Urnas a governador e presidente no Folha no Ar desta 6ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta sexta (14), o convidado para encerrar a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o jornalista Luiz Carlos Azedo, articulista político do Correio Braziliense. Ele falará do legado do bicentenário da Independência do Brasil e do centenário do Partido Comunista Brasileiro (PSB, atual Cidadania). Analisará também o governo estadual Cláudio Castro (PL) e a eleição a governador do RJ, em outubro.

Por fim, Azedo vai analisar o governo federal Jair Bolsonaro (PL) e dará a sua projeção para a eleição presidencial, daqui a menos de 9 meses. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Cláudio Castro promete ação imediata em Barcelos e região

 

Com Cláudio Nogueira, Rodrigo Carneiro e Matheus Berriel

 

“Neste momento, a gente não vai ficar esperando. O que o Estado tiver que fazer de intervenção, ele vai fazer diretamente aqui, para que a gente possa solucionar o mais rápido possível esse problema”. Foi o que o governador Cláudio Castro disse na manhã de hoje, em entrevista ao vivo ao programa Folha no Ar, na Folha FM 98,3. Ele estava ao lado do seu secretário de Governo, e deputado estadual de Campos, Rodrigo Bacellar (SD), e de Carla Machado (PP), prefeita de São João da Barra, cujo dique do Paraíba do Sul não suportou a cheia do rio com as águas da chuva, nos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, e se rompeu na tarde de ontem, na altura de Barcelos, invadindo e interditando a BR 356, no trecho Campos/Atafona.

“Se nós precisarmos, com a nossa equipe própria, do DER, se tiver que fazer alguma contratação agora, para hoje, para começar a fechar o buraco (do dique em Barcelos) hoje, começar a ver o que dá para fazer de forma emergencial”, garantiu o governador. Mas sem dar prazo à solução do problema. Ele também vai visitar outros municípios da região castigados pela chuva, como Itaperuna e Cambuci. Castro falou da sua pré-candidatura e das eleições a governador de outubro, bem como da importância do apoio do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), nessa disputa. E ressaltou a importância do projeto Fênix, elaborado pelo setor produtivo de Campos e região, com apoio do Grupo Folha, na busca de parceria com o poder público para o desenvolvimento regional.

 

Entre seu secretário de Governo, Rodrigo Bacellar, e a prefeita sanjoanense Carla Machado, o governador Cláudio Castro visita o distrito de Barcelos, onde o dique do rio Paraíba do Sul se rompeu, provocando alagamento e a interdição da BR 356 (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

Presença e promessa de atuação imediata em SJB — Acabei de chegar aqui, estou com a prefeita Carla Machado (PP) ao meu lado, de São João da Barra. Ela já me colocou as principais questões urgentes. Também está conosco o nosso secretário de Governo, Rodrigo Bacellar, e ela (Carla) colocou as questões que são urgentes agora, dos diques, principalmente o dique que se rompeu (em Barcelos, na margem da BR 356, interditada naquele trecho) e aqueles que estão na iminência de se romper. Não adianta a gente só olhar para esse que rompeu agora e não olhar para aqueles que estão na iminência de romper, nem para os locais que ainda estão assoreados e podem causar muito estrago. Então, a gente vai agora dar uma olhada em alguns locais de rompimento. Trouxe comigo, além do secretário Bacellar, o secretário das Cidades, Uruan (Cintra); o secretário de Meio Ambiente, Thiago Pampolha; e o secretário de Defesa Civil, coronel Leandro (Sampaio Monteiro), para que a gente pudesse já dar as primeiras orientações emergenciais e já ver o que tem que ser feito ao longo dos próximos dias, para, caso novas chuvas venham, a gente não deixar a população de toda a região sofrer. Nós sabemos que não é só São João da Barra. Se esses diques romperem, vai ter um grande sofrimento na região inteira. Então, aqui é um trabalho totalmente regional. Eu falei ontem com o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, que está aguardando a gente dizer o que a gente precisa. Mas, neste momento, a gente não vai ficar esperando. O que o Estado tiver que fazer de intervenção, ele vai fazer diretamente aqui, para que a gente possa solucionar o mais rápido possível esse problema que, de ontem para hoje, se agravou muito.

Prazo para solução? — Estou chegando aqui exatamente para ver isso. Se nós precisarmos, com a nossa equipe própria, do DER, se tiver que fazer alguma contratação agora, para hoje, para começar a fechar o buraco hoje, começar a ver o que dá para fazer de forma emergencial, tem um engenheiro especialista que a prefeita contactou e está nos esperando. A gente vai conversar com engenheiros, eu também trouxe especialista do DER. A gente vai conversar agora, para ver o que dá para começar a fazer hoje e também nos próximos dias, para a gente evitar que um desastre maior aconteça.

Agenda na região afetada pelas chuvas — Sábado eu vou a Itaperuna e Cambuci. Vamos ver o que precisa lá. A primeira coisa que nós precisamos é ajeitar o que está causando prejuízo nesse momento: rompimento, limpeza. Se houver obstruções, desobstruir. Na verdade, o comitê estadual das chuvas já está fazendo isso pelo estado inteiro. Com as fortes chuvas, enche, e quando diminui a chuva, estamos entrando rapidamente em todas as cidades. Entrou em Itaperuna, entrou em Carmo, entrou em várias cidades, entrou limpando rápido, e a vida da população está voltando rápido. Isso também se dá graças ao programa Limpa Rio, em que nós limpamos rios em 35 municípios no último ano. A projeção é de, em três anos, nós conseguirmos limpar todos os rios do estado, que geram transtorno na época das chuvas. Isso já tem dado um alívio enorme, porque, além de dificultar a enchente, ajuda a desaguar mais rapidamente quando o rio está limpo. Esse foi um projeto em que, só no ano passado, o Estado investiu R$ 200 milhões, e mais R$ 50 milhões em contenção de encostas, o que fez com que o desastre fosse bem menor do que seria em outras épocas.

Reconstrução da estrutura atingida — O secretário Bacellar já está vendo diretamente isso, nós também estamos em contato com o prefeito Wladimir Garotinho (PSD). Toda a equipe do Estado já está na região desde a semana passada, vendo todas essas intervenções que têm que ser feitas. O que tiver que ser desobstruído, o que já foi, e algumas nós já estamos dando emergência agora, para já começar imediatamente a restauração. A gente sabe que leva uma semana, duas. A gente não pode abrir mão de atingir 100%, porque senão acontece o que a gente viu, no passado, acontecendo na Região Serrana. Mas, a gente está avançando rápido, fazendo todo o paliativo agora, que também é importante: abertura de vias, limpeza de vias, para que, dentro do mês de janeiro ainda, comecem os reparos.

Comitê de chuvas — O comitê de chuvas não é um comitê só de atender depois que aconteceu, ele é um comitê pensando no ano inteiro. Em 2020, assumi no final do ano, e nós atendemos a população no início de 2021. Em 2021, a primeira fase era limpeza de rios e contenção de encostas. Não adiantava fazer piscina, nada, com os rios que enchem totalmente assoreados. Então, tem que desassorear esses rios, cobrar os prefeitos que não deixem construir em lugar irregular. Não adianta ficar jogando a culpa toda na conta do Governo do Estado, os prefeitos têm que ter (essa responsabilidade). A maioria dos que estão hoje herdou isso, não estou falando que a culpa é do prefeito X, Y ou Z. Todos herdaram tudo construído à beira de rio. É demolir local em situação irregular, ter coragem de demolir, coragem de negar construção. E o Estado fazer uma contenção de encostas, fazer a limpeza de rios. Agora, com o Pacto RJ, todos os prefeitos estão tendo a oportunidade de mandar os seus projetos para o estado. A gente tem, hoje, R$ 17 bilhões para serem gastos. Todos os prefeitos, inclusive de situação, oposição, todos estão abertos para que mandem os seus projetos de acordo com as realidades locais, para que o Estado faça essas intervenções definitivas.

Assinatura do termo de compromisso com o Projeto Fênix, do setor produtivo de Campos e região, com apoio da Folha — Eu sou um entusiasta do desenvolvimento, principalmente do interior. Eu não me recordo de o interior ter um volume de investimento como já está tendo e como está previsto ter ao longo desse ano. As licitações já estão todas saindo. Há uma preocupação gigantesca com a legalidade. Não me lembro também de uma época com a cadeia produtiva sendo tão ouvida. Lembrando que de 60% a 70% do Pacto RJ são um programa da Firjan, chamado Canteiro de Obras, que eles encaminharam para nós. O resto é 100% o que os prefeitos estão colocando como prioridade nas suas regiões. Então, ele é um programa que ouve a cadeia produtiva, ouve os gestores municipais, faz uma atuação democrática do Governo do Estado. Tanto democrática nos projetos, tanto democrática no sentido de para onde o recurso vai, porque ele está indo para os 92 municípios, diferentemente do que foi feito até aqui. Então, eu acredito que ações como essa, em que a gente junta a cadeia produtiva, junta o gestor municipal, junta a política através dos deputados locais, a gente vai conseguir fazer o verdadeiro desenvolvimento, e não aquele que era pautado em pequenos interesses.

Ano eleitoral e pré-candidatura à reeleição — Eu vejo o processo eleitoral com muita tranquilidade. Um político muito antigo dizia que a urna é o julgamento do trabalho do gestor. Então, eu entendo que qualquer processo de eleição, e principalmente de reeleição, ele vem fazer esse julgamento do trabalho que foi feito. Então, aquele que não está no cargo tem que fazer crítica, tem que fazer oposição, tem que mostrar o que está errado. Ele tem que ficar fazendo campanha antecipada o tempo todo. Mas, àquele que está no cargo, o que resta é trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar. Se a população achar que aquele trabalho é bem feito, a continuidade é uma naturalidade. Papel não só meu, mas de qualquer outro. Ano retrasado teve eleição de prefeito, e nós vimos que os que trabalharam tiveram o seu processo de reeleição com tranquilidade, e aqueles que tiveram mais dificuldade não conseguiram se reeleger. Então, o papel do governador que está na cadeira, que é o meu caso, é trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar. Hoje, eu estou muito feliz por a gente ter conseguido fazer um processo de pacificação no Rio, que tinha uma questão política muito complicada. Hoje, eu dialogo com os 92 prefeitos, dialogo com praticamente os 70 deputados da Alerj, os 46 praticamente da Câmara Federal. Para você ver, eu dialogo, hoje, com Marcelo Freixo (PSB, deputado federal e também pré-candidato a governador). No final do ano, nós mandamos mensagem um para o outro. Aqui não tem inimigo, tem no máximo adversário, cada um no seu ponto de vista pessoal, político e ideológico, naquilo que acredita. Eu respeito muito as forças políticas e as bandeiras que não são as minhas. Eu não me acho o dono da verdade. Até por isso, o Rio hoje está crescendo, é o Estado que mais cresce na Federação, em virtude desse processo de união que a gente conseguiu implantar aqui.

Prefeito do Rio, Eduardo Paes, como a “noiva preferida” dos pré-candidatos a governador — Eu sou tão amigo da Cris, esposa do Eduardo, que eu não posso falar isso dele. Eduardo é um grande amigo, já de muitos e muitos anos. O primeiro voto da minha vida a vereador foi no Eduardo Paes, em 1996. Nós somos amigos desde essa época. O Eduardo é um político experiente, ele vai saber tomar a melhor decisão na hora certa. Acho que o Governo do Estado e a Prefeitura (do Rio) estão fazendo uma grande parceria. Só para a Prefeitura, agora, com a concessão da Cedae, são mais de R$ 5 bilhões, o que faz a Prefeitura conseguir levantar o caixa e levantar possibilidade de trabalhar. O Eduardo está vendo o que está sendo feito. É um amigo de muitos anos, que está vendo o que está sendo feito, e um político experiente. Acho que ele tem os ingredientes necessários para tomar a melhor decisão dele.

Restaurante Popular de Guarus, prometido para novembro passado — A nossa ideia já é inaugurar, durante este ano, os 26 (Restaurantes Populares) que faltam. Como eu falei, está tudo sendo licitado. São licitações complexas, é um volume muito grande de licitações. A gente tem Tribunal de Contas, Procuradoria, toda essa questão. O Pacto RJ tem uma coisa principal, que é a transparência. Então, esse processo de transparência, para que a gente não passe de novo o que passou no passado com casos de corrupção, com casos de decepção. Pior do que a corrupção é a decepção que ela causa na população. Isso, às vezes, faz a coisa demorar um pouquinho mais. Mas, é o respeito ao dinheiro do contribuinte, é o respeito à ética, que não tem que ser exaltada pelo político, mas tem que ser uma condição mínima para ele começar o trabalho.

Necessidade de visita da secretaria estadual de Saúde para liberar pagamento de seis Estratégias de Saúde da Família (ESF’s) — Vou falar com o secretário (estadual de Saúde, Alexandre) Chieppe hoje. Saúde para a gente é prioridade. Só no final do ano foi mais de R$ 1 bilhão transferido para que os municípios possam investir em atenção básica. Eu sou um fã, sou entusiasta da atenção básica. Por isso, transferi o recurso fundo a fundo, para os municípios. A gente sabe que, quando a atenção básica funciona, impacta menos nos hospitais e sobra mais recurso para que a gente possa investir mais ainda na atenção básica. Então, a atenção básica é a verdadeira solução para que a gente possa ter uma saúde pública melhor.

 

Confira no vídeo abaixo a íntegra da entrevista do governador Cláudio Castro ao Folha no Ar da manhã de hoje:

 

 

Com o dique de Barcelos rompido e a BR 356 interditada naquele trecho, confira abaixo as duas rotas alternativas entre os municípios de Campos e São João da Barra:

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

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Lula segue muito bem e Bolsonaro mal na 1ª pesquisa de 2022

 

Primeira pesquisa presidencial de 2022, a Genial/Quaest continua apontando a possibilidade de vitória do ex-presidente Lula (PT) ainda no primeiro turno. Com 45% de intenções de voto na pesquisa estimulada, ele segue liderando a corrida com folga. E é seguido pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), com 23%; pelo ex-juiz federal Sergio Moro (Podemos), com 9%; pelo ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT), com 5%; pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB), com 3%; e pela senadora Simone Tebet (MDB), com 1%.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza o Cássio Jr.)

 

Descontado o total de 12%, entre os 8% de brancos e nulo e os 4% de ainda indecisos, Lula se elegeria presidente em turno único, com 51,4%. Ele também venceu todas as simulações da pesquisa ao segundo turno. Nele, o petista bateria Bolsonaro por 54% a 30%, Moro por 50% a 30%, Ciro por 52% a 21% e Doria, por 55% a 15%.

 

 

A economia (desemprego, inflação e crescimento econômico) foi apontada como principal problema do país para 37% dos brasileiros. Já para 28%, é a saúde e a pandemia da Covid, enquanto 13% apontam as questões sociais (fome, pobreza, desigualdade e habitação) e apenas 9% a corrupção. É uma grande inversão de prioridades entre o eleitor brasileiro entre 2018 e 2022.

 

 

Símbolo da luta contra a corrupção na história recente do país, como figura de proa do julgamento e condenação do Mensalão do governo Lula, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa, segundo o jornalista José Amado, declarou que votaria no petista num eventual segundo turno contra o atual presidente da República. Para o ex-ministro do STF: “Bolsonaro é abjeto”.

 

 

O capitão tem seu governo avaliado como negativo por 50% dos brasileiros, enquanto 25% apontam como regular e 22% (praticamente seu mesmo percentual de intenções de voto) como positivo. A avaliação negativa é majoritária até entre os que recebem o Auxílio Brasil, considerado a última cartada de Bolsonaro para tentar se reeleger. Entre os que residem em domicílio que tenha alguém recebendo o benefício federal, criado para substituir o Bolsa Família, a administração federal é considerada negativa para 53%, regular para 28% e positiva para apenas 17%.

 

 

Embora em segundo lugar como principal problema do país, a chegada da Ômicron tem feito a preocupação com a Covid crescer. Já são 69% os brasileiros que se dizem muito preocupados (eram 62%, segundo a Genial/Quaest de dezembro, crescimento de sete pontos) com a pandemia. Dooutro lado, são 25% pouco preocupados e irrisórios 6% nada precoupados. Por sua vez, em entrevista hoje de manhã, Bolsonaro disse que a nova variante Ômicron “não tem matado ninguém” e que ela é “bem-vinda” no Brasil.

 

 

Outra aposta errada do capitão, como quase todas na condução da pandemia, está relacionada à campanha difamatória, com uso indiscriminado de fake news, contra a vacinação das crianças entre 5 e 11 anos. Cuja imunização foi liberada pela Anvisa desde 16 de dezembro, mas até hoje, 27 dias depois, ainda não teve início, condenando pequenos brasileiros à infecção, internação e morte pela doença. Bem mais cientes da realidade que seu presidente, 72% da população disseram querer vacinar as crianças agora, com 20% (outro índice próximo ao de intenções de voto do capitão) achando que não.

 

 

A sucessão de erros de Bolsonaro no governo tem dado continuidade ao sangramento da popularidae que o elegeu presidente. Entre os que votaram nele em 2018, a avaliação negativa também supera a positiva. Só neles, o governo está pior do que se esperava para 36%; nem melhor, nem pior para 34% e melhor do que se esperava para 29%.

 

 

A pesquisa Genial/Quaest foi feita entre 6 e 9 de janeiro, ouvindo 2 mil eleitores em todos os estados brasileiros, com margem de erro de dois pontos para mais ou menos. No limite desta margem de erro, Moro continua empatado com Ciro na terceira posição.

Com o derretimento de Bolsonaro, o ex-juiz e o ex-governador tiveram alguns indicadores positivos. O principal é que 26% dos eleitores disseram não querer que nem Lula, nem Bolsonaro vençam a eleição outubro. É abaixo dos 44% que dizem querer que vença Lula, mas acima dos 23% (exato número das intenções de voto) que querem que vença Bolsonaro.

 

 

Ainda que Moro e Ciro estejam bem distantes de ameaçar o segundo lugar do capitão na corrida presidencial, os dois têm outro indicador positivo. O ex-governador do Ceará lidera na segunda opção de voto do eleitorado, com 18%. E é seguido pelo ex-juiz federal do Paraná, com 14%.

 

 

Mas, se têm potencial para crescer sobre Bolsonaro, Moro e Ciro têm um índice negativo que complicaria a vida de um deles, caso chegasse ao eventual segundo turno contra Lula. Entre os que conhecem cada presidenciável, Bolsonaro lidera a rejeição, com 66% que não votariam nele. Os que conhecem e não votariam em Moro, chegam a 59%. E são 58% entre o conhecimento e a rejeição a Ciro. Com Lula, 43% dos que o conhecem não votariam nele.

 

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Covid, Influenza e vacinação infantil no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quinta, o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o médico infectologista Rodrigo Carneiro, diretor da Atenção Básica em Saúde de Campos. Ele falará sobre a instalação no município de dois programas nacionais de assistência de saúde: das populações carcerária e carcerária e de gays, lésbicas, travestis e transexuais (LGBTQI+). Analisará também o impacto das variantes Ômicron e H3N2 no cruzamento da pandemia da Covid-19 com a epidemia da Influenza.

Por fim, Rodrigo falará sobre a vacinação infantil contra Covid no Brasil, em mais uma polêmica do governo Jair Bolsonaro (PL), do retorno às aulas em fevereiro, com a exigência do cartão de imunização das crianças. Ele também analisará o primeiro ano do governo Wladimir Garotinho (PSD), que integra, e dará sua projeção às eleições de governador e prefeito em outubro.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Campos depende da sorte com Paraíba acima do transbordo

 

Wladimir no início da noite de ontem, na entrada da ponte Barcelos Martins, que mandou interditar por conta da cheia do Paraíba (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

 

Paraíba acima do transbordo

A cota de transbordo do rio Paraíba do Sul em Campos é de 10,40 metros. E, às 17h15 de ontem, bateu 10,43 metros. Se ainda não tinha passado por cima dos diques, o que só faz ao atingir 11 metros, o rio já botava água para fora pelos bueiros no Jardim Carioca, em Guarus, e no Colégio 29 de Maio, na Pecuária. Que recebeu cinco famílias desabrigadas da Ilha do Cunha e uma da Coroa. No Parque Prazeres, a água também vazou por baixo da avenida Francisco Lamego, interditada. O prefeito Wladimir Garotinho vistoriou obras emergenciais de reforço daquele dique, que é de barro, não de pedra. Ele também interditou a ponte Barcelos Martins.

 

Desalojada pela cheia do Paraíba, família de Campos abrigada no Colégio 29 de Maio, na Pecurária, onde o Paraíba já colocava água para fora, pelos bueiros (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

Campos refém da sorte

Com as chuvas intensas nos últimos dias em Minas Gerais, no Norte e no Noroeste Fluminense, a única coisa que vai determinar se o Paraíba invadirá a área central de Campos, ou não, é a sorte — ou a falta dela. Há previsão de estiagem a partir desta quinta. Mas, mesmo que se cumpra, ainda terá que esperar a água acumulada descer pelo Paraíba, que recebe as águas de Minas pelo rio Pomba, e também do Noroeste e Norte Fluminense, pelo rio Muriaé. Também ontem, o Comitê da Bacia do Baixo Paraíba enviou uma carta, cobrando solução definitiva, ao Grupo de Assessoramento à Operação dos Sistema Hidráulico Paraíba do Sul (Gaops).

 

BR 356, que foi interditada na açtura de Itaperuna, cortando o fluxo de carros entre Rio de Janeiro e Minas Gerais, estava também alagada na entrada de São Joaquim, em Cardoso Moreira (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

João Gomes Siqueira, diretor do Comitê da Bacia Hidrográfica do Baixo Paraíba

Solução definitiva (I)

O rio Paraíba corta três estados: São Paulo, Minas Gerais e o Rio de Janeiro. Mas só o primeiro está preparado para lidar com as chuvas e a estiagem. “Precisamos criar grandes cisternas em três pontos: nos rios Preto e Paraibuna, que confluem no rio Peixe, no município de Três Rios, para afluir ao Paraíba. Assim como outras duas, no Pomba e no Muriaé. Só com esses grandes reservatórios, que existem em São Paulo, poderemos ter água no tempo na seca, ou recebê-la para controlar a vazão e as cheias, no período das chuvas”, explicou João Gomes Siqueira, diretor-secretário do Comitê do Baixo Paraíba, que tem auxiliado a Prefeitura de Campos.

 

Solução definitiva (II)

“É a eterna repetição: as chuvas de verão engordam os rios e inundam os núcleos urbanos, provocando destruição. Terminadas as chuvas, a reconstrução. Tudo é feito como antes até que as chuvas seguintes destruam tudo novamente. A solução são canais para conduzir a água excedente para lagoas abertas nas margens e reguladas por barragens que permitissem o fluxo hídrico. As barragens para hidrelétricas e transposição não liberariam excedente rio abaixo, sem se importar com a sorte das cidades. Vias alternativas que permitissem o escoamento de excedente hídrico ao mar”, sugeriu o ambientalista e eco historiador Arthur Soffiati.

 

Eco historiador Arthur Soffiati, professor da UFF-Campos; cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf; e advogado Carlos Alexandre de Azevedo Campos, professor da Uerj e Isecensa (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Professores no Folha no Ar

Soffiati é professor da UFF-Campos. Ele foi entrevistado do Folha no Ar da manhã de ontem, ao lado do advogado Carlos Alexandre de Azevedo Campos, professor da Uerj e Isecensa; e do cientista político Hamilton Garcia. Os três analisaram o 1º ano da invasão de militantes do ex-presidente dos EUA Donald Trump ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, e a possibilidade de o mesmo acontecer no Brasil de Jair Bolsonaro, cujo governo fizeram muitas críticas. Assim como as destinaram também ao PT, que tem Lula como líder isolado em todas as pesquisas presidenciais às urnas de outubro, daqui a menos de nove meses.

 

Bolsonaro, PT, o ovo e a galinha

“O governo Bolsonaro foi um desastre (…) preparou o retorno do PT ao poder. Assim como a esquerda se esborrachou com o mau governo Dilma, a direita se esborrachou com o mau governo Bolsonaro”, comparou Hamilton Garcia. “O PT, através principalmente da Dilma, despertou o lado conservador e reacionário da população brasileira. O PT alimentou Bolsonaro e Bolsonaro está alimentando o PT”, seguiu Soffiati. “Bolsonaro foi eleito não só na desilusão, não só com a questão da corrupção, mas da ineficiência do governo Dilma, que também foi um desastre, por outras razões”, reforçou Carlos Alexandre.

 

Média de Wladimir: nota 7,16

Os três professores de universidade pública também avaliaram o 1º ano do governo Wladimir em Campos. “Sinto falta de um plano estratégico, mas ele está sendo pragmático. Dou nota 7”, ponderou Soffiati. “Dou nota 7,5, mas quero ver como ele vai se comportar com o dinheiro dos royalties chegando. Wladimir sabe, muito melhor que Rafael (Diniz), dialogar com o povo”, comparou Carlos Alexandre. “O que destaca Wladimir da gestão anterior (Rafael) é a capacidade gerencial. Mas é necessário se apontar alternativas. Ele próprio reconhece que a máquina de Campos não se sustenta com o que arrecada. Dou nota 7”, avaliou Hamilton.

 

Péssimos exemplos no combate à Covid em São João da Barra e no mundo, a prefeita Carla Machado e o tenista Novak Djokovic (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Novak Djokovic e Carla Machado

Mais rigorosos do que Carlos Alexandre na análise do governo Wladimir, Soffiati e Hamilton foram mais generosos com o governo de Campos do que com o de Carla Machado (PP) em São João da Barra. Em painel de análise da Folha, publicado em 24 de dezembro, o historiador deu nota 3 à gestão da prefeita sanjoanense, que recebeu nota 4 do cientista político. Isso foi antes dela admitir à InterTV não ter se vacinado contra a Covid-19. Repete o péssimo exemplo público do nº 1 do tênis mundial, Novak Djokovic. Com uma diferença importante: o tenista sérvio vive o auge da sua carreira, enquanto Carla atravessa o pior momento dos seus quatro governos.

 

Publicado hoje da Folha da Manhã.

 

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Cheia do Paraíba e afluentes no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quarta (12), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é João Gomes Siqueira, diretor do Comitê da Bacia Hidrográfica do Baixo Paraíba. Ele falará da cheia do rio Paraíba do Sul e afluentes em Campos e região, com as águas da chuva nos estados de Rio de Janeiro e Minas Gerais. Também falará sobre medidas preventivas para a repetição do fenômeno nesta época do ano e do uso da rede de canais de irrigação para ajudar a escoar as águas.

Por fim, João analisará o primeiro ano do governo Wladimir Garotinho (PSD), além de dar a sua projeção para as eleições de outubro a presidente e governador. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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EUA/Brasil, eleições e Wladimir no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7 da manhã desta terça, os convidados do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, são o historiador Artur Soffiati, professor da UFF-Campos; o advogado Carlos Alexandre de Campos, professor da Uerj e do Isecensa; e o cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf. Eles falarão do aniversário de 1 ano da invasão do Capitólio por militantes do ex-presidente dos EUA Donald Trump, e da possibilidade de algo parecido ocorrer no Brasil.

Eles também analisarão os governos federal Jair Bolsonaro (PL) e estadual Cláudio Castro (PL), fazendo suas projeções para as eleições brasileiras de outubro. Por fim, os três avaliarão o primeiro ano do governo Wladimir Garotinho (PSD) em Campos.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Globo de Ouro premia filmes disponíveis no streaming

 

Considerado o grande termômetro do Oscar — que teve sua data remarcada de 27 de fevereiro para 27 de março, por conta da disseminação da variante Ômicron da Covid nos EUA —, o Globo de Ouro da noite de ontem veio cercado de muita polêmica. Denunciado como racista, misógino e corrupto pelo “politicamente correto” que tem em Hollywood um bastião, não foi transmitido ao vivo e teve seus vencedores anunciados nas redes sociais. Mas premiou na noite de ontem alguns filmes que já podem ser conferidos pelos brasileiros nas plataformas de streaming.

 

“Ataque dos Cães”, na Netflix, e “Being the Ricardos”, na Amazon Prime Video (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Exibido na Netflix desde 1º de dezembro, “Ataque dos Cães” (2021) levou na categoria de melhor filme de drama e de direção, para a neozelandesa Jane Campion; além de ator coadjuvante, para o jovem australiano Kodi Smit-McPhee. Disponível na Amazon Prime Video desde 10 de dezembro, “Beind the Ricardos” (2021), de Aaron Sorkin, deu o Globo de Ouro de melhor atriz de drama à australiana Nicole Kidman.

“O Piano”, estrelado por Hervey Keytel e Holly Hunter, Oscar de melhor atriz de 1994

“Ataque dos Cães” é um western-cabeça com poucas armas e nenhum duelo. E marca a volta de Jane Campion à direção 12 anos depois de seu último filme, “Brilho de uma Paixão” (2009). Ela se tornou conhecida mundialmente com o belíssimo “O Piano” (1993). Pelo qual foi a primeira cineasta mulher a ganhar a Palma de Ouro em Cannes e a segunda a ser indicada ao Oscar de melhor direção, levando a estatueta de melhor roteiro original.

Com participação na produção e adaptação do roteiro, Campion volta a apresentar em “Ataque dos Cães” suas marcas: grande virtude imagética, sobretudo nas tomadas externas, e trama baseada no conflito psicológico entre as personagens. Dois deles são irmãos rancheiros, bem diferentes em físico e personalidade, vividos por Benedict Cumberbatch e Jesse Plemons. Este se casa com a personagem Kistern Dunst, que leva o filho vivido por Kodi Smit-McPhee. Sensível, ele desenvolve relações ambíguas com a rusticidade do novo meio e do novo “tio”. O “sobrinho” representa o falecido Thomas Savage, autor do romance autobiográfico “O Poder do Cão”, adaptado no filme. Que traz um final inesperado no desfecho pelo antraz, o cabrunco dos campistas.

 

Relação ambígua entre a sensível personagem de Kodi Smit-McPhee e o rude cowboy de Benedict Cumberbatch

 

Já “Being the Ricardos” (“Apresentando os Ricardos”), roteirizado e dirigido por Aaron Sorkin, dá a Nicole Kidman um bom presságio: da última vez que ela levou o Globo de Ouro de melhor atriz de drama, faturou depois também o Oscar de melhor atriz, por sua soberba atuação como a atormentada escritora Virginia Woolf, em “As Horas” (2002), de Stephen Daldry.

 

Diálogo em alto nível entre Javier Barden e Nicole Kidman, em “Being the Ricardos”, sobre a série popular de TV “I Love Lucy”, que marcou época nos EUA dos anos 1950

 

No novo filme, a ex-senhora Tom Cruise (que nunca levou o Oscar) interpreta a assertiva Lucille Bel, que protagonizou o popularíssimo seriado “I Love Lucy”, marco da TV dos EUA em seu início, nos anos 1950. Se o talento de Kidman como atriz é inegável, incomoda cada vez mais sua cruel prisão física ao rosto de boneca mumificada em vida. Que só consegue sustentar através de visíveis cirurgias plásticas. E cujas marcas têm que ser sempre escondidas com muita maquiagem e franjas do seu cabelo ruivo.

 

Will Smith larga na frente na luta por seu primeiro Oscar, como pai e mentor das campeãs de tênis Venus e Serena Williams, em “King Richard: Criando Campeãs”

 

Nas telas de TV, ou atrás delas, a australiana Kidman atua em troca de alto nível com o espanhol Javier Barden. Ele interpreta o ator, músico e produtor cubano Desi Arnaz, marido de Lucille na vida real e na representação do seriado de TV. Como o inglês Benedict Cumberbatch, pelo papel em “Ataque dos Cães”, Barden também foi indicado ao Globo de Ouro de melhor ator de drama. Mas ambos perderam para o afro-estadunidense Will Smith, que levou o prêmio por sua atuação em “King Richard: Criando Campeãs” (2021), de Reinaldo Marcus Green. Conta a história da criação das campeãs de tênis Venus e Serena Williams, está disponível na HBO Max desde 7 de janeiro e pode finalmente render a Smith seu primeiro Oscar de melhor ator.

 

Ben Affleck e Tye Sherindan, em “Bar Doce Lar”, novo trabalho na direção, sem maior criatividade, do galã George Clooney

 

Outro filme que rendeu indicação ao Globo de Ouro, mas sem levar, e também estreou no último dia 7, pela Amazon Prime Video, é “Bar Doce Lar” (2021). É mais um trabalho do ator George Clooney como cineasta, na adaptação do livro autobiográfico “Bar, Doce Lar”, de J.R. Moehringer. Se a direção de Clooney não demonstra maior ambição, apesar da boa história e elenco, rendeu a indicação de Ben Affleck como ator coadjuvante de drama. Foi a categoria que premiou o jovem Kodi Smit-McPhee, por seu trabalho em “Ataque dos Cães”.

 

Grande sucesso da Netflix, “Não Olhe Para Cima” ficou a ver navios no Globo de Ouro

 

Grande sucesso da Netflix, desde que foi lançado na líder mundial de streaming em 24 de dezembro, a sátira “Não Olhe Para Cima” (2021), de Adam McKay, teve duas indicações ao Globo de Ouro, mas não levou nada. Na categoria de melhor filme comédia/musical, ganhou o musical “Amor, Sublime Amor” (2021), de Steven Spielberg, remake do clássico homônimo de 1961, dirigido por Jereme Robbins e Robert Wise. Já na categoria melhor ator comédia/musical, no qual Leonardo DiCaprio foi indicado, venceu Andrew Garfield, pelo filme “Tick, Tick… Boom!”, de Lin-Manuel Miranda.

Ao Oscar, os indicados serão anunciados em 8 de fevereiro.

 

Confira abaixo os trailers dos filmes “Ataque dos Cães”, “Beind the Ricardos”, “King Richard: Criando Campeãs” e “Bar Doce Lar”:

 

 

 

 

 

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Capitólio dos EUA e MG: a morte segue quem ignora os fatos

 

Invasão ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021 e a queda do paredão de pedra no município mineiro de Capitólio, em 8 de janeiro de 2022 (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Em 6 de janeiro de 2021, a invasão ao Capitólio em Washington. Foi obra de militantes incitados pelo então presidente dos EUA, Donald Trump, inconformado pela derrota por larga margemna sua tentativa de reeleição, em 3 de novembro de 2020. Em 8 de janeiro de 2022, a queda de um paredão de rocha, pela erosão das águas da chuva, no Lago de Furnas, em Capitólio (MG). Além da estranha coincidência dos nomes, da proximidade das datas e de, até se darem na vida real, parecerem cenas de ficção: o que os dois fatos trágicos têm em comum?

Na capital dos EUA, o saldo foram cinco mortos. No município mineiro, foram 10 óbitos até o momento confirmados. Mas, talvez ainda mais que as vidas humanas perdidas, o que impressiona nos dois casos é a capacidade das pessoas de ignorarem solenemente os fatos. Até serem fatalmente atropelados por eles.

Nos EUA de Trump, o fato foi o resultado de uma eleição definida por mais de 7 milhões de votos populares e 306 a 232 votos no colégio eleitoral. Números ignorados por quem invadiu o Capitólio por preferir acreditar nas denúncias de “fraude”, nos votos pelos correios adotados naquele país desde o século 19, feitas sem apresentar uma única prova por quem sabia antes que iria perder.

No Brasil do “Trump dos Trópicos”, tragicamente resumido nas águas paradisíacas de Capitólio, o fato ignorado foram os muitos alertas verbais às pedras caindo diante dos olhos das próprias vítimas, em meio à erosão natural provocada pela água das chuvas, antes que todo o paredão do cânion infelizmente viesse abaixo sobre elas. Confira no vídeo abaixo:

 

 

A quem assistiu ao filme “Não Olhe Para Cima” (2021), de Adam Mckay, sucesso da Netflix, onde um cometa em rota de colisão com a Terra é ignorado por governantes e seus apoiadores, a sensação que fica é de déjà vu. A desconstrução sistemática da verdade, massificada através das redes sociais, nos trouxe a estes tempos estranhos. Onde as pessoas parecem não acreditar nem mais naquilo que estão vendo. E morrem ou até matam por conta disso.

 

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Trump e Bolsonaro do “Não Olhe Para Cima” ao “Olhe Para Você Mesmo”

 

Trump, Bolsonaro e elenco principal de “Não Olhe Para Cima” (Montagem: Joseli Mathias)

(A Sidney Poitier, primeiro negro a ganhar o Oscar de melhor ator)

 

— Randall, alguns estão falando que não existe cometa, ou que existe um cometa e isso pode ser bom ou ruim. Estamos confusos. Pode nos esclarecer, ó, sábio cientista? — indaga no talk show “The Daily Rip” (“O Rasgo Diário”) sua apresentadora, Brie Evantee, magistralmente interpretada por Cate Blanchett, maior atriz da sua geração.

— Primeiro de tudo, com certeza o cometa existe. Sabemos que existe um cometa porque nós temos os dados. Tem havido muita preocupação na comunidade científica. O processo de revisão por pares é crucial… — responde o astrônomo Dr. Randall Mindy, entrevistado do programa em outro trabalho de Leonardo DiCaprio a provar que ele é mais, muito mais do que um galã. Com spoiler, sua personagem se preocupa depois que a primeira missão para tentar desviar o corpo celeste em rota de colisão com a Terra foi abortada pelo próprio governo dos EUA, para encampar um plano privado. Bancado pela gigante dos celulares Bash, que quer não mais desviar, mas explodir o cometa. E permitir que ele atinja o planeta em pedaços menores, sem causar nossa extinção, para aproveitar seus estimados US$ 140 trilhões em minerais.

— Se as ações da Bash são um indicador de que a revisão por pares importa, estamos bem. Comprei o máximo de ações que pude. Façam o mesmo! — ironiza Jack Bremmer, o outro apresentador do talk show, em interpretação na medida de Tyler Perry.

— Quero falar uma coisa… — pede DiCaprio, finalmente atingido pelo cometa na boca do estômago, antes da sua queda na Terra.

— Está no lugar certo. Porque gostamos de dizer coisas neste show — segue em sua mendicância por simpatia, e likes, o apresentador de Perry.

— Pode parar com essa porra de ser agradável? Desculpe, mas nem tudo tem que ser espirituoso, encantador ou fofo o tempo todo. Às vezes só precisamos dizer as coisas, ouvir as coisas. Vamos deixar claro, mais uma vez, que tem um cometa enorme vindo em direção à Terra. O motivo de sabermos disso é porque o vimos com os nossos olhos, usando um telescópio. Até tiramos fotos dele, porra! Precisa de mais prova? E se não conseguimos nem concordar com o fato de ter um cometa gigante, do tamanho do Monte Everest, vindo em direção à Terra, então estamos ferrados. O que aconteceu com a gente? Meu Deus! Como é que a gente se comunica? O que nós nos tornamos? (…) Sei que muitas pessoas nem vão me dar ouvidos, porque têm sua própria ideologia política. Mas eu garanto que não estou em nenhum dos lados. Eu só estou dizendo a porra da verdade! — desabafa DiCaprio, na mais visceral tradução do tupiniquim “é verdade este bilhete”.

— Acho que é bom informar que Isherwell (dono da Bash e Monstro de Frankenstein montado com pedaços de Steve Jobs, Mark Zuckerberg, Elon Musk e Jeff Bezos, em mais uma composição soberba de Mark Rylance) e a presidente (Janie Orlean, espécie de Donald Trump de saias encarnada com a maestria de sempre pela diva Meryl Streep) disseram que há benefícios… — tenta intervir Blanchett, em favor do poder econômico e político.

— A presidente dos Estados Unidos está mentindo pra caralho! Sou igual a vocês, rezo para que a presidente saiba o que está fazendo. Torço para ela cuidar da gente, mas a verdade é que eu acho que todo esse governo perdeu completamente a porra da cabeça! — regurgita DiCaprio o cometa que estava entalado em sua garganta.

O diálogo acima é o ponto alto, mas não o único, de “Não Olhe Para Cima” (2021), filme dirigido, roteirizado e produzido por Adam McKay. Lidera a lista dos mais assistidos da Netflix, desde que a líder mundial do streaming lançou seu filme em 24 de dezembro, após curta temporada nos cinemas. Desde então, seu cometa tem sido a Estrela de Belém a reis magos e plebeus céticos, nas rodas de conversa do mundo. É a mais marcante sátira produzida pela sétima arte desde o impactante sul-coreano “Parasita” (2019), de Bong Joon-ho, Palma de Ouro em Cannes e Oscar de melhor filme, direção e roteiro.

Egresso da comédia, McKay já tinha dois filmes “sérios” como diretor e roteirista: o estelar “A Grande Aposta” (2015), sobre a crise financeira global de 2008, no qual levou o Oscar de melhor roteiro; e “Vice” (2018), cinebiografia do poderoso ex-vice-presidente dos EUA nos dois governos George W. Bush, Dick Cheney. Conservadora como o pai, a deputada Liz Cheney é hoje a mais corajosa opositora à supremacia de Donald Trump dentro do Partido Republicano.

 

“A Grande Aposta” e “Vice” (Montagem: Joseli Mathias)

 

McKay nasceu na Filadélfia em 1968, mesma cidade que em 1787 também pariu a primeira e única Constituição dos EUA. A mesma que Trump rasgou em 6 de janeiro de 2021, ao incitar seus militantes a invadirem o Capitólio, por não aceitar sua derrota eleitoral em 2020. Fato que, no 6 de janeiro de 2022 da última quinta, teve seu 1º aniversário lembrado em artigo do filósofo e economista político nipo-estadunidense Francis Fukuyama: “O 6 de Janeiro aprofundou as divisões internas (dos EUA) e terá consequências que ecoarão por todo o planeta nos próximos anos”. Após usar a queda da União Soviética em 1991 para decretar “o fim da História”, o liberal Fukuyama foi atropelado por ela. E não escondeu seu temor de que também a democracia no mundo tenha sido colhida na colisão. Como a de um cometa que alguns ainda fingem não ver.

Peter Sellers brilha em três papéis diferentes em “Dr. Fantástico”

Em seu “retrato de Dorian Gray” do populismo político de extrema-direita, da sua ascensão ao poder na ditadura de ódio das redes sociais e suas fake news, “Não Olhe Para Cima” pode ser olhado para trás, pelos pósteros, como hoje olhamos o clássico “Dr. Fantástico” (1964). Única comédia do mestre Stanley Kubrick, é a melhor sátira política do cinema sobre a Guerra Fria. Que acabou na vida real há mais de 30 anos, mas sobrevive nos delírios personificados durante show musical anunciado por DiCaprio e Jennifer Lawrence, outra a brilhar como a astrônoma Kate Dibiasky. Ambos convidam os espectadores a olharem para o céu e testemunharem a ameaça que já paira iminente sobre a cabeça de todos. Quando um “cidadão de bem” comenta na arte que imita a vida: “Não olhe para cima, puta marxista!”.

 

Com o cowboy cavalgando a bomba atômica, a cena mais icônica de “Dr. Fantástico”, do mestre Stanley Kubrick

 

É Dibiasky quem descobre e batiza o cometa. Em outro spoiler, ela e DiCaprio recorrem à imprensa, após terem como resposta o “vamos esperar e avaliar” de uma presidente mais preocupada com as eleições legislativas do que com a extinção da humanidade. Na sua primeira e única aparição do programa “The Daily Rip”, é a personagem de Lawrence que, antes de seu par masculino na ciência, questiona o óbvio, após mais uma gracinha “fofa” do apresentador:

 

Cate Blanchett e Tyler Perry entrevistam Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence no talk show “The Daily Rip”

 

— Nós não fomos claros? Estamos tentando dizer que o planeta todo vai ser destruído — enfatiza Lawrence.

—  Sabe como é… É o que fazemos. Deixamos as notícias ruins mais leves — banaliza Blanchett.

— Exato. Nós douramos a pílula — reforça cinicamente Perry.

— Talvez a destruição do planeta não devesse ser divertida. Talvez devesse ser algo aterrorizante e perturbador. E deveriam passar a noite chorando, quando há 100% de certeza de que todo mundo vai morrer, porra! — explode Lawrence. Para na sequência constatar, em outro spoiler, que a entrevista anterior do programa, com o reenlace amoroso entre as celebridades musicais Riley Bina (Ariana Grande) e DJ Chello (Kid Cudi), gerou mais engajamento do que o alerta sobre a destruição da Terra. É uma crítica à mídia do tempo das redes sociais para impresso nenhum do tempo de “A Montanha dos Sete Abutres” (1951) botar defeito. Da lavra do ex-jornalista e mestre do cinema Billy Wilder, permanece o melhor filme já feito sobre jornalismo.

 

Kirk Douglas estrela “A Montanha dos Sete Abutres”, do mestre Billy Wilder

 

Feito para falar do trumpismo, “Não Olhe Para Cima” também fala bastante do seu pastiche abaixo do Equador no bolsonarismo. Levados à Casa Branca pelo Dr. Clayton Oglethorpe, em atuação de classe de Rob Morgan, para comunicarem à presidente a descoberta do cometa e sua ameaça inexorável à Terra, Lawrence e DiCaprio são inicialmente recebidos pelo general três estrelas Themes, na interpretação bonachona de Paul Guilfoyle.

Último spoiler: após tomarem um chá de cadeira de uma presidente tão embananada com a indicação de um dublê de xerife e ex-ator pornô à Suprema Corte, quanto Bolsonaro na de André Mendonça ao Supremo Tribunal Federal, o general cobra aos três cientistas pelas garrafas de água e pacotes de salgados que leva a eles. Logo depois, se descobre que os mesmos eram oferecidos de graça. Buscada, a explicação não é dada até o final do filme. Fica a impressão de que o militar de alta patente só estava mesmo querendo levantar um troco. Como seus colegas generais da vida real, Augusto Heleno, Walter Braga Netto e Luiz Eduardo Ramos, todos ganhando acima do teto constitucional no governo brasileiro do “acabou a mamata”.

 

Generais Augusto Heleno, Walter Braga Netto e Luiz Eduardo Ramos

 

Sem vender sua honra à farda, o contra-almirante e médico Antonio Barra Torres presta bons serviços à pátria no comando da Anvisa. Que liberou desde 16 de dezembro, oito dias antes de “Não Olhe Para Cima” ser liberado na Netflix, a vacinação contra o cometa da Covid-19 para as crianças entre 5 e 11 anos. Nesta faixa etária, até ontem, 308 pequenos brasileiros morreram pela pandemia antes de viver. Na média de uma criança jazida a cada dois dias pela doença no país, até hoje já são 11 as condenadas à morte por sufocamento, de maneira absolutamente desnecessária, por um governo dolosamente infanticida. Quantas mais serão no Brasil governado por um ser humano capaz de publicamente questionar: “Qual interesse daquelas pessoas taradas por vacina”? A “tara” da resposta é óbvia: a vida das crianças! Tanto quanto o interesse luciferino de quem questiona: a morte dessas crianças!

 

 

No filme de McKay, DiCaprio brada em um programa de TV infantil:

— Crianças, me ouçam. Digam a seus pais que a presidente Orlean e Isherwell (empresário síntese daqueles capazes de tentar passar pano até na morte dolosa de crianças) são sociopatas e fascistas! — sentencia, sendo respondido na cena seguinte pela governante negacionista encarnada por Streep, em discurso aos seus apoiadores:

— Sabe por que eles querem que você olhe para cima? Sabem por quê? Eles amam ver você com medo! — diz sob aplausos. Que se transformam em vaias violentas quando a tragédia anunciada finalmente bate à própria porta.

Até por sua firme oposição política a Trump, foi nele que Streep baseou sua presidente. Após abandonar o delírio da Cloroquina ainda em 2020, para vendê-la ao Brasil de Bolsonaro e investir pesadamente na compra de vacinas contra Covid aos EUA, em sua tentativa frustrada de permanecer na Casa Branca, seu ex-inquilino é decididamente mais inteligente do que o autoproclamado “Trump dos Trópicos”.

Já apeado do poder, Trump admitiu recentemente ter tomado as três doses da vacina. No filme, o nosso capitão seria o coronel Ben Drask, na pele de Ron Perlman. Seu final serve de alerta ao que todas as pesquisas indicam a Bolsonaro, após as urnas presidenciais de outubro. Mas o que impressiona é a semelhança de Jason Orlean, vivido pelo talentoso gordinho Jonan Hill, com o 02 brasileiro. Como filho da presidente e seu aspone, com dificuldade de cognição e sempre a carregar a bolsa Hermès da mãe, a personagem lembra muito o vereador carioca Carlos Bolsonaro. Tanto que fica difícil crer em mera coincidência.

Sem outro spoiler, mas só como dica, vale a pena esperar a rolagem de todos os créditos do filme, após seu suposto final, para uma surpresa. E também um novo alerta à humanidade, ao constatar quem dela ficou para “Adão”. A ameaça do cometa metafórico da ficção, se transposto à realidade, talvez mudasse o título: “Olhe Para Você Mesmo”.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Confira abaixo o trailer do filme:

 

 

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Invasão ao Capitólio afastou a democracia do mundo

 

Em 7 de narço de 2020, em Mar-a-Lago, na Flórida, Jair Bolsonaro e o então presidente dos EUA, Donald Trump (Foto: Alan Santos/PR)

 

 

Francis Fukuyama, filósofo e economista político nipo-estadunidense, autor do livro “O Fim da História e o Último Homem”, de 1992

Ataque ao Capitólio: O dia em que o mundo se afastou de nós

Por Francis Fukuyama

 

O ataque de 6 de janeiro de 2021 contra o Capitólio, realizado por uma multidão inspirada pelo ex-presidente Donald Trump, marcou um nefasto precedente na política dos EUA. Desde a Guerra Civil (1861/1865), o país jamais havia fracassado em realizar uma transferência de poder pacífica, e nenhum candidato jamais havia contestado resultados de uma eleição diante de tanta evidência de que a votação fora livre e justa. O evento continua a reverberar, mas seu efeito não é apenas doméstico, ele também teve grande impacto global e sinaliza o declínio do poder e da influência dos EUA.

O 6 de Janeiro precisa ser visto como pano de fundo de uma crise global da democracia liberal. Segundo o relatório Liberdade no Mundo 2021, da Freedom House, a democracia está em declínio há 15 anos, com os maiores percalços enfrentados pelas duas maiores democracias do mundo, EUA e Índia. Desde que o relatório foi publicado, golpes de Estado ocorreram em Mianmar, Tunísia e Sudão, países que antes haviam dado passos promissores na direção da democracia.

O mundo havia testemunhado uma grande expansão no número de democracias, de 35, no início dos anos 70, para mais de 110, na época da crise de 2008. Os EUA foram cruciais para o que foi classificado como a “Terceira Onda” de democratização, garantindo segurança para aliados democráticos na Europa e no Leste da Ásia, liderando uma economia global cada vez mais integrada que quadruplicou sua produção no período.

Mas a democracia global estava alicerçada no sucesso e na durabilidade da democracia dos EUA — o que o cientista político Joseph Nye classifica como “poder brando”. Pessoas de todo o mundo consideravam os EUA um exemplo a ser seguido, dos estudantes da Praça Tiananmen aos manifestantes das “revoluções coloridas”, na Europa e no Oriente Médio.

O declínio da democracia é ocasionado por forças complexas. Globalização e transformação econômica deixaram muita gente para trás, e uma enorme divisão cultural emergiu entre profissionais com alto nível de formação que vivem nas grandes cidades e moradores de localidades menores, com valores mais tradicionais. O advento da internet enfraqueceu o controle das elites sobre a informação — nós sempre discordamos a respeito de valores, mas agora vivemos em universos de fato separados. E o desejo de pertencimento e a afirmação de dignidade própria são com frequência forças mais poderosas do que o autointeresse econômico.

O mundo, desta maneira, parece muito diferente que o de 30 anos atrás, quando a União Soviética acabou. Houve dois fatores-chave que subestimei naquela época — primeiro, a dificuldade de criação não apenas de uma democracia, mas também de um Estado moderno, imparcial e livre de corrupção; e em segundo lugar, a possibilidade da deterioração de democracias avançadas.

O modelo americano está se deteriorando já há algum tempo. Desde meados da década de 90, a política dos EUA tem se polarizado, sujeita a impasses contínuos que impedem o cumprimento de funções governamentais básicas, como a aprovação de orçamentos.

 

Obstáculos

Havia claros problemas com as instituições americanas — como a influência do dinheiro na política e os efeitos de um sistema eleitoral cada vez mais desalinhado com a escolha democrática. E, ainda assim, o país parecia incapaz de reformar a si mesmo. Períodos anteriores de crise, como a Guerra Civil e a Grande Depressão (1929), produziram líderes perspicazes e criadores de instituições; o que não ocorreu nas primeiras décadas do século 21, que testemunharam formuladores de políticas administrando duas catástrofes — a Guerra do Iraque e a crise do subprime — e, posteriormente, o surgimento de um demagogo de pouca visão encorajando um furioso movimento populista.

Até o 6 de Janeiro, seria possível considerar esses desdobramentos sob as lentes da política americana comum, com seus desentendimentos a respeito de temas como comércio, imigração e aborto. Mas a insurreição marcou o momento em que uma minoria mostrou-se disposta a voltar-se contra a própria democracia e utilizar violência como ferramenta para alcançar seus objetivos.

O que tornou o 6 de Janeiro uma mancha — e uma tensão — alarmante para a democracia americana foi o fato de o Partido Republicano, longe de repudiar quem iniciou e participou da insurreição, buscou normalizá-la e expurgou de seus próprios quadros aqueles que se mostraram dispostos a falar a verdade sobre a eleição de 2020.

O impacto do 6 de Janeiro ainda surte efeitos na arena internacional. Ao longo dos anos, líderes autoritários buscaram manipular resultados de eleições e negar a vontade popular, como Vladimir Putin, na Rússia, e Aleksander Lukashenko, em Belarus. Por outro lado, candidatos derrotados fizeram acusações de fraude em eleições livres e justas.

Isso aconteceu ano passado no Peru, quando Keiko Fujimori contestou sua derrota para Pedro Castillo no segundo turno. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, tem estabelecido as bases para contestar a eleição deste ano atacando o funcional sistema eleitoral, da mesma maneira que Trump passou o fim de sua campanha minando a confiança na votação pelo correio.

 

Alto risco

Antes do 6 de Janeiro, esse tipo de artimanha teria sido condenada pelos americanos. Mas agora isso aconteceu nos EUA. A credibilidade do país, decorrente da manutenção de um modelo de boas práticas democráticas, foi despedaçada. Esse precedente já é ruim o suficiente, mas há consequências ainda mais perigosas.

O retrocesso da democracia tem sido liderado por dois países autoritários em ascensão, Rússia e China. Ambos possuem reivindicações sobre territórios que não lhes pertencem. Putin declarou não acreditar que a Ucrânia seja um país legitimamente independente, mas que faz parte de uma Rússia muito ampliada. Ele concentrou tropas na fronteira e tem testado respostas do Ocidente a uma possível agressão. O presidente chinês, Xi Jinping, afirma que Taiwan deve voltar a ser controlada pela China, e líderes chineses não excluem o uso de força militar.

Um fator determinante em qualquer agressão militar será o papel dos EUA, que não concederam garantias claras de segurança nem para Ucrânia nem para Taiwan, mas têm apoiado militarmente e se mostrado ideologicamente alinhados com seus esforços de tornar-se democracias verdadeiras.

Se o ímpeto de repudiar os eventos de 6 de janeiro tivesse se formado no Partido Republicano, de forma semelhante ao seu abandono de Richard Nixon, em 1974, os EUA seriam capazes de deixar para trás a era Trump. Mas isso não aconteceu, e adversários como Rússia e China estão assistindo de perto com satisfação.

Se temas como vacinação e uso de máscara tornaram-se politizados e desagregadores, imagine como uma futura decisão de ampliar o apoio militar para a Ucrânia ou Taiwan seria recebida? Trump minou o consenso que existia desde o fim dos anos 40 a respeito da forte posição dos EUA enquanto defensores da liberdade, e Biden ainda não foi capaz de restabelecê-lo.

A maior fraqueza dos EUA é relativa a suas divisões internas. Representantes do conservadorismo viajaram para a Hungria em busca de um modelo alternativo, e um número estarrecedor de republicanos considera os democratas uma ameaça maior que a Rússia.

Os EUA conservam um enorme poder econômico e militar, mas esse poder não é utilizável na ausência de consenso doméstico a respeito do papel internacional do país. Se os americanos deixarem de acreditar numa sociedade aberta, tolerante e liberal, nossa capacidade de inovar e liderar a mais importante economia do mundo também diminuirá. O 6 de Janeiro aprofundou as divisões internas e terá consequências que ecoarão por todo o planeta nos próximos anos.

 

Publicado no Estadão.

 

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Um ano após a invasão do Capitólio a chifradas

Em 6 de janeiro de 2021, protegido por vidro à prova de balas, Trump usou a área externa da Casa Barnca para mugir sua dor de corno pela derrota nas urnas presidenciais. E foi atendido no mesmo dia por quem invadiu o Capitólio, literalmente, a chifradas (Fotos: Mandel Ngan/AFP e Win McNamee/Getty Imagens – montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Hoje, 6 de janeiro de 2022, se completa um ano da invasão do Capitólio dos EUA por militantes do então presidente Donald Trump. Ele os atiçou pessoalmente, em discurso na área externa da Casa Branca, ao atentado contra a mais longeva democracia da Terra. Atendido por quem atacou seu próprio Congresso a chifradas de bisão, Trump mugia sua dor de corno pela derrota acachapante, nas urnas presidenciais de 3 de novembro de 2020, para Joe Biden. Que venceu com a folgada vantagem de mais de 7 milhões de votos populares. E por 306 a 232 votos no colégio eleitoral — resultado que conta lá e foi antecipado aqui, por este blog, um dia antes do resto do mundo.

A invasão do Capitólio se deu no dia em que este, presidido por Mike Pence, vice-presidente de Trump, reconheceu a vitória eleitoral de Biden. Deixou saldo de cinco mortos, entre eles Brian Sicknick, um dos mais de 140 policiais feridos ao tentarem conter os “cidadãos de bem” do lado de cima do Equador. Mestre do jornalismo brasileiro, Elio Gaspari deu ontem (05) o saldo das consequências: “Cinco dias depois da invasão do Capitólio, Steven M. D’Antuono, chefe do escritório de Washington do FBI, avisou: ‘Nossos agentes vão bater na tua porta’. Até agora, bateram numas mil portas e prenderam ou indiciaram 724 pessoas de 45 estados americanos. Abriram 170 investigações e partiram da análise de 100 mil peças de comunicação digital. Sem lavajatismo, quase todo dia havia alguém sendo interrogado”.

Elio Gaspari, jornalista e escritor

Sobre quem atendeu com chifres de bisão ao mugido da dor de corno de Trump, Gaspari emblematicamente acrescentou: “O palhaço que circulou com roupa de bicho e chifres na cabeça foi alcançado três dias depois e tomou até 41 meses de prisão. Queria notoriedade, tornou-se exemplo”. Também descreveu o perfil plural dos invasores e identificou seu líder singular: “Havia de tudo naquela multidão: jovens, velhos, famílias, veteranos, pastores, policiais, alguns pastores policiais, professores e malucos fantasiados, todos movidos pela realidade paralela instigada pelo presidente Donald Trump”.

O jornalista brasileiro ressalvou que ainda falta pegar os “peixes gordos” da tentativa de um golpe de estado nos EUA: “No primeiro aniversário da insurreição, peixe gordo se protege, tentando blindar a documentação da Casa Branca relacionada com o episódio (…) Sabe-se também que Ivanka, filha de Trump, tentou chamá-lo à razão, mas ele passou horas diante dos aparelhos de televisão. Seus advogados pediram à Suprema Corte que preservasse o sigilo das movimentações na Presidência. Deve-se esperar que a Corte se pronuncie, pois o caso é constitucionalmente intrigante. O ex-presidente (Trump) quer manter o sigilo que Joe Biden, seu rival na campanha, dispensou. O FBI brilhou, mas, nos limites de sua investigação, só pegou lambaris”.

 

Joe Biden discursou hoje no Statuary Hall, no Capitólio, sobre o aniversário de 1 ano da invasão ao Capitólio por militantes de Donald Trump (Foto: Drew Angerer/Poll/Reuters)

 

Ao discursar hoje no Capitólio há um ano invadido, Biden evitou citar o nome de Trump. Ainda assim, deu nome aos bois:

— Vou dizer o óbvio: um ano atrás, exatamente, neste local sagrado, a democracia foi atacada; simplesmente atacada. A vontade do povo estava sendo ameaçada, a nossa Constituição enfrentou a maior das ameaças (…) Pela primeira vez na nossa história, um presidente não tinha apenas perdido a eleição, ele tentou impedir a transferência pacífica de poder, com uma turba violenta que chegou ao Capitólio. Mas eles falharam, eles falharam. E, neste dia de lembranças, vamos garantir que um ataque como aquele nunca mais aconteça de novo (…) Mesmo durante Guerra Civil (dos EUA, 1861/1865) isso nunca aconteceu; nunca! Mas aconteceu aqui em 2021 (…) Nós vimos um presidente, que tinha acabado de mobilizar aquela massa para atacar, sentado no Salão Oval (da Casa Branca), olhando para tudo aquilo na televisão e fazendo absolutamente nada, por horas (…) Isso foi uma insurreição armada. Eles queriam negar o desejo do povo, eles estavam querem mudar o resultado de uma eleição livre e justa, eles estavam querendo subverter a Constituição (…) O ex-presidente dos EUA criou e espalhou um monte de mentiras sobre o que aconteceu na eleição de 2020. Ele fez isso porque dá mais valor ao poder do que aos princípios (…) Antes mesmo da contagem da primeira urna, o ex-presidente já estava lançando dúvidas sobre o resultado da eleição. Ele construiu essa mentira por meses, sem estar baseado em fato algum. Ele estava só querendo uma desculpa, um pretexto, para esconder a verdade. Ele não é só um ex-presidente; ele é um ex-presidente perdedor”.

 

Em 7 de narço de 2020, em Mar-a-Lago, na Flórida, Jair Bolsonaro e o então presidente dos EUA, Donald Trump (Foto: Alan Santos/PR)

 

Sobretudo após a tentativa frustrada de golpe de Jair Bolsonaro em 7 de setembro de 2021, o alerta do presidente dos EUA serve ao Brasil. Que tem um presidente orgulhoso por ser conhecido como “Trump dos Trópicos”. E cuja reeleição em outubro hoje é apontada como aritmeticamente impossível por todas as pesquisas. Na dúvida do que aconteceu e ainda pode acontecer, reveja os vídeos com os resumos do 6 de janeiro de 2021, nos EUA ainda de Trump; e no 7 de setembro do mesmo ano, no Brasil ainda de Bolsonaro:

 

 

 

 

Na transcrição abaixo, o testemunho daquele 6 de janeiro de 2021, no qual a democracia dos EUA foi alvo de terroristas internos. Tanto quanto havia sido por terroristas estrangeiros, e seus próprios erros de política externa, em 11 de setembro de 2001:

 

O dia em que Trump transformou os EUA em república de bananas

 

Militantes convocados por Donald Trump invadiram o Congresso dos EUA hoje, interrompendo a sessão que reconheceria a vitória do presidente eleito Joe Biden (Foto: Reprodução)

 

Tenho 48 anos (hoje, já são 49, perto dos 50). Lembro-me dos presidentes dos EUA desde Jimmy Carter. E dos seus seis sucessores na Casa Branca. Incluindo o atual, derrotado por Joe Biden nas urnas de novembro por 306 a 232 votos do colégio eleitoral, e mais de 7 milhões de votos populares.

Vivi para ver o Congresso dos EUA ser hoje invadido por militantes de um caudilho de 5ª categoria. Para transformar a democracia mais longeva do mundo, que há 232 anos elege pelo voto seus representantes, em uma republiqueta de bananas.

Espero viver para ver o responsável ser acusado, julgado e condenado com todo o rigor da lei. Tão logo seja cumprido seu mandado de despejo do poder, daqui a apenas 14 dias. E que sirva de exemplo abaixo do Equador, ao que espera o Brasil em 2022.

 

Marcha dos camisas negras do líder fascista Benito Mussolini no Palácio Quirinal, residência real em Roma, em 31 de outubro de 1922

 

Presidente eleito dos EUA, levando também a maioria no Congresso hoje invadido, Biden disse em pronunciamento: “Isso não é protesto, é insurreição”. Qualquer semelhança com um certo putsch em Munique, ou uma marcha dos camisas negras sobre Roma, não é mera coincidência.

Como não parece ser a visita anteontem (em 4 de janeiro de 2021) do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) aos ainda ocupantes da Casa Branca.

 

Atualização às 18h14: sobre o aniversário de 1 ano da invasão do Capitólio, confira também a análise do servidor federal Edmundo Siqueira, blogueiro do Folha1.

 

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