A partir das 7h da manhã desta quinta, a convidada do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é a consultora de propriedade intelectual e policial civil Kíssila Santos. Ela falará sobre marcas, patentes e direito autoral. Analisará também a participação da mulher nas Forças de Segurança. Por fim, ela falará sobre o Brasil após o 7 de setembro, Estado do Rio e Campos.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Campos foi uma das 167 cidades brasileiras em que bolsonaristas saíram às ruas no 7 de setembro para apoiar o presidente, que na av. Paulista revelaria o real motivo das manifestações (Fotos: Reprodução de vídeo e Genilson Pessanha/Folha da Manhã — Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Após dois meses de organização, Bolsonaro apostava suas fichas nas manifestações em Brasília e São Paulo. Esteve e discursou em ambas. Na capital federal, pela manhã, não nominou. Mas pediu que o presidente do STF, ministro Luiz Fux, enquadrasse seu colega Alexandre de Moraes. E ameaçou: “ou esse Poder pode sofrer aquilo que não queremos”. Deixou no ar a ameaça da decretação de um estado de sítio ou de defesa no país: “Amanhã estarei no Conselho da República (…) com essa fotografia de vocês mostrar para onde nós todos devemos ir”. Conseguiu a fotografia, mas dificilmente conseguirá algo mais.
Victor Queiroz, promotor de Justiça
Análise de Bolsonaro (I)
“No art. 2°, inciso II, da Lei 8.041/90, uma das atribuições do Conselho da República é pronunciar-se sobre questões relevantes para a estabilidade das instituições. Atualmente, a única utilidade seria se pronunciar sobre eventual desejo de renúncia. Embora a renúncia seja ato unilateral, caracterizaria iniciativa de rara compostura do Sr. Presidente da República. Quanto a pretender que o Sr. Presidente do STF enquadre outro ministro da Corte, provavelmente, o Sr. Presidente da República tem alguma dificuldade de compreender o que lhe tem dito sua assessoria jurídica”, ironizou o promotor de Justiça Victor Queiroz
Priscila Marins, advogada
Análise de Bolsonaro (II)
“Aquele que deveria defender a democracia e a estabilização dos Poderes, resolve dar um ‘ultimato’ ao presidente do STF para que este ‘enquadre’ o ministro Alexandre de Moraes. O art. 52, II da Constituição diz que compete ao Senado julgar os ministros do STF, não o STF. Em outra demonstração de autoritarismo, Bolsonaro anunciou a convocação do Conselho da República, que tem suas competências fixadas no art. 90 da Constituição. Mas, para decretar o estado de sítio, por exemplo, precisa primeiro da autorização do Congresso Nacional, conforme determina o art. 49 da Constituição”, ressaltou a advogada Priscila Marins.
Carlos Alexandre de Azevedo Campos, advogado e ex-assessor do STF
Análise de Bolsonaro (III)
“Bolsonaro faz nova ameaça ao STF, dizendo que se Fux não enquadrar Moraes, impedindo-o de tomar decisões contrárias ao governo, o STF sofrerá. É mais um crime de responsabilidade, tipificado no artigo 85, inciso II, da Constituição: atentar contra o livre exercício do Judiciário. Já o Conselho da República é órgão de consulta e pode ser convocado pelo presidente da República para manifestar-se sobre intervenção federal, estado de defesa e ou de sítio. Não há situações que autorizam intervenção, nem estados de sítio e defesa, que dependem do Congresso”, analisou o advogado Carlos de Alexandre de Azevedo Campos, ex-assessor do STF.
João Paulo Granja, advogado
Análise de Bolsonaro (IV)
“Há quase duzentos anos, tivemos nossos vínculos quebrados com nossos colonizadores, fato efusivamente celebrado. Após quase dois séculos, o Brasil assiste, apreensivo, ao conflito entre o seu governante e o STF, responsável pela guarda da Constituição. Parece que o sucessor do Dom Pedro I confunde os mais básicos conceitos legais, transformando divergências com um ou dois dos 11 componentes do STF em um conflito entre os dois Poderes constituídos. E assaca normas que só deveriam viger sob o estado de exceção, como o artigo 142 da Lei Maior e o pouco conhecido Conselho da República”, resumiu o advogado João Paulo Granja.
Da Paulista à Copacabana
À tarde, em São Paulo, Bolsonaro subiu mais o tom. Nominou Moraes, buscando personalizar sua ameaça de não cumprir decisões do STF. E voltou a atacar a urna eletrônica, rompendo acordo com quem segura seus mais de 100 pedidos de impeachment: o presidente da Câmara de Deputados, Arthur Lira (PP/AL). Que conduziu o sepultamento do voto impresso em 2022. Foi também na av. Paulista que o capitão revelou o real motivo das manifestações: “Dizer aos canalhas que eu nunca serei preso”. Na incerteza sobre os “canalhas”, Fabrício Queiroz, investigado por corrupção com os Bolsonaro, prestigiou o ato bolsonarista de Copacabana.
Em Campos
Em Brasília, o jornal Valor Econômico revelou que a presença de público, não contabilizada pela PM, teria sido apenas 5% do esperado. Na Paulista, a PM contou 125 mil bolsonaristas, onde eram esperados dois milhões. Em Campos, foram cerca de 300 manifestantes. Entre eles o edil Raphael Thuin (PTB). No ato, ele disse: “O movimento de hoje de 7 de setembro vai muito além das questões políticas de lado A ou B. Nós estamos brigando pela independência do Brasil. E atitudes como STF estava tomando, ser contra o voto auditável”. Com o voto eletrônico e auditável, Thuin foi eleito vereador. E Bolsonaro, presidente.
A partir das 7h da manhã desta quarta (08), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o historiador e professor Arthur Soffiati. Ele analisará os oito primeiros meses do governo municipal Wladimir Garotinho (PSD). Também avaliará os governos federal de Jair Bolsonaro (sem partido) e estadual de Cláudio Castro (PL), projetando as eleições de 2022. Por fim, o historiador dará sua visão das manifestações do 7 de setembro, em Campos e no país.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Ronilso Pacheco, pastor e teólogo formado pela PUC/RJ
O cristofascismo dos púlpitos e do armário
Por Ronilso Pacheco
O teólogo e historiador Fábio Py tem popularizado no Brasil a categoria de “cristofascismo”, com a qual identifica o grupo cristão que, integrando-se ao governo Bolsonaro diretamente ou dando-lhe apoio incondicional, fortalece seu uso da religião e de uma teologia do domínio como escudo para seu caráter autoritário.
Py empresta a expressão da teóloga alemã Dorothee Solle, que a usou no contexto do nazismo para se referir à íntima relação entre líderes cristãos e o partido de Adolf Hitler. Solle cunha a expressão em 1970 no livro “Além da Mera Obediência”, no qual trata dos rumos de uma ética cristã para o futuro.
O cristofascismo pode ser uma categoria ainda em construção no Brasil, mas seu sentido e sua estética são perfeitamente identificáveis. E, nesta semana do 7 de Setembro, eles irão querer mostrar que definitivamente estão dispostos a levar o país ao limite da radicalidade, pregando uma manifestação pacífica enquanto estão plenamente conscientes de que pacifismo e bolsonarismo não se alinham em nenhuma realidade.
Porém o que não pode ser dito ou ignorado sobre esse grupo diz respeito à sua “fidelidade” ao bolsonarismo. Eles mantêm a cara exposta para ser vista, reconhecida e rechaçada. Três anos depois, o bolsonarismo levou o país ao caos, à mediocridade, ao aumento da pobreza e da fome e aos piores índices na qualidade da educação e em investimento em pesquisa e cultura. É um país politicamente mais violento e ameaçador. Mas a ascensão do bolsonarismo tem muito mais do que a adesão fundamentalista e reacionária evangélica.
Se há uma intensa responsabilização dos evangélicos pentecostais e neopentecostais pelo apoio a Bolsonaro e suas aspirações totalitárias e violentas, é hora de olhar para a responsabilidade do mercado financeiro, de grande parte dos grandes banqueiros brasileiros, de parte significativa dos grandes empresários, dos donos da grande mídia brasileira e até dos descolados ideólogos dos movimentos da “nova política” no país, que ignoraram o sujeito Bolsonaro, desde que ele “barrasse a esquerda” e deixasse a economia fluir segundo a cartilha do neoliberalismo.
Neste 7 de Setembro, só um grupo estará majoritariamente nas ruas, convocando seu rebanho para a “guerra”. O outro ficará em silêncio, fingindo-se chocado e surpreso, mesmo sabendo que não sentiu nenhum desconforto (e provavelmente ainda não sente), em ver o país ser governado por quem elogia torturadores, ofende gays, ridiculariza a comunidade negra, zomba do direito dos povos indígenas, despreza as políticas de proteção ambiental e tem uma tara em agredir verbalmente mulheres jornalistas e parlamentares. Adoram todos o mesmo deus.
A partir das 7h da manhã desta terça (7), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf. Ele falará da parceria entre a Fundação Astrojildo Pereira e o Grupo Folha em debates virtuais, sob sua coordenação, para tentar compreender o momento do país. Avaliará também o governo Jair Bolsonaro (sem partido) e tentará projetar as eleições de 2022, a presidente da República e governador do estado do Rio.
Por fim, Hamilton tentará responder à pergunta que mais tem sido feita pelos brasileiros nos últimos dias: o que esperar das manifestações programadas ao 7 de setembro? Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Na quinta (02), foi a vez de 300 empresários da Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas), no estado governado pelo bolsonarista Romeu Zema (Novo), darem o seu recado:
Na mesma quinta, após o tiro no pé de Paulo Guedes ao tentar conter a manifestação da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), esta mandou às favas o ministro da Economia e a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), que urinou para trás. A Febraban não defecou à defecção e foi em frente, junto a outras 200 entidades, entre elas entre elas a Associação Brasileira de Agronegócio (Abag), o Instituto de Desenvolvimento do Varejo (IDV), a Fecomercio e a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Riscaram sua linha no chão:
Sem nenhum arremedo de solução aos problemas reais do Brasil, o presidente reage criando outros, para tentar mascarar o que não sabe, nem quer resolver. E abriu uma crise com os demais Poderes da República, sobretudo o Supremo Tribunal Federal (STF), unido contra os arroubos autoritários do chefe do Executivo. Que são personificados nos chamamentos ao 7 de setembro “patriótico”, de camisa amarela e fralda geriátrica:
Marcado pelo “Independência ou morte!” de Dom Pedro I, que pelo menos pôde abdicar do trono em favor do filho, o 7 de setembro do atual governante do Brasil, no lugar de golpe contra a democracia, tende a ficar marcado por outra frase: “Acabou, porra!”.
Novidade à parte, a jornalista registrou também o óbvio aparente: se Mourão confirmar sua candidatura a governador do RJ, o principal afetado seria o atual, Cláudio Castro (PL), pré-candidato a ficar no cargo que assumiu com o impeachment de Wilson Witzel (PSC). Pelo menos aos seus adversários na corrida ao Palácio Guanabara, Castro é tão ligado ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) quanto o general se distanciou do capitão no governo federal.
— O governador e o ex-presidente Lula tem muitos amigos em comum que já estão trabalhando na construção deste movimento — disse Pamplona. Ele adiantou que sairá do PDT, caso o ex-prefeito de Niterói Rodrigo Neves confirme sua candidatura a governador pelo partido. Caso ela não vingue, o secretário de Castro trabalhará para levar a legenda de esquerda, que tem Ciro Gomes como pré-candidato a presidente, para apoiar o governador.
— Não sou de participar de eventos oficiais, nem quando era prefeito gostava, mas hoje fiz questão de ir prestigiar a vinda do governador Cláudio Castro. Para quem chegou sem que ninguém levasse muita fé, ele tem demostrado imensa capacidade de diálogo e ao mesmo tempo de vencer a crise administrativa do Estado — pregou um dos grandes nomes do PT fluminense.
Fabiano Horta, Cláudio Castro, Washington Quaquá, Rodrigo Bacellar e Zeidan em Maricá, em 24/08 (Foto: Instagram)
Junto a Quaquá e Castro, no encontro da semana passada em Maricá, estavam o atual prefeito petista do município, Fabiano Horta, a deputada estadual do PT Zeidan e o secretário estadual de Governo, o deputado campista Rodrigo Bacellar (SD). Cujo pai, o ex-vereador Marcos Bacellar (SD), egresso do movimento sindical dos eletrecitários em Campos, sempre foi admirador confeso do ex-sindicalista dos metalúrgicos Lula.
— Todos esses nomes (a governador) estão querendo colar no Lula, no Bolsonaro ou no Ciro. Mas os eleitores do RJ querem algo diferente, o RJ precisa de algo diferente.
A partir das 7h da manhã desta sexta (03), quem fecha a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o vereador Fábio Ribeiro (PSD), presidente da Câmara Municipal de Campos. Ele falará sobre a novela da proposta do novo Código Tributário, que se arrasta desde 25 de maio, e da polêmica da cobrança retroativa do IPTU. Falará também sobre a encruzilhada política entre a pré-candidatura a deputado estadual e a eleição na nova Mesa Diretora da Câmara.
Por fim, Fábio falará das suas perspectivas para as manifestações bolsonaristas de 7 de setembro, assim como da sua projeção para as eleições de 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Geraldo Hayen Coutinho, presidente do Sindicato da Indústria Sucroenergética do Estado do Rio de Janeiro
Agronegócio de Campos (II)
O apoio integral a Bolsonaro não foi comungado por outros representantes do agronegócio goitacá. Que bateram na ferradura, mas também no cravo do capitão. “O texto (do agronegócio) é um chamamento aos três Poderes e não uma carapuça para único personagem. Todos são responsáveis no tensionamento que desassossega a todos nós. As bravatas diárias do presidente não são o que se espera de um chefe de estado. Como não pode o Supremo fazer avisos do tipo ‘mexeu com um, mexeu com todos’”, ponderou Geraldo Hayen Coutinho, presidente do Sindicato da Indústria Sucroenergética do Estado do Rio de Janeiro (Siserj).
Tito Inojosa, presidente da Associação Norte Fluminense dos Plantadores de Cana
Agronegócio de Campos (III)
As críticas também foram divididas entre os Poderes da República pelo presidente da Associação Norte Fluminense dos Plantadores de Cana (Asflucan). Que se manifestou pelo seu presidente, Tito Inojosa: “Concordamos integralmente com a manifestação de entidades do setor agroindustrial ao afirmar que ‘o desenvolvimento econômico social do Brasil, para ser efetivo e sustentável, requer paz e tranquilidade’. O caminho está claramente expresso no parágrafo primeiro, do artigo primeiro da Constituição: ‘Todo o poder emana do povo e em seu nome é exercido’. E não por tresloucados, com ou sem togas”.
Alcimar Chagas, economista e professor da Uenf
Visão da economia
Economista e professor da Uenf, Alcimar Chagas também optou por dividir as responsabilidades pela crise institucional que atravessa o país: “O Brasil não pode se curvar às dualidades direita x esquerda, vermelhos x amarelos. Invasões públicas e práticas nocivas ao fortalecimento da democracia precisam ser definitivamente eliminados. Que não se repitam atos de invasão a órgãos públicos, como em 2014 pelo MST, como quaisquer atos que temos presenciado recentemente de ataques às instituições. O grito das lideranças do setor de agronegócio precisa ser ecoado por outras instituições públicas e privadas deste país”.
Igor Franco, especialista em finanças e professor do Uniflu
Visão das finanças
Especialista em finanças e professor do Uniflu, Igor Franco considerou a posição do agronegócio um alerta à possibilidade de ruptura do mercado com o governo Bolsonaro: “A nota de segunda pode ser um ‘ponto de não-retorno’ dos principais atores do PIB a um desembarque do apoio a Bolsonaro, que insiste em polêmicas que não interessam à nação. Com a disparada dos juros, a péssima imagem internacional e o desempenho sofrível dos ativos brasileiros, o presidente ganhou também antipatia dos principais agentes econômicos. A percepção é a de que abandonou qualquer compromisso com a estabilidade econômica”.
George Gomes Coutinho, cientista político, sociólogo e professor da UFF-Campos
Ciência política
Cientista político, sociólogo e professor da UFF-Campos, George Gomes Coutinho foi ainda mais crítico, não só a Bolsonaro, como ao setor do agronegócio brasileiro que agora ameaça abandonar o presidente: “Foi uma crítica dentro do conservadorismo. Pelo que entendi, Bolsonaro está sendo ruim para os negócios. Mas não há uma crítica estrutural, até porque foi esse setor, do agronegócio, que bancou o governo Bolsonaro. E agora reconhece que o funcionamento das instituições é importante. O que é um consenso, pela opção que se fez no Ocidente da junção entre economia de mercado e democracia representativa liberal”.
Por fim, o médico infectologista analisará os trabalhos da CPI da Covid no Senado Federal, além das atuações dos governos federal e estadual na pandemia. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
“A Constituição de 1988 definiu o Estado Democrático de Direito no âmbito do qual escolhemos viver e construir o Brasil (…) Mais de três décadas de liberdade e pluralismo, com alternância de poder em eleições legítimas (…) O Brasil é muito maior e melhor do que a imagem que temos projetado ao mundo. Isto está nos custando caro e levará tempo para reverter”. O puxão de orelhas ao governo Jair Bolsonaro (sem partido) foi feito hoje publicamente. Mas não pela oposição. E, sim, por um dos setores tradicionalmente mais ligados ao bolsonarismo: o agronegócio.
Em defesa da harmonia entre os Poderes, sempre posta à prova pelos ataques de Bolsonaro ao Judiciário e ao Legislativo, assinaram o manifesto sete entidades do setor agroindustrial: 1) a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), 2) a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), 3) a Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal (Abisolo), 4) a Associação Brasileira de Produtores de Óleo De Palma (Abrapalma), 5) a CropLife Brasil (entidade ligada a pesquisa, desenvolvimento e inovação nas áreas de germoplasma, biotecnologia, defesa vegetal e agricultura), 6) o Instituto Brasileiro do Algodão (Ibá) e 7) o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg).
Na dúvida, leia abaixo a íntegra da advertência do agronegócio, pilar das exportações e da balança comercial do país:
Manifestação de entidades do setor agroindustrial
As entidades associativas abaixo assinadas tornam pública sua preocupação com os atuais desafios à harmonia político-institucional e, como consequência, à estabilidade econômica e social em nosso país. Somos responsáveis pela geração de milhões de empregos, por forte participação na balança comercial e como base arrecadatória expressiva de tributos públicos. Assim, em nome de nossos setores, cumprimos o dever de nos juntar a muitas outras vozes responsáveis, em chamamento a que nossas lideranças se mostrem à altura do Brasil e de sua História agora prestes a celebrar o bicentenário da independência.
A Constituição de 1988 definiu o Estado Democrático de Direito no âmbito do qual escolhemos viver e construir o Brasil com que sonhamos. Mais de três décadas de trajetória democrática, não sem percalços ou frustrações, porém também repleta de conquistas e avanços dos quais podemos nos orgulhar. Mais de três décadas de liberdade e pluralismo, com alternância de poder em eleições legítimas e frequentes.
O desenvolvimento econômico e social do Brasil, para ser efetivo e sustentável, requer paz e tranquilidade, condições indispensáveis para seguir avançando na caminhada civilizatória de uma nacionalidade fraterna e solidária, que reconhece a maioria sem ignorar as minorias, que acolhe e fomenta a diversidade, que viceja no confronto respeitoso entre ideias que se antepõem, sem qualquer tipo de violência entre pessoas ou grupos. Acima de tudo, uma sociedade que não mais tolere a miséria e a desigualdade que tanto nos envergonham.
As amplas cadeias produtivas e setores econômicos que representamos precisam de estabilidade, de segurança jurídica, de harmonia, enfim, para poder trabalhar. Em uma palavra, é de liberdade que precisamos —para empreender, gerar e compartilhar riqueza, para contratar e comercializar, no Brasil e no exterior. É o Estado Democrático de Direito que nos assegura essa liberdade empreendedora essencial numa economia capitalista, o que é o inverso de aventuras radicais, greves e paralisações ilegais, de qualquer politização ou partidarização nociva que, longe de resolver nossos problemas, certamente os agravará.
Somos uma das maiores economias do planeta, um dos países mais importantes do mundo, sob qualquer aspecto, e não nos podemos apresentar à comunidade das Nações como uma sociedade permanentemente tensionada em crises intermináveis ou em risco de retrocessos e rupturas institucionais. O Brasil é muito maior e melhor do que a imagem que temos projetado ao mundo. Isto está nos custando caro e levará tempo para reverter.
A moderna agroindústria brasileira tem história de sucesso reconhecida mundo afora, como resultado da inovação e da sustentabilidade que nos tornaram potência agroambiental global. Somos força do progresso, do avanço, da estabilidade indispensável e não de crises evitáveis. Seguiremos contribuindo para a construção de um futuro de prosperidade e dinamismo para o Brasil, como temos feito ao longo dos últimos anos. O Brasil pode contar com nosso trabalho sério e comprovadamente frutífero.
Abag
Abiove
Abisolo
Abrapalma
CropLife Brasil
Ibá
Sindiveg
Por George Gomes Coutinho(*) e Aluysio Abreu Barbosa(**)
— Eric Clapton deu uma pirada nos últimos tempos. Mas uma coisa não anula a outra, né? O que ele fez com o Cream, o que ele fez em carreira solo são pedras fundamentais da música anglo-saxã na segunda metade do século 20, com certeza! — abriu Jorge o diálogo virtual, que se estenderia entre arte, humanidade dos gênios e Covid, nos dias seguintes.
— Não concordo com as opiniões dele sobre a pandemia. Mas há contextos para a “pirada” de Clapton, como suas graves reações à AstraZeneca. E, ainda que não houvesse, não arranha o que ele foi, é e será para a música do mundo. Na certeza de que, felizmente, o politicamente correto é como laticínio em sua datação de validade, só espero que seu patrulhamento neostalinista não nuble em vida o reconhecimento que o grande artista terá depois da morte! — respondeu Aníbal, iniciando meio de sola sua participação no debate.
— Patrulhamento neostalinista? — queixou-se Jorge da entrada mais ríspida do velho amigo de data recente.
— É como eu e gente muito melhor julgamos ser esse binarismo radical e pequeno-burguês!
— Eu acho que fiz foi crítica a posicionamentos públicos feitos por uma figura pública na comunicação de massa. Nada mais condizente com sociedades de massa e capitalistas. E se Clapton não desejar ouvir críticas ao que diz publicamente, talvez seja mais inteligente não participar de nenhum debate ou questão pública até o fim dos seus dias. É sim, para mim um gênio pelo que fez. E pura decadência no que é no presente!
Lady Day, Billie Holyday
— Não estou falando da sua posição pessoal, Jorge. Falo da esquizofrenia de se condenar em vida um artista do tamanho de Clapton, pelo que concordo ser um erro, mas contextualizo. Lembra o que fizeram com Billie Holiday, morta algemada a uma cama de hospital, por suposta posse de narcóticos. Condeno essa mistura de udenismo com jacobinismo. Seja dos “homens de bem” dos anos 1950, que roubaram a dignidade da morte da maior cantora que já existiu, seja dessa lacração de espectro político oposto, mas igualmente pequeno-burguesa de hoje.
Paul McCartney
— Ah, sim, sim. Mas isso aí é um problema do moralismo, cara. Que está nos dois lados do espectro político, tanto na esquerda, quanto na direita, isto é certo. Mas, cara, sem dúvidas: sem “vacas sagradas”. Porque, se não, o debate não avança. O cara pode ser fantástico no âmbito da música e ser um imbecil no âmbito das relações humanas. E o trabalho de Clapton durante a pandemia foi um desfavor. Tanto que foi “ostracizado” por todos os caras tão grandes quanto ele no mundo da música contemporânea, até Paul McCartney, etc. Clapton? Que pena, né? Que pena!
Richard Wagner, Charlie Parker e Chico Buarque (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
— Não se trata de “vaca sagrada”. Mas de reconhecer que Richard Wagner foi um canalha antissemita, que confessamente inspirou Hitler na sua concepção do nazismo. Que Charlie Parker pegava o dinheiro da sua banda, privando seus colegas de subsistência em regime de trabalho escravo, para comprar heroína. Que Chico Buarque defendeu o PT e o governo de Dilma acriticamente, quando já não havia mais defesa. Nunca deixei que isso contaminasse os gênios da música que foram e são. Tanto ou pior que os erros que eles e Clapton cometeram, é juntar alhos com bugalhos pelo moralismo da moda. Mas, enfim, pensamos diferente. E concordamos no essencial: são gênios da música. Este, para mim, é o ponto. Não o que Clapton disse ou fez durante a pandemia.
Martin Heiddeger
— Pois é, bom, vamos lá. Eu também penso a mesma coisa, vide, por exemplo, o Heidegger, um dos maiores filósofos alemães do século 20 e aderiu, de pleno, ao nazismo. Agora, a grande questão é que isso aí mostra a inflexão na biografia daquela personalidade. E eu acho que conta. Que fala tanto daquele personagem, quanto fala daquele momento histórico. E evidencia o mais importante: gênios são humanos! E, invariavelmente, são capazes, enquanto humanos, até mesmo de cometer as piores coisas. Que esses exemplos, que acontecem durante a biografia desses sujeitos, funcione como uma espécie de alerta para nós, os comuns. Se eles são capazes, que a gente redobre a vigilância em termos das atrocidades que podemos cometer.
Erza Pound e Fernando Pessoa (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
— Sim, como Erza Pound apoiou em vida o fascismo e Pessoa, o salazarismo. E continuam a ser dois dos maiores poetas do século 20 e da literatura universal. E, sim, continuam sendo humanos. O que me leva a confessar: tanto quanto pela elegância do seu futebol, admiro Zidane pela humanidade da sua cabeçada no peito de Materazzi, na final da Copa de 2006.
Após provocar Zidane, zagueiro italiano Materazzi é nocauteado com cabeçada do craque francês, custando a este a expulsão da final e o título da da Copa de 2006
— Talvez, aí, neste caso, eu admire ainda mais Zidane por causa da cabeçada! — pontuou, entre risos, Jorge.
— Enfim, chegamos a um consenso!
— Pois é, cara, esse lance aí, do Fernando Pessoa com o salazarismo, eu admito que é algo que me incomoda profundamente. Depois ele fez uma revisão disso, fez um mea culpa. O que que deu? Uma das mentes mais avançadas da língua portuguesa de todos os tempos, né, cara? Mas os consensos sempre são possíveis dentro de determinados elementos civilizatórios! — aquiesceu Jorge, novamente entre risos.
— Como guitarrista, Clapton é deus. Como homem, é homem. Abraço fraterno!
— É, é isso, é isso. E mais uma vez, os deuses nunca foram tão humanos, dado as criaturas que são dos próprios homens. Abraço, nego véio!
— Adendo rápido. No consenso sobre a humanidade de Zidane, só agora fui notar a coincidência em versos escritos, 10 anos antes da final da Copa de 2006, para Clapton. Que usei ao escrever sobre o Dia do Rock. Mas que não deixam de dialogar também com a nossa discordância: “falo de encruzilhadas de vida/ atravessadas a cabeçadas/ nas convenções/ mesmo a que convenciona não tê-las”.
— É, cara, esse debate todo está merecendo virar um texto, sabe? — propôs Jorge, em meio a mais risos.
— Rapaz, sabe que é uma boa ideia? — concluiu Aníbal, rindo pela primeira vez.
(*)Sociólogo, cientista político, professor da UFF-Campos e músico
(**)Poeta, jornalista e diretor de redação do Grupo Folha