Nildo: “Quem não aguenta mais os Garotinho não pode deixar de votar”

O vereador Nildo Cardoso (DEM) foi o candidato a prefeito entrevistado hoje da Folha. Antes dele, foram sabatinados Geraldo Pudim (PMDB) e Rogério Matoso (PPL), respectivamente aqui e aqui.

Com o melhor reservado para a publicação na edição de amanhã (25) da Folha da Manhã, confira alguns dos trechos principais do que disse Nildo:

 

Nildo, entrevistado hoje na Folha (Foto de Michelle Richa - Folha da Manhã)
Nildo (à dir.), entrevistado hoje na Folha (Foto de Michelle Richa – Folha da Manhã)

 

— Preocupo-me com a mãe, a avó e a mulher Rosinha (Garotinho), assinando tanta coisa. Não por vontade dela, mas do marido, a quem já entregou duas vezes seu diploma de prefeita.

— Minha denúncia contra a distribuição escancarada de Cheque Cidadão virou uma ação na Justiça Eleitoral, que já está investigando também a contratação (com fins eleitoreiros) dos RPAs.

— O eleitor, sobretudo o mais esclarecido, que não aguenta mais os Garotinho no poder,  não pode deixar de votar em 2 de outubro. Se não quiser votar em Nildo, tem outros quatro candidatos que representam a mudança. Mas quem não votar tem que saber que assim vai estar votando em quem está no poder e quer ficar.

— Arnaldo (Vianna) teve R$ 1,7 bilhão (em seis anos como prefeito, de 1998 a 2004). Rosinha teve mais de R$ 7 bilhões (em quase oito anos, de 2009 a hoje). A população, os doentes, os estudantes, os passageiros de ônibus cresceram na mesma proporção em Campos? Se não, para onde foi o dinheiro?

— O problema de Campos não e dinheiro, é gestão. Temos que acabar com essa terceirização maluca que fizeram por aí, com empresas de fora, sobretudo da Baixada Fluminense, deixando de fora a iniciativa privada local.

 

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“Houve uma vez um verão” nesta quarta no Cineclube Goitacá

Houve uma vez um verão 2

 

 

Como bem definiu o diretor de teatro e cinema Domingos Oliveira, ao completar 70 anos: “O tempo é um camundongo passando pela sala”. Já fazem cinco anos que escrevi aqui sobre “Houve uma vez um verão” (1971), de Robert Mulligan, meu filme de romance preferido. Às 19h30 desta quarta-feira, 24 de agosto, na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento das ruas Conselheiro Otaviano  e 13 de Maio, esse clássico da sétima arte será exibido e depois debatido no Cineclube Goitacá.

Redigida há cinco anos e ora subescrita, confira abaixo a sinopse desse sensibilíssimo filme, seguido do seu trailer:

 

 

Houve uma vez um verão 1

 

 

Numa ilha, três adolescentes vivem o rito de passagem à idade adulta, durante o verão de 1942, com os EUA engajados na II Guerra (1939/45). Um deles, Hermie (Gary Grimes) se apaixona platonicamente por uma mulher mais velha, Dorothy (a belíssima Jennifer O’Neill, então com 23 anos), e busca se aproximar dela, após o marido deixar a ilha para prestar serviço militar. Segue-se então um jogo de sedução entre o garoto de 15 e a “velha” de vinte e poucos, consumado numa cumplicidade sem par entre melancolia e êxtase, com uma notícia chegada do continente.

Linda como Jennifer O’Neill é a trilha sonora do craque francês Michel Legrand, vencedora do Oscar de 1972, sobretudo a música tema, com sua melodia romântica e nostálgica, conhecida de ouvido mesmo por quem não viu o filme. Destaque também à fotografia em tons pastéis de Robert Sturtees, bem como ao sensível e por vezes hilário roteiro autobiográfico de Herman Raucher, o “Hermie” retratado nessa jóia de rara beleza do cinema. É da boca dele que ouvimos, na narração em off retrospectiva, sobre quando avistou pela primeira vez o seu primeiro amor:

— Nada desde aquele dia em que a vi, e ninguém que conheci depois, foi tão amedrontador e perturbador. Porque nenhuma pessoa que conheci a vida inteira fez tanto para me fazer sentir mais seguro, mais inseguro, mais importante e menos significativo.

Nem para Hermie e, talvez, nem para nós…

 

 

 

 

Atualização às 13h25 de 24/08: Confira aqui a matéria publicada na Folha Dois de hoje, da jornalista Paula Vigneron, sobre a apresentação de “Houve uma vez um verão”, daqui a meia dúzia de horas, no Cineclube Goitacá.

 

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Carol Poesia — Sobre serpentes

 

Ilustração de Aldemir Martins para o poema “O navio negreiro”, de Castro Alves (1847/71), com sua “serpente em doudas espirais”
Ilustração de Aldemir Martins para o poema “O navio negreiro”, de Castro Alves (1847/71), com sua “serpente em doudas espirais”

 

 

 

 

De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.

(Adélia Prado)

 

Depois de mais de quinze horas seguidas de sono, amanheço sem propósito. Antes de qualquer pensamento, a misteriosa sensação de vazio ocupa cérebro e corpo. Aquela inércia. Cadê a força? Estava demorando… Fazia tempo que não acontecia aquela vocação para a inutilidade.

Arrastando-me, levo-me até o banheiro. Olhos tão inchados que quase não posso ver, mas mesmo sem ver sei que preciso lavar esse banheiro. Também preciso lavar roupa. Também preciso preparar aula. Também preciso ir ao banco. Também preciso escovar os dentes, comer, escovar os dentes. Começo pelos dentes. Olho no espelho: vamos lá! Vamos racionalizar esse vazio, levar para o consciente. Você já passou por isso antes! É o quê? Que cara é essa? Por que isso? Pra que isso? Tem motivo pra essa fraqueza toda? Motivo pra levantar você tem – banheiro, roupa, banco, aula…

Por que há dias em que a concretude da vida não basta?

Isso é a vida, garota! Isso basta! Tem que bastar! É a vida! Conforme-se! Nem todo dia tem poesia! Faça! Nem todo dia tem algo além das aulas, roupas, comida e banco.

Não tem?

Não tem!

Mas tem que ter!

Mas não tem!

Mas tem que ter!

Mas não tem, criança mimada! É um fato!

Eu não suporto tanta praticidade…

Começo a pensar (pela milésima vez) em me mudar para o Sana. Abro um pequeno bistrô. Eu posso fazer isso. Fico em contato com a natureza todos os dias. Eu posso fazer isso. Deixar tudo pra trás, esse cotidiano materialista opressor e viver no mato. Uma horta. Agricultura. Pouca gente. Sanfona. Leitura. Escrita. Eu posso fazer isso. Eu posso fazer isso? Pensar nisso me dá esperança, paz e vontade de chorar.

Tenho certeza de que posso sim fazer isso. Mas desconfio de que mesmo assim, embevecida pelo o ar mais puro e pelo silêncio mais raro, afastada das notícias de corrupção, guerra e maus tratos, assim, como sempre sonhei, como a própria Eva, acordarei, vez ou outra, sem disposição pra viver.

É a maldita serpente!

É a maldita serpente!

(“Serpente” é o apelido do Tédio, mas só os religiosos sabem disso. Corramos dela como “o diabo foge da cruz”! Ela é a ponte para a “danação eterna”!)

Aliás, desconfio que por causa do tédio, por puro tédio, Adão e Eva “comeram aquela maça”. Enfim… Banho? Banho.

No banho penso nessa vontade louca de deixar a cidade. Tenho esse desejo desde os dezessete anos, desde o pré-vestibular, desde que me senti pressionada pela primeira vez. Insisto na ilusão de que no mato só tem o bem. Herança árcade? Síndrome “Jardim do Éden”? Sangue indígena? Influência de Rousseau – “O homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe”? Ou só ilusão mesmo?

Não sei… Nunca saí de vez do ambiente urbano. Mas quando no mato sinto uma paz infinita, uma inspiração absurda e uma vontade de ser do bem. As mágoas se dissipam, o perdão preenche fácil fácil, uma sensação de “ser mãe de tudo”. Lembro-me de Clarice Lispector, em “Perdoando Deus”.

Penso “ah como seria bom viver no mato”… Afinal, a vida não vivida é sempre melhor do que a que se vive. Claro! Na vida não vivida não há os problemas da viva real, mas haveria outros problemas, que não levamos em consideração na nossa imaginação. Que graça teria um sonho cheio de realidade?

Acabo o banho molenga da água boa e morna. Parece que nem acordei. Vou à cozinha de roupão, faço um café, café de coador! Sinto o aroma da água fervendo passando no pó  forte. Um prazer tão antigo e tão simples. Esses momentos são eternos. Começo a achar que a vida não é tão vazia assim, só por poder tomar um banho quente e sentir logo cedo o cheiro de café fresco.

A caneca encosta na boca e aquele vaporzinho praticamente faz uma sauna no centro do meu rosto. É tão bom… Antes do primeiro gole, sinto novamente o cheiro. E bebo. O prazer está completo. Sim, a vida vale à pena. Esqueço-me do vazio, do banheiro, dos dentes, das contas, das roupas, dos afazeres que estão por vir. Durante dez minutos, sorvo devagar, gole por gole, sentada no sofá, de roupão, o café quente.

O sol entrando delicado pela janela e a orquídea azul olhando pra mim, tão viva que parece um avatar (brinco!). Quanta beleza… Sim, está confirmado! A vida vale à pena. Nem pareço estar dentro de um apartamento. Pareço estar no campo, com aromas e sabores. O divino impera! Mas as serpentes estão ao redor. Por algum motivo lembro-me de Augusto dos Anjos – “Andam a espreitar meus olhos para roê-los e há de deixar-me apenas os cabelos, na frialdade inorgânica da terra”. Calafrio.

Um dia tudo acaba. E tem dia que acaba antes de acabar.

De repente a lembrança de tudo o que tenho que fazer (a tal concretude) me toma por trás, pesa na nuca, passa pelos seios da face (os mesmos que há pouco estavam relaxados com o vapor quente), passa seco pela garganta e para no peito, que começa a acelerar. Estou de volta à cidade. De fato, no apartamento de cinquenta e dois metros quadrados. A orquídea já não parece tão viçosa, o sol imperativo exige cortinas, o café está frio e amargo. Estou rígida e gélida no sofá. Por onde começar? Tenho que fazer ligações, lavar o banheiro, arrumar a cozinha, fazer o almoço, preparar aula, corrigir prova, ginástica, ensaio, trabalho…

O tédio que virou encantamento agora é pura ansiedade. Não sei por onde começo. Ligo o computador, pego o celular. Me atualizo. A vida hoje parece que se resume a uma busca constante por atualização. O deleite das sensações ocupa pouquíssimo espaço do dia, isso, para mim, é deveras opressor. Em poucos minutos fico a par das atualidades – olimpíadas, bienal, fora Temer, Cunha, Biel (Quem é Biel?), guerras e conflitos… Um vídeo, em particular, está sendo muito compartilhado… Assisto ao vídeo. Um menino de três anos, vítima de um ataque na Síria. A imagem da criança sendo retirada dos escombros, toda suja de sangue e poeira, somada a fala da jornalista entrecortada por sua própria emoção, me levam para um  lugar mais sombrio. Nem café, nem orquídea, nem apartamento, nem Sana. Um lugar onde não há sentido para afazeres, não há sentidos para sensações – sem olfato, paladar, visão, audição ou tato. Respiração paralisada. Tudo suspenso. Um não-instante.

No vídeo, ele é colocado numa ambulância: não reage, não chora, passa a mão na cabeça, percebe o próprio sangue e limpa a mão na cadeira, como quem não sabe o que aconteceu. Na publicação a legenda – “O mundo sempre foi esse lugar triste? Que dor.”.

Nem tédio, nem encantamento, nem ansiedade. Tudo parece pequeno. Eu pareço pequena. Sou pequena. Perco imediatamente o potencial para “mãe de tudo”. Viro filha, quero colo, infantilizada pela tristeza. Conheço essa tristeza. É a tristeza dos sem sentidos. Perdem-se cheiros, gostos e belezas. Esquece-se o que havia de fazer. É tudo pequeno. Perde-se o sentido. Quando sobra espaço para questões, pergunta-se (e nisso há força) – “O mundo sempre foi esse lugar triste?”. Quando não há força – “Que dor.”.

Lavo o banheiro com a imagem do menino na minha cabeça. Uma criança. Do banheiro para a cozinha. Uma criança. Corrijo as provas mecanicamente. E preparo uma aula sobre os conflitos na Síria.

Enfim, a maratona do meu dia se inicia. Não há vencedores. Corro, mecanicamente, para aonde? Corro para quê? Não sei… não sei se eu sobreviveria à dor sem correr. Deixo pra lá a pacacidade do Sana… Não tenho coragem de parar, as serpentes estão por aí… Gostam do mato… E dizem que elas convencem.

 

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Compromisso com a oposição e em suceder Rosinha com a Polícia Federal

Ponto final

 

 

Prefeitura de Campos com a PF

“Não quero equipe de transição. Se vencer a eleição, tomo posse em 1º de janeiro de 2017 com a Polícia Federal (PF), o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público Estadual (MPE), o Tribunal de Contas do Estado (TCE), a Câmara Municipal e a população. Vamos auditar todas as contas e contratos do governo Rosinha (Garotinho, PR)”. Sutil como um murro na cara, a promessa causou ainda mais impacto vinda de quem conhece tão intimamente, há mais de 30 anos, o casal Garotinho: o deputado estadual Geraldo Pudim, que deixou os antigos aliados e o PR para ingressar no PMDB e nele se lançar candidato a prefeito de Campos.

 

Ofensiva do ex-aliado

Pudim foi escolhido por sorteio, com presença e participação de representantes dos seis candidatos à sucessão de Rosinha, para abrir a primeira rodada de entrevistas destes pela editoria de política da Folha da Manhã — composta dos jornalistas Arnaldo Neto, Suzy Monteiro, Alexandre Bastos e Aluysio Abreu Barbosa. E, pelas quase três décadas de história no primeiro escalão do garotismo, ninguém poderia esperar uma ofensiva tão direta (e intimidadora) contra quem domina a política de Campos desde 1989, há 27 anos, quando Anthony Garotinho se elegeu pela primeira vez prefeito de Campos.

 

Compromisso com a oposição

Se bateu forte nos Garotinho, prometendo entregar “ao rigor da lei” toda irregularidade encontrada no rastro dos oito anos de governo Rosinha, Pudim também foi assertivo em seu compromisso com a oposição. Enquanto candidatos menos cotados nas intenções de voto das pesquisas, como Nildo Cardoso (DEM) e Rogério Matoso (PPL), fazem provocações públicas a outros oposicionistas, Pudim não titubeou: “Qualquer que seja o candidato de oposição que esteja no segundo turno e se, eventualmente, o candidato que estiver concorrendo no segundo turno for do governo, estarei no palanque de quem estiver na oposição”.

 

Exemplo? 

Talvez até surpreso com a demonstração de tanto empenho para destronar os Garotinho, um jornalista da Folha quis ter certeza do que ouvira: “Sem sombra de dúvida?”. Ao que Pudim respondeu no eco à oração, apenas substituindo a interrogação pelo ponto final: “Sem sombra de dúvida.” Diante disto, chega a ser até curioso saber, na ordem sorteada das entrevistas da Folha, qual compromisso com a oposição demonstrarão em suas respostas Matoso, Nildo, Rafael Diniz (PPS) e Caio Vianna (PDT) — cujo apoio do pai, o popular ex-prefeito Arnaldo Vianna (PMDB), Pudim exibe com orgulho no peito.

 

No tapetão

É grande a expectativa para o sessão do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), marcada para a próxima quinta-feira, quando será definido em última instância a situação do Campeonato Estadual da Série B. A competição está paralisada por conta do “Caso do WhatsApp”. Nas instância do Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro (TJD-RJ), o Americano foi inocentado no campo esportivo, mas condenado a pagar multa de R$ 102 mil. O Alvinegro recorreu buscando a redução da multa ou extinção. O Itaboraí, parte interessada, quer a exclusão do clube campista da competição.

 

Permanência

As Forças Armadas manterão na edição das Paralimpíadas, que começa em 7 de setembro, os 23 mil soldados que fizeram a segurança dos Jogos Olímpicos, terminados domingo. Após um pequeno recesso, os militares começam a atuar novamente no dia 31 de agosto, quando acontece a abertura da Vila Paralímpica. Existe ainda, segundo o ministério da Defesa, a possibilidade de permanência até o final do período eleitoral.

 

Com a colaboração do jornalista Antunis Clayton

 

 Publicado hoje (23) na Folha da Manhã

 

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Fabio Bottrel — Estação Bienal

 

Sugestão para escutar enquanto lê: The SecretWedding – James Horner

 

 

 

 

Escritor Fabio Bottrel
Escritor Fabio Bottrel (Foto de Diomarcelo Pessanha)

 

 

 

Agarrada à mão da mãe, Josefina ia contente em direção à IX Bienal de Campos, contando alto as pedrinhas encontradas sobre o asfalto, que imaginava ser terra preta feita de pedra muito dura.

— Fininha, minha filha, você saltita feito uma pulguinha!

— Estamos chegando, mamãe, deixe que eu vá, há tempos quero vir nesse lugar!

Os dedos de Josefina se desgrudaram um a um da mão mãe e ela correu com todas as forças de suas pernas, logo na entrada desviou dos lixos jogados no chão como um drible de um craque futebolista, deslizou na multidão e adentrou o espaço como manteiga desliza no pão. No meio do grande corredorbienalista, parou, abriu os braços, girou, olhando a imensidão de livros, cores e personagens nas capas. Livros baratinhos, que lhe abriam o sorriso, lhe enchiam o pequeno oceano em torno das pálpebras nos olhos, só foi perceber a boca aberta quando o ar gelado lhe percorreu o corpo por dentro.

Entrou num estande bem grande com muitos livros e cheiros diferentes, um bem colorido lhe prendeu a atenção mais do que os outros, logo na capa havia um campo com fim ao infinito, verde e florido com castelo e vestidos d’outra época. Sua mãe estava folheando páginas e mais páginas na estante no final do estande quando Josefina pegou o livro e abriu. Como se um novo mundo lhe saltasse aos olhos, logo no início conheceu a princesa Késia, que corria pelas falésias acima das falácias contra um enorme carcará, tão grande quanto as nuvens no céu…

“…Seus cabelos caracóis voavam com o galopar do alazão retirando do chão as gramas mais firmes, uma chuva tão fria quanto o gelo cortava o vapor exasperado por sua boca de lábios arroxeados e cortados, havia arranhões por toda a pele descoberta pela armadura e na sua espada carregava o sangue do inimigo, o céu anuviava-se de carcarás tapando com suas asas enormes o sol que mostrava a cara coberta de timidez. Uma grande sombra acompanhava a princesa, as patas do pássaro-monstro estavam próximas para segurá-la e levá-la para seu ninho onde seria mais uma a servir de comida para os demais…”

Enquanto Josefina lia, um inseto grande como um besouro pousou em seu ombro, ao sentir as patinhas bem finas alfinetando a pele magra tomou um grande susto, jogou o livro para o alto enquanto caía de bunda numa pilha de papel coloridosobre uma caixa de papelão. Quando se recuperou do susto ainda estava jogada na caixa, olhou à sua volta e não encontrou sua mãe, nem ninguém, o tempo havia escurecido e apenas o frio rondava o ambiente. Na bienal inteira o único som que escutou foi de seus passos pelo corredor.

— Mãe? Mamãe?!! — Gritava Josefina enquanto sentia o medo subir pelos seus pés até o cabelo, estava sozinha e pensava será que li tanto tempo assim pra todo o mundo ir embora e esquecer de mim? Não é possível! Foi só uma paginazinha, bom… eu acho…

— Mãe? Mamãe?!! — Continuava Josefina a gritar, mas nada de se acalmar, sentia, sua mãe não apareceria, e nem ninguém. Enquanto caminhava olhando para todos os cantos viu uma luz entrando por uma das saídas da bienal, caminhou nessa direção e quando colocou os pés afora percebeu que toda a cidade havia desaparecido, um enorme campo verde tal como no livro cobria toda a sua vista, ao longe um grande exército de cães montava sobre cavalos e se comportava tal como pessoas bradando espadas e uivando forte para o alto cavalgando atrás da princesa Késia sobre as falésias acima das falácias vindo em sua direção. Josefina abriu a boca tão estática como se esquecesse do próprio corpo, viu sombras como se aviões sobrevoassem o local pintando o chão em chiaroscuro, olhou para o céu e viu os gigantescos carcarás com caras muito feias e grunhidos muito bravos, um se aproximava dela em posição de ataque, pronto para pegá-la. Josefina gritou alto, muito alto, sentiu um pavor atroz, lembrava da música Carcará, pega, mata e come! Carcará não quer morrer de fome, mergulhou no céu azul em direção a Josefina, quando suas patas prestes a pegá-la pela cabeça a menina é agarrada pela princesa e jogada sobre as crinas do alazão que galopava para o lado enquanto o pássaro levantava golfos de terra com sua aterrissagem improvisada.

Enquanto galopava deitada sobre a cela e sob as rédeas no alazão da princesa Késia viu o exército de cães, uns escoltando enquanto outros uivavam e guerreavam contra os pássaros gigantes. Logo o ambiente se preencheu de árvores e sombras, haviam entrado numa mata fechada onde os carcarás não conseguiriam encontrar, mas não pararam de galopar até entrar em uma caverna escura e com entrada muito fina para depois se abrir num enorme reino com árvores de troncos gigantes protegendo todo o céu com lanças fincadas em suas madeiras, compondo um imensurável globo da morte. Cavalgaram ao redor de uma montanha no centro do local, subindo por uma estrada íngreme até chegar um grande portão de madeira, que logo fora aberto e todos apearam de seus cavalos com alguns gatos do tamanho de gente grande vindo dar as boas-vindas e pegar os cavalos. A pequenina não sabia como agir agora que estava de pé e parada, achava tudo tão estranho que não sabia nem mesmo qual o nome para o que sentia. A princesa se postou diante de Josefina e a olhou dentro dos olhos.

— Olá, eu sou a princesa K…

— Késia!

— Como sabe meu nome?

— Meu deus, eu estou dentro do livro!

— Que livro?

— O seu!

— Meu?

— Sim, conta a sua história contra o exército dos gigantescos carcarás… ops… acho que temos um problema…

Josefina estava reconhecendo a passagem da história onde uma visitante chega ao castelo e logo depois houve um ataque tão forte a ponto de abalar toda a estrutura. Olhou para os cães desembainhando suas espadas e lembrou desse trecho, olhou as portas do castelo emperrando para fechar e lembrou desse trecho…

— Que problema? — Perguntou a princesa.

— Nesse momento da história o castelo é descoberto pelos carcarás e…

Um grande baque corta a fala de Josefina, todo o chão se cobriu de sombra pelas asas de um enorme pássaro nervoso pousando sobre o globo desprezando as lanças pontiagudas, as quais arrancava com o bico com tanta facilidade que aparentavam palitos de dente.

A princesa imediatamente se espantou com a previsão da pequenina e correu enquanto gritava para que levassem a menina para dentro do castelo em local seguro, mas esse não era o certo a se fazer, Josefina já sabia a história e o que aconteceria, o castelo desmoronaria.

— Não!! Não vá para lá! — Disse Josefina à princesa, que se dirigia para o alto da torre principal a fim de guerrear contra os pássaros gigantes.

— Tudo ruirá! Precisamos sair! — Mal Josefina terminou de falar e a torre ruiu com os carcarás adentrando o globo e desmoronando a estrutura ao aterrissar com firmeza.

Josefina sabia do livro dentro da bienal, se ainda existisse poderia olhar na história e achar uma solução para a catástrofe que acabara de acontecer. Pegou o alazão da princesa e correu, correu, correu em direção à estrutura de tendas d’onde houvera saído. Passou pela mata densa, os buracos saltados pelo cavalo, e logo no final da vista já se via as tendas da bienal cercada pelos enormes pássaros. Inclinou seu corpo para frente, não entendia como sabia galopar tão bem logo na primeira vez a montar um cavalo tão grande quanto aquele e como um jóquei pressionou seus pés nos estribos, levantou seu corpo imaginando assim o cavalo tomar mais velocidade. Galopou tão rápido que o vento quase a derrubou e passou sem dar chances para as aves monstras lhe alcançar.

Josefina apeou do alazão já dentro da solitária bienal como um quartel fortificado, correu para o estande procurar o livro, mas não o encontrava, em seu lugar havia um livro manchado de verde e sangue com um jovem índio bradando um grito feroz enquanto estufava o peito com força e abaixo da imagem estava escrito:

— Sou goitacá, descendente dos maiores guerreiros dessa terra! Nesse chão sagrado não se curvará nenhum de nós!

O dia estava ensolarado quando urrou o jovem índio com uma machadinha na mão correndo enfrentar a multidão de invasores de sua terra, pensava ser um bom dia para guerrear, sabia, o tempo limpo daquela maneira eram os olhos dos espíritos de seus ancestrais. Se juntou aos de sua tribo, os rostos se contorciam de bravura e os músculos da perna se torneavam com as passadas fortes e velozes em direção aos inimigos…”

Josefina viu um raio de sol banhar uma de suas mãos que seguravam o livro, logo percebeu todo o ambiente iluminado, o tempo nublado havia sumido junto com o cavalo alazão e o clima estava mais ameno também, não sentia mais frio. Pensou, tudo voltara ao normal, encontraria sua mãe vindo pelo corredor, mas olhou, olhou… e não viu ninguém, nem mesmo um sinal de existir alguém ali, um som, um barulho, ou algo parecido. Viu toda a estrutura do local balançar com o vento forte uivando lá fora, ouviu passarinhos cantando e som de natureza quando esta mostra a sua beleza.

— Mãe? Mamãe?!! — Gritava Josefina a caminhar pelos corredores soltando pelo ar bufos de tristeza por não encontrar sua mãe, a essa hora ela já devia estar preocupada por estar tanto tempo longe de sua filha e Josefina pensava no que dizer, sua mãe não acreditaria nas peripécias que ela acabara de viver.

A menina caminha para fora da bienal e quando chega à saída vê uma enorme planície verde, tão grande a lhe fugir os olhos, tão colorida a lhe ofuscar os olhos, tão límpida a lhe enganar os olhos. No meio, um pequeno vazio separa um exército europeu de um indígena, logo o vazio se preenche com os dois se embrenhando numa guerra sangrenta. Como tintas numa tela de pintura, o sangue era jorrado para o alto e aos montes, coloriam de vermelho a vista e o coração de Josefina, apavorada com tanta violência. Viu uma sombra, perto de seu corpo e quando olhou para o lado notou um velho índio que aparentava estar há tempos ali parado a observá-la, ele lhe estica as mãos e faz um leve aceno com a cabeça para que ela segurasse.

Os dois correm pela planície afora e Josefina não entende como alguém com a pele tão marcada pela velhice tinha tanto fôlego para correr daquela maneira, o velho não se cansava e Josefina já estava ofegante. Após um longo período correndo, começaram a caminhar, mas o velho nada de falar, Josefina achou estranho, mas preferiu não comentar. Andavam sobre uma enorme montanha sem vista para a bienal, o dia já ia se deitar e a noite se preparava para tomar o seu lugar. Oalto da montanha era adornado por várias ocas e quando o velho índio apontou para uma com cores tão vivas que brilhavam como as estrelas naquela noite, Josefina deduziu, ali seria seu lar de agora em diante. Quando olhou para baixo, viu sob as nuvens de neblina os guerreiros sobreviventes da tribo retornarem, alguns carregados, alguns intactos, todos aparentavam concentrados.

Ao redor d’uma fogueira, todos olhavam Josefina, os carregados e os intactos que agora estavam ao seu lado, as mulheres, os velhos e as crianças. Diante das fagulhas de fogo subindo céu afora o cacique começou a falar e a menina notou que não havia chegado nessa parte do livro para saber o que iria acontecer.

— Hoje a profecia se concretiza, a menina vinda das palavras chega a nossa terra e trará a bonança do solo sagrado de nossos ancestrais. Hoje os espíritos falarão através desse couro guardado há séculos e a partir desse momento haverá fartura de animais, fartura de chuva, fartura de frutas.

O velho cacique entregou um papiro bem antigo à Josefina com letras pretas já deteriorando sobre a luz do fogo que tornava o papiro tão velho quase transparente, sob a noite estrelada a menina leu as palavras guardadas há séculos.

— Na terra onde os ventos sussurram como o último suspiro, onde os homens nada podem fazer diante de tanto ódio, onde as palavras são veneno e antídoto, lá, onde a luz e a lua são tão longas que os personagens dessa terra poderiam viver toda uma vida dentro de um dia, lá, onde as sementes plantadas são as flores nascidas aqui, há uma menina Josefina vindoura das frases longas envolta às palavras cercada de ventos exasperantes das palavras adormecidas nos papéis. Com uma multidão à sua volta sedenta pelas letras falantes, a menina sairá das palavras e se tornará a…

Josefina sentiu-se bambear quando alguém esbarrou em seu corpo, ao olhar para o lado viu que estava em pé, não estava sentada, estava claro, não era noite e não havia fogueira, não havia tribo, apenas o livro em suas mãos, ao lado sua mãe continuava a folhear os livros na estante reservando a comprar os mais interessantes. Josefina largou o livro e correu abraçar sua mãe como se houvera passado uma eternidade longe e a saudade fosse insuportável, estava muito contente de vê-la. Sua mãe sem entender retribuiu com felicidade esse abraço de menina fantasiosa.

 

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Gustavo Alejandro Oviedo em texto e traço, toda segunda na Folha

Cresce o número de colaboradores da Folha da Manhã, ecoados diariamente na sua página de opinião. Após a estreia do advogado José Pessanha da Silva e dos cientistas sociais Brand Arenari e George Gomes Coutinho, aqui e aqui, em julho, eles passarão a ter companhia, neste mês de agosto, do advogado, publicitário Gustavo Alejandro Oviedo, argentino caído em Campos.

Oviedo, que já foi colaborador da Folha como crítico de cinema, voltará a sê-lo no misto de articulista e desenhista, todas as segundas-feiras, quando a opinião do jornal, excepcionalmente, vem publicada em sua página 2. Abaixo, em palavras próprias, o que esse hermano naturalizado brasileiro pretende trazer a você, leitor, a partir do próximo dia 22:

 

Gustavo Oviedo1
Gustavo Alejandro Oviedo

 

Sou Gustavo Alejandro Oviedo, um argentino que há 15 anos veio morar em Campos. Estudei cinema na Universidad del Cine de Buenos Aires, e me formei em Direito na FDC de Campos.

Tenho 45 anos e ganho a vida como advogado e publicitário, mas vivo a vida como cinéfilo e desenhista.

Já fui: dono de agência de publicidade; diretor de canal de TV a cabo; co-criador e participante do programa Mercearia Campista. Dirigi alguns curtas e editei uma revista que teve apenas dois números e cujo único mérito foi o de ter iniciado a carreira jornalística de Alexandre Bastos. Também escrevi crítica cinematográfica para a Folha da Manhã.

A Folha da Manhã, através do seu diretor Aluysio Abreu Barbosa, me oferece generosamente um espaço semanal onde poderei manifestar algumas coisas que passam por minha cabeça. Às vezes serão desenhos acompanhados de um texto, e outras textos acompanhados de ilustração.

Desenho de forma ininterrupta desde criança, mas com a exceção de algumas esporádicas ocasiões, nunca publiquei. Apenas desenho porque preciso fazê-lo; por uma necessidade, diria, higiênica.

Faço caricaturas, uma das disciplinas da ilustração mais fascinantes e complexas. Uma boa caricatura é, para mim, muito mais difícil de lograr do que um retrato, dado que a caricatura destaca aquilo que é essencial numa pessoa, tanto no aspecto físico quanto no psicológico.

Um retrato apenas tenta ser uma cópia do original — embora existam retratistas talentosíssimos, é claro. Para fazer um paralelo jornalístico, diria que um retrato é a reportagem de um rosto, mas a caricatura o seu editorial.

Aceito e agradeço o convite do jornal, sem saber se estou à altura do desafio, mas com a convicção de que, enquanto a carreta anda, os cocos se ajeitam.

 

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Desespero com segundo turno faz Garotinho atacar Picciani e Arnaldo

homer desesperado

 

 

“É a tática de quem bate a carteira e grita pega ladrão”. Foi assim que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) já definiu (aqui) a praxis política do PT federal. Entre tantas outras semelhanças, a definição serve como luva à prática de sempre do ex-petista Anthony Garotinho (PR).

Ontem, em seu blog, o marido e secretário de Governo da prefeita Rosinha Garotinho (PR) reproduziu (aqui) notas do jornal “Extra”, do grupo Globo — que ataca ao ser alvo de matérias críticas, mas usa para tentar endossar seus ataques aos outros. E, a partir das notas, questionou a nomeação do ex-prefeito Arnaldo Vianna como subsecretário estadual de Saúde, após a filiação deste ao PMDB.

Após um longo tempo sem atacar o presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e do PMDB fluminense, Jorge Picciani, a quem já chamou de “Rei do Gado”, Garotinho atribuiu a este presidente a indicação de Arnaldo “goela abaixo” do governador em exercício Francisco Dornelles (PP).

E ao puxar o assunto à sucessão de Rosinha, Garotinho acusou o golpe quando fingiu bater:

— O desespero do PMDB em Campos é tão grande que foi buscar apoio do ex-prefeito Arnaldo Vianna, que nem pôde ser candidato.

Na tradução da retórica garotinha à realidade, a declaração poderia ser lida:

A – O apoio de Arnaldo transformou a candidatura a prefeito de Geraldo Pudim (PMDB) em competitiva — como evidenciaram as recentes pesquisas Pro4 (aqui) e iNovo (aqui).

B – Com Pudim, além de Caio Vianna (PDT) e Rafael Diniz (PPS) competitivos, o segundo turno é uma certeza matemática.

C – No segundo turno, residem as melhores (e talvez únicas) chances de vitória da oposição.

Traduzido na tecla SAP, entendeu de quem é o desespero? E por quê?

 

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Garotinho atira em Caio e dá munição a Rafael, Pudim, Nildo e Matoso

Ponto final

 

 

Nem um, nem outro

Parece ser verdade a versão de que nem rosáceos, nem oposição, saíram ganhando com a decisão do PT nacional de cancelar (aqui) o apoio do partido à candidatura a prefeito de Caio Vianna (PDT). Como ainda assim, este manteve a aliança do PMN e PEN — legendas da sua base de apoio — na eleição proporcional com os petistas, estes apoiarão pessoalmente o filho do ex-prefeito Arnaldo Vianna (PMDB), sem lançar candidatura própria na majoritária. Quem desejava o contrário era o marido e secretário de Governo de Rosinha, Anthony Garotinho (PR), que vinha pressionando o presidente nacional do PT, Rui Falcão, desde 19 de julho, como revelado (aqui) por esta coluna.

 

Tiros pela culatra

Na noite de ontem, em reunião com representantes dos partidos, o juiz da 75ª Zona Eleitoral, Ricardo Starling, informou que, caso se confirme a ausência de candidatura do PT à sucessão de Rosinha, o cobiçado tempo (aqui) de propaganda do partido — um minuto de TV à tarde e noite, entre 27 de agosto e 30 de setembro — deve ser repartido de maneira uniforme entre os candidatos a prefeito de Campos. Como eles são seis, cada um ficará com uma fatia de 10 segundos dos 60 petistas. Assim, se conseguiu aumentar o tempo de TV de Dr. Chicão (PR) e reduzir o de Caio, a pressão de Garotinho sobre o PT nacional acabou também dando mais vitrine para Rafael Diniz (PPS), Geraldo Pudim (PMDB), Nildo Cardoso (DEM) e Rogério Matoso (PPL).

 

Publicado hoje (19) na Folha da Manhã

 

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Autofagia da oposição goitacá canibaliza suas chances no 2º turno

Ponto final

 

 

Festa carioca e autofagia goitacá

Quem saiu um pouco da cidade alguns dias para curtir as Olimpíadas no Rio, evento único para uma ou mais gerações, pôde comprovar duas características que parecem atávicas. A primeira, o talento do brasileiro, sobretudo do carioca, para promover eventos festivos. E, ao voltar à planície goitacá, o tropeçar na segunda: a vocação autofágica da oposição política de Campos.

 

Nildo agressivo

Na terça (16), em vídeo nas redes sociais, o candidato a prefeito Nildo Cardoso (DEM), líder da oposição na Câmara Municipal, questionou publicamente (aqui) seus adversários “que nunca administraram nada”. “Nem foi presidente de bloco de Boi Pintadinho, nem foi síndico de prédio e nunca tocou uma quitanda, com todo respeito ao dono de quitanda. E quer administrar uma cidade com todos os problemas que nós temos?”.

 

Matoso também

Coincidência ou não, foi na mesma terça que, em outro vídeo nas redes sociais, o também candidato a prefeito Rogério Matoso (PPL) alfinetou (aqui) num nível ainda mais pessoal: “Meu pai nunca foi prefeito da cidade. Meu avô nunca foi prefeito da cidade. Mas eles me ensinaram a ter dignidade, ter respeito pelas pessoas”.

 

Ressentimento

Desde que foram definidos em convenção os seis candidatos a prefeito de Campos, só duas pesquisas à sucessão de Rosinha Garotinho (PR) foram registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). E a Folha noticiou ambas, dos institutos Pro4 (aqui) e iNovo (aqui), com exclusividade. Uma liderada nas intenções de voto por Dr. Chicão (PR), outra por Rafel Diniz (PPS), com o pelotão da frente composto ainda por Caio Vianna (PDT) e Geraldo Pudim (PMDB), nas duas Nildo e Matoso foram os últimos colocados na corrida.

 

Chicão olha e ri

Nildo e Matoso, com suas críticas públicas a outros candidatos da oposição, pensam conseguir comer um pouco da gordura acumulada por estes, para se aproximarem do bloco da frente. Mesmo que consigam, podem descobrir tarde demais que o fizeram à custa da canilabização, ainda no primeiro turno, de qualquer possibilidade de sucesso da oposição no provável (e decisivo) segundo round eleitoral contra o governo. Chicão só observa e ri sozinho.

 

Publicado hoje (19) na Folha da Manhã

 

 

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Paula Vigneron — Quase vida

 

Pista de corrida do Estádio Olímpico do Engenhão, Rio, noite de 16/08/16 (Foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Pista de corrida do Estádio Olímpico do Engenhão, Rio, noite de 16/08/16 (Foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

 

A primeira pontada foi naquela manhã. Era o sinal de que seu menino, que já demonstrava ser bagunceiro, estava prestes a chegar. Lembrava-se da recomendação médica: “você pode me ligar quando começarem as contrações. A qualquer dia e hora”. Mas ela queria sentir mais um pouco a dor de ser quase mãe. Quase. Ansiava pelo momento de se dizer mãe. Palavra curta e forte. Desde que soubera que estava grávida, pensava muito no verdadeiro sentido da maternidade. Relativamente jovem, sabia que ainda não conhecia o significado da fase em que iria entrar.

Segunda pontada minutos depois. Não sabia exatamente o tempo entre uma e outra. “Ela vai ficando cada vez mais forte. Não hesite em me procurar”, recomendava o médico. “Eu sei, doutor. Pode ficar tranquilo. Eu sei como agir”, dizia, consciente de que não havia verdade em sua frase. Ela não sabia como agir. Para lidar com a gravidez, antes de contar à família, passou uns dias isolada. Precisava ficar em silêncio para aceitar que deixaria de ser filha para se tornar mãe. Responsável por um frágil ser, cuja única forma de contato com ela seria o choro. Ou o riso. Gritos. Sem verbalização de sentimentos, dores e emoções. Sem vozes. Só reações facilmente confundíveis.

“E agora?”, perguntou a si mesma nos dias de afastamento da realidade. Não havia respostas. Era hora de encarar-se como adulta.

Terceira pontada. Mas acostumou-se à ideia de ter um pequeno ser ao seu redor, com lágrimas, risos, cólicas e amor puro. Na verdade, estava ansiosa para conhecer o rosto do menino que habitava sua barriga há nove meses. Queria ver gestos, traços, expressões. Queria, acima de tudo, ver seu reflexo nele. Quarta pontada. O intervalo entre as contrações diminuía. Era hora de telefonar. Quinta pontada. O médico a recomendou que corresse ao hospital. Honesta, a mulher contou que demorara a entrar em contato por desejar sentir um pouco mais as dores de ser quase mãe. Quase. Faltava pouco.

Sexta pontada. Telefonou para o marido. Rapidamente, o homem chegou ao apartamento, organizou as malas da esposa e do filho e desceu. A tensão era grande. Ele sentia o corpo tremer. “Pai de primeira viagem, hein?”, ouvia dos amigos. E morria de medo da responsabilidade que se materializaria em breve. Ainda bem que tinha a companheira. Sétima pontada. Um líquido começou a escorrer pelas pernas da mulher. Era a tal bolsa estourada. Sim. O processo estava próximo ao fim. Sentia-se feliz e plena. Agora, seria mãe. O confronto com a maturidade. Ida para um tempo sempre temido. Ainda assim, prevalecia a alegria.

A intensidade do incômodo crescia. Deitada na maca, era encaminhada com rapidez para a sala de parto. Optara pela cesariana. Não queria sofrer mais do que o necessário. A família concordou. A expressão do médico era de preocupação. Ela não entendia. “Deve ser normal”, pensou. “Não é possível estar angustiado diante de um momento de tanta felicidade”. A conclusão a que chegou parecia ser diferente da dos demais. Havia urgência em todos os olhos que pousavam sobre ela.

Anestesia. Seu corpo adormecia vagarosamente. O tato perdia-se. Os pés já não balançavam. Ficaria acordada. Os primeiros cortes. Sentia um leve ardume na barriga. A dor de ser quase-quase mãe. Cada vez mais perto de seu menino. Seu garoto. Seu guri.

“Corra. Não temos muito tempo”, disse a enfermeira. A quem foi dirigido o alerta, ela não sabia. Todas as palavras tocavam seus ouvidos com certo atraso. Não conseguia compreender o significado do que era dito. A movimentação aumentava em seu entorno. Mãos, braços, dedos e instrumentos cirúrgicos confundiam-se diante dela. O decorrer dos minutos trazia afastamento da realidade. Longe, escutou os primeiros ruídos do que parecia um choro. Uma agulha foi enfiada em sua veia. “Ai”. Exclamação quase inaudível.

“Quase. Quase a perdemos”, comentou o médico, trêmulo. Havia um quê de alegria por tê-la trazido de volta.

A seu lado, havia um pequeno embrulho. Depois da injeção, ela o enxergava bem. Era tão pequeno. Tão indefeso. Tão amado.

“Meu menino. Meu querido. Meu curumim”, disse. Lágrimas embaçavam um pouco a visão da mulher.

Novamente, o corpo adormecido. Sentia incômodo, mas não sabia de onde vinha a sensação. Tentava chamar os médicos com as mãos, mas elas não respeitavam a sua vontade. O mal estar aumentava. Não conseguia pedir ajuda. Seus olhos estavam presos à criança recém-nascida. Queria dizer que logo estariam em casa, mas as palavras escorriam pela boca junto à saliva. O descontrole tomava conta da mulher. Tudo estava denso. Pesado. Respiração lenta.

O menino estava distante. Fugia de seus toques. Logo, seria homem. Antes, quase-quase homem. E bonito. Grande e forte, era assim que tentava imaginá-lo. E seria pai. Primeiro, um quase pai. Depois, seria avô. Seria pleno. Seria o reflexo dela em todos os rostos. Sua fiel representação e protetor de sua memória. Seria o que quisesse. Seria o que ela quase foi. Curumim.

“Fique em paz, meu filho. Cuide-se. Por ti. Cuide-se por mim.”

 

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Sucessão de Rosinha — Oposição de Campos se opõe a ela mesma

cobra devora o próprio rabo

 

 

Para quem estivesse fora e chegasse hoje de manhã à planície goitacá, desinformado sobre os fatos políticos dos últimos três dias, bastaria uma olhada em alguns blogs da cidade para constatar que o maior adversário da oposição em Campos, ironicamente, não é o governo Rosinha Garotinho (PR)

É o que se pôde ver claramente aqui e aqui, respectivamente, nos blogs do Bastos e do Ralfe Reis, que repercutiram dois vídeos postados na democracia irrefreável das redes sociais, no último dia 16.

No primeiro, o vereador e empresário Nildo Cardoso, candidato a prefeito pelo DEM questionou aqui seus adversários “que nunca administraram nada”:

— Nem foi presidente de bloco de Boi Pintadinho, nem foi síndico de prédio e nunca tocou uma quitanda, com todo respeito ao dono de quitanda. E quer administrar uma cidade com todos os problemas que nós temos?

No segundo, Rogério Matoso (PPL), empresário, ex-vereador e também candidato a prefeito, alfinetou aqui ainda mais pessoalmente:

— Meu pai nunca foi prefeito da cidade. Meu avô nunca foi prefeito da cidade. Mas eles me ensinaram a ter dignidade, ter respeito pelas pessoas.

Segundo as últimas pesquisas dos institutos Pro4 (aqui) e iNovo (aqui), Nildo e Rogério estão, respectivamente, em penúltimo e último lugares nas intenções de voto à sucessão de Rosinha, atrás dos também oposicionistas Geraldo Pudim (PMDB), Caio Vianna (PDT) e Rafael Diniz (PPS) — além do governista Dr. Chicão (PR).

Como as duas pesquisas indicam uma eleição em dois turnos, onde a maior (e talvez única) chance da oposição estaria na união no segundo, algum desavisado poderia até tropeçar no óbvio: essa mesma oposição começa a campanha se opondo a si própria.

 

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Ocinei Trindade — O tédio, os livros, o Rio e as temeridades

Ocinei 16-08-16

 

 

 

Depois do gozo, o que vem? Após a vitória, o que resta?  Passada a euforia, para onde vai a plenitude? O vazio tem lá seus mistérios e necessidades. O sorriso tem também sua vontade de se fechar. E, para aqueles que não sabem dosar suas comemorações esfuziantes, sempre há um jeito do tédio entrar por alguma brecha. Pode ser mau isto, mas nem tanto. Tédio, vazio e tristeza também podem ser oportunidade de acionar a criatividade para reinventar a vida e reconhecer a importância que alegria tem em nossas breves e quase insignificantes existências. Uns, se sentem úteis ao dizer “Fora Temer”. Outros, fogem para o Rio de Janeiro e tentam ser olímpicos. Alguns, preferem ler apenas um bom livro e o silêncio. Destas três, prefiro a fuga para a capital e a leitura. Por enquanto. O tédio em Campos pode ser sinônimo de cabeça de porco enterrada no quintal. Detesto pessimismo e alguns pessimistas. Daí, por que não começar o desenterro?

No último domingo terminou a IX Bienal do Livro de Campos. Foi uma festa modesta aparentemente, diferente das outras, mas com seu valor e encanto, além da queima de estoque de livros que não faz mal a ninguém. O escritor campista já falecido Waldir Pinto de Carvalho foi o homenageado do ano. Tive a honra de entrevistá-lo algumas vezes. Um cavalheiro dedicado a preservar histórias e memórias. Um de seus livros, Gente que é nome de rua, está em minha coleção. No evento literário, entre as celebridades, creio, quem mais brilhou foi o historiador e filósofo gaúcho Leandro Karnal, sensação na Web e nos cafés filosóficos espalhados por aí. O professor da Unicamp atraiu um grande público e pessoas de todas as idades, entre elas, Nizia Bravo, de 84 anos, minha dublê de mãe, interessada em leitura, escritores e internet (ela é um exemplo de curiosidade pela vida).

Depois de assistir entrevistas e palestras de Leandro Karnal pela Internet, quando o escutamos ao vivo, talvez, já não há muitas novidades para nos surpreender. Em sua entrevista ao Roda Viva da TV Cultura, no dia 4 de julho último, o historiador não deixou de citar um dos fatos que mais incomoda os brasileiros atualmente: o suposto golpe na democracia desde o afastamento da presidente Dilma Rousseff e a interinidade do vice-presidente Michel Temer no comando do Brasil. Karnal afirma que a trajetória política do Brasil é marcada por golpes desde o Império. Ao todo, seriam cerca de dez golpes. O problema é que golpistas e golpeados se acham superiores ou livres de uma praga que está no gene da sociedade brasileira desde sempre. Algo que vulgarizamos chamar de “corrupção” e que não nos larga.

Em um país dividido por conceitos tão pobres e maniqueístas de direita e esquerda, de bem e mal, há uma certa omissão ao não admitirmos que os nossos corruptos não podem ser inferiores aos corruptos de partidos adversários. Os nossos corruptos são sempre melhores que os outros. Portanto, merecem e devem estar no poder, pois os corruptos da oposição são insuportáveis e representam o demônio que não pode ser aceito ou tolerado por nós, bons moços católicos e pais de família. Em um dos atos falhos (ou não) de Dilma em seus pronunciamentos, certa vez, em pleno tremor de escândalos de propinas acerca da quebradeira e desvios de dinheiro da Petrobras, além da suspeitíssima e superfaturada compra da refinaria de Pasadena, ela afirmou: “ninguém é incorruptível”. A frase é curta, não ganhou manchete de jornal, pode ter passado batido, mas para uma chefe de Estado à frente de um governo alvo de tantas denúncias de corrupção, fico em dúvida se ela foi infeliz ou muito honesta ao proferir a frase. Afinal, somos corruptos ou não?

Todo ativista é chato. Todo militante político é chato. Todo jornalista ou escritor também costumam ser chatos. Na plateia de Leandro Karnal durante a Bienal de Campos, perguntas ao historiador foram franqueadas ao público, e um jovem militante político-artístico ao tomar o microfone, disse: “Primeiramente, fora Temer, fora Patricia Cordeiro”. Ele criticou a gestora de cultura do município, ironizou os governantes Garotinhos, e aproveitou a presença da celebridade visitante para fazer uma espécie de denúncia, além de queixas domésticas. Ao meu ver, foi inconveniente e indelicado, mas há os que apoiam esse tipo de manifestação em eventos com aglomerações de gente que pode votar ou tomar partido deste ou daquele virtual candidato. O “Fora Temer” virou quase mantra, ideia fixa masturbatória, frase vã de modismo ou uma repetição vazia (ou cheia, ou de saco cheio de tanta coisa). Tem sido censurado nos Jogos Olímpicos, assim como qualquer manifestação política dentro dos estádios e competições.

Como brasileiro, considero nosso povo mal-educado e inconveniente. Adoramos uma gaiatice e sermos os “do contra” quase sempre. Nós e alguns outros povos presentes no megaevento do esporte mundial se esquecem que, historicamente, as Olimpíadas foram criadas na Antiguidade Grega, e que tradicionalmente era e continua a ser o momento de pausa e trégua para esquecer da política, das guerras e das diferenças das nações. Olimpíadas são para a celebração do esporte e da tolerância e não para vitrines de ganâncias e disputas políticas. Ainda não compreendo porque eleitores de Dilma rejeitam o Temer, já que eles foram eleitos juntos. Acredito que os crimes de Temer e do PMDB também virão a público, cedo ou tarde. Enquanto isso, em vez do “Fora Temer” ou do “Volta Dilma”, e também do “Fora Moro” ou “Volta Lula”, o tédio e o desemprego nos ameaçam diariamente, assim como nossaviolência extrema, caráter e moral seguem comprometidos com tapetes e peneiras que não dão conta de nos esconder e disfarçar.

Apesar de amá-lo, tenho que discordar de Gilberto Gil, autor de “Aquele abraço”. O Rio de Janeiro não continua lindo, e sim, mais lindo ainda. Estar na cidade em plenos Jogos Olímpicos é uma festa para celebrar pelo menos uma vez a esperança por união e fraternidade (além da tensão erótica e azaração pelas ruas, orlas e praias). O fato raro esportivo, talvez, nunca mais se repita entre nós. Com milhares de estrangeiros circulando pelo Rio, repito o que a cantora Preta Gil disse em seu show na Praça Mauá: “não dá para ter Olimpíadas para sempre no Rio?”. Aliás, o local do show, em pleno BoulevardOlimpíco, é uma redescoberta de um Rio de Janeiro que estava abandonado, feio e sujo. Atualmente, museus de arte moderníssimos, pavilhões e praças com lazer e cultura disponíveis, além de um bonde VLT circulando por construções lindas e históricas são um presente para qualquer morador e turista como eu. Claro que falta despoluir a Baía de Guanabara, mas estar na Cidade Maravilhosa (apesar de caótica, violenta, injusta e desigual) é motivo de encantamento e sonhos.

Constato que Jogos Olímpicos viciam. Não consigo ficar muito longe das transmissões da Sportv. Poder ver a terceira vitória do jamaicano UsainBolt, as conquistas e despedida do nadador americano Michael Phelps, a perfeição da ginasta americana Simone Biles e de tantos heróis que sobem ao pódio, conquistam medalhas, escutam a execução dos hinos de seus países, é muito emocionante. Até agora, só escutamos o Hino Nacional Brasileiro apenas uma vez com a vitória da judoca Rafaela Silva, nossa menina de ouro. Entretanto, ter bandeira e atleta brasileiros na cerimônia de premiação é um feito incrível. Foi o caso dos ginastas Diego Hypolito e Arthur Nary, prata e bronze, respectivamente. Sensacionais as duas conquistas. O argentino Juan Martin Del Potro e o britânico Andy Murray que disputaram a final de tênis por mais de quatro horas, deram exemplo que ouro, prata e bronze podem ter o mesmo valor. A vitória de Murray e o abraço apertado com Del Potro no fim servem para nossa vida diária de tantas rivalidades. Perder também é uma arte desafiadora e ser segundo colocado não é nenhuma vergonha. Reconhecer a vitória e a superioridade do adversário é um exercício para a vida. De fato, nas Olimpíadas não há espaço para Dilma ou Temer. Então, “Fora Ambos” das arenas.

Tudo isto é história que se conta e se vive. Ainda poderemos revivê-la em forma de literatura. Aliás, não consigo largar o livro Pedra encantada e outras histórias, da nossa autora brasileira de ouro, Rachel de Queiroz, adquirido por dez reais na última Bienal de Campos. Fica a dica para preencher os dias antes e depois que o tédio se instalar com o fim das Olimpíadas, o fim do processo de impeachmente o fim das eleições municipais. Ressaca e dias melhores virão, mas teremos maratonas diárias pela sobrevivência neste país lindo e miserável. Até lá, continue lendo e se exercitando. O corpo e a inteligência agradecem.

 

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