A pauta identitária de gênero ganhou espaço oficial na maior e mais importante instituição de ensino de Campos e região. O próprio reitor do IFF, professor Jefferson Manhães de Azevedo, divulgou agora há pouco nas redes sociais: “A pessoa (no IFF) poderá utilizar o nome com o qual se identifica e é socialmente reconhecida, que pode ser diferente de seu nome civil (…) sem necessariamente ter relação com o sexo atribuído ao seu nascimento”.
Abaixo, sem emissão de juízo de valor, segue a íntegra da informação:
(Arte: IFF)
IFF publica Ofício Circular sobre o uso de nome social e reconhecimento de gênero
A pessoa poderá utilizar o nome com o qual se identifica e é socialmente reconhecida, que pode ser diferente de seu nome civil, bem como ter reconhecida a forma como se relaciona com as representações de masculinidade e feminilidade, sem necessariamente ter relação com o sexo atribuído ao seu nascimento.
O nome social será incluído a qualquer tempo nos documentos oficiais e nos registros dos sistemas de informação, de cadastros, de programas, de serviços, de fichas, de formulários, de prontuários e congêneres.
Cláudio Castro, Wladimir Garotinho, Rodrigo Bacellar, Rodrigo Neves, Caio Vianna, Paulo Ganime, Lindbergh Farias, Luiz Inácio Lula da Silva, Natália Soares, Aluysio Cardoso Barbosa e Campos dos Goytacazes (Montagem: Joseli Mathias)
Castro traz governo do RJ a Campos
Como anunciado (confira aqui) pelo portal Folha 1 na noite de segunda (19), em matéria da jornalista Dora Paula Paes, o governador Cláudio Castro (PL) trará seu gabinete itinerante ao Norte Fluminense nos dias 5, 6 e 7 de agosto. No dia 6, feriado municipal de São Salvador, padroeiro de Campos, está marcada uma reunião na Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL), o que confirma o prestígio político do setor produtivo goitacá. Nos bastidores, o prestígio político do governador será disputado entre os palanques de dois opositores, mas aliados do governador: o prefeito Wladimir Garotinho (PSD) e o secretário estadual de Governo Rodrigo Bacellar (SD).
Planície disputada para 2022
A decisão da vinda de Castro é anterior ao lançamento da pré-candidatura a governador do ex-prefeito de Niterói Rodrigo Neves (PDT) em Campos (confira aqui), na última sexta (16). Mas foi reforçada por este movimento. Quando Caio Vianna (PDT), que em 2020 disputou com Wladimir um acirrado segundo turno a prefeito e agora é secretário de Ciência e Tecnologia de Niterói, teve também lançada sua pré-candidatura a deputado federal. Como esta coluna detalhou em sua última edição (confira aqui), no sábado (17), já começou a disputa da eleição ao Palácio Guanabara. E Campos tem cumprido parte importante nela.
Visita de deputado do Novo
A pouco mais de 14 meses das urnas, Campos e a região entraram mesmo no roteiro de quem disputará mandatos em 2022. Alguns, da maneira mais republicana possível. É o caso do deputado federal Paulo Ganime (Novo), que aproveitou o recesso parlamentar para percorrer 10 municípios do Norte e Noroeste Fluminense entre segunda e a próxima sexta (23). Formado em engenharia de produção pelo Cefet-RJ, ele ontem visitou às instalações de um ex-Cefet, o atual Instituto Federal Fluminense (IFF), em Cambuci. E hoje visita o campus Campos-Centro do IFF, antes de se reunir com o prefeito Wladimir e de também prestigiar a CDL-Campos.
Liberal pela educação pública
A relação de Ganime com o ensino tecnológico federal não se limita à sua formação. Com o reitor Jefferson Manhãs de Azevedo em viagem, o parlamentar será recebido no IFF por seu diretor de relações institucionais, Fernando Ferrara, e o diretor do campus Campos-Centro, Carlos Alberto Henriques. Numa instituição de ensino pública geralmente associada à esquerda, o deputado liberal ligado ao movimento RenovaBR tem serviços prestados. Foi um dos que lideraram uma emenda de bancada no valor total de R$ 5,35 milhões ao IFF. À qual também destinou mais duas emendas pessoais no valor total de R$ 1,04 milhão.
Petista na semana que vem
Entre a visita de Rodrigo Neves na sexta passada e a vinda do governador Cláudio Castro com daqui a duas semanas, na próxima quem também estará em Campos é o ex-senador Lindbergh Farias (PT). Atualmente vereador no Rio e pré-candidato a deputado federal em 2022, ele chega na segunda (26) à noite, após passar por Macaé. Na terça (27) de manhã, dará entrevista ao programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3. A assessoria do deputado Paulo Ganime também tentou marcar uma entrevista no principal programa da rádio mais ouvida de Campos. Mas como as datas desta semana já estavam preenchidas, a dele foi marcada para 6 de agosto.
Enquanto Lula não vem
Ainda na segunda à noite, Lindbergh dará o pontapé inicial ao programa “Campos com Lula”. Feito a pedido do próprio ex-presidente, líder em todas as pesquisas presidenciais para 2022, a ideia é aglutinar simpatizantes à sua tentativa de voltar ao governo federal, em cidades consideradas estratégicas. E Campos é uma delas, que deverá receber posteriormente o próprio Lula. Como ocorreu em dezembro de 2017, quando ele deu uma entrevista exclusiva à Rádio Continental (confira aqui), hoje Folha FM, que repercutiu (confira aqui e aqui) em toda a mídia nacional. Na terça, após o Folha no Ar, Lindbergh vai à Uenf e à ocupação de Novo Horizonte. Na quarta (28), vai ao IFF.
Psol busca protagonismo
Entre a visita de liberais e petistas à cidade, ontem o Psol goitacá enviou um artigo (confira aqui) ao blog Opiniões, hospedado no Folha1. Nele, o partido cobrou planejamento urbano e participação popular nas decisões relativas aos espaços públicos da cidade. E faz críticas ao desperdício dos royalties e aos Garotinho, que tem Wladimir na Prefeitura. Assim como à gestão passada do ex-prefeito Rafael Diniz (Cidadania) e ao governo federal Jair Bolsonaro (sem partido). Revelação da eleição de 2020 como candidata a prefeita do Psol, a professora Natália Soares disse (confira aqui) ao Folha no Ar do último dia 8: “a gente busca, sim, um protagonismo (em 2022)”.
Exemplo de Aluysio
Fundador deste jornal, que batiza o Grupo Folha, e titular desta coluna de opinião de 8 de janeiro de 1978 até sua morte, em 15 de agosto de 2012, o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa ontem completaria 85 anos. A data foi lembrada por sua família, amigos, colegas de redação e leitores. Em vida, se orgulhava de ter fundado a Folha da Manhã para transformá-la no jornal mais lido de Campos com apenas dois meses de circulação. Posição que ocupa até hoje. Infelizmente, ele não viveu para ver a Folha FM se transformar na rádio mais ouvida de Campos com apenas duas semanas no ar. Mas o motivo é o mesmo: seu exemplo.
O Psol de Campos, cuja candidatura a prefeita de Campos da professora Natália Soares foi considerada a revelação das últimas eleições municipais, enviou um artigo ao blog. Que cobra planejamento urbano e participação popular nas decisões relativas à cidade e seus espaços públicos. E faz críticas ao desperdício dos royalties e ao clã político dos Garotinho, que hoje tem Wladimir (PSD) à frente da Prefeitura de Campos. Assim como à gestão passada do ex-prefeito Rafael Diniz (Cidadania) e ao governo federal do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).
Confira abaixo:
O Psol Campos pelo direito à cidade
Desde a década de 1960, quando o desenrolar da luta de classes levou a eclosão de uma série de revoltas e movimentos populares pela ampliação dos direitos civis, entrou em pauta uma nova demanda até então pouco difundida: o direito à cidade. Toda a ebulição desse contexto de época acabou captada pela sensibilidade e leitura afiada do filósofo marxista Henry Lefebvre, que em sua obra clássica de 1968, exatamente sob o nome “O direito a cidade”, acabou por influenciar todas as gerações seguintes de geógrafos, urbanistas e estudiosos do tema.
Aquela cidade fordista de então, que funcionava como uma “máquina de morar”, extensão das fábricas e do ambiente de trabalho, espaço desenhado estrategicamente pelo capital para ser trânsito e nunca de permanência, ser desencontro, um ambiente mercantilizado e alienante, se tornou insuportável para a classe trabalhadora. Se a sociedade urbana-industrial fez das cidades o confinamento de onde não escapamos, que ao menos tenhamos o direito de incidir sobre como ela deve ser. Trata-se de um direito coletivo e não individual, mas que afeta a todos, ainda que de forma desigual.
Reivindicando essa tradição, queremos um planejamento urbano que seja funcional no que diz respeito ao básico (mobilidade, habitação e saneamento por exemplo), mas que, simultaneamente, rompa com a colonialidade e o desenvolvimentismo que despreza nossas diferentes formas de produzir o espaço, nossas vivências comunitárias, nossas culturas. Desejamos mais autogestão, mais participação popular e não que tecnocratas decidam de cima pra baixo como devem ser nossos bairros, nossas ruas, praças, festas e lugares de convívio. Queremos mais espaços abertos, áreas verdes e menos concreto, menos verticalização, menos poluição visual. Lutamos por cidades mais sustentáveis e ecológicas. Pela acessibilidade e a superação do capacitismo. Por cidades menos patriarcais, que sejam pensadas por mulheres e para as mulheres, que tenham segurança, que enfrentem o assédio em transportes e espaços públicos, seja com ônibus femininos ou vagões separados por gênero, que tenham mais equipamentos públicos, fraldários, locais seguros e higienizados para mães poderem amamentar seus filhos.
Esses são apenas alguns dos elementos que o direito à cidade nos ajuda a refletir. Exatamente pela defesa desse direito coletivo questionamos a privatização do Parque Alberto Sampaio pela Prefeitura de Wladimir Garotinho. No âmbito do direito à cidade os parques e as praças possuem centralidade, são locais de encontro, de convergência das diferenças, de estreitamento de laços da classe trabalhadora. Não podemos aceitar que em uma cidade tão carente desses espaços de convívio, um parque perca seu sentido público, inclusivo e se transforme em potencial ponto de violência simbólica e dissidência entre o povo. Se ali existem problemas para o efetivo cumprimento de sua função na cidade, que esses problemas sejam resolvidos e não que se abra mão dele em sentido privado.
Os Garotinhos têm se caracterizado por destruir ou apagar símbolos de nossa história, de nossas conquistas, a cada gestão. Ou quem não lembra de ter sido no governo Garotinho que “Zumbi dos Palmares” perdeu o status de fundação? Desconsiderando o fato de Campos ser uma das últimas a abolir a escravidão, o que traz graves prejuízos para nosso povo negro. A herança política trazida pelo Wladimir não está apenas na gestão que mergulha a cidade na miséria, mas também no apagamento de símbolos e patrimônios de nossa própria história.
A ampla formulação marxista sobre o problema urbano constitui ferramenta importante para nossas interpretações das mazelas de Campos dos Goytacazes. Sabemos como se desenvolveu a cidade do capital, desde as denúncias de Engels, ainda no século XIX, com o clássico livro “A situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra”, até Milton Santos, em “A urbanização brasileira”, tudo isso está exposto. Seja em Campos ou em qualquer lugar, se reproduz no espaço as condições concretas da luta de classes em cada época. Isso fica claríssimo no caso da ocupação Novo Horizonte. Como uma cidade com tantos terrenos vazios e imóveis abandonados pode ter tanta gente sem casa? Nossa luta não é para que os ocupantes fiquem em casas que não são suas, mas reivindicamos junto a eles que tenham o direito de habitar e, por isso, cobramos políticas sociais ao Estado. Os instrumentos previstos no “Estatuto da Cidade” de 2001, que autorizam aplicação de IPTU progressivo até culminar em desapropriação, vem sendo pouco acionados por decisão política. Ora, sabemos muito bem que a classe dominante campista é especuladora de terras e imóveis, sempre foi, desde o baronato da cana e continua a ser com seus herdeiros diretos e indiretos. Não somos ingênuos, quem domina o território, detém o poder.
O povo quer viver e decidir sobre as políticas que impactam suas vidas. O município de Campos se negou e ainda se nega a olhar para os pequenos. Por isso, citamos também a luta de 21 anos nas terras da usina Cambaíba e ressaltamos a resistência popular que ao lutar expõe as desigualdades e contradições de um sistema que privilegia os poderosos e exclui os pobres. Terras essas onde corpos de opositores da Ditadura Militar foram queimados, terras onde trabalho análogo à escravidão deram a tônica e fizeram aumentar poderio daqueles que exploram o povo. Quem acumula terra, acumula dinheiro. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) defende um preceito constitucional de que as terras devam ser produtivas, terra é para fazer brotar a própria vida. Assim, o maior movimento social da América Latina, que durante a pandemia doou milhares de toneladas de alimentos aos brasileiros, defende a agricultura familiar, comida saudável, a agroecologia e a relação de forma sustentável com o meio ambiente, uma nova cidade sob novos pilares.
Por isso, desde o início, para nós socialistas, que enxergamos a sociedade pela lente da luta de classes, apoiar a maior ocupação urbana da história do município e a ocupação de Cambaíba era não apenas uma necessidade, mas um dever. Em relação a primeira entramos com o suporte jurídico, com campanhas de arrecadação financeira para a cozinha comunitária, com a formação política, com divulgação nas redes sociais. Estamos orgulhosos do nosso trabalho junto a essas pessoas e conscientes do porque ele incomoda tanto a burguesia e as oligarquias políticas da cidade. Ressaltamos, inclusive, que não fomos nós que acirramos a luta de classes aqui em Campos, mas sim o empobrecimento acelerado decorrente das sucessivas eleições de governos nefastos que a burguesia campista vem apoiando em peso desde 2016, especialmente o de Rafael Diniz e Jair Bolsonaro. Pra não falar daqueles que antes queimaram todos os fartos recursos dos royalties que circularam aqui. É justa a revolta do povo! Nós, do Psol-Campos, desejamos apenas estar à altura desse tempo e das demandas de todos os oprimidos que vejam em nosso partido um instrumento para auxiliar na transformação de sua realidade. Estamos na luta e nela permaneceremos.
A partir das 7 da manhã desta quarta, o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o cientista político Frederico Sá, professor da UFF e pesquisador da relação civil-militar no Brasil. Ele falará da questão militar do Império à República, passando da Guerra do Paraguai (1864/1870) à Guerra de Canudos (1896/1897). Analisará também o movimento do Tenentismo nos anos 1920, o Estado Novo (1937/1946), o envolvimento do Brasil na II Guerra (1939/1945), o Golpe Militar de 1964 e a ditadura que a ele se seguiu até 1985.
Por fim, o cientista político falará dos militares brasileiros, das missões de paz no Haiti ao governo Jair Bolsonaro (sem partido). Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Mestre Cerqueira do alto da sua habilidade como lutador de Taekwondo (Foto: Arquivo)
Cercqueira e sua mãe, dona Maria Helena, morreram pela Covid entre o sábado e a segunda (Foto: Facebook)
Morreu na manhã de hoje, aos 63 anos, no Centro de Controle e Combate ao Coronavírus em Campos (CCC) da Beneficência Portuguesa, José Cerqueira de Oliveira Júnior. Para gerações de praticantes e ex-praticantes de artes-marciais, desde os anos 1980, ele era mais conhecido como mestre Cerqueira. E foi um dos introdutores e principais atletas do Taekwondo (no coreano da origem da luta: “O caminho do pé e da mão”) de Campos e região.
Em tragédia que se abateu sobre várias famílias brasileiras durante a pandemia da Covid-19, Cerqueria havia perdido sua mãe, Maria Helena de Paula, aos 80 anos, no sábado (17). Também infectada por Covid, ela faleceu no Hospital Geral de Guarus (HGG) dois dias antes do filho, que não chegou a saber da notícia. Ele deixa viúva Helena da Silva e dois filhos adultos: José Cerqueira de Oliveira Neto e Bruno Viana Cerqueira. Seu funeral será às 16h de hoje, no Cemitério do Caju.
Cerqueira, como vários veteranos do Taekwondo em Campos, era cria do sul-coreano Woo Jae Lee, o mestre Lee. Que montou, na primeira metade dos anos 1980, a academia Faixa-Preta nos altos de um sobrado na rua João Pessoa. Depois que mestre Lee se mudou para Vitória, o mestre Marcelino Moreira assumiu como professor, que tinha em Cerqueira, ainda faixa-vermelha, anterior à preta, seu atleta mais destacado. Ele pegaria a faixa-preta pouco depois. E se tornou proprietário da academia, quando esta se mudou ao espaço mais amplo, nos altos de outro prédio, na Rua do Ouvidor.
Na Folha da Manhã de 20 de julho de 1984, o registro feito ainda na academia dos altos da João Pessoa, com o Mestre Lee diante de Cerqueira, primeiro faixa-preta de Taekowndo formado em Campos (Foto: Arquivo)
Depois, entre os anos 1990 e início dos 2000, Cerqueira, assim como Marcelino, se mudariam para a academia TKD, de propriedade de outro veterano atleta do Taekwondo, o empresário Clodomir Crespo. Funcionava nos altos da Averj, na rua Saldanha Marinho.
Tive chance de treinar Taekwondo, ainda adolescente, nas academias da João Pessoa e da Ouvidor. E depois, já adulto, boxe inglês com Marcelino, na TKD. Nas três, sempre tive, como tantos outros praticantes de artes-marciais mais talentosos, uma referência em Cerqueira. Como lutador, em que compensava sua baixa estatura com muita elasticidade, destreza e visão de combate, mas também e principalmente como homem.
Cerqueira participou do projeto “Meninos do Amanhã” no primeiro governo municipal Anthony Garotinho (hoje, sem partido), entre 1989 e 1992. E, através do esporte, ajudou a tirar centenas de crianças campistas das ruas e das drogas. Ele também chegou a ser presidente da Associação de Moradores do Jardim Carioca, em Guarus, onde residia. Como homem, essas também foram suas lutas. Não contra outros homens, mas por eles.
A partir das 7h da manhã desta segunda (19), quem abre a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é a diretora teatral Kátia Macabu, diretora executiva de Arte e Cultura da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL). Ela falará sobre a polêmica que mexeu com a classe artística de Campos, a partir da proposta de juntar o anfiteatro Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi com a Praça da Bíblia (confira aqui, aqui e aqui), no Parque Alberto Sampaio.
Kátia também vai falar da sua experiência como diretora teatral, com seu trabalho de 26 anos à frente do grupo “Nós do Teatro”, e da implantação que coordenou do curso de licenciatura em Teatro no IFF. Por fim, ela também vai falar do Plano de Cultura de Campos e do seu programa de gestão pela FCJOL, anunciado (confira aqui) no Trianon, na última quarta (14).
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Em outubro de 2020, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) desautorizou (confira aqui) o então ministro da Saúde Eduardo Pazuello a comprar a vacina Coronavac do Butantan. Tudo por vaidade política contra o esforço do governo paulista João Doria (PSDB) pelo obtenção do imunizante. Isto, mais o fato do ministério da Saúde sob Pazuello ter ignorado solemente mais de 80 e-mails da Pfizer, atrasou o início da vacinação no país, que poderia ter começado desde dezembro. E condenou à morte dezenas de milhares de brasileiros.
À época, o general da ativa do Exército Brasileiro reagiu, diante da ordem de Bolsonaro de não comprar as vacinas Coronavac do Butantan: “Senhores, é simples assim: Um manda e o outro obedece”.
Já em 16 de julho deste ano, ao depor na CPI da Saúde, o ex-ministro da Saúde Pazuello disse: “Sou (era) o dirigente máximo, eu sou o decisor, eu não posso negociar com a empresa. Quem negocia com a empresa é o nível administrativo, não o ministro. Se o ministro… Jamais deve receber uma empresa, o senhor deveria saber disso“. Respondeu à pergunta do relator, senador Renan Calheiros (MDB/AL).
Agora, o jornal Folha de São Paulo revela (confira aqui) que Pazuello negociou pessoalmente, em 11 de março, a compra de Coronavac com atravessadores. Por R$ R$ 154,99 a dose. A mesma vacina que era vendida pelo Butantan a R$ 58,20 a dose, quase 1/3 do preço.
Nessa reunião de março, fora da agenda, mas gravada em vídeo, o general disse: “Nós estamos aqui reunidos no ministério da Saúde, recebendo uma comitiva (…) que veio tratar da possibilidade de nós comprarmos 30 milhões de doses numa compra direta com o governo chinês (…) Mas saímos daqui hoje já com memorando de entendimento assinado e com o compromisso do ministério de celebrar no mais curto prazo um contrato”.
Na acareação entre Pazuello e Pazuello feita pelo site Metrópoles, assista aos dois vídeos abaixo, o de 16 de julho e o de 11 de março. Que provam que o general cometeu crime ao mentir descaradamente à CPI do Senado Federal:
Se você ainda acredita na honestidade, na competência e na responsabilidade do governo Bolsonaro com a vida dos 160 milhões de brasileiros, 78 milhões deles ainda sem uma dose de vacina no braço, sua demanda de imunizante não é contra a Covid. É contra a febre aftosa!
“Liberdade é o direito que todo homem tem de ser honrado e a pensar e a falar sem hipocrisia. No mundo tem de haver uma certa quantidade de decoro, como certa quantidade de luz. Quando há muitos homens sem honra, há sempre outros que têm em si o decoro de muitos homens. Estes são os que se rebelam com força terrível contra os que roubam dos povos a sua liberdade, que é como roubar-lhes aos homens sua dignidade. Nestes homens vão milhares de homens, vai um povo inteiro, vai a dignidade humana”.
(José Martí, jornalista, poeta, filósofo e herói da independência de Cuba no séc. 19, pela qual foi morto e teve o corpo mutilado pelos espanhóis)
Acordo cedo na manhã deste domingo, lavo o rosto, escovo os dentes e vou conferir as primeiras mensagens do grupo de WhatsApp que este blog divide com o programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3. E, após ler manifestações matinais de dogmas de fé opostas à realidade tensa de Cuba, que dominou os noticiários do mundo na última semana e já havia tentado analisar aqui, com a devida condenação ao bloqueio comercial dos EUA à ilha caribenha, me senti obrigado a novamente escrever no grupo o que transcrevo abaixo:
Acordei, li as primeiras mensagens de hoje do grupo e me senti em um túnel do tempo. Não o da Guerra Fria, que ficou para trás há 30 anos, com a dissolução da União Soviética em 1991. E que, infelizmente, ainda tem Cuba como passageiro perdido daquele período. Mas um túnel do tempo pessoal mesmo. Com a manhã de domingo aberta na TV por smurfs azuis, felizes e contentes, cantando “tra-lá-lá-lá-lá-lá-lá-lá”, em meio aos cogumelos do seu mundo idílico, numa floresta encantada. Até que um deles grita “Gargamel!” e todos saem correndo com medo do mal encarnado no estereótipo do feiticeiro careca e narigudo, com seu gato emblematicamente de orelha furada e chamado Cruel.
É mais ou menos a ideia que alguns querem vender, junto dos seus anacronismos políticos: a Cuba dos smurfs felizes em seu isolamento do mundo e os EUA dos malvados Gargamel e Cruel, que querem literalmente devorá-los. Enquanto isso, na vida real, ontem o presidente Miguel Díaz-Canel falou em autocrítica do regime. E a alta comissária da ONU para os direitos humanos, a ex-presidente de esquerda do Chile Michelle Bachelet, exigiu respeito aos direitos universais dos cubanos que foram às ruas de 20 cidades da ilha pedir por liberdade, além da libertação imediata dos até 130 deles presos pelo regime.
Liberdade que já não pode ser concedida a Diubis Laurencio Tejeda, de 36 anos, morto durante “abordagem policial” em Havana.
Assim, enquanto senhores tupiniquins de meia e terceira idade festejam seus dogmas de fé, em cópia carbono com mais leitura dos tiozões bolsonaristas do WhatsApp, a música de afrocubanos que inspirou os protestos no país segue ecoando seu versos pelo mundo: “No más mentiras! Mi pueblo pide libertad, no más doctrinas!” (“Chega de mentiras! Meu povo exige liberdade, não mais doutrinas!”).
Confira abaixo a música “Pátria e Vida”, em oposição ao “Pátria ou Morte” ecoado em vida por Fidel Castro (1926/2016) como líder da ilha caribenha:
E como o debate sobre Cuba, sempre controverso no Brasil, tem muito mais propriedade quando tratado longe do maniqueísmo raso de quem nunca molhou seus pés no mar caribenho de azul profundo, segue abaixo o relato da médica cubana Arleny Valdés Arias. Residente em São João da Barra, ela usou as redes sociais para dar seu testemunho (confira aqui) sobre o que ocorre de fato em seu país:
13 de julho de 2017. Eu desertei de meu país. Hoje fazem exatamente 4 anos que decidi não voltar a Cuba, quando meu contrato acabou no Programa Mais Médicos. Foi uma decisão difícil porque estava ciente que meu governo tomaria medidas contra mim pela decisão de viver diferente, de decidir por mim e pelo bem de minha família e não deixar mais eles decidirem onde e como devo trabalhar.
Foi o dia que decidi deixar de ser propriedade de um governo que hoje reprime seu povo que está nas ruas pedindo liberdade de forma pacífica. Lembro que solicitei ao meu governo renovar meu contrato no Brasil, ainda eles ficando com 85% de meu salário. Mas a resposta foi que meu relacionamento com os munícipes da cidade onde eles me enviaram a trabalhar era muito forte e isso era risco para eu desertar. Mais uma vez me trataram como propriedade, eu deveria trabalhar e não me envolver? Eu deveria simplesmente ser mais um objeto que eles utilizam?
Hoje meu coração está apertado pelos meus irmãos cubanos, pelo meu povo que com coragem está na rua porque não aguenta mais não poder se expressar e viver com as necessidades básicas cobertas. Meu povo que está sendo reprimido pelo mesmo Exército que deveria defendê-los, meu povo que enfrenta com palavras, valentia e o peito aberto os militares com armas.
Eu sofri as medidas de meu país, oito anos sem poder entrar a Cuba e sem ver minha família, meus documentos muitas vezes negados, meus diplomas de estudo negados para me privar de avançar na vida.
Eu falo a vocês que eu venci e meu povo vai vencer, eu estou bem e ajudando a minha família, eu fui acolhida por um povo lindo no Brasil. Em São João da Barra, construí meu lar feliz e livre, revalidei meu diploma ainda com todos os obstáculos impostos. E essa é minha forma de mostrar que não podem ser donos de minha vida, vencendo sempre…
Meu povo cubano corajoso, seja firme. Estamos longe ajudando. E se pudéssemos estaríamos aí junto a vocês.
Meus amigos brasileiros compartilhem as notícias de Cuba, apoiem meu país. O governo bloqueou o sinal de internet para que não possam compartilhar o que acontece lá e pedir ajuda.
Vamos pedir ajuda por eles, em Cuba os direitos humanos estão sendo violentados cruelmente.
Não estou falando de direita e esquerda, não falo da política no Brasil, é uma realidade totalmente diferente. Falo hoje de vidas e pessoas que precisam de ajuda, da verdade da opressão sendo escondida pelo governo.
Cláudio Castro, Rodrigo Neves, Marcelo Freixo, Eduardo Paes, Wladimir Garotinho, Caio Vianna, Rodrigo Bacellar e Bruno Calil
Neves pré a governador em Campos
Todas as conversas políticas giram em torno da eleição presidencial de 2022. Sobre a liderança isolada do ex-presidente Lula (PT) em todas as pesquisas, o derretimento do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e a possibilidade de uma terceira via conseguir furar, ou não, essa polarização. Mas e a eleição a governador do estado do Rio, nas mesmas urnas de outubro de 2022? Sem perder de vista as consequências regionais da disputa nacional, os candidatos a protagonista na eleição ao Governo do Estado já se movimentam. Ontem, um deles, o ex-prefeito de Niterói Rodrigo Neves (PDT), esteve em Campos para lançar (confira aqui) sua pré-candidatura.
Caio pré a federal
Após eleger seu sucessor em Niterói no 1º turno de 2020, Axel Grael (PDT), Rodrigo Neves comandou a campanha de Caio Vianna (PDT) no 2º turno a prefeito de Campos. Não conseguiu virar a grande vantagem de Wladimir Garotinho (PSD), que ficou perto de fechar a fatura em turno único, mas encurtou bastante a diferença. E levou muitos a apostarem que, se a eleição tivesse mais uma semana, o resultado seria outro. Hoje secretário de Ciência e Tecnologia de Niterói, Caio acompanhou ontem Rodrigo, que o lançou pré-candidato a deputado federal. Pai de Caio, o popular ex-prefeito Arnaldo Vianna (PDT) também esteve presente.
Wladimir e Bacellar com Castro
Hoje, esta mesma página de Opinião da Folha da Manhã traz um artigo (confira aqui) do consultor em estratégia Orlando Thomé Cordeiro. “Carioca da gema”, como se auto-intitula, ele fez uma análise sobre a disputa a governador do Rio a partir do ponto de vista da capital. Mas não deixou de observar como o jogo jogado do governador Cláudio Castro (PL) a 2022 tem se espraiado também ao interior. Na Campos governada por seu aliado Wladimir, cujo maior adversário na Câmara Municipal tem sido o secretário estadual de Governo Rodrigo Bacellar (SD), é até desnecessário dizer. Com Castro, os dois agora têm Caio com Neves.
Bilhões da Cedae até SFI
Orlando destacou “a bolada superior a R$ 22 bilhões” da venda da Cedae. Que propiciou a Castro “acordos e parcerias com prefeitos, tanto de municípios da região metropolitana quanto do interior (…) São R$ 7,688 bilhões distribuídos (…) pelos 28 municípios que aderiram ao plano de concessão de saneamento, sendo que 80% do total será repassado ainda nos anos de 2021 e 2022”. O consultor carioca exemplificou esse impacto a um vizinho de Campos: “São Francisco de Itabapoana, cujo orçamento anual em 2021 previa uma receita total de pouco mais de R$ 72 milhões e vai receber cerca de R$ 22 milhões ainda neste ano”.
Dr. Bruno na UPA de Campos
Outros dois pontos favoráveis a Castro foram analisados. Primeiro, o apoio de Bolsonaro, explicitado tanto na venda da Cedae, quanto na filiação do governador ao PL. Noves fora a simpatia, Orlando constatou: “no nosso estado as pesquisas indicam que o apoio ao presidente é superior à média nacional”. O outro ponto? “Recompor o secretariado, atraindo deputados (…) de diferentes partidos”. Nesta leva, Bacellar cavou (confira aqui) sua vaga. E ontem entregou o comando da UPA de Campos ao seu candidato a prefeito em 2020, Dr. Bruno Calil (SD). Que agradeceu “a confiança do secretário Rodrigo Bacellar e do governador Cláudio Castro”.
Piso de Freixo, teto de Neves
O consultor carioca afirmou em sua análise: “Enquanto o governador se movimenta com desenvoltura cada vez maior, os possíveis concorrentes ainda não se apresentaram para a disputa. A única exceção é o deputado federal Marcelo Freixo, que recentemente migrou do Psol para o PSB”. Isto foi escrito na quinta, um dia antes de Neves se lançar ontem pré-candidato a governador na Campos governada pelos Garotinho, mas rachada em 2020 com os Vianna. Na briga pelo eleitor antibolsonaro do RJ, Freixo tem piso mais alto, que define dois no 1º turno. Mas Neves tem teto mais alto, que define entre os dois que chegarem ao 2º turno.
Paes, a “noiva preferida”
Entre as pré-candidaturas a governador de Castro, Freixo e Neves, uma certeza: a “noiva preferida” é o prefeito do Rio, Eduardo Paes, correligionário de Wladimir no PSD. Se entrasse na corrida ao Palácio Guanabara de 2022, seria um candidato fortíssimo. Mas prometeu na campanha a prefeito de 2020, na qual bateu Marcelo Crivella (Republicanos) com a graça de Deus, que não seria. O que voltou a afirmar (confira aqui) em entrevista ao programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, no último dia 9. Quando disse ao microfone da rádio mais ouvida de Campos: “isso (ser candidato a governador) não vai acontecer em 2022, em hipótese nenhuma”.
Pingo é letra
À Folha FM, Paes disse: “tenho uma pré-candidatura colocada, que é a do presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz”. Já ontem, o jornal carioca Extra anunciou: “(Paes) pôs na mesa a possibilidade de lançar outro nome (…) o secretário de Saúde Daniel Soranz”. Também ontem, Neves revelou em Campos manter conversas com Paes. Que foi lembrado no Folha no Ar de um seu encontro com Castro. E que este leva vantagem para ter o apoio do prefeito do Rio: eleito vice-governador em 2018, caso se eleja governador em 2022, Castro não pode tentar se reeleger em 2026. Indagado sobre isso, Paes não gostou. Da capital ao interior, pingo é letra.
A crise que vive o estado do Rio de Janeiro guarda elementos estruturais de enorme gravidade. O maior deles é que nos últimos 40 anos os governos deixaram de lado políticas públicas embasadas em um mínimo de planejamento estratégico para focar quase que exclusivamente nas ações de curto prazo. E para piorar o quadro, nos últimos quatro anos vimos seis governadores presos ou afastados do mandato.
Portanto, é importante que cidadãos fluminenses olhem com atenção para as eleições de 2022, quando poderemos escolher quem será responsável pela gestão estadual no período 2023/2026.
Como mostram diferentes pesquisas, a maioria da população ainda não está interessada no assunto, mas isso não diminui sua relevância nem inibe as inciativas de lideranças e partidos que já se movimentam realizando entendimentos preliminares com vistas a futuras alianças.
Em um cenário onde muitos dos nomes tradicionais passam por desgaste, ou impedimentos legais, há uma chance real da disputa vir a ser protagonizada por personagens ainda pouco conhecidos, entre os quais o próprio governador Cláudio Castro.
Sua posição atual foi fruto de uma sequência de fatores pertencentes ao chamado imponderável. Eleito em 2016 para um primeiro mandato de vereador na capital com 10.262 votos, em 2018 aceitou concorrer como vice-governador na chapa encabeçada por Witzel, que à época não havia conseguido atrair outros partidos para se coligarem com o PSC. O que aconteceu depois já faz parte da história.
Durante os oito meses em que exerceu o governo interinamente, adotou um estilo cauteloso, reiterando sua condição de governador em exercício. Porém, a partir de 30 de abril, data em que Witzel foi afastado definitivamente, sentou-se na cadeira com força e muita vontade. E quis o destino que nesse mesmo dia fosse realizado o leilão da Cedae, que rendeu ao estado e aos municípios uma bolada superior a R$ 22 bilhões.
Com dinheiro em caixa, o governador e seus principais aliados entraram em campo já definindo o principal objetivo: viabilizar sua candidatura à reeleição. O primeiro movimento foi recompor o secretariado, atraindo deputados estaduais e federais de diferentes partidos que, diretamente ou por meio de indicados, passaram a exercer a titularidade em diversas secretarias.
O segundo movimento foi filiar-se ao PL, em uma solenidade prestigiada pelo presidente da República, deixando claro que o bolsonarismo seria seu campo de atuação política. Tal movimento é estratégico porque no nosso estado as pesquisas indicam que o apoio ao presidente é superior à média nacional.
E o terceiro movimento foi a formalização de acordos e parcerias com prefeitos, tanto de municípios da região metropolitana quanto do interior, destacando-se a liberação do repasse de recursos decorrentes do leilão da Cedae supracitado. São R$ 7,688 bilhões distribuídos proporcionalmente pelos 28 municípios que aderiram ao plano de concessão de saneamento, sendo que 80% do total será repassado ainda nos anos de 2021 e 2022 e o restante em 2025.
Para se ter uma noção do impacto para os municípios, vejamos o exemplo de São Francisco de Itabapoana, cujo orçamento anual em 2021 previa uma receita total de pouco mais de R$ 72 milhões e vai receber cerca de R$ 22 milhões ainda neste ano. É equivalente a 30% de acréscimo!
Lembrando que o governador já deixou claro não existir qualquer restrição para a utilização desses recursos. “Cada prefeito e estado gastam como quiserem. Não há destinação prevista, é um dinheiro livre”, declarou. Com base nessa premissa, para atender aos demais 63 municípios (excluída a capital) o estado terá à disposição o montante de R$ 14,478 bilhões.
Está claro que a opção preferencial pela aliança com prefeitos e prefeitas traz a ele dois benefícios diretos com vistas às eleições. O primeiro é torná-lo, desde já, mais conhecido do eleitorado fluminense. E o segundo, permitir que sua futura campanha esteja presente nos municípios sob a responsabilidade direta das principais lideranças locais.
Enquanto o governador se movimenta com desenvoltura cada vez maior, os possíveis concorrentes ainda não se apresentaram para a disputa. A única exceção é o deputado federal Marcelo Freixo, que recentemente migrou do Psol para o PSB, sinalizando uma clara tentativa de se reposicionar politicamente de modo a romper o cerco eleitoral que o levou a derrotas em disputas anteriores para cargos no Executivo. Porém, seu nome carrega uma forte rejeição em razão do histórico político, praticamente inviabilizando sua vitória.
Nesse cenário há um espaço aberto para a construção de uma candidatura alternativa capaz de furar o cerco e disputar em melhores condições com o atual governador. Quem se habilita?
Ao abrir o jornal vejo a imagem escatológica postada pelo presidente. Vê-se um Jair sem camisa, fragilizado, deitado, com os dizeres: “Estaremos de volta em breve, se Deus quiser. O Brasil é nosso!”.
Tanto na época do deplorável atentado em 2018 quanto nesta intervenção médica a que se submete o presidente nesta quarta (14), o capitão-presidente se expõe com a fragilidade da carcaça à qual estamos todos presos.
A política é feita de símbolos, e, no caso de Jair Messias Bolsonaro, o símbolo é a morte.
O que faz a morte? Torna-o soberano e mito. O riso espalhafatoso ao simular morrer sem ar, imitando pacientes graves de Covid-19. A defesa do fuzilamento de 30 mil pessoas.
O tratamento hospitalar do presidente, o sétimo desde 2018, é necessário. Não é imprescindível, no entanto, expor-se em frangalhos, desnudo, em imagem jogada às multidões. Isso é uma escolha política.
Ao se colocar como um líder a navegar contra os infortúnios da mortalidade que nos une, ao lado de uma figura religiosa ao pé da maca, o presidente mitifica-se ou assim quer ser visto. E, ao mitificar-se, reforça sua pulsão da morte como arma política.
Toda a resposta presidencial à pandemia que vitimou meio milhão de brasileiros foi um longo beijo necrófilo. Bolsonaro precisa da morte porque é essa a sua forma de governo. “Eu não sou coveiro, tá certo?”. “Mortes vão haver”. “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”. “A gente lamenta todas as mortes, está chegando ao número 100 mil, mas vamos tocar a vida”. “Todos nós vamos morrer um dia, aqui todo mundo vai morrer”.
Os humanos e outros primatas são os poucos seres vivos que ritualizam a morte, porque é da capacidade do luto que é feita nossa humanidade. Contra a necrópolis em que Bolsonaro nos meteu a todos devemos lutar com a pulsão de vida. Desejo ao presidente que se recupere rápida e plenamente para que possa, enfim, ser responsabilizado pelo governo da morte que preside.
O Dia do Rock foi ontem. Mas nunca é tarde para lembrar desse estilo musical nascido da amplificação elétrica do blues. Quando o violão das paisagens agrárias e amplas do delta do rio Mississipi não era mais suficiente para ecoar o lamento de ex-escravos negros. Que, mesmo depois de libertos na Guerra de Secessão (1861/1865), seriam segregados pelo século seguinte no racismo institucionalizado do sistema Jim Crowe, nos estados do Sul dos EUA. E se mudaram para buscar sua humanidade em meio à cacofonia urbana das grandes cidades do Norte do país.
Concebido, gestado e parido nos anos 1940 e 1950, já foi dito que o guitarrista Chuck Berry seria o pai do rock and roll, enquanto o pianista Little Richard seria a “mãe”. O filho pródigo, quando garotos brancos dos EUA começaram a requebrar os quadris como negros, para quebrar paradigmas morais de comportamento, foi Elvis Presley. O estilo seria reinventado na Inglaterra dos anos 1960, por outros garotos brancos talentosos, reunidos em bandas como The Beatles, The Rolling Stones e Cream.
A coisa se alastraria pelo mundo do pós-II Guerra, chegando ao Brasil também nos anos 1960, com o movimento baiano da Tropicália, como baiano era Raul Seixas, a banda paulista Os Mutantes e a popular Jovem Guarda do Iê-iê-iê, parida no bairro carioca da Tijuca, que teria como rei o capixaba Roberto Carlos. E explodiu de vez nos anos 1980 do BRrock, com bandas como as cariocas Blitz e Barão Vermelho, as paulistas Titãs e RPM e as brasilienses Legião Urbana e Paralamas do Sucesso.
Embora tenha sido marcado pelo standard da MPB “O bêbado e a equilibrista”, na voz de Elis Regina, o rock brasileiro foi a trilha sonora real da redemocratização do país que saía da sua última ditadura militar (1964/1985). “Que país é este?”, indagava Renato Russo no chamado. “Brasil, mostra a tua cara”, clamava Cazuza na resposta.
Bandleader dos Beatles, John Lennon chamava Chuck Berry de “meu herói”. Já o batismo da banda de Mick Jagger e Keith Richards viria de um verso da música do mestre do blues Muddy Watters, que nasceu no Mississipi e se mudou para Chicago, trocando o violão pela guitarra: “a rolling stone gatter no moss” (“pedra que rola não cria limo”).
Mas seria o Cream quem desceria mais às raízes do rock, ao resgatar o mestre do delta blues Robert Johnson, regravando seu sucesso “Crossroads”, para influenciar outras gerações pelo mundo. Muito por influência do seu tímido guitarrista, que já vinha da experiência em outras bandas, entre elas a Yarbirds, antes desta mudar de nome para Led Zeppelin. Conhecido como “deus da guitarra” e amigo em vida dos seus pares precocemente falecidos Jimi Hendrix e Stevie Ray Vaughan.
Foi de Eric Clapton que vi na manhã de hoje uma charge no grupo de WhatsApp deste blog, postada na noite de ontem, em homenagem ao Dia do Rock, por seu talentoso autor, Walter Silva Jr. Inspirado nela e com o mesmo dolo, deitou-se esta prosa. Abaixo o traço do Waltinho, a música de Johnson por Clapton, o baixista Jack Bruce e o baterista Ginger Baker, mais os versos escritos quase um quarto de século atrás, pelo jovem que fui:
Eric Clapton, em homenagem ao Dia do Rock, por Walter Silva Jr.