Ontem, 07 de maio, foi o dia do segundo turno das eleições presidenciais francesas. Eu já devo saber do resultado neste instante em que você me lê, ainda que não vá comentá-lo aqui como fato consumado porque estou fora do Brasil desde o final do mês passado e este texto foi deixado pronto antes de minha viagem. Embora as facilidades de comunicação via internet hoje em dia me facultassem escrevê-lo ontem mesmo, não escolhi essa alternativa até porque não é do resultado da eleição francesa que mais quero tratar, mas do que certos movimentos significam. No caso, a relação dos países (nacionalidades) com a Europa unificada e o projeto de união que ela representa.
Em sua monumental obra, Hobsbawn atribui a origem das grandes guerras mundiais do século XX a dois fatores principais: o capitalismo e o nacionalismo. Atrevo-me a discordar (em boa parte) – até porque, mesmo não tendo as décadas de estudo e leitura que ele tinha, não sou marxista e posso imaginar que exista bem mais no mundo do que essa “lente” consiga enxergar. No entanto, um certo grau de reconhecimento de que o nacionalismo foi um dos fatores geradores das tensões que levaram aos conflitos que marcaram o século XX com suas duas terríveis guerras está na gênese do projeto de uma Europa unificada – unida por sua cultura cristã, pela escolha por democracia, pelo livre mercado e por suas tradições humanitárias (apesar dos arranhões). Acho que esse é um projeto que vale a pena ser preservado.
Os britânicos, por pequena maioria, acharam que não e deram início ao Brexit. Isso me lembra aquela piada em que, durante uma terrível tempestade, toda a comunicação entre a Grã-Bretanha e o restante da Europa foi cortada. Ao saber disso, um inglês teria dito: “Pobre Europa, está isolada.” O futuro dirá se o Reino Unido terá feito uma boa coisa. O argumento a favor da saída foi o nacionalismo, resumido na frase: “Não queremos que Bruxelas nos diga o que fazer”. A eleição de Trump nos EUA foi um pouco do mesmo em essência: querer seu país grande de novo não quer dizer, apenas, um desejo de recuperar uma grandeza (real e/ou imaginária) passada, mas o de separar “isto daquilo”. Eu não sou contra que se tenha claro onde um país começa e outro termina, mas sou de centro o suficiente politicamente para desconfiar sempre de posicionamentos que reputo radicais.
A Europa passa por um dilema crucial em relação à imigração. Mesmo sem ser europeu, é algo que me preocupa especialmente agora que o Brasil está por sancionar uma lei de imigração que eu considero absurdamente frouxa. Na Europa, o “Espaço Schengen” trouxe uma mobilidade inédita de pessoas que levam suas mentes com suas forças de trabalho, formações acadêmicas e potencial para inovações livremente para todos os lugares, gerando mais desenvolvimento, realização individual e benefício social. Sim, bandidos também podem circular livremente – terroristas idem. Então, para evitar que os terroristas venham, vamos fechar as fronteiras correndo e cercear a liberdade das pessoas e o progresso da sociedade? É esse o projeto político que andam defendendo por aí? É isso que os terroristas querem; devemos ajudá-los a conseguir? Imaginem, grosseiramente, que alguém machuque a mão e, para evitar que o corpo sofra com uma infecção, corra a decepá-la. Esqueceu que há antibióticos… cortou a mão fora e nunca mais vai viver como antes – ainda que sem (aquela) infecção. Haverá de seguir cortando partes nas próximas ameaças?
Pra mim, os discursos isolacionistas têm todos cheiro de populismo (quando não de algo mais podre). Falam direto às camadas “mais pobres” (“menos antenadas”) do mundo rico: aquelas que se acham as vítimas do enriquecimento dos países periféricos graças à globalização como se o capitalismo não gerasse riqueza e fosse tudo um jogo de soma zero, em que é preciso tirar daqui pra colocar ali. Não é! É possível e desejável que cresçamos juntos. Se a fábrica fechou em Detroit, lamento… bora buscar um curso de atualização e um novo emprego no setor de serviços, por exemplo, ou num outro ramo vocacionalmente mais afim? Bruxelas regulamentou o tamanho das cenouras e as suas aí de Essex não se adaptam? Plante tomates ou repolhos! Xi… olha a guilhotina se aproximando do meu pescoço por eu dizer a grande novidade de que as coisas não ficarão para sempre como eram e que só não muda o que já morreu… [É comum chamarem de insensibilidade o que não passa de realismo.]
O mercado de capitais europeu ficou eufórico com a vitória de Macron no primeiro turno francês porque ele é pró-Europa (portanto, menos isolacionista). Pessoalmente, mesmo que muitas críticas tenham fundamento, eu também apoio a União Europeia. Porque não aprimorá-la, resolvendo os atritos, ao invés de simplesmente cortar a mão fora? A grandeza de certas construções institucionais humanas está exatamente no fato de que elas podem mudar dentro de si mesmas, sem precisarem ser destruídas e substituídas por outra ordem. Assim são a democracia, o capitalismo e tantos organismos multilaterais como a UE: eles estão sempre se recriando e evoluindo junto com a sociedade; poder reformar-se sem se destruir é parte de sua dinâmica. O problema humanitário da imigração é sério e sensível. Eu não acho que esteja certo simplesmente abrir as fronteiras e encher a Europa de gente que pode estar disposta a detonar exatamente o que a UE mais quer preservar: seus valores culturais. Tem que haver algum tipo de triagem eficiente – eu não sei como fazer. Mas simplesmente fechar os olhos para o desespero de milhões de pessoas seria negar os valores humanitários europeus – cristãos, em primeiro lugar. Querem deixar clara a “inferioridade humanística” da cultura muçulmana? Então não se igualem.
Fora isso, vamos a um exercício mental? O Reino Unido já saiu da UE. Se a França sair… o pilar restante será a Alemanha. Quanto tempo vai levar pra que alguém comece a gritar que o que o Kaiser Wilhelm não conseguiu na I Guerra nem Hitler na II será obtido por Merkel no século seguinte: a dominação da Europa por uma Alemanha forte e hegemônica? Loucura, loucura – mas de médico e louco cada um tem um pouco, não é? Melhor é não rasgar dinheiro nem decepar a mão! Recomendo poupar em euros e tomar antibióticos – tem uns de última geração que são excelentes! E se for preciso, manda um rivotril também. 😉
Interessante notar, contudo – e esse tem sido um desejo meu faz tempo! – que a visão democrática e liberal de mundo parece estar virando a mesa da esquerda. Mesmo que um tanto exagerada aqui e ali (nada que não possa ser redimensionado, espero), a tendência tem sido a aposentadoria de ideias que adoram se chamar de progressistas, mas que deixaram a desejar no quesito… progresso (mormente o econômico). Isso não significa que eu ache tudo o que a esquerda apresentou como dispensável. Muito pelo contrário: acho que estão abertas as portas para aproveitarmos o que presta do que já foi proposto de todo os lados e construirmos uma síntese aproveitável. Pra mim, o ideal seria o cenário em que as liberdades individuais fossem as mais abrangentes possível, numa economia de práticas conservadoras. Como disse antes, ainda não sei se o Macron ganhou na França, mas se ganhar resumirá bem essa minha percepção: a de que a maioria das pessoas ainda acredita que se pode garantir progresso econômico e liberdade individual num mundo cooperativo, sem isolacionismo e/ou nacionalismo obtusos, sem belicismo desnecessário (mas também sem ingenuidades) e sem perder as características culturais de cada rincão mesmo com a abolição de fronteiras geográficas, políticas, econômicas, laborais, etc. O argumento de que o “globalismo” acabará por destruir a essência do que prezamos não me parece acertado; melhor dizendo: não vejo o futuro acontecendo assim, porque não vejo incompatibilidade entre a cooperação internacional, mesmo com o ônus da perda de parte da soberania regulatória, e a manutenção da cultura local/nacional. Há coisas que acrescentam; não apenas substituem.
Pra mim, chega de assassinatos em Sarajevo a honras a serem vingadas pela força (ou pelo nojo). A superioridade do Ocidente reside exatamente na combinação de progresso material com valores humanitários. A expansão muçulmana para o Ocidente se deteve nas muralhas de Viena em 1529 e se hoje parece (querer) ir além… cabe a Europa, UNIDA, estabelecer os limites e dizer: “Alto lá, Allah!”. Contraditoriamente, quase 400 anos depois, foi uma ordem de Viena que desencadeou a I Guerra: sinal de que um mesmo lugar pode ser eficiente para se defender do que vem de fora enquanto cria o germe de sua destruição por dentro – espero que a Europa tenha aprendido a lição e não a desperdice recriando nacionalismos (que podem até se manifestar de forma diferente do passado, sem expansionismos desta vez, mas que me cheiram igualmente ultrapassados). Nesse meio tempo, Viena foi o lugar que abrigou a genialidade de Bethoven, Mozart, Haydn e Strauss e que sediou alguns dos eventos mais importantes da História, como aquele Congresso, em 1814/1815, em que, unidas, as potências de então determinaram a reorganização da Europa pós-Napoleão – com reflexos aqui no Brasil nas ordens das Cortes Portuguesas determinando o retorno da família real para Portugal. Vejam só: uma decisão europeia afetando o futuro de nossa vida, aqui, em nosso país… Terá esta lição sido esquecida?
Obviamente, outras pessoas podem achar diferente, mas pra mim, mesmo dois séculos depois, já de longe terminada a era do colonialismo europeu, a influência deste continente ainda é real e grande porque a Europa ainda é um farol para todo o mundo – que dirá pra mim… Quero vê-la unida e forte. É pra Europa que sempre olho, pra onde prefiro ir e onde me encanto a cada esquina ou paisagem – como nesses últimos dias, em que caminho às margens do Danúbio na outrora capital imperial dos Habsburgo.
Fernando Pessoa e Walt Whitman (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Por Aluysio Abreu Barbosa
Em um dos seus poemas mais angustiantes, aos seus leitores mundo afora, como deve ter sido para quem o escreveu, o português Fernando Pessoa (1888/1935) sentenciou a espécie pela pena do seu heterônimo Álvaro de Campos:
“És tudo para ti, porque para ti és o universo”
E depois reforçou três versos abaixo, na mesma estrofe:
“És importante para ti porque só tu és importante para ti”
À parte o estímulo debochado ao suicídio, do mais debochado e metafísico dos heterônimos de Pessoa, os versos pinçados do poema “Se te queres matar” são um retrato talvez cruel, mas nítido, da nossa real importância para fora de nós mesmos: pouca ou nenhuma. Por mais que, “sombra fútil chamada gente”, estejamos quase sempre a pensar o contrário.
Afinal, não somos todos os “gênios-para-si-mesmos sonhando” que Pessoa/Campos versejaria em outro poema, “Tabacaria”, seu mais famoso?
O fato é que a dose de humildade que o poeta nos impõe, seria de muito bom proveito num Brasil tão fragmentado por opiniões tão distintas sobre tudo, que não raro conduzem a nada.
Neste contexto de polarização nacional, muitas vezes à beira da esquizofrenia, encontrar algo que nos una é remédio poderoso. Pode não curar as diferenças — nem deve! Mas diagnostica como, à parte elas, temos um caminho a percorrer juntos enquanto sociedade.
Nesse sentido, a população de Campos e da região, ainda que não se distinga do resto do Brasil, deu um exemplo recente e inconteste, na mobilização pela manutenção da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Darcy Ribeiro.
Desde o fechamento da Casa de Cultura Villa Maria, por falta de energia elétrica, denunciado (aqui) na coluna “Ponto Final” como vanguarda do desmonte da Uenf, a reação da população foi imediata. Fechada no último dia 18, a Villa seria reaberta (aqui) no dia 24, para receber (aqui) no evento “Choro na Villa”, no dia 29, seu maior público — como testemunhou a diretora da Casa, a diligente professora Simonne Teixeira.
E o sucesso se repetiu (aqui) ontem (05), no Dia do Rock Goitacá. Mudou o estilo da música, não a simpatia popular pela Villa. Doada em testamento por sua antiga dona, Finazinha Queiroz (1887/1970), como sede de uma futura universidade pública de Campos, o solar histórico foi a vanguarda da Uenf mais de duas décadas antes da sua criação, em 1993.
E como provam os eventos dos dois últimos sábados, tem sido também a vanguarda da resistência contra a possibilidade de fechamento da Uenf.
Bem verdade que, cobrado sobre a situação da universidade numa entrevista (aqui) de duas páginas, na edição da Folha do último domingo (30), o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) daria a melhor resposta (aqui) cinco dias depois. Em reunião na última sexta (05) com os reitores das instituições estaduais de ensino superior, subordinadas à Ciência e Tecnologia, seus servidores e alunos se uniram na mesma promessa feita à Educação: a partir de abril, salários e bolsas em dia.
Quanto aos atrasados, o governador estimou a quitação no final de junho, quando deve ser aprovada no Congresso Nacional a ajuda da União aos Estados. Nela, a expectativa fluminense é receber a injeção de R$ 3 bilhões.
Nas páginas 5, 6 e 7 (aqui e aqui) desta edição, falam sobre a crise da Uenf diversas lideranças do meio acadêmico e da sociedade civil organizada, além do reitor da universidade, professor Luis Passoni. Na entrevista feita na quinta (04), ele viu o gato da Uenf subir no telhado, mas entre a queda e sua possibilidade, depois da reunião com Pezão, na sexta, classificou o que ouviu como “boa notícia”.
Certo que, nessa luta coletiva, cada indivíduo, como nos versos de Pessoa, tenda a achar sua participação mais importante do que de fato foi. E é humano que assim seja. Na dúvida, a certeza que se não fosse o compromisso dos campistas com o que une, sobre aquilo que separa, o sonho de Darcy Ribeiro (1922/97) e de tantos outros ao longo do último quarto de século, correria o risco de se transformar em pesadelo.
Pelo sim, pelo não, até que a situação esteja de fato normalizada, aconselha-se a dormir com um olho aberto.
Grande influência de Pessoa e assumidamente a maior do seu heterônimo Álvaro de Campos, é o poeta estadunidense Walt Whitman (1819/92), pai de tudo aquilo que depois se chamaria modernismo, quem dita a senha:
Humberto Nobre, Jefferson Mahães de Azevedo, Fernando José Coutinho Aguiar, Marcos Breda, Frederico Paes, Hernán Mamani, Elizabeth Landim, Inês Ururahy de Souza, Joilson Barcelos, Ronaldo Nascimento, Gustavo Chagas, Heitor Antonio da Silva, Gisele Teixeira de Almeida, José Luiz Lobo Escocard, Tito Inojosa, Vitor Menezes, Edilbert Pellegreni, Rafanele Alves e João Waked
Por Aluysio Abreu Barbosa e Daniela Abreu
Num país fragmentado desde a campanha das eleições presidenciais de 2014, passando pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), pelas reformas trabalhista e previdenciária do governo Michel Temer (PMDB) no Congresso Nacional, e pelas entranhas do Brasil ainda vivo expostas diariamente na operação Lava Jato, difícil encontrar algo que ainda una, sobre aquilo que separa — muitas vezes passionalmente. Se os campistas não são exceção, uma causa comum e recente pareceu caminhar contra essa turbulenta corrente de polarização: a luta pela sobrevivência da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), sem verba de manutenção, de R$ 2 milhões/mês, desde outubro de 2015.
Vítima da crise financeira sem precedentes do Estado do Rio de Janeiro, a defesa da principal instituição de ensino superior de Campos e região tem unido classes, ideologias e interesses antagônicos. E essa mobilização parece estar dando resultados. Depois de ser cobrado sobre a situação da Uenf em entrevista (aqui) de duas páginas na Folha do último domingo (30), cinco dias depois, na sexta (05), o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) prometeu (aqui) regularizar de abril em diante o pagamento dos servidores e estudantes bolsistas das universidades estaduais. E se comprometeu a pagar os atrasados assim que for aprovada no Congresso a ajuda da União aos Estados.
Longe do ideal, é um avanço em relação a todas as posições anteriores do governo fluminense. Mas as lideranças de Campos, dos mais distintos setores, estão atentas para cobrar as promessas e além delas:
— Ainda que vivamos um momento crítico da história de nosso país, que moremos num dos Estados mais afetados pela atual crise, é ainda assim assustador que a primeira vítima seja a Educação. A Uenf representa uma incomensurável conquista do Norte e Noroeste Fluminense no caminho da construção dessa sociedade que queremos e já deu prova disso, em especial, mas não só, pela formação de nossos jovens. Dante Alighieri disse que “no inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”. É por isso que a luta pela Uenf é um dever que cabe a todo cidadão — convocou o presidente da OAB-Campos, Humberto Nobre.
Reitor de outra instituição de ensino público considerada fundamental para Campos e região, o do Instituto Federal Fluminense (IFF), Jefferson Manhães de Azevedo, se solidarizou com a luta das universidades estaduais fluminenses:
— Estamos vivendo um momento muito delicado no nosso país, especialmente no Estado. É muito preocupante quando nós temos ameaçadas instituições tão prestigiosas como a Uerj, A Uezo e a Uenf, instituições comprometidas com a pesquisa, com a extensão, com a formação de lideranças, e que têm profissionais qualificados para ajudar a superarmos a crise. O futuro do Estado, com certeza, passa pela Educação, pela Ciência e pela Tecnologia, vindas dessas instituições. Nos colocamos solidários à luta da Uenf, que também é a nossa luta, por uma Educação pública, de qualidade e acessível a todas as pessoas.
O setor produtivo também está na luta pela manutenção da Uenf. Neste sentido, quem se posicionou foi o presidente da Federação das Indústrias do Estado Rio de Janeiro (Firjan) no Norte Fluminense (NF), Fernando José Coutinho Aguiar:
— A Uenf nasceu comprometida com o desenvolvimento regional e é dispensável reafirmar sua importância. A atual situação das universidades estaduais reflete a queda de arrecadação do Rio, cujo esvaziamento econômico tem provocado um forte desequilíbrio fiscal. Precisamos reativar a atividade econômica para que as empresas passem a gerar mais recursos para manutenção das universidades e custeio do Estado. Temos de resolver as questões na esfera jurídica e avançar nas políticas de desenvolvimento do Rio de Janeiro. E a Uenf é parte importante disso.
De empregadores a empregados, a luta de classes faz pausa quando o assunto é Uenf. Representando os trabalhadores do setor economicamente mais importante da região, o coordenador do Sindipetro no NF, Marcos Breda, pregou a mobilização:
— A Uenf é um daqueles exemplos do que de melhor o poder público pode fazer: investimento sério em setor estratégico, essencial para a soberania de um povo, em Ciência, Educação e Tecnologia. Nós, petroleiros e petroleiras, que também lutamos para preservar outro patrimônio nacional, a Petrobras, somos solidários à luta dessa universidade que é motivo de orgulho para o País. Nascida das manifestações regionais e concretizada pelas mãos de humanistas como Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, a Uenf pode contar conosco para contribuir na mobilização da sociedade em sua defesa.
Substituída pela extração do petróleo como principal atividade econômica da região, a indústria do açúcar e o álcool também se colocou na linha de defesa. Para o presidente do sindicato da Indústria Sucroenergética do Estado do Rio de Janeiro (Siserj), Frederico Paes:
— A Uenf é um patrimônio que está sendo destruído por quem deveria zelar pelo seu desenvolvimento. Chegou estar entre as melhores universidades do país vive o completo abandono. A instituição que nas últimas duas décadas formou milhares de profissionais, desenvolveu pesquisas que contribuíram para avanços em diversas áreas, foi um sonho de Darcy Ribeiro e dos campistas, hoje está à própria sorte. Laboratórios abandonados, falta de segurança, não pagamento dos profissionais entre outras mazelas. Lamentável saber que toda uma história sonhada e construída está virando um pesadelo. Temos que acordar!
Diretor de outra importante instituição de ensino público superior de Campos, o diretor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Hernán Armando Mamani analisou:
— A crise da Uenf é mesma que nos afeta a todos. É uma crise econômica, política e moral. Não é uma crise da instituição universitária, enquanto instância livre e democrática produtora difusora de conhecimento, nem é propriamente resultado de agruras econômicas. O abandono da Universidade à sua própria sorte, das políticas de financiamento e o ataque aos profissionais experientes em política científica é um aspecto de algo mais amplo e mais grave. É o ataque à própria noção de público como instância coletiva e superior às conveniências e interesses parciais. A crise política é uma moral, dado que não sabemos mais com estar juntos.
Das universidades públicas às privadas, quem também fechou posição foi a vice diretora do Isecena, Elizabeth Landim:
— Pensamos que qualquer diminuição da ciência, educação e conhecimento é um malefício enorme à sociedade. Afinal, são ferramentas que precisamos multiplicar. A Uenf cumpre este papel com êxito, fazendo da pesquisa e do ensino uma extensão para a comunidade. Nós, como representantes de instituição de ensino, vemos com muita tristeza e pesar essa falta de valorização, de aporte financeiro e de estrutura por parte do Governo do Estado. Precisamos estar unidos nesta luta em prol da sobrevivência da Uenf, de forma que a instituição possa garantir seu lugar de destaque na sociedade.
A posição se assemelha ao protesto e a conclamação por reação, propostos por Inês Ururahy, reitora do Centro Universitário Fluminense (Uniflu):
— Embora saibamos das graves dificuldades financeiras do Estado do Rio, decorrentes de má gestão e desvio do dinheiro público, o Uniflu repudia seus efeitos sobre a Uenf, que é imprescindível a Campos e região. Estamos solidários aos professores, pesquisadores, funcionários e alunos da Uenf e colocamo-nos de pé, em veemente protesto. Conclamamos uma imediata, amplíssima, profunda mobilização articulada de toda a sociedade, e não apenas do meio universitário, para que esse descalabro tenha um fim e que seja feito um pacto imediato entre todos os poderes públicos e sociedade civil envolvidos.
E não vem só do meio universitário a disposição de lutar pela manutenção da Uenf. Presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Campos, Joilson Barcelos chamou à luta:
— Desde de que se acentuou a crise na Uenf, temos colocado esse problema no topo da pauta na CDL. Recebemos o reitor em uma de nossas reuniões de diretoria e nos colocamos à disposição, nos comprometendo com a luta para salvar a universidade. Não pode haver um retrocesso. Se Campos perder a Uenf perde com certeza o que ela tem de mais importante. Não vamos deixar isso acontecer. Esse é um compromisso de toda a atividade econômica da região, não só do comércio, mas da indústria, pecuária, agricultura e tudo mais. A luta é de todos!
Em outra prova da suplantação dos interesses de classe pela causa comum, a defesa da Uenf não foi muito diferente da assumida pelo presidente do sindicato dos Empregados do Comércio, Ronaldo Nascimento:
— O Sindicato dos Empregados no Comércio de Campos, através de sua diretoria e associados, está solidário com o justo movimento em defesa da Uenf. É lamentável que a universidade construída no sonho de Darcy Ribeiro esteja praticamente abandonada. Aliás, de modo geral, a Educação não tem recebido o devido apoio das autoridades. A classe comerciária de Campos faz coro com todos que pedem providências urgentes para o estado de pré-falência desse importante estabelecimento de ensino.
Prova viva da importância da Uenf na formação dos quadros da região, o diretor do Isepam, Gustavo Chagas, testemunhou:
— A chegada da Uenf à cidade foi a realização de um sonho de muitos jovens da região. Eu sou ex-aluno, e tenho uma forte ligação com a esta importante instituição, reconhecida nacionalmente como um das melhores do país. É lamentável a situação da Uenf e demais instituições de ensino superior do Estado, com seus servidores com os salários atrasados e sem estrutura mínima para funcionar. É necessário que todos que acreditam no papel da Uenf no desenvolvimento regional lutem para sua continuidade. O projeto de inovação da Uenf, que me encantou há alguns anos, não pode terminar!
Mas não é preciso ter passado pelas salas de aulas da Uenf para reconhecer sua importância acadêmica. Nem para engrossar o discurso contra o Governo do RJ por conta do descaso com a instituição de ensino. Reitor da Uni-Redentor, Heitor Antonio da Silva foi duro:
— Não se trata de uma crise na Uenf, e sim no Governo do Estado do Rio. A universidade em questão teve, até recentemente, uma excelente gestão. Seu corpo docente é de qualidade significativa e seus cursos igualmente bem focados. O programa de pós-graduação, sobretudo os mestrados e doutorados são de suma importância ao desenvolvimento acadêmico e profissional da região, formador de professores para todas as outras IES (Instituições de Ensino Superior) da região e do país. O que temos é um grande grupo de vítimas dos desmandos, da corrupção, da roubalheira e da falta de escrúpulos dos mandatários deste Estado.
Independente do diagnóstico, a convocação a entrar no ringue pela Uenf parece ser a mesma no meio universitário goitacá. Para Giselle Teixeira de Almeida, diretora da Universidade Salgado de Oliveira (Universo):
— A perspectiva de encerramento das atividades da Uenf representa um retrocesso generalizado para o Estado do Rio, com perdas lastimáveis para toda sociedade, comprometendo seriamente o futuro da nossa cidade e de toda região. Todos nós educadores e todos aqueles que tiveram suas vidas transformadas pela educação temos a obrigação moral de nos solidarizarmos e não permitir que isso de fato se concretize. Não defender e lutar por esta causa é perder por WO.
Do setor acadêmico ao produtivo, a disposição de buscar alternativas à sobrevivência da Uenf é a mesma. Na visão do presidente da Associação Comercial e Industrial de Campos (Acic), José Luiz Lobo Escocard:
— A Uenf vive uma situação atípica, pois jamais vi algo parecido nos últimos anos. Entretanto cabe salientar que por mais que seus corpos docente e discente queiram fazer manifestações em prol da universidade, a sociedade sozinha não tem condições de arcar com os custos e a da sua manutenção. É preciso que a sociedade civil organizada e a comunida-
de procurem alternativas junto aos poderes legalmente constituídos para diminuir esse problema e fazer com que a Uenf volte a funcionar de forma ple-
na, para o bem do desenvolvimento regional, papel que sempre cumpriu de forma eficaz.
Do comércio e indústria ao campo, a importância da Uenf é salientada. De acordo com o presidente da Associação Fluminense dos Plantadores de Cana (Aflucan), Tito Inojosa:
— Somos uma região com vocação agrícola e a Uenf muito contribuiu com pesquisas para o setor. Lamentamos a falta de investimentos na universidade, na formação de pesquisadores e desenvolvimento dos trabalhos que vinham sendo realizados nas últimas duas décadas. O descaso não é apenas com a Educação, mas também com toda a equipe de pesquisadores, bolsistas, alunos e funcionários que atuam no campus e não recebem seus salários.
Ciente do papel que sociedade e imprensa locais tiveram no nascimento da Uenf, como demonstram agora na luta por sua sobrevivência, quem também opinou foi o presidente da Associação de Imprensa Campista (AIC), Vitor Menezes:
— A Uenf é resultado de décadas de lutas da sociedade pela sua implantação, com papel destacado de instituições como a antiga Faculdade de Filosofia de Campos, atual Uniflu, e da imprensa campista. Agora, quando a negligência com a gestão dos recursos públicos no Estado a coloca sob sério risco de desativação, novamente o Norte Fluminense se ergue em sua defesa. A Associação de Imprensa Campista é testemunha desta história e se soma às vozes que bradam pela continuidade dos excelentes serviços prestados pela nossa universidade.
Recém eleito como diretor da Faculdade de Medicina de Campos (FMC), Edilbert Pellegrini também deu seu diagnóstico sobre a importância da Uenf:
— A FMC está sensibilizada com a situação atualmente enfrentada pela Uenf e toda a sua comunidade acadêmica. Desde sua fundação, ela é parceira da nossa Instituição de Ensino Superior (IES), no campo das pesquisas que objetivam melhorias da nossa comunidade. Manifestamos nosso desejo que os gestores estaduais se empenhem para a normalização da situação financeira da instituição para garantir a manutenção dos financiamentos em curso e futuros. O brilho acadêmico conquistado pela Uenf não pode ser ofuscado no cenário nacional e internacional.
Categoria bastante ativa em Campos, como no resto do Brasil, na luta por seus direitos, os bancários compraram a briga da Uenf como sua. Foi o que garantiu o presidente eleito do sindicato dos Bancários de Campos e região, Rafanele Alves:
— Defender a Uenf é preservar a capacidade de produção de conhecimento do nosso Estado. Mesmo em situação de total precariedade, seus estudantes, corpo técnico, docentes e o seu reitor não desistem. Precisamos apoiá-los. Precisamos apoiar a nossa região. A Uenf lançou o Norte Fluminense no cenário nacional e internacional de excelência em ensino, pesquisa e extensão, promovendo com as comunidades uma integração de grandes resultados. Nossa Uenf é nossa identidade. Não podemos permitir que essa identidade se perca.
Representante de uma das áreas de comércio mais tradicionais de Campos, o presidente da Associação dos Comerciantes e Amigos da Rua João Pessoa (Carjopa), João Waked Filho também entrou na luta para a manutenção da Uenf como uma conquista da cidade:
— O quadro terrível que apresenta administrativa e economicamente o Estado, tem reflexos alarmantes na Uenf. Sabemos quão necessária é a reforma administrativa do nosso Estado, mas preservar a Uenf é crucial à região, principalmente quando sabemos que quando a crise passar, precisaremos mais que nunca da mão de obra que a universidade produz; qualificada e de alto nível. Manter uma formação profissional do nível da Uenf é garantir o futuro de novas gerações. E para isso a sociedade campista tem que lutar! Não podemos passar à frente o estigma da “cidade que já teve”.
Na piada sobre a morte do gato da avó que viajou, para prepará-la homeopaticamente à realidade fatal, o neto começa contando na primeira ligação: “Olha, vovó, o gato subiu no telhado”. É a analogia usada pelo reitor Luis Passoni para falar da realidade da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Sem verbas de manutenção desde outubro de 2015, com atraso nos salários dos servidores e bolsas dos estudantes, a maior instituição de ensino superior de Campos e região hoje passeia pelo telhado. Nesta entrevista, feita na quinta (04), ele detalhou a crise na universidade e falou de parcerias com a comunidade e a iniciativa privada. Na sexta (05), após reunião com o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), Passoni considerou “boa notícia” a promessa de regularizar os salários e bolsas de abril em diante e acertar os atrasados após a aprovação no Congresso da ajuda da União aos Estados. Se bastará para o gato descer do telhado, só saberemos nas ligações seguintes.
Luis Passoni (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)
Folha da Manhã – Na matéria publicada na Folha no último domingo, você disse (aqui): “É difícil saber até quando conseguiremos manter a Uenf funcionando nestas condições. A rigor, já estamos nos descontos da prorrogação”. Quando acaba a prorrogação?
Luis Passoni – O que eu quis dizer com essa expressão é que, a rigor, a gente já deveria ter fechado. Nós estamos sem condições plenas de funcionamento já há muito tempo, e a situação vem piorando. Iniciamos a nossa gestão em janeiro de 2016. A gente tinha três meses de atraso em todas as contas.
Folha – As verbas de manutenção estão atrasadas desde outubro de 2015.
Passoni – Sim, mas os salários estavam em dia. Desde outubro de 2015 não há nenhuma disponibilização de verba de manutenção. Quando você se fala em custeio, inclui alguns auxílios em folha e a bolsa do cotista. Esses recursos a gente está recebendo. A parte de manutenção, destinada aos contratos dos terceirizados, a pagar contas, comprar papel, tinta, caneta, enfim, esse recurso é que não vem nada desde outubro de 2015. O total é de R$ 3 milhões ao mês para custeio. Destes R$ 3 milhões, R$ 2 milhões (para manutenção) não têm aparecido. A gente tem conversado insistentemente com o Governo do Estado. Mesmo que ele não consiga honrar com os R$ 2 milhões por mês, o que ele conseguir mandar, já dá um alívio. Mas não tem sido enviado nada. Nessa situação, eu não sei te dizer. Na condição de funcionamento, a gente reduziu a ter um mínimo de vigilância e de limpeza. Já estamos sem vigilância desde setembro do ano passado. Estamos com colaboração da Polícia Militar e da Guarda Civil Municipal. Tem sido suficiente meio por milagre.
Folha – Não tem sido, porque na madrugada do último dia 27 foi registrado outro roubo (aqui), de duas motobombas no valor de R$ 8 mil, no P-5 do campus, que deixou a Casa Ecológica sem água em pleno ano letivo.
Passoni – Essa questão da segurança não está bem resolvida, mas com a presença da Guarda e da PM, os únicos problemas têm sido de furtos. A gente não está tendo nenhuma ação agressiva, como tivemos problema de vandalismo no final do ano, quando depredaram alguns veículos. Temos constantemente problema de invasão da nossa piscina. Em cada evento desse, a gente tenta, insiste com a PM e a Guarda Municipal, que intensifica as rondas, o problema se acalma. Aí eles diminuem as rondas, o problema volta, a gente volta a conversar. Estamos tratando o funcionamento na base do dia a dia. Aparece um problema, a gente resolve.
Folha – E até quando dá para aguentar assim? Há um deadline?
Passoni – O dia que tiver um assalto violento aqui no campus e alguém sair ferido, nesse dia eu não consigo mais convencer o pessoal a continuar trabalhando. Quanto ao deadline financeiro, já passou. A empresa que faz a limpeza aqui não recebe há 18 meses.
Folha – Qual é o passivo atual dessa empresa?
Passoni – O cálculo muda muito. Na atualização do começo de março, era de R$ 16 milhões, no total de dívidas da universidade com fornecedores terceirizados. Só com a Ferthymar, é em torno de R$ 6 milhões. Essa empresa de limpeza não recebe desde outubro de 2015. A gente recebeu uma doação da Alerj de R$ 1,5 milhão no ano passado, pagamos alguma coisa a eles. No começo desse ano, dos R$ 6 milhões que a gente tinha, o Estado conseguiu pagar R$ 300 mil. A paciência dessa empresa se esgota todo mês. Aí temos que fazer um trabalho de diálogo, de convencimento. Quando a gente recebeu R$ 1,5 milhão da Alerj, R$ 1,2 milhão a gente gastou com os terceirizados, a Ferthymar e a K9, que era a de vigilância. A K9 não aguentou e rompeu o contrato em setembro. A Ferthymar ainda segurou a onda. Em fevereiro, conseguimos mais um pagamento de R$ 300 mil. Eles esperavam um novo pagamento em abril, mas não saiu. Fui com eles conversar e temos um novo deadline para 11 de maio em relação à Ferthymar. O dia que ela parar de trabalhar, em uma semana a gente já não tem mais condições de funcionar.
Folha – Falamos dos fornecedores. E até onde vai a paciência do servidor?
Passoni – A paciência do servidor esteve por um fio. No dia 17 de abril, véspera da Páscoa, recebemos o salário integral de fevereiro. Nesse momento, a gente desarmou uma bomba relógio, renovando um pouco com o servidor, que já estava no limite. Então, com esse novo atraso, chegando em 11 de maio, dependendo de como for o calendário do pagamento do salário de março… A data do pagamento deveria ser no 10º dia útil do mês subsequente. Deveríamos ter recebido março na primeira quinzena de abril, e já estamos em maio. Esse é um agravante. Eu também estou sem receber, assim como todo mundo.
Folha – Há ameaça de greve?
Passoni – Sim. A adesão à greve geral do dia 28 foi total. Foi um fenômeno nacional, mas o estado de ânimo interno ajudou muito. Mesmo quando há uma greve na universidade, ela nunca é total. Alguns setores funcionam durante as greves. No dia 28, você não encontrava uma viva alma aqui. Isso sugere o estado de ânimo do pessoal. Há uma perspectiva assombrando a gente de greve na universidade, em função do atraso do pagamento do salário.
Folha – Na matéria da Folha você também disse que, “em reunião realizada em abril, o Conselho Universitário, órgão máximo deliberativo da Uenf, decretou o ‘estado de calamidade’, devido à situação altamente precária em que se encontram a universidade e seus servidores”. Já estamos em maio. O que mudou?
Passoni – Não mudou nada, só piorou. A cada mês que passa, a situação só piora. O estado de calamidade do Conselho Universitário veio em função dessa navalha que estamos caminhando. Estamos num fio de navalha, a qualquer momento cai tudo. Então, o estado de calamidade decretado no Conselho Universitário veio em função dessa situação complicada que estamos enfrentando. É uma tentativa de fazer uma denúncia e dar respaldo ao discurso que a reitoria vem fazendo. A reitoria tem um discurso avisando que o gato subiu no telhado. Com o Conselho Universitário decretando o estado de calamidade, é uma forma de toda a comunidade universitária dizer para prestarem atenção, porque o gato subiu no telhado.
Folha – A Uenf subiu no telhado?
Passoni – A Uenf subiu no telhado e a qualquer momento ela vai cair. Se no dia 11 pagarem o salário de todo mundo, beleza, a gente consegue um pouco mais de fôlego. Se a Ferthymar não observar nenhum pagamento esse mês, nós vamos ter dificuldade de convencê-la a continuar trabalhando, e, se ela sair, em uma semana estamos sem condições de trabalhar. O gato subiu no telhado porque estamos tendo problemas constantes de furtos na universidade, problemas de segurança. O dia que tiver algum ferido, a gente também vai ficar sem condição de funcionar. São vários fatores em que estamos na corda bamba, tentando equilibrar. Se alguma coisa dessas der errado, o gato cai do telhado.
Folha– Na mesma edição de domingo da Folha, o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) disse e repetiu em entrevista (aqui): “Reconheço a importância da Uenf”. Mas ressalvou que sua prioridade é o pagamento de todos os servidores estaduais. Se isso acontecer, já que os da Uenf estão sem receber o 13º de 2016 e mais março de 2017, aliviaria o suficiente para esperar pelo resto?
Passoni – Alivia muita coisa, mas alivia a parte do servidor da universidade. O pessoal terceirizado continua muito no limite. Diminui um fator de pressão, mas a questão do terceirizado também é urgente.
Folha – Pezão também afirmou à Folha que seu plano de recuperação fiscal, além da ajuda da União, são as únicas alternativas à crise financeira do Estado. O governo federal condiciona sua ajuda à aprovação do plano de Pezão, que tem vários itens contrários aos interesses do servidor, como aumento da alíquota previdenciária de 11% para 14% e congelamento de reajuste salarial. Como conciliar o problema com a proposta de solução?
Passoni – Na Câmara (Federal), já caiu esse negócio, por exemplo, de 11% para 14% da contribuição previdenciária do servidor…
Folha – Mas Pezão afirmou que vai continuar brigando para aprovar isso na Alerj.
Passoni – Beleza. A questão do congelamento já está em efetivo. Nosso último reajuste salarial foi em 2015. Em 2016 não houve, e agora acabei de receber um comunicado devolvendo pra gente processos de enquadramento, progressão de carreira. Não é exatamente um reajuste, mas a classificação da pessoa no plano de cargos e vencimentos. A mobilidade no plano de cargos, que representava R$ 200, alguma coisa assim a mais no salário, também foi congelada.
Folha – Ainda na entrevista à Folha, Pezão disse ser equivocada a visão de que o fechamento da Casa de Cultura Villa Maria (aqui e aqui), por falta de energia elétrica, entre 18 e 24 de abril, seja a vanguarda de desmonte da Uenf. E você, o que acha?
Passoni – Ele talvez não tenha entendido o que a gente quis dizer com essa questão do fechamento da Villa Maria. É importante a gente ter clareza de que, se houvesse a manutenção correta da estrutura elétrica, da subestação, esse problema não aconteceria, ou não seria dessa magnitude. Foi um evento externo, que afetou a rede na rua e teve reflexos na Villa Maria. Se houvesse a manutenção correta, esse evento não teria assumido a dimensão que assumiu. É nesse sentido que falamos. Voltando à questão do deadline… Um evento inesperado antecipa isso.
Folha – Depois de oito anos com a Villa Maria sem um diretor, você foi o primeiro reitor a indicar alguém ao cargo: a professora da Uenf Simonne Teixeira. Qual foi sua intenção com esse resgate?
Passoni – Primeiro que uma universidade pura não existe. A universidade tem que ser universal, a cultura tem que permear as ações. A universidade não é só um local de fazer pesquisa, desenvolver o conhecimento técnico e formar mão de obra. Ela é um espaço de pensar a sociedade, pensar o ser humano, e a cultura é um aspecto muito importante para a gente se entender enquanto ser humano. É um dos aspectos que nos diferencia de outro animal. A Casa da Villa Maria tem essa importância por ser a Casa de Cultura. Além disso, é uma interface com a cidade muito importante, pelo significado que a casa tem para a sociedade de Campos, pela localização.
Folha – Sim, pelo seu simbolismo de prédio histórico de um dos mais belos entornos arquitetônicos da área central da cidade, que já serviu de sede à Prefeitura de Campos em quatro governos, a questão da Villa sensibilizou o campista. Tanto que, após sua reabertura, o evento “Choro na Villa”, no dia 29, registrou grande quantidade de público. Como continuar a sensibilizar?
Passoni – A população está sensibilizada, está apoiando e torcendo pela gente. Precisamos sensibilizar é o Governo do Estado. A Villa Maria tem um papel muito importante nessa aproximação da universidade com a cidade, com a sociedade. A tendência é a gente continuar desenvolvendo essas atividades, com essa intenção da aproximação.
Folha – Lançada em 11 de abril, na sua presença, o que a campanha “Somos todos Uenf” já promoveu de lá para cá? O que pretende ainda fazer?
Passoni – A campanha “Somos Todos Uenf” é uma campanha de propaganda da universidade, de sensibilização das autoridades. Tivemos o dia de ação em abril, agora estamos com as vinhetas no rádio e na televisão, nas redes sociais, chamando a atenção para a universidade. A função da campanha é demonstrar o carinho, o apoio, que a Uenf tem em Campos e na região.
Folha – No blog “Opiniões”, hospedado na Folha Online, uma série de colaboradores passou a tratar sobre a crise na Uenf. A primeira (aqui) foi a professora da universidade e presidente da Aduenf, Luciane Silva, que pregou: “Manter a Uenf aberta é uma forma de resistência e acima de tudo uma aposta de que o futuro de Campos pode ser muito mais luminoso. Mais humano e justo”. É isso?
Passoni – Sim. A universidade foi pensada como um fator de desenvolvimento da região. Quando o Darcy Ribeiro descreveu o projeto da Uenf, fez referência à Unicamp. A partir dela, Campinas e aquela região do interior de São Paulo alavancou um desenvolvimento fantástico. A Uenf veio para cá com a mesma intenção e, de certa maneira, vem cumprindo esse papel. Campos é hoje, no Estado do Rio, o maior polo universitário fora da capital. E todas essas universidades têm egressos da Uenf no seu quadro de docentes. O foco da Uenf na questão da pesquisa, da pós-graduação, foi muito importante.
Luis Passoni (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)
Folha – Em outro artigo na Folha (aqui) sobre o mesmo tema, o professor José Luiz Vianna da Cruz ponderou em comentário (aqui) nas redes sociais: “Com todo o respeito ao Darcy, no início, a Uenf, por ter começado pelo doutorado e pela pesquisa laboratorial, não tinha conexões com a realidade regional e provocou até uma certa rejeição, porque os acadêmicos de então ‘não se misturavam’ e viviam mais fora de Campos”. Mas depois completou que, com o tempo, a Uenf se tornou “vanguarda acadêmica, social e política” de Campos e região. Quando e como se deu essa transição?
Passoni – Ele começa dizendo que a Uenf chegou aqui como um corpo estranho. Eu acho que o pessoal tinha uma expectativa um pouco diferente quando pediu a criação de uma universidade. A gente tinha uma visão no Brasil de que as universidades são criadas com a junção de faculdades existentes. Tenho a visão de que existia essa expectativa, como foi com o Uniflu, e em casos da UFRJ, da USP e outras. Havia essa expectativa por parte da intelectualidade. Quando foi decidido promover diferente, isso foi um choque. Em 1993, a estrutura aqui na cidade de Campos era muito ruim. O pessoal que veio sentiu um pouco esse impacto. Havia muito disso do pessoal não viver a cidade. Ficava aqui durante a semana e na sexta-feira se mandava. Isso dificultou um pouco, no início, essa integração. Mas, na medida que a universidade foi aumentando, com a entrada de docentes da cidade, isso foi mudando. Agora o pessoal está ficando aqui, morando aqui. Isso tem facilitado a integração. De parte a parte, o tempo dirimiu uma má impressão inicial e possibilitou essa aproximação.
Folha – Jornalista e diretor adjunto da superintendência municipal de Igualdade Racial, o Rogério Siqueira propôs em outro artigo (aqui) que a Uenf partisse para uma mobilização maior, junto às demais instituições de ensino superior, além do ensino médio de Campos. E essa estratégia de comunicação sofreu críticas de pessoas diretamente ligadas à Uenf. Isso não revela certo defensivismo?
Passoni – Não. A universidade é um espaço muito plural. Essa é uma grande característica, até difícil de compreender. Ela não tem um pensamento único. Cada indivíduo aqui tem um pensamento diferente. Qualquer iniciativa vai sofrer crítica, de um lado ou de outro. A crítica faz parte da universidade e não pode ser vista como um defensivismo, mas como a essência da universidade. Esta nossa entrevista, quando for publicada, vai sofrer críticas. Não sei o que, mas alguma coisa que eu falei aqui, vai gerar críticas, quem sabe até severas, por parte da própria comunidade interna. Não vai ser unânime.
Folha – Engenheiro e ex-candidato a prefeito de Campos, na eleição de 2012, José Geraldo Chaves tem proposto (aqui) a criação de uma comissão paritária que envolvesse setores da sociedade civil e representantes políticos de todos os municípios onde atua a universidade, além de seus ex-reitores e o atual, você. Qual a sua opinião?
Passoni – A gente já conversou alguma coisa parecida com isso. Numa conversa aqui com setores da sociedade civil, não vou me lembrar exatamente quem estava presente, a gente discutiu a possibilidade de criar alguma coisa que, mesmo não estando dentro da estrutura administrativa da universidade, funcionasse como um órgão consultor, uma referência, para a gente juntar esses atores para pensar um pouco a universidade e sugerir caminhos que possam ser trilhados, para sairmos dessa situação em que a gente se encontra. Essa sugestão já houve. Estamos simpáticos à ideia, mas ainda não conseguimos tomar nenhuma ação concreta no sentido. Teve um primeiro momento, na própria campanha “Somos todos Uenf”, quando convidamos para o lançamento um conjunto de personalidades e entidades que podem ser a base para esse conselhão. Não seria deliberativo, mas uma comissão de ajudar a pensar. É uma ideia boa, que a gente pretende colocar em prática.
Folha – Outro texto sobre a situação da Uenf que gerou polêmica foi escrito pelo advogado e publicitário Gustavo Alejandro Oviedo, no qual ele propôs (aqui) que a universidade buscasse mais parcerias com a iniciativa privada. Entre pessoas ligadas à Uenf, algumas pareceram aprovar, mesmo destacando iniciativas já feitas neste sentido, enquanto outras opuseram questionamentos. O que você pensa?
Passoni – Penso que vai ser muito difícil a gente substituir o papel do Estado no financiamento. Conseguir R$ 2 milhões por mês não é trivial. Isso sem contar os salários, só para a manutenção. Não é uma coisa trivial. A Uenf tem, de fato, interações com a iniciativa privada, principalmente com a Petrobras.
Folha – Que é uma estatal, com a situação financeira bastante complicada pela corrupção.
Passoni – Mas temos uma interação há bastante tempo com a Águas do Paraíba também…
Folha – Que é uma concessionária de serviços públicos.
Passoni – Procuramos o pessoal do Porto do Açu, o pessoal da Corbion Purac (antiga Purac Sínteses). A gente tem procurado.
Folha – Você falou antes, com razão, que a iniciativa privada não teria como assumir o papel do Estado. Mas não poderia ajudar, sobretudo num momento de crise?
Passoni – A gente precisa dessa ajuda, porque a ajuda não está vindo. Mesmo a Petrobras, que é o principal parceiro, desenvolve vários projetos de pesquisa na universidade, ela financia o projeto de pesquisa de interesse da empresa. Os recursos vão para esses projetos. Mas a questão de pagar luz, água, esse tipo de coisas não entra no projeto. Então, a gente precisa aprimorar esse mecanismo, para que essas colaborações, que já existem e a gente pretende ampliar, revertam recursos para a manutenção da universidade. Hoje é muito pouco o revertido para isso.
Folha – Num debate nas redes sociais, o jornalista Ocinei Trindade, que recentemente concluiu seu mestrado de Cognição e Linguagem na Uenf, testemunhou (aqui) que, num seminário da universidade, ele sugeriu a possibilidade de ajuda da iniciativa privada em pesquisas e patrocínios, mas ouviu de uma professora do CCH: “prefiro morrer a lidar com capitalistas”. O setor privado deve ser encarado como inimigo “mortal” de uma educação superior pública, gratuita e de qualidade?
Passoni – De novo: todo assunto dentro da universidade é polêmico. Você vai encontrar gente que é muito crítica à participação da iniciativa privada. Por outro lado, também vai encontrar gente que busca essa interação com a iniciativa privada. Hoje, a nossa principal carência é o maior interesse da iniciativa privada em colaborar com a universidade, que tem um grande potencial, um grande número de pessoas que estão dispostas a essa colaboração. Citei dois casos emblemáticos de empresas que, embora sejam uma concessionária e uma empresa estatal, são empresas, funcionam dentro de uma lógica de mercado, e que têm encontrado, dentro da universidade, parceiros para desenvolverem ações de seu interesse. A gente tem setores dentro da universidade que estão abertos a essa colaboração. É mais o pessoal da área de tecnologia, não o do CCH. O pessoal da área de humanas tem alguma dificuldade na interação, porque o tipo de pesquisa que eles fazem não é o tipo que interessa muito ao setor produtivo.
Folha – A iniciativa da parceria deveria partir, então, do setor privado, não da universidade?
Passoni – A iniciativa privada é quem tem que colocar para a gente as suas demandas, para que a gente possa entender.
Folha – Por qual canal?
Passoni – Temos, por exemplo, a agência de inovação, que faz essa interface. Já fomos procurar o pessoal do Porto, o pessoal da Corbion. A gente tem uma interação muito boa com a Firjan, com a Acic, com a CDL… Estamos de portas abertas, com um potencial muito grande de ter ações de interesse que possam reverter algum recurso para a manutenção da universidade. Agora, quem tem o dinheiro é a iniciativa privada. Ela tem que mostrar também a disposição de investir na universidade.
Folha – Voltando à Villa Maria, além do “Choro na Villa”, que terá edição mensal, ontem foi organizado (aqui) nos jardins da Casa de Cultura o “Dia do Rock Goitacá”, Isso sem contar o “Bazar da Villa”, agendado para 7, 8 e 9 de julho. Todas as iniciativas são frutos de parcerias. Em entrevista à Folha, Simonne Teixeira afirmou (aqui): “a parceria entre a Uenf e a comunidade é fundamental”. Concorda?
Passoni – Concordo plenamente, e estamos nessa trajetória de ampliação. A Villa Maria passou pelo menos oito anos sem direção, fechada no sentido de que não acontecia nada lá. E nada iria acontecer se dependesse só da universidade. A universidade está sem condição de bancar qualquer iniciativa. É com a colaboração e a participação que esses eventos têm acontecido, muito em função da dinâmica da professora Simonne. Está aí um exemplo de como a universidade está aberta, buscando interações com a iniciativa privada. Buscamos essa interação com atores externos e ampliar isso, mas esbarramos também na nossa capacidade. Quantos eventos a gente conseguiria fazer na Villa Maria? Acho que estamos chegando no limite do número razoável de eventos que a gente consegue fazer durante o ano. Aqui dentro da universidade, na questão dos laboratórios, da pesquisa, de interesse da iniciativa privada, a gente ainda tem muito potencial para crescer. E aí percebo pouco interesse da iniciativa privada em desenvolver pesquisas.
Folha – Há possibilidade de sobrevivência à Uenf se ela não for abraçada pelas comunidades na qual está instalada? Em contrapartida, há futuro promissor para Campos e região sem a Uenf?
Passoni – A resposta é não para tudo. Acho que está claro que a gente precisa inclusive até de um apoio mais veemente. A gente precisa colocar, de maneira muito mais clara, a importância da Uenf para Campos e região ao Governo do Estado, que ainda não está sensibilizado com a situação da universidade. A universidade ainda não é prioridade dentro de todas as carências do Estado. A gente só vai conseguir isso com toda a sociedade solicitando essa prioridade, essa valorização. E a questão do futuro da região, eu acho que depende muito dessa nossa capacidade também de conseguir traduzir em coisas práticas o conteúdo, a excelência da nossa pesquisa. A gente tem conseguido, com muito sucesso, na questão de formação de pessoal, de pessoas qualificadas. As universidades usam professores formados na Uenf, as empresas usam profissionais formados aqui. Agora, precisamos que se tenha mais inserção dos resultados da pesquisa na produção local. Cito, por exemplo, a introdução da uva, a questão do mamão. A gente tem, por exemplo, o milho. Temos a semente, mas não temos ainda o mecanismo para que essa semente chegue ao produtor e ele consiga produzir. Temos vários programas de extensão na área rural, auxiliando os pequenos produtores, que precisam ser integrados, e ficar clara a contribuição que eles dão hoje na produção campista e da região.
Folha – O que representa para a Uenf a PEC apresentada pela Comissão de Educação da Alerj, para que o repasse do orçamento das universidades aconteça em duodécimos, ou seja, dividido em 12 meses?
Passoni – Existem alguns mecanismos que, aplicados hoje, ajudariam a universidade a superar esse momento. Um desses mecanismos é o seguinte: A Constituição do Estado do Rio de Janeiro fala em 6% da arrecadação para as universidades. Isso não é cumprido. Todo ano, a Comissão de Educação apresenta uma emenda do orçamento para que seja cumprido o mecanismo dos 6%, e todo ano a base do governo consegue rejeitar. Hoje, não estamos recebendo nada. A questão do duodécimo vai no mesmo sentido. É pegar o orçamento, que não está sendo cumprido, e repassar todo mês a parte que nos cabe, em recurso financeiro, em papel moeda. Com isso, a gente conseguiria se organizar. Hoje, a gente tem orçamento, mas não tem dinheiro. Se o Governo do Estado começar a acertar a partir daqui, tendo a garantia de algum aporte mensal, eu consigo conversar, renegociar e resolver a questão. O problema é que eu não tenho nenhuma garantia de aporte mensal. A questão do duodécimo é, de novo, uma garantia do aporte em dinheiro, de um recurso mensal para a universidade, que vai poder exercer autonomia, eleger prioridades e começar a sair desse buraco. É um mecanismo muito importante, similar ao do financiamento das universidades paulistas, que são consideradas as melhores do Brasil em qualquer avaliação. Muito desse sucesso tem a ver com a forma de financiamento, que é um percentual de arrecadação repassado em duodécimos. O Estado do Rio de Janeiro tem se recusado a usar esse modelo.
Folha – Em reunião na última sexta, o governador Pezão prometeu (aqui) pagar em dia servidores e bolsistas das universidades estaduais, de abril para frente. E estimou acertar os atrasados para trás até o final de junho, quando deve ter sido aprovada no Congresso Nacional a ajuda da União aos Estados. Com isso o gato começa a descer do telhado?
Passoni – O governador disse que sem aprovação no congresso da ajuda aos estados, ele não tem como prever ainda quando e como poderá pagar os salários de março. Disse que vai tratar as universidades como educação (as instituições estaduais de ensino superior são ligadas à secretaria de Ciência e Tecnologia, não de Educação), que vamos receber junto com o pessoal da educação a partir do mês que vem. E que saindo pacote de ajuda no fim até o final de junho ele coloca em dia os atrasados. O pacote de ajuda já foi aprovado no primeiro momento faltam os destaques Então eu acho que é uma boa notícia: a gente pode esperar para breve que seja acertado a questão do salário.
Folha – Pezão também disse que só depois que acertar o pagamento dos servidores, vai saldar o atrasado com os fornecedores, mantendo pagamento mínimo até lá, do qual a Uenf ficou de receber entre R$ 100 mil e R$ 200 mil nos próximos dias. Com essa perspectiva, consegue negociar e se manter funcionando?
Passoni – Com relação aos fornecedores, é isso mesmo. Vai ser feito algum pagamento esse mês e, a partir de quando o salário for posto em dia, vai começar a ser feito acerto com os fornecedores também.
Abaporu (1928), óleo sobre tela de Tarsila do Amaral
Como disse Jorge Amado: “Mestre inconteste no que se refere à educação, Anísio Teixeira foi um brasileiro raro”, o qual esse texto leva título homônimo a uma de suas obras, a expressar em outrora o pensamento que ricochetearia no presente, à parte dos números:
“Sou contra a educação como processo exclusivo de formação de uma elite, mantendo a grande maioria da população em estado de analfabetismo e ignorância. (…) Choca-me ver o desbarato dos recursos públicos para educação, dispensados em subvenções de toda natureza a atividades educacionais, sem nexo nem ordem, puramente paternalistas ou francamente eleitoreiras.” — Anísio Teixeira.
Homem admirado por Darcy Ribeiro, o qual levou a frente suas ideias e a criação da Uenf, me veio à mente ao ler tal frase, que pensa um político ante uma sociedade que não passe antes pelo crivo da educação de qualidade? Certamente a construção de um grande cabresto abstrato, transformando projetos sociais não como paliativos para um objetivo — necessários numa sociedade extremamente desequilibrada como a nossa — mas o objetivo para um voto, fazendo da política, como o pensamento de Nietzsche, um “eterno retorno”, perpetuando o devir da resistência ao desenvolvimento humano.
Além, vejo a cobrança das anuidades em faculdades públicas se encaixar na frase de Anísio Teixeira, “sou contra a educação como processo exclusivo de formação de uma elite” se gratuita, maior parte da comunidade que contorna a Uenf não caminha sobre suas gramas, e sabemos que o motivo vai muito além dessa questão. Como essa universidade fora pensada por Darcy Ribeiro, um local de dissolução das classes, resta-nos a pergunta, mediante a aparente impermeabilidade da sociedade acadêmica, agrega ou desagrega? Excetuando deste argumento o projeto de lei do senado nº 782, de 2015, que previa o pagamento de anuidades apenas a estudante que aferissem renda familiar acima de 30 salários mínimos, imagino que as medidas seriam impostas como um parâmetro de renda, mas foge à realidade brasileira. Ainda além, vejo tal opção de alternativa à crise como perigosa, pois se torna um hábito cultural, e sabe-se lá após a porta aberta, daqui a alguns anos, em qual altura estará essa questão com o passo já dado para a privatização do ensino público. Já não basta pagarmos uma das maiores cargas tributárias do mundo, devemos aumentar o pagamento ou mudar os administradores e reformar esse sistema político?
Diante de questão tão delicada como a crise na Uenf, e a dimensão de sua importância para o desenvolvimento regional, fechá-la é como cortar o pescoço de Campos, o corpo trabalha enquanto a mente vaga, vaga — para o declínio do próprio corpo. Para me inteirar mais sobre o assunto encontrei uma amiga de infância, a quem não ouvia a voz desde então, lembranças boas que esse texto já me proporcionou antes mesmo de ser escrito. Thaís Rigueti tem toda a sua vida jovem e adulta formada pela Uenf, fruto das vozes intelectuais que ecoam seus ambientes acadêmicos, cresceu sobre os ombros gigantes da Universidade Estadual Norte Fluminense e se tornou uma mulher de sucesso, terminando seu doutorado, como já predizia seus impávidos traços na infância. Ao perguntar a quem sente na pele as consequências da crise, Thaís se propôs a falar em palavras escritas, a angústia de ver quem a criou profissionalmente sucumbir à incompetência e má-fé de nossos políticos:
“Ingressei na Uenf em 2006, movida pelo interesse profissional e por querer ter ensino de qualidade sem pagar por isso. Esta era a realidade projetada nas mídias e que condizia com o papel desempenhado pela universidade em nossa região, idealizado por Darcy Ribeiro. Mesmo sem estar envolvida com a situação política vivida pela universidade neste período e sem saber quais eram as necessidades do corpo docente e discente, encontrei o que procurava: universidade com boa infraestrutura, salas de aula lotadas, professores preparados e motivados. No mesmo ano me candidatei a uma bolsa de apoio acadêmico oferecida pela universidade, a qual complementava minha renda e me ajudava na adaptação em minha nova cidade. As bolsas de apoio, iniciação científica, dentre outras eram/são ofertadas através de processo seletivo e muitos dos meus colegas da universidade eram contemplados.
No mesmo ano, em Julho, participei da inauguração do Hospital veterinário (o maior da América Latina), projetado por Oscar Niemeyer. Não havia dúvidas de que era um momento de ascensão da Universidade no âmbito tanto regional, quanto nacional. Nesta mesma época comecei a me interessar pela situação política vivida pela universidade e as necessidades do corpo discente.
No decorrer do meu curso de graduação em Ciências Biológicas, participei de manifestações promovidas pelo DCE (Diretório Central de Estudantes), e dentre as reivindicações estavam a criação de um refeitório (bandejão), oferecimento de auxílio moradia/alojamento e reajuste no valor das bolsas ofertadas. Apesar da luta por mais direitos, não havia dúvidas de que a universidade caminhava bem. A Uenf era uma das instituições pioneiras na oferta de cursos de graduação a distância, em 2008 recebeu o Prêmio Nacional de Educação em Direitos Humanos e em 2009 recebia pela segunda vez, o Prêmio Destaque do Ano na Iniciação Científica conferido pela CNPq.
Em 2010 colei grau e me tornava bacharel em ciências biológicas, sem dúvidas o sentimento era de gratidão. Gratidão por ter a oportunidade de viver a Uenf e ser parte dela, por ter ensino de qualidade e crescer com ela. A partir de 2010 (Até o presente), comecei a trabalhar com pesquisa e fiz/faço parte do programa de Pós-Graduação em Biociências e Biotecnologia e neste atual contexto posso vivenciar a realidade política da Universidade com um novo olhar (acho, inclusive, menos romantizado).
A aproximação com o corpo docente e técnico administrativo, além do discente (no qual faço parte), promoveu uma visão mais crítica sobre as políticas de gestão desenvolvidas pela universidade e as políticas públicas adotadas pelo governo do nosso estado e país. Em 2010 vivenciei a primeira greve (desde de que havia entrado na universidade), organizada pelos servidores, a reivindicação era pela reposição salarial. Os sucessivos governos que passaram pelo nosso estado e pelos diversos municípios fluminenses nas duas últimas décadas haviam destruído as condições para o exercício de uma educação pública de qualidade. Toda a comunidade aderiu a greve, “Uenf na rua, Cabral a culpa é sua” (gritei bastante esta frase na época do governo Cabral). Neste governo a insatisfação da comunidade acadêmica crescia, e foram muitas greves (não me recordo exatamente quantas foram).
Hoje, trabalhando com pesquisa e sendo bolsista de doutorado pela Faperj sinto na pele as consequências da crise. Bolsas atrasadas e sem reajuste; falta de recursos (reagentes, materiais) e infraestrutura para o desenvolvimento de pesquisa; calendário acadêmico atrasado devido às greves; refeitório fechado por falta de recursos; insegurança por não haver vigias; professores e técnicos desmotivados por atraso de salários (que já estão defasados).
A atual situação da Uenf é um reflexo de má gestão pública e isso me entristece profundamente. Como Universidade, ela desempenha um papel fundamental em nossa região, ela agrega pesquisa, ensino e extensão ou seja: ela gera conhecimento, possui ensino de qualidade e torna isso acessível para toda população. A pesquisa desenvolvida nos laboratórios por discentes e renomados docentes (100% doutores) produzem resultados que promovem desenvolvimento regional e contribuem para o conhecimento cientifico a nível nacional e internacional. De acordo com os Indicadores de Qualidade da Educação Superior 2015, divulgados em março deste ano, a Uenf é a 13ª melhor universidade do Brasil e a segunda do Estado do Rio.
Assim como uma célula do ponto de vista biológico, a universidade precisa sobreviver. É necessário que todos os compartimentos estejam funcionando bem para que sejam realizadas suas funções. A energia para produzir vem dos investimentos públicos que precisam ser bem administrados. Na situação atual, estamos criando energia por reciclagem, mas isso não consegue se manter por muito tempo sem que a célula/universidade morra.
Para sair da crise, precisamos de mais apoio. Precisamos que toda a população abrace a causa e entenda a importância da universidade para a nossa região. Precisamos entender o complexo contexto político em que esta situação está inserida e a partir daí buscar soluções. Como o próprio Darcy Ribeiro dizia: só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. Então sem dúvida, frente a esta situação, precisamos nos indignar” — Thaís Rigueti
Parece que funcionou a pressão de Campos e do Norte Fluminense em apoio à Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Darcy Ribeiro, cujo funcionamento chegou a estar ameaçado (aqui) pela grave crise financeira do Estado do Rio. Cobrado em entrevista publicada na Folha (aqui) no último domingo, o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) se comprometeu a regularizar os pagamentos futuros dos servidores e alunos bolsistas das universidades estaduais a partir do 14º dia útil de cada mês, a contar de maio. Foi o que ele disse em reunião encerrada agora há pouco, no Rio de Janeiro, com seu secretariado e os reitores da Uenf, Luis Passoni, da Uerj e Uezo.
A forma de pagamento aos servidores e bolsistas das universidades estaduais será o mesmo de todos os ligados à secretaria estadual de Educação (Seduc). Quanto aos atrasados, o governador estimou que poderá saldar as dívidas até final de junho, quando já devem ter sido votados na Câmara Federal todos os destaques, além do Senado, o pacote de ajuda da União aos Estados. Caso isso se confirme, o Estado do Rio espera receber algo em torno de R$ 3 bilhões.
Quanto aos fornecedores, Pezão disse que pretende acertar todas as dívidas após regularizar o pagamento dos servidores. Até lá, pagaria um mínimo para tentar garantir a manutenção dos serviços. Dentro dessa previsão, ele pretende repassar à Uenf, nos próximos dias, entre R$ 100 mil a R$ 200 mil. A universidade não recebe verba de manutenção, em torno de R$ 2 milhões/mês, desde outubro de 2015. Seus servidores estão com o 13º de 2016 e abril de 2017 atrasados, enquanto seus bolsistas estão há dois meses sem receber.
Atualização às 18h50 para publicação abaixo da nota oficial abaixo:
Nota oficial
O secretário de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Social, Pedro Fernandes, e representantes de todas as instituições vinculadas à secretaria: Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Centro Universitário Estadual da Zona Oeste (Uezo), Fundação Centro de Ciências e Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro (Cecierj), Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), se reuniram, nesta sexta-feira (05/05), com o governador Luiz Fernando Pezão.
Este foi o segundo encontro para discutir, conjuntamente, as propostas que foram apresentadas para solucionar a crise que atinge as instituições, tais como a isonomia entre a SECTDS e a secretaria de Educação e o pagamento das bolsas dos cotistas e demais bolsistas. O governador se comprometeu, até o final de junho, priorizar a SECTDS e colocar em dia todas as fohas de pagamento, desde que a haja a aprovação do plano de recuperação fiscal que tramita no Congresso. Os vencimentos a partir de junho, portanto, serão pagos na mesma data-base da secretaria de Estado de Educação.
Outro ponto discutido e acordado foi que o recebimento dos bolsistas será feito junto com o pagamento dos demais funcionários do Estado. Caso seja feito o parcelamento dos vencimentos dos servidores o mesmo acontecerá com as bolsas. Em relação ao pagamento de fornecedores, a secretaria se comprometeu a continuar as negociações com a secretaria de Estado de Fazenda para garantir os serviços essenciais.
Leia a cobertura completa das promessas de Pezão à Uenf na edição de amanhã (06) da Folha da Manhã
Sábado, dia 6 de maio, a cidade de Campos irá festejar o Dia Municipal do Rock Goitacá. São raras as cidades brasileiras que instituíram esta data comemorativa. Esta quinta edição irá acontecer nos jardins da Casa de Cultura Villa Maria com início previsto para às 14h e encerrando às 23h, com entrada gratuita, ficando instituído aos participantes a iniciativa de doarem um quilo de alimento não perecível ou material de limpeza, que serão doados à própria Uenf e a outras entidades assistenciais do município.
Com organização do Coletivo Resistência Goitacá, o festival irá contar com sete bandas locais, que apresentarão prioritariamente músicas autorais. Os grupos musicais foram selecionados por sorteio, com duas convidadas. São elas: F5, Bender, Blues Band Vidro, Anestesia of Beer, Varney, Angelo Nani e Avyadores do Brazyl.
Um dos organizadores, o músico Kiko Anderson, destaca que este evento é um oásis para os amantes do rock. “Convocamos todos os amantes da boa música e da cultura para participarem conosco dessa iniciativa, faremos mais uma grande festa da arte, da música e da cultura local celebrando essa data que é nossa, o Dia do Rock Goitacá”, afirmou o músico.
O produtor Cultural Romualdo Braga, informa que além das bandas que tocarão ao vivo, haverá ainda audição de discos de vinil, exposições artísticas e uma área gastronômica que abrangerá desde hamburgueria e churrasco até comida vegana. “A idéia é atender a todos os gostos, oferecendo comida e bebida diversificada”, informou o produtor Wellington Cordeiro.
A parceria com a Casa de Cultura Vila Maria será mais uma vez o grande destaque desta edição, já que é um importante ambiente cultural pertencente a Universidade do Norte Fluminense (Uenf), que mesmo passando por dificuldades de cunho financeiro, irá abrigar o evento, dando mais conforto e segurança ao público e aos músicos.
Dia do Rock Goitacá
O Dia do Rock Goitacá, Lei Municipal Nº 8479 de 09 outubro de 2013, foi aprovada pela Câmara Municipal de Campos, sendo esta, uma homenagem a Luizz Ribeiro, um dos mais importantes músicos da cidade, que muito contribuiu para formação da cultura musical de Campos.
Através daquele longo gramado onde reinava o total abandono caminhei tomado pela sensação do torpor, por singrar entre um misto de construções homogêneas que aludiam a um passado que não mais podia compreender. Como se além daquele pórtico decadente se escondesse um universo distante e obscuro, guiei-me atrás do caminho aberto pela minha curiosidade ouriçada em busca de uma explicação.
De cara, chamou minha atenção aquela edificação tortuosa e seu teto inclinado. Não fez sentido tal ângulo combinado com as curvas de sua base de sustentação. Seria um enorme erro arquitetônico de outrora? Como alguém admitiria algo tão grotesco, essas ruínas ao longe em destaque, dando a entender que não compreendia nada de traços homogêneos e de equilíbrio?
Perdi alguns minutos conjecturando algum nexo. Nesse período de pensamento disperso que subiu de meus pés um súbito resfriamento, caindo a temperatura sem razão plausível. Essa sensação térmica prenunciou a chegada de um homem translúcido, envolto por uma aura azulada; um fantasma de tempos antigos me interpelava e, ao contrário do que se esperaria, não senti medo. Com uma voz calma e professoral, ele apontou o dedo em direção àquele trapézio e esclareceu que o concebeu um arquiteto de eras remotas, cuja autoria se esqueceu naquelas paragens em decorrência da queda de todo o complexo. E detalhou como ergueram todos aqueles idênticos prédios com a finalidade de ser uma instituição destinada a espalhar o saber.
Perambulamos toda a extensão do perímetro. Em cada bloco ele lembrava de histórias antigas, das máquinas percorrendo, dos operários erguendo colunas de concreto, de uma época em que os alunos subiam pelas rampas e tudo funcionava como um organismo vivo.
No fundo, aquele saudosismo remetia a uma tristeza guardada de então. Uma melancolia engasgada de um observador longínquo, vigilante quando a devastação tomou conta e paulatinamente derrubou os pilares de seu sonho. Daí a brecha para minha pergunta, sobre como algo dessa magnitude converteu-se em um vasto campo onde imperava soberana a desolação.
Informou-me então sobre demônios ocultos dentro dos homens. Demônios que os arrastavam à ignorância, à barbárie. Sua luta contra alguns desses consumiu sua vida, e nos arredores daquela área a população aplaudiu seus esforços. Porém, pouco a pouco esses demônios, eternamente incubados na alma humana, dilaceraram aquela construção até quando em sua glória conquistaram a vitória definitiva. E assim suas lágrimas póstumas semearam os escombros acumulados ansiando pelo retorno triunfal.
Não sei o que mais me tocava, se a paisagem degradada ao meu redor, se a história da queda, se o sofrimento expresso em suas palavras, ou se a conjunção dessas três coisas. Aquela imagem translúcida me induzia a pensamentos negativos, não referente a ela própria, mas às sementes plantadas em meu imaginário. Queria recorrer ao passado e em cores brilhantes assistir a essa ideia tão tresloucada de uma entidade estabelecida para transmitir conhecimento, e descobrir o quanto seu declínio refletiu no atual patamar precário de nosso mundo, enfurnado nos tons de cinza de criaturas brutalizadas.
Sem mais o que ver, eu encafifado com tamanhos histórias, o fantasma em um lamento soturno e particular, despedimo-nos, eu para sair dali com mais dúvidas que certezas, ele para perambular recepcionando algum outro visitante a esmo que o acaso calhasse de guiar até ali. Antes de ir embora, perguntei-lhe qual seu nome. Ele disse que se chamava Darcy.
Beto Cabeludo, Roberta Moura e Josiane Morumbi recebem cumprimentos e aplausos dos colegas da Câmara (Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)
Semelhanças e diferenças
Ao tomarem posse ontem na Câmara, os novos vereadores Beto Cabeludo (PTC), Josiane Morumbi (PRP) e Roberta Moura (PR) revelaram semelhanças e diferenças. Em comum, os três assumiram a partir das condenações de primeira e segunda instâncias da Justiça Eleitoral, oriundas da operação Chequinho. A principal diferença é que sobre Beto e Josiane não pesam suspeitas de envolvimento na troca de Cheque Cidadão por voto, no governo Rosinha Garotinho (PR). Por sua vez, Roberta já foi julgada no caso e espera sua sentença.
Suspeitas na oposição
Aparentemente, as diferenças nas suspeitas pela forma como conseguiram seus votos na eleição de outubro passado determinou os discursos dos três novos edis. Beto Cabeludo e Josiane Morumbi disseram que vão legislar em conjunto com os companheiros de Câmara, cuja composição hoje é majoritariamente governista. Por sua vez, Roberta Moura pregou: “Vou ser oposição a um governo (Rafael Diniz, PPS) que não está fazendo nada pelo povo. Agradeço a (Anthony) Garotinho (PR) pelo apoio ao meu mandato”.
Dúvida assumida
Apesar da firmeza em chegar se anunciando oposição, Roberta externou a dúvida: “Não sei quanto tempo vou ficar no cargo”. Julgada numa Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije) da Chequinho, mesmo se a nova vereadora vier a ser condenada, recorre no cargo, mas pode ser alvo de uma Ação Penal (AP) do Ministério Público, que poderia custar seu mandato.
Cabeludo x Garotinho
Por sua vez, bastante popular em Ururaí, seu reduto eleitoral, Beto Cabeludo ficou mais conhecido do campista em geral a partir de uma pesquisa do instituto Pro4 divulgada em 8 de novembro de 2015, na Folha. Feita com 984 eleitores, entre 22 a 24 de outubro, na consulta espontânea a prefeito de Campos, que seria eleito no ano seguinte, Cabeludo despontou com 0,1% das intenções de voto. Pode não ter sido muito, mas foi só 0,1 ponto percentual atrás das citações espontâneas a Garotinho, que marcou apenas 0,2%. O crescimento do hoje vereador e a decadência do ex-governador e ex-prefeito já eram tendências.
Caminho inverso
Enquanto há grande mobilização para que Campos e cidades vizinhas possam ganhar mais reforço na segurança, uma ordem do comando geral da Polícia Militar no Rio vai desfalcar o 8º BPM e os batalhões de Itaperuna e Pádua em 77 militares. O mais absurdo que isso acontece em meio a uma onda de violência no interior com constantes assaltos e a população refém. A justificativa para o envio de PMs para São Gonçalo é que por lá são constantes o roubos. E aqui, não precisa?
Reações
Mesmo que temporário, como garante o Comando da PM, a situação desagrada à população e os próprios militares que estão acostumados com uma rotina diferente da região metropolitana — com menos fuzis, por exemplo. Tanto que a reação dos deputados estaduais Bruno Dauaire (PR), Geraldo Pudim (PMDB), Gil Vianna (PSB) e João Peixtoto (PSDC) foi imediata em defesa dos militares e pela segurança no interior. Eles não conseguiram evitar que os danos fossem ainda pior.
Cultura em pauta
O Norte Fluminense terá a oportunidade de discutir as políticas culturais de diversas vertentes artísticas. A região sediará duas prévias do I Fórum Estadual de Segmentos Culturais do Rio de Janeiro que acontecerão nos dias 18 de maio, em Macaé, das 15h às 20 horas, no Centro Cultural Rinha das Artes, e no outro dia, 19, em Campos. O encontro será no IFF Campus Centro, também das 15h às 20h.
Da mesma forma que não há pessoa que torça pela ignorância, imagino que não deva ter ninguém que se manifeste a favor do eventual fechamento da Uenf. Ao longo das ultimas duas semanas já se manifestaram em este espaço, com talento e eloquência, todos os colaboradores do blog. A opinião foi unânime: a Uenf não pode morrer.
É claro que me uno ao protesto. Tenho até motivos pessoais e afetivos para isso. Trabalhei um tempo como bolsista na instituição, num projeto audiovisual; dei umas singelas palestras sobre cinema para um grupo de alunos, e também fiz grandes amigos.
Causa-me tristeza comprovar, mais uma vez, como são negligentes (além de bandidos) os nossos governantes, e como é feroz e implacável o ajuste quando os recursos se esgotam, produto da inconsciência daqueles que estão encarregados de administrá-los com competência e parcimônia.
Projeta-se a nível estadual o mesmo desperdício de recursos provenientes do petróleo que aconteceu no município; a mesma falta de previsão para entender o seu valor oscilante, e a mesma noção equivocada de que o estado deve abranger todas as necessidades da sociedade, quando resulta obvio que deveria limitar-se a seus pontos essenciais — e a educação é um deles.
Entretanto, me parece necessário abrir os olhos diante da realidade que se apresenta à instituição: não se vislumbra no curto prazo uma recomposição dos recursos. A crise do estado está longe de acabar, e o seu fim não virá sem outros ajustes.
Recentemente, o Supremo Tribunal Federal aprovou a possibilidade de cobrança de mensalidade para cursos de especialização lato-sensu em universidades públicas. Isto é, aqueles que não são de graduação, mestrado ou doutorado. Abre-se aí uma opção a considerar por parte da direção da universidade, apesar do eterno rechaço docente sobre a questão.
Outras opções que deveriam ser analisadas poderiam ser parcerias entre a Uenf e o setor privado, onde a instituição seja a fornecedora a de ideias e conhecimento científico, capaz de fornecer soluções concretas a problemas específicos do mercado.
Um exemplo palpável poderia ser o desenvolvimento de unidades de geração de energia eólica e solar, destinadas a produzir eletricidade na nossa região (que tem sol e vento em abundância). No setor agropecuário, então, as possibilidades se multiplicam.
Sim, estou falando de lucrar, e de que a universidade possa fazer negócios com terceiros, no seu proveito. Sei que isto pode soar a sacrilégio. Imagino também que devam existir alguns entraves burocráticos, que sempre são utilizados como desculpas convenientes. Mas, uma vez superados os preconceitos, se chegaria a uma conclusão respaldada pela história: o conhecimento é que nem água, ele se movimenta (e não para) quando encontra um canal de escoamento.
O fim da Idade Média foi determinado pelo fim do isolacionismo das abadias e dos feudos. O comércio entre as novas cidades (burgos) permitiu assim a troca de mercadorias, mas também do saber, que até então era ‘preservado’ nos mosteiros. A combinação de ambos, conhecimento e comércio, permitiu o Renascimento.
A luta da Uenf deve continuar, através dos protestos e das reivindicações às autoridades. Mas não estaria mal começar uma outra frente de luta, composta de imaginação e de pragmatismo.