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“Guernica”, óleo sobre tela de 1937 sobre a Guerra Civil Espanhola (1936/1939), de Pablo Picasso
Geroge Gomes Coutinho, cientista político, sociólogo e professor da UFF-Campos
A paz e seus descontentes
Por George Gomes Coutinho
Não se deve esperar de um humanista qualquer apoio à guerra enquanto resposta para crises ou disputas. Já disse Georg Lukács (1885-1971) em contexto bélico: “quanto melhor, pior”. Ou seja, batalhas vitoriosas, de qualquer dos lados, não se dão sem morticínio. Falo evidentemente do contexto ucraniano em andamento. Mas, o mesmo se aplica a todos os outros conflitos armados em paralelo no mundo, de guerras civis a violações de um Estado-Nacional por outro. Chocante mesmo é que estes tantos conflitos simultâneos fora da Europa prossigam sendo quase que ignorados e não contem com a mesma comoção. Não é mera conjectura afirmar neste contexto que, para parcela relevante da população mundial, determinadas vidas valem mais do que outras. Lastimável e moralmente repugnante.
Retomando, penso que a primeira providência, diante de conflito armado, é lutar desesperadamente para restaurar a solução pela palavra e salvar vidas civis e militares. Portanto, defendo que nossos melhores esforços devem estar no apoio irrestrito ao encaminhamento de um desfecho negociado pela diplomacia profissional ou qualquer outra. Para agora, para já! Não creio que seja defensável moralmente ou politicamente qualquer outro encaminhamento. A questão é que o que julgo ser a única posição humanista possível parece não seduzir parte da opinião pública em Europa, EUA e até mesmo em nosso quintal.
Daqui por diante irei problematizar uma das respostas cognitivas ao conflito, um ponto de partida do entendimento humano facilmente sequestrado por interesses ideológicos ou econômicos. Falo da simplificação quase pré-reflexiva produtora de maniqueísmo. O problema é que terem parado preguiçosamente no ponto de partida cognitivo torna a defesa da paz na opinião pública uma causa difícil. Mas, antes eu gostaria de convidar o(a) leitor(a) a um exercício de imaginação.
Imagine uma praça onde há muitos e diferentes jogos sendo jogados ao mesmo tempo. Há a mesinha do pessoal do jogo de damas. Há outra com os concentrados num dominó. Mais adiante há o pessoal do carteado. Seria estúpido avaliar a performance dos jogadores de damas utilizando as regras de buraco. Ou incorporar os traquejos e jogadas ensaiadas do enxadrista ao participar de uma partida de gamão.
Nesta nossa praça lúdica imaginada vamos acrescentar um elemento fantástico: imagine que os resultados das mesas, dos jogos independentes, tenham potencial de produzir mudanças de impacto na praça, nos jogadores e na dinâmica dos próprios jogos. Mudanças não esperadas inclusive. Sem falar das consequências não desejadas.
De alguma maneira, e guardadas as devidas proporções, o mesmo procede no contexto da guerra no leste da Europa. Há níveis regionais, nacionais e transnacionais de interação entre os agentes. Há entes que são grupelhos atuantes e barulhentos. Também encontramos atores de grande porte, a indústria armamentista e instituições multilaterais robustas. Temos elementos geopolíticos, econômicos e ideológicos que incrementam em complexidade as interações e os processos de tomada de decisão.
É um secos e molhados sangrento do sistema internacional. Tem de tudo. Só não há factualmente anjos e demônios nitidamente identificáveis por quaisquer critérios que queiramos utilizar
Resumidamente o contexto implica o crime de invasão de um país soberano por outro, erros grosseiros de caráter geopolítico da Comunidade Europeia, a proximidade com as eleições de meio de mandato (mid term elections) nos EUA, a imprudência de uma Otan de existência indefensável, etc, etc, etc.. As variáveis são tantas, tão variadas e com tantos níveis de densidade, que é simplesmente incompreensível o alinhamento automático a qualquer dos lados. Quem dizer, incompreensível a todos que não tenham ganhos assegurados e interesses contemplados diretamente com a derrota ou destruição de um ou mais dos envolvidos no conflito.
O risco da excessiva simplificação, que não considera a complexidade de uma realidade organizada em diferentes níveis de interação, redunda nas aberrações que estamos vendo na grande mídia e nas redes sociais. Ocorre o esdrúxulo, vide os cancelamentos do estrogonofe ou de Dostoievski. Mas, temos muito mais. O consumo acrítico das informações disseminadas por agentes com interesses claros no tabuleiro da guerra, a narrativa desumanizante e o adesismo quase que por imitação, produzem o ambiente da opinião pública refratária a discussões e pressões em prol da paz.
A tragédia do momento é infinitamente mais manejável pela ação humana do que a pandemia e precisaria da colaboração dos tomadores de decisão direta ou indiretamente envolvidos. Estes, por seu turno, são sensíveis aos outros Estados-Nacionais, organismos multilaterais e, claro, aos diferentes níveis possíveis de atuação da sociedade civil em escala regional, nacional e transnacional. Neste cenário, uma opinião pública que clama pela paz é uma grande arma de dissuasão em cenário de guerra. Mas, a paz sempre teve seus descontentes, tal como agora.
Infelizmente o que a humanidade tem conseguido produzir de paz perpétua, como assinalou em triste ironia o maior filósofo de Königsberg, é ainda a paz dos cemitérios.
Grandes amigos e referências que Atafona perdeu recentemente, Monica Paes e Ronaldo Cravo, no saudoso bar deste, o “Não Me Viu” (Foto: Facebook)
De férias em Atafona, deixei de acompanhar o noticiário local. Ontem, após uma tarde de peixe e cerveja na ilha da Convivência, dormi cedo. Só no início da manhã de hoje, ao acordar, fui ver no WhatsApp o aviso do meu filho, o jornalista Ícaro Barbosa, da morte ontem (24) de Monica Paes. Que confirmei na sequência com o jornalista atafonense Arnaldo Neto. Aos 58 anos, ela foi encontrada em sua casa já sem vida, vítima provavelmente de um infarto. Seu corpo foi velado na capela em frente ao cemitério São João Batista, em São João da Barra, onde foi enterrado na manhã de hoje. Monica deixa a mãe, dois filhos e três netos.
Adolescente nos anos 1980, já conhecia Monica de fama, como uma das mulheres mais belas da região. Foi musa nos desfiles de carnaval sanjoanense na escola de samba O Chinês e da Turma do Brim, descoberta aos desfiles e passarelas pelo saudoso colunista José Carlos Pereira Campos, o Caquinho, à época no extinto jornal A Notícia, antes de migrar à Folha da Manhã. Monica sempre falava com um orgulho danado desses tempos em que era figurinha carimbada da redação de A Notícia, comandada pelo saudoso jornalista Dr. Hervé Salgado — mestre, entre outros, do meu pai, o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa.
Meu contato pessoal com Monica não se deu em redações, mas por conta de outra paixão comum, no início dos anos 1990. Foi quando passei num concurso público para a Uenf, saí da casa dos meus pais e passei a residir em uma Atafona pré-Porto do Açu, de aluguéis mais baratos que Campos, pelo menos fora do verão. Desde que me entendo por gente, desejava ter um cão, mas minha mãe, Diva Abreu, tem cinofobia, o medo irracional de cachorros. Como precisava de um para tomar conta da casa enquanto estava na Uenf, comprei ainda filhote um rottweiler, raça destinada à guarda. Que batizei de Rommel e com quem, seguramente, construí a relação de maior cumplicidade que tive ou terei com qualquer outro ser vivo.
Quando não estava na Uenf, passeava com Rommel por Atafona. Atraída pela beleza e imponência física do cão, assim como pela relação baseada apenas no olhar que eu mantinha com ele, Monica, também apaixonada por cachorros, se aproximou de mim no convívio atafonense. Muito simpática, articulada e boa gente, embora intransigente na defesa dos direitos dos animais, construímos ao longo desses últimos 30 anos uma relação de amizade. Nestas três décadas, que eu me lembre, nunca marcamos de nos encontrar. Mas perdi as contas de quantas vezes esbarramos num boteco ou na Festa da Penha, do profano ao sagrado, sempre comungando um papo e umas cervejas.
Disse acima que, nos últimos 30 anos, Monica e eu sempre nos encontramos em Atafona, sem nunca marcar. O que, percebo também só agora, não é integralmente verdade. Na última sexta (18), ela me mandou por WhatsApp o anúncio de um luau à beira-mar, no final à esquerda da rua dupla da antiga Caixa d’Água, no Erosão Bar, de outra amiga comum, a Inês Vidipó. Que foi minha professora de educação física no meu último ano de curso primário na Escola Santo Antônio, em 1982.
Quarenta anos depois, a última sexta teve noite de lua cheia, que eu já havia combinado com meu afilhado, Aquiles, passando o final de semana comigo em Atafona, de ver nascer na praia. Cumprimos o acordado e depois fomos caminhando pela noite, à beira do mar prateado, até o luau. Ironicamente, na única vez em que marcamos antes, encontrei Monica pela última vez.
Sempre sorridente e falante, tivemos nossa comunhão derradeira de papo e cerveja. Ela me contou com orgulho de um vira-latas preto abandonado que tinha encaminhado à adoção pela Inês, que passeava feliz pelo bar. Como tinha que acordar bem cedo na manhã seguinte, para agir uma caranguejada na minha casa no sábado, me demorei pouco, apesar do clima agradabilíssimo do luau.
E me despedi de Monica diante das ruínas da antiga Caixa d’Água e do Atlântico, à margem direita da foz do Paraíba do Sul, sob a lua cheia.
No domingo (20), último dia do verão, soube por meio de uma amiga comum que Dorinha Vianna, referência em Campos como bailarina, havia perdido seu pai, o comerciário aposentado Ivan Ribeiro Vianna. Ele morreu no sábado aos 87 anos, na UTI do Pronto Cardio, vítima de um câncer de próstata, contra o qual lutava há dois anos. Foi sepultado às 13h30 do domingo, no Campo da Paz. Viúvo desde 2010, deixa filha e neto únicos.
Tentei ligar a Dorinha ainda no domingo. Sem sucesso, enviei um áudio para prestar solidariedade. A de quem perdeu seu próprio pai há quase 10 anos e sabe de antemão que nada dito pode preencher o buraco enxadado no peito. Ela me respondeu com outro áudio na segunda, emocionado e emocionante, falando de como o pai sempre a incentivou em sua vida e carreira.
Como o final de semana na minha casa, na Atafona de lua cheia, foi movimentado para receber minha própria família, fui ouvir o áudio de Dorinha só no cair da tarde de segunda. Já com a casa vazia, saí de carro para observar a chuva que caía forte na praia. Uma a um, percorri os mirantes ao final das ruas transversais ao oceano interrompidas em barrancos pela erosão marinha.
Ouvi Dorinha falando do pai, enquanto observava as ondas revoltas da maré alta açoitando os barrancos. Diante do mar tingido de verde pelo vento sudoeste, de chuva, brigando contra o castanho do rio Paraíba e do vento nordeste, do sol vencido, mas ainda em luta contra a virada do tempo. Que era anunciada há mais de uma semana em Atafona pela presença das fragatas, chamadas pelos pescadores de tesoura, por conta dos seus rabos bifurcados.
De frente ao Atlântico, sob chuva torrencial, olhei por cima do meu ombro à direita e vi que também chovia pesado em Campos. Virei a cabeça no sentido oposto e percebi que as nuvens negras, em interseção momentânea entre céu e terra, iam até a serra do Imbé, fazendo fundos com Gargaú, do outro lado do Paraíba. Parte da Serra do Mar, soube depois que o efeito seria novamente pior ao sul, em Petrópolis, onde mais cinco vidas foram perdidas.
Em solidariedade à dor de uma amiga de tantos verões, inclusive o que tinha virado memória, e em respeito ao ciclo inexorável da natureza, agravado pela ação humana, vieram versos. Mas não sem antes deitar a prosa de Dorinha sobre seu pai, que chamava sempre pelo apelido carinhoso de “Papete”:
“Meu pai era comerciário. Trabalhou na sapataria A Social, onde era gerente. Começou a trabalhar na loja aos 16 anos. Entendia tudo de sapatos e chapéus! A loja era da nossa família. Saiu de lá aposentado. Sou filha única e Mariano, neto único. Era um m boêmio, mas nunca chegou atrasado no trabalho. E tinha orgulho disso! Ele abria a loja. Gostava de samba e carnaval. Ele e os amigos saíam no “Bloco Ninguém É de Ninguém”, que abria o carnaval de Campos na sexta-feira percorrendo o Boulevard e seguindo pela rua 7 de setembro. Muita história, muita história. Era de uma turma que gostava de viver a vida com intensidade”.
(Dorinha Vianna)
Ivan Ribeiro Vianna, o Papete, e Dorinha Vianna (Foto: Facebook)
pranto a papete
(a dorinha)
há oito dias de céu azul e sol a pino antes da chuva
fragatas anunciavam a virada do tempo em porvir
de atafona ao imbé, fundos de gargaú, e pela serra
sacrificou mais cinco vidas humanas em petrópolis
pensava nessas existências cortadas, menos íntimas
que as fragatas e suas birutas bifurcadas no rabo
sob a chuva, dentro do carro, outro verão é memória
ao açoite da maré alta em lua prenhe de outono
ouvia no iphone áudio da filha em pranto a papete
na peleja entre verde e castanho das ondas revoltas
Igor Franco, especialista em finanças e professor da Fafic
A Ucrânia, a Rússia e o Ocidente
Por Igor Franco
Em 24 de fevereiro, sob o pretexto de “desnazificar a Ucrânia”, Vladimir Putin lançava as tropas russas contra o território do país vizinho. Vinte dias depois, a OMS reporta 43 ataques a hospitais. Dez civis na fila do pão em Chernihiv, uma cidade já tomada pelos russos, também foram “desnazificados”, alvejados por soldados russos à queima-roupa. Cidades inteiras, como Mariupol, vêm sendo “desnazificadas” pelas tropas russas que bombardeiam a esmo áreas residenciais, fatos amplamente documentados pela imprensa independente e livre que cobre a guerra em território ucraniano. Nesse momento, mais de cem crianças ucranianas foram assassinadas pelo exército russo.
O ataque a alvos civis não é um efeito colateral da guerra. A prática é característica marcante nas ações do exército russo e foi exercitada com maestria em intervenções militares anteriores na Síria e na Chechênia. Na Ucrânia, porém, a covardia russa ganha contornos ainda mais dramáticos: acossados por uma campanha militar até agora desastrosa em termos dos objetivos traçados, Putin e suas tropas tentam esticar a corda em busca de abalar a moral civil ucraniana, forçando a rendição do governo Zelensky, que seria pressionado a poupar vidas da sua população.
O diagnóstico mais factível dá conta da arrogância de Putin ao decidir pela guerra: embebido pelo sucesso da rápida tomada da Criméia em 2014 e por relatos de seus generais — que jamais ousariam contestar um líder acostumado a varrer opositores —, o presidente russo acreditou que poderia encerrar a questão em poucos dias. No plano original, exército russo rapidamente esmagaria qualquer reação militar de um exército fraco, pouco treinado e pouco numeroso, impondo temor às tropas remanescentes. Como consequência, o inexperiente governo ucraniano capitularia diante de uma pressão popular simpática aos invasores.
Na prática, as tropas russas foram surpreendidas por forças ucranianas muito mais treinadas desde que perderam o território da Criméia, mais bem equipadas com armas da Otan e um sentimento de defesa da pátria que sobrepõe em muito a moral dos soldados russos enviados ao campo de batalha sem uma boa justificativa de seus comandantes. Como consequência, as baixas de tropas militares, segundo relatórios de inteligência dos EUA, estão na casa dos milhares, além de centenas de equipamentos destruídos, como tanques, helicópteros e aviões militares.
Diante do atoleiro em que afundou suas tropas e na impossibilidade de apresentar aos seus cidadãos efeitos concretos da guerra — chamada pela propaganda russa de “operação militar especial” —, Putin dobra a aposta no autoritarismo e nas ameaças crescentes. Cada vez mais parecido com uma ditadura, o regime russo aprovou leis duras contra veículos de imprensa e civis que noticiem a guerra por qualquer outra ótica que não seja a narrativa oficial do Kremlin. Forjados na escola de desinformação soviética, que levou à perfeição a disseminação de mentiras como verdades oficiais, os burocratas russos responsáveis pela propaganda do governo já elencaram a Otan, supostas armas biológicas e nucleares e nazistas como culpados pelo conflito.
Hoje, é dado como certo que grande parte da população russa não tem ideia do que ocorre além das suas fronteiras, já que a parca liberdade de expressão e independência jornalística que resistia ao autoritarismo russo foram liquidadas desde o início da guerra. Em pronunciamento recente, o presidente russo ameaçou realizar expurgos de dissidentes e colaboradores que se aproveitassem das benesses de viver numa democracia livre, enquanto mantém seus negócios na Rússia.
Outro erro crasso do autocrata russo, aparentemente, se deu fora da estratégia de guerra. Amparado na experiência histórica do pouco engajamento ocidental após as ações militares na Geórgia em 2008 e a anexação da Criméia, Putin desenhou o cenário com um fraco e impopular Biden nos EUA e o recém-empossado Scholz na Alemanha incapazes de liderar uma ação mais enérgica contra a Rússia.
A aposta de Putin na fraqueza do Ocidente tinha sua razão de ser. A conhecida ordem liberal passa por uma grande contestação além das suas fronteiras. A emergência de potências autoritárias, notadamente a China, mas da qual faz parte a própria Rússia empoderada pelo farto fluxo de recursos financeiros de uma Europa carente de gás e petróleo, faz sombra à hegemonia americana – bastião das democracias liberais. O possível surgimento de uma alternativa ao modelo que foi disseminado entre os países desde o fim da 2ª Guerra e, posteriormente, após a Queda do Muro de Berlim, é entendido pelo Ocidente como uma ameaça à estabilidade mundial. No lugar do trinômio “democracia, liberdade civil e economia de mercado”, China e Rússia propõem autoritarismo e uma espécie de simbiose entre os interesses políticos e econômicos, mas que encontra amplo espaço de crescimento entre uma população numerosa, bem escolarizada e ávida por mais conforto – ainda que isso signifique menos liberdades civis.
Para dentro de suas fronteiras, temas como xenofobia, desigualdade e identitarismo assombram os líderes políticos e abalam as estruturas tradicionais da democracia, que parecem incapazes de responder às angústias e insatisfações de cidadãos já acostumados à liberdade e à bonança material como parte da paisagem. Nesse cenário, líderes populistas e anti-estabilishment encontram terreno fértil para prosperar. Sob a justificativa de retomarem os valores tradicionais desse sistema, apenas contribuem para torná-lo ainda mais frágil e fragmentado. Para Putin, provavelmente a invasão do Capitólio no ano passado era um sinal forte de quão fraco o Ocidente estava.
A resposta das nações, entretanto, foi a maior da história em muitos aspectos, desde o fim da Guerra Fria. Rapidamente, as mais graves sanções econômicas já impostas foram aplicadas à Rússia, tornando, na prática, o país um pária internacional, desconectado das principais cadeias produtivas e financeiras do mundo. Além disso, bilhões de dólares em armas foram doados à Ucrânia e vem sendo determinante para a contenção dos agressores. Porém, o aspecto mais relevante da reação ocidental foi a condenação quase unânime da agressão russa e a reafirmação de postulados básicos de respeito à soberania, democracia e direitos humanos barbaramente e injustificadamente atacados.
Diante do maior desafio da ordem estabelecida no Pós-Guerra, entre o “otimismo temerário e a ruína final”, nas palavras de Hannah Arendt, cujas reflexões sobre a ameaça do totalitarismo tornam-se novamente atuais após quase 80 anos, que o Ocidente possa reencontrar o equilíbrio nos valores que permitiram ao mundo gozar do maior período de paz e desenvolvimento jamais vistos na história humana.
A essa altura dos acontecimentos, o horror imposto pelas tropas russas à população ucraniana só encontra apoio e simpatia nos degenerados e descerebrados que subordinam todo e qualquer valor aos objetivos políticos de sua simpatia. Que importa a vida de milhares de pessoas quando está em jogo a derrocada dos valores liberais que tanto odiamos? Desses, nada se espera ou surpreende. Pessoas com o mínimo senso moral ou de compaixão já entenderam que, nessa guerra, o papel de agressor e vítima está perfeitamente definido. O lado certo e o errado poucas vezes foram tão explícitos.
Segundo a mesma fonte do alto escalão da Prefeitura, os problemas do secretário seriam relativos à desorganização em processos administrativos internos, inclusive algumas licitações. Mas, nos últimos 15 dias, após a reunião entre Feres e Wladimir, as coisas teriam passado a andar melhor. Foi estabelecido entre os dois um plano de metas, que o secretário se comprometeu a cumprir em 90 dias. Se não conseguir, ele mesmo pediria para sair.
Para a melhora, segundo a fonte da Prefeitura, teria contado também a exoneração de nomes na Educação indicados pelo vereador Maicon Cruz (PSC). Ele assinou um termo de compromisso pela reeleição do governista Fábio Ribeiro (PSD) a presidente da Câmara, mas votou no oposicionista Marquinho Bacellar (SD). Sem o pessoal de Maicon, Feres ganhou mais liberdade.
Sei que prometi dar uma pausa no blog durante minhas férias. Mas volto excepcionalmente pela poesia parida no sofrimento do povo ucraniano, invadido pela poderosa Rússia do autocrata Vladimir Putin desde 24 de fevereiro último. Como escrevi em artigo publicado dois dias depois (26) e intitulado “Invasão da Rússia à Ucrânia — O mundo nunca mais será o mesmo”, os fatos geopolíticos do final dos anos 1980 até a invasão da Ucrânia neste início de 2022 revelam uma história sem santos.
Isso devidamente posto, vi no dia de hoje, em vários sites nacionais e internacionais, uma foto impactante em seus muitos significados. Na janela de um apartamento de Kiev, capital da Ucrânia, os civis que lá residem improvisaram barricadas nas janelas, temendo o bombardeamento russo, usando livros. Deles, os autores russos, soviéticos e ucranianos que pude ler durante a vida gritaram alto. Para que sejam ouvidos, sobretudo pelos novos especialistas em Rússia que nunca os leram, achei por bem ecoá-los em versos.
Barricada improvisada com livros, para se proteger do bombardeamento russo, em um apartamento civil de Kiev (Foto: Reprodução/Instagram/Lev Schevchenko)
barricada em kiev
(ou aos especialistas em rússia)
pequenos burgueses do teatro encarnado de gorki
os especialistas em rússia que não leram dostoiévski
morrerão sem sabê-la irmã karamasov da ucrânia
sob as pedras de caim no holodomor e chernobyl
guerra e paz de tolstói para correr com napoleão
tchuikov a sangrar hitler de stalingrado a berlim
nestes tempos de vladimir, não maiakóvski, o putin
a nuvem de calças é a fumaça dos mísseis sobre civis
sem braguilha, cessar-fogo ou corredor humanitário
contra humanidade ursa de quem ignora soljenítsin
resistem atrás de livros os que nos deram lispector
Como há outros entrevistados de peso nacional e estadual em agendamento, pode até ser que, ainda neste mês de março, eu faça alguma participação especial numa manhã da Folha FM 98,3. O que, se vier a ocorrer, será previamente anunciado aqui. No mais, é isso, caro leitor. No início de abril, se Deus quiser, a gente se vê. Abraço fraterno e inté!
Alcimar e Arthur também analisarão as sanções econômicas do Ocidente à Rússia também no Brasil e no mundo. Por fim, os dois falarão sobre a possível influência do conflito entre os dois maiores países da Europa nas urnas brasileiras de outubro.
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Mulher ferida em explosão de edifício durante ofensiva militar russa em Chuguiv, no leste da Ucrânia, na manhã de quinta (Wolfgan Schwan/Anadolu Agence via Getty Images)
Arthur Soffiati, historiador
A invasão da Ucrânia
Por Arthur Soffiati
Não sei bem se por ter sido professor de história durante 40 anos ou por me intrometer publicamente em assuntos que me interessam, algumas pessoas estão solicitando minha posição sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia. Esclareço, para decepção dos que me procuraram, que ficarei em cima do muro. Apenas farei considerações para que as pessoas interessadas em se posicionar diante do conflito possam contar com mais base. Creio que essas considerações revelarão, de alguma forma, a minha posição para os que tiverem olhos de ver e ouvidos de ouvir. Não se trata de um postura covarde, mas de respeito às duas posições mais fáceis: sim ou não.
Em 1625, o jurista holandês Hugo de Grotius publicou “O direito da guerra e da paz”, lançando as bases do direito internacional atual. Até então, a guerra se definia por razões pragmáticas, de forma maquiavelista, embora Maquiavel fosse um ilustre desconhecido dos governantes. Não havia regras que norteassem invasões e guerras. Não havia claros motivos ideológicos. A guerra era uma arte exercida por reis e comandantes. As bases do direito internacional também não foram levadas em consideração. Grotius não passou de mais um pensador relegado a plano inferior.
Os motivos ideológicos começaram a se definir no século XVIII, principalmente com a Independência das 13 Colônias da América do Norte, que deu origem aos Estados Unidos, e com a Revolução Francesa, de 1789. Os campos conservador, liberal, progressista e anarquista começaram a ser definidos. A independência das Treze Colônias não era mais um questão do mais forte e sim o direito de uma Inglaterra fora da Europa a se tornar independente livrando-se da monarquia (ainda que a caminho do parlamentarismo) e adotando uma república com base nas ideias do europeu John Locke. A Revolução Francesa consagrava o direito do povo de proclamar uma república progressista contra uma aristocracia monarquista retrógrada.
As guerras do século XIX na Europa assim com as guerras de conquista colonial não invocavam o direito do mais forte, mas razões ideológicas. Invocava-se o progressismo contra o conservadorismo e a civilização contra a barbárie. A conquista de uma colônia era justificada pelo dever de civilizar o bárbaro. A Primeira Guerra Mundial foi a última guerra europeia com repercussões extra-europeias. Ela foi travada por dois blocos. Inglaterra e França consideravam-se países liberais e progressistas, vendo Rússia, Alemanha e Áustria como países atrasados, ainda ligados ao Antigo Regime europeu. O Império Otomano, então, era um país atrasadíssimo por nem sequer ser europeu, mas muçulmano. Era um homem doente. O Acordo de Sikes-Picot, que dividiu o Império Otomano entre Inglaterra e França antes mesmo do fim da guerra, e a Declaração Balfour, que reconheceu o direito dos judeus a um lar nacional na Palestina, justificavam-se por expressarem o moderno contra o atraso.
A Revolução Russa de 1917 usou como justificava tratar-se de uma luta do comunismo contra o capitalismo e o imperialismo. Havia grande sinceridade nos revolucionários, mas logo percebeu-se que não seria fácil livrar-se do capitalismo. Daí a política leninista de um passo atrás para dar dois passos à frente e a política estalinista dos planos quinquenais para tornar a União Soviética competitiva num mundo capitalista. Hitler também se posicionou contra o capitalismo liberal em seu livro “Mina luta” e em seus discursos. Trata-se de criar uma nação forte, até mesmo um império em que empresários, políticos e operários se unissem contra a opressão e a exploração do capitalismo. Tudo indica que havia sinceridade em Hitler na sua luta “revolucionária”. A caracterização do nazismo e do fascismo como regimes reacionários e direitas foi desenhado posteriormente. Edgar Morin, comunista e militante durante a Segunda Guerra, escreve em “Lições de um século de vida”, que a resistência marxista chegou a acreditar que Hitler se estabilizaria na criação do seu espaço vital e terminaria a guerra. Ele escreveu que foi um grande erro da sua parte e que dele se arrepende até hoje.
O pacto nazi-soviético de 1939, dividindo a Polônia entre os dois países, assim como a invasão da União Soviética por Hitler em 1941 foram ideologicamente justificados. Jorge Amado e Joel da Silveira defenderam o pacto. Os Estados Unidos defenderam o lançamento de duas bombas atômicas sobre cidades japonesas em 1945. A Guerra Fria foi justificada por Estados Unidos e União Soviética. Atos indefensáveis contam sempre com justificativas ideológicas.
Geralmente, são mentirosas. Se vale argumentar que a Ucrânia é parte histórica da Rússia, o mesmo país pode reivindicar o Alasca. O Brasil pode reivindicar a Uruguai e a Guiana, pois são países que já integraram o país. As nações colonialistas da Europa Ocidental podem reivindicar suas ex-colônias na África. Por outro lado, podemos condenar a existência da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) porque ele foi criado durante a Guerra Fria, que não existe (ia) mais. Alega-se que a organização é o órgão de defesa da União Europeia. Neste caso, Estados Unidos e Canadá deveriam ser excluídos.
Argumenta-se também que, em pleno século XXI (como se tempo fosse argumento sólidos), não cabe mais uma guerra convencional, com invasão de um país por outro. Pode não caber na Europa, mas cabe ainda no Oriente Médio, o maior campo de guerra dos últimos cem anos. França, Inglaterra, União Soviética e Estados Unidos não hesitaram em invadir países do Oriente Médio, considerando uma área atrasada do mundo em que invasões e guerras são justificáveis. Iraque, Afeganistão, Iêmen, Síria, Líbano e Palestina podem ser invadidos e bombardeados. Já Israel, não, por se tratar de um país europeu fora da Europa.
A esquerda sente nostalgia pela União Soviética. Afinal, foi a entidade política que prometeu acabar com o capitalismo e implantar o comunismo mundial. Não conseguiu nem o comunismo num só país. Assim, fica difícil para a esquerda nostálgica admitir que Putin é um político autocrata, conservador e moralista. Fica fácil colocar o selo de nazista no presidente da Ucrânia. A simplificação é uma operação mental que facilita posicionamentos.
Com base nesses argumentos, tenho condição de me posicionar, mas não o farei.
“A Câmara vai ser forte. Diferente dessa presidência (…) de hoje, que tenta jogar contra a população pautando aumento de impostos e servindo de puxadinho da Prefeitura”. Foi o que projetou para o biênio 2023/2024 o vereador de oposição Marquinho Bacellar (SD). Ele venceu a eleição a presidente da Câmara Municipal de Campos por 13 votos a 12 na sessão do dia 15. O resultado chegou a ser proclamado pelo atual presidente, o situacionista Fábio Ribeiro (PSD). Que foi derrotado no voto em sua tentativa de reeleição, junto com o governo Wladimir Garotinho (PSD). Fábio poderia ter marcado o pleito até 15 de dezembro, mas resolveu adiantá-lo nove meses.
Marquinho Bacellar, vereador de oposição eleito no voto presidente da Câmara no dia 15, em pleito anulado pela atual Mesa Diretora no dia 24 (Foto: Divulgação)
Folha da Manhã – O voto de Nildo em você a presidente da Câmara, na sessão do dia 15, não foi registrado em ata. Mas ele declarou na tribuna que era seu, na sua vitória por 13 votos a 12. No dia 24, por 3 votos a 1, a atual Mesa Diretora da Câmara entendeu que o voto dele não valia. E anulou sua eleição a presidente da Casa em 2023/2024. A judicialização agora é inevitável?
Marquinho Bacellar – Estamos vendo uma das maiores vergonhas da história da Câmara de Campos. Perderam no voto, em uma eleição que eles anteciparam, e estão criando essa cortina de fumaça. O resultado não vai mudar. A maioria venceu e isso não tem discussão. Tenho certeza de que não vai mudar. Agora temos que seguir a votação para os outros cargos da Mesa.
Marquinho – O grupo de Garotinho vive um canibalismo eterno. É um querendo engolir o outro o tempo todo. Mas eles adiantaram porque são prepotentes, arrogantes e achavam que iriam vencer. Tudo foi feito na calada e com o consentimento do prefeito, que também é, desde o início do governo, um exemplo de prepotência, soberba e incompetência.
Marquinho – Há um entendimento até pelo jurídico da Câmara de que essa eleição deve continuar para que a pauta, posteriormente, siga seu rumo natural.
Folha – A sua eleição se deu com a traição de Maicon, que assinou termo de compromisso pela eleição de Fábio, mas votou em você. Agora veio essa anulação, no tapetão, do resultado do voto dos vereadores. Quando a política de Campos vai se pautar por parâmetros mais dignos?
Marquinho – Disputei a eleição para a presidência da Câmara e venci com o apoio de (outros) 12 vereadores. Quem antecipou e perdeu foi o grupo do prefeito. Antes da votação, membros do grupo do prefeito xingaram e atacaram o vereador Maicon Cruz. E depois choram porque ele votou contra? Enquanto houver um Garotinho no poder não vamos ver parâmetros dignos em Campos. Essa é a verdade. Qualquer campista sabe que eles fazem de tudo pelo poder. E quanto à “traição”, o vereador foi colocado dentro de uma sala fechada, sem acesso ao próprio celular, sendo coagido a votar em um candidato. Ele assinou um documento sem validade alguma, por medo. Eu não trato o caso como traição. Trato como coragem de quem se coloca de frente para encarar um grupo político que já fez tanta maldade na cidade.
Folha – Após sua eleição a presidente da Câmara, você agradeceu por ela à articulação do seu irmão, o secretário estadual de Governo Rodrigo, e de Caio Vianna, secretário municipal de Niterói. Como se deu o trabalho deles?
Marquinho – Ao contrário de Wladimir, que é um menino mimado e birrento, que só desagrega, meu irmão Rodrigo Bacellar e Caio Vianna sabem que o momento pode união de forças. Prova disso é que temos o apoio de novas e antigas forças políticas da cidade. Já o prefeito segue cada vez mais sozinho com sua arrogância. Quem achava que ele era diferente do pai, agora está vendo. Se bobear, Wladimir é pior do que Garotinho. O nível de imaturidade dele é assustador. E cabe lembrar que, em 2021, na eleição para o primeiro biênio, tanto o Caio (que, na verdade, fez um acordo com o grupo de Wladimir para dar ao governo a vitória na Mesa Diretora no biênio 2021/2022) quanto o meu irmão orientaram os seus grupos políticos a votarem como quisessem, com o objetivo de dar governabilidade ao governo que iniciava. Mas os dois viram que o prefeito não queria governabilidade, e, sim, uma Câmara que fosse subserviente às ordens dele.
Folha – Rodrigo e Caio chegaram a anunciar uma aliança para 2020, que se desfez antes de começar a campanha. Se ela tivesse se mantido, o resultado daquela eleição a prefeito teria sido diferente? Refeita agora na Câmara, essa união pode durar até o pleito de 2024?
Folha – Em 2020, a aliança com Caio teria se desfeito porque Rodrigo queria indicar o nome a vice-prefeito e, após a eleição da Câmara, o nome para presidi-la. O que tornaria o pedetista, se eleito, refém do seu grupo. Para 2024, quais termos deveriam ser buscados a um acordo?
Marquinho – A aliança se desfez porque nosso grupo optou por lançar uma candidatura (na verdade, a ruptura de Rodrigo com Caio se deu em março de 2020 e, só cinco meses depois, em agosto daquele ano, a candidatura de Dr. Bruno Calil foi lançada). Sempre tive uma excelente relação com Caio e todos amadurecemos muito. Agora temos que seguir juntos, mas sem ficar pensando em eleição de 2024. Temos eleição este ano com Rodrigo buscando a reeleição na Alerj e Caio como pré-candidato a deputado federal. O pensamento agora é no fortalecimento de um grupo para trazer recursos e ajudar o nosso município.
Folha – Campos saiu de 2020 dividida em três polos políticos: Wladimir, prefeito; Caio, que fez um segundo turno muito duro; e Rodrigo, deputado estadual que, em 2021, ganhou a musculatura do Segov. Se dois desses polos se unirem, o terceiro perde? Há espaço para um quarto?
Marquinho – Como eu disse, não se trata de uma união contra o prefeito. O maior adversário de Wladimir é ele, mesmo. A derrota ali é de dentro para fora. Vamos dialogar não só com Caio, mas com outros quadros que ofereçam alternativas e nos ajudem a conduzir Campos para um caminho de desenvolvimento e libertação.
Folha – A perda de popularidade de Rafael em 2020 impressionou tanto quanto a votação que o elegeu prefeito no turno único em 2016. O ex-prefeito pode voltar ao jogo como protagonista? Como reage às acusações de que grupo político dele hoje estaria abrigado no seu?
Marquinho – Rafael encontrou uma cidade destruída, quebrada, saqueada. E cometeu erros. Poderia ter escolhido alguns quadros diferentes e dialogado mais com a população. Sobre ele voltar ao jogo, depende dele, de forma gradual. Mas vamos pensar aqui. Garotinho foi preso cinco vezes e está aí, querendo voltar ao jogo. E Rafael, que teve seus erros, não pode voltar? Em relação aos quadros, é natural alguns que estejam não só em nosso grupo, como também na Prefeitura.
Folha – Dos 25 vereadores, até maio de 2021, você era a voz de oposição mais forte na Câmara. Caso você confirme na Justiça sua eleição, confirmando depois uma Mesa toda da oposição, Wladimir deve temer ser engessado ou até um impeachment?
Marquinho – Ele vai ver que não estamos aqui para perseguir. Vai ver que não precisa nos medir pela régua deles. Nosso mandato será pautado pela firmeza, mas com respeito. E por falar em respeito, foi o que faltou por parte do poder público até agora. O prefeito trata vereadores como capachos. Isso vai mudar. A Câmara vai deixar de ser um puxadinho da Prefeitura e fazer valer a sua força em defesa de Campos.
Marquinho – Essa aí é a narrativa de Wladimir e do Chucky (nome do personagem que batiza uma franquia de filmes de terror, com o qual o então vereador Marcos Bacellar apelidou o ex-governador) Garotinho. Veja como Mocaiber trata o meu pai até hoje. Com carinho e respeito. Pergunte na Câmara aos funcionários da Casa sobre o carinho que todos têm pelo meu pai. O que aconteceu ali foi que o meu pai não aceitou entrar na armação de Garotinho contra Mocaiber (mesmo com policiais federais tentando intimá-lo a não o fazer, Bacellar garantiu na Câmara a recondução de Mocaiber ao cargo de prefeito, após este ser afastado na Telhado de Vidro). Eles perderam no voto na suplementar de 2006 e tentaram tomar Campos no tapetão. Veja então quem são os que gostam de golpe e de emparedar. Quem emparedou e extorquiu alguém em Campos foi Garotinho, que mandou segurança armado na casa de um empresário para pedir R$ 500 mil (como foi denunciado na operação Caixa D’Água, derivada da Laja Lato, que rendeu a Garotinho a terceira das suas cinco prisões). Quem diz isso é próprio empresário, e isso foi amplamente divulgado. Entre nós não existe tática para emparedar o prefeito. Isso é choro de quem quer justificar o fracasso que é o seu governo.
Marquinho – Esse senhor tem credibilidade para falar o quê? Preso cinco vezes, alvo de centenas de processos, ficha suja e quadrilheiro. Ele só está criando desculpas para justificar seu instinto de escorpião e para fazer chantagens.
Folha – Além de tentar reeleger Rodrigo com uma bela votação a deputado estadual e Castro a governador, quais são os objetivos do seu grupo nas eleições de outubro? Seu pai, Marcos Bacellar, veio do sindicalismo, como Lula. E a aliança de Castro com o presidente Bolsonaro?
Marquinho – Vamos trabalhar muito para reeleger Cláudio Castro e Rodrigo. E temos que reconhecer a importância do governador para Campos e região. Fez em pouco tempo o que não fizeram em décadas. Reabriu o Restaurante do Povo, envio recursos para colocar salários dos servidores de Campos em dia, ajudou a Saúde, limpou canais, trouxe com Rodrigo Bacellar o Segurança Presente, campo do Farol, recuperou estradas, entre muitas outras ações em curso, como a reforma do HGG. Sobre a política nacional, temos aliados que pensam de uma forma, outros com outras linhas. Mas somos grupo e vamos debater com nossas lideranças.
Folha – Caso confirme sua eleição na Justiça, ou numa nova eleição, qual seria seu principal objetivo como presidente da Câmara?
Marquinho – Nossa eleição está confirmada. O resto é choro, jogo sujo e tentativa de golpe. Nosso objetivo é acabar com essa história de Câmara ajoelhada aos pés do prefeito. A Câmara vai ser forte e participar de debates sobre desenvolvimento, geração de empregos, Saúde, Segurança e Educação. Diferente dessa presidência da Câmara de hoje, que tenta jogar contra a população pautando aumento de impostos e servindo de puxadinho da Prefeitura.
Prefeito Wladimir Garotinho e os vereadores Maicon Cruz, Fábio Ribeiro, Marquinho Bacellar e Luciano Rio Lu (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
“Vou mandar vereadores para a Ucrânia”
“Vou mandar os vereadores lá para a Ucrânia. Vocês têm o Wladimir de boa e lá tem o Vladimir Putin. Mas, se precisar, a gente vira o Putin também”. Foi o que disse na noite de quinta (24) o prefeito Wladimir Garotinho (PSD), em discurso na inauguração da Vila Olímpica Valdir Pereira, no Parque Guarus. Com o mundo inteiro atento à injustificada invasão da Rússia de Vladimir Putin à nação vizinha e independente da Ucrânia, se foi uma brincadeira, foi de péssimo gosto. Gostando ou não da decisão dos vereadores, sobretudo da oposição, o prefeito é obrigado a respeitá-los. Como a democracia à qual seu xará russo tem tão pouco apreço.
Wladimir falou mais: “Tem outros por aí, como o vereador do grau, que teve a chance de ouro de estar ao nosso lado para ajudar ao povo do Eldorado, mas preferiu se vender. Ele esteve na minha antessala, na véspera da eleição, pedindo dinheiro. E eu falei: ‘Pode ir, pode ir com Deus, pois o dinheiro que nós temos é para fazer obra e cuidar do povo’”. Referiu-se ao edil Luciano Rio Lu (PDT), que tem sua base no Eldorado e já apresentou requerimento para oficializar a prática do “grau”. Ou conduzir motos empinadas numa só roda. Rio Lu chamou de “esporte” o que é crime pelos artigos 291, I e 308 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB).
Apressado come cru
De São João da Barra, Maicon foi lá candidato a vereador derrotado duas vezes. Ganhou projeção em Campos como coordenador do secretário estadual de Educação do governo Wilson Witzel (PSC), Pedro Fernandes, preso em setembro de 2020. Aos 31 anos, Maicon talvez ainda não tenha projetado seu ato. Trair sua palavra pode ser hoje até defendido pelos beneficiados. Mas será lembrado quando o aliado virar opositor. Foi tão ingênuo e imediatista quanto o experiente Fábio Ribeiro. Por ter apostado sua eleição na palavra de alguém que foi avisado antes, por quem conhece Maicon desde criança, que não tinha motivo para confiar.
Ônus da prova é de quem acusa
A acusação mais grave de Wladimir, no entanto, foi ao “vereador do grau” do Eldorado. Como a referência parece clara, afirmar que o parlamentar “preferiu se vender” e que “esteve na minha antessala, na véspera da eleição, pedindo dinheiro” são gravíssimas. Ainda que a segunda versão estivesse sendo ventilada nos bastidores e redes sociais, antes mesmo da votação do dia 15, o ônus da prova é de quem acusa. Sobretudo quando tal denúncia é feita por uma autoridade, publicamente, em um ato oficial. Se tem provas do que diz, deveria ter feito a denúncia oficialmente. Se não tem, pode ter que responder judicialmente sobre isso.