Chico de Aguiar — As frutas desde a minha infância

 

 

 

Uma sacola cheia de sapotis, que eu ganhei durante o Festival Doces Palavras (FDP), foi a inspiração para este texto. Quem me a trouxe foi o Diógenes, um contraparente que mora em São Pedro de Itabapoana, a antiga cidade capixaba – na divisa com Campos – que perdeu a comarca para Mimoso do Sul, em 1930. Como tenho ligação afetiva com São Pedro, terra de minha mãe, sempre estou por lá. E sempre passo na casa do Diógenes em busca de sapotis. Dessa vez foi o sapoti que veio a mim.

Sapoti é uma fruta que marcou minha infância. Era o tempo que Campos ainda preservava chácaras e casas com grandes quintais. Me lembro da residência dos meus pais na Rua 13 de maio, onde morei no tempo do curso primário. Tinha várias fruteiras: além de um sapotizeiro (a árvore do sapoti é também conhecida por sapota), havia mangueira, caramboleira, goiabeira, romãzeira, bananeiras, cajazeiras (de cajá mirim e de cajá manga), abieiro (de abio roxo) e jambeiro (de jambo vermelho). Não posso esquecer dos mamoeiros, que meu pai plantava como fruta de sua preferência.

Depois veio a adolescência em novo endereço, na Rua do Ouvidor, também com quintal profundo. Mangueiras, goiabeiras e caramboleiras eram as árvores frutíferas obrigatórias nesses pomares familiares. Mas não eram incomuns as jabuticabeiras, jaqueiras, araçazeiras, pitangueiras, abacateiros, cajueiros, pinheiras, laranjeiras e limoeiros. Alguns tinham parreiras. Por sua natureza de trepadeira, o maracujá se alastrava com facilidade pelas cercas ou muros.

A melancia, o melão, o abacaxi, o pêssego, o figo, o morango, o caqui, a pera e a maçã eram encontrados com facilidade no Mercado Municipal. Havia, também, frutas exóticas e frutas silvestres muito populares entre a molecada: siriguela, manacascata (ou seria madagascar?), lichia, amora, acerola, abricó, baquipari (ou bacupari?) e cabeluda. Outros quintais mantinham árvores do ingá, do jenipapo, do tamarindo, do coco, do cacau, da graviola, da tangerina, do marmelo, do jamelão, da fruta pão.

Em minhas andanças pelo Brasil, nos 20 anos que vivi fora de Campos – período em que morei em Niterói, Rio de Janeiro, Jaciara (MT), Anápolis (GO), São Paulo (SP) e em várias cidades do interior paulista –, percebi como minha terra é rica na variedade de espécies de frutas. Pouco conheço do Sul, mas sei que o Norte e Nordeste também são regiões de frutas que quase nunca são vistas por aqui: pitomba, pupunha, mangaba, taperebá, tucumã, cupuaçu, bacuri e açaí, são alguns exemplos.

Quis nesta crônica trazer aos meus conterrâneos, contemporâneos, uma lembrança dos sabores que provamos, e, também, mostrar nomes de frutas que estão desaparecendo de nossas vidas. Vampiro é um exemplo de fruta em extinção. Sem querer entrar no mérito da qualidade dela, desconfio que nove entre 10 dos atuais moradores de Campos não sabem do que falo.  Muitos outros dirão: Ih, o Chico de Aguiar se esqueceu de tal fruta. Mas o propósito é mesmo esse. Fazer com que se abra um debate amistoso e saudoso em torno do assunto com um único propósito: a preservação de todas as espécies frutíferas da região.

 

0

Entre futebol, política e economia, ruas definem impeachment de Dilma

 

Mesmo com a divergência dos números, a certeza: em 15 de março de 2015, na av. Paulista, o protesto pelo impeachment de Dilma produziu a maior manifestação de rua no Brasil desde as “Diretas Já”, em 1984

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Dois mil e quatorze foi projetado para ser um ano emblemático. O Brasil sediaria a Copa do Mundo de futebol, usada como plataforma de propaganda política, a exemplo do que os governantes brasileiros haviam feito em 1950. Sessenta e quatro anos depois, a presidente Dilma Rousseff (PT) pretendia se reeleger nas urnas de outubro daquele ano. Seria a quarta gestão petista seguida no Palácio do Planalto.

Com as ruas brasileiras tomadas por protestos no ano anterior, as “Jornadas de Junho” de 2013 tinham marcado a perda de controle das manifestações de rua pelo PT. Através dos braços do partido na União Nacional dos Estudantes (UNE), na Central Única dos Trabalhadores (CUT) e no Movimento dos trabalhadores rurais Sem-Terra (MST), o monopólio petista das ruas brasileiras era exercido desde 1992. Foi quando os “caras pintadas” protagonizaram o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello.

No primeiro governo Dilma, as “Jornadas de Junho” foram convocadas pelas redes sociais por grupos como o MPL (Movimento Passe Livre). Sua reivindicação inicial era unicamente contra o aumento das tarifas do transporte público. Mas a pauta se ampliou, passando a ser contrária também aos gastos governamentais com a Copa. Embora tivessem arrefecido no segundo semestre de 2013, esperava-se que os protestos retomassem força com chegada de 2014 e a proximidade do maior evento do futebol mundial, sempre disputado em meados do ano.

Uma fatalidade acabaria esvaziando a retomada dos protestos. Em 6 de fevereiro, manifestantes black-blocks dispararam um rojão, durante um confronto com a Polícia Militar (PM), no Centro do Rio, que acabaria matando o cinegrafista Santiago Andrade, da TV Bandeirantes. Se a radicalização já havia afastado a classe média, que chegou a apoiar os protestos, a cena do rojão estourando em cima do cinegrafista, filmada, fotografada e reprisada em rede nacional e nas redes sociais, sepultou qualquer simpatia popular.

 

Com afundamento de crânio após ser atinigido por um rojão dos black-blocks, em 6 de fevereiro de 2014, o cinegrafista Santiago Andrade morreria quatro dias depois

 

A Seleção Brasileira estreou na Copa em 13 de junho no Itaquerão, em São Paulo, estádio arranjado pelo ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva (PT) ao seu time de coração, o Corinthians. No campo, com ajuda de um pênalti favorável e inexistente, o Brasil bateu a técnica seleção da Croácia por 3 a 1.

 

Escandalosamente, o atacante Fred se joga para cavar o pênalti que viraria o Brasil x Croácia, em 13 de junho de 2015 (Foto: Thanassis Stavrakis – AP)

 

Mas o fato mais marcante veio das arquibancadas. Aos 29 do primeiro tempo, em meio à presença da presidente exibida no telão do estádio, as arquibancadas passaram a entoar o controverso coro de protesto: “Ei, Dilma, vai tomar no (…)”. Ecoadas pelo mundo, as palavras de ordem ofensivas se repetiram ao final daquele jogo, como nos cinco que a Seleção teria até ser impiedosamente goleada por 7 a 1 pela Alemanha, nas semifinais do Mineirão, considerada a maior humilhação da história do futebol brasileiro.

Em 17 de julho, a Alemanha do meia Bastian Schweinsteiger foi campeã contra a Argentina do atacante Lionel Messi, por 1 a 0 na prorrogação, em um Maracanã lotado. Menos de três meses depois, após chegar a liderar a corrida presidencial, a candidata Marina Silva (Rede) confirmou sua fragilidade ao ser imprensada contra a cerca de uma campanha figadal. Na reta final do primeiro turno, ela foi atropelada por Dilma e o senador Aécio Neves (PSDB/MG).

 

Após a final da Copa do Mundo vencida pela Alemanha contra a Argentina, dentro do Maracanã, os craques Schweinsteiger e Messi se cumprimentam

 

Numa disputa acirrada no segundo turno, nos debates, ruas e redes sociais, o tucano saiu à frente nas pesquisas, mas acabou derrotado pela presidente. Ela conseguiu se reeleger, a despeito de um Brasil claramente dividido nas urnas: Nordeste, Norte e parte do Sudeste com o PT; a outra parte, mais Sul e Centro-Oeste, contra. A diferença final de apenas três pontos percentuais dos votos nominais foi a menor numa eleição presidencial brasileira, desde que a disputa em dois turnos foi adotada a partir da Constituição de 1988.

Fora do futebol e da política, o jogo era outro. Implementada ainda no segundo mandato presidencial de Lula, como forma de enfrentar a crise econômica mundial de 2008, após o estouro da bolha imobiliária dos EUA, a “Nova Matriz Econômica” ia contra a política econômica exitosa nos governos anteriores. Do próprio Lula, de Fernando Henrique Cardoso e de Itamar Franco (1930/2011). O tripé macroeconômico câmbio flutuante, superávit primário e regime de metas da inflação, que garantira a estabilidade econômica nos governos do PMDB, do PSDB e do PT, foi abandonado.

Aprofundada no primeiro governo Dilma, por seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, a nova política econômica apostava na intervenção dos bancos estatais, sobretudo o BNDES, para tentar expandir o crédito. Ironicamente, a “Nova Matriz Econômica” adotada no governo de uma ex-guerrilheira de esquerda, presa e torturada nos porões da Ditadura Militar (1964/85), tinha inspiração nacional-desenvolvimentista. A mesma com a qual os militares geraram o “Milagre Econômico”, entre 1968 e 73, antes de entregarem o poder aos civis com a consequência da hiperinflação, só controlada com o Plano Real, em 1994.

As consequências das decisões econômicas equivocadas do governo Dilma, se não foram controladas, sofreram maquiagem para tentar garantir sua reeleição. As chamadas “pedaladas fiscais” gerariam alguns meses mais tarde seu pedido de impeachment. O termo se referia a manobras fiscais no atraso de pagamentos aos bancos públicos, não informadas de maneira clara ao Congresso Nacional, para que a situação econômica parecesse melhor do que estava. De fato, condenou o governo a pagar mais juros, causando impacto negativo no orçamento.

Dos principais carros chefe da campanha da reeleição de Dilma, o pleno emprego durou até 2014, quando alcançou a mínima de 4,3% de desempregados na população economicamente ativa. Mas, após a manutenção do governo nas urnas de 2014, voltou a crescer a partir de 2015. Em dezembro daquele ano, quando o então presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha (PMDB/RJ) aceitou o pedido de impeachment de Dilma, foi fechada a pior série histórica de geração de vagas (saldo entre admissões e demissões) do ministério do Trabalho e Emprego (MTE), iniciada em 2002. Dez milhões de pessoas terminaram 2015 desempregadas.

Outro fator externo afetou duramente a economia que apostava na produção de petróleo, impulsionada pelas reservas futuras do pré-sal, para manter sua balança comercial favorável. Depois do pico registrado em junho de 2014, quando o barril de petróleo chegou a US$ 115, ele abriu 2015 sendo negociado no mercado internacional a US$ 50. Com queda de preço acumulada em 60%, foi a pior retração da commodity desde a crise econômica de 2008.

Sociólogo e cientista político George Gomes Coutinho

— Aqui a frustração econômica causada pelo término da era das commodities implicou uma enorme dificuldade de manutenção das políticas econômicas e sociais do lulismo continuadas por Dilma Rousseff. Este é um ponto crucial para entendermos a insatisfação que gerou os movimentos de massa pós-2013 — destaca o sociólogo e cientista político George Gomes Coutinho, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) de Campos.

Pressionada por seu próprio legado, Dilma esperou ser reeleita para tirar Mantega da Fazenda. Colocou no lugar o economista ortodoxo Joaquim Levy, doutor na Universidade de Chicago. Na reforma ministerial anunciada em 27 de novembro de 2014, a presidente tentou um giro de 180º na economia. Mas o reflexo dos seus erros anteriores, a divisão do país causada pela polarização da eleição, mais a corrupção sistêmica que começava a ser eviscerada pela Lava Jato, levaram às primeiras manifestações.

Quem primeiro saiu às ruas foi o PT. Em 13 de março, CUT, UNE e MST reuniram milhares de pessoas em protestos contra o impeachment de Dilma e em defesa da democracia. Apenas dois dias depois, a resposta foi contundente: as manifestações de 15 de março foram as maiores do país, desde as “Diretas Já”, em 1984. Em pelo menos 160 cidades de todos os Estados brasileiros, as Polícias Militares contabilizaram entre 1,4 e 2,4 milhões as pessoas que foram às ruas pedir a renúncia ou o impeachment de Dilma.

 

Quem primeiro saiu às ruas, em 13 de março de 2015, foi o PT, que acabou superado nas manifestações

 

Na maior manifestação, a PM de São Paulo estimou que 1 milhão de pessoas tomaram a av. Paulista e adjacências, enquanto o Datafolha contou apenas 210 mil.

Protesto de 15 de março, pedindo o impeachment ou a renúncia de Dilma, em Brasília

 

Como nas “Jornadas de Junho” de 2013, a até então maior da história brasileira foi mobilizada em 2015 pelas redes sociais. Desta vez, pelos grupos de oposição Movimento Brasil Livre (MBL), Vem Pra Rua e Revoltados Online, que se diziam “apartidários”.

Ainda assim, os protestos de 15 de março contaram com o apoio do PSDB, DEM, PPS e SD, que convocaram seus filiados ao ato. O governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB) também foi acusado de liberar as catracas do metrô, para dar livre trânsito aos manifestantes.

— Os movimentos da chamada “nova direita” no Brasil, a partir de 2015, se utilizaram fartamente tanto da estética de mobilização dos grupos de junho de 2013 quanto até mesmo de nomenclaturas e slogans. Afinal, o “Movimento Passe Livre”, o MPL, de alguma forma inspirou o “Movimento Brasil Livre”, não por acaso MBL. O slogan “Vem Pra Rua” tornou-se um movimento homônimo — relembra George Coutinho.

Uma reação foi tentada em 18 de março pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), também ligado ao PT. Apesar disto, eles fecharam rodovias em sete Estados para protestar contra o ajuste fiscal de Levy, mas chamaram as passeatas de três dias antes de “golpistas”.

 

Em defesa de Dilma, as manifestações do MTST de 18 de março de 2015 fecharam estradas e vias do país

 

Na queda de braço das ruas, em 12 de abril, uma nova manifestação pelo impeachment da presidente se espalhou por 152 cidades de 24 Estados. Menor do que os atos de 15 de março, elas levaram cerca de 700 mil pessoas às ruas.

 

Na disputa com os braços do PT na CUT, UNE, MST e MTST, os manifestantes favoráveis ao impeachment de Dilma voltam a mostrar sua força nas ruas, em 12 de abril de 2015

 

No dia 15 de abril, o então tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, foi preso pela Lava Jato, acusado de receber propina do esquema de corrupção da Petrobras para o partido. No mesmo dia, o Tribunal de Contas da União (TCU) considerou as “pedaladas fiscais” crime de responsabilidade, a Câmara Federal adiou a votação do projeto de terceirização proposto pelo governo e, contra ele, as centrais sindicais promoveram protestos em 23 Estados e em Brasília.

 

Sindicalistas saem às ruas de Vitória (ES) contra o projeto de terceirização do governo Dilma, em 15 de abril de 2015

 

Em 16 de agosto, a terceira grande manifestação de rua pelo impeachment de Dilma ocorreu em 291 cidades de todos os Estados brasileiros. Menores que os de março, mas maiores que os de abril, os protestos reuniram cerca de 900 mil pessoas em todo o país, segundo os cálculos das Polícias Militares.

 

Em Copcabana, o terceiro grande protesto contra o governo Dilma, em 16 de agosto de 2015

 

Quatro dias depois, em 20 de agosto, o procurador geral da República, Rodrigo Janot, apresentou denúncia contra Eduardo Cunha, por envolvimento no esquema de corrupção da Petrobras. No mesmo dia, numa coalisão da CUT, UNE e MST e partidos de esquerda, cerca de 190 mil pessoas foram às ruas em defesa do governo Dilma. Apesar disto, eles também pediram a saída do ministro Joaquim Levy, além de elegerem Cunha como seu novo inimigo.

 

Em Curtiba, manifestantes a favor do governo Dilma elegeram Cunha como inimigo, que depois seria preso pelo juiz federal Sérgio Moro

 

A vingança do “Coisa Ruim”, como o falecido jornalista Jorge Bastos Moreno (1954/2017) se referia a Cunha, não tardaria. Em 2 de dezembro, no mesmo dia em que o PT anunciou que votaria no Conselho de Ética contra o presidente da Câmara Federal, ele aceitou o pedido de impeachment de Dilma, por crime de responsabilidade. Era elaborado pelos juristas Miguel Reali Júnior, Janaina Pascoal e Hélio Bicudo. Emblematicamente, o último foi fundador do PT.

 

Lançado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) em setembro de 2015, como símbolo da campanha “Não Vou Pagar o Pato”, o boneco inflável do pato amarelo fez sua primeira aparição na av. Paulista nos protestos de 13 de dezembro de 2015

 

Em 13 de dezembro, novos protestos contra a presidente foram registrados em 87 cidades de todos os Estados. Mas, talvez esvaziados pela abertura do processo de impeachment, eles foram os menores contra Dilma naquele ano, mobilizando cerca de 83 mil pessoas. Na queda de braço com os defensores do governo, 16 de dezembro foi a primeira vez em que estes conseguiram superar os opositores: segundo cálculos das Polícias Militares, foram 98 mil manifestantes, em pelo menos 42 cidades.

 

Na cidade do Rio, manifestantes em defesa do governo Dilma, em 16 de dezembro de 2015

 

— Os movimentos da “nova direita” passam a vocalizar demandas e perspectivas de grupos da sociedade que até então não encontravam representantes dotados da capacidade de síntese necessária e com enorme habilidade em utilizar as redes sociais. Não quer dizer que não existissem as visões de mundo mais conservadoras. Apenas não haviam encontrado grupos que vocalizassem esses sentimentos difusos. A grande mídia monopolista engrossou de forma sistemática a narrativa que associou o Partido dos Trabalhadores de forma inequívoca, por vezes quase exclusiva, ao fenômeno da corrupção. Por outro lado, no âmbito da política tradicional, Dilma lidou diretamente com um governo dotado de capacidade decisória limitada e um Congresso Nacional rebelde liderado por Eduardo Cunha — concluí o sociólogo e cientista político George Coutinho.

 

Continua no próximo domingo (19/11)

 

Confira as duas primeiras partes da série:

Ruas pela democracia do Brasil desde a Ditadura

Cabruncos nas ruas do Brasil de Itamar às Jornadas de Junho

 

Página 2 da edição de hoje (12) da Folha

 

Publicado hoje (12) na Folha da Manhã

 

0

Vanessa Henriques — Contra a PEC 181

 

 

 

Na última quarta-feira, uma Comissão Especial da Câmara dos Deputados alterou o texto da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 181/2015 que originalmente propunha a ampliação do direito à licença-maternidade para mães de bebês prematuros. A proposta formulada pelo senador Aécio Neves estabelecia o aumento da licença de 120 para 240 dias. O deputado Jorge Tadeu Mudalen (DEM-SP) realizou duas substituições no texto: no inciso 3 do artigo 1º da Constituição, que trata dos princípios fundamentais da República, foi inserida a frase “dignidade da pessoa humana desde a concepção”; no caput do artigo 5º – o que garante a igualdade de todos perante a lei e a inviolabilidade do direito à vida – adicionou-se a expressão “a inviolabilidade do direito à vida desde a concepção”. O novo texto foi aprovado por 18 x 1, sendo o único voto contrário o da deputada Érica Kokay (PT-DF). Ao final da votação, os 18 deputados favoráveis, todos homens ligados à bancada religiosa, gritavam, entusiasmados: “Vida sim, aborto não!”.

No Brasil, são três os casos legais de interrupção voluntária da gravidez: quando a gestação oferece risco de vida à mulher, quando a gravidez foi originada por estupro e quando o feto é portador de anencefalia. Uma alteração dessa natureza na Constituição modificaria a leitura de todas as leis e portarias que autorizam serviços de abortamento legal. Segundo a advogada Marina Ganzarolli, existem apenas 33 equipamentos públicos que realizam a interrupção legal da gravidez no Brasil inteiro. Se o entendimento constitucional sobre o “início da vida” passar a ser o estabelecido pelas alterações do texto da PEC, o direito ao aborto legal no Brasil estará ameaçado. Na prática, isto quer dizer que mulheres estupradas podem ser obrigadas a gestar o filho de um estuprador. É um horror inimaginável. Isto não é só uma violação aos direitos humanos, é crime de tortura!

É sabido que para impedir que a Câmara aprovasse sua investigação, o presidente ilegítimo ofereceu a aprovação de projetos conservadores como moeda de troca. A formação do atual Congresso brasileiro é uma das mais retrógradas da história do país. O brasileiro não se sente representado pelos nossos parlamentares que, em sua maioria, colecionam denúncias de corrupção e representam os interesses de setores minoritários da população. Para 2018, nos cabe não apenas pensar em quem votar para ocupar a presidência do país, mas também pensar em como eleger melhores representantes para o poder legislativo. Desde 2014, o brasileiro acompanha estupefato o show de horrores apresentado diariamente pelos deputados.

A Comissão Especial da Câmara foi criada em novembro do ano passado como resposta à decisão da Primeira Turma do STF que havia decidido não considerar crime a prática abortiva durante o primeiro trimestre de gestação, como acontece na maior parte dos países desenvolvidos. A proposta ainda terá que passar pelo plenário da Câmara – tendo que obter pelo menos 308 votos para a aprovação – e do Senado para ser aprovada, mas não seria de admirar que apressassem as datas de votação para que essa PEC seja aprovada antes do fim do mandato de Temer.

Na próxima segunda-feira, mulheres de todo o Brasil sairão às ruas para protestar contra a aprovação da proposta. Em Campos, nós também sairemos às ruas para mostrar nossa indignação em relação ao retrocesso proposto pela PEC 181. A concentração será na UFF Campos, a partir das 16h. Lutamos pela vida das mulheres e pela manutenção de nossos direitos reprodutivos, conquistados a duras penas.

 

0

Um passo à frente, outro atrás, na construção do Brasil

 

 

 

Passo à frente no Uniflu

Dois momentos registrados em Campos, no espelho do Brasil, evidenciaram o quanto podemos avançar e regredir enquanto sociedade. Na noite de quarta, o auditório lotado da Faculdade de Direito de Campos (FDC) provou ser possível confrontar em alto nível visões de esquerda e direita, sem tropeçar no Fla x Flu que tem dominado o debate político nacional. A cientista social Vanessa Henriques, o jornalista Ricardo André Vasconcelos, o bacharel em administração Igor Franco e o advogado Gustavo Alejandro Oviedo expuseram opiniões sobre vários temas, sob a ótica de espectros políticos opostos. E o fizeram com o mesmo respeito ao contraditório observado pelo público, que também participou da discussão.

 

Coletivo

O “Diálogo entre Visões de Esquerda e Direita” foi uma promoção do Centro Universitário Fluminense (Uniflu), com participação direta os professores da FDC Rafael Crespo Machado e Cristiano Miller. O evento nasceu das análises dos colaboradores do blog “Opiniões”, hospedado no Folha 1, editado pelo jornalista Aluysio Abreu Barbosa, diretor de redação da Folha, a quem coube mediar o debate de quarta. Transmitido ao vivo na página do Uniflu no Facebook, ele foi acompanhado por mais de duas mil pessoas. Ao seu final, independente da ideologia de cada debatedor e presente, os sorrisos e cumprimentos trocados foram o melhor retrato da satisfação que só se constrói coletivamente sobre as diferenças.

 

Passo atrás no IFF

Infelizmente, no dia seguinte ao debate da FDC, veio de outra importante instituição de ensino de Campos a notícia do quanto ainda temos a evoluir na construção do respeito às diferenças. Ontem, no Instituto Federal Fluminense (IFF), estudantes convidados do Instituto Federal do Maranhão fizeram um protesto. Eles relataram que foram vítimas de atos de racismo por colegas campistas, na quarta. No campi do IFF de Guarus, após apresentarem um trabalho sobre cultura afrobrasileira, foram chamados de “macumbeiros” por estudantes locais. No mesmo dia, teriam sido hostilizados também no campus Campos-Centro, por alunos que simularam gestos de macacos, em referência jocosa aos colegas nordestinos.

 

Fascismo real

O mais surpreendente do episódio é que o IFF, desde quando era Escola Técnica Federal de Campos, é conhecido pela predominância da esquerda nos seus quadros docente e discente. E o respeito às diferenças sócio-econômicas, de raça, credo e gênero é bandeira tradicional da esquerda. Assim como é da direita liberal, que tem a liberdade individual como seu principal valor. A intolerância que avança perigosamente, no Brasil e no mundo, é filha do fascismo real, que vai muito além das palavras de ordem de quem entende o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) como “golpe”. Lutar contra ela é obrigação de quem, entre as defesas da liberdade e da igualdade, acredita na fraternidade como valor entre os homens.

 

UP em Campos

Se definindo com um novo partido de esquerda, a “Unidade Popular pelo Socialismo” (UP) avança nos últimos anos no país, já com 420 mil apoiadores para a legalização da legenda. Em Campos, o movimento também já se faz presente e vem liderando um ato contra o fim da passagem social, mobilizando a população contra a alteração de R$ 1 para R$ 2,75. O alvo é o governo de Rafael Diniz (PPS) e principalmente vereadores da base aliada que votaram a favor da suspensão temporária do programa. Cartazes com a foto deles foram espalhados por pontos de ônibus e monumentos públicos.

 

Carona

A legitimidade do movimento não é questionada, mas a independência pregada pelo “novo partido” vem sendo colocada em xeque quando nenhum representante da UP em Campos se posiciona contra os que não fazem parte do movimento e tentam pegar carona no protesto. Basta uma olhada rápida nas redes sociais para ver o que o grupo dos Garotinho tem feito para se aproveitar da organização do UP e tentar se reerguer politicamente. Resolveram voltar às ruas após atos organizados por garotistas, mas frustrados pela falta de credibilidade e pelo terrorismo.

 

No passado

Não é de hoje que a credibilidade dos aliados aos Garotinho anda abalada. Como bem lembrou reportagem da Folha no último domingo, o que fazem os garotistas agora já tentaram em 2013. Naquela época, Campos criou o “Cabruncos Livres”, que reuniu mais de 4 mil pessoas numa passeata da Praça São Salvador à Prefeitura, com palavras de ordem entoadas contra o governo Rosinha Garotinho (PR). Em frente à Câmara, um advogado do grupo rosáceo tentou subir num trio elétrico e foi forçado a descer pelos jovens, que gritaram: “É o advogado do Garotinho”.

 

Com o jornalista Rodrigo Gonçalves

 

Publicado hoje (10) na Folha da Manhã

 

0

Diálogo entre esquerda e direita é sucesso de público na FDC

 

Da esquerda à direita; Igor Franco, Gustavo Alejandro Oviedo, Aluysio Abreu Barbosa, Ricardo André Vasconcelos e Vanessa Henriques (foto: Paulo Pinheiro – Folha da Manhã)

 

 

Ontem, das 19h às 22h, se desenvolveu o “Diálogo entre Visões de Esquerda e Direita”, promovido pelo Centro Universitário Fluminense (Uniflu), no auditório da Faculdade de Direito de Campos (FDC). A mim coube o prazer e a honra de mediar os debatedores: a cientista social Vanessa Henriques, o jornalista e servidor federal Ricardo André Vasconcelos, o bacharel em administração Igor Franco e o advogado e publicitário Gustavo Alejandro Oviedo.

Vanessa e Ricardo deram visões da esquerda democrática. Igor e Gustavo apresentaram as angulações da direita liberal. A ideia do evento, acolhida com entusiasmo pelo advogado Rafael Crespo Machado, professor da FDC,  nasceu do debate virtual sobre o tema “avanço da direita no Brasil”, do qual todos os 11 colaboradores deste blog trataram em suas participações entre 23 de setembro e 4 de outubro.

Foi maciça a presença do público, composto de universitários, simpatizantes dos dois espectros políticos representados e simples interessados no debate, aberto a todos, que ganhou corpo na socidade brasileira com as pesquisas Datafolha e Ibope às eleições presidenciais de 2018. Nelas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o deputado Jair Bolsonaro (PSC, de mudança para o PEN, que mudará de nome para Patriota) aparecem liderando a corrida ao Palácio do Planalto.

Sem que nenhum dos participantes do debate soubesse enquanto ele se dava, sua primeira 1h50 foi transmitida ao vivo (aqui) pela página de Facebook do Uniflu. E lá foi acompanhado, em tempo real, por mais de duas mil pessoas.

Com boa resposta do público, o debate de ontem foi uma iniciativa modesta, na curta envergadura de uma universidade e veículos de mídia do interior. Mas foi altamente exitosa ao evidenciar como, ao largo da bipolaridade que busca reduzir a discussão política a um Fla x Flu, é possível o diálogo em alto nível, com a participação aberta ao público, entre visões ideológicas opostas.

Um fala, o outro escuta e, ainda que não concorde, pode depois dizer por quê. Com as ideias no eixo da contenda, não as pessoas.

Quaisquer que sejam os resultados das urnas de 2018, todos os 207,7 milhões de brasileiros serão governados e legislados pelos eleitos no voto popular. E continuaremos todos, “vencedores” e “vencidos”, convivendo nos mesmos ambientes de trabalho, instituições de ensino, famílias, grupos de amigos reais e virtuais.

Para aquilo que nos une enquanto sociedade poder coexistir entre aquilo que separa, só há um caminho: o diálogo. E nele se pressupõe ouvir, sobretudo o contraditório, além de falar.

Nesse esforço coletivo, agradeço pessoalmente a Vanessa, ao Ricardo, ao Igor, ao Oviedo, aos professores da FDC Rafael e Cristiano Miller, bem como a todos os presentes e a cada um dos que ontem nos acompanharam ao vivo pela democracia irrefreável das redes sociais.

Quem quiser ver (ou rever) a primeira 1h50 do debate de ontem, pode conferir abaixo:

 

 

0

Guilherme Carvalhal — Passos de Tartaruga

 

 

O estouro da manada galga as escadas do metrô em passos agitados e tropeções. A multidão coletiva é opressora e cada indivíduo é uma unidade esmagada contra paredes e corpos a esmo. A cara se aperta no vidro dos vagões enquanto braços manietados de precisão tentavam consultar relógios constantemente, afinal cada segundo é precioso. Parecem controlar o tempo com rigidez quando na verdade o tempo as controla com rigidez.

Ela anda pela calçada. Sem afã. Sua presença vagarosa a transforma em obstáculo. Quem corre para bater ponto antes das oito se desvia de placas de compradores de ouro e de bancas de camelôs. Ela se assemelha a mais um cone inerte. Desses com o aviso de homens trabalhando.

Os carros buzinam e se enroscam no entrocamento provocado por um motorista de primeira viagem que não soube sair do nó. Começa a sinfonia de sons automotivos, os gritos urbanos ecoam decifrados em um linguajar sem palavras, mas sua onomatopeia era inteligível por qualquer morador da cidade. Muitos xingamentos partem rumo a destinatários desconhecidos em uma demonstração de cordialidade fraterna entre anônimos.

Ela para. Defronte um hidrante. Nada o diferenciava. Perdiam-se centenas de outros encravados por cada quarteirão das imediações. Apenas seus olhos e nenhum outro descobriria alguma singularidade. Aquela escultura de ferro cuja tintura vermelha se desgastava ano após ano. Ela esperaria para notar cada uma de suas mudanças.

Dois policiais perseguem um rapaz que acabou de assaltar uma joalheria, avisados ao ouvirem o ressoar do alarme à distância pondo-se rapidamente a postos para prender o meliante. A dona da loja gritou assustada após o bandido apontar uma arma na sua cabeça e pedir toda a grana do caixa sendo prontamente atendido em uma velocidade que nem fidelíssimos clientes receberiam. Cercaram-no em um beco sem saída e o levaram à delegacia, onde a imprensa o transformou em uma notícia que chamou a atenção da população, comoção logo esquecida no dia seguinte ao suceder novo crime a substituir o anterior.

Ela avistou um mendigo. Analisou-o. Roupas corroídas. Odor fétido. Poucos dentes na boca. Abriu a carteira com paciência. Procurou algumas moedas. Entregou-as. Recebeu um carinhoso obrigado. Ambos sorriram.

O corretor da bolsa de valores vigia prudentemente cada pequena mudança nos gráficos de empresas diante do monitor de seu computador. As variações podem significar alterações abruptas em investimentos realizados, precisando vender ou comprar conforme os indícios cautelosamente expressos pelos dados do mercado financeiro. Se tudo descambasse em fracasso ao fim da tarde, se perdesse somas consideráveis ou entrasse em bancarrota, desceria pelo elevador contando ansiosamente cada andar até chegar ao térreo buscando uma dose de uísque no bar da esquina.

Ela se atenta à vitrine. Cartazes anunciam promoção. Porcentagens de desconto. Prazos de pagamento. Calcinhas. Bermudas. Blusa de frio. Manequins estampados. Eles eram calmos. O extremo oposto dos vendedores. Bulhufas lhe interessava. Saiu dali.

Um casal passou às pressas pela entrada de um hotel de baixa qualidade caindo aos pedaços após anos sem reforma. Horário de meio-dia e dispensaram a refeição pela possibilidade de agenda para um encontro amoroso sem que o marido dela pudesse desconfiar, perdidos pelas ruelas anônimas do centro. Deixaram de engolir a comida sem mal mastigá-la para aproveitarem a estreita brecha dentro de seu apertado cotidiano pré-definido antes mesmo de acordarem.

Ela. Praça. Banco. Bengala. Passarinho. Canto. Solicitude. Felicidade.

Um atropelado por ônibus é arrastado do asfalto para a calçada por populares que o circundaram enquanto agonizava. Ele implorava por ajuda e todos aguardavam o resgate que vinha de longe para tentar socorrê-lo, sem saber que a sirene não ajudava a ambulância a driblar o trânsito congestionado. Faleceu ganindo de dor torturante tombado entre tanta gente desconhecida a acompanhar sua agonia com urgência em ser resgatado.

Ela encostou. A respiração reduzia. Morreu lentamente. Parecia feliz.

 

0

Ricardo André Vasconcelos — Entre o chinelinho e o xilindró

 

Luislinda Volois, ministra dos Direitos Humanos

 

 

Só mesmo um governo que tem índice de aprovação do mesmo nível de margem de erro pode ignorar deslizes, desvios e outras traquinagens de seus ministros sem sequer uma leve admoestação de quem quer que seja. Simplesmente porque não há quem tenha autoridade moral para tal. O exemplo começa com o Chefe do Governo, que comprou o restinho de mandato por algo em torno de R$ 20 bilhões em emendas, cargos e outras benesses inconfessáveis e tornou-se refém de uma base aliada que representa a mais fina flor do fisiologismo pluripartidário. Alguém já disse, com propriedade, que não é o presidente que tem uma base, é a base que é “dona” de um presidente. Denunciado pela Procuradoria Geral da República, duas vezes, por corrupção passiva e organização criminosa, o presidente da República conseguiu a proeza de arquivar as denúncias com o apoio de 263 e 251 votos, respectivamente.

O presidente com o maior índice de rejeição entre os líderes mundiais tem mais da metade do ministério investigado, citado ou delatado na Operação lava Jato, incluindo seus mais íntimos — Moreira Franco e Eliseu Padilha — parceiros na quadrilha da denúncia da PGR e momentaneamente arquivada pelos deputados. A partir de 01 de janeiro de 2019 os três serão processados como cidadãos, se estiverem ao desabrigo da sombra benfazeja do foro privilegiado. Outros dois — Geddel Vieira Lima e Eduardo Cunha — já amargam cadeia. Geddel, aliás, foi ministro também no governo Lula e vice-presidente da Caixa na administração Dilma, mas com Temer, integrou o núcleo central do governo.

No último final de semana um escândalo internacional chamado de “paradise papers” envolveu os ministros Henrique Meirelles (Fazenda) e Blairo Maggi (Agricultura) com fortunas depositadas em paraísos fiscais.

Só num ministério com essa folha corrida, figuras como Torquato Jardim e Luslinda Valois protagonizariam situações graves sem sequer serem investigados, enquanto deveriam gerar crises e até demissões. A declaração de Torquato, de que há uma sociedade entre deputados estaduais, comandos da PM e o crime organizado no Rio de Janeiro seria plenamente aceitável se não fosse a autoridade máxima da segurança, pois é o ministro da Justiça e Segurança Pública. Se tem provas do que disse deve mostrá-las à sociedade, se não tem, entregue o cargo. O que não pode é dizer que emitiu uma “opinião pessoal”, porque afinal não disse o que disse em conversa privada e sim para um grupo de jornalistas que o entrevistava.

Dona Luslinda, desembargadora aposentada pelo Tribunal de Justiça da Bahia, com seu currículo que honra a história das mulheres, dos negros e da magistratura, caiu na asneira de pedir aumento de salário. Queria receber, além dos R$ 33,4 mil de seus proventos da aposentadoria, outros R$ 37 como ministra de Estado dos Direitos Humanos. Se justo for o pleito, o argumento beirou ao patético: quem ganha R$ 33,4 mil por mês se considerar escrava? Alegou que o salário não é suficiente para maquiagem, perfume, porque, afinal, como aposentada pode andar de chinelo, mas como ministra não.

A favor de si Dona Luslinda, um dos quatro nomes do PSDB no governo, tem a opção de calçar seu chinelinho e voltar para Salvador e gozar a merecida aposentadoria, enquanto para a maioria dos seus colegas — incluindo o chefe —, o risco é ir para o xilindró.

 

0

Em lado oposto à Inquisição em São Paulo, debate hoje na FDC

 

 

 

Protesto de ontem, em frente ao Sesc Pompéia, contra a presença da filósofa Judith Butler, assumiu sua inspiração na Inquisição (Foto Paulo Lopes – Futura Press)

 

 

Obscurantismo (I)

Presente ontem em Campos para receber o prêmio Folha Seca, homenagem que a Folha da Manhã presta anualmente aos campistas que se destacam nas mais diferentes áreas, o gestor cultural Danilo Miranda estava preocupado com os protestos, também ontem, diante do Sesc Pompéia, na cidade de São Paulo. Apesar de ter sido convidada para um debate sobre democracia, a filósofa estadunidense Judith Butler teve sua presença no Brasil contestada, assim como apoiada, na divisão dos cerca de 70 manifestantes, por ser referência mundial na discussão das questões de gênero. Danilo é campista e diretor do Secs-SP desde 1984, onde se tornou referência nacional e internacional no trabalho em prol da cultura e da educação.

 

Obscurantismo (II)

Judith Butler leciona na Universidade de Berkeley, na Califórnia, que realizou o evento de ontem em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e o Sesc-SP. Independente da concordância, ou não, com sua pregação sobre a chamada “ideologia de gênero”, protestar contra a simples presença da filósofa para debater um outro assunto, chegando a queimar bonecas com sua foto e a chamando de “bruxa”, remete ao pior obscurantismo já produzido pelo homem. Afinal, as fogueiras da Inquisição que queimaram até a morte mulheres acusadas de bruxaria, foram as mesmas que ameaçaram o astrônomo italiano Galileu Galilei (1564/ 1642) e o obrigaram a negar que o Sol, não a Terra, era o centro do nosso sistema.

 

Para elevar o debate

Enquanto a discussão política brasileira parece retroceder à Idade Média, um esforço coletivo em sentido contrário será feito hoje. No “Diálogo entre Visões de Esquerda e Direita”, o debate virtual que começou no blog “Opiniões”, hospedado no Folha 1, terá uma edição real a partir das 18h30 desta quarta, no auditório da Faculdade de Direito de Campos (FDC). Nele, as visões de esquerda serão representadas pela cientista social Vanessa Henriques e o jornalista e servidor federal Ricardo André Vasconcelos. As de direita ficarão por conta do bacharel em administração Igor Franco e do advogado Gustavo Alejandro Oviedo. Mediado pelo jornalista Aluysio Abreu Barbosa, diretor de redação da Folha, o evento é aberto ao público.

 

Jogos por segurança

Após o ministro da Justiça, Torquato Jardim, fazer críticas severas à segurança pública do Rio, o governador Luiz Fernando Pezão esteve reunido, ontem, em Brasília, com o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Sérgio Etchegoyen, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, o presidente do Senado, Eunício de Oliveira, além de governadores e representantes de outros 14 estados, para discutir pautas comuns. O principal tema tratado nas reuniões foi segurança pública. Pezão reafirmou a importância da ajuda do governo federal no combate ao crime organizado. Ele os demais governadores propuseram que seja votado projeto legalizando os jogos no país e destinando os recursos dos impostos cobrados para um fundo de Segurança Pública.

 

Em audiência

A vereadora Joseane Morumbi está numa correria só. Ela prepara sua primeira audiência pública, na Câmara Municipal de Campos, como propositora, para abordar a questão do desenvolvimento econômico. O ponto alto será a presença do ministro da Indústria e do Comércio, Marcos Antônio Pereira, que, inclusive, vai falar logo no primeiro painel sobre “O papel da exportação no desenvolvimento econômico”, além de também anunciar no município um novo programa do governo federal para aquecimento do setor. A audiência acontece amanhã, às 17h.

 

De olho

Arrocho contra irregularidades em postos de combustíveis em Macaé. Pela primeira vez no estado, a Procuradoria Adjunta de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon Macaé) e Agência Nacional do Petróleo (ANP) atuam em parceria para fiscalização de 30 postos de combustíveis. A operação começou na segunda e seguirá até sexta-feira (10). Estão sendo verificadas a qualidade da gasolina e etanol, além de analisada a quantidade que sai da bomba. A ação é boa para consumidor.

 

Sexto lote

Para quem está esperando mais remessa de dinheiro no fim do ano a notícia é que a consulta ao sexto lote de restituição do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) de 2017 será aberta hoje. O lote contempla 2.358.433 contribuintes, totalizando mais de R$ 2,8 bilhões, informou a Receita Federal. O lote multiexercício de restituição do IRPF contempla também restituições residuais dos exercícios de 2008 a 2016. O crédito será efetuado no dia 16 de novembro.

 

Publicado hoje (08) na Folha da Manhã

 

0

Orávio de Campos — O Mulato de Morro do Coco

 

 

 

Estamos passando por este espaço (ou ciberespaço?), a propósito do sesquicentenário de Nilo Procópio Peçanha, nascido em 1867 na zona rural de Morro do Coco, sendo até hoje o maior dos políticos nascido no âmago das terras Goytacazes, para lembrar, aos mais esquecidos, que este importante vulto da história nacional, perdeu as eleições para Presidência da República em 1922, sendo derrotado, inclusive em sua terra natal, por um mineiro chamado Artur Bernardes (1875-1955).

Poderia usar a filosofia cristã, para explicar (como se fosse explicável) que ninguém é profeta em sua própria terra. E com Nilo, político hábil no dizer do historiador Gilberto Freire, não foi diferente, porque, por questões meramente politiqueiras, não conseguir impor-se com o discurso reformista do Partido Republicano Fluminense no embate contra a decantada política café-com-leite, que alternava o poder entre os representantes de Minas Gerais e de São Paulo.

Naquele tempo, por força da Constituição de 1891, a primeira da República recém-implantada com o golpe militar contra Pedro II, só se admitia o voto para os homens maiores de 21 anos de idade, com exceção dos analfabetos, religiosos e militares, mas a maioria, não obrigada, não comparecia às urnas tornando as campanhas cada vez mais difíceis, considerando, ainda, os currais eleitorais de propriedade dos republicanos oligárquicos espalhados por todo país.

Mesmo assim, Nilo Peçanha conseguiu 317.714 votos contra 466.877 de Artur Bernardes, provando que o eixo Minas Gerais e São Paulo agiu com maior esperteza na captação dos sufrágios. Todavia, a derrota do republicano fluminense não foi em vão, pois sepultou, de vez, o contexto café-com-leite, esterroado com a Revolução de 1930. Mas causou-lhe, ele que tinha feito um excelente governo durante os 17 meses que substituiu, como vice-presidente, o pranteado Afonso Penna, uma grande decepção, tanto que veio a falecer, com 57 anos de idade, no dia 31 de março de 1924.

Em Campos dos Goytacazes, os republicanos fluminenses perderam, pois havia por aqui, como ainda há, um resquício pernicioso da aristocracia rural, substituída após o golpe de 1889, pelos barões e coronéis do açúcar e do café, que mandavam e desmandavam nos diferentes cenários políticos e econômicos. Chegaram ao ponto de sugerir no projeto de espraiamento urbano de Campos, na primeira metade do século passado, o nome de Artur Bernardes para a principal perimetral da cidade.

A perimetral começou no governo Alexandre Mocaiber e ganhou sua conclusão, até a avenida Alberto Lamego, em frente à Uenf, no Governo Rosinha Garotinho. Bernardes, político de Minas Gerais, nunca veio a Campos e sua presença no espaço público, desconfia-se, é apenas para lembrar que ele ganhou a eleição de 22 em cima do conterrâneo, Nilo Peçanha, que passou desta para a vida dos espíritos, no Rio de Janeiro, sendo sepultado no Cemitério de São João Batista.

A classe dominante planiciana, cheia de inveja, através das mídias, se referia a Nilo Peçanha como “O Mulato de Morro do Coco”. Mostrando todo seu poder, e ainda mostra, quando se trata de entender que nem todos os políticos vocacionados desta urbe nascem/nasceram em seus berços de ouro. O olhar discricionário, com ranço provincial, continua focalizado nas suas expressões mais indignas e nem se importam que deverão responder por esses equívocos perante a história.

Começamos, enquanto Presidente do Coppam a conversar com o Dr. Edson Batista, presidente da Câmara, que se mostrou bastante interessado, para a mudança do nome da perimetral. Muitos campistas, neocolonialistas ou não, são mais merecedores desse encômio do que o trêfego político Artur Bernardes, que nada tem a ver com “esta planície de luz e madrigais”, no dizer das palavras amantes de Azevedo Cruz.

 

0

Igor Franco — Lutar o bom combate

 

Frederick Charles Copleston e Bertrand Russell

 

 

Data de 1948 um famoso debate (aqui) transmitido pela BBC entre o padre católico Frederick Charles Copleston e o matemático Bertrand Russell. Em comum, ambos possuíam sólida formação filosófica e o interesse pela lógica e pela metafísica. Em divergência, todo o resto. Russell tornou-se famoso por suas contribuições à lógica, mas foi recentemente resgatado por certas correntes de filosofia pela sua negação à existência de Deus. Durante o debate, editado diversas vezes como livro e cuja transcrição dos áudios originais está amplamente disponível na internet, padre Copleston e Bertrand Russell digladiam-se ao longo de diversas batalhas que percorreram os pontos mais comuns de divergência filosófica quanto à realidade do divino: o argumento moral, o argumento da contingência, a experiência do divino entre outros. Um ponto, porém, é distintivo na guerra travada entre os dois sábios: a polidez com que se tratavam e os termos claros com os quais expunham seus argumentos. Não havia desrespeito, tecnicalidades ou mesmo fuga das controvérsias levantadas.

Não consigo imaginar qualquer outro grande debate que não possa ser nuançado ou matizado a depender de determinada abordagem ou experiência histórica. Na disputa pela validade ou não da metafísica, não pode haver meio termo. Ou bem Deus existe e, nesse caso, tudo o que Bertrand Russell propagava estava completamente equivocado, ou bem o Altíssimo é ficção e cai por terra não só a metafísica do padre Copleston, mas a maior parte do seu sistema de valores. A aniquilação do outro lado era conditio sine qua non da validade argumentativa de qualquer um dos debatedores.

A ingrata tarefa daqueles debatedores possuía um outro agravante: a resposta não pode ser conhecida pelos envolvidos. Ao tratar de algo além da física, além da experiência, além do real, somente os termos definitivos jamais estariam ao alcance daqueles debatedores ou de quaisquer outros que empreendessem a mesma jornada. Nada disso, porém, impediu a crença na liberdade de ambos defenderem o que acreditavam e, mais que isso, fossem respeitados por suas ideias.

Remonta ao filósofo pré-socrático Parmênides a fundação da metafísica. Sua única obra conhecida tratando do Ser e do Não-Ser inaugura uma tradição que terá como expoentes imediatos Platão e Aristóteles. A metafísica helênica encontra abrigo e transformação na tradição judaica que é transformada em doutrina cristã. Santo Agostinho, Santo Anselmo e, principalmente, Santo Tomás de Aquino alicerçaram a ideia filosófica do Deus cristão sobre o terreno preparado anteriormente. Kant, entretanto, emerge para decretar a morte da metafísica a reboque da crescente contestação religiosa empreendida pelo ceticismo e pelo racionalismo. A partir daí, o desenvolvimento da metafísica é interrompido e sua sobrevivência depende de confrontos diretos com outras correntes de pensamento – como exemplificado na disputa Copleston-Russell.

Faço essa longa introdução para saudar o evento a ser sediado (aqui) na próxima quarta-feira no auditório da Uniflu (prédio da Faculdade de Direito de Campos) às 18:30, quando, além deste escriba, outras pessoas se empenharão em elevar o debate que permeia a vida política brasileira há pelo menos quatro anos. A partir das Jornadas de Junho, lembradas (aqui) nesta Folha na última edição de domingo, tem início uma vida ativa nas redes sociais em que a disputa pela hegemonia do discurso muitas vezes descaminha para agressões verbais e abalo em relações de amizade ou mesmo familiares.

Alegremo-nos por tratarmos de temas que não representam uma necessária anulação da outra parte em caso de razão pontual. Diversos acontecimentos históricos provam que o fim da história não pode ser previsto para um determinado tempo, ou mesmo identificado em ocorrências passadas. A queda do muro de Berlim e a crise financeira de 2008 demonstram a força das ideias e a capacidade de adaptação das mais variadas correntes de pensamento que transformam e são transformadas pelo mundo.

Que na próxima quarta possamos contribuir para o aumento da tolerância e para, sem dúvidas, o objetivo maior de cada um: o desenvolvimento do país com justiça, liberdade e prosperidade. Que lutemos o bom combate!

 

0

Do blog à FDC, diálogo entre esquerda e direita nesta quarta

 

Os leitores deste “Opiniões” já devem ter constatado sua recente guinada aos temas nacionais. Ela foi dada desde a matéria “Brasil entre Lula e Bolsonaro?”, publicada no blog e na Folha da Manhã em 22 de outubro.

Na semana seguinte, após eleição entre os colaboradores do blog, que nele se alternam quinzenalmente entre segunda e sábado, cada um deu seu sua visão sobre o tema “avanço da direita no Brasil”. Iniciada em 23 de outubro, a rodada de análises se encerrou ontem (04/10).

Aberto na tentativa de qualificar um debate que interessa diretamente a 207,7 milhões de brasileiros e que tem se dado de maneira muitas vezes pobre nas redes sociais, a dicussão ganhou eco.

Fruto dessa reverberação, nesta quarta-feira (08), às 18h30, no auditório da Faculdade de Direito de Campos, quatro colaboradores do blog serão mediados pelo blogueiro no debate intitulado “Diálogos entre Visões de Esquerda e Direita”.

À esquerda no debate, estarão a cientista social Vanessa Henriques e o jornalista e servidor federal Ricardo André Vasconcelos. À direita, ficarão o bacharel em administração Igor Franco e o advogado e publicitário Gustavo Alejandro Oviedo.

Serão três blocos, nos quais cada debatedor tratará dos temas:

1 – Origem dos conceitos de esquerda e direita e sua evolução ao longo dos tempos;

2 – ascensão e declínio da direita e da esquerda no Brasil e na América do Sul, entre os anos 1960 e 2010;

3 – avanço da direita no Brasil e no mundo, e expectativa às eleições presidenciais de 2018.

Encerrados os três blocos, pouco depois da metade do tempo das 2h de duração do evento, o debate será aberto ao público.

Pela realização do encontro, necessário agradecer ao esforço do Igor, bem como ao interesse de Rafael Crespo Machado, advogado e professor da FDC. A entrada e a participação no debate, no esforço comum de tentar qualificá-lo, são abertas a todos.

 

(Arte da Faculdade de Direito de Campos)

 

Quem quiser ler ou reler as postagens do blog referentes ao tema do debate, é só clicar nos links abaixo:

1 – Brasil entre Lula e Bolsonaro?

2 – “Brasil entre Lula e Bolsonaro” da Folha da Manhã a Globo e Folha de SP

3 – Igor Franco — A nova direita é revolucionária

4 – Orávio de Campos — Para aclarar a memória

5 – Academia de Campos analisa o voto “Bolsolula” ou “Lulanaro”

6 – Ricardo André Vasconcelos — Afinal que mundo queremos?

7 – Guilherme Carvalhal — O avô e o neto

8 – Arthur Soffiati — Arte, liberdade e censura

9 – Vanessa Henriques — “A senhora é uma comunista!”

10 – Ruas pela democracia do Brasil desde a Ditadura

11 – Jornalista destaca aquilo que existiu, independente da admissão

12 – Ibope confirma Datafolha: Lula e Bolsonaro lideram corrida presidencial

13 – Chico de Aguiar — De volta ao começo

14 – Ibope e Datafolha: se Lula puder ser candidato e se não puder

15 – Corrida ao Palácio do Planalto pelo Ibope vista da planície

16 – Carol Poesia — Quem tem medo da arte?

17 – Gustavo Alejandro Oviedo — Os direitistas saem do armário

18 – Polarização esquerda/direita por um dos maiores escritores brasileiros

19 – Paula Vigenron — Para não esquecer

20 – Guiomar Valdez — Direita, vou ver! Direita, sem perder!

21 – Alexandre Bastos — Quem ajudou a fabricar coxinhas e bolsonáticos?

22 – Cabruncos nas ruas do Brasil de Itamar às Jornadas de Junho

 

Atualização às 19h25 de 07/11/17

 

0

Cabruncos nas ruas do Brasil de Itamar às Jornadas de Junho

 

Em 20 de junho de 2013, passeata dos “Cabruncos Livres” saiu da Praça São Salvador à Prefeitura, levando mais de 4 mil pessoas às ruas de Campos (Foto: Folha da Manhã)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Se veio no ano seguinte às grandes manifestações de rua das “Diretas Já”, a redemocratização brasileira da Nova República, a partir de 1985, não trouxe solução ao pior problema legado pelos militares, após 21 anos de ditadura: a inflação. Sete anos depois, em 29 de setembro de 1992, Itamar Franco (1930/2011) assumiu a presidência com o impeachment de Fernando Collor de Mello, que ganhou corpo nas ruas dos “caras pintadas”. A inflação fecharia aquele ano em 1.100%. Em 1993, mais que dobraria para 2.708,55%. Ainda assim, talvez pela ressaca das manifestações que ajudaram a derrubar Collor, os 15 meses de governo Itamar não foram marcados por grandes mobilizações populares.

Após trocar várias vezes os ministros da economia, Itamar nomeou Fernando Henrique Cardoso ao ministério da Fazenda, em 19 de maio de 1993. Sociólogo, ele reuniu a equipe de economistas que elaborou o Plano Real, iniciado em 27 de fevereiro de 1994, a despeito da oposição do PT, das centrais sindicais e da Federação da Indústrias de São Paulo (Fiesp). A nova moeda entrou em circulação em 1º de julho daquele ano. Até este mês, a inflação acumulada já era de 815,60%, enquanto a primeira registrada depois foi de 6,08%, mínima recorde.

Com a estabilização da economia, Fernando Henrique saiu da Fazenda para poder se candidatar em 1994 à presidência. Apesar de Lula iniciar a corrida como favorito, o tucano bateu ele e todos os demais concorrentes ainda no primeiro turno.

Na primeira gestão FHC, o protesto de rua de maior vulto foi a marcha do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Brasília. Em 17 de abril de 1997, cerca de 30 mil pessoas participaram do ato marcado para lembrar o aniversário de um ano do massacre dos sem-terra em Eldorado dos Carajás (PA). Políticos de oposição como Leonel Brizola (PDT) e o então deputado federal José Dirceu (PT) aproveitaram para protestar contra as privatizações e a política econômica “neoliberal” do governo federal.

 

Em 17 de abril de 1997, a manifetação do MST levou 30 mil pessoas às ruas de Brasília

 

Diante da nova realidade econômica, os protestos não tiveram eco na sociedade. Mesmo acusado pela compra de votos de deputados para aprovar a emenda constitucional que possibilitou a reeleição, em 1997, o presidente venceu nas urnas no ano seguinte, novamente em turno único.

Mas o segundo governo FHC teria problemas com a crise econômica dos Tigres Asiáticos de 1997, a desvalorização do Real, os juros altos, o desemprego na casa dos 10 milhões e o drama nacional do apagão e do racionamento de energia. O PT aproveitou a oportunidade para testar seu domínio da esquerda e das ruas brasileiras. Em 26 de agosto de 1999, promoveu a “Marcha dos Cem Mil” em Brasília, onde liderou os partidos de oposição, além de seus braços na União Nacional dos Estudantes (UNE, protagonista do impeachment de Collor), na Central Única dos Trabalhadores (CUT) e no MST.

 

“Marcha dos 100 mil em Brasília”, em 26 de agosto de 1999, entoou o “Fora FHC” que a sociedade não ecoou

 

Após o protesto, que mereceu destaque em todos os telejornais, Lula declarou: “Que FHC e sua corja nunca mais ousem duvidar da capacidade de organização da sociedade”.

O “Fora FHC”, no entanto, não foi além disso. Em sua quarta tentativa, Lula finalmente foi eleito presidente em 2002, após bater no segundo turno José Serra (PSDB), candidato do governo. A genuína emoção coletiva da sua posse, que contagiou até o opositor que lhe passou a faixa presidencial, só teve paralelo na popularidade do seu governo.

 

O ex-operário Luiz Inácio Lula da Silva recebe a faixa presidencial do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, em 02 de janeiro de 2003

 

Revelado em maio de 2005, pela mesma revista Veja que denunciara Collor em 1992, o escândalo do “Mensalão”, como ficou conhecido o esquema de desvio de dinheiro público para compra da base parlamentar, abalou o presidente e correligionários, com alguns saindo do PT ao Psol, fundado por dissidentes desde 2004. Também causou a saída de José Dirceu do ministério da Casa Civil, como depois geraria sua cassação do mandato de deputado federal, sua condenação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e sua prisão.

Mas com a economia indo bem, capitaneada pelo petista Antonio Palocci na Fazenda e o ex-tucano Henrique Meirelles, no Banco Central, não houve protestos nas ruas. Os movimentos sociais, que sempre caminharam junto ao PT, pareciam acomodados após virarem poder com Lula:

Guiomar Valdez, historiadora

— Ancorado paradoxalmente no pragmatismo político, na “desideologização” da vida, na burocratização centralizadora, no liberalismo econômico/social e na liderança carismática, articulados ao presidencialismo de coalizão e suas mazelas, o lulismo empreendeu um amálgama no mosaico cultural e social brasileiros. As pautas sociais foram fragmentadas sem nenhuma articulação e posicionamento político-social mais ampliado. O sindicalismo mergulhou no oficialismo, nas lutas por cargos e espaços de controle político/financeiro, reduzindo sua capacidade de inovação, de crítica e de autocrítica. O PT crítico, histórico, não dominado pela corrente hegemônica lulista, é sufocado com o descolamento de sua criatura — analisa a historiadora Guiomar Valdez, professora do Instituto Federal Fluminense (IFF).

A popularidade da “criatura” foi confirmada em sua reeleição em 2006, após vencer Geraldo Alckmin (PSDB) no segundo turno. Mesmo com a evolução das investigações do Mensalão, o carisma de Lula junto à população permanecia inalterado.

Em setembro de 2008, com o estouro da bolha imobiliária nos EUA, veio a crise econômica mundial, mais grave desde a Grande Depressão de 1929. O presidente reeleito a chamou de “marolinha”. Mas seu espraiar levou o governo brasileiro a uma guinada radical naquilo que vinha dando certo desde Itamar: lançada a “Nova Matriz Econômica”, os bancos estatais, sobretudo o BNDES, passariam a ser usados como principais ferramentas de expansão ao crédito.

Pelo menos no início, deu certo. Sem contestação das ruas também no segundo mandato, Lula pôs à prova sua popularidade em 2010, quando elegeu Dilma Rousseff (PT) a primeira mulher presidente do Brasil. Ex-ministra da Casa Civil, ela nunca havia ocupado nenhum cargo eletivo antes daquele pleito. Bem mais experiente, Serra acabou derrotado mais uma vez no segundo turno de 31 de outubro daquele ano.

Um mês e meio mais tarde, outro fato internacional iria influenciar os acontecimentos brasileiros. De 18 de dezembro de 2010 a meados de 2012, a “Primavera Árabe” começou na Tunísia para tomar todo o Norte da África e o Oriente Médio. Diante das demandas reprimidas por sociedades teocráticas e governos ditatoriais, foi a primeira grande mobilização de massas da história construída não em partidos políticos, sindicatos, quartéis militares, movimentos religiosos ou nenhuma organização de classe, mas através das redes sociais.

 

Em 23 de janeiro de 2011, manifestantes nas ruas de Túnis, capital da Tunísia, pelo fim de todos os resquícios do regime do ex-presidente Ben Ali (Foto: Zohra Bensemra – Reuters)

 

Em 2013, o mesmo tipo de mobilização a partir das redes sociais levou o Brasil àquilo que ficaria mais conhecido como “Jornadas de Junho”. Entre os dois fenômenos próximos em tempo e aproximados pela internet em espaço, a analogia é do sociólogo e cientista político George Gomes Coutinho, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) de Campos:

Goerge Gomes Coutinho, sociólogo e cientista político

— Os métodos de mobilização, até então jamais vistos no cenário tupiniquim, foram depois largamente utilizados. Inclusive há semelhanças de métodos com o que ocorreu aqui e na “Primavera Árabe”: redes sociais, novas formas dinâmicas de interação. A chamada revolução informacional, que se potencializa a partir do final da década de 1990, já inclui novas formas de comunicação e interação na sociedade. Ao mesmo tempo tivemos os anos do lulismo neste século XXI, onde os atores tradicionais da esquerda ingressaram nas instituições e tanto passaram a ser “vidraça”, quanto tiveram sua atuação contestatória consideravelmente diminuída. Afinal, movimentos e partidos tornaram-se governo.

Antropólogo José Colaço

— As manifestações no espaço público e as mobilizações políticas colocadas em prática no século XXI apontam para algumas novidades que talvez as “Jornadas de Junho” sejam o melhor exemplo, uma vez que sua existência não dependeu dos mecanismos de organização que tradicionalmente marcaram a ação política no país. O advento e a popularização das redes sociais na última década, sobretudo em nosso país, e o surgimento de uma nova geração que vem, de várias maneiras, negando as formas mais convencionais de se “fazer política”, tais como partidos organizados, democracia representativa e sindicatos, são boas pistas para pensarmos a política atualmente.  A efervescência das redes sociais transbordou para novas performances políticas, que nos últimos tempos têm ganhado as ruas — segue na mesma linha de interpretação o antropólogo José Colaço, também professor da UFF-Campos.

Na verdade, as primeiras manifestações aconteceram ainda em 2012, no Rio de Janeiro e em Natal. Inicialmente foram estimuladas por partidos mais à esquerda, como a dissidência petista do Psol, e tinham como alvo apenas o reajuste nas tarifas do transporte público. Quando 2013 chegou, protestos no primeiro semestre foram registrados em Porto Alegre, Natal e Goiânia. Todos eram formados majoritariamente por jovens, como foram os “cara pintadas” que 21 anos antes haviam derrubado Collor.

O movimento de 2013 ganharia dimensão nacional no mês que o batizou. Em 6, 7 e 11 de junho, as manifestações em São Paulo foram crescendo gradualmente, até se espalharem no dia 13 por diversas outras cidades brasileiras. A violência da PM paulista na repressão a este protesto fez com que ganhasse maior atenção da mídia e simpatia popular, depois perdida com a radicalização dos black-blocks. No dia 17, cerca de 300 mil pessoas saíram às ruas de 12 cidades brasileiras.

 

PM reprime com violência o protesto de 13 de junho de 2013, em São Paulo

 

Nos cinco dias seguintes, não houve um deles sem manifestações pelo país. No dia 20, o pico de 1,4 milhão de participantes seria contabilizado em mais de 120 cidades. Entre elas, Campos, onde o movimento “Cabruncos Livres” reuniu mais de 4 mil pessoas numa passeata da Praça São Salvador à Prefeitura, com palavras de ordem entoadas contra o governo Rosinha Garotinho (PR). Antes, em frente à Câmara, um advogado do grupo rosáceo tentou subir num trio elétrico e foi forçado a descer pelos jovens, que gritaram: “É o advogado do Garotinho”.

 

Protesto de 20 de junho de 2013 em São Paulo

 

Com a redução da tarifa do transporte público atendida em diversas cidades, a pauta de reivindicações se ampliou. Passou a ser também contra a PEC 37, que queria impedir o Ministério Público de investigar; contra o polêmico projeto da “cura gay”, do pastor evangélico e deputado federal João Campos (PSDB/GO); contra os gastos com a Copa das Confederações, em 2013, e a Copa do Mundo, em 2014; e contra a corrupção. Coincidentemente, em junho de 2013, começaria também a operação Lava Jato. Em artigo no jornal El País, o correspondente Juan Arias chamou os manifestantes de “filhos rebeldes de Dilma e Lula”.

Em pronunciamento pela TV no dia 21, Dilma saudou o “desejo da juventude de fazer o Brasil avançar”, mas condenou a violência e o vandalismo, que creditou a “uma pequena minoria”. A presidente garantiu: “A mensagem direta das ruas é pacífica e democrática. Ela reivindica o combate sistemático à corrupção e ao desvio de recursos públicos. Todos me conhecem: disso eu não abro mão”. Por sua vez, Lula diria só em 11 de agosto deste ano, novamente pré-candidato à presidência: “Nós nos precipitamos ao achar que 2013 foi uma coisa democrática”.

Sociólogo José Luis Vianna da Cruz

— No Brasil, depois de 1964, quando os setores conservadores foram às ruas apoiando o Golpe Civil-Militar, elas voltaram a se sentir à vontade para se manifestar após junho de 2013, quando explodiram as insatisfações com os serviços urbanos em São Paulo, uma vez que a resposta do Governo Dilma foi totalmente equivocada, alternando entre ouvidos moucos e disputa com as lideranças de novos movimentos e organizações urbanas. O PT não percebeu que ter aparelhado a administração pública com lideranças sindicais e de movimentos sociais esvaziou esses pilares da democracia e neutralizou a autonomia e independência tão necessárias aos mesmos — explica o sociólogo José Luis Vianna da Cruz, professor da UFF-Campos e da Cândido Mendes.

Filósofo Vladimir Safatle

— Eu acho que 2013 foi a maior oportunidade perdida pela esquerda brasileira. Eu acho difícil um grupo político se recompor depois de perder uma oportunidade daquele tamanho. O embate ideológico brasileiro, que estava recalcado, aparece de maneira muito forte. E vai para as ruas. Que era o lugar natural da política brasileira e sempre foi. A esquerda deveria estar à altura do que 2013 pedia. Era a crise da representação política, da imprensa, do sindicato, e uma consciência muito clara que o processo de desenvolvimento econômico tinha parado. Quando você ouvia “Eu quero escola padrão Fifa”, estava muito claro. Essas pessoas começaram a ter ascensão social. E a primeira coisa que elas fizeram foi tirar os filhos da escola pública e botar na escola privada. Vinte e quatro milhões de pessoas saíram do sistema público brasileiro para o privado. A segunda coisa que elas fizeram foi abrir mão do SUS e comprar um plano de saúde. A terceira coisa foi comprar um carro. Essas famílias foram corroídas por esses três gastos. Quando elas saem para pedir mais serviço, estava claro: esse processo econômico parou, paralisou — conclui o filósofo Vladimir Safatle, entre os principais intelectuais na esquerda do país, e professor da Universidade de São Paulo (USP).

 

Confira a primeira parte da série: “Ruas pela democracia no Brasil desde a Ditadura”

 

Página 2 da edição de hoje (05) da Folha

 

 

Publicado hoje (05) na Folha da Manhã

 

0