Joe Biden se lança a presidente dos EUA: “Serei uma fonte de luz, não de escuridão”

 

Joe Biden dicursa na convenção democrata que o lançou cadidato a presidente dos EUA (Foto: Kevin Lamarque – Reuters)

 

Franklin Roosevelt, presidente democrata  que ergueu os EUA da Grande Depressão e conduziu o país à vitória na II Guerra Mundial

Entre o final da noite de ontem e o início desta madrugada, Joe Biden fez o discurso que fechou a convenção democrata que lançou sua candidatura a presidente dos EUA, em 3 de novembro. Pregou a união para que seu país saia da sua maior crise humanitária, líder mundial em mortes pela Covid-19, e econômica desde a Grande Depressão de 1929. E evocou o exemplo de outro democrata, que há 87 anos venceu outro vírus, o da pólio, para reerguer os EUA e fazê-los o país mais poderoso do mundo: Franklin Delano Roosevelt.

George Floyd, um dos 15 milhões de desempregados dos EUA, sufocado até a morte por um policial branco, provocando protestos por todo o mundo

Ao usar o exemplo do passado, Biden se mostrou atento às vozes do presente. Emocionou-se ao lembrar suas próprias perdas, pessoais e profundas, para mostrar empatia com as famílias do seu país devastadas pelas mais de 170 mil mortes pela Covid. Como ressaltou estar atento às vozes dos jovens que saíram as ruas dos EUA, sendo seguidos no mundo para protestar contra a discriminação racial e por mais justiça social. E voltou a se emocionar ao repetir as palavras que lhe disse, no velório do pai, a filha pequena de George Floyd: “Meu pai mudou o mundo. Meu pai mudou o mundo”.

Biden também foi duro. Deixou claro que os EUA não tolerarão mais intervenções externas em sua democracia. E citou como exemplo a Rússia do ditador Vladimir Putin, que usou hackers na criação de fake news para ajudar a eleger Donald Trump presidente em 2016. A quem criticou duramente pela condução dos EUA na crise da Covid, pelas pesadas perdas em vidas humanas, empregos e empresas: “Não precisa de muita retórica. Apenas julguem pelos fatos: 170 mil mortos, 5 milhões de infectados, 15 milhões de desempregados, mais de 10 milhões sem plano de saúde, uma em cada seis pequenas empresas fechando”.

 

Donald Trump com seu aliado de 2016 e ditador vitalício da Rússia, Vladimir Putin (Foto: The Wall Street Journal)

 

O candidato democrata garantiu que, se eleito, será diferente ao governar para todos, não apenas aos apoiadores: “Vou trabalhar muito duro para quem não me apoiou. Esse é o trabalho de um presidente”. Lembrou das minorias e prometeu privilegiar a maioria, sem as benesses tributárias de Trump às grandes fortunas. Das quais prometeu cobrar os impostos necessários para garantir direitos previdenciários e de saúde à população: “Eu não quero punir ninguém. Mas já passou o tempo dos que mais ganham ficarem isentos de impostos. É hora dos ricos pagarem mais. É preciso contribuir com mais seguridade social”.

Biden não é um orador brilhante como Barack Obama, a quem agradeceu por ter servido como vice-presidente por oito anos. Nem um comunicador histriônico, mas habilidoso, como Trump. Ele é o que os estadunidenses chamam de “regular guy” (“cara normal”). Talvez não por acaso, aos brasileiros, “Joe” seja uma gíria para “mano”. Mas, às vezes, homens comuns são alçados por um contexto maior. Como o que pareceu se reforçar ontem, com a prisão de Steve Bannon, estrategista da exitosa campanha de Trump em 2016. De cujo governo saiu para articular uma aliança internacional da extrema-direita, inclusive com o clã Bolsonaro. E foi parar em cana por desviar recursos de um fundo para construir um muro entre os EUA e o México.

 

Antes de ser preso ontem nos EUA por fraude, Steve Bannon e o presidente brasileiro Jair Bolsonaro (Foto: Alan Santos – PR)

 

“Dê luz às pessoas. São palavras para o nosso tempo. O presidente atual deixou o país no escuro por muito tempo. Dou a minha palavra: se me levarem à presidência, serei uma fonte de luz, não de escuridão”, pregou Biden. E depois completou: “Toda eleição é importante. Mas essa é ainda mais. Chegamos a um ponto de inflexão. Tempos de perigo, e também de oportunidades extraordinárias. Podemos escolher um caminho diferente, um caminho de reformar, unir. Isso vai determinar o que os Estados Unidos serão no futuro. A decência, a ciência, o caráter. Tudo isso está em jogo”. Falou para os EUA. Que se o elegerem presidente em novembro, como indicam até aqui as pesquisas, ecoarão ao mundo.

No Brasil, por exemplo, se Biden vencer, toda a política externa do governo Jair Messias Bolsonaro (sem partido) implode.

 

Condutor de fato da política externa do Brasil, mesmo após o presidente Bolsonaro ter desistido de nomeá-lo embaixador nos EUA, o deputado federal Eduardo Bolsonaro aposta todas as fichas do governo do pai na reeleição de Trump em novembro (Foto: Paola de Orte – Agência Brasil)

 

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Pré-candidato a prefeito pelo SD, médico Bruno Calil no Folha no Ar desta 6ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta sexta (21), quem fecha a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o médico Bruno Calil, pré-candidato a prefeito de Campos pelo SD. Ele falará sobre política em tempo de pandemia da Covid-19, sobre a grave crise financeira de Campos (confira aquiaquiaquiaqui e aqui), bem como sobre a escolha do vice em sua pré-candidatura, montagem de nominata e suas projeções ao pleito municipal de outubro.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Menina estuprada e reações “cristãs” com Guiomar Valdez no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quinta (20), a convidada do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é a historiadora Guiomar Valdez, professora aposentada do IFF. Ela falará do caso da menina de 10 anos do Espírito Santo, que era estuprada desde os 6 pelo próprio tio, engravidou e recebeu autorização da Justiça para fazer aborto, passando a ser vítima de assédio por grupo ditos cristãos. Analisará também o crescimento da popularidade do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em plena pandemia da Covid-19, além da grave crise financeira e as eleições a prefeito de Campos.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

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Jair Bolsonaro nadando de braçada na popularidade e sob análise

 

Bolsonaro desfila em meio a simpatizates de máscara de proteção no queixo, chapéu de vaqueiro nordestino e a cavalo em Teresina, no Piauí, em 30 de julho (Foto: Alan Santos – PR)

 

Criticado pela péssima condução da pandemia da Covid-19 no país e por suas ligações perigosas com Fabrício Queiroz, seu amigo de longa data, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fez dos limões uma limonada. Por conta do auxílio emergencial de R$ 600 à população de baixa renda, que perdeu sua subsistência no isolamento social, o capitão hoje goza da maior popularidade desde que assumiu a presidência da República. Segundo o Datafolha, instituto de pesquisas antes atacado e hoje celebrado pelos bolsonaristas, o “mito” destes tem seu governo hoje avaliado como bom ou ótimo por 37% dos brasileiros.

Por outro lado, para evitar as perguntas sem resposta sobre Queiroz, desde que este foi preso, seu amigo passou a evitar o cercadinho do Alvorada. E, calado, sem criar uma nova crise a cada declaração polêmica, diminuiu também sua rejeição. Este bom momento do presidente, que o afasta da ameaça de impeachment, vai durar até 2022? Pode ainda melhorar? Para tentar responder estas e outras perguntas, este painel ouviu, em ordem alfabética, o historiador Arthur Soffiati, professor da UFF-Campos; o colunista da Folha Murillo Dieguez, especialista em pesquisas; e o sociólogo Roberto Dutra, professor da Uenf. O primeiro foi crítico: “o rei está nu por baixo de um roupão roto”. Murillo ressalvou que “a única coisa certa é a incerteza”. Já Roberto, mesmo sendo de esquerda, apostou: Bolsonaro “é cada vez mais favorito para se reeleger em 2022”.

 

Historiador Arthur Soffiati, especialista em pesquisas Murillo Dieguez e sociólogo Roberto Dutra (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Folha da Manhã – Como 37% de bom e ótimo na última pesquisa Datafolha (confira aqui) realizada nos últimos dias 11 e 12, e divulgada no dia 14, Jair Bolsonaro (sem partido) atingiu a maior aprovação popular do seu governo, com 37% de bom e ótimo. Credita isso ao auxílio-emergencial, ao sumiço do presidente do cercadinho do Alvorada após a prisão de Queiroz, ou a algum outro fator?

Arthur Soffiati – Um só fator não basta para explicar. Considero fundamental sua mudança de atitude. De incendiário, ele passou a vulcão adormecido. Digo isso porque ele pode entrar em erupção novamente. Credito a mudança primeiramente ao desejo de se reeleger. Os conselheiros são importantes. O caso Queiroz deu uma esfriada nele. Suspeito de algo mais profundo que pode comprometê-lo e à sua família. Melhor um comportamento mais moderado para esfriar o ataque adversário. Melhor deixar os apoiadores fanáticos meio órfãos por enquanto. Melhor investir no auxílio emergencial.

Murillo Dieguez – Entendo que foi um pouco de tudo: cercadinho, auxílio emergencial, fuga às respostas constrangedoras sobre Queiroz, segurada nas colocações ácidas nas redes sociais e um dado pouco percebido: o ataque implacável da mídia, que parece que tem mais o ajudado do que prejudicado. Tendemos, por natureza, a ser solidários com quem apanha muito, principalmente se o ataque sugere perseguição. Outra questão é um pressuposto clássico em avaliações de pesquisa: o efeito teflon. Quando a panela é nova, o ovo não gruda. Arranha um pouco a panela, continua não grudando, até começar a grudar.

Roberto Dutra – Acredito que estes dois fatores explicam boa parte do aumento da popularidade de Bolsonaro. O auxílio emergencial demarca uma mudança de orientação, cuja continuidade é incerta. O benefício tem um impacto positivo inegável. O sumiço do presidente do cercadinho do Alvorada reforça essa mudança. O que se delineia é um arrefecimento da guerra cultural e a mudança do eixo do governo para a entrega de resultados econômicos e sociais. Mas o presidente também vem ganhando a batalha da comunicação. Bolsonaro sabe fazer política, embora com um modus operandi diferente de todos os outros presidentes.

 

Bolsolula, personagem criado pelo cartunista André Guedes (clique na imagem para assistir à animação)

 

Folha – O governo mandou a proposta de auxílio emergencial de R$ 200, que o Congresso elevou a R$ 500 e o presidente, para ter a palavra final, subiu a R$ 600. Bolsonaro airou no que viu e acertou no que não viu? Roubou o antigo eleitor petista do Bolsa Família, sobretudo no Nordeste, que não votou no capitão em 2018? Como mantê-lo até 2022?

Arthur – Ele não é um bom estrategista, embora militar. Mas não creio que atirou no que viu e acertou no que não viu. Ele está ouvindo mais os conselheiros. O auxílio emergencial não parece estratégia dele, mas aceita por ele por alguém mais experiente em política. Se ele tem estratégia, esta é a reeleição. As táticas parecem vir dos experientes. Convém tirar voto do PT em território inimigo. Essa é uma tática meio estranha para ele, acostumado ao confronto. Creio em outros por trás dele.

Murillo – Não considerar que ele é intuitivo é desconsiderar sua trajetória. Tudo indica que tem uma estratégia coordenando suas ações. Se é por ter aumentado para R$ 600, o fato de ter “roubado” o discurso da Câmara, não sei, embora seja provável. Mas é pacífico que o auxílio emergencial está na sua conta. E é uma bomba atômica para elevar a popularidade de qualquer político. Aumentou consideravelmente o poder de compra. Esse eleitor é pragmático e muda à medida das voltas que a vida dá. Quanto a 2022, tem muita água para passar debaixo da ponte.

Roberto – Não subestimo a capacidade política de Bolsonaro. Acho isso um erro infantil. Acredito que ele sempre soube que política de transferência de renda seria um trunfo para o eleitorado pobre e, no contexto atual, de classe média. Na campanha ele falou em um “13º” do Bolsa Família. Com a pandemia, foi forçado a isso e transformou constrangimento em oportunidade. O aumento de popularidade entre os mais pobres indica o acerto. Mas não se pode dizer que ele roubou o eleitor petista do Bolsa Família. Isso ainda não está consolidado. Sem emprego e salário, quais parcelas da população continuarão leais ao presidente?

 

Otto Von Bismarck, unificador da Alemanha no séc. 19

 

Folha – Desde sua fundamentação por Bismarck no século 19, o conceito da realpolitik é analisado na academia. Sua tradução real não é esse eleitor do Bolsa Família, que migrou ao auxílio emergencial? Como é o Centrão, ao qual Bolsonaro sempre pertenceu como deputado e agora, como presidente, cooptou para impedir o impeachment e isolar Rodrigo Maia no Congresso?

Arthur – Quem nasceu para Recruta Zero nunca chega a Bismarck. Bolsonaro disse que o negócio dele é matar, não salvar. Não creio que seja ele a buscar espontaneamente o apoio do Centrão, mas deste convidá-lo a votar para a casa de onde saiu e onde foi sempre um morador obscuro. É como se o Centrão dissesse: “Capitão, cala a boca e deixa que nós cuidamos”. Depois, a gente manda a conta. Ele urrou muito, mas agora está rouco.

Murillo – Em relação aos beneficiários do “Bolsa Capitão”, estão raciocinando com o estômago. Embora pragmáticos, estão longe do conceito estrito da realpolitik. Já o Centrão o pratica com muita competência. Por mais que digam que Bolsonaro joga para 2022, vejo suas mudanças de comportamento com o monstro do impeachment assustando sua cadeira. Tinha que estancar a queda. Com 37% de bom e ótimo todos vão enfiar a viola no saco. Quanto a isolar o Rodrigo Maia, tudo que o presidente não perdoa é que o contrariem e não o obedeçam cegamente. A história está aí, cheia de exemplos. Vide Moro, Mandetta e outros.

Roberto – O Centrão apostou na capacidade do presidente de reorientar seu governo para a entrega de resultados econômicos e sociais e para o arrefecimento da guerra cultural. A saída de Sérgio Moro facilitou a reaproximação com o Congresso. A realpolitik dessa reaproximação é a mesma do auxílio emergencial. Bolsonaro percebeu que o auge da guerra cultural passou. E que escalar o confronto antissistema não o levaria a bom termo. Com o afastamento do risco de impeachment, a questão é se essa reaproximação com o Congresso dura até 2022. O mesmo vale à aproximação com o eleitorado mais popular que votou no PT em 2018.

 

Economista inglês John Maynard Keynes, cujas ideias geraram o New Deal com que os EUA se recuperaram da Grande Depressão de 1929

 

Folha – Ao tomar gosto pelo assistencialismo, Bolsonaro abandona a pauta liberal que usou para se eleger em 2018? O gasto público não é realmente o mais apropriado em tempo de crise, como preconizava Keynes? Se mantido após a pandemia, por que esse resgate nacional-desenvolvimentista não redundaria mais uma vez na grave recessão das “ressacas” do “Milagre Econômico” da ditadura militar, ou da “Nova Matriz Econômica” de Dilma?

Arthur – De fato, nota-se que Bolsonaro está se afastando da pauta liberal de Paulo Guedes, mas não está caminhando na direção de Keynes, economista que sabia muito bem a importância do investimento público para salvar o capitalismo do nazifascismo e do comunismo, além de conquistar o apoio popular. O descuido com a pauta neoliberal de Guedes parece patente, mas não é estratégica e, sim, tática. Essa postura pode levar o país à bancarrota numa perspectiva de médio prazo. Mas, para fins eleitorais em curto prazo, parece o caminho que ele deseja trilhar, contrariando promessas de campanha. A realpolitik dele é míope.

Murillo – É confessa a falta de profundidade do presidente com os fundamentos econômicos, vide a criação do “Posto Ipiranga”. Por outro lado, há o populismo na veia. Com o resultado que está dando, difícil retroceder. É inegável a necessidade de uma reforma profunda da máquina pública, do ataque aos privilégios. Pressupõe enfrentamento hercúleo e vai no sentido inverso do populismo e do assistencialismo. Nada leva a crer que haverá grandes avanços dessas imperiosas reformas. As experiências anteriores da política nacional-desenvolvimentista terminaram em décadas perdidas. Mas, o tempo é o senhor da razão.

Roberto – Aumento do gasto público não é, por si só, política nacional-desenvolvimentista. A ditadura militar tinha muito mais clareza sobre isso que o governo Dilma, cuja aventura nacional-desenvolvimentista nunca passou mesmo de aventura. O governo Lula 2 e Dilma não fizeram nacional-desenvolvimentismo, mas nacional-consumismo, keynesianismo vulgar. O aumento do gasto é fundamental na crise, e é o que tem sido feito no mundo todo. O período de maior crescimento da economia brasileira ocorreu entre 1930 e 1980, sob o nacional-desenvolvimentismo. Bolsonaro não tem uma agenda nesta direção. O que ele pretende é simplesmente gastar mais. Isto não é nacional-desenvolvimentismo. É a continuidade do keynesianismo vulgar que sacramentou o fracasso da política econômica petista.

 

Outdoor do “Milagre Econômico” do Brasil nos anos 1970, cuja consequência ao país foi a hiperinflação nos anos 1980, que só seria controlada pelo Plano Real em 1994

 

Folha – Bolsonaro apostou no negacionismo da Covid-19, que chamou de “gripezinha”. E já matou mais de 107 mil brasileiros, marca superada no mundo apenas pelos EUA governados por Donald Trump, em quem se espelha. “Às favas com os escrúpulos de consciência”, como o ex-ministro Jarbas Passarinho ao assinar o AI-5, R$ 600,00 é o preço político dessas vidas?

Arthur – Bolsonaro é muito canhestro para lidar com situações inesperadas. Como disse, é um péssimo estrategista. Nasceu para ser comandado, não para comandar. Está sendo um péssimo comandante na guerra contra a Covid-19, tanto em palavras como em atos. Ele falou o quis. Foi desumano e cruel. Continua sendo. Aconselhado a mudar, ele não sabe como. É completamente desajeitado com os pronunciamentos. A pandemia mostrou seus limites como chefe de uma nação. Se o auxílio emergencial melhorou sua imagem é porque a maioria da população brasileira é carente. Falta a ela educação política. Assim, o pouco se torna muito.

Murillo – Seu negacionismo prejudicou a formação de um discurso nacional ao enfrentamento à Covid. Mas, a decisão do STF, dando aos governadores e prefeitos a condução das ações, tirou de suas costas a responsabilidade. Com a aprovação do decreto de crise pelo Congresso, não faltaram recursos aos estados e municípios. O Brasil começou tarde a enfrentar o problema. Aqui, fica tudo para depois do Carnaval. Sou dos que acham que Bolsonaro não é o responsável pelas 107 mil mortes. Entretanto, sua falta de empatia e solidariedade com as vítimas são injustificáveis. Essa postura foi determinante à queda de popularidade.

Roberto – Maquiavel dizia que as pessoas esquecem mais rapidamente a morte de seus pais que a dilapidação de seu patrimônio. Em um país que, no dizer de Darcy Ribeiro, sempre foi uma “máquina de moer gente”, a aposta de Bolsonaro é macabra: pagar um preço político baixo pelas dezenas de milhares de vidas e ainda colher frutos adicionais. Mas parece realmente funcionar.

 

Ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff também foram avaliados pelo Datafolha no mesmo período de Bolsonaro

 

Folha – Pelo Datafolha, os 37% de Bolsonaro são superiores aos 30% de ótimo e bom de FHC em junho de 1996 e aos 35% de Lula, em agosto de 2004. Mas é inferior aos 62% de Dilma em agosto de 2012. Com o que hoje sabemos, o que esperar da fotografia do momento para o futuro? E é irônico ver os bolsonaristas divulgando a Datafolha nas redes sociais?

Arthur – Os bolsonaristas rejeitam pesquisas de opinião pública, se elas mostram o que lhes desagrada, mas, como todo político de esquerda, centro e direita, divulgam-no com caixa de ressonância, caso elas sejam favoráveis. Dilma conseguiu 62% e acabou impedida de governar. Ainda ressoam em mim as palavras de sabedoria da velha raposa política Manoel Gonçalves: “eleitor é velhaco”. Não se deve surfar na onda dos bons resultados. Eles podem mudar rapidamente. Enfim, apesar da mudança, ainda vejo que o rei está nu por baixo de um roupão roto.

Murillo – Qualquer análise agora sobre o futuro é prematura. Muita coisa vai acontecer e estes números de aprovação de hoje só servem para tirar de cena o impeachment. O jogo ainda vai começar. Meu sentimento é de que, quando a Covid sair da mídia, os reais problemas irão aparecer. Tempos ainda mais difíceis virão. Dilma tinha quase o dobro de aprovação dos outros e terminou afastada. Pesquisa é fotografia. Registra o momento. Quem assegura que Bolsonaro bateu no teto? E se ele crescer mais? Como será o dia seguinte pós-coronavoucher? Como administrar R$ 800 bilhões de déficit? Enfim: a única coisa certa é a incerteza.

Roberto – É irônico ver os bolsonaristas divulgando o Datafolha e apoiando uma mega política de transferência de renda sem condicionalidades. Eu diria que já temos algumas fotografias que nos permitem rascunhar um roteiro favorável a Bolsonaro, que na minha visão é cada vez mais favorito para se reeleger em 2022. Se algo vier a atrapalhar este roteiro rascunhado nesta fase da pandemia, será apenas a ação do próprio presidente. Não me parece que a oposição, seja de esquerda, seja de centro-direita, possa adquirir o protagonismo que não teve até aqui.

 

Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

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Crise financeria de Campos e alternativas com Igor Franco no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quarta-feira (19), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o especialista em finanças Igor Franco, professor da Estácio. Ele falará sobre o abandono da pauta liberal pelo governo Jair Bolsonaro (sem partido), da grave crise financeira de Campos (confira aquiaquiaquiaqui e aqui) e alternativas para tentar sair dela, além de dar suas projeções para as eleições de prefeito e vereador, em novembro.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Desembargador José Motta convidado para vice da pré-candidatura de Caio

 

Jose Motta Filho e Caio Vianna (Foto: Divulgação)

Desembargador aposentado do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ), José Motta Filho foi convidado para ser o vice da pré-candidatura de  Caio Vianna (PDT) a prefeito de Campos. Ele não se definiu, mas as chapas são serão homologadas nas convenções partidárias, entre o dia 31 deste mês e 16 de setembro.

Quem revelou o convite a José Motta foi o próprio Caio, quando perguntado se teria sondado a composição de chapa com o empresário Frederico Paes (MDB). Ontem, este confirmou (confira aqui) que será vice na pré-candidatura a prefeito do deputado federal Wladimir Garotinho (PSD).

Antes de fechar com o representante do clã Garotinho, Frederico disse que também tinha conversado nesse sentido com Caio e com o deputado estadual Rodrigo Bacellar (SD), que lançou no dia 6 (confira aqui) a pré-candidatura a prefeito do médico Bruno Calil (SD). E forçou o retorno de Wladimir à disputa eleitoral de novembro, já que, sem o apoio do SD, a opção da pré-candidatura garotista a prefeito do ex-vereador Fábio Ribeiro (PSD, confira aqui) ficou politicamente enfraquecida. Antecipada pelo blog, essa leitura foi ontem confirmada por Frederico.

Procurado desde ontem, Rodrigo negou que tenha convidado Frederico para compor a chapa do SD. Mas preferiu, pelo menos por ora, não dar maiores detalhes. Por enquanto, a pré-candidatura a prefeito de Bruno permanece sem vice conhecido. Caio, por sua vez, respondeu ao blog:

— A única pessoa que convidei para ser o meu vice nessa eleição foi o desembargador José Motta Filho, que tem uma longa relação com meu pai (o ex-prefeito Arnaldo Vianna, PDT) e com toda minha família.

Natural de São Martinho, na Baixada Campista, José Motta é uma figura querida e respeitada em toda a comunidade. Se aceitasse, daria o equilíbrio de uma “cabeça branca” à pré-candidatura do jovem pedetista.

 

Atualizado às 21h55 para correção de informação.

 

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Frederico Paes aceita ser vice na pré-candidatura a prefeito de Wladimir

 

Frederico Paes disse “sim” a Wladmir (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Que o deputado federal Wladimir Garotinho (PSD) retomou sua pré-candidatura a prefeito de Campos, não é novidade Este “Opiniões” havia adiantado isso aqui, em primeira mão, desde 6 de agosto. A novidade é que o empresário Frederico Paes (MDB), da Coagro e do Hospital Plantadores de Cana (HPC) aceitou ser o vice em sua chapa, que depende de homologação nas convenções partidárias entre dia 31 deste mês e 16 de setembro. Anunciado pela assessoria de Wladimir, o fato foi confirmado ao blog pelo próprio Frederico:

— Eu e Wladimir temos conversado há cerca de um ano sobre essa possibilidade. E, na última sexta-feira (14), após quatro horas de conversa, eu resolvi aceitar. Até por conta dessa série de matérias que você tem feito no blog e na Folha, ouvindo vários atores da sociedade sobre a grave crise financeira de Campos (confira aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), a gente sabe da gravidade do problema. A receita para resolver é simples. Agora, é fácil de fazer? Não! Para isso nós precisamos de união, de um pacto. Wladimir tentou fazer isso antes do pleito. Mas, como ele mesmo disse, as vaidades políticas não deixaram. Mas se isso não se viabilizar após a eleição, não tem saída para Campos.

Perguntado se o atraso no pagamento da complementação dos hospitais contratualizados tinha influído para aceitar ser vice da pré-candidatura a prefeito de Wladimir, Frederico disse que não. Mas disse que entra para tentar contribuir com sua experiência à frente do HPC:

— Acho que tenho cara de vice. Como estava conversando com Wladimir e também fui chamado por Caio Vianna (pré-candidato a prefeito do PDT) e Rodrigo Bacellar (SD, deputado estadual, que lançou a pré-candidatura a prefeito do médico Bruno Calil) para conversar sobre a possibilidade de composição de chapa, eu me afastei há cerca de um mês da direção do Plantadores, para não haver conflito. A dívida que ele e os hospitais contratualizados têm não interferiu na minha decisão final. Mas claro que minha experiência como gestor hospitalar pode ser aproveitada quando chegar o momento de apresentarmos nossas propostas para a Saúde da cidade. Os hospitais contratualizados são um patrimônio de Campos, que têm que ser usados de maneira inteligente, não da maneira que têm sido. Evidente que sem perder de vista que a única solução para o município será apertar o cinto.

 

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Presidente da CDL fala de crise econômica e alternativas no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta terça (18), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o empresário José Francisco Rodrigues, presidente da CDL-Campos. Ele falará sobre a reabertura do comércio local no contexto do combate à pandemia da Covid-19, da grave crise financeira do município e suas alternativas, além de avaliar como o setor produtivo de Campos enxerga as eleições a prefeito e vereador de novembro.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Atafona, poesia, fake news, jornalismo e crescimento de Bolsonaro visto antes

 

(Arte: Centro Cultural Marcelo Sampaio)

 

“Live é o cacete!”, como classificou o jornalista Ancelmo Gois e o professor de História e pesquisador Marcelo Sampaio gosta de repetir. Assim, tomo a liberdade de deixar aqui no blog o bate-papo promovido pelo Marcelo, na programação do seu Centro Cultural, que me trouxe como convidado na noite da última segunda (10). Falamos sobre várias coisas: Atafona, poesia, a peça “Pontal”, cães, cinema e cineclubes, cultura goitacá, jornalismo, minha atuação profissional na Folha FM, conservadorismo bolsonarista, erros da esquerda, pauta identitária, política nacional, corrupção no Estado do Rio e eleições a prefeito de Campos. Deu até para antever e explicar o avanço da popularidade do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que só se tornaria conhecido três dias depois, na quinta (13), com a divulgação (confira aqui) da última pesquisa Datafolha.

Pela variedade de temas, a entrevista acabou ficando maior que de costume, com pouco mais de 2h30. Quem tiver tempo, interesse e paciência, não sem o agradecimento ao Marcelo pela oportunidade, segue sua íntegra no vídeo abaixo:

 

 

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Uenf, crise de Campos e alternativas com Alcimar Ribeiro nesta 2ª no Folha no Ar

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta segunda-feira (17), quem abre a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o economista Alcimar Ribeiro. Ele falará sobre o aniversário de 27 anos da Uenf (confira aqui), onde leciona, da crise financeira de Campos e das alternativas para sair dela. Analisará ainda o inédito zero de participação especial de petróleo (confira aqui) ao município em agosto e nossa dependência dos recursos do petróleo, além da mudança da política econômica do governo Jair Bolsonaro (sem partido), da agenda liberal que ajudou a elegê-lo em 2018 para (confira aqui) o nacional-desenvolvimentismo que resgastou sua popularidade com o auxílio emergencial dos R$ 600,00.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Crônica — Crise de Campos, golpe de mestre de Bolsonaro e eleição a prefeito

 

 

— E a eleição a prefeito, finalmente está esquentando? — abriu os trabalhos Castelo, antes molhar a garganta com a cerveja, na primeira visita ao botequim após a flexibilização.

— Está, sim. Mas o principal problema de Campos não é político, é econômico. Desde que fomos elevados à condição de cidade, há 185 anos, talvez seja a nossa pior crise financeira — respondeu Aníbal, antes de também matar a saudade não da cerveja, mas do seu gosto. Que, no boteco, é sempre diferente.

— É verdade. Zero de participação especial de petróleo em agosto. É de dar medo do que vem pela frente.

— Pois é, por terem começado a ser pagos bem antes, os royalties se enraizaram no linguajar do campista. Mas desde que as participações especiais trimestrais vieram em 2000, a cidade sempre arrecadou bem mais com elas. E foi a primeira vez na história que não recebeu nada.

 

(Foto: Petrobras)

 

— E o que esperar disso tudo?

— Só dá para saber três coisas. A primeira, é que será muito ruim. E a segunda, que vai piorar muito antes de melhorar.

— E a terceira?

— A terceira é que o atraso nos pagamentos dos RPAs e dos servidores aposentados e pensionistas é só a ponta do iceberg.

— Vai ser igual ao Titanic?

— Campos não pode simplesmente afundar. Mas está fazendo água para todos os lados. E o discurso dos servidores municipais que são contra o enxugamento, até nos equipamentos, ou o dos empresários que são contra o aumento da carga tributária, terá que se dobrar à realidade.

— Como assim?

 

 

— Servidores e empresários estão legitimados pela luta de classes. Mas o diálogo que a crise financeira vai impor sobre eles, no lugar do “farinha pouca, meu pirão primeiro” de sempre, será aquele da cena dos músicos enquanto o navio afunda no filme de James Cameron: “Foi uma honra ter tocado com vocês”.

— Lançou Di Caprio ao estrelato, em par romântico com Kate Winslet, com quem corneia o personagem babaca do Billy Zane.

— Da realidade goitacá às telas de Hollywood, quem ignorar a primeira deveria rever a cena final de “Butch Cassidy”. Lembra? Os dois já baleados, saindo da casa em que se abrigaram com os revólveres em punho, enquanto lá fora, armado de fuzis, espera todo o exército boliviano. A situação econômica de Campos é mais ou menos aquilo.

— É um filmaço. Inaugura Paul Newman e Robert Redford como “par romântico” do cinema. Que depois seria repetido pelo mesmo diretor George Roy Hill em “Golpe de Mestre”. Aliás, é um título sugestivo. De quem será o golpe de mestre nessa história toda?

— Por enquanto, é de Bolsonaro. Foi eleito presidente como o “Trump do Brasil” e tem, depois do original nos EUA, a pior condução da pandemia da Covid em todo o mundo, com mais de 105 mil mortos. E, ainda assim, agora aparece na Datafolha com 37% de ótimo e bom, maior aprovação popular do seu mandato.

 

(Foto: Smialowski – AFP)

 

— E, ironicamente, foi fruto do auxílio emergencial de R$ 600 para a pandemia, que o governo propôs para R$ 200, o Congresso elevou para R$ 500 e Bolsonaro, só para dizer que teve a palavra final, colocou em R$ 600. Atirou no que viu e acertou no que não viu. Mas gostou, vai manter e mandar às favas a agenda liberal de Paulo Guedes, que usou para se eleger.

— Liberal que acreditou no liberalismo de quem propôs fuzilamento de FHC por conta das privatizações, é burro, mau caráter, ou as duas coisas. Mas a pesquisa foi fruto também da queda na rejeição, que só aconteceu quando Bolsonaro sumiu do cercadinho do Alvorada e calou a boca, com medo de ter que responder a perguntas sobre a prisão de Queiroz. Mas ironia por ironia, quer uma melhor? É ver bolsominion postando a Datafolha nas redes sociais.

— Esse povo não se cansa de passar vergonha! — disse Castelo, gargalhando e se engasgando com a cerveja.

— Quer outra? Sem querer, Bolsonaro herdou o eleitor do Bolsa Família do PT, sobretudo no Nordeste, que não votou nele em 2018. Mas que também nunca foi de esquerda. São tão pragmáticos quanto o Centrão. Ao qual o capitão sempre pertenceu como deputado e agora, como presidente, cooptou para evitar o impeachment no Congresso e isolar Rodrigo Maia.

— É a tal da realpolitik do velho Otto Von Bismarck. Que depois foi traduzida por Jim Carville, estrategista da primeira eleição de Bill Clinton a presidente dos EUA: “É a economia, estúpido”.

 

 

— Verdade. Só que é economia do bolso a curto prazo. Se der ruim a médio e longo, como foi com o PT a partir do segundo governo Lula e o desastre de Dilma, vai boi, corda e tudo.

— Mas o grande John Keynes aprovaria essa política de abrir os gastos públicos em tempo e crise. Que Bolsonaro quer fazer para mergulhar de cabeça no populismo, como Lula.

— O negócio não é nem gastar, mas como e em quê. Mas mesmo que ele tenha sido o grande teórico do gasto público para girar a economia e sair da crise, como Roosevelt fez com o New Deal nos anos 30, para superar o Crash de 29, tenho sérias dúvidas se Keynes aprovaria Bolsonaro.

— De volta ao nosso canavial, e em Campos, de quem será o golpe de mestre?

— Forçado por Rodrigo ao lançar Calil, se Wladimir sair candidato a prefeito e ganhar, seria de Garotinho. E, se vier, o filho tem passagem quase garantida ao segundo turno.

— Mas no segundo turno pode perder para Caio. Ou alguém com rejeição mais baixa. A melhor chance de Wladimir seria contra Rafael. E vice-versa. Além do que, se ganhar, Wladimir pode perder mesmo assim. Deixaria seu bom mandato em Brasília para herdar o abacaxi que os pais plantaram.

— Aí é o que disse George W. Bush, ex-presidente dos EUA e filho de outro, em raro momento de sabedoria: “O futuro é algo que veremos amanhã” — proclamou Aníbal, enquanto tomava outro gole de cerveja, antes de observar a marca da espuma descendo lenta pela lateral interna do copo, até o fundo quase vazio.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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Bruno Calil, pré-candidato a prefeito: “Crise de Campos não me dá medo”

 

Após vários nomes cogitados, o médico Bruno Calil (SD) foi o primeiro a ser formalmente apresentado como pré-candidato a prefeito pelo grupo político do deputado estadual Rodrigo Bacellar (SD). A certeza, como com todos os demais prefeitáveis, só se terá a partir da homologação das candidaturas entre 31 deste mês e 16 de setembro. Bruno chega com o discurso de confiança à disputa: “Confio muito em nosso projeto, quem sabe não podemos surpreender e vencer no primeiro turno?”. Tanto que, como o blog Opiniões adiantou desde 6 de agosto, a sua pré-candidatura deve trazer de volta ao páreo (confira aqui) o deputado federal Wladimir Garotinho (PSD). Cujo líder e pai, o ex-governador Anthony Garotinho (sem partido), chegou a conversar com Rodrigo. Anunciado depois disso, Bruno aposta na pacificação: “Chega de prejudicar a cidade por conta de brigas políticas”. Mas, ao mesmo tempo, ressalta sua diferença com prováveis adversários: “Eu não sou o filho do Garotinho, o filho do Arnaldo, nem o neto do Zezé Barbosa”. Ele admite o grave quadro financeiro do município que pretende governar, mas usa sua trajetória pessoal como exemplo para superá-la: “A crise de Campos não me dá medo. A vida inteira encarei de frente todas as dificuldades e dessa vez não será diferente (…) A situação não é fácil, é grave, mas Campos sairá da UTI”.

 

(Foto: Rodolfo Lins)

 

Folha da Manhã – Você é o quinto pré-candidato a prefeito de Campos do SD, depois do juiz aposentado Pedro Henrique Alves, dos médicos Cândida Barcelos e Eduardo Terra, além do vereador Igor Pereira. Como analisa estes nomes e o que o seu traz de diferença?

Bruno Calil – Deixa eu contar um pouco da minha trajetória. Sou nascido e criado em Murundu, cresci em Vila Nova, vivi no interior. Desde criança lidei com as dificuldades e aprendi a dar valor ao estudo e ao trabalho. Trabalhei desde os 11 anos ajudando o meu pai na padaria e sempre precisei custear o meu sonho de me formar em medicina. Por ter passado por tudo isso, eu sei exatamente o que a população de Campos sente e precisa. Nós atravessamos o pior momento econômico da história. E foi nesse momento que eu escolhi ajudar a cidade. Sobre a minha indicação, não vejo como uma competição pelo primeiro lugar. Os nomes do nosso grupo demonstram a nossa força política. São pessoas muito capacitadas e com muita vontade de ajudar. Estou muito feliz que eles tenham apoiado a escolha do meu nome e estejam ao meu lado nessa caminhada.

 

Folha – Antes de lançar seu nome a prefeito e mesmo de sondar os anteriores, o deputado estadual Rodrigo Bacellar (SD) era considerado o principal articulador da pré-candidatura de Caio Vianna (PDT). Em entrevista ao Folha no Ar, da Folha FM 98,3, o vereador Ivan Machado (PDT) disse que essa ruptura entre os dois poderia ser revista. Como você avalia?

Bruno – Rodrigo disse várias vezes que não há nenhuma mágoa com Caio, que a separação foi amigável. São visões diferentes, pode não ter dado química. O nosso grupo como um todo definiu que o melhor projeto seria uma candidatura própria. Caso o PDT queira apoiar a nossa candidatura, será bem-vindo. Não descartamos conversar em um eventual segundo turno. É a velha máxima, ser adversário é bem diferente de ser inimigo.

 

Folha – Cogitado (confira aqui) como pré-candidato a prefeito do PSD, o ex-vereador Fábio Ribeiro disse também ao Folha no Ar que o grupo político dele estava (confira aqui) conversando com o seu. Consta que Rodrigo teria chegado a falar por telefone com o ex-governador Anthony Garotinho. Como sua pré-candidatura foi lançada depois disso, ela quer dizer que não há mais possibilidade de aliança do seu grupo com o garotismo? Ela chegou a existir?

Bruno – O interesse de outras correntes partidárias em ter uma aliança com o nosso grupo político só demonstra a nossa força. Política é a arte de conversar, estaremos sempre de portas abertas para discutir o melhor para Campos, em torno de projetos benéficos para o município. Brigas, fofocas, ataques, picuinhas não vão fazer uma Campos melhor. Chega de prejudicar a cidade por conta de brigas políticas. É hora de pensarmos no futuro da nossa cidade, de oferecer algo novo à população que, tenho certeza, não aguenta mais esse clima de guerra. Nossa candidatura é uma candidatura que apresenta à população algo novo. Nunca fiz carreira política, nem ninguém da minha família. Eu não sou o filho do Garotinho, o filho do Arnaldo, nem o neto do Zezé Barbosa. Sou aquele cara do interior que teve poucas oportunidades, mas conseguiu um lugar ao sol à custa de muito suor. Com relação à ligação do Garotinho, tenho certeza de que Rodrigo atendeu de forma cordial e educada. Não houve nada além disso.

 

Folha – No lançamento da sua pré-candidatura, o blog Opiniões adiantou que ela poderia forçar Wladimir a voltar ao páreo pela Prefeitura, pela impossibilidade de fortalecimento de Fábio. E que este movimento seria uma aposta de Rodrigo, de que Wladimir perderia para prefeito em um eventual segundo turno, na tradicional união de todos contra o garotismo. Como você analisa?

Bruno – O nosso grupo político lançou pré-candidatura própria por ser coeso, forte e ser capaz de fazer o melhor para Campos. Confio muito em nosso projeto, quem sabe não podemos surpreender e vencer no primeiro turno? Acredito muito na força do trabalho e na nossa capacidade nas urnas. Com relação aos movimentos políticos de outros grupos, estamos muito focados em nossa candidatura, não nos cabe avaliar.

 

Folha – Caio parece apostar na baixa rejeição em um segundo turno, se comparada com ao prefeito Rafael Diniz (Cidadania) e Wladimir ou qualquer outro prefeitável que herde a rejeição de Garotinho. Menos conhecido que os três pré-candidatos, você também tem essa vantagem da baixa rejeição? Por outro lado, como se tornar conhecido, em uma campanha com contato físico limitado por conta da pandemia da Covid-19, para estar no turno final?

Bruno – Em toda a minha vida só fiz o bem e cuidei do próximo, não cultivei inimizades. A baixa rejeição citada por você reflete a minha trajetória. Talvez não seja alguém tão conhecido na “pedra”, mas no interior a população sabe quem eu sou. Tenho certeza de que todos vão me conhecer, de norte a sul do município, de Farol de São Thomé até Santo Eduardo. Todos vão conhecer as nossas propostas e entender que temos o melhor projeto para a nossa cidade. A Covid fará dessa uma campanha atípica, sem dúvida, vivemos a pior crise sanitária da história da OMS. Então, acima de tudo está a saúde da população. Vamos respeitar todos os protocolos sanitários impostos pelas autoridades durante a campanha. E, claro, estaremos presentes nos meios digitais dialogando com a população da cidade.

 

Folha – Desde a tentativa conjunta de reabrir (confira aqui) o Restaurante Popular em Campos, Rodrigo e Rafael mantêm uma relação amistosa. Como nada indica que ela tenha se rompido, a sua pré-candidatura indica também a crença nas dificuldades do prefeito em se reeleger?

Bruno – Como deputado estadual, Rodrigo sempre vai atuar a favor do município, independentemente de quem seja o prefeito, e vem fazendo isso exemplarmente. Não é porque o nosso grupo político faz oposição ao atual governo que Rodrigo vai virar as costas para o município. Não podemos ter brigas políticas que atrapalhem o desenvolvimento da nossa cidade, e Rodrigo e Rafael vêm mostrando que adversários podem conversar. Somos adversários, não inimigos.

 

Folha – Como Cândida e Eduardo, você é médico, categoria que recentemente deu a Campos dois prefeitos, Arnaldo Vianna (PDT) e Alexandre Mocaiber (sem partido), e um vice-prefeito, Dr. Chicão (SD). Como analisa o legado destes? E, respeitado o impedimento legal para se falar em projetos, o que você traria da sua experiência na medicina para gerir a cidade de Campos?

Bruno – A minha trajetória pessoal e profissional dá a população a certeza de que o seu representante saberá exatamente quais são os seus problemas e necessidades. Vivi de perto e senti na pele a maioria deles. Trabalhei a maioria desses anos nas UBS de Campos, e sei o quanto a população vem sofrendo com as gestões ruins na Prefeitura. Campos precisa de trabalho, muito trabalho. A população necessita de um gestor que saiba o valor disso, e eu fui trabalhador a vida inteira. Sobre o legado, a maioria dos governos tinha muito recurso em caixa, mas entregou muito pouco. Campos era para ser uma potência, mas a realidade é o quadro atual. Mas quem avalia é a população, que já fez o seu julgamento. E não adianta ficar olhando para trás, temos é que pensar Campos para o futuro.

 

Folha – Em painel com empreendedores sobre a crise econômica de Campos, o arquiteto Ricardo Paes Teixeira disse (confira aqui) que a situação financeira do município é como a de um paciente em estado grave numa UTI. Como gerir um município com orçamento estimado em R$ 1,57 bilhão para 2021, com R$ 1,1 bilhão já comprometido só com folha de pagamento de servidor, e após o inédito R$ 0,00 de participação especial de petróleo neste mês de agosto?

Bruno – Há vários caminhos em busca de uma solução para a cidade. Precisamos não só reduzir as despesas, é fundamental aumentar a arrecadação. Campos não pode viver eternamente do petróleo. É preciso investir no agronegócio, na agricultura familiar, atrair indústrias. A classe empresarial tem que estar por perto, ser ouvida. Investir em parcerias público-privadas, conversar com empresários de fora de Campos e dar a eles a segurança que a nossa cidade é um local atraente para investimentos. Sobre as despesas, o caminho é uma administração séria e eficiente, não podemos desperdiçar verba pública. Um bom exemplo é o contrato de aluguel de um espaço para o Restaurante Popular, onde se paga R$ 18 mil/mês e o local nunca foi utilizado. Nossa folha é enorme, mas não podemos entender que o servidor é o nosso maior problema. Eu, como servidor público, sei o quanto somos importantes para o município.

 

Folha – O Folha no Ar já ouviu vários pré-candidatos a prefeito. Quase todos afirmaram a necessidade de enxugamento da máquina pública, mas ninguém disse onde e como. De maneira objetiva, qual o seu diagnóstico, indicação de tratamento e receita de remédio?

Bruno – Ninguém melhor que um médico para tratar de um paciente na UTI. Ninguém quer tocar o dedo na ferida porque a velha política é assim. Não interessa para ela uma administração eficiente. Como disse anteriormente, o enxugamento da máquina pública passa de forma imediata por revisar as despesas desnecessárias. Não podemos achar normal um contrato de R$ 3,9 milhões para plantas ornamentais, R$ 500 mil em show de Luan Santana, R$ 40 milhões em reforma da Praça São Salvador. Tenho certeza de que há solução, basta ter coragem, vontade e quadros técnicos competentes.

 

Folha – Você tinha uma pré-candidatura a vereador considerada com boas possibilidades. O que o fez trocá-la pela de prefeito, diante da talvez maior crise financeira de Campos, em seus 185 anos de história?

Bruno – Eu refleti muito e percebi que é nesse momento que meu município mais precisa de mim. A crise de Campos não me dá medo. A vida inteira encarei de frente todas as dificuldades e dessa vez não será diferente. Essa é mais uma que iremos superar. Chegou a hora de interromper o ciclo vicioso que não está ajudando a nossa cidade, que cai nas mãos sempre dos mesmos grupos. É o momento de oxigenar a política. Eu hoje represento um grupo político preparado, com grandes nomes capacitados em todas as áreas. A situação não é fácil, é grave, mas Campos sairá da UTI.

 

Página 3 da edição de hoje da Folha

 

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