Manuela Cordeiro — Quantas voltas para se tornar mulher

 

 

 

O cenário da feira municipal já era familiar. Por isso, estar sozinha não era um problema entre as cores das pupunhas de vez e os sons comuns dos descarregamentos de peixes e das risadas de canto de boca na quina do box de legumes. Flutuava pelo trajeto como uma dançarina de balé — da senhora da goma de tapioca, passando pelo saquinho de um real de pimenta murupi até a banca do cará roxo. Coroando com um caldo de cana no senhor simpático em frente aos tambaquis.

Munida de duas sacolas de pano cheia de frutas, legumes, folhas e farinhas, uma em cada ombro, ela caminhou decidida para o espaço fora da feira. Pensou no caminho quanta diversidade cabia naquele espaço — desde a senhora estrangeira que carrega o cesto de alho na cabeça para vender, mantendo o extremo cuidado com seu bebê nos braços e as motos ziguezagueando entre aqueles que caminham junto com os carros. Isso até acontecer um pequeno acidente entre uma menina que carregava um isopor de rúculas em sua bicicleta que bate na parede, assustada com as motos. Minutos de gritaria e posterior entendimento da situação, a feira segue seu caminho.

Já fora do mercado municipal, ela ajeita as sacolas em cada ombro e caminha em uma rua menos movimentada para aceitar o convite da amiga de almoçarem juntas em sua casa. Havia chovido naquele dia, então, redobra o seu cuidado ao andar a pé na calçada mal conservada. Mesmo sendo dez horas da manhã de sábado, o sol não está radiante, o que, no fim das contas, é bom para ela que estava sem sua bicicleta ou sem carona.

Aquela rua que caminhava não era familiar como o balé da feira. Pensou consigo mesma que não haveria problema algum, estava de manhã cedo e com o movimento das compras do sábado. Olhava distraída um terreno que poderia vir a se interessar para morar e quem sabe comprar em um futuro próximo, com o seu recém conquistado salário de funcionária pública, quando um corola branco passou ao seu lado quase parando e deu a volta. Como o carro tinha proteção nos vidros para a radiação solar absurda do norte do país, não conseguiu ver quem estava dentro do carro. Poderia ser um amigo, alguém que trabalhava na mesma repartição e ela olhou curiosa. Mas o motorista não insistiu. Ela seguiu o seu caminho.

Na próxima quadra, novamente o corola branco, passando muito devagar ao seu lado e retornando logo à frente. Havia de ser alguém que conhecia, “o Francisco lá do tribunal tem um carro desses? Acho que deve estar bem contente, ele queria comprar um carrão”. Ao ter esse pensamento, em uma fração de segundos, houve o desenrolar do mistério. Um senhor que não conhecia apareceu do outro lado do vidro, depois do descortinar da janela. Ela olhou para aquele homem de meia idade, branco, com barba, roupas de marca ao acenar com a cabeça para que ela viesse em direção ao carro. Incrédula com aquela cena, quase bateu o pé na poça de lama à frente e continuou o seu caminho procurando a rua movimentada com seus olhos e querendo que o peso das compras fosse menor para que simplesmente corresse dali. Não estava mais se sentindo segura.

Qual não foi a sua surpresa quando o homem no carro branco insistiu em dar a terceira volta. Ao desembainhar o vidro eletronicamente, ela não quis nem mais olhar para o corola e começa a ouvir ‘gostosa’, ‘vem aqui que eu dou um trato em você’. Baixou os olhos para si mesma e se perguntou, mesmo diante de sua formação de ensino superior, a criação emancipadora de sua mãe e sua própria trajetória de entendimento das questões de gênero, se a bermuda não poderia ser uma calça ou se estava ‘marcando demais’. Não tinha decote, as roupas eram bem simples, daquelas que passaria o sábado em sua casa.

Na insistência daquele infeliz andar dentro do carro quase na velocidade de seus passos, ela começou a rezar baixinho, mantendo um ponto fixo para seu olhar no horizonte. “Pai nosso, será que eu estou parecendo uma mulher desamparada? Não, não é possível, eu tenho que ter o direito de ir à feira e depois para onde quiser”; “Ave Maria, mas se Fred tivesse vindo comigo aqui à feira, nada disso teria acontecido. Não, não faz o menor sentido”; “Ele só falta me perguntar quanto é. Todos os santos rogai por mim”.

Depois de suar frio diante do assédio do homem do carro branco e com a escolha feliz de seguir o caminho, segurando suas compras, ela alcança a rua movimentada da casa da amiga. Aquele homem não insiste em uma quarta volta. Ela segue decidida, assustada e inconformada.

Sentimentos compartilhados pela maioria das mulheres nesses dias.

 

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Entre Lula e Moro, vencerá quem determinar qual será o jogo

 

 

 

 

 

Jogo jogado

No embate mais esperado há alguns anos pelos brasileiros (confira aqui, na Folha Online, a íntegra das 5h de depoimento), acompanhado ontem (10) também de perto pela mídia internacional, cada um jogou seu jogo. No político, venceu o carismático ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que conseguiu colar de vez no imaginário popular a ideia do juiz federal Sergio Moro como seu antagonista. Posição indesejada a um magistrado, que deveria ser o juiz imparcial da contenda jurídica entre acusado e Ministério Público, Moro começou dizendo ao interrogado: “Da minha parte não tenho qualquer desavença pessoal em relação ao senhor ex-presidente. Certo?”. Lula calou.

 

Velho conhecido de Campos

Já no jogo jurídico ainda é cedo para definir um vencedor. Entretanto o magistrado frio, com seu tom de voz dissimulado, mas firme quando necessário, soube se impor às provocações sistemáticas dos advogados. Entre eles, Fernando Augusto Fernandes, bem conhecido de Campos, cujo Fórum costuma frequentar para defender o ex-governador Anthony Garotinho (PR) e os vereadores eleitos no “escandaloso esquema” revelado na operação Chequinho, espelho goitacá da Lava Jato nas eleições municipais de 2016.

 

Interesse de Marisa?

Mesmo protegido por advogados treinados à função de cão de fila, Lula estava visivelmente abatido e contrafeito por ter que responder às perguntas de Moro, insistentes na busca de contradições. E as cometeu ao ter que explicar as relações do ex-diretor da Petrobras (e atual delator) Renato Duque com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto. O ex-presidente negou as acusações das delações de Léo Pinheiro, dono da empreiteira OAS e seu ex-amigo, sobre propinas, destruição de provas e o já famoso tríplex do Guarujá. Mas se revelou acuado ao atribuir o interesse no imóvel a Marisa Letícia, sua esposa recentemente falecida.

 

Causa do impeachment

Mesmo recebido em Curitiba pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT), mais tarde Lula não demonstraria condescendência com quem fez sua sucessora. Contrário à versão de golpe ainda ecoada pela militância petista, o hábil negociador político forjado nos interesses muitas vezes contraditórios dos sindicatos do ABC paulista foi direto ao observar a Moro a causa real da derrocada de quem escolheu para governar o Brasil: “Eu fazia reuniões sistemáticas com os líderes (dos partidos). Se a presidenta Dilma tivesse me seguido, não tinha tido o impeachment”.

 

Lula avança

Assumidos como protagonistas do julgamento, Moro se mostrou mais cuidadoso do que Lula com excessos. No começo do interrogatório, o juiz garantiu ao acusado que a possibilidade deste sair dali preso eram “boatos sem qualquer fundamento”. O ex-presidente encarou o magistrado e respondeu: “Mas eu tinha a consciência disso”. Mais tarde, indagado por Moro sobre o que quis dizer quando afirmou publicamente “se eles não me prenderem logo, eu que prendo eles pelas mentiras que eles contam”, Lula disse: “Isso foi força de expressão”. Mas avisou: “Se eu for candidato, vai ter muita força de expressão nos palanques”.

 

Qual será o jogo?

No palanque em que transformou seu julgamento por Moro, Lula obteve uma vitória política. Mas, no jogo jurídico, o resultado da condenação ou não no processo sobre o tríplex do Guarujá sairá em 20 ou 30 dias, talvez ainda este mês. Se considerado culpado, o recurso seguirá ao Tribunal Federal Regional da 4ª Região (TRF-4), onde uma condenação por decisão colegiada poderá impedir uma nova candidatura de Lula a presidente, pela Lei do Ficha Limpa. A média de tempo de uma ação no TRF-4 é de 13 meses, menor entre seus congêneres no país. Ao que parece, vencerá quem definir qual será o jogo. Resta saber o Brasil.

 

Publicado hoje (11) na Folha da Manhã

 

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Uenf, UFF e IFF em debate antimanicomial nesta quinta no Jardim São Benedito

 

A partir das 18h30 desta quinta (11), os professores Luciane Silva, Thiago Contadini e Bruna Brito — respectivamente da Uenf, UFF e IFF — estarão compondo a mesa “Faces do Encarceramento”. A programação da 3ª Semana Antimanicomial Goytacá se dará no simpático prédio da Academia Campista de Letras (ACL), no Jardim São Benedito.

 

 

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Aprovada na Câmara Federal, Recuperação dos Estados abrevia crise na Uenf

 

Charge do José Renato publicada na capa da Folha da Manhã do último dia 30

 

 

Os servidores e alunos bolsistas da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Darcy Ribeiro estão mais perto de receber seus atrasados. Pelo menos é isso que se pode esperar depois da aprovação, hoje, na Câmara Federal, dos destaques do Plano de Recuperação Fiscal dos Estados. Como este blog havia adiantado aqui, logo após reunião no último dia 5, o governador fluminense, Luiz Fernando Pezão (PMDB), havia garantido o pagamento em dia dos servidores e bolsistas a partir dos vencimentos de abril, condicionando os outros meses atrasados à aprovação do Plano de Recuperação Fiscal no Congresso Nacional.

Da reunião com Pezão com a cúpula do ensino superior estadual, além do reitor da Uenf, Luis Passoni, lá também os representantes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Centro Universitário Estadual da Zona Oeste (Uezo),  Fundação Centro de Ciências e Educação Superior à Distância do Estado do Rio de Janeiro (Cecierj),  Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec) e  Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Todas instituições ligadas à Ciência e Tecnologia, elas foram equiparadas às da pasta da Educação na normalização dos salários a partir de abril. Já o pagamento dos atrasados havia sido projetado ao final de junho, quando se esperava a aprovação do Plano de Recuperação na Câmara e no Senado.

Em Brasília, ontem, após a aprovação dos destaques da Recuperação Fiscal dos Estados na Câmara Federal, a expectativa de Pezão parece ter sido abreviada. A previsão é de que agora seja votado no Senado já na próxima terça, 16 de maio, em regime de urgência. Após a vitória na Câmara, o governador do Rio declarou

—  É uma grande conquita para o Estado do Rio de Janeiro. O Plano possibilita que terminem os areestos, os bloqueios e que façamos a operação de crédito prevista, além de suspender o pagamento da dívida por três anos. Então, nos ajuda muito a ter previsibilidade e poder colocar em dia os salários dos servidores.

Sobre a expecativa da votação no Senado, Pezão adiantou:

— Já conversei com o presidente Eunício Oliveira (PMDB/CE) e vamos lutar para que a votação ocorra em regime de urgência no Senado. Acho que teremos a vitória com tranquilidade, já que esta matéria já passou na Casa.

Enquanto isso, com a garantia de receberem em dia a partir do vencimento de abril, os 950 servidores da Uenf têm atrasados o 13º de 2016 e março de 2017. Ao passo que seus alunos bolsistas amargam dois meses sem repasses. A maior univesidade de Campos e região opera sem verba de manutenção, estimada em R$ 2 milhões/mês, desde outubro de 2015.

 

Leia a matéria completa na edição de amanhã (11) da Folha da Manhã

 

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Dossiê Ocupa TB — De onde veio, para onde foi e vai a cultura de Campos?

 

Teatro de Bolso na noite da sua ocupação (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Ontem se completou (aqui) um ano do início do Ocupa TB. Foi em 9 de maio de 2016 que os artistas de Campos ocuparam (aqui) o Teatro de Bolso (TB) Procópio Ferreira. Posteriormente, sem ter o atendimento da sua pauta de reivindicações, nem o cumprimento promessa da reabertura do teatro (aqui) por parte do governo Rosinha Garotinho (PR) — que o mantinha fechado desde o final de 2014 —, a ocupação terminou em 6 de junho do ano passado. O TB só seria reaberto (aqui) em 27 de março de 2017, pelo governo Rafael Diniz (PPS).

Entre ontem e hoje, o blog buscou alguns dos ex-ocupantes do Teatro de Bolso, muitos deles jovens. Não só para registrar seus testemunhos daqueles 28 dias de sonho, em que os artistas de Campos assumiram o controle do seu mais tradicional palco de Campos, como para colher suas impressões das consequências daquele ato de ousadia, um ano atrás, na realidade presente.

Entre elogios e esperança da classe quanto à nova gestão municipal, como sugestões e algumas cobranças, quem também deu jurisprudência ao episódio foi um sociólogo que não participou do movimento, mas recentemente concluiu (aqui) seu doutorado na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) com a tese: “Palco e resistência: a geração do Teatro de Bolso”.

Seja para conhecer melhor e não deixar se apagar o que houve há um ano — ou há 34, quando outro grupo de jovens, liderados pelo então ator Anthony Garotinho, também ousou ocupar o TB — leia com atenção os depoimentos abaixo:

 

 

Michelle Belcanto

 

“O que eu vejo hoje com relação ao teatro, nessa nova gestão, e especialmente com relação ao teatro, um ano depois da ocupação, é que o nosso tão querido TB já se encontra a pleno vapor. Ou pelo menos, já vejo dentro das possibilidades reais, o teatro voltando a ser gradativamente dos artistas e da comunidade. Vejo também que, com relação à cultura de uma maneira geral, já existem iniciativas interessantes e diálogo com as universidades, como Uenf e UFF por exemplo. E creio que os resultados dessa parceria serão benéficos a todos. É cedo para avaliar uma gestão que iniciou há poucos meses e com tanta defasagem, mas vejo algumas mudanças positivas no âmbito artístico-cultural de nossa cidade. Mas, claro, sempre há o que avançar e melhorar. E acredito que já que estão surgindo parcerias com as universidades, seria muito bom iniciar esse dialogo com o IFF, que possui hoje as licenciaturas em Teatro e Música. A cultura e a arte na cidade com certeza terão muito a ganhar realizando parcerias com a academia, num processo de pensar juntos novas formas de intervir artisticamente no bojo da nossa sociedade. A arte é uma ferramenta essencial no trabalhos de inclusão, socialização e re-socialização. Por exemplo, como utilizá-la de modo descentralizado com o intuito de atingir o máximo de pessoas? E essa foi uma questão muito discutida nos dias de ocupação. Um ano passou e hoje nos encontramos com uma gestão limitada financeiramente, mas que pelo menos na parte artística e cultural, se mostra interessante e interessada pela demanda dos artistas locais”.

Michelle Belcanto, atriz, dançarina, professora e ocupante do TB

 

 

Alexandre Ferram

 

“Toda e qualquer manifestação artística e cultural é válida.  Artista é cheio de fome, é cheio de sede, de inquietações e com um turbilhão de coisas pra propor e realizar. Com o Ocupa TB não foi diferente, tínhamos um bando artistas de várias vertentes que estavam reivindicando a reabertura de um espaço público, um espaço que estimula a produção artística local, que gera renda, que forma plateia, que deixa uma cidade mais alerta. Foram dias de muito aprendizado e companheirismo, dias que tentamos entender ou desvendar o que restava da classe artística de Campos, que parecia ter sido hipnotizada por anos e que está aos poucos revivendo através de novos soldados que estão surgindo.

Levantamos muitas pautas com a finalidade do reavivamento das políticas públicas culturais, pautas ‘gordas’ como chamávamos, para que pudéssemos enxugá-las de acordo com as prioridades. Porém, nenhuma delas foram atendidas até hoje, com exceção da reabertura do Teatro de Bolso, que reabre sem o efetivo conserto do ar condicionado e sem que o nosso desejo de gestão compartilhada fosse atendido — ainda. De certo que este modelo  deve ser pensado e repensado diante da estrutura de muitos grupos que temos.

A sensação é: saímos perdedores, após 28 dias de tanta luta sem que pelo menos um desejo fosse atendido e ainda enganados com a promessa de reabertura no prazo de 60 dias (primeiro de 45 dias, depois estendido e igualmente não cumprido). Mas nos sentimos vencedores, de ter ao menos podido chamar a atenção da sociedade para um fato que se agrava na cultura de nossa cidade que era o fim dos equipamentos culturais. Mas a luta ainda nem chegou ao fim e como costumávamos dizer, durante a ocupação: ‘não paramos ainda’.

Hoje, tenho um panorama mais positivo no que tange à gestão pública cultural da cidade. A vontade é muita, no que vejo de meus amigos que estão elencando o grupo de gestores. Precisamos pensar a cultura que fazemos como um plano pro futuro, sem esmolas, sem pires, sem favoritismos. Esperamos que essa vontade realize grande feitos para cultura dessa cidade e desejo que não parem nunca, porque nós, do lado cá, não vamos parar de cobrar jamais. Haverá sempre um ‘vagabundo’ para ocupar com suas artes espaços frustrados”.

Alexandre Ferram, ator e ocupante do TB

 

 

Lua Monteiro

 

“Confesso que foi extremamente triste ter visto o TB naquele estado, um ano atrás. Estou feliz que tenha sido reaberto, mesmo que algumas de nossas pautas ainda não tenham sido atendidas. Vejo que a situação da cultura ainda se encontra caótica. É um imenso desperdício que o Palácio da Cultura ainda esteja parado! Entendo que seria utópico querer que todas as ‘casas culturais’ fossem reabertas de uma só vez. Porém já passou da hora de arrumar algumas coisas por aqui”.

Lua Monteiro, atriz, fotógrafa e ocupante do TB

 

 

Johnatan França de Assis

 

“Já se passou um ano desde o dia que nos reunimos debaixo da ponte Leonel Brizola e partimos pra ocupação do Teatro de Bolso Procópio Ferreira, o nosso querido TB.

Ocupação essa que duraria três semanas, mas sem que de lá saíssemos os mesmos. Abrimos a porta por baixo, não precisamos de pé-de-cabra, entramos confusos, mas entrar seria o mais fácil.

Penso que estar do palco muda muita coisa, tanto de perspectiva, quanto de empatia. Opinião e sentimento, tudo aflora e vem a aflorar desse lugar de sujeito que é o palco.

E eis aí a arte, produto pouco consumido por esses tempos na planície goytacá. E um representante desse deplorável cenário era o TB, (então) fechado há mais dois anos, com obras paralisadas e nenhuma perspectiva de nada. Motivos pr’uma ocupação mais do que sobravam. Mas mesmo assim ouvimos um tanto de críticas, desde ‘invadiram o espaço e não têm esse direito’, até de que ‘isso tudo não dará em nada’. E, sim, desmerecer nossa luta e chamá-la de vã era o que mais doía, ou pretendiam que doesse. Mas a resposta está dada.

Na verdade, penso que a resposta já fora dada desde aquela época. Respondemos quando enfrentamos um cerco romano promovido pela Guarda Municipal. Enquanto impedia a entrada de água e comida ao TB, esquecia que o teatro já quebrou a quarta parede. Respondemos quando limpamos e reorganizamos em mutirões todo o teatro. Respondemos quando reabrimos o TB para todos e demos oficinas, cursos, exibimos peças, apresentações musicais, circenses, sarais, yoga e o que mais se quisesse fazer. Respondemos quando resistimos! Respondemos quando o TB (re)existiu!

Fomos ponta de lança de um movimento que não era anti-garotinho nem anti-nada — ou não só isso. Éramos, e somos, um movimento pela arte; pela arte como direito!

E só a arte se permite a antropofagia, e o teatro talvez seja o que melhor encarna esse ideário. E na planície só uma arte crítica e antropofágica pode honrar os goytacá!

Ocupa tudo! Viva a arte!”

Johnatan França de Assis, poeta, estudante de psicologia e ocupante do TB

 

 

Saullo Oliveira

 

“Estávamos em um intervalo entre aulas no IFF Campus Centro, primeira turma do curso de Licenciatura em Teatro, quando sentamos para ouvir uma amiga de turma e militância que pareceu dar a luz a uma ideia que vinha sendo gerada no nosso inconsciente coletivo. Nascia assim o movimento #Ocupa Teatro de Bolso. Fizemos posteriormente algumas reuniões com um número ainda restrito de artistas, para que pensássemos estratégias de mobilização da classe. O que aconteceu naturalmente, pois esta classe, assim como toda a comunidade, comungavam do mesmo sentimento de indignação para com a antiga gestão do Teatro de Bolso, que estava visivelmente sucateado. Tendo em vista esta conjuntura, com a adesão popular ao movimento, ele foi crescendo vertiginosamente. Marcamos em seguida uma manifestação pacífica que ironicamente sairia em caminhada da vulga Ponte da Rosinha até o Teatro de Bolso Procópio Ferreira, que no passado havia sido ocupado por aquela que dá nome a ponte. Esse encontro tinha algo de mágico, que é bem peculiar da atmosfera teatral. Foi assim que marchamos para consumar aquela ocupação, que se deu de forma pacífica, mas não menos tensa por isso. Enfrentamos face à face a pressão do antigo governo.

A ocupação do Teatro de Bolso foi legítima e deu visibilidade nacional àquela causa. Dentre outras coisas, ela exigia a necessária reforma do teatro, o compartilhamento de sua gestão com a classe artística e maior participação da comunidade na construção das políticas culturais da cidade. No curto prazo foi importante, pois a comunidade enfim teve acessibilidade àquela casa que, por anos, se encontrava de portas fechadas. Durante a ocupação foram realizadas oficinas, apresentações, festivais, recitais e cultos. Os passarinhos estavam soltos, mas sabiam onde era seu ninho!  Tinha sempre o suficiente para comer e dormíamos em um templo da arte”.

Saullo Oliveira, ator, estudante de Teatro, músico e ocupante do TB

 

 

Átalo Willan Sirius

 

“Começo salientando que não fiz parte do planejamento da Ocupação, porém a abracei e convivi no Teatro de Bolso quase todos os dias em que este esteve ocupado. O Ocupa Teatro de Bolso foi um movimento que teve como característica mais importante demonstrar na prática a vontade dos artistas de moverem a cultura municipal. Enquanto estávamos ocupados, organizamos e participamos de oficinas, shows, aulas, inclusive organizamos o espaço para uma peça,‘Pontal’, reabrindo o palco do Teatro de Bolso, que de conhecimento público, estava fechado há mais de dois anos. O local estava em situação de descaso, com paredes sujas, mofo, materiais de infra-estrutura caros se desgastando com o tempo e com a falta de manutenção. Dentre suas consequências, destaco a característica principal da ocupação, em minha opinião particular: demonstrar a seriedade que os artistas campistas têm com seus trabalhos, abrir discussões sobre a importância do teatro e da cultura na cidade, onde somos invisíveis e equivocadamente vistos como “vagabundos” e “desnecessários” para grande parte da população, fato demonstrado em muitos comentários sobre o Ocupa TB nas redes sociais, onde fomos julgados de forma agressiva e preconceituosa. Provamos que os artistas campistas existem, são trabalhadores sérios, dignos , dedicados e seus projetos são essenciais para a sociedade, em um espaço físico bem estruturado. Para nós o acesso da população à arte e à cultura é um direito completamente necessário, que não deve ser gravemente agredido, como estava sendo com o Teatro de Bolso desrespeitado e sofrendo sérios descasos do poder público, que praticamente o deixou em situação de abandono”.

Átalo Willian Sirius, ator, estudante de Teatro, carnavalesco e ocupante do TB

 

 

Lívia Amorim

 

“Acho que o movimento é vitorioso, o teatro está aberto e acessível aos grupos e produtores. E acho que a ocupação do teatro foi um ato civil que estimulou a virada do pleito político na cidade. Provou que era possível mudar. Mas, política cultural não é apenas um equipamento cultural aberto e funcionando. Tem todo um somatório de fatores que fazem essa coisa toda funcionar. Reparar os demais espaços, criar novos, deixar que os agentes culturais atuem em parceria com os gestores de forma harmônica e construtiva e renovar as mentalidades. Acho que é um processo que não deve ter amarras, deve ser libertário e permanente. Devemos nos manter em constate estado de ocupação”.

Lívia Amorim, estilista, produtora do coletivo cultural Casinha e ocupante do TB

 

 

Glauber Matias

 

“Quando Fernando Rossi, em entrevista concedida à minha pesquisa de tese em Sociologia Política pela UENF, caracterizou a sua produção teatral e de sua “geração” dos anos de 1980 como aquela que atuou na “trincheira da resistência”, o jovem ator e diretor campista, naqueles idos, aludia a sua experiência artística e de seus colegas de teatro amador como uma tarefa mobilizada pelo sentimento e prática de “luta” em favor da causa do Teatro de Bolso, inaugurado por meio do engajamento dos artistas campistas ainda na década de 1960.

Este histórico espaço teatral campista, que esteve recorrentemente fechado pelo Poder Público Municipal durante os anos de 1980 sob a justificativa de realização de reformas em seu prédio, simbolizava já a partir daquele tempo, para os grupos campistas de teatro amador, a materialização de uma “estrutura de sentimentos”, categoria cara ao crítico galês Raymond Williams. Isto significa dizer que a luta pela reabertura do Teatro de Bolso, expressa no ato de ocupação deste espaço realizada pelos jovens artistas em meados de 1983, para além da busca por garantia das condições materiais de suas produções teatrais também simbolizou um processo de afirmação de suas identidades artísticas e de seus engajamentos políticos a partir de uma experiência afetiva de luta em nome do teatro.

Depois de mais de três décadas após a histórica ocupação de 1983, jovens artistas de teatro, estudantes secundaristas e ativistas da cultura iniciaram um novo processo de ocupação do Teatro de Bolso em maio de 2016. Em suas pautas, a luta pela reabertura daquele espaço teatral significou também o anseio pela construção, democrática e coletiva, de uma política pública de cultura para a cidade de Campos. A contribuição política verificada com o processo de ocupação do teatro pelos artistas no ano passado, dialogou, de modo fundamental, com o histórico de luta em favor do Teatro de Bolso: o sentimento de luta em nome da questão cultural pelos artistas identificou o Teatro de Bolso como lócus privilegiado para a ativação de um cenário de reconstrução da esfera artístico-cultural local.

Reaberto pela Prefeitura Municipal oficialmente em março deste ano, o Teatro de Bolso, sob a gestão de Fernando Rossi, personagem oriundo das fileiras da geração dos artistas dos anos de 1980 (a qual, não por acaso, caracterizo como “Geração do Teatro de Bolso”) experimenta a reconstrução gradual de sua rotina de produções artísticas como parte do horizonte de formulação de uma política, efetivamente pública e democrática, para a cultura de Campos. O desafio posto para o Teatro de Bolso, neste sentido, é o de ser cotidiamente construído e reconstruído pelos artistas que o reconhecem enquanto uma casa histórica para a vida artística campista, tendo sido criada e recriada por meio das lutas político-culturais que forneceram sentido à sua história”.

Glauber Matias, professor e doutor em sociologia política na Uenf com a tese “Palco e resistência: a geração do Teatro de Bolso”

 

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Compromisso com a Uenf, deserções garotistas e um ano do Ocupa TB

 

Na primeira noite de ocupação do TB, há um ano, os artistas de Campos não se intimidaram com a pressão da Guarda Civil, que impediu a entrada de água e alimentos para quem estava dentro do teatro (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

 

 

Uenf: do discurso à ação

Depois das duas últimas edições dominicais da Folha dedicadas à crise na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Darcy Ribeiro, o prefeito Rafael Diniz (PPS) ontem mostrou que discurso tem que ser confirmado por ação. Ao assinar (aqui) um convênio entre Prefeitura e a mais importante instituição de ensino superior da região, o jovem governante marcou pontos não só com a comunidade acadêmica, mas com toda a população de Campos, sensibilizada em apoio à Uenf, desde que seu reitor Luis Passoni admitiu (aqui) à Folha: “É difícil saber até quando manteremos a universidade funcionando nestas condições”.

 

Responsabilidade assumida

Na mesma edição do jornal de 30 de abril, que trouxe o alerta do reitor pelos efeitos da crise financeira sem precedentes do Estado do Rio, Rafael havia afirmado (aqui): “Abraçar a Uenf neste momento é um dever de toda a sociedade”. E ontem, nove dias depois, ao assinar “o primeiro convênio, de tantos outros que virão”, o prefeito assumiu a luta pela universidade como sua: “A Uenf é sim uma responsabilidade da Prefeitura de Campos”. Emblematicamente, disse isso na frente do seu secretário de Educação, o sociólogo Brand Arenari, “cria” da universidade, como tantos outros quadros da cidade e região.

 

Contabilidades

Enquanto há quem registre pontos a favor, há aqueles que os contabilizem negativos antes mesmo do resultado. Ontem, num site de apoio ao ex-governador Anthony Garotinho (PR), assim como ao ex-candidato a prefeito Caio Vianna (PDT), foi anunciado que dos seis vereadores garotistas não diplomados e eleitos no “escandaloso esquema” da troca de Cheque Cidadão por voto, quatro já estariam de malas prontas para a bancada governista. Isso, lógico, caso o plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) venha a seguir o voto da relatora Luciana Lóssio, no último ato desta na instância máxima da Justiça Eleitoral.

 

Façam suas apostas!

Bem conhecida dos campistas pelas decisões contrárias à Justiça Eleitoral de Campos e ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE), mas favoráveis aos condenados nas duas instâncias pela operação Chequinho, Lóssio votou pela diplomação de Linda Mara (PTC), Kellinho (PR), Miguelito (PSL), Ozéias (PSDB), Thiago Virgílio (PTC) e Jorge Rangel (PTB). A dar valor ao anúncio da deserção prévia de quatro destes, antes mesmo de qualquer um conseguir assento na Câmara de Campos, quem seriam? Há alguém capaz de imaginar, por exemplo, Linda Mara saindo da prisão domiciliar para integrar a bancada de Rafael? Façam suas apostas!

 

Um ano do Ocupa TB

Ontem se completou um ano da ocupação do Teatro de Bolso (TB) Procópio Ferreira. Foi em 9 de maio de 2016 que os artistas de Campos resolveram ocupar (aqui) seu espaço mais tradicional na cidade. Ele estava fechado desde 2014, a título de uma reforma inexistente, enquanto tinha suas dependências ocupadas eventualmente para uso de alguns poucos “amigos do rei”. Ou da rainha, afinal era o governo de Rosinha Garotinho (PR), que tinha sua amiga Patrícia Cordeiro como presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL). Ex-dançarina de axé, ela também era conhecida no governo por ser, como a prefeita, muito ligada a Linda Mara.

 

Ironias

Então secretário de Governo — muito embora, na sua posterior prisão, tenha sido acusado pela Justiça de Campos de ser “o prefeito de fato” —, Garotinho chegou a visitar a ocupação, na noite de 12 de maio, para prometer aos artistas (aqui) a reabertura do teatro em 45 dias. Ex-ator daquele mesmo palco, ironicamente ele havia liderado uma outra ocupação do TB pelos artistas, em 1982, para dali se lançar à política. Mais de três décadas depois, a promessa de reabrir o espaço só seria cumprida (aqui) pelo governo Rafael, no último dia 28 de março, aniversário de Campos e dia mundial do Teatro, pelas mãos de alguém da classe: o diretor Fernando Rossi.

 

Saldo e fatura aberta

Foi Rossi quem abriu (aqui) em 11 de maio o Teatro de Bolso ao recebimento das pautas dos grupos locais que quiserem apresentar projetos para compor a programação de 2017. Ontem, ele celebrou (aqui) a ocupação do teatro pelos artistas, que se encerrou em 6 de junho do ano passado, e comemorou os 120 alunos hoje abrigados no curso livre de teatro. Inegáveis os avanços, mesmo com o pouco tempo e todos os problemas e dívidas herdados pela nova administração. Mas enquanto permanecerem fechados outros espaços vitais ao setor, como o Palácio da Cultura, mais uma vítima do desastroso segundo governo Rosinha, haverá inquietação na classe.

 

Publicado hoje (10) na Folha da Manhã

 

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Ricardo André Vasconcelos — Rio: um Estado à beira do caos

 

Ônibus queimados no Rio. Insegurança e descontrole do Estado deixam 1 milhão de fluminenses sob as leis do tráfico e das milícias (Foto: Márcio Alves – Agência O Globo)

 

 

Dias atrás me perguntaram em quem votaria para governador do Estado do Rio de Janeiro em 2018. De pronto devolvi a indagação: E ainda haverá Estado do Rio até lá? Pode parecer exagero mas pelo chacoalhar da carroça não está de todo desprovido de razão quem vê o abismo se aproximar à medida em que o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) perde o pouco que lhe resta de condição política para permanecer no comando do Estado. Cofres vazios, dívidas acumulando, sem recursos para pagar sequer os vencimentos dos servidores e proventos dos inativos. Instituições como o Tribunal de Contas em completo descrédito, assim como os poderes Legislativo e Judiciário. O Estado do Rio vê ruir, também, o seu frágil sistema de Segurança Pública sem condições de fazer frente ao poder do tráfico e da milícia.

Causa calafrios pensar na possibilidade — cada dia mais iminente — de repetir-se aqui o que ocorreu no início deste ano no Espírito Santo. A linha que separa a segurança do caos é tão tênue, que basta muitas vezes um boato, uma palavra mal colocada num contexto dúbio para deflagrar um estado de beligerância latente. Não dá para mais para fingir que Rio de Janeiro não é um nervo exposto, uma bomba-relógio com cronômetro enguiçado, um rastilho de pólvora à espera de uma mísera faísca.

Na semana passada, ninguém menos que o ministro da Defesa, Raul Jungmann, disse em entrevista à Rádio Bandeirantes de SP, que cerca de 800 comunidades, onde residem um milhão de pessoas no Grande Rio, são controladas pelo tráfico ou milícias. Desceu a detalhes e deu os nomes das facções que estão em guerra para defender os seus ou invadir territórios de grupos rivais. Todo mundo sabia disso, mas ouvir o relato do ministro da Defesa, tecnicamente o comandante das Forças Armadas e responsável pela segurança interna e externa do país é a constatação de que estamos no meio de uma guerra. O projeto de pacificação, as UPPs, se estilhaçou como uma vitrine atingida por uma pedra e justamente porque não passava de uma vitrine para entreter a plateia enquanto Sérgio Cabral assaltava o Estado com sua quadrilha de amigos e empresários.

Além do rombo deixado por Cabral, o Rio é vítima ainda da crise econômica genérica que atinge o país e, em particular a indústria do petróleo, base da economia estadual. A soma desses fatores já era concretizada na falência de serviços públicos nas áreas de Saúde e Educação e na dificuldade de pagar servidores, aposentados e pensionistas. Já ameaça fechar universidades como a Uerj e a nossa Uenf. Perder o pouco controle que ainda resta sobre a Segurança Pública, pode ser próximo passo de um caminho sem volta para uma saída política drástica como a substituição do governador Pezão, seja via impeachment seguida de nova eleição, ou intervenção federal.

A sensação é de que não há mais governo no Palácio Guanabara. Para remendar os cofres arrombados, o governador se rende à sanha privatista do trio Temer-Moreira-Padilha e se compromete a entregar a última das empresas estaduais, a Cedae. A Cerj, a Companhia de Transportes Coletivos (CTC), o Banerj, as Barcas, o BD-Rio, o Metrô e a Companhia de Trens Urbanos já foram vendidas pelos antecessores. Antes que só restem o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor, o Rio precisa reagir, mas a tragédia é tão grande não tem nem lideranças políticas para uma reação à altura dos gigantescos desafios que precisa enfrentar.

 

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Um ano da ocupação do Teatro de Bolso pelos artistas de Campos

 

Momento em que os artistas entraram no Teatro de Bolso, em 09/05/16, para ocupá-lo (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Na primeira noite de ocupação, os artistas não se intimidaram com a pressão da Guarda Civil, que impediu a entrada de água e alimentos para quem estava dentro do TB (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Artistas de revezaram dormindo dentro do TB, para manter a ocupação (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Logo no dia seguinte à ocupação, os artistas tiveram que limpar o teatro, que estava fechado desde 2014 (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Na manhã seguinte à ocupação, em 10/05/16, os vereadores Dayvison Miranda, Marcão Gomes e Rafael Diniz, além do presidente da OAB-Campos, Humberto Nobre, foram ao TB em apoio aos artistas (Foto: Tércio Teixeira – Folha da Manhã)

 

Entre a noite do dia 12 à madrugada do dia 13/05/16, Garotinho ocupou o palco central do TB e fez a promessa de reabertra do espaço em 45 dias, descumprida até o finl do governo Rosinha (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

Carro chefe da democracia irrefreável das redes socias, uma das melhores coisas do Facebook são as lembranças de postagens que fizemos naquela mesma data, em anos passados. Daí veio a lembrança de que há exatamente um ano o Teatro de Bolso (TB) Procópio Ferreira foi ocupado (aqui) pelos artistas de Campos, nos extertores do governo Rosinha Garotinho (PR), depois de estar fechado desde 2014.

Então secretário municipal de governo, Anthony Garotinho (PR) visitou a ocupação na noite de 12 de maio de 2016 e tentou negociar com os artistas. Numa reunião que es estendeu pela madrugada do dia 13, ele fez (aqui) a promessa de reabrir o TB em 45 dias. A ocupação se encerrou em 6 de junho, mas o TB só seria reaberto (aqui) pelo governo Rafael Diniz (PPS) em 27 de março deste ano, dia mundial do Teatro.

Na ocasião, o atual prefeito disse estar cumprindo uma promessa pessoal que fizera ao teatrólogo e poeta Anthonio Roberto de Góes Cavalcanti, o Kapi, falecido em abril de 2015: “Devolver o Teatro de Bolso aos seus verdadeiros donos: os artistas de Campos”. Ainda como vereador de oposição, Rafael visitou a ocupação (aqui) no dia seguinte, em 10 de maio de 2016, para levar seu apoio aos artistas.

Em 11 de abril deste ano, o TB finalmente abriu (aqui) o recebimento das pautas dos grupos locais que quiserem apresentar projetos para compor a programação de 2017. No que mudou no mais tradicional espaço dos artistas de Campos desde sua corajosa ocupação há um ano, o blog ouviu seu diretor Fernando Rossi:

 

— Hoje completa um ano da ocupação dos artistas campistas no Teatro de Bolso, uma data emblemática, considerando que hoje o teatro encontra-se com suas portas abertas acolhendo 120 pessoas no curso livre de teatro com duas turmas de 60 alunos de diferentes faixas etárias. Turmas com iniciantes e iniciados. Emocionante ver todo aquele movimento com aulas de corpo e voz. O Teatro sendo um espaço para que todas aquelas possam buscar sua melhor expressão através da arte. Fez lembrar o poeta Ferreira Gullar: “A arte existe porque a vida não basta”. Vale destacar que quase toda pauta do Teatro está completa até final de 2017 com uma programação toda com artistas locaisAo ver esse numero expressivo de pessoas. Eu me pergunto. Porque não fizeram isso antes? A ocupação foi um movimento legítimo, onde unidos hoje os artistas podem colher o fruto de sua luta. A resposta está aí!

 

 

Vídeo da ocupação do Ocupa TB em 09/05/16:

 

 

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Ocinei Trindade — O homicídio e o suicídio esfregados na nossa cara

 

 

 

Você conheceu alguém próximo, um parente ou amigo, que morreu assassinado no Brasil nos últimos anos? Cinquenta milhões de brasileiros disseram sim, segundo o Instituto Datafolha, em pesquisa encomendada para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Dados dessa pesquisa foram revelados no último dia 5 de maio, mas até agora não repercutiu na grande mídia. A impressão que me dá é a seguinte: para muita gente, a morte banalizou e nos habituamos à violência, apesar das queixas.

Nenhum instituto de pesquisa me perguntou sobre relatos pessoais acerca de mortes violentas, mas puxando pela memória, em alguns segundos, fiz uma lista considerável de gente que conheci e que morreu assassinada. Em 1985, meu pai morreu baleado. Suspeita: assalto (caso nunca esclarecido pela polícia que sequer investigou). Em 1990, um amigo taxista morreu torturado e baleado. Suspeita: assalto ou vingança. Em 1997, um outro amigo vereador morreu golpeado na cabeça e depois teve o corpo carbonizado dentro do carro. Motivo: crime político cometido pelo suplente. O assassino foi julgado, condenado, cumpriu pena e está solto.

Já em 1998, um primo caminhoneiro foi assassinado na região metropolitana do Rio durante assalto. No início dos anos 2000, um policial militar e vizinho morreu numa troca de tiros com traficantes em uma favela carioca próximo à Avenida Brasil. Em 2016, um adolescente filho de uma amiga morreu com vários tiros por conta de tráfico de drogas. Em 2017, um amigo de infância foi brutalmente assassinado. Suspeitas: latrocínio e homofobia.

Perdi a conta de quantas reportagens fiz desde que comecei a trabalhar como jornalista em 1990. Em um dos últimos cálculos, eram quase doze mil textos com outras milhares de entrevistas. Destas atividades, também não consigo precisar quantos crimes de homicídios reportei para os noticiários de televisão. Não foram poucos. Um dos mais violentos que verifiquei foi em um canavial na região de Tocos, Baixada Campista, em 2009. A polícia encontrou dois corpos de homens decapitados. As cabeças nunca foram encontradas. E eu ali olhando aqueles buracos imensos entre os ombros das vítimas, anotando tudo rapidamente para correr para a emissora, dar a notícia, bater o cartão de ponto, encerrar expediente, para finalmente almoçar e descansar de um dia árduo de trabalho. Fiquei frio e indiferente por pura sobrevivência?

Esta suposta indiferença pode ser um mecanismo de defesa meu e de muitos brasileiros.  Em 1988, se não me engano, eu e um grupo de amigos participávamos de uma vigília de oração pela madrugada em uma igreja batista de Guarus. Percebemos um carro suspeito rondando o templo e nos fechamos no prédio. O veículo estacionou na esquina. Eu e um amigo nos posicionamos em uma janela do terceiro andar do edifício, e nos pusemos, escondidos, a olhar pelas frestas o que acontecia do lado de fora. Um homem morreria vítima de um brutal assassinato logo depois.

No carro havia dois homens. Um deles desceu e se encontrou com um outro homem cabisbaixo  (a vítima) que parecia dar explicações não convincentes. Era cobrança de alguma dívida, provavelmente. Depois de uma certa insistência, não havia mais nada a ser dito. O algoz saca da cintura um revólver e atira várias vezes contra o peito, a barriga, as pernas, os braços e a cabeça da vítima. O homem já caído e vencido, sangra e agoniza. O assassino não se contenta, tira o cinto da calça que vestia e surra com violentos golpes de couro e fivela o corpo do pobre diabo que não reage mais. O bandido entra no carro com o comparsa e desaparecem para nunca mais. No dia seguinte, a imprensa deu a notícia do crime Supostamente um envolvimento com traficantes de drogas. Caso arquivado e sem testemunhas. Eu já havia aprendido como funcionava a lei do silêncio ainda adolescente. Aliás, eu nem sei se era realmente eu que viu tudo aquilo. Parecia um delírio…

No último fim de semana, um site de notícias de Campos divulgou o suposto suicídio de uma professora da cidade. O fato repercutiu em redes sociais. Fiquei incomodado com a falta de sensibilidade dos divulgadores e do veículo irresponsável. Sou de um tempo em que falar de suicídio na imprensa era a última coisa a ser feita. A não ser quando se tratasse de uma autoridade ou pessoa pública, e mesmo assim, de um modo discreto, sem sensacionalismo. A quem, de fato, pode interessar a informação de que alguém se matou? No entanto, a quem interessa saber se alguém matou outro alguém?  O que aprendemos com a morte de uma pessoa? Valorizamos mais a vida?

Há décadas, os filmes de ação e de western abordam mortes como algo divertido, bem antes dos videogames de guerras e matanças generalizadas chegarem às salas de nossas casas, aos computadores e telefones celulares pessoais. Muitos telejornais incorporaram parte dessas linguagens e noticiam crimes e assassinatos com narrações e trilhas sonoras dramáticas, antes ou depois das novelas, antes ou depois de um anúncio de margarinas, perfumes, alimentos, cervejas e presentes para o dia das mães. É a espetacularização da barbárie e da desumanidade.

Se um quarto da população brasileira ao longo de sua existência conheceu alguém que morreu violentamente, a grosso modo, isso equivaleria a 50 milhões de pessoas mortas nas últimas décadas? Não sei responder com exatidão. Porém, uma coisa é fato: sobrevivemos por sorte em um país que é violento não só por conta de homicídios, tráfico de drogas ou acidentes de trânsito. A violência faz parte de uma cultura generalizada que passa também pelos governos e parlamentos, além de diversas instituições como família, escola, universidade e igreja que não conseguem inibir a sanha de matar ou de eliminar pessoas que nos incomodam e que não se ajustariam ao convívio social, político ou religioso. Se você chegou vivo ao final da leitura deste texto, parabéns, saiba que é uma pessoa de sorte. Qualquer um pode ser a próxima vítima e morrer, para logo em seguida, ser esquecido.

 

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Marcelo Amoy — A União faz a Força

 

 

 

Ontem, 07 de maio, foi o dia do segundo turno das eleições presidenciais francesas. Eu já devo saber do resultado neste instante em que você me lê, ainda que não vá comentá-lo aqui como fato consumado porque estou fora do Brasil desde o final do mês passado e este texto foi deixado pronto antes de minha viagem. Embora as facilidades de comunicação via internet hoje em dia me facultassem escrevê-lo ontem mesmo, não escolhi essa alternativa até porque não é do resultado da eleição francesa que mais quero tratar, mas do que certos movimentos significam. No caso, a relação dos países (nacionalidades) com a Europa unificada e o projeto de união que ela representa.

Em sua monumental obra, Hobsbawn atribui a origem das grandes guerras mundiais do século XX a dois fatores principais: o capitalismo e o nacionalismo. Atrevo-me a discordar (em boa parte) – até porque, mesmo não tendo as décadas de estudo e leitura que ele tinha, não sou marxista e posso imaginar que exista bem mais no mundo do que essa “lente” consiga enxergar. No entanto, um certo grau de reconhecimento de que o nacionalismo foi um dos fatores geradores das tensões que levaram aos conflitos que marcaram o século XX com suas duas terríveis guerras está na gênese do projeto de uma Europa unificada – unida por sua cultura cristã, pela escolha por democracia, pelo livre mercado e por suas tradições humanitárias (apesar dos arranhões). Acho que esse é um projeto que vale a pena ser preservado.

Os britânicos, por pequena maioria, acharam que não e deram início ao Brexit. Isso me lembra aquela piada em que, durante uma terrível tempestade, toda a comunicação entre a Grã-Bretanha e o restante da Europa foi cortada. Ao saber disso, um inglês teria dito: “Pobre Europa, está isolada.” O futuro dirá se o Reino Unido terá feito uma boa coisa. O argumento a favor da saída foi o nacionalismo, resumido na frase: “Não queremos que Bruxelas nos diga o que fazer”. A eleição de Trump nos EUA foi um pouco do mesmo em essência: querer seu país grande de novo não quer dizer, apenas, um desejo de recuperar uma grandeza (real e/ou imaginária) passada, mas o de separar “isto daquilo”. Eu não sou contra que se tenha claro onde um país começa e outro termina, mas sou de centro o suficiente politicamente para desconfiar sempre de posicionamentos que reputo radicais.

A Europa passa por um dilema crucial em relação à imigração. Mesmo sem ser europeu, é algo que me preocupa especialmente agora que o Brasil está por sancionar uma lei de imigração que eu considero absurdamente frouxa. Na Europa, o “Espaço Schengen” trouxe uma mobilidade inédita de pessoas que levam suas mentes com suas forças de trabalho, formações acadêmicas e potencial para inovações livremente para todos os lugares, gerando mais desenvolvimento, realização individual e benefício social. Sim, bandidos também podem circular livremente – terroristas idem. Então, para evitar que os  terroristas venham, vamos fechar as fronteiras correndo e cercear a liberdade das pessoas e o progresso da sociedade? É esse o projeto político que andam defendendo por aí? É isso que os terroristas querem; devemos ajudá-los a conseguir? Imaginem, grosseiramente, que alguém machuque a mão e, para evitar que o corpo sofra com uma infecção, corra a decepá-la. Esqueceu que há antibióticos… cortou a mão fora e nunca mais vai viver como antes – ainda que sem (aquela) infecção. Haverá de seguir cortando partes nas próximas ameaças?

Pra mim, os discursos isolacionistas têm todos cheiro de populismo (quando não de algo mais podre). Falam direto às camadas “mais pobres” (“menos antenadas”) do mundo rico: aquelas que se acham as vítimas do enriquecimento dos países periféricos graças à globalização como se o capitalismo não gerasse riqueza e fosse tudo um jogo de soma zero, em que é preciso tirar daqui pra colocar ali. Não é! É possível e desejável que cresçamos juntos. Se a fábrica fechou em Detroit, lamento… bora buscar um curso de atualização e um novo emprego no setor de serviços, por exemplo, ou num outro ramo vocacionalmente mais afim? Bruxelas regulamentou o tamanho das cenouras e as suas aí de Essex não se adaptam? Plante tomates ou repolhos! Xi… olha a guilhotina se aproximando do meu pescoço por eu dizer a grande novidade de que as coisas não ficarão para sempre como eram e que só não muda o que já morreu… [É comum chamarem de insensibilidade o que não passa de realismo.]

O mercado de capitais europeu ficou eufórico com a vitória de Macron no primeiro turno francês porque ele é pró-Europa (portanto, menos isolacionista). Pessoalmente, mesmo que muitas críticas tenham fundamento, eu também apoio a União Europeia. Porque não aprimorá-la, resolvendo os atritos, ao invés de simplesmente cortar a mão fora? A grandeza de certas construções institucionais humanas está exatamente no fato de que elas podem mudar dentro de si mesmas, sem precisarem ser destruídas e substituídas por outra ordem. Assim são a democracia, o capitalismo e tantos organismos multilaterais como a UE: eles estão sempre se recriando e evoluindo junto com a sociedade; poder reformar-se sem se destruir é parte de sua dinâmica. O problema humanitário da imigração é sério e sensível. Eu não acho que esteja certo simplesmente abrir as fronteiras e encher a Europa de gente que pode estar disposta a detonar exatamente o que a UE mais quer preservar: seus valores culturais. Tem que haver algum tipo de triagem eficiente – eu não sei como fazer. Mas simplesmente fechar os olhos para o desespero de milhões de pessoas seria negar os valores humanitários europeus – cristãos, em primeiro lugar. Querem deixar clara a “inferioridade humanística” da cultura muçulmana? Então não se igualem.

Fora isso, vamos a um exercício mental? O Reino Unido já saiu da UE. Se a França sair… o pilar restante será a Alemanha. Quanto tempo vai levar pra que alguém comece a gritar que o que o Kaiser Wilhelm não conseguiu na I Guerra nem Hitler na II será obtido por Merkel no século seguinte: a dominação da Europa por uma Alemanha forte e hegemônica? Loucura, loucura – mas de médico e louco cada um tem um pouco, não é? Melhor é não rasgar dinheiro nem decepar a mão! Recomendo poupar em euros e tomar antibióticos – tem uns de última geração que são excelentes! E se for preciso, manda um rivotril também. 😉

Interessante notar, contudo – e esse tem sido um desejo meu faz tempo! – que a visão democrática e liberal de mundo parece estar virando a mesa da esquerda. Mesmo que um tanto exagerada aqui e ali (nada que não possa ser redimensionado, espero), a tendência tem sido a aposentadoria de ideias que adoram se chamar de progressistas, mas que deixaram a desejar no quesito… progresso (mormente o econômico). Isso não significa que eu ache tudo o que a esquerda apresentou como dispensável. Muito pelo contrário: acho que estão abertas as portas para aproveitarmos o que presta do que já foi proposto de todo os lados e construirmos uma síntese aproveitável. Pra mim, o ideal seria o cenário em que as liberdades individuais fossem as mais abrangentes possível, numa economia de práticas conservadoras. Como disse antes, ainda não sei se o Macron ganhou na França, mas se ganhar resumirá bem essa minha percepção: a de que a maioria das pessoas ainda acredita que se pode garantir progresso econômico e liberdade individual num mundo cooperativo, sem isolacionismo e/ou nacionalismo obtusos, sem belicismo desnecessário (mas também sem ingenuidades) e sem perder as características culturais de cada rincão mesmo com a abolição de fronteiras geográficas, políticas, econômicas, laborais, etc. O argumento de que o “globalismo” acabará por destruir a essência do que prezamos não me parece acertado; melhor dizendo: não vejo o futuro acontecendo assim, porque não vejo incompatibilidade entre a cooperação internacional, mesmo com o ônus da perda de parte da soberania regulatória, e a manutenção da cultura local/nacional. Há coisas que acrescentam; não apenas substituem.

Pra mim, chega de assassinatos em Sarajevo a honras a serem vingadas pela força (ou pelo nojo). A superioridade do Ocidente reside exatamente na combinação de progresso material com valores humanitários. A expansão muçulmana para o Ocidente se deteve nas muralhas de Viena em 1529 e se hoje parece (querer) ir além… cabe a Europa, UNIDA, estabelecer os limites e dizer: “Alto lá, Allah!”. Contraditoriamente, quase 400 anos depois, foi uma ordem de Viena que desencadeou a I Guerra: sinal de que um mesmo lugar pode ser eficiente para se defender do que vem de fora enquanto cria o germe de sua destruição por dentro – espero que a Europa tenha aprendido a lição e não a desperdice recriando nacionalismos (que podem até se manifestar de forma diferente do passado, sem expansionismos desta vez, mas que me cheiram igualmente ultrapassados). Nesse meio tempo, Viena foi o lugar que abrigou a genialidade de Bethoven, Mozart, Haydn e Strauss e que sediou alguns dos eventos mais importantes da História, como aquele Congresso, em 1814/1815, em que, unidas, as potências de então determinaram a reorganização da Europa pós-Napoleão – com reflexos aqui no Brasil nas ordens das Cortes Portuguesas determinando o retorno da família real para Portugal. Vejam só: uma decisão europeia afetando o futuro de nossa vida, aqui, em nosso país… Terá esta lição sido esquecida?

Obviamente, outras pessoas podem achar diferente, mas pra mim, mesmo dois séculos depois, já de longe terminada a era do colonialismo europeu, a influência deste continente ainda é real e grande porque a Europa ainda é um farol para todo o mundo – que dirá pra mim… Quero vê-la unida e forte. É pra Europa que sempre olho, pra onde prefiro ir e onde me encanto a cada esquina ou paisagem – como nesses últimos dias, em que caminho às margens do Danúbio na outrora capital imperial dos Habsburgo.

Vive l’union européenne!

Lebendig die Europäische Union!

 

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Poema do domingo — Pardais a rodar o mais que jazia

 

(Foto: divulgação)

 

 

pardais

(p/ rafaela)

 

o batismo do pardal nos vitrais em pia

por santos na chuva pálida dos mortos

tingia luto em vida negra, marrom e cinza

 

ao topo da escada, só e diante à capela

no contra-plongée velado por bergman

tremia com penas molhadas uma menina

 

tratei sua dor do mundo como se minha

transfusão por entre a casca da cicatriz

pardais de cima a rodar o mais que jazia

 

campos, 05/05/17

 

 

 

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Artigo do domingo — Uenf de Pessoa a Whitman

 

 

Fernando Pessoa e Walt Whitman (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Em um dos seus poemas mais angustiantes, aos seus leitores mundo afora, como deve ter sido para quem o escreveu, o português Fernando Pessoa (1888/1935) sentenciou a espécie pela pena do seu heterônimo Álvaro de Campos:

 

“És tudo para ti, porque para ti és o universo”

 

E depois reforçou três versos abaixo, na mesma estrofe:

 

“És importante para ti porque só tu és importante para ti”

 

À parte o estímulo debochado ao suicídio, do mais debochado e metafísico dos heterônimos de Pessoa, os versos pinçados do poema “Se te queres matar” são um retrato talvez cruel, mas nítido, da nossa real importância para fora de nós mesmos: pouca ou nenhuma. Por mais que, “sombra fútil chamada gente”, estejamos quase sempre a pensar o contrário.

Afinal, não somos todos os “gênios-para-si-mesmos sonhando” que Pessoa/Campos versejaria em outro poema, “Tabacaria”, seu mais famoso?

O fato é que a dose de humildade que o poeta nos impõe, seria de muito bom proveito num Brasil tão fragmentado por opiniões tão distintas sobre tudo, que não raro conduzem a nada.

Neste contexto de polarização nacional, muitas vezes à beira da esquizofrenia, encontrar algo que nos una é remédio poderoso. Pode não curar as diferenças — nem deve! Mas diagnostica como, à parte elas, temos um caminho a percorrer juntos enquanto sociedade.

Nesse sentido, a população de Campos e da região, ainda que não se distinga do resto do Brasil, deu um exemplo recente e inconteste, na mobilização pela manutenção da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Darcy Ribeiro.

Desde o fechamento da Casa de Cultura Villa Maria, por falta de energia elétrica, denunciado (aqui) na coluna “Ponto Final” como vanguarda do desmonte da Uenf, a reação da população foi imediata. Fechada no último dia 18, a Villa seria reaberta (aqui) no dia 24, para receber (aqui) no evento “Choro na Villa”, no dia 29, seu maior público — como testemunhou a diretora da Casa, a diligente professora Simonne Teixeira.

E o sucesso se repetiu (aqui) ontem (05), no Dia do Rock Goitacá. Mudou o estilo da música, não a simpatia popular pela Villa. Doada em testamento por sua antiga dona, Finazinha Queiroz (1887/1970), como sede de uma futura universidade pública de Campos, o solar histórico foi a vanguarda da Uenf mais de duas décadas antes da sua criação, em 1993.

E como provam os eventos dos dois últimos sábados, tem sido também a vanguarda da resistência contra a possibilidade de fechamento da Uenf.

Bem verdade que, cobrado sobre a situação da universidade numa entrevista (aqui) de duas páginas, na edição da Folha do último domingo (30), o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) daria a melhor resposta (aqui) cinco dias depois. Em reunião na última sexta (05) com os reitores das instituições estaduais de ensino superior, subordinadas à Ciência e Tecnologia, seus servidores e alunos se uniram na mesma promessa feita à Educação: a partir de abril, salários e bolsas em dia.

Quanto aos atrasados, o governador estimou a quitação no final de junho, quando deve ser aprovada no Congresso Nacional a ajuda da União aos Estados. Nela, a expectativa fluminense é receber a injeção de R$ 3 bilhões.

Nas páginas 5, 6 e 7 (aqui e aqui) desta edição, falam sobre a crise da Uenf diversas lideranças do meio acadêmico e da sociedade civil organizada, além do reitor da universidade, professor Luis Passoni. Na entrevista feita na quinta (04), ele viu o gato da Uenf subir no telhado, mas entre a queda e sua possibilidade, depois da reunião com Pezão, na sexta, classificou o que ouviu como “boa notícia”.

Certo que, nessa luta coletiva, cada indivíduo, como nos versos de Pessoa, tenda a achar sua participação mais importante do que de fato foi. E é humano que assim seja. Na dúvida, a certeza que se não fosse o compromisso dos campistas com o que une, sobre aquilo que separa, o sonho de Darcy Ribeiro (1922/97) e de tantos outros ao longo do último quarto de século, correria o risco de se transformar em pesadelo.

Pelo sim, pelo não, até que a situação esteja de fato normalizada, aconselha-se a dormir com um olho aberto.

Grande influência de Pessoa e assumidamente a maior do seu heterônimo Álvaro de Campos, é o poeta estadunidense Walt Whitman (1819/92), pai de tudo aquilo que depois se chamaria modernismo, quem dita a senha:

 

“Você, leitor, que pulsa

de vida e orgulho e amor,

assim como eu:

para você, por isso,

os cantos que aqui seguem!”

 

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

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