Guilherme Carvalhal — Infinito Tribunal

 

 

 

Quatro meses após a partida do doutor Coutinho para uma expedição socioantropológica no reino de Anamédia, recebi sua primeira missiva detalhando suas descobertas. Falava com bastante encanto de suas maravilhas, de sua arquitetura, de sua culinária, de seu equipamento militar e, principalmente, de seu sistema jurídico e legal.

Segundo seus relatos, toda a Anamédia se fundava em um forte princípio dialético. Concebiam que para todo argumento existe um contra-argumento, e então todas as discussões jamais se encerravam. Uma opinião sempre era aceita, porém interposta com algo que a invalidasse. Isso tornava cada um dos cidadãos exímio debatedor e a nação extremamente fértil em ideias.

O sistema jurídico de Anamédia se desenvolveu a partir dessa característica peculiar. Os tribunais se enchiam de debatedores, os advogados, defensores e acusadores utilizavam de exímia capacidade de argumentar a ponto de transformar o mais simples debate em um colóquio científico da mais alta grandeza. Isso gerava vastas quantidades de papéis e os processos se enchiam com a sofisticação de enormes tomos com conhecimentos diversos.

O autor da carta narrou o julgamento de um homem acusado de roubo. O promotor expôs uma digital colhida na cena do crime que batia com a do réu. A defesa então questionou se havia alguma probabilidade de que um clone perfeito do réu deixasse ali suas digitais, se no exame constavam as estatísticas de erros inerentes à papiloscopia, o quanto uma digital de fato pode ser algo relevante por si e não somente mera potencialidade a se juntar a outras provas adiante, ou seja, algo que pode ser, sem ainda sê-lo. A acusação pediu um recesso para elaborar suas respostas e na sessão seguinte as apresentou, e, para cada novo detalhe da resposta, a defesa lançava mais e mais questionamentos. Ou seja, o processo caía em um inquérito filosófico sem fim.

Esse caso foi uma amostra de todo o sistema judiciário do país, composto por debates intermináveis. Aos poucos todo processo se ramificava em um amplo ir e vir de perguntas irrespondíveis e o processo estacava. O resultado disso era um país onde não havia presos, já que ninguém jamais seria considerado culpado por um tribunal.

À primeira vista me pareceu inconcebível o funcionamento de uma sociedade dessas.  Não consegui imaginar como qualquer valor moral, como qualquer tipo de sociabilidade ou cidadania poderia ser exercido, como alguém respeitaria contratos ou leis em mundo em que processos judiciais nunca se concluíam.

Para meu espanto, doutor Coutinho me contou mais adiante na carta que jamais viu um povo tão funcional quanto o de Anamédia. Tudo isso em decorrência dessa longa jornada judicial, que se convertia em punição por si só. Afinal de contas, cientes todos os cidadãos de que o processo judicial resultaria em um dispêndio interminável de tempo e dinheiro, a maioria deles evitava cometer qualquer falha. Quem requisitasse a justiça terminaria falido de tantos gastos, exausto de tantos compromissos, humilhado diante de tantas e tantas acusações, e assim a liberdade e todos os direitos indubitavelmente se perdiam. Portanto, pouquíssimos cometiam crimes e as pessoas se casavam apenas com total certeza de que desejavam o compromisso pelo resto da vida. Quando um casal começava a divergir, bastava a mera lembrança dos trâmites burocráticos para desistirem do divórcio e logo se contentavam novamente com a vida conjunta. Por consequência, fomentavam-se o respeito à leis, a cordialidade, a benevolência. Ninguém atravessava o sinal vermelho, ninguém tentava passar a perna, todos resolviam suas diferenças antes de iniciar qualquer discussão. E os advogados constituem uma exclusiva e diminuta casta de milionários, já que passam o resto da vida recebendo dinheiro de seus clientes.

Sentei fascinado diante da descrição desse local. Pareceu-me bastante usual, apesar de um tanto quanto assustador, um sistema jurídico que impusesse o respeito à lei não pelo medo da punição, mas do próprio processo judiciário. Ao mesmo tempo, imaginei o quanto de injustiças não advêm de um tal sistema, de quantas pessoas sofreriam em silêncio vítimas de algum dano com receio de lutarem pelos seus direitos.

Fui tomado pela curiosidade de visitar Anamédia e até preparava minhas malas para partir de navio. Apenas seis meses depois da chegada da carta de Coutinho que de fato pude me livrar de minhas obrigações profissionais e me dedicar a uma viagem. Entretanto, dois dias antes de embarcar, recebi uma nova carta do doutor.

Dessa o vez o tom de suas letras estava carregado de dor, narrando a odisseia de desespero que atravessa nessa terra anteriormente aprazível. Já não repetia os termos elogiosos e nem declamava como o mundo seria mais feliz caso copiasse os princípios dessa sociedade.

Quando planejava retornar ao Brasil, o doutor deu por falta de seu passaporte. Deu entrada na embaixada para solicitar um nova, porém transferiram seu pedido e este recaiu em uma das cortes do país. Precisou contratar um advogado e iniciar o processo.

Assim, conheceu na prática o suplício e se enrolou na armadilha do judiciário de Anamédia.  Embarcou nessa longuíssima narrativa dentro de tribunais, sendo refutado cada vez que respirava. Constatou da pior forma possível que jamais retornaria para casa, condenado pelo restante de seus dias a responder ao mais longo dos inquéritos filosóficos.

 

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“Lavoura arcaica” reabre hoje, às 19h, o Cineclube Goitacá

Aqui, em matéria da capa da Folha Dois de hoje, o repórter Jhonattan Reis me entrevistou para anunciar a reabertura das atividades do Cineclube Goitacá, às 19h de hoje, com o filme “Lavoura arcaica” (20021), de Luiz Fernando Carvalho, baseada em livro homônima de Raduan Nassar. Como de hábito, a sessão tem entrada franca e será seguida de debate, sempre na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento das ruas Conselheiro Otaviano e 13 de Maio, no espaço audiovisual da Oráculo Produções.

Como dito na matéria, a sugestão para que eu apresentasse o filme foi do advogado Geraldo Machado, por conta da polêmica na entrega do prêmio Camões, em 17 de fevereiro, recebido por Raduan com um discurso contra o governo Temer, respondido, sob vaias, pelo ministro da Cultura Roberto Freire (PPS). Muito antes disso, havia escrito aqui, em fevereiro de 2011, sobre “Lavoura arcaica”, quando tentava lista os melhores filmes de romance de todos os tempos.

No convite a você, leitor, para que compareça logo mais à reabertura do Cineclube, o que pensava e penso do filme que será apresentado e debatido:

 

(Arte de Gustavo Alejandro Oviedo)

 

A classificação geral dessa exuberante leitura cinematográfica do livro homônimo de Raduan Nassar, sempre esteve para um drama baseado na inversão da parábola do filho pródigo. O elemento para considerar o filme como de “romance”, é a paixão incestuosa entre os irmãos André (Selton Mello) e Ana (Simone Spoladore). Todavia, também a severidade do pai (Raul Cortez) e o amor sufocante da mãe (Juliana Carneiro da Cunha) foram causas para a fuga de André, da casa rural de sua família de imigrantes libaneses, para uma pensão.

A pedido da mãe, o filho mais velho, Pedro (Leonardo Medeiros), vai em busca do irmão. Após uma conversa regada a álcool e tensão, com memórias evocadas em fluxos de consciência, alguns ternos, muitos violentos, André retorna à casa, mas só para que a incompatibilidade entre as tradições cristãs do pai e o profetismo de si mesmo, do filho, exploda na consumação do incesto deste com a irmã.

Depois de passarem nove semanas na fazenda do interior de Minas que serviu de locação, onde aprenderam a trabalhar a terra, ordenhar, fazer pão, bordar e dançar como uma família libanesa, todos os atores atingem interpretações à flor da pele. Delas, não fica atrás a fotografia do mestre Walter Carvalho, equilibrada no claro-escuro (o chiaroscuro da inovação renascentista de Da Vinci) ofertado pela luz do dia e das lamparinas; tampouco a trilha sonora do compositor Marco Antônio Guimarães, que utilizou temas da música árabe, não sem uma citação d’A Paixão Segundo São Mateus, de Bach.

Único longa no cinema do diretor de novelas e minisséries Luiz Fernando Carvalho, está, na opinião deste crítico, entre os três melhores filmes brasileiros já feitos, independente de gêneros, ao lado de “Limite” (1930), de Mário Peixoto, e “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), de Glauber Rocha.

 

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Fernando Rossi nomeado ao TB, que recebe festival de esquetes do Sated

 

 

 

Anunciado desde o ano passado (relembre aqui), o diretor de teatro Fernando Rosssi teve hoje publicada em Diário Oficial (DO) sua nomeação à direção do Teatro de Bolso Procópio Ferreira. E ele chega anunciando um festival de esquetes, no próximo dia 27. No dia internacional do Teatro e do Circo, véspera do aniversário de Campos, o evento no Teatro de Bolso (TB) será uma parceria com o Sinsicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão (Sated).

Os detalhes foram acertados numa reunião na manhã de hoje, entre Rafael Diniz (PPS) e Fernando Rossi. O prefeito explicou que a questão do ar condicionado do TB, que se arrasta desde o governo Rosinha Garotinho (PR), será resolvida provisoriamente no dia 27, com a contratação de uma empresa para fazer a refrigeração durante o evento. Mas a solução definitiva para o teatro, por questão de prioridade, só virá após o problema da climatização tiver sido resolvido no Hospital Geral de Guarus (HGG), em outro problema herdado da administração anterior.

Aberto a trabalhos de todo o Norte e Noroeste Fluminense, o festival de esquetes teve suas inscrições iniciadas no Sated desde 10 de fevereiro, e se estenderão até 10 de março, próxima sexta. Ele será realizado em seis cidades: Cabo Frio, Petropólis, Nova Iguaçu, Itaboraí e Volta Redonda, além de Campos. No TB, como nos demais palcos fluminenses, serão 10 apresentações, com premiações para 1º, 2º e 3º lugares, melhor ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, texto original, conjunto estético cênico e ambientação sonora.

 

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Carol Poesia — Sobre meninos e bonecas

 

 

 

Há um ano conheci uma mulher muito interessante, nós começamos a trabalhar juntas e viramos amigas. Logo eu conheci toda a família – marido, filho e filha adultos. Eu fiquei muito impressionada com a gentileza, educação, cuidado e delicadeza do rapaz. Era notável que tivera uma educação diferenciada. Então perguntei a minha amiga “Como você fez?”, ela me respondeu “Coloquei pra brincar de boneca, repreendi quando queria mandar na irmã, foram as mesmas regras para ele e para ela”.

A filha é espetacular, um luxo! Mas homens sensíveis, seguros e extremamente respeitosos são mais incomuns do que mulheres assim, por isso a minha surpresa com Ele. A partir desse encontro, passei a prestar atenção na relação entre homens educados e a infância que tiveram. É claro que esse interesse não se constitui em nenhuma pesquisa científica, e embora haja muito material teórico que fundamente a associação entre homens respeitadores e meninos que tiveram uma educação menos machista, essa conclusão se torna evidente com uma simples observação cotidiana persistente.

Em outro momento, defendi, na sala dos professores, o benefício de meninos brincarem de boneca, para que no futuro não se tornem machistas e para que não usem a agressividade como resposta, ou seja, para que não usem a agressividade como recurso para a falta de argumento. A reação dos meus colegas foi previsível – risadas e piadas que se resumem ao medo do filho “virar gay”.

Não obstante essa fixação generalizada (e cafona!) com o tema “ser ou não ser gay”, fiquei pensando em por que as pessoas associam menino brincando de boneca à sexualidade e não à paternidade. Quando uma menina brinca de boneca ninguém pensa “olha lá, vai ser hétero”, é apenas uma menina brincando com um bebê de borracha, é apenas uma menina brincando de ser mãe. Por que os meninos não podem brincar de serem pais? Por que isso induziria a algum desejo de ordem sexual? Por que uma menina pode ter panelinhas, utensílios domésticos como brinquedos e o menino não? Por que aos meninos cabem os robôs e carrinhos e dragões e às meninas cabem as princesas?

Para além da paranoia paterna e materna a respeito do desejo sexual que o filho desenvolverá, há um equívoco primário nessas associações. Esse equívoco diz respeito às restrições do que se entende, no senso comum, como universo feminino e universo masculino. Ora! Do que estamos falando afinal? Que senso comum é esse? Hoje, mães se orgulham de filhas engenheiras, chefes de segurança no trabalho e pais se orgulham de filhos chefes de cozinha. Então por que esses mesmos pais insistem em repetir a fórmula “rosa dela X azul dele”?

Os brinquedos e brincadeiras infantis desenvolvem habilidades cognitivas e motoras, assim como podem favorecer a criatividade e a sensibilidade. Os brinquedos de armas e carros podem sugerir movimento, velocidade, ímpeto, coragem, ação. Os brinquedos de bonecas e panelas podem sugerir cuidado, organização, limpeza, responsabilidade.

Sabemos que na vida adulta, seja homem ou mulher, precisamos todos ser guerreiros em algum momento, e vencer batalhas para as quais precisamos de coragem, força, ímpeto, entre outros atributos. Assim como há momentos em que a falta de organização nos impede o avanço, ou a falta de cuidado mina oportunidades, tanto no âmbito pessoal quanto no âmbito profissional.

Com maturidade e um pouquinho de sabedoria, possível àqueles que superam os medos infundados, percebemos os benefícios de força e delicadeza caminharem lado a lado na mesma pessoa. Saber se posicionar com firmeza e ao mesmo tempo com elegância abre muitas portas, até o senso comum reconhece isso.

Então vamos rever as cores do enxoval e repensar essas restrições de brinquedo, brincadeiras e afins. Afinal já está óbvio que o sujeito bacana, o ser humano respeitável e respeitador é aquele que carrega em si tanto o soldadinho de chumbo quanto a bailarina cor de rosa, independente do sexo.

 

 

 

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Fernando Leite — Minha casa

 

“Cozinha caipira”, óleo sobre tela de Almeida Junior

 

 

Minha casa

 

Salto dentro da tarde,

como quem cai na correnteza do rio temporal.

Vou sem volta.

Pássaros batem em retirada de mim.

 

É incomum que levantem vôo

quando a noite se alonga.

A noite é casa de andarilhos,

poleiro de avoantes.

 

Quintal sem cercas é o claro dia.

 

Aves de arribação vêem o movimento das estações,

os sinais de velhice no dorso de minhas mãos.

Eu inverno.

 

Minha linhagem é assim: começa a entardecer pelas mãos.

Esse assalto do tempo é lenta agonia,

mas assombra.

faz levantar andorinhas, papa-capins e os cantadores.

 

Se pudesse escolheria não morrer comum.

queria a nona sinfonia abrindo as portas do mistério.

Mas agora o que quero é minha casa

tal e qual era:

as janelas maciças, feridas de sol

naquela tarde suburbana

tão longe.

 

Quero minha casa de volta.

A noite miúda dentro do quarto,

o cortinado armado,

meus irmãos nos beliches

e a madrugada lá na bica d’água vazando,

vazando,

vazando.

 

Quero minha casa onde era:

na descida do morrinho,

bem em frente a vivenda de dona Tinola.

Antiga, com a moenda triturando o milho e a tarde,

a galinha de pinto no terreiro

e o lençol transparente do dia desfraldado

no varal.

Atrás da figueira,

o canto do canário belga

— uma flecha de porcelana atirada.

 

Quero minha casa e minha mãe,

mãe medieval, tronco e braços,

músculos na bacia, avental, fogão de lenha

e flor quando havia tempo.

 

Minha mãe na igreja, nave mística,

ancorada entre a praça e a linha do trem.

os santos barrocos de sorriso que não combinava

com a manhã nos vitrais.

O pecado grudado no meu pescoço

e eu com pavor da fúria de Deus.

 

Quero minha mãe, viuva sublimada, senhora soberana.

 

Quero minha casa

as mangueiras, laranjeiras, goiabeiras,

esteios do reino de minha memória.

O céu bem acima das copas

e as pipas revoltas, suicidas, desgarradas

vento afora.

 

Não quero nada além das fronteiras

do campo de meu afeto —

mares, montanhas brancas, falésias,

geografia do meu desconhecimento

terras que só ouvia falar,

territórios do sonho.

 

Quero só minha casa na avenida governador Roberto Silveira de volta,

minha infância, seus domínios e seus cheiros,

a broa de milho, os eucaliptos do seu Nico Figueira

vergados nos temporais,

Maria Tabajara e sua alegria atávica,

o olhar crepuscular daquela menina

que perdeu-se nas esquinas do futuro.

 

Preciso de minha casa e sua geografia mítica,

porto onde o mundo começa e termina.

 

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Artigo do domingo — Quando o lulopetismo gera Bolsonaro como resposta

 

 

 

Pizza mexicana

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Começo de março de 2016. Um mês antes de Dilma ter seu impeachment aprovado na Câmara, cinco antes do tiro de misericórdia no Senado, Lula acabara de ter sua condução coercitiva para prestar depoimento na operação Lava Jato.

Era a noite daquele dia. O casal fora buscar o irmão dela, para que este saísse um pouco da casa dos pais. Servidor federal lotado em outro município, Fernando se refugiara junto aos genitores para se curar de uma doença física, enquanto delirava politicamente, na demonstração prática da teoria freudiana da negação.

Quando Fernando entrou no carro, seu cunhado, André, falava sobre o noticiário da política nacional com outra pessoa ao celular, enquanto esperava estacionado com a namorada, Poliana, diante da casa. Percebida a deixa do acaso, o segundo não acusou o encerramento da ligação. Manteve boca e ouvido ao aparelho, e emendou em voz alta:

— Lula foi preso de novo? Mas você tem certeza? Foi direto para Curitiba? E já desembarcou?

Enquanto a luz interna do carro se apagava com o bater da porta traseira do carro, a face de Fernando desabava, como criança mimada prestes a chorar, na velocidade em que desaparecia nas sombras. Lembrou a cara de pânico de Fred, centroavante brasileiro na Copa de 2014, com o beicinho inferior em convulsões, após o quinto dos sete gols feitos pela Alemanha.

Diante das gargalhadas desavexadas de André e mal contidas de Poliana, a revelarem a pegadinha, a cara de Fernando foi resgatada das suas trevas particulares. De súbito, passou a expressar um misto de alívio, tentativa de resgatar as aparências e a raiva do coelho Pernalonga — comediante contumaz tendo os outros como alvo, que revela sua pele de ovo quando se descobre de nariz vermelho e calças arriadas, no centro do picadeiro.

Depois que chegaram à pizzaria, a discussão política só foi retomada por Fernando quando apareceram Maria Luiza e Velasco. Poliana e André os haviam convidado anteriormente. Com plateia, o servidor federal se animou, impostou a voz e alongou a inflexão para servir fatias retóricas de sabores tão raros quanto mussarela e calabresa:

— Porque eu sou um educador. E o que o Brasil vive hoje é um conflito de classes…

Da brincadeira à pretensão de falar sério, foi interrompido por André, há algum tempo a fim de chutar o pau da barraca daquele maniqueísmo recorrente:

— Olha, em primeiro lugar, você não é educador, mas professor. Educador são mãe e pai. Em segundo lugar, se for para querer entender a realidade brasileira do séc. XXI por uma visão europeia do séc. XIX, como a de Marx, então por que não poderíamos estar vivendo hoje um conflito de espécies, como disse Darwin; ou entre raças, como disse Gumplovicz; ou para fazer do homem o super-homem, como disse Nietzsche; ou simplesmente movido pela punção sexual, como disse Freud?

Sovado no pedantismo do próprio jogo, Fernando não se deu por vencido. Mais com fome de claque do que de pizza, buscou apoio no único público disponível:

— E o que vocês acham? — perguntou a Maria Luiza e Velasco.

Diante da expectativa de Fernando, Poliana e André, que só então notaram não ter conhecimento prévio do posicionamento político do casal convidado, composto por dois jovens amantes de poesia e Chico Buarque, estes fizeram uma pausa e se olharam, antes de responderem à questão lulopetista:

— Bem, nós votamos em Bolsonaro para deputado federal na última eleição! — revelou Velasco.

— E não nos arrependemos do voto! — completou, convicta, Maria Luiza.

No silêncio surpreso dos demais integrantes da mesa, o garçom começou a servir as fatias da pizza mexicana pedida.

 

Publicado hoje (05) na Folha da Manhã

 

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Vanessa Henriques — 8 de Março, Dia Internacional da Mulher

 

 

 

 

No dia 8 de março, “comemora-se” o Dia Internacional da Mulher, data que foi originalmente proposta pela deputada comunista alemã Clara Zetkin, em 1910, durante o II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas[1]. Usualmente, costuma-se atribuir a origem desta data comemorativa a um incêndio ocorrido em uma fábrica estadunidense, a Triangle Shirtwaist Company, em 25 de março de 1911, no qual 125 mulheres operárias perderam a vida.  No entanto, a data foi oficialmente ratificada pela ONU apenas em 1977, como consequência de uma longa trajetória protagonizada por movimentos de mulheres de todo o mundo que reivindicaram, ao longo da primeira metade do século XX, equiparação de direitos e melhorias nas condições de trabalho. Neste artigo, pretendo apresentar um breve panorama sobre a violência contra a mulher no nosso país, expondo alguns dados que justificam claramente a necessidade da existência de movimentos que apresentem resistência a esta espécie de violação de direitos.

No Brasil, apesar de todos os avanços logrados no âmbito jurídico nos últimos anos, como a criação da Lei Maria da Penha em 2006, e a Lei do Feminicídio em 2015, ainda são diversos os casos de homicídios de mulheres que são influenciados pela condição de gênero. Segundo o Mapa da Violência[2], publicado no ano de 2015 pela Flasco (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais), nosso país ocupa a 5ª colocação num ranking de homicídio de mulheres (por 100 mil habitantes) formado por 83 países. Ainda segundo o Mapa, 50,3% do total de homicídios de mulheres ocorridos no ano de 2013 foram perpetrados por um familiar direto da vítima. E através do Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), é possível verificar que foram atendidas pelo SUS, em 2014, um total de 85,9 mil meninas e mulheres vítimas de violência exercida por pais, parceiros e ex-parceiros, filhos, irmãos: agressões de tal intensidade que demandaram atendimento médico.

Ao final do carnaval, mais uma estatística demonstrou o quanto a violência contra as mulheres está enraizada na nossa cultura: durante os quatro dias de folia, a Central de Atendimento à Mulher, o Disque 180, realizou 2.132 atendimentos a nível nacional, a maior parte deles referindo-se a casos de violência física[3]. Os atendimentos relativos a relatos de violência sexual tiveram um aumento de 87,93%, quando comparados com os do carnaval de 2016. Já na cidade do Rio de Janeiro, os dados da Polícia Militar informam que uma mulher foi agredida a cada quatro minutos durante o carnaval[4].

Todos esses números são assustadores e reforçam a necessidade de implementação de políticas, em todos os níveis da gestão pública, que se proponham a conscientizar a população. Pois, mais importante que combater esses crimes quando se concretizam, seria conseguir evitá-los antes que aconteçam.

Portanto, que neste dia 8 de março possamos lembrar de todas as mulheres que, ao longo da história, se levantaram contra as forças que as oprimiam, muitas tendo perdido a vida na luta por um mundo menos hostil e mais igualitário. Que tenhamos também as energias redobradas para seguirmos no enfrentamento ao machismo, tanto nas suas formas mais brutais, quanto nos seus contornos mais sutis.

 

 

[1] http://www.scielo.br/pdf/ref/v9n2/8643

[2] http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2015/MapaViolencia_2015_mulheres.pdf

[3] http://www.spm.gov.br/noticias/relatos-de-violencia-sexual-aumentam-cerca-de-90-no-carnaval-de-2017

[4] http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2017-03-02/uma-mulher-foi-agredida-a-cada-quatro-minutos-durante-o-carnaval.html

 

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Rogério Siqueira — As dimensões da Igualdade Racial

 

 

 

Campos dos Goytacazes, por toda sua história, deveria estar na vanguarda das políticas públicas de promoção da Igualdade Racial. Uma capitania, vila e cidade que influenciou a própria história econômica, social e cultural do Brasil, não poderia deixar de avançar nas discussões que visam integrar com plenitude o estrato social que se estabeleceu em Terra Brasilis por meio da privação sumária de liberdade.

Chegamos a 2017 com desafios que foram tema central do Movimento Negro em Campos há algumas décadas. Aqui, uma das cidades que mais recebeu escravos em toda história do Brasil, que por 400 anos sustentou este tipo de regime, vimos um caso escandaloso dentre tantos escândalos que permearam gestões anteriores.

Uma das maiores vitórias do Movimento Negro em Campos, sem dúvida, foi a obtenção de um espaço de poder para promoção de políticas públicas na seara da Igualdade Racial, que se dava através da Fundação Municipal Zumbi dos Palmares. Tal fato não foi, e não é uma vitória de Governo qualquer, mas da força e obstinação dos militantes da causa dos negros em toda sua amplitude e complexidade.  Longe de adentrar no solo pantanosos que é avaliar politicamente as gestões da Fundação Zumbi, o fato de termos um espaço para, minimamente discutir nossas demandas, foi um avanço.

Não fosse a política o espaço que não aceita coincidências, não precisaria aqui salientar que a Lei (8344) que extinguiu a então Fundação Zumbi dos Palmares no município, redigida pela então prefeita, data de 13 de Maio de 2013.

Já seria escandaloso o torpe desmonte do setor com a supressão de quase toda sua autonomia administrativa e a integralidade de seus recursos financeiros, não fosse o um detalhe que escapou (ou foi negligenciado) aos olhos de muitos: A Fundação Zumbi dos Palmares foi extinta na data histórica da assinatura da Lei Áurea em seu aniversário de 125 anos. Fica a provocação: quais os impactos da extinção de um setor que busca promover políticas públicas para emancipação plena do povo negro em toda amplitude de suas demandas na data de aniversário do fato histórico e inegável que foi a assinatura da Lei Áurea (que nos libertou mas não nos emancipou enquanto cidadãos em pleno gozo de suas cidadania)?

Noves fora os fatos anteriormente narrados, os ataques a este importante setor não pararam naquele fatídico 13 de maio. Em 2015 a então governo edita o decreto de nº 80 que, dentre outras coisas, enxerta na estrutura da FCJOL, a recém-criada superintendência de Igualdade Racial. Tornamo-nos assim um setor tão somente de assessoramento dentro da estrutura administrativa da cultura.

É como se os governantes à época expusessem à carne sua real visão acerca das políticas de promoção da igualdade racial, reduzindo a natureza complexa e as infindas demandas do setor ao perímetro de sua visão política, como se Igualdade Racial fosse aquilo que intelectualmente demonstraram ser os que propuseram tal coisa: obtusos. Ou aquilo que politicamente são: cínicos.

O desafio nesta gestão será garantir que o município assista aos grupos prioritários inseridos no bojo da Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial, bem como  avançar nas discussões para que a Igualdade Racial seja vista como um setor de estratégia de governo, tendo a necessidade de permear toda a membrana governamental, a fim de incluir o negro e esclarecer àqueles que estão sob o jugo da ignorância.

Neste direção é nítido que o fato da Igualdade Racial estar entregue nas mãos de Lucia Talabi, professora e atriz, experiência de mais de 30 anos de sala de aula, já causa grande impacto. Lucia, até onde me consta, é a primeira mulher a assumir a pasta no município, o que por si só é um um grande avanço no modus operandi político. Para além disso construiu um equipe de saberes múltiplos no intento de fazer jus a sofisticação intelectual que a causa exige.

Lucia não tem vícios da política, é uma idealista de pés nos chão. Sonha, mas é pragmática quanto a execução. Não gosta da ideia de culto a imagem de político qualquer, embora a própria figura de Lucia seja caixa de ressonância de nossas lutas em diversos aspectos. Enxerga na educação a mola-mestra que irá impulsionar os verdadeiros anseios de transformação aos quais aspiramos por tanto tempo.

Dentre os desafios que se impõe a um gestor de uma pasta com tamanha complexidade, há o compromisso de trabalhar incansavelmente junto as diversas representações do movimento negro para formatar e aprovar o Plano Municipal para Promoção da Igualdade Racial (Plamupir). Um grande desafio, para uma grande mulher.

 

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Manuela Cordeiro — De Macunaíma

 

 

 

 

De Macunaíma

 

Como a chuva que ameaça

E os raios que a incendeiam e a cumprem

Penso que dessas passagens

O medo e o deslumbre me assumem

 

Como o igarapé que a alma alivia

E os perigos da mata que o sol inibia

Penso que nesse mundo ainda não sabia

Que o canaimé e o cruviana estão em harmonia

 

Como a água corrente do tepequem que não se pode deter

E o salto maior que o receio de perder

Penso que pode ser o seu guia

Do próprio tombo, do novo sonho e da luta que te desafia

 

Como uma jandaia que anuncia o cessar da chuva

E a trégua do tempo das águas na terra de Macunaíma

Penso que possivelmente o maior erro mundano

É acreditar em suas próprias calmarias.

 

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Ricardo André Vasconcelos — O Tambor da Quarta-Feira de Cinzas

 

David Bennet no filme “O Tambor”, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 1980. O pequeno Oskar decide parar de crescer ao descobrir uma relação extraconjugal da mãe. Com seu tambor inseparável, acompanha e interage com a ascensão do nazismo (Reprodução)

 

 

Era uma Quarta-Feira de Cinzas como hoje num ano qualquer do século passado. A vida em Campos ainda girava em torno do Centro, onde ficava o ponto final dos ônibus que se dirigiam aos bairros. Foi ali, vindo da Rua Alberto Torres, que avistei uma figura suada, cabelos encaracolados bem rentes ao couro cabeludo, trajando alguns restos de pouca fantasia e batendo um solitário tambor como se recusasse a aceitar que a festa da inversão acabara e mundo já tinha voltado à mesmice. Só anos depois conheci Oskar Matzerath — personagem de Günter Grass (1927-2015) —, um menino que decidiu parar de crescer, e seu inseparável tambor de lata. Ali, perto do Chafariz belga na Praça das Quatro Jornadas, quem roubou minha atenção adolescente não foi o menino de “O Tambor”, e sim o jovem ator Kapi, que mais tarde descobri Antônio Roberto de Góis Cavalcanti, de quem me tornei meio-amigo e admirador por inteiro.

Kapi era movido a um inconformismo produtivo que fez dele pioneiro. Um desbravador tão desvairado quanto genial. Antes de vê-lo com o tambor espichando o Carnaval, já tinha apreciado uma rara participação dele como ator. Foi em “O Pagador de Promessas”, de Dias Gomes e direção de Orávio de Campos. Kapi fazia o papel do repórter que cobria a saga de Zé do Burro (Gildo Henrique) tentando entrar, com sua cruz de madeira, na igreja de Santa Bárbara para pagar promessa pelo restabelecimento da saúde do seu burro.

Foi Kapi quem inaugurou o anfiteatro do Parque Alberto Sampaio, concebendo e dirigindo o espetáculo “Arena Canta Zumbi”, no governo Zezé Barbosa. É dele a direção do memorável espetáculo “No Natal a Gente Vem te Buscar”, de Naum Alves de Souza, que inaugurou, também, o Lapa Cine Show,  um espaço misto de teatro e shows localizado ao lado do Corpo de Bombeiros, em parte do terreno onde hoje está a sede da Igreja Universal. Foi um dos retumbantes fracassos de Kapi, que como outro mestre genial, Darcy Ribeiro, sempre preferiu ficar ao lado dos vencidos. Kapi sonhava grande e muito, porque sonhar pequeno é para os medíocres. De óbvio e ordinário o mundo transborda.

Burocrata, nunca foi. No primeiro governo Garotinho (1989-1992) foi diretor de Turismo e, a despeito da pouca atenção que demos ao setor, inclusive na minha gestão à frente da Secretaria, (que era de Comunicação Social e Turismo), sempre trazia seus projetos e ideias. O que foi feito na época, como a criação do city tour, renovação dos cartões postais da cidade e o aproveitamento da estrutura turística que existia na Lagoa de Cima, é mérito dele, sem falar nas primeiras iniciativas do setor na praia do Farol de São Thomé. Na transição do governo Garotinho para o de Sergio Mendes (1992-1996), sugeri a transferência do Turismo para a Companhia de Desenvolvimento, cujo presidente, Murillo Dieguez, era e é tão criativo e operacionalmente eficiente quanto Kapi. A parceria da dupla deu bons resultados, principalmente a instalação de um curso superior de tecnólogo de turismo na cidade. É mérito seu, também, o resgate dos Desfiles das Escolas, Blocos e Bois Pintadinhos a partir do Carnaval de 1990, quando o impossível aconteceu: regendo aquela bagunça histórica, Kapi conseguiu que as agremiações cumprissem o horário. Montado na garupa da motocicleta de um guarda-costas às avessas, percorria a pista como um general passando a tropa em vistoria. Inesquecível!

Como diretor de teatro chegava a ser irascível. Talvez por sentir-se enquadrado demais num palco italiano, sempre procurou a forma de arena (o público em volta do palco) e espaços alternativos, como a antiga mansão dos Aquino, na Beira-Valão, onde montou e dirigiu a peça Constantine, com um elenco de socialites. Com o grupo da Faculdade de Direito, montou “O Inspetor Geral”, do dramaturgo russo Nicolai Gogol, para o Festival Universitário de 1986. O grupo de alunos, de onde sairia um juiz e dois promotores de justiça, era indisciplinado e o diretor, ao desistir de ver decorado o texto de linguagem rebuscada, radicalizou: optou por uma linha caipira e transformou o palco do Teatro de Bolso num imenso galinheiro e para isso retirou várias fileiras de cadeiras transformando a plateia numa impensável arena. Depois do festival o TB teve que ser reformado.

Outra ousadia foi a encenação do ”Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meirelles, a céu aberto, na inauguração do Memorial de Tiradentes, em frente ao antigo Hotel Flávio, num 21 de abril dos anos 90. O espetáculo também era apresentado no Convento da Lapa. Levar sua arte a espaços inusitados era o desafio de Kapi. E o desafio não era apenas técnico, tinha uma mensagem política clara, seja para os dirigentes ou para a sociedade conformada.  Foi assim que num dos últimos festivais universitários de teatro que a municipalidade promoveu, creio em 1995 ou 1996, resolveu chamar atenção da cidade para as obras de construção do novo Trianon, que andavam lentamente ao sabor dos parcos recursos, e levou seu grupo da Faculdade de Odontologia para encenar, sob o céu de estrelas de um teatro sem teto e assentos de concreto o clássico “Gota d’Água”, de Chico Buarque e Paulo Pontes.  Com cenário de andaimes em três planos, atores afiadíssimos, texto e música geniais arrebatou a maioria dos prêmios.

Entre peças teatrais, festivais, incursões empresariais frustradas — foi dono do tradicional Bar Vermelho, que levou à falência ao travesti-lo de Clean — Kapi produziu poemas de forte conteúdo social. O meu preferido é o que diz “Usina é usura…/ um gosto (doce-amargo)/ de uns caldos escorrendo,/ ora nas moendas ora nos moídos…”. Como filho da assistente social de usina, Severina Cavalcanti, conhecia de perto aquele “remedar de vida” e, de quando em vez, realizava algum projeto voltado para os trabalhadores do corte de cana.

Para marcar o Dia Mundial de Combate à AIDS, primeiro de dezembro, chamei Kapi com uma ideia que só ele poderia comprar, se apaixonar por ela e executar com eficiência. Anos antes, tinha visto pela TV, que vestiram um preservativo gigante no famoso obelisco de Buenos Aires, para chamar atenção das pessoas para a epidemia já alertada na década anterior. Como temos um semelhante na Avenida XV de Novembro, erigido para marcar as obras de saneamento executadas na cidade na primeira década do século passado, porque fazer dele um falo monumental e cobri-lo com uma camisinha gigante?

— Sensacional. Festejou Kapi, já pensando no tipo de tecido, cores e logística. Sugeriu pedir apoio do Corpo de Bombeiros e a adesão da incansável Fátima Castro, fundadora e presidente da Casa Irmãos da Solidariedade e batizamos o projeto internamente de “operação pinto desconhecido”. Na madrugada de primeiro de dezembro, um caminhão-escada magirus do Corpo de Bombeiros parou o trânsito nas duas pistas e, em menos de uma hora, um preservativo bege de 22 metros por 3 metros de diâmetro cobria o obelisco. A cidade careta acordou com um pinto gigante e protegido bem no Centro da cidade.

Nem nas horas mais difíceis, de dívidas, falta de dinheiro, de teto e depois, com a saúde debilitada pela doença, nunca, nunca Kapi deixou de ter projetos culturais em mente ou em curso. Nunca deixou de sonhar acordado. Mesmo entre as internações para tratar das doenças oportunistas causadas pelo HIV, falava com entusiasmo incomum de peças que queria montar. Num de nossos últimos encontros discorreu em detalhes o musical que estava escrevendo sobre “O Coronel e o Lobisomem”, baseado no livro de José Cândido de Carvalho, Zombeteiro, dizia que o médico o havia proibido até de pensar nisso. “E eu vou respeitar?”

— Claro que não. Se não eu não seria Kapi.

Como o Oskar, vivido no cinema por David Bennet (1979 – direção de Volker Schlöndorff), que recusou a crescer a partir dos três anos de idade, Kapi nunca se resignou com as coisas como se elas fossem do jeito que são ou aparentam ser. Ele sempre quis, fez e foi mais. E hoje, nesta Quarta-Feira de Cinzas, deve estar batendo seu tambor em algum lugar, porque para ele, o Carnaval não acabou ontem. Não vai acabar nunca.

 

Kapi, comemorando aniversário na quadra da sua escola do coração, a Mocidade Louca (Foto: Ricardo André Vasconcelos)

 

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Ocinei Trindade — Rosa é a cor mais violenta

 

(Reprodução)

 

 

De repente, um tiro. E outro. Pânico e ensurdecer. Confusão mental. Difícil explicar que em poucos segundos a vida muda e a morte vem. E vem em forma de cabeça estourada, miolos espalhados pelo automóvel conversível. Quem atirou? Por que atirou? O buraco aberto no crânio faz sangue e massa encefálica jorrarem. Alma arrebentada. O homem atingido é John. Ao seu lado, a esposa, Jacqueline, vestida de rosa e respingada de sangue,ela o ampara. Tenta estancar o sangue com as próprias mãos. Quem sabe, ele escapa. Não deu. Choro. Vazio e incerteza. Golpe do destino. Assassino.

Parece cena de filme. E é. Parece ficção. Não é. A morte ao vivo diante das câmeras de modo espetacular repercute mais de cinquenta anos depois. Por que rememoramos coisas tristes? Por que o roteiro traçado por nós teima em não ser cumprido pela vida autônoma? A vida às vezes parece tão injusta, embora já saibamos que a ironia seja uma de suas predileções. Uma mulher bela e elegante, rainha sem ser monarca, esposa de um líder democrata jovem e bonito, envolvidos em uma trama de conspiração e comoção. Kennedy ressuscita e morre há mais de cinco décadas. Morre para sempre, revive na memória coletiva até morrer outra vez a cada revisita ao passado. E em torno da cena macabra, uma mulher vestida de rosa.

John Fitzgerald Kennedy nunca foi santo (e qual presidente americano seria?). Nenhum governante do mundo nunca foi ou será santo. Nem o Papa. Mas, mesmo assim, os santificamos, os bendizemos, os beatificamos, os sagramos, os reverenciamos, os entronizamos quando queremos. É o jeitinho brasileiro ou o jeitinho internacional de reinventar o messias ou o mártir, aquele que se sacrificou e morreu por nós. E se não morreu por nós, que pelo menos fique registrado pelas câmeras, pela história e pela imprensa o quão injustiçado pode ser um político. Será mesmo possível isto ou não passa de mais um mito que teimamos crer, criar e recriar?

No dia em que Anthony Garotinho veio a Campos para ser ouvido pelo juiz Ralph Manhães sobre o processo que acusa o ex-governador do Rio de Janeiro de chefiar um esquema criminoso de compra de votos na cidade, eu estava no cinema assistindo ao filme Jackie (2016), estrelado pela sempre magnífica Natalie Portman e dirigido pelo chileno Pablo Larrain. Não me interessei tanto pelo depoimento do ex-governador, embora me informei do fato.

Vi as fotos e alguns vídeos na webda família Garotinho apoiando o patriarca neste momento no mínimo midiático, mas constrangedor (ou vice-versa). A ex-governadora e ex-prefeita Rosinha, linda como sempre, não estava vestida de rosa, mas usava óculos escuros à la Jackie O. Vale lembrar que esse “O” é de Onassis, sobrenome que Jacqueline Kennedy herdou do segundo marido, o armador grego e milionário Aristóleles Onassis. A família Garotinho e os amigos fizeram questão de um círculo de oração no Fórum, disseram. O mundo inteiro carece de reza e oração mesmo, pois o mundo jaz no maligno.

Voltemos à cena do crime em Dallas, depois sigamos voando para Washington para os preparativos do funeral suntuoso de John Kennedy, inspirado no mesmo roteiro do funeral de Abraham Lincoln, presidente que também morreu assassinado um século antes. Jackie quis que seu marido tivesse a mesma reverência, honraria e tratamento que Lincoln, considerado por especialistas em política americana, o maior presidente dos Estados Unidos de todos os tempos. Os dias se arrastam. É um momento de muita tristeza, mas também de muita beleza assistir aos dois espetáculos: o funeral de Kennedy em imagens de arquivo e a encenação do funeral na película. A personagem de Natalie Portman conta esse episódio da História com um olhar muito particular e sofrido, de uma viúva jovem que viveu uma espécie de conto de fadas enquanto esteve na Casa Branca.

A história narrada por Jackie não acrescenta muito além do que já sabemos. Porém, quando uma mulher resolve narrar sua versão dos fatos, isto sempre será relevante, atraente e comovente. O olhar feminino quase sempre é mais abrangente, embora nem sempre mulheres confessem suas crueldades e equívocos nas decisões que tomam junto aos maridos. Jackie Kennedy e Rosinha Garotinho são mocinhas ou vilãs diante de suas trajetórias e escolhas? Depende de quem as vê ou as julga.

O filme está aí para ser avaliado. As ações políticas da ex-prefeita também. Sem falar na biografia do nosso ex-prefeito e ex-governador Anthony Garotinho marcado pela cor rosa de sua casa na Lapa, na cadeira rosa que sua esposa ocupou na Prefeitura, no carro rosa que eles usavam, no microfone rosa por ela utilizado em comícios, nas roupas rosas que marcaram eventos, solenidades e campanhas eleitorais. Rosinha sempre atraiu votos para o marido e vice-versa. Mas, como sabemos, nem tudo é um mar de pétalas de rosas na vida deles, muito menosnas nossas vidas com o Brasil cada vez mais desmoralizado, afundado por políticos e por uma sociedade corrompida que temos.

A roupa que Jacqueline Kennedy usou naquele fatídico dia em Dallas, o emblemático tailleurrosa com botões e detalhes pretos, ficou ainda mais significativo com o sangue de seu marido espalhado pelo tecido. A violência pode não combinar absolutamente nada com a cor rosa, mas em algumas ocasiões fica difícil não prestar atenção nas cores do sofrimento, da vergonha, do medo, da injustiça e de uma tragédia que vira e mexe estamos vivendo e revivendo.

 

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Marcelo Amoy — “Não me leve mal, hoje é carnaval!”

 

 

 

Como qualquer feriadão, o reinado de Momo é efêmero – especialmente nesses nossos tempos velozes –, mas tem peculiaridades que fazem toda a diferença. Enquanto os outros feriadões dependem dos caprichos do calendário pra sabermos se teremos mais ou menos dias de folga, o carnaval tem número de dias fixo: são sempre quatro (e se incluirmos o muito comum recesso da quarta-feira de cinzas, cinco). Sua mobilidade ano a ano lhe acrescenta tempero: conforme cair num determinado ano, o verão será mais longo ou mais curto – o que faz muitos corações suspirarem em expectativa. Tirando o Natal e o Ano Novo, é o principal feriadão temático que temos: em todos os demais, cada um aproveita sua folga do jeito que preferir; mas, no carnaval, as pessoas são meio que direcionadas aos tipos específicos de eventos e ocupações que conhecemos tão bem. Para completar, é uma festa de origem religiosa – por menos que pareça ou as pessoas se lembrem disso.

Os dias de carnaval são marcados em função do calendário lunar – eis porque variam tanto de ano a ano – e em decorrência da Páscoa. O domingo de Páscoa é sempre o primeiro domingo de lua cheia depois do equinócio de primavera no hemisfério norte (nosso equinócio de outono). Com o estabelecimento do domingo de Páscoa, regride-se uma semana até o domingo de ramos e, daí, contam-se regressivamente mais 40 dias para o estabelecimento da terça-feira de carnaval e a delimitação de todo o período da quaresma. Originalmente, só a terça era feriado – mas dada a nossa natureza festiva, fomos dando um jeitinho de oficializar uma folga geral desde o sábado anterior, rsrsrs.

Assim, ninguém deve estranhar que muitos escolham passar o carnaval em retiros de oração: há motivos para isso além da preferência pessoal por calma e tranquilidade. Aliás, conheço muita gente que troca a folia por dias numa fazenda ou numa praia calma, sem badalações; ou que curta mesmo só ficar em casa lendo, vendo TV, descansando ou colocando tarefas em dia. Essa tendência costuma aumentar com a idade, mas o carnaval não tem idade e todos podem curti-lo se quiserem – até porque é possível aproveitar os dias de folia pra encontrar amigos na praia, brindar num churrasco, ver os blocos passarem e os desfiles pela TV sem ter que se jogar na folia sem hora pra voltar, como se o mundo fosse acabar amanhã, rsrsrs.

Por muitos anos, eu passei meus carnavais no clube de Atafona; depois no Rio de Janeiro, em blocos de rua. Enquanto vejo feliz o crescimento da folia urbana, de um carnaval de rua cada vez mais concorrido, lamento o fim dos carnavais de clube. Até mesmo aquelas filas enormes e a bagunça embolada de todo mundo se apertando no pequeno hall do Atafona Praia Clube pra comprar os “convites” para os sete bailes – momento esperado o verão inteiro com ansiedade insuportável para mim, rsrsrs – são hoje motivo de saudade. O próprio clube nem existe mais: minhas memórias jazem hoje num terreno baldio. Mesmo assim, ainda sinto o cheiro e o gosto do churrasquinho e do salsichão com farofa do Baiano, devorados ao som da orquestra lá dentro; lembro das paqueras e brincadeiras no salão; dos encontros com todo mundo o tempo todo – sensação de estar em casa; de ver o sol nascer na praia, ao final de cada baile; e das meninas fantasiadas de odaliscas, negas malucas, havaianas e os meninos de piratas, índios, sheiks. Tudo ao som dos melhores sambas-enredo e das mais tradicionais marchinhas.

“Quanto riso, ah… quanta alegria!!!”: isso era o carnaval – além de um punhado de amores feitos e/ou desfeitos; algumas ressacas e vexames; e algumas infelizes e eventuais brigas entre alguns exaltados (geralmente depois de muitos copos vazios). Mas ninguém se aborrecia quando chamado a olhar “a cabeleira do Zezé”, nem perguntando “será que ele é?”. Brigas de namorados se desfaziam ao som de “Bandeira branca, amor; não posso mais… pela saudade que me invade, eu peço paz!” e poucos corações resistiam a um “Tu não tens pena de mim, que vivo tonto com o teu olhar?” cantado com aquele olhar comprido e sem vergonha…

“Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô; mas que calor, ô ô ô ô ô ô!” era, então, quem sabe, só um desabafo pela falta de ar condicionado; nunca uma ameaça de morte. Aliás… ninguém problematizava letra de marchinha: o carnaval era só folia, tão despido dessas elocubrações quanto o possível nas roupas. A liberdade só possível no carnaval – a catarse esperada o ano todo pra desopilar a existência – nunca foi berço de preconceitos. Ninguém estava nem aí se alguém “De dia, era Maria; De noite, era João”, nem cantava “O teu cabelo não nega, mulata; Porque és mulata na cor” para discriminar ninguém. Por mais que os versos seguintes – “Mas como a cor não pega, mulata; Mulata, eu quero o teu amor” – sejam horríveis à luz de uma mínima sensibilidade: ninguém aprendia, com eles, mais preconceito do que talvez já tivesse. Todo mundo só estava ali pela folia. Só pela folia. Ponto.

Hoje, “O Arlequim está chorando” (mas não é, só) “pelo amor da Colombina”: é também pela censura que se quer impor à espontaneidade que é a alma do carnaval. A alegada internalização do preconceito, usada como pretexto pra censurar marchinhas que todos cantam – e (não) lamento dizer: vão continuar cantando! – não terá força como argumento enquanto o próprio idioma usar expressões como “a coisa tá preta” para designar algo ruim. Mas pra quem já desejou censurar Monteiro Lobato e reescrever Machado de Assis… o que é uma marchinha de carnaval, não? É tão pouco que nem bastou: querem censurar as fantasias também. Eis aí o que li um dia desses em um site que se pretende (???) sério: “Nesse Carnaval, que tal abrir mão de turbantes, bindis, quimonos, cocares e hijabs e usar um pouco mais a imaginação? Nenhuma cultura é exótica ou engraçada para virar fantasia nas mãos de quem não entende suas lutas e tradições. Para todo mundo um lindo Carnaval, cheio de alegria e sem apropriação cultural!!!”. Só faltou explicar porque não conseguem enxergar as fantasias como demonstração de admiração ou homenagem.

Falta do que fazer no bloco do sanatório geral. Nas palavras de Cora Ronai: “Como essa gente fazia pra passar vergonha antes da internet?” Não sei a resposta, Cora. Vai ver é coisa recente… Talvez queiram mesmo é deixar de lado a parte do riso e da alegria para ficar só com a dos “Mais de mil palhaços”. Se é que são tantos assim.

 

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