Conclusões técnica e política da novela do Ideb de Campos

No dia 14 foi divulgado (confira aqui) o novo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) com aumento da nota de Campos. No mesmo dia, o prefeito Wladimir Garotinho (PP) gravou e divulgou (confira aqui) vídeo no Instagram, comemorando o fato. Que foi ironizado e questionado (confira aqui) em vídeo gravado e divulgado no dia seguinte (15), pelo professor Jefferson de Azevedo, ex-reitor do IFF e candidato do PT a prefeito.
— Parabéns a toda equipe da secretaria de Educação, aos professores, diretores, auxiliares e demais funcionários! Aos que só sabem criticar e atacar com discursos de salvadores da pátria, está aí mais uma prova que nosso trabalho está gerando resultados, transformando a vida das pessoas e cuidando do futuro da cidade. A educação é a base da transformação social — celebrou Wladimir no dia 14.
— A nota do Ideb leva em consideração, entre outros fatores, a aprovação do aluno e em Campos o governo adotou o sistema de aprovação automática. Ou seja, nossos estudantes passam de ano mesmo se não souberem ler ou escrever. O dublê de digital influencer que se diz prefeito deveria se preocupar com o futuro das nossas crianças e não em enganar a população com notícias maquiadas — bateu Jefferson no dia 15.
Ocorre que, na coluna Ponto Final publicada na quarta (21), os questionamentos de Jefferson foram questionados (confira aqui) não por políticos adversários, mas por dois colegas seus da própria academia: Eduardo Shimoda, professor de Estatística e de Indicadores de Qualidade da Educação no Mestrado e Doutorado em Planejamento Regional e Gestão da Cidade da Universidade Candido Mendes; e o cientista político George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos.
Questionado tecnicamente por seus pares da academia, Jefferson dobrou a aposta e reforçou seus questionamentos (confira aqui) na quinta (22). Quando disse ao blog Opiniões:
— O resultado do Ideb é mais uma maquiagem do governo Wladimir Garotinho e a educação do município continua nas piores colocações do Norte Fluminense, mesmo com um orçamento gigantesco. O único valor histórico que poderia ser anunciado em forma de ‘petáculo’ deveria ser o da taxa de aprovação, que, em 2023, foi de 95%, ultrapassando até mesmo a marca de 91% do período da pandemia, quando todas as escolas estavam fechadas — reafirmou Jefferson. Que recebeu o apoio de Gilberto Gomes, candidato a vereador e secretário de Comunicação do PT de Campos:
— Penso que neste momento eleitoral, além da análise dos dados do Ideb como importante indicador, pesa também a questão propositiva de uma candidatura como a de Jefferson, ligada diretamente ao tema da educação. Não é possível deixar de analisar o conteúdo político para adotar apenas uma leitura técnica sobre os dados do Ideb. Politicamente, concordo com Jefferson que a educação de Campos deixa muito a desejar — disse Gilberto.
Ontem, na sexta (23), após ser criticado diretamente por Jefferson como “ex-secretário de Educação”, sem ser nominado, o professor Marcelo Feres, candidato a vereador pelo PDT, devolveu na mesma moeda. E questionou diretamente (confira aqui) seu ex-colega de magistério no IFF, onde lecionou até 2017, e hoje opositor político:
— Vejo uma insistência descabida de candidatos a prefeito de Campos em negarem o fato de que a educação municipal está tomando o rumo certo, conforme refletido no Ideb 2023. É nítido que há uma torcida contra o avanço da educação se o mérito não couber em um modelo narcisista. O questionamento do Ideb 2023 de Campos foi uma encenação precipitada, irônica e sem base científica — rebateu Feres.
Ex-secretária de Educação de Campos de 1997 a 2003, nos governos Anthony Garotinho e Arnaldo Vianna, além de ex-vereadora, a professora Auxiliadora Freitas também se posicionou:
— Sou totalmente contra o sensacionalismo político criado em torno do Ideb. A qualidade da educação deve ser avaliada e analisada com mais profundidade. Quando o índice fica baixo tentam colocar como se a educação fosse péssima e quando fica um pouco melhor, como se fosse ótima. As análises precisam ser mais consistentes, menos simplistas, com fins que não sejam a qualidade da educação — pregou Auxiliadora.
Wladimir, Jefferson, Gilberto, Feres e Auxiliadora são políticos. Mesmo os que têm formação e experiência em educação são parte nas eleições de 6 de outubro, daqui a apenas 43 dias. A qualquer observador racional, deveria servir de referência nessa polêmica sobre o Ideb as posições técnicas, desapegadas de interesse político/partidário, do estatístico Eduardo Shimoda e do cientista político George Coutinho.
— Nos anos iniciais, de 2021 a 2023, o índice de aprovação aumentou de 91% para 95%, a nota Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica, que avalia conhecimento dos alunos em português e matemática) aumentou de 5,13 para 5,74 e o Ideb foi de 4,70 para 5,40. Parece que a proficiência dos alunos melhorou e aumentou a aprovação. Com mais conhecimento dos alunos, a aprovação aumenta. Não há indício que o aumento do Ideb foi produzido ‘artificialmente’ por aumento da aprovação. O índice de aprovação de Campos foi igual à média do Estado do Rio — lecionou Shimoda.
— O PT de Campos só não explicou por que, se há problema no Ideb, ele não está no instrumento de avaliação do MEC? Que está nas mãos do PT, o (ministro) Camilo Santana é um quadro do PT. Ao tentar desmoralizar o prefeito, se desmoraliza o instrumento. O PT local resolveu, por tática eleitoral, atacar Wladimir. Se houver um hipotético 2º turno sem o PT, ele vai apoiar a candidatura de Madeleine, de extrema-direita de fato? São 5.565 municípios no Brasil. Se maquiar é tão simples, por que não tivemos a explosão no Ideb Brasil afora? — questionou George.
Se a explicação de Shimoda sobre o aumento da nota de Campos no Ideb está correta, a crítica de Jefferson não tem objeto. E isso não depende de simpatia política, mas de fato estatístico. Se os questionamentos de George estão corretos, e o PT de Campos servir de apoio ao que o cientista político chama de “extrema-direita de fato”, o problema político pode ser mais grave. Não só para 2024, como para 2026. A ver.
Publicado hoje na Folha da Manhã.























