Luciane Silva — Há uma universidade no meio do caminho

 

 

 

Ao completar minha terceira contribuição para o Opiniões, resolvi refletir sobre a pesquisa e a produção de conhecimento no Brasil. As últimas semanas, as últimas listas, os últimos cortes e prisões… tudo faísca e a República respira delações. Atmosfera pesada que nos exige “nervos de aço”.

Como educadora, passei o domingo imaginando um texto no qual contasse a historia do primeiro pescador que entrevistei em Campos, na praça São Salvador. Lembro-me bem daquele dia. Um ato em favor dos royalties do petróleo, em uma praça esvaziada. Todos os entrevistados, fora um vendedor de picolé e um homem que corria para o barbeiro, prestavam algum serviço à Prefeitura.

De lá para cá já se passaram anos suficientes para acessar uma camada mais profunda da cidade e compreender um pouco mais de sua composição e de suas memórias. Naqueles tempos, Eike Batista ainda não tinha sido preso e pensava em transformar São João da Barra na “Veneza brasileira”. E para cá se dirigiam levas de trabalhadores, técnicos, comerciantes e até mesmo funcionários públicos. Todos inebriados pela imagem do grande empreendedor brasileiro que rodava seu imposto de renda em São Paulo. O Rio de Janeiro não tinha os zeros necessários para o tamanho de sua contribuição.

Nas últimas semanas, muitas confissões colaboram na construção de um quadro tragicômico. Mas se aos inocentes é dado o direito ao choro, o que dizer da juventude de Campos, de Pádua, de Macaé, de Rio das Ostras? Que teve seu futuro subtraído com o rombo criado nas contas do Estado. O que dizer aos filhos de pedreiros ou pequenos agricultores, que viram na possibilidade de qualificação, a saída para a falta de recursos em suas cidades?

Posso testemunhar, em tom confessional, que nada parte mais o coração do que vivenciar a frustração de uma criança ou de um jovem diante da impossibilidade de permanecer na escola. Creio que todos irão identificar essa experiência. Se existe algum consenso em nossa fragmentada sociedade, é quanto ao valor da educação.

Se esse acordo está posto, o que temos feito para assegurar a continuidade destes projetos? E o que eles significam concretamente? Não creio que seja útil para o argumento central deste texto, uma defesa genérica da educação. E por quê? Porque não vivemos condições de igualdade nas quais a meritocracia possa ser a variável de construção do acesso à educação. Sabemos que a formação de um médico ou de um arquiteto tem um custo altíssimo. E que a formação de um médico e um arquiteto com potencialidade crítica, dificilmente pode acontecer fora da universidade pública.

A razão é simples: educar para atuação na promoção de uma sociedade mais justa exige muito mais do que um currículo, ferramentas de ponta, ou professores com pós-doutorado em Berlim. Educar para formação de um aluno pesquisador, de alunas pesquisadoras, exige um ambiente, ou seja, um nicho ecológico no qual possam perceber a fantástica experiência da construção do conhecimento. Exige a dosagem entre o pragmatismo necessário ao avanço de disciplinas e o aprendizado nos laboratórios, nos saraus, nas assembleias estudantis, nas formaturas, nos prêmios recebidos, nos estágios em Guarus ou nos trabalhos de campo no hospital João Vianna.

Essa estranha forma comunitária produz um certo “espírito”. É esta disposição para conhecer que nos une a Universidade de Al-Azhar no Cairo, à Universidade de Modena, na Itália, Lérida na Espanha, Cracóvia, na Polónia e centenas de universidades mundo afora. No dia 22 de abril, será realizada em todo mundo a Marcha pela Ciência. No Brasil, mais de 15 cidades realizarão a Marcha. Belo Horizonte, Diamantina, Natal, Petrolina, Rio de Janeiro, São Paulo, Petrópolis e Porto Alegre marcharão junto com outras cidades para demonstrar a importância da ciência como bem comum de toda humanidade. O conhecimento não pode ser comprado e não deve ser privilégio de alguns grupos, como já o foi no passado.

Que a educação muda a vida, repete-se aos quatros ventos nos canais de televisão e propagandas políticas. Mas a educação que muda a vida só pode acontecer aliada à produção científica. Desde o ensino fundamental é necessário que se explique às crianças como as cores são formadas, porque a maioria dos morcegos dorme de cabeça para baixo, porque o corpo muda intensamente a partir de certa idade. E isto pode ser feito com experimentos muito simples. A curiosidade é intensa nas crianças. O que encantou a plateia mirim que lotou o Centro de Convenções de Uenf em março, foram os experimentos e a possibilidade de ver a ciência “acontecendo”

Sim, as universidades são espaços privilegiados de formação cidadã e temos na cidade de Campos, uma universidade de excelência reconhecida nacionalmente. Em meu primeiro dia nas aulas para professoras do ensino fundamental, vejo expressões acanhadas e o medo de “estar na Uenf”. Mas quando mostramos que suas biografias são material bruto para pensar educação e que sua sala de aula é o principal lócus de aplicação do conhecimento, percebemos como a transformação acontece. Antes tímidas, passam a fazer uso da palavra, a criar verdadeiro interesse sobre países, fatos, sobre o lugar da mulher em nossa sociedade. Passam a questionar a divisão das tarefas domésticas e a não aceitar a política de compadrio existente em suas escolas.

Ver a primeira formatura do curso de alunas do Parfor (Plano Nacional de Formação de professores da Educação Básica) foi certamente marcante. Eu havia orientado uma aluna que defendeu uma bela monografia sobre educação no campo. E sabia dos desafios para sua permanência no curso. O mesmo se dá com alunos tímidos em um primeiro semestre de biologia ou ciências sociais que hoje estão desenvolvendo projetos de pesquisa junto a Prefeitura, colaborando na construção da memória em estágios no Arquivo Municipal ou pesquisando para melhoria da produção de alimentos.

Essa é a universidade viva, atuante, que recebeu como apoio durante sua greve mais de 14 mil assinaturas — em sua maioria, de moradores da cidade de Campos dos Goytacazes.  Foram encontros com uma população que literalmente vestiu a camiseta de Darcy nas esquinas da Pelinca ou em frente a Caixa Econômica. O artigo 205 da Constituição Federal de 88 define que “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.”

Manter a Uenf aberta é uma forma de resistência e acima de tudo uma aposta de que o futuro de Campos pode ser muito mais luminoso. Mais humano e justo. E essa defesa deve acontecer em nossa prática cotidiana, na ampliação da luta por uma educação feita de curiosidade, emancipação, crítica. Esta foi a universidade sonhada por Darcy e abraçada pelo Norte Fluminense.

 

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Guilherme Carvalhal — O pedido

 

 

 

Diagnóstico: câncer nos testículos. Precisaria removê-los antes que se espalhasse para o resto do corpo. Calma, doutor, preciso pensar bem para autorizar. Sim, pense, mas não demore, quanto maior o atraso, pior.

Um sujeito sem suas bolas consistia em homem pela metade, disso sabia. Sem sexo, eunuco de agora em diante. Mas, o incomodava principalmente não poder realizar seu sonho de ser pai.

Augusto nem havia chegado aos trinta anos. Perambulava de emprego em emprego, morando num quarto e sala claustrofóbico, ganhando coisa de salário e meio ao mês. Confuso com o próprio estado de saúde, recorreu à mãe e essa o convidou a voltar para casa enquanto se tratasse, não deveria haver preocupações, pois ela daria todo suporte.

Difícil foi a conversa com Janaína. Com ela tentaria resolver a mais crucial das incertezas, a dela engravidar antes dele operar. Consultou um banco de sêmen e não conseguiria pagar o valor do armazenamento até um futuro em que pretendessem ter filhos. A solução prática era conceberam a criança de uma vez.

Ela não soube responder, pediu um prazo. Não havia tempo, precisava logo de uma definição. Ela teimou: não se decidiria assim, de supetão. Uma semana ao menos.

Janaína perambulou pensativa pelas ruas. A alameda arborizada pela qual crianças atravessavam de bicicleta e patinete aproximou-se, sugada abruptamente para uma nova realidade em que comprava chupetas e algodão-doce. Diante daquele espetáculo de gritos infantis ela ponderou se estava pronta para aceitar a maternidade.

Vinte e dois anos. Admitida há pouco como embaladora de pegue e pague, salário mínimo acrescido de cesta básica e vale-transporte, dividindo o aluguel do apartamento com uma colega, saindo às pressas após bater o cartão para chegar no curso de auxiliar administrativo. Caberia um bebê nessa rotina?

Sabia o quanto uma decisão desesperada dessas afetaria sua vida. Augusto em tratamento, seu corpo debilitado por causa de tantos efeitos colaterais, sem condições de ampará-la. Concomitantemente sua barriga cresceria, viriam enjoos, dificuldades, e recairia sobre si, é só sobre si, o peso da responsabilidade.

Mas como se livrar do espírito pesaroso do namorado, do tom melancólico de quem realiza o último pedido precedente à cadeira elétrica? Como negar a única possibilidade de conquistar a sonhada paternidade, o sonho forçosamente antecipado? Seus comentários ao longo desses três anos de relação, os nomes cogitados, os planos de colocá-lo na aula de piano e na natação, não desprendiam-se de sua mente e a enredavam nessa grande confusão, do medo real pelas circunstâncias do momento e a vontade de agradar um homem prestes a ser amputado da capacidade de manter relações sexuais.

Encontraram-se ao fim dessa semana. De certa forma movida através de um surto inesperado, sem exatamente lidar com a situação, ou talvez por razões que a própria razão não ousaria explicar, deitou-se com ele, cientes ambos de seus dias férteis. Praticaram um sexo de baixo desejo, cumprindo uma meta estabelecida ao invés de darem vazão aos ímpetos corporais. Limitou-se ela a receber seus fluídos e contemplar seu rosto de satisfação, em sua crença de tê-la engravidado em um desses cinco dias de tentativas.

Em poucos dias ele entrou para a sala de cirurgia. Ela segurou na sua mão nesse instante, querendo se fazer presente, lhe passar uma forte segurança, um conte comigo. Ele sorriu, aceitando seu destino, aplacado por essa garantia de que seria pai, uma convicção plena de terem feito tudo certo e garantido a gravidez:

— Pelo menos poderei daqui a nove meses ter o nosso filho entre meus braços — ela o ouviu dizer nos minutos prévios à cirurgia, tentando ignorar aquele aperto no peito que a oprimia, a lembrança da cartela de anticoncepcional que tomou em meio a prantos e hesitações.

 

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“A burocracia alimenta a corrupção”

 

Em sua sempre interessante seção diária “Conte algo que eu não sei”, o jornal O Globo trouxe hoje uma entrevista (aqui) com o cientista político estadunidense Robert Rotberg. Formado em Princeton e Oxford, o professor aposentado do MIT (Instituto Tecnológico de Massachussets) se encontra no Brasil para falar sobre o fenômeno da corrupção, alvo da operação Lava Jato, que chocou o país após a “delação do fim do mundo” eviscerar o modus operandi do Estado brasileiro.

Na tentativa sempre arriscada de se historiografar a volução do poder público de um país estrangeiro, na pior das hióteses, o entrevistado ofertou saber aquilo que o poeta escocês Robert Burns (1759/96), referência da sua cultura anglo-saxã, quis dizer quando escreveu os versos:

 

“Oh, se algum Poder nos concedesse

Vermo-nos a nós como nos vêem!”

 

Para quem se coloca na defesa do “Brasil de Vargas”, contra qualquer alteração, por exemplo, da sua CLT (uma adaptação em português da Carta Del Lavoro do ditador italiano Benito Mussolini, pai do fascismo), vale a pena observar o nosso reflexo na retina alheia. Neste sentido, segue abaixo o trecho da entrevista feita pela jornalista Luiza Barros, que batiza a entrevista initulada “A burocracia alimenta a corrupção”:

 

 

Cientista político Robert Rotberg (Foto: Fernando Lemos)

 

 

“Todas as pessoas no mundo querem se livrar da corrupção porque ela dificulta o progresso e o desenvolvimento econômico. Não acho, por exemplo, que o período colonial tenha qualquer relação com a corrupção no Brasil. Mas acredito que, politicamente, Getúlio Vargas foi muito corrupto. Mesmo que tenha se assumido como pai dos pobres, ele foi também o pai da corrupção (…) Ele institucionalizou a natureza da classe política. Não tenho como saber se, pessoalmente, ele foi corrupto, mas permitiu que as pessoas ganhassem favores a partir de um Estado regulatório. A partir de Vargas, o Brasil se tornou uma uma nação excessivamente burocrática. Com tantas regulações, vem a corrupção. A burocracia alimenta a corrupção. Uma coisa está ligada a outra”.

 

Entretanto, endossado pelos responsáveis pelas operações Calicute, que prendeu o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) no Rio, ou da Chequinho em Campos, que já chegou a prender o ex-governador Anthony Garotinho (PR), Rotberg vê o Brasil de hoje com esperanças reais:

 

“Sérgio Moro mostrou que é possível não ser tolerante com a corrupção e já é popular na sociedade civil. A partir de Moro, começa a haver uma mudança nas atitudes públicas e políticas: mais pessoas passam a querer ser como ele. Isso cria um efeito bola de neve”.

 

Quem viver, verá ao final da avalanche do que ainda está por vir…

 

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Pudim responde à citação do seu nome nas delações da Odebrecht

 

(Foto: Folha da Manhã)

 

 

“Quando perguntado sobre além da própria campanha e a de Rosinha, se Garotinho fazia campanha de outros candidatos o delator Benedito Júnior responde que no seu entender, Garotinho fazia a própria campanha, a de Rosinha, da filha e de ‘um deputado chamado Geraldo Pudim’, ressaltando que enquanto presidente do PR, Garotinho era o coordenador destas campanhas e de outras que ele não se lembra.

Quanto à citação do meu nome, feita pelo senhor Benedito Júnior, trata-se de uma vingança anunciada, já que em fevereiro de 2013 eu entrei na Procuradoria da República com uma Notícia Crime, denunciando o esquema de lavagem de dinheiro do então secretário de Saúde Sérgio Côrtes, esquema que abriu as investigações e o levaram a prisão, e que envolve sua esposa e a do delator Benedito Júnior. Na denúncia informei que as duas senhoras eram sócias na joalheria Blume, em Ipanema, criada para lavagem de dinheiro. Em anexo, encaminho a Notícia Crime protocolada no ano de 2013”.

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Segue a via digitalizada do protocolo do Ofício GDGP nº 67/2013, datado em 26/02/2013, Notícia Crime cumulada com Representação por Atos de Improbidade Administrativa em face do Sérgio Côrtes. Trata-se da primeira parte composta por 06 páginas; o anexo que a compõe pode ser extraído da denúncia completa em word.

 

 

 

 

 

 

 

Da assessoria do deputado estadual Geraldo Pudim (PMDB)

 

Aqui e aqui, o jornalista e blogueiro Saulo Pessanha já havia tratado do assunto

 

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Gustavo Alejandro Oviedo — Eram todos corruptos, e nós éramos cegos

 

 

 

Invade-me um enorme alivio ver as delações dos executivos da Odebrecht. Observar como estes executivos reconhecem o esquema de corrupção gigantesco, que abarcou todos os principais partidos políticos que governaram o Brasil nos últimos 30 anos, me enche de satisfação.

É a satisfação que se tem quando se faz evidente aquilo que se ocultava. Isto é, a enorme roubalheira que alimentava o funcionamento do estado brasileiro, que todos imaginávamos, mas ninguém conseguia provar. Isso sim que era angustiante.

Pois somente um ingênuo poderia ter imaginado que os políticos ficavam ricos, depois de passar pela gestão pública, pela sua incrível capacidade em fazer bons negócios. E quando falo dos políticos não me refiro a todos, mas quase todos.

Não era razoável pensar que o Brasil é pobre, violento e subdesenvolvido porque esse é o nosso destino latino americano. Ou porque os países ricos nos exploram. Agora temos a confirmação: somos pobres porque somos corruptos – logo, somos ineficientes. E isto é uma excelente noticia.

Sim, é uma excelente noticia porque indica a solução: atacar a impunidade e aperfeiçoar os sistemas de controle para atingirmos um estado mais competente e menos dispendioso. O que resultará em recursos melhor aplicados sem a necessidade de continuar aumentando a carga tributária que, já não há dúvidas, hoje é utilizada para manter os luxos da única oligarquia brasileira: a casta política.

Outro aspecto positivo da delação do fim do mundo é ver como o partido que governou nos últimos 13 anos foi tão ávido e corrupto quanto os outros — se é que não o foi ainda mais.

Não que seja positivo por desiludir milhares de simpatizantes bem intencionados(e um pouco cândidos, diga-se), mas sim porque desconstrói de vez aquela teoriade que o capitalismo, que o partido tanto detesta, tem na corrupção um componente vital para o seu desenvolvimento.

A avidez e a cobiça são características inerentes ao ser humano, seja de direita ou de esquerda; não são qualidades monopólicas de apenas um sistema político. A maioria dos indivíduos querem sempre mais do que tem. Foram ávidos de conquistas Alexandre e Atila; de riquezas, Hernan Cortes e Francisco Pizarro; de conhecimento, Aristóteles e Leonardo da Vinci. Nenhum deles viveu no sistema capitalista.

Acontece que o capitalismo é o único sistema econômico que toma em conta esse ‘defeito’, e o canaliza em favor do próprio sistema. Utiliza a ambição individual em seu favor. As outras doutrinas ideológicas (socialistas, fascistas, etc.) querem anular essa condição, e tentam criar o ‘Homem Novo’, aquele que renuncia as aspiraçõesmateriais individualistas, em favor do partido ou do estado. Pretendem anular na marra aquilo que justamente floresce quanto mais tirânico é o regime. Por isso sempre acabam fracassando.

Segundo a ONG Transparência Internacional, os quatro países menos corruptos são capitalistas (Dinamarca, Finlândia, Nova Zelândia e Suécia), enquanto os comunistas/socialistas Cuba, China, Venezuela e Coreia do Norte ocupam as posições 60º, 79º, 166º e 174º, respectivamente. O paradoxo é evidente: um dinamarquês está mais próximo de se converter no Homem Novo do que um chinês, graças ao bom capitalismo.

A Lava Jato está mostrando como era podre o sistema político brasileiro, mas também está revelando as causas de nosso atraso. Enxergar isso nunca pode ser uma má notícia.

 

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Fecharam a Villa Maria — Campos precisa reagir ao desmonte da Uenf

 

 

 

 

 

Fecharam a Villa Maria

Símbolo da universidade do Norte Fluminense muito antes da implantação da Uenf, em 1991, a Villa Maria é um testemunho do abandono do governo estadual Luiz Fernando Pezão (PMDB) com a mais importante instituição de ensino superior da região. Sem luz ou internet, o imponente solar da rua da Baronesa da Lagoa Dourada teve que ser fechado ontem, sem previsão de reabertura. Ironicamente a administração da Casa de Cultura estava programando uma festa de samba nos jardins do prédio, para o próximo dia 29, com a intenção de levantar fundos para sua manutenção.

 

Símbolo de Campos

A história da Villa Maria se confunde com a de Campos. Foi construída em 1919, pelo arquiteto italiano José Benevento, como um presente do usineiro e engenheiro Atilano Chrysóstomo de Oliveira à sua esposa, D. Maria Queiroz de Oliveira. Conhecida como Dona Finazinha, por ter nascido no Dia de Finados, e por seu interesse na promoção de atividades culturais, ela morreu em 1970, quando deixou o prédio em testamento para que viesse a funcionar como sede da futura universidade no Norte Fluminense.

 

História e sonhos

Abandonada com a morte de Finazinha, a Villa Maria seria reformada em 1979, no governo municipal do arquiteto Raul Linhares, passando a ser a sede da Prefeitura de Campos também nas gestões seguintes de Wilson Paes, Zezé Barbosa e Anthony Garotinho. Após a instalação da Uenf, num projeto pessoal do antropólogo Darcy Ribeiro concebido no governo estadual Leonel Brizola, a Villa Maria passou a abrigar a Casa de Cultura da universidade, em 1993. De Finazinha a Darcy, a população de Campos não pode assistir passivamente enquanto se fecham as portas à sua história e aos seus sonhos.

 

Sem polêmica

No dia seguinte a mais uma decisão da Justiça Eleitoral, que alterou a composição da Câmara de Campos, os vereadores optaram por não polemizar. Para evitar constrangimentos para os que foram afastados e, até, para aqueles que sabem que têm um alvo sobre suas cabeças — como no caso de Geraldinho de Santa Cruz e Carlinhos Canaã, ambos também já condenados na Chequinho — a decisão foi diplomática: votação em conjunto, sem debates ou discussões.

 

Compasso de espera

Hoje, garante o presidente Marcão, haverá sessão normal, mas, salvo se alguma matéria polêmica for posta em prática, a tendência é a mesma: evitar maiores debates. De qualquer forma, a Justiça está dando seu recado: a operação Chequinho está longe de ser uma brincadeira e já se tornou um marco para Campos. Amanhã acontece a retotalização dos votos para inclusão de Marcos Bacellar, que volta ao Legislativo também por decisão do Tribunal Superior Eleitoral.

 

Em troca de quê?

O que levava a Odebrecht a investir nas campanhas de políticos do interior do Rio de Janeiro? Nas delações conhecidas até o momento, Leandro Andrade Azevedo e Benedicto Barbosa da Silva Júnior afirmam que obras não entravam nas negociações prévias, mas deixam transparecer que havia interesse. No popular: não existe almoço grátis. Tanto é que nas cidades de Campos e Macaé, a maior empreiteira do país conquistou contratos vultosos. Com Riverton Mussi (hoje PDT), uma obra de macrodrenagem. Com Rosinha Garotinho (PR), a construção do Morar Feliz, o maior contrato da história do município, de quase R$ 1 bilhão.

 

Agenda positiva

Os delatores negam que para obter os contratos tenham combinado fraude em licitações. De acordo com relatos dos ex-executivos, eles precisavam de acesso e facilidade para resolver os problemas com as prefeituras. Por isso, de acordo com as delações, beneficiaram Riverton e o irmão com o dinheiro de caixa dois. Com os Garotinho, não foi diferente. Segundo Leandro Azevedo, Anthony Garotinho (PR), marido da então prefeita, ligava, na frente dele, para secretários de Campos e determinava a liberação de pagamentos. É a chamada agenda positiva.

 

Com a colaboração dos jornalistas Suzy Monteiro e Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (19) na Folha da Manhã

 

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Carol Poesia — Precisamos falar sobre o Nurbe

 

Foto do projeto Nurbe que gerou a polêmica no Facebook

 

 

Todos nascemos nus. Todos. Sem exceção. A nudez é nossa aparência natural e dura pouco, logo chegam as primeiras amarras – panos, mantas, roupas, botões… Mal se rompe o cordão orgânico e os brincos já estão nas orelhas, empoderando aquele pequeno ser de modernidade ou empobrecendo-o com a precoce oferta (imposição) material.

Mais tarde, as amarras são mais sérias – passam do material para o abstrato e ferem conceitos ainda não formados. A nudez raramente pode ser explorada, é logo erotizada, sexualizada e, portanto, condenada. Estar nu passa a ser um alívio para àqueles que percebem essas deturpações ou um tabu para aqueles que não percebem ou percebem mas se sentem protegidos/confortáveis no “pode/ não pode” social.

Pensando em unir, artisticamente, o natural e orgânico com o arquitetado e construído, surge o Nurbe  – projeto artístico que registra voluntários nus em ícones do espaço urbano. Embora a ideia tenha sido concebida há três anos, pelo fotógrafo Kelvin Klein, recentemente uma foto gerou polêmica, elogios, piadas, deturpações e denúncias; até que o Facebook tirou a página do ar, que só pôde voltar quando retirada a referida foto.

Mas que foto é essa, meu “Bresell”? Tão passiva de dedos, medos e afins? Quando foi que a nudez se tornou assim tão significativa? Eu não sei, eu não percebi! Devo ser mesmo descendente goytacá, pois tal foto não me diz nada que eu não conheça. Há outras tantas fotos, com outros bumbuns, que assim como o meu e como o seu, são de carne e osso e devem ir ao banheiro todos os dias.

O cenário? O cenário é o centro da sua cidade, por onde você já andou várias vezes, nada demais. O que é realmente demais e faz com que o projeto tenha tantos adeptos (frequentadores das páginas e modelos voluntários) é, de fato, o conceito e as discussões que dele decorrem – até que ponto fomos separados da natureza e do natural? Em que esse afastamento nos prejudica? A arte, assim como a nudez, funciona como transgressões diante do retrocesso conservador que estamos vivendo? Por que a nudez incomoda? Por que ela liberta?

A estética das fotos também merece destaque, Kelvin criou uma linguagem, estabeleceu um diálogo pertinente entre as linhas do corpo e a linha do trem, entre as curvas da mulher e silhuetas de concreto, até entre o modelo fotografado e grafite ao seu lado pintado. Está tudo ligado! E poderia ser bem explorado, se machismo e tabu não reduzissem os olhares à seguinte questão: de quem é essa bunda?

 

https://www.instagram.com/projetonurbe/?hl=pt-br

 

https://www.facebook.com/pg/projetonurbe/about/?ref=page_internal

 

projetonurbe@gmail.com

 

http://kelvinklein.com.br/projeto-nurbe/

 

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Campos entre delações da Lava Jato e condenações da Chequinho

 

 

 

Lava Jato em Campos

Trazido em primeira mão na mídia virtual goitacá pelo blog do Arnaldo Neto, da Folha Online, a íntegra de mais de uma hora do depoimento do delator Leandro Andrade de Azevedo (aqui) foi reveladora sobre a relação nada republicana entre a Odebrecht e os ex-prefeitos de Campos Anthony e Rosinha Garotinho (PR). Leandro já havia sido apontado na delação de outro executivo, Benedicto Barbosa da Silva Júnior (aqui e aqui), como o encarregado da construtora para lidar com o casal, cujos repasses de dinheiro ilegal ele elevou à casa dos R$ 20 milhões, nas eleições de Rosinha a prefeita em 2008 e 2012, e no pleito a governador de Garotinho, em 2014.

 

Coincidência? (I)

Como a Folha noticiara (aqui) desde 03 de abril de 2016, logo depois que planilhas com nomes de políticos beneficiados pelo dinheiro da Odebrecht foram apreendidas pela Polícia Federal (PF) na casa de Benedicto, foram justamente ele e Leandro que assinaram, com Rosinha, o contrato da primeira etapa do “Morar Feliz”. O custo total aos cofres públicos de Campos foi de quase R$ 1 bilhão, maior contrato dos 182 anos de história do município. O resultado da primeira licitação foi publicado em Diário Oficial em 23 de setembro de 2009, quase quatro meses depois desta coluna ter revelado que a Odebrecht ganharia.

 

Coincidência? (II)

Na sua delação, Leandro revelou que, da maneira como o edital de licitação foi feito pelo governo Rosinha, só a Odebrecht teria condição de levar o “Morar Feliz”. Mais de sete anos antes, em 29 de maio de 2009, o “Ponto Final” já tinha adiantado: “a Companhia Brasileira de Projetos e Obras (CBPO), incorporada o Grupo Odebrecht, será a vencedora (…) No anexo VIII do edital da concorrência pública é exigido que as empresas participantes tenham executado edificações, simultaneamente, em pelo menos 10 diferentes localidades, critério estipulado para eliminar as construtoras de Campos da concorrência”.

 

 

Coincidência? (III)

Segundo Benedicto, todos os pagamentos aos Garotinho foram em espécie e moeda brasileira. A exigência não era praxe entre os demais políticos. Mas talvez explique o fato de o ex-governador se defender dizendo que nunca teve contas no exterior. Aliás, confirmando o trecho da decisão da Justiça de Campos que apontou Garotinho como “prefeito de fato”, ao determinar sua prisão em novembro de 2016 pela Chequinho, Leandro deixou claro que todas as negociações da Odebrecht eram feitas diretamente com o marido de Rosinha. Com a prefeita de direito, o executivo disse só ter se encontrado para assinar o “Morar Feliz”.

 

Chequinho (I)

Da Lava Jato a Chequinho, ontem o juiz da 100ª Zona Eleitoral (ZE) de Campos, Ralph Manhães, determinou (aqui) o afastamento de mais cinco vereadores eleitos pelo garotismo sob a denúncia da troca de Cheque Cidadão por voto. Foram eles: Thiago Ferrugem (PR), Vinícius Madureira (PRP), Cecília Ribeiro Gomes (PT do B), Jorge Magal (PST) e Roberto Pinto (PTC). Ferrugem, além de perder o mandato, será obrigado a ficar em prisão domiciliar, até receber uma tornozeleira eletrônica para o seu monitoramento.

 

Chequinho (II)

A severidade maior com Ferrugem, no juízo da 100ª ZE, seu deu “ante a sua participação de maior destaque no esquema que ora se apura, eis que o mesmo foi secretário de promoção social do governo anterior, sendo substituído pela Ana Alice pouco antes de vir à tona todo esquema criminoso do programa cheque cidadão”. A decisão judicial também advertiu: “O não cumprimento de qualquer das determinações supra importará em revogação das medidas cautelares com a imediata expedição do mandado de prisão preventiva em face dos réus”.

 

Coincidência

Pouco antes de saber da sua condenação, Thiago foi ouvido pela Folha, em repercussão (aqui) à entrevista com o ex-prefeito Arnaldo Vianna (PMDB), publicada (aqui) pelo jornal no domingo (16). Na matéria da página anterior desta edição de terça, ao lado da reportagem da nova decisão da Chequinho, Ferrugem criticou Arnaldo e avaliou a conduta política do filho deste, o ex-candidato a prefeito Caio Vianna (PDT): “confesso que gostei muito do comportamento de Caio durante a campanha e tenho gostado muito do comportamento de Caio no pós-eleição”.

 

Publicado hoje (18) na Folha da Manhã

 

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Chequinho: mais 5 vereadores afastados, Ferrugem em prisão domiciliar

 

 

 

Em decisão cautelar de hoje relativa à operação Chequinho, da Polícia Federal, o juiz da 100ª Zona Eleitoral (ZE) de Campos, Ralph Manhães, determinou o afastamento de Roberto Pinto (PTC), Vinícius Madureira (PRP), Cecília Ribeiro Gomes (PT do B), Jorge Magal (PST) e Thiago Ferrugem (PR) das funções de vereador. A decisão também determina a prisão domiciliar de Ferrugem, até que lhe seja afixada uma tornozeleira eletrônica.

Veja abaixo o que determinou o juízo da 100ª ZE:

 

1 – Os réus compareçam a todos os atos do processo quando devidamente intimados;

2 – Proibição de se ausentarem desta Comarca por mais de 8 dias, sem autorização deste juízo;

3 – Proibição de manterem contato com as testemunhas desta Ação Penal e também com aqueles que prestaram depoimento no Inquérito Policial na condição de testemunha, bem como as demais testemunhas das outras ações penais envolvendo este mesmo caso, ficando, ainda, expressamente impedidos de manterem qualquer contato, de que forma seja, com os demais réus das outras ações penais oriundas do IPF 236/2016, que deverá ser fiscalizado pela polícia federal, podendo, para tanto, requerer providências diretamente a este juízo para tal fim;

4 – Fica suspenso o exercício da função pública do cargo de vereador deste município até que seja proferida decisão definitiva nos autos das ações de investigação judicial eleitoral em face dos cinco primeiros réus, cujo processo tramita na 76ª Zona Eleitoral, sob a responsabilidade do juízo da 99ª Zona Eleitoral.

5 – Com relação ao quinto denunciado, Thiago Cerqueira Ferrugem, ante a sua participação de maior destaque no esquema que ora se apura, eis que o mesmo foi secretário de promoção social do governo anterior, sendo substituído pela Ana Alice pouco antes de vir à tona todo esquema criminoso do programa cheque cidadão, tal como se vê dos depoimentos prestados no IPF 236/16 e também dos depoimentos colhidos em juízo em ações penais correlatas, indicando, a princípio, a sua proeminência na cadeia de comando daquela organização criminosa, aplico também, em razão do princípio da isonomia, as medidas cautelares previstas nos incisos V e IX, do art. 319 do CPP, devendo, enquanto não se viabilizar o monitoramento eletrônico pela utilização da tornozeleira eletrônica, ser o recolhimento domiciliar de forma integral, até o término da inquirição das testemunhas de acusação.

O não cumprimento de qualquer das determinações supra importará em revogação das medidas cautelares com a imediata expedição do mandado de prisão preventiva em face dos réus.

Citem-se e oficiem-se, com urgência, à Delegacia da Polícia Federal para o cumprimento desta decisão, devendo ser os réus intimados das medidas a eles impostas, bem como a Presidência da Câmara Municipal e a Secretaria daquela casa, servindo a presente decisão como mandado. Defiro também o pedido do Ministério Público para que os autos do inquérito policial federal 236/2016 fiquem sobrestados em cartório, eis que o mesmo instrui a presente ação penal como as demais que já foram ajuizadas com base naquele inquérito, ficando, portanto, sua prova compartilhada com as demais ações.

 

Quer saber quem entra no lugar dos cinco vereadores afastados? Então leia na edição de amanhã (18) na Folha da Manhã.

 

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Fernando Leite — Digo NÃO!

 

 

 

Pesei e ponderei o que vos adianto, como minha modesta opinião, ante a avassaladora cachoeira de lama que corre sobre a Pátria brasileira, a partir do rompimento das barragens da corrupção oficial. Uma nação devastada, levada aos trambolhos ribanceira abaixo, desfigurada na sua altivez, reduzida a uma republiqueta de bananas podres. Do presidente ao vereador, uma caterva.

Paira aterradora sobre todos os atores da cena política, ou quase, a sombra fria da suspeição. Os delatores viraram estrelas do horário nobre das TVs e explicam, em detalhes, como corrompiam mandatários e eleitos pelo voto soberano do povo, como se estivessem num programa vespertino ensinando uma nova receita de bolo. Os espectadores,se não sabiam da trama, em suas dobras mais sórdidas, já desconfiavam de longe. Afinal ali está a representação legítima da sociedade.

Não houve perplexidade. Houve resignação.Nenhum vidro quebrado, nenhum soco no ar. “É assim, comadre”.

Por isso, minha inquietude. O que será que será? Alguns serão presos, outros defenestrados, a maioria ficará atada a uma tornozeleira eletrônica e uma parte do dinheiro público voltará ao tesouro saqueado. Outra parte é vertigem. Nenhum castigo capaz de limpar o lodaçal. Nenhuma medida profilática que transforme, radicalmente, o ambiente da política nacional.

A política nacional, senhores, é essa! E não mudou.

Em minha mísera insignifância  resolvi dizer NÃO. Nas próximas eleições voto NULO. Não há em quem votar porque seja lá quem for, o ambiente dos parlamentos e dos palácios ainda será o mesmo. Sei que parecerei alienado, parceiro do sistema, na medida em que somos as nossas escolhas. Mas, lembro aos que me censuram que os rastejantes se antecipam aos temporais. Já está no forno da reforma política, o voto no partido, que, ao cabo, escolherá os ungidos numa lista de domínio doméstico.

Voto NULO até que o cenário seja outro e os eleitos, por mais bem intencionados que sejam, não saiam das ruas para um mundo irreal, onde grassa a corrupção e as práticas mais perniciosas da convivência humana.

Digo NÃO!

 

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Arnaldo Vianna: “A Lava Jato e a ‘venda do futuro’ se encaixam”

 

Por Aluysio Abreu Barbosa e Paula Vigneron

 

Arnaldo Vianna assumiu o governo de Campos em 1998, quando Anthony Garotinho deixou a Prefeitura para se eleger governador. Depois, além de se reeleger por conta própria ao cargo, ainda no primeiro turno de 2000, foi talvez o único que chegou a superar o antigo líder em popularidade, quando passou a ser considerado inimigo do garotismo. Após várias pendências jurídicas que lhe causaram problemas nos pleitos de 2006, 08, 12 e 14, ele não apoiou o filho, Caio Vianna (PDT), na eleição a prefeito vencida ano passado por Rafael Diniz (PPS), por quem agora pede tempo. Ao falar do “quadro tenebroso” deixado pelo antigo governo municipal, Arnaldo diz que as questões da Lava Jato — na qual o casal Garotinho foi delatado (aqui e aqui) por executivos da Odebrecht — e da “venda do futuro” se encaixam.

 

 

(Foto: Paulo S. Pinheiro – Folha da Manhã)

 

 

Folha da Manhã — Como você analisa os 100 primeiros dias do governo de Rafael Diniz?

Arnaldo Vianna — Parabenizo Rafael pela vitória. Uma vitória incontestável que ele teve, no primeiro turno. Agora, é o que eu digo sempre, para quem foi prefeito duas vezes, vereador e deputado (federal): a eleição acabou. Agora, começa outra etapa. E há que se tomar muito cuidado, tanto quem vence a eleição e assume, como os críticos. Temos que dar tempo ao tempo. É uma fase em que ele enfrenta uma situação difícil, porque não houve transição efetiva. E ainda bem que não houve. Quero dizer para Rafael, quando ele ler isso: foi bom não ter havido, Rafael! Porque, na minha época, na transição, em 98, com o mesmo grupo…

 

Folha — Garotinho saiu para governador, se elegeu, e você, vice-prefeito, assumiu Campos.

Arnaldo — Passou para mim. Me deu documentos dizendo que nós tínhamos, em caixa, uma quantia que animaria qualquer um que estivesse iniciando o mandato. Mas só que ele se esqueceu de dizer que aquela quantia que ele dizia ter deixado em caixa não era crédito. Era dívida, que levei o meu primeiro ano de governo só para pagar. E hoje a gente vê com preocupação o que pode vir a acontecer com Rafael. Ele tem que se cercar de pessoas boas, focar no principal. Olha, eu tenho acompanhado muito, tanto na mídia social, mas, sobretudo, o que tem acontecido, o que vocês têm colocado na Folha, e vendo com o que a população está preocupada, eu diria para Rafael: inicie pensando em três coisas básicas. A primeira é a Saúde. Estou militando na Saúde ativamente e estou vendo a Saúde de Campos em uma situação muito grave, difícil para a população. Hoje, nós temos que ver qual é a realidade da Saúde. Quem tem plano de saúde se vira com ele. Quem não tem plano de saúde, e tem dinheiro, vai para a medicina privada. Agora, quem depende do SUS, é triste. Eu digo isso porque estou atendendo o SUS, além de atender no meu consultório e no social. E vejo essa situação. Então, eu digo: Rafael, cuide dessa parte.

 

Folha — Você falou que tem três pontos. E os outros dois?

Arnaldo — Outro ponto é a Educação. Eu sempre pregava uma coisa: eu não vou promover a Saúde se eu não promover a educação. Através da Educação, a gente pode mudar muitas coisas, inclusive na questão da Saúde. Não muda na questão da doença, mas muda na questão da Saúde. Tem que usar a rede pública municipal de ensino como agente promotor da Saúde. Isso é fácil de fazer. Eu lembro que, quando prefeito, nós fazíamos esse trabalho com os professores, da saúde preventiva, de evitar doenças.

 

Folha — E o terceiro ponto?

Arnaldo — Saúde, Educação e o terceiro ponto é o funcionalismo público. Depois dessa experiência que eu passei, como prefeito, se você não tiver o funcionalismo público trabalhando em consonância com quem está no comando, não anda. A máquina para, emperra. Os processos, que têm que passar em cada secretaria, não andam. Não dependem do prefeito, do vice-prefeito, dos secretários e dos vereadores, mas daqueles funcionários anônimos que estão ali, que têm que preparar o projeto, fazer com que aquilo ande. E esses funcionários nem sempre são valorizados. Acho que está no momento do Rafael avaliar o plano de cargo, carreira e salário do servidor. Para valorizar essa massa importante que toca a Prefeitura.

 

Folha — Você falou, há pouco, que Rafael tinha que se cercar de pessoas boas. A equipe de governo dele tem sofrido alguns questionamentos, sobretudo por falta de experiência. Qual é a sua opinião?

Arnaldo — Olha, essa questão de falta de experiência, você vence com a garra, com a vontade, com a determinação. E com uma coisa muito importante: com o conhecimento. Se as pessoas não têm experiência em determinado setor, mas detêm conhecimento da matéria, elas vão desenvolver bem. A experiência vai vir. Mas ele também tem, na sua equipe, pessoas experientes.

 

Folha — Especificamente em relação à Saúde, você é médico, um neurocirurgião muito conceituado em Campos, e foi um elogiado secretário de Saúde quando acumulou a pasta com a vice-prefeitura, no segundo governo de Garotinho. Como você vê a indicação de Fabiana Catalani à pasta?

Arnaldo — Eu conheço bastante a Fabiana. Ela conhece muito essa questão. Sobretudo, ela conhece muito a questão de captação de recursos. Talvez seja o ponto em que Catalani seja mais forte, na captação de recursos para a área da Saúde. E me preocupa saber que, talvez, ela não fique.

 

Folha — Essa informação é nova.

Arnaldo — Me preocupa saber isso. Eu já escutei isso. Não escutei nem em Campos, foi fora. Ela também trabalhava fora de Campos. Há uma expectativa até muito grande de que ela possa voltar e assumir a Santa Casa de São João da Barra.

 

Folha — Mas isso, por enquanto,  é só especulação?

Arnaldo — É especulação. Especulação que não escutei nem dela, nem aqui em Campos. Escutei fora de Campos. Em São João da Barra.

 

Folha — Qual a sua opinião sobre a operação Chequinho, que já levou a condenações de envolvidos em primeira e segunda instâncias na Justiça Eleitoral?

Arnaldo — Esse é um ponto que está dominando o momento político. A gente sabia disso. A gente sabia que muita coisa errada estava acontecendo naquela campanha. Hoje, a gente fica vendo quantos já foram presos, condenados, citados, investigados. Mas, se não chegar ao principal, não resolve.

 

Folha — Mas o principal (Garotinho) chegou a ser preso também.

Arnaldo — Foi preso, mas precisa ser devidamente esclarecido porque, senão, só as piabas vão pagar e os tubarões continuam armando.

 

Folha — Vê similaridade entre as denúncias de troca de Cheque Cidadão por voto, na Chequinho, além da contratação ilegal de RPAs, que teriam sido comandadas por Garotinho em 2016, com as buscas na sua secretaria municipal de Administração, em 2004, onde foram apreendidos documentos que comprovaram ilícito eleitoral na contratação de servidores, que depois custariam o mandato de prefeito de Carlos Alberto Campista?

Arnaldo — Total. Além de ver a similaridade… hoje, eu volto atrás…

 

Folha — Mas, então, houve ilícito eleitoral no seu governo? Se há similaridade…

Arnaldo — Há similaridade nos fatos. Eu quero voltar atrás, quando eu disputei uma eleição contra Rosinha.

 

Folha — Em 2008 ou 2012?

Arnaldo — Em 2008. Eu lembro que foi uma eleição muito difícil. Difícil para mim, no plano pessoal, pois eu vinha de um problema de saúde muito sério e disputei aquela eleição. Eu lembro que, logo assim que acabou a votação, eu fui para o hospital para ser operado. Foi um problema de vesícula e pancreatite. Fui para lá para ser operado. Graças a Deus, correu tudo bem. Mas aquilo, durante a campanha, me prejudicou muito. Mas o que mais me prejudicou, eu fui saber agora. Eu, com poucos recursos, porque eu não tinha apoio da Odebrecht. Fui saber, pelas delações dos executivos da Odebrecht (Benedicto Barbosa da Silva Júnior e Leandro Andrade Azevedo, que denunciaram o casal Garotinho na Lava Jato) que…

 

Folha — A Odebrecht deu dinheiro, na campanha de 2008, para Rosinha.

Arnaldo — Eu fui prejudicado por todo esse esquema.

 

Folha — E você acha que esse dinheiro da Odebrecht foi fundamental na sua derrota?

Arnaldo — Com certeza. Além do problema de saúde que eu passava na época, eu estava com recursos minguados, disputando. Hoje, eu vejo como era o poder financeiro daquela campanha. Isso realmente é preocupante. É uma coisa que eu digo sempre: nós tínhamos que voltar à política de tempos atrás, em que você não tinha tanta rede social, não tinha internet, não tinha nada disso. Era no convencimento. Você convencia as pessoas de que você seria um bom candidato pela sua história e pelo que você poderia fazer.

 

Folha — Qual sua opinião sobre a antecipação de royalties, mais conhecida como “venda do futuro”? No contrato celebrado pelo casal Garotinho com a Caixa Econômica Federal, no apagar das luzes do governo Dilma Rousseff (PT), foi excedido o comprometimento de 10% dos royalties, limite definido pela lei municipal que autorizou a transação. Na sua opinião, o governo Rafael tem que discutir ou pagar?  

Arnaldo — Bom, quando a gente deve, a gente não discute. A gente paga e, depois, vai para a discussão. Acho que o governo Rafael deve lutar para tentar reverter, para ver que manobra usaram para aprovar isso. Não é fácil reverter. Porque vão chegar e dizer que tem uma lei da Câmara Municipal que autoriza. Qual Câmara? Quem comandava a Câmara? Não falo só dos vereadores. Quem tinha o poder de influência sobre a Câmara para que isso acontecesse? Eu já fui vereador, já fui deputado. Então, sei como funciona o processo legislativo, sobretudo na hora dessas aprovações. Acho que ele deve lutar, sim. Mas, além de lutar, eu acho que ele tem, com sua equipe, que preparar um plano de recuperação econômica e recuperação do crédito para Campos. Nós temos, em Campos, excelentes cabeças que podem ajudar.  A economia de Campos está triste. A gente vê lojas fechadas. E isso nos preocupa porque o poder local, é uma coisa em que eu bato há muito tempo, não é a Prefeitura e a Câmara só. É Prefeitura, Câmara, OAB, CDL, Acic, associações de classe, de bairro. Nós temos que juntar tudo isso. E, quando falo isso, é porque temos uma experiência, no passado, do Fundecam. Era o Fundo de Desenvolvimento de Campos, criado no meu governo, em que retirávamos uma parte do dinheiro dos royalties e aplicávamos ali, para garantir o futuro, para quando os royalties acabarem. E vão acabar um dia.

 

Folha — A “venda do futuro” integra uma dívida de R$ 2,4 bilhões legada pelo governo Rosinha. Hoje, a Prefeitura de Campos opera com um déficit de R$ 40 milhões/mês entre receita e despesa. O que acha do quadro deixado?

Arnaldo — O quadro é tenebroso. É terrível. A dívida deixada é terrível. Olha só a questão da Lava Jato e a questão da “venda do futuro”. As coisas se encaixam. São muito próximas. Eu lembro, quando saiu essa “venda do futuro”, naquela época, eu falava: “não permitam isso porque vai ser a quebradeira de Campos”. E realmente é a quebradeira de Campos. É difícil sair disso. Mas se todos se unirem em favor de Campos. Não em favor do partido “A”, do partido “B”, ou da corrente política “tal”. Não! Em favor de Campos. A questão, hoje, é salvar Campos, e não o governo de Rafael, que ainda está começando. Temos que dar tempo a ele para mostrar a que veio.

 

Folha — Você foi amigo do pai dele (o ex-deputado Sérgio Diniz)?

Arnaldo — Muito. Fui colega, amigo do avô dele (o ex-prefeito Zezé Barbosa). Uma pessoa fantástica. Uma pessoa que a gente sempre se lembra de coisas boas que ele fez. Eu me lembro de quantas vezes fui à casa dele para conversar, para ele me orientar, mesmo que o grupo ao qual eu pertencia não pudesse ouvir falar no nome de Zezé Barbosa. O grupo do senhor Anthony William não podia falar do Zezé.

 

Folha — Você não fala Garotinho? Você fala Anthony William?

Arnaldo — Ele já cresceu. Ele já está idoso para ser chamado de Garotinho. É Anthony William. Tem que assumir o que a gente é. Ele não assume nem o nome dele. Vai assumir mais o quê?

 

 

(Foto: Paulo S. Pinheiro – Folha da Manhã)

 

 

Folha —  O garotismo e o arnaldismo, como o próprio lulopetismo, são movimentos marcados pela política social para uns, assistencialista para outros, da população mais carente. O que acha de quem afirma que precisam do pobre para sobreviver politicamente? É mais difícil de mantê-los em período de recessão econômica, como vivem o Brasil, o Estado do Rio e Campos?

Arnaldo — A gente fala, nesta questão, dividindo por classes econômicas. Mas vamos dividir, também, pela classe cultural. Porque, hoje, mesmo aqueles que pertencem a uma classe econômica de nível mais baixo, eles estão adquirindo conhecimento. E, daqui a pouco, não vão acreditar na política do R$ 1, na política do pão e circo. Não vão acreditar mais na política do “dá lá, toma cá”. Eu sempre falei uma coisa: eu posso, hoje, dar uma bolsa de estudos para os filhos; posso dar o Cheque Cidadão. Posso dar tudo isso. Mas, se eu tiver uma política que gere trabalho e renda, eu não vou precisar mais dar isso. E o cidadão vai ser mais feliz. Ele vai ver que não está ganhando benesse de governo nenhum, seja federal, estadual ou municipal. Eu estou ganhando o produto do meu trabalho. Mas, para isso, vamos voltar lá atrás. E, para isso, eu digo ao Rafael: use a história da sua família. Invista na Educação, sobretudo na educação profissionalizante, para que a gente possa preparar uma massa, em Campos, de pessoas que governem a cidade junto com os eleitos. Aí, volto há um tempo, em que escutei, quando o presidente Kennedy, dos EUA, disse: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país”. É hora, também, de a gente perguntar: além do que Rafael pode fazer por nós, o que nós podemos fazer por Campos?

 

Folha —  O arnaldismo morreu em Campos? E o garotismo?

Arnaldo — Eu nunca vi essa questão do arnaldismo. Até porque eu sempre tratei as pessoas que trabalhavam comigo com muita responsabilidade, com muito respeito. O garotismo, na verdade, o mentor do garotismo tinha uma inveja do (ex-governador) Brizola muito grande. Brizola foi um cara fantástico, independente de posições políticas. Era um cara de um pensamento político adiante. E existia, na época, o brizolismo. E, quando houve a ruptura dele com Brizola, ele quis pegar até o jeito de falar do Brizola. Ele imitava em tudo Brizola. Mas ele se esqueceu das coisas boas que Brizola fez por ele e das coisas ruins que ele fez por Brizola. Mas ele tinha essa fixação por Brizola e criou o garotismo. Mas o garotismo era assim: ou faz o que eu quero ou está fora; ou me segue ou não presta. Todos aqueles que, um dia, não concordaram com ele viraram seus adversários. Adversários quando se fala na boa política. Pior é quando se tornam inimigos, malvados, perversos. Eu tenho adversários políticos, é lógico, mas evito ter inimigos. Por exemplo, Anthony William se declara meu inimigo. Mas a família dele não é minha inimiga. Muito pelo contrário. Eu tenho ligações com pessoas da família dele. De amizade, profissionais e de respeito, o que ele não tem com a minha. Ele não sabe separar política da vida pessoal. Eu acho que este é o grande ponto do garotismo: eles não separam a política da vida pessoal, em todos os aspectos.

 

Folha — Aquele que seria seu herdeiro político, e filho único, Caio Vianna (PDT) não teve seu apoio em 2016. Quando você apoiou a candidatura a prefeito de Geraldo Pudim (PMDB), chegou a dizer publicamente: “Caio precisa estudar, amadurecer. Eu lutei muito para me formar. Já meu filho ouviu algumas pessoas e trancou a faculdade para entrar em uma aventura. Quando ele voltar aos estudos e concluir a faculdade, darei a ele meu apoio político”. Mudou ou mantém a opinião?

Arnaldo — Mantenho. Mantenho porque fui criado dessa forma. Quando eu tinha 11 anos, meu pai faleceu, e eu fui criado pela minha mãe, professora da rede estadual. Com muita dificuldade, ela criou os cinco filhos. Mas ela sempre usava uma coisa com a gente: estude. Nós tínhamos uma história política na família. Meu pai fazia parte do antigo PTB, que deu origem, depois, ao PDT, na época do Getúlio (Vargas, ex-presidente). Ele era amigo do Brizola. Eu me lembro. Tem uma foto, na casa da minha mãe, do meu pai, minha mãe, Brizola de cabelo pretinho e bigodão, e eu no colo dele. É uma história que vem de lá. Aí, eu digo para o meu filho: “estude, se forme, porque política não é profissão”.

 

Folha — Ele ouve você?

Arnaldo — Ele ouve os dois lados. E, quando eu digo os dois lados, muitos vão pensar que são a mãe (a ex-vereadora Ilsan Vianna) e o pai. Não. Os dois lados são o quê? Eu, que falo com o coração e a responsabilidade de pai, e outros que se acercam. E que se acercaram de mim também, quando eu estava no poder, mas não conseguiram muitas vantagens comigo. E passaram a olhar para Caio com uma perspectiva de ele ser mais novo, com menos experiência do que eu tinha, para eles poderem levar vantagem. E isso me preocupava.

 

Folha — No início da última campanha a prefeito, Caio chegou a liderar a série histórica das pesquisas Pro4/Folha, mas entrou em derrocada tão logo você não deu a ele seu apoio. Considera que sua posição definiu os rumos da candidatura dele?

Arnaldo — O que definiu a derrota dele, naquele momento, não foi meu apoio a outro candidato. Não foi a idade do Caio. Eu acho que se deveu muito mais a duas coisas: às pessoas ainda não terem tido noção do que Caio tinha feito e do que poderia fazer. Tinha, ao lado dele, uma pessoa, e aí não vai crítica pessoal, mas que trabalhou no meu governo também…

 

Folha — Quem?

Arnaldo — A mãe dele. Que foi prejudicial para ele. Ela é uma pessoa que, administrativamente, tem um potencial muito grande. Não vou negar isso. Mas, politicamente, é o inverso. Talvez pelo seu jeito de ser, de conversar com as pessoas. Então, não agrega. Mas gosta da política. E, naquele momento, além disso, eu tinha saído do PDT. Fui para o PEN, em uma passagem rápida. Esse grupo mesmo manipulou para tirar o PEN do Arnaldo. Eles fizeram uma tramoia para me tirar o PEN. Foi terrível isso. Até que me surge, o filho do Paulo Moraes, o deputado Lazaroni, e acabamos indo para o PMDB.

 

Folha — Depois que definiu seu apoio a Pudim, você não conseguiu transferir a ele a sua popularidade. Você acha que isso se deveu a quê?

Arnaldo — Estou até querendo, um dia, sentar com Pudim e mais alguns membros do grupo dele para conversar sobre isso. Acho que é um exercício muito bom para o futuro. O que houve? Eu não conseguia transferir para ele a minha popularidade. Não conseguia fazer com que seus votos aumentassem. Mas lembro que, na campanha, muitas vezes, eu ainda com gás para continuar as caminhadas, o grupo de militantes dispersava. Era aquele contato muito superficial e muito rápido com o eleitor. E faltava garra, determinação. Faltava enfrentar o que eu enfrentei em várias campanhas: comprar, no Camelódromo, uma capinha de chuva e, mesmo no dia de chuva, fazer caminhada. Faltava gastar sola de sapato, convencimento. E não aquelas, desculpe o termo que vou usar, reuniões de baba-ovo, em que meia dúzia vai lá bater palma, para aparecer. Faltava aquele que ficava lá atrás. Faltava esse cara, que é o que ganha a eleição. O cara que vai para a rua e ganha.

 

Folha — Na reta final da campanha municipal de 2016, depois que Rafael passou a liderar as pesquisas, começou a circular com força nos bastidores que Caio teria feito uma aliança por baixo dos panos com Garotinho. Hoje, entre os próprios garotistas, é dito abertamente que, em caso de nova eleição, Caio seria o candidato o candidato do grupo. Como político e pai, qual a sua visão?

Arnaldo — Terrível. O que existe, na verdade, é que Caio mora no prédio em que mora Chicão. Eu lembro que foi publicada uma foto dos dois conversando. Isso não tem nada demais. Mas, depois que começa a surgir tudo isso e eu vejo até uma discussão em que o grupo estava querendo observar minha posição, o que eu ia fazer na política, se resolvia as minhas pendências. Se eu fosse candidato a deputado federal, eles lançariam Caio a deputado federal; se eu fosse candidato a deputado estadual, eles lançariam Caio a deputado estadual.

 

Folha — Eles quem? Garotinho?

Arnaldo — O grupo de Anthony William. Na pescaria, a gente usava muito isso. Você joga o engodo para pegar o peixe.

 

Folha — O peixe é você?

Arnaldo — É. Eles fazem isso como uma maneira de provocação para ver se eu entro em rota de colisão com meu filho. Eles apostam no seguinte: Arnaldo teve esse problema com Caio. E eles não vão entender isso nunca porque não tem valor para eles eu dizer que queria que meu filho estudasse, que queria o melhor para o meu filho. Eles nunca vão acreditar nisso. É o que eu penso até hoje. Disse naquela época e reafirmo: no dia em que Caio terminar os estudos dele, e se ele optar pela vida pública, pela política, eu serei o primeiro a apoiá-lo. Ele estava na faculdade, no Rio. Gostava do que estava fazendo. Não era na minha área. Era na área tecnológica. Mas ia muito bem ali. Eu dou meu exemplo: fui vereador, deputado, vice-prefeito e prefeito duas vezes. Hoje, sou médico. E se eu não tivesse uma profissão? Seria o que hoje? Ia estar atrás dos políticos eleitos, pedindo cargo?

 

Folha — Em passado recente, quando Garotinho sugeriu que você teria contas no exterior em nome de Caio, sua posição foi veemente na defesa do seu filho: “Garotinho desperta meus instintos mais primitivos”. Como convive agora com essa possibilidade de aliança de Caio com seu maior inimigo político, que várias vezes o chamou publicamente de ladrão?

Arnaldo — Eu prefiro acreditar que isso não vai prosperar. É o coração do pai falando. Mas se prosperar, eu vou lamentar muito. Torcer e rezar para o futuro do meu filho. Porque ele será massacrado pelo Garotinho. Garotinho tem essa prática.

 

Folha — Como ele fez com você.

Arnaldo — Fez com vários.

 

Folha — Mas você foi, talvez, o que mais tenha incomodado ele pela popularidade que alcançou.

Arnaldo — Mas ele tentou fazer isso com Sérgio Mendes, Campista, Fernando Leite, Pudim. Todos eles. É um sofrimento muito grande. Com todos. Caio não seria diferente. Seria massacrado. Aí, entra o meu sentimento como alguém que milita na política, mas, sobretudo, de um pai, vendo o filho ser massacrado por alguém que você tinha convicção de que faria isso. E eu não ter tido a competência de impedir que meu filho seguisse aquele caminho.

 

Folha — Isso angustia você?

Arnaldo — Angustia. Muito!

 

Folha — Após sua ruptura política e pessoal com Garotinho, você várias vezes o desafiou publicamente a disputarem juntos uma eleição em Campos, para que a população da cidade definisse no voto o vencedor. Ele nunca aceitou. Acredita que isso ainda vai acontecer um dia?

Arnaldo — Seria ótimo. Mas não. Nunca vai acontecer. Ele nunca vai aceitar. Eu aceito. O desafio está de pé, mas ele nunca vai aceitar. Eu acho que ele fica com medo. Nelson Nahim sobe ao palanque do irmão ou do amigo? A mãe (dona Samira) sobe ao palanque do médico dela ou do filho que a esquece? É muito difícil. São todas essas conjunturas. Eu não falo isso para provocar. É o dia a dia, a realidade. Não posso esconder o passado. Eu tive uma grande ligação com a família de Garotinho, inclusive com ele.

 

Folha — Você foi médico dele.

Arnaldo — Inclusive com ele. Hoje, continuo tendo relação de amizade e respeito com várias pessoas da família dele. Mas ele não tem essa relação com nenhuma pessoa da minha família, a não ser no interesse político de cooptar meu filho. Não por ver valores nele, mas por ver uma forma de me provocar.

 

Folha — Seu último mandato foi de deputado federal, eleito em 2006. De lá para cá, concorreu com problemas na Justiça a prefeito em 2008 e 2012. E chegou a pensar em disputar para deputado estadual em 2014 e a prefeito, em 2016, mas retirou as candidaturas. Quando vai concorrer de novo a uma eleição? Quando vai poder fazê-lo sem problemas jurídicos?

Arnaldo — Eu acho que não estarei problemas jurídicos já a partir da próxima eleição. Digo isso baseado nos encontros que tenho feito com o setor jurídico, com advogados que estão me ajudando nisso. Agora, quando eu vou querer disputar uma nova eleição? Eu, primeiro, preciso ter uma conversa com Edilene (esposa). Preciso conversar com várias pessoas, que trabalham comigo desde o início da minha carreira política, quando fui vereador, e com novas pessoas, que surgiram agora. Pessoas que têm me ajudado muito. Preciso ter toda essa conversa, mas, sobretudo, fazer uma análise do quadro político. Para não entrar em nenhuma aventura e nem tumultuar o processo. Eu sei que, às vezes, até a minha entrada fez isso. E eu não quero isso. Eu quero o melhor para Campos. Eu sempre digo uma coisa: eu nasci em Campos, estudei em Campos. Depois de um período, saí para me especializar, no Rio e fora do Brasil. Mas, na realidade, minha vida toda é focada em Campos. E eu quero o melhor. Quero poder dizer, um dia, quando não estiver nem conseguindo andar, só dentro de casa: eu contribuí. Contribuí de forma positiva. Quero olhar para o meu passado e não ter vergonha. Quero ter orgulho das coisas que fiz. Sei que falar isso, quando a gente está envolvido na política, é difícil porque a política é perversa. É muito dura. Hoje, eu falo isso para você. Amanhã, senta outro aqui, que é meu adversário, e não vai me chamar de bonito. Não vai dizer que sou bom. Mas, primeiro, preciso ter uma prestação de contas comigo mesmo. Depois, a prestação de contas é com minha família. E não é família de esposa, filho, irmãos. É mais ampla. É a família que você cria no seu dia a dia.

 

Folha — Queria colocar mais alguma coisa?

Arnaldo — É um momento de muita cautela. Eu ressalto e digo um conselho para Rafael, um conselho de alguém que sempre admirou sua família: cautela! Use as pessoas do bem e que querem o bem de Campos. Você tem várias dessas pessoas ao seu lado. Procure as entidades que podem te ajudar. Transforme Campos, não por você, mas por todos nós. Precisamos que você seja o prefeito da mudança. Campos precisa romper com essa história.

 

Página 2 da edição de hoje (16) da Folha

 

 

Página 3 da edição de hoje (16) da Folha

 

 

Publicado hoje (16) na Folha da Manhã

 

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Artigo do domingo — Da função do eco

 

Aristóteles, segundo cantou Caetano: “cuja cabeça sustenta ainda hoje o Ocidente”

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

O maior problema de se escrever por duas semanas sobre um tema pré-determinado é fazê-lo numa cidade, num Estado, num país e mundo onde os fatos relevantes se atropelam em sucessão tão espantosa. Como escrever um texto de opinião para este domingo sem falar da guerra civil na Síria, tomando proporções geopolíticas cada vez mais preocupantes? Ou sem citar a utilização inédita pelos EUA (aqui), sobre o Afeganistão, da mais poderosa bomba não nuclear do seu vasto arsenal, capaz, como o da Rússia, de varrer a espécie humana da Terra algumas vezes? Aliás, bastaria mais de uma?

Em termos locais, nem por isso menos destrutivos, como escrever para hoje sem falar sobre a “delação do fim do mundo”, feita por 77 executivos da Odebrecht, a eviscerar a podridão da prática política brasileira desde os tempos da Ditadura Militar (1964/85)? Para quem não é caso clínico da teoria freudiana da negação, saber que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebia da construtora para agir em seu favor desde os tempos de sindicalista do ABC paulista, ainda nos anos 1970, causa menos espanto do que constatar que não escapou nem o ex-governador Leonel de Moura Brizola (1922/2004), outro figura emblemática da esquerda brasileira e cuja probidade sempre pareceu inquestionável, com a revelação de que o Sambóbromo e os Cieps não foram erguidos como exceções à promiscuidade nada republicana entre poder público e empreiteiras.

De fato, nem o atual presidente Michel Temer (PMDB), nem nenhum dos seus antecessores vivos — Dilma Rousseff (PT), Lula, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Fernando Collor de Mello (PTC) e, lógico, José Sarney (PMDB) — ficaram de fora. E, como a Folha indicava (aqui) desde 29 de maio de 2009, quando a coluna “Ponto Final” antecipou em quase quatro meses a licitação do “Morar Feliz” vencida pela Odebrecht, no valor total de quase R$ 1 bilhão, maior contrato dos 182 anos de história de Campos, os ex-prefeitos Rosinha e Anthony Garotinho (PR) também foram alvos da delação. Em troca, receberam (aqui) repasses às campanhas dela a prefeita em 2008 e 2012, e dele, a governador, em 2014, segundo Benedicto Barbosa da Silva Júnior e Leandro Andrade de Azevedo denunciaram a Lava Jato. Ironicamente, foram os mesmos dois executivos da Odebrecht que assinaram (aqui) com Rosinha o primeiro contrato do “Morar Feliz” — com a Folha também noticiou com exclusividade, em 03 de abril de 2016.

Mas o assunto que determinou a primeira rodada temática de duas semanas dos colaboradores do blog “Opiniões”, com a qual os dois últimos artigos (aqui e aqui) deste espaço dominical também dialogaram, foram os 100 primeiros dias do governo municipal Rafael Diniz, do PPS — cujo presidente nacional, o ministro Roberto Freire, decepcionou muita gente ao aparecer na “delação do fim do mundo”. Os 100 dias de Rafael se completaram na segunda-feira, dia 10. Foi quando o tradutor Marcelo Amoy abriu (aqui) a última semana de análise do tema coletivo. Uma semana em que o tom da cobrança de alguns colaboradores parece ter subido, em relação à semana anterior.

Ao falar das “demandas reprimidas” do campista, Marcelo ressalvou: “Esperamos que o governo Diniz as atenda, mas ficamos impacientes que ainda não pareça que tudo já começou a deslanchar. Sei que há necessidades urgentíssimas, que não podiam esperar nem um dia, quanto mais cem ou mais, mas… até que ponto estamos cobrando o impossível dado o ‘pouco’ tempo até agora transcorrido? Por outro lado: você tem certeza que não dá pro governo acelerar um pouco o ritmo e demonstrar que já sabe o que pode e vai fazer – e de que forma?”.

Na terça (11), o jornalista e poeta Ocinei Trindade começou falando (aqui) das suas impressões pessoais a partir de um encontro com Rafael em Atafona, para depois passear pelas interpretações da astrologia, numerologia e tarô sobre a data de nascimento do prefeito, nas mesmas data e mês do líder cubano Fidel Castro (1926/2016), não sem antes advertir: “Nas redes sociais vemos uma ciberinquisição, e pelas ruas, uma neo-inquisição surgindo. Descontentes a fim de desconstruir, de algum jeito, a imagem do novo governo. Nas mídias digitais são frequentes”.

O jornalista e servidor federal Ricardo André Vasconcelos, que foi secretário municipal de Comunicação nos governos Garotinho (1989/92) e Sérgio Mendes (1993/96), usou a quarta (12) para questionar (aqui) os rumos da nova administração municipal entre a “ruptura” e a “velha política”. E avaliou criticamente o canal de interlocução entre governo e cidadão: “alguém tem que dialogar com a sociedade que comprou a ideia de um ‘governo diferente’ (…) o prefeito deveria (…) manter atualizado o discurso da diferença, enquanto sua equipe elabora o que será diferente na prática (…) Se a demanda reprimida não pode ser atendida, é preciso que se leve ao conhecimento da população os motivos, as dificuldades e as soluções viáveis. É preciso reconectar o cidadão que cobra soluções ao eleitor que apostou na mudança”.

Fora de Campos há 10 anos, a antropóloga e poeta Manuela usou da crônica, na quinta (13), para lembrar (aqui) seu passado comum com o prefeito, nos tempos de ambos estudantes do Auxiliadora, quando ela já podia observar a capacidade de liderança de Rafael. Ao saudar a presença da atriz Lúcia Talabi e da socióloga Sana Gimenes na equipe de governo, Manuela apostou numa lembrança comum: “Passados os primeiros cem dias e com a sensação de mudança não tão latente, mesmo para alguns de seus próprios eleitores, permanece a confiança na competência do atual prefeito e de todo seu grupo. Particularmente para mim, ainda ecoa a continuidade do hino da escola, pertinente, para a atualidade dos caminhos de Rafael: ‘Queremos ser promessa no futuro/ Luz no escuro, solução!’”.

Na sexta (14), talvez tenham se dado (aqui) os questionamentos mais duros, entre os colaboradores do blog, aos 100 dias do novo governo de Campos. Apesar das críticas severas quanto ao “desGoverno” rosáceo e de se assumir eleitor de Rafael, o professor e comunicador visual Sérgio Provisano foi enfático: “Chega do ‘blá-blá-blá de paciência’, de que herdamos uma cidade falida, sem orçamento e coisa e tal. Disso todos sabíamos, não era nenhuma novidade tanto que decidimos mudar tudo e mudamos no primeiro turno das eleições”. Antes de fazer críticas diretas ao Transporte Público, Educação e Saúde, ele afirmou: “não observei, até o presente momento, mudanças significativas em relação ao governo anterior, os serviços públicos continuam com sérios problemas estruturais”.

Por fim, ontem, no sábado (15), foi a vez da cientista social Vanessa Henriques usar seu espaço para fazer (aqui) um balanço não dos 100 dias governo Rafael, mas especificamente da secretaria de Desenvolvimento Humano e Social, capitaneada pela mesma Sana Gimenes saudada por Manuela. Integrante da secretaria, Vanessa resumiu: “como foi apontado por muitos dos colaboradores deste blog, este primeiro momento está sendo marcado pela análise da situação encontrada e pela reorganização e reestruturação dos serviços prestados à população campista (…) Transformar este cenário será uma tarefa hercúlea (…) Os profissionais que trabalham na ponta, que muitas vezes sentem-se incapacitados diante da grandeza da missão, (…)  são verdadeiros heróis que, a cada atendimento prestado aos munícipes, dão um passo na direção da reconstrução da nossa cidade”.

Comparadas todas as análises sobre os 100 dias do novo governo de Campos, não só da última semana, como da anterior, percebe-se que a “tarefa hercúlea” não se atém a quem vê o governo de dentro. Mais difícil ainda pode ser tirar uma conclusão de tudo que foi dito. A defesa da manutenção da assistência das “13 mil famílias que recebem o Cheque Cidadão e cerca de 30 mil famílias que recebem o Bolsa Família”, contabilizadas pela Vanessa, se choca, por exemplo, com a advertência do Marcelo: “O velho assistencialismo da mão estendida e dos favores a retribuir tem que morrer nesta cidade (…) Acreditem: dinheiro não cai do céu. Juro!”.

Da mesma maneira, quando o jornalista e poeta Fernando Leite abriu (aqui) a rodada temática de análises, no último dia 3, pregou: “Querem alguns que o prefeito repita o modus operandi do adversário vencido, que expunha as vísceras dos seus inimigos, ao sol, na praça central da cidade. Tolos! (…) O prefeito venceu esse modelo próprio dos carniceiros. Repetir o contendor tombado seria o maior de todos os equívocos”. E a fala é diametralmente oposta à cobrança feita, nove dias depois, pelo Ricardo André, antes da notícia (aqui) das CPIs das Rosas e da Lava Jato na Câmara de Campos: “É preciso que se conheça o que foi apurado nas auditorias e trazer à luz os malfeitos de um governo que foi escorraçado nas urnas justamente porque sobre ele pairavam todas as suspeitas. E, se nada vem à tona, anistiam-se todos os dias um governo que acabou em caso de polícia”. Como Fernando e Ricardo, depois convertidos em desafetos, estavam na gênese do garotismo, nota-se que a discordância de método não é de hoje.

Num país em que 200,4 milhões de pessoas se convertem em técnicos de futebol, no ufanismo cometa que nos visita de quatro em quatro anos, a cada Copa de Mundo de futebol, tão importante quanto ouvir, é saber fazê-lo criticamente. Na ágora ateniense, berço da democracia, o filósofo grego Aristóteles (384/322 a.C.) ressalvou que o limite daquele então revolucionário sistema de governo deveria ser: “kêryx mè stentóreios” (“um orador sem megafone”). Abraçada a premissa clássica, a Folha e o “Opiniões” se orgulham, independente da concordância, por se prestarem à função do eco.

 

Publicado hoje (16) na Folha da Manhã

 

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