Brasil”, como escreveu em artigo na Folha de S. Paulo do dia 18 de outubro, aparece, na pesquisa Ibope, com 5% das intenções de voto, mesmo percentual de Geraldo Alckmin, e mais que os 3% dados a Ciro Gomes (PDT). Já num cenário sem Lula, Huck surge em terceiro lugar com 8%, logo após Bolsonaro e Marina, com 15%, e acima de Alckmin e Ciro, com 7%.
Assim, pouco a pouco, o pensamento reacionário vai ocupando mais e mais espaço no ambiente político. Na votação que livrou Temer da segunda denúncia da Procuradoria Geral da República, por obstrução da justiça e organização criminosa, ocorrida no dia 25, o deputado Cabo Daciolo, filiado a um partido chamado Avante, pediu literalmente intervenção militar no país! Cabo Daciolo, bombeiro e evangélico, pré-candidato ao governo do estado do Rio, foi eleito com quase 50 mil votos … pelo PSOL! Num ambiente confuso e polarizado como o atual, a candidatura de Bolsonaro deveria preocupar mais as forças pensantes deste país.
Assembleia francesa em 1789 — liberais girondinos à direita, extremistas jacobinos à esquerda
Sempre foi muito confortável se autodeclarar ‘de esquerda’. Até pouco tempo atrás, havia quase unanimidade no entendimento de que aquele que era de esquerda estava do lado ‘do bem’, em contraposição àqueles que eram apontados como ‘de direita’, que, logicamente, estavam do lado ‘do mal’.
Resumindo grosseiramente, ser de esquerda é ser a favor de que todo mundo tenha, aqui e agora, aquilo que necessita. E que seja o Estado o principal responsável de satisfazê-lo. Essa descrição pode parecer um tanto exagerada, mas é bom lembrar que esse voluntarismo aparece na própria Constituição Brasileira, a mais alta e prolixa expressão normativa das boas intenções da nação. Até 2003, por exemplo, a Carta Magna determinava que a taxa de juros não devia ultrapassar de 12 por cento ao ano – limitação que nenhuma instituição financeira, nem mesmo o governo, respeitou jamais, até ser finalmente revogada.
Dado que todo mundo se coloca do lado ‘do bem’ e ninguém se autopercebe malvado ou egoísta, acontecia que quando alguém manifestava que a manta era muito curta e não dava para cobrir o corpo todo, era chamado de direitista. Uma categoria determinada por exclusão. Daí que praticamente não existam partidos políticos que se reconheçam de direita.
Quem é de direita é (ou deveria) ser a favor do capitalismo. E o capitalismo goza de muita má-fama. É bem curioso, porque foi esse sistema econômico, e não o socialismo, que tirou da pobreza extrema 90% da população mundial nos últimos 200 anos. Mas com o anti-capitalismo acontece coisa similar ao que acontece com a religião. A maioria diz acreditar em Deus, mas no dia-a-dia se comportam como se não existisse. Por sua vez, todo mundo quer ser ‘de esquerda’ — e todos somos burgueses, assalariados e consumidores.
Como disse, isso era assim até pouco tempo atrás. Hoje em dia as coisas se equilibraram um pouco. Já existem vários grupos que se atrevem a autodenominar ‘de direita’. Tem sentido: treze anos de governo do PT, que acabaram numa crise institucional e econômica, animou a muitos a saírem do armário ideológico.
No entanto, ser de direita ainda é uma categoria muito grande, que junta nacionalistas, liberais, fascistas, conservadores ou simples odiadores do PT. As subcategorias são tão distintas entre si como as que existem entre um socialdemocrata e um trotskista.
É lamentável, contudo, que hoje o máximo representante da direita seja Bolsonaro. Um sujeito que, entre outras barbaridades, reivindica a tortura e a ditadura. Apesar disso, penso que há, na maioria de seus simpatizantes, mais oportunismo do que afinidade ideológica, pois Bolsonaro atende àquela crescente parcela da população que associam a corrupção à falta de resposta às demandas da sociedade, principalmente no que diz respeito à segurança. Um sujeito como esse só sobressai quando as pessoas ficam fartas, e infelizmente há de se reconhecer que há motivos para tanto: o aumento da criminalidade é um fato inconteste. Parafraseando um poema de Borges, o que une aos Bolsonaristas não é o amor, mas o espanto.
Como liberal, ainda aguardo a aparição de um líder que me represente. Alguém que reconheça sem medo que o capitalismo é o sistema que efetivamente melhora a vida das pessoas, mas que esse capitalismo precisa garantir a livre concorrência e assegurar igual oportunidades para todos. Quero um político que tenha a coragem de se declarar contra a punibilidade do aborto e a favor da legalização das drogas, pois acredita que o individuo tem direito a fazer o que bem entende consigo mesmo, desde que não prejudique terceiros. Um condutor que entenda que o governo não é uma finalidade em si mesma, e que a sociedade não tem condições de bancar suas mordomias e excessos, e menos ainda sua ineficiência e corrupção. Que acredite na capacidade das pessoas de se virarem para melhorar suas vidas, garantindo a elas o essencial para poder decidir seus destinos: uma excelente educação básica, um prato na mesa, saúde e paz, e a certeza de que vivem num país onde ser ‘do bem’ compensa, sejam de esquerda ou de direita.
Charge do José Renato publicada hoje (01) na Folha
Acabou a farra das lotadas
Acabou a farra! Após atuarem livremente nos oito anos de governo Rosinha Garotinho (PR), o transporte clandestino que infesta as ruas da cidade começou a ser, de fato, combatido. Com a aprovação de novo Código Tributário de Campos, na seção referente às taxas de fiscalização de transporte de passageiros, ficou definido que “a exploração de transporte de passageiros sem prévia autorização, permissão ou concessão (…) sujeitará o infrator à apreensão de veículos e multa de 300% sobre o valor atualizado da taxa devida pelo período efetivo ou estimado de funcionamento por cada veículo irregular, além dos acréscimos moratórios exigíveis”.
PM acaba com a festa
Desde que as mudanças foram publicadas em Diário Oficial (DO), em 29 de setembro a fiscalização que antes se restringia a coibir problemas com a documentação das lotadas e vans, passou a ser feito sobre a própria atividade do transporte irregular. A reação veio ontem, quando motoristas de lotadas fecharam algumas das principais ruas de Campos pela sexta vez neste ano de 2017. E o que é mais relevante no enfrentamento à atividade clandestina: a Polícia Militar (PM), que nas cinco manifestações anteriores (aqui, aqui, aqui, aqui, e aqui) se limitou a observar o impedimento do direito de ir e vir dos campistas, na tarde de ontem interveio fisicamente para acabar com a festa.
Protesto e vandalismo
O protesto dos motoristas de lotadas começou por volta das 9h30, com o bloqueio das duas faixas da avenida XV de Novembro, no Centro, e da saída dos ônibus do terminal Luís Carlos Prestes. Um ônibus da empresa São João chegou a ser pichado com a frase “lotada não é crime”. Um pouco mais tarde, a Beira-Valão também foi fechada próximo ao acesso à ponte Leonel Brizola. No final da tarde, os motoristas de lotadas voltaram a fechar a XV de Novembro com sacos de lixo, chegando a quebrar uma lixeira pública. A Guarda Municipal desviou o trânsito, enquanto a PM interveio para pôr fim ao vandalismo e liberar a via.
Ilegalidade x inteligência
Ilegalidade se vence mais com inteligência do que com força. Foi o que o poder público municipal fez com o Código Tributário, que fez doer o bolso de quem se dedica ao transporte clandestino na cidade. O mesmo se deu na articulação entre o Instituto Municipal de Trânsito e Transporte (IMTT), Guarda Civil, PM e, sobretudo, o Departamento de Transportes Rodoviários do Estado do Rio de Janeiro (Detro/RJ), tão temido pelos motoristas de lotadas. Num vídeo feito no protesto e divulgado nas redes sociais, eles choraram suas mágoas, concluindo com o coro “Queremos trabalhar!”. Pode ser a deixa para buscar emprego.
Refis
O prazo do Refis, que oficialmente terminou ontem, pode ser prorrogado em Campos até 31 de dezembro. O pleito foi apresentado ontem pelos vereadores ao secretário da Transparência e Controle, Felipe Quintanilha, que esteve na Câmara apresentando relatório das contas da Prefeitura. Quintanilha disse que hoje haverá uma reunião com o prefeito Rafael Diniz para tratar do assunto. O pleito faz sentido: Se a ideia é arrecadar um dinheiro que praticamente estava perdido ou demoraria anos para ser recuperado, nada melhor que esperar até o final do ano, época do 13º, para que o contribuinte pague ou parcele suas dívidas, respirando mais aliviado.
Articulação
Para buscar meios de sanar a grave crise que tem enfrentado, a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) reuniu seu conselho universitário, ontem, para buscar medidas mais eficazes de chamar a atenção das instâncias do Governo do Estado. A intenção é fazer com que uma carta aberta chegue até as mãos das autoridades, reforçando a atual situação de calamidade pública da Uenf e exigindo a imediata aprovação da PEC 47, que prevê o repasse mensal dos duodécimos do orçamento às universidades estaduais. No encontro, o reitor Luís Passoni informou que a universidade está preparando nova licitação para contratar uma empresa de segurança. A Uenf está sem esse serviço desde o final do ano passado e, por conta disso, a instituição vem sendo alvo de ações de vandalismo e roubos.
Foi infeliz
Difícil entender as declarações do ministro da Justiça, Torquato Jardim, que acusou comandantes de batalhões da PM do Rio de serem “sócios do crime organizado” e de acertos com deputados. Se ele, como ministro, sabe e tem provas dessas graves acusações, por que não levou à Justiça? Repercutiu e muito mal. Além das reações do governador Pezão e do presidente da Alerj, Jorge Picciani, oficiais da PM querem uma ação mais firme do governo. A Comissão de Segurança Pública da Alerj enviou representação oficial à União.