A partir das 7h da manhã desta segunda (21), quem abre a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o empresário Edvar Júnior, vice-presidente da CDL-Campos. Ele falará sobre o papel protagonista do setor produtivo goitacá na não aprovação (confira aqui) da proposta do novo Código Tributário pela Câmara Municipal, assim como no fim do lockdown do comércio em abril (confira aqui), que havia sido decretado em março (confira aqui) para tentar conter a segunda onda da pandemia da Covid-19.
Por fim, o líder lojista falará também sobre alternativas à crise financeira de Campos (confira a série de 11 painéis da Folha sobre o tema, de julho a setembro de 2020, publicada aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Acompanhado dos filhos Flávio e Carlos, Jair Bolsonaro é batizado no rio Jordão, em Israel, em 12 de maio de 2016, pelo pastor Everaldo, preso por corrupção desde 28 de agosto de 2020 (Foto: Reprodução)
Deus conosco?
“Deus está morto”. Polêmica, a sentença foi proferida em “Assim falou Zaratustra”, livro lançado pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche em 1883. De lá para cá, foi tirada de contexto para ser muito mal usada e interpretada, inclusive pela maioria que nunca leu a obra. Que, embora de filosofia, foi escrita em linguagem profética.
Antes de terminar a vida falando com cavalo, Nietzsche retomou a figura do profeta persa Zaratustra. Que viveu no séc. VII a.C. e foi primeiro a fundamentar um sistema de valores e crença baseado nos conceitos de bem e mal. Sendo por isso chamado pelo grego Platão de “o primeiro filósofo”.
Primeiro império do mundo, a Pérsia enraizou seu pensamento na religião judaica e, depois, em suas variações cristã e islâmica. O filósofo alemão reconhecia essa contribuição à humanidade. Mas pregou que só a partir da superação do bem e do mal, o homem se faria super-homem, indivíduo adequado às novas prerrogativas morais da civilização industrial.
Atentado às Torre Gêmeas do Word Trade Center em 11 de setembro de 2001 (Foto: Reprodução)
Após o 11 de setembro de 2001, quando militantes islâmicos da Al Qaeda sequestraram e atiraram jatos comerciais contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, levando-as abaixo, e o Pentágono, o cineasta e jornalista Arnaldo Jabor escreveu um artigo. Que finalizou em diálogo com o Zaratustra de Nietzsche: “Deus está vivo. E se chama Alá”.
O presidente dos EUA naquele episódio era George W. Bush. Trazia o apoio político dos neopentecostais, outro grupo fundamentalista religioso, ao qual se convertera após anos de uso abusivo de álcool e cocaína. De cara limpa, liderou uma suposta nova Cruzada entre Ocidente e Oriente, cristianismo x islamismo, com as invasões do Iraque e do Afeganistão.
Acossado na Casa Branca pelos protestos do “Black Lives Metter”, o então presidente dos EUA Donald Trump saiu às ruas de Washington, em 1º de junho de 2020, para posar uma Bíblia nas mãos, em frente a Igreja Episcopal St. John (Foto: Tom Brenner/Reuters)
Donald Trump nunca foi religioso. Mas também soube apostar no fundamentalismo cristão dos neopentecostais para fazer deles importantes aliados políticos nos EUA. Em nova roupagem à Cruzada entre Ocidente e Oriente, deixou o fundamentalismo islâmico em segundo plano para eleger como novo “Grande Satã” o capitalismo de Estado ateu da China.
Católico praticante, Joe Biden também assumiu o antagonismo com Pequim. Mas, em moldes laicos, o fez resgatando esta semana os laços entre EUA e Europa na Organização do Atlântico Norte (Otan). Que tinham sido abandonados por Trump, a mando do presidente vitalício da Rússia, Vladimir Putin. Este, popular em seu país pela reaproximação do Kremlin com a Igreja Ortodoxa Russa.
Patriarca Cirilo I, líder da Igreja Ortdoxa Russa, com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, ex-agente da KGB na União Soviética comunista e ateia (Foto: Reprodução)
No Brasil, Jair Bolsonaro trocou sua formação católica pelo filão eleitoral neopentecostal, ao ser batizado no rio Jordão, em 2016, pelo Pastor Everaldo. Que foi preso por corrupção em agosto de 2020. No meio do caminho, o batizado se elegeu presidente em 2018, reduzindo Deus a slogan de campanha: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.
Com apoio da irmã de Nietzsche, o nazismo chegou ao poder pelo voto na Alemanha e, depois, pelas armas na Europa, nos anos 30 e 40 do séc. 20. E corrompeu racialmente o conceito de super-homem do filósofo morto em 1900, creditando-o ao ariano puro. Mesmo que a maioria dos alemães se mantivesse luterana e católica romana.
Na fivela do cinto, soldados alemães da SS que exterminaram 6 milhões de judeus na Europa, levavam inscrito: “Gott mi uns” (“Deus conosco”)
Eram, portanto, cristãos todos os nazistas que assassinaram em escala industrial 6 milhões de judeus em campos de extermínio durante a II Guerra (1939/1945) na Europa. Sufocando-os com gás e depois queimando seus corpos em fornos. Semelhante ao slogan bolsonarista, os soldados da SS que praticaram o Holocausto levavam escrito nas fivelas do seu cinto um antigo dito prussiano: “Gott mit uns” (“Deus conosco”).
“Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” é um conselho do Cristo em três dos quatro Evangelhos: Marcos 12:13-17, Mateus 22:15-22 e Lucas 20:20-26. Que pareceu ser seguido pelo bispo católico auxiliar de Belo Horizonte, Dom Vicente de Paula Ferreira. No último domingo (13), dia santo aos cristãos, ele usou sua conta no Twitter (confira aqui) para clamar a Deus:
— Senhor, tu que fugiste de jegue para o Egito, mostra-nos um meio de nos livrar desse fascista brasileiro. Tu que entraste em Jerusalém montado num jumento, dá-nos a coragem de enfrentar o tirano que mata nossa gente. Livra-nos, Senhor, do desgoverno da morte. Está pesado demais.
Conhecido pelo seu trabalho em Brumadinho, palco de outra tragédia brasileira, Dom Vicente é doutor em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com estágio pós-doutoral em Teologia, na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje). É graduado em Filosofia pela UFJF e em Teologia pela Faje e integrante da Sociedade de Estudos Psicanalíticos de Juiz de Fora.
Poeta maior do nosso Romantismo, não é difícil supor como Castro Alves (1847/1871) seria hoje tratado por escrever: “Quebre-se o cetro do Papa./ Faça-se dele — uma cruz!/ A púrpura sirva ao povo/ P’ra cobrir os ombros nus”. Ou por seus versos ecoados à beira dos 500 mil mortos por Covid no Brasil: “Senhor Deus dos desgraçados!/ Dizei-me vós, Senhor Deus!/ Se é loucura… se é verdade/ Tanto horror perante os céus…”
Publicado originalmente aqui e republicado hoje (19), na Folha da Manhã
Uma ligação na tarde de ontem (16), do secretário estadual de Governo, Rodrigo Bacellar (SD), ao vereador Maicon Cruz (PSC), definiu a posição deste contrária à aprovação do Código Tributário. Isso e a ausência do vereador Marcione da Farmácia (DEM) definiram o adiamento da votação ontem do Código na Câmara (confira aqui), que agora fica na gaveta do presidente Fábio Ribeiro (PSD), junto com as contas de 2016 da ex-prefeita Rosinha Garotinho (Pros).
Marcione já tinha se ausentado da polêmica sessão de 25 de maio, que se estendeu à madrugada do dia 26, em que foram aprovados (confira aqui) 12 dos 13 projetos do pacote de austeridade de Wladimir — o 13º era justamente a proposta no novo Código. O vereador da Baixada Campista ontem (16) pediu (confira aqui) a renovação de sua licença, alegando questão de saúde, por mais 15 dias.
Por sua vez, na manhã de ontem, Maicon estava (confira aqui) em dúvida da sua posição. O blog gerou demanda a ele às 11h04 e 11h36. Ele visualizou, mas não retornou, reforçando a dúvida, que foi confirmada por fontes do próprio grupo de Rodrigo. Até que este ligou ao vereador à tarde. Maicon chegou a se queixar, dizendo que o secretário não atendia ou retornava suas ligações. Mas fez o que Bacellar determinou. E depois postou vídeo nas redes sociais dizendo que sua posição era em defesa do setor produtivo, contrário ao novo Código.
Sem Maicon e Marcione, o governo só tinha 12 votos, um a menos que o necessário para aprovação do Códito Tributário, forçando sua retirada de pauta. Curiosamente, oposição e situação votaram juntos para tirar o regime de urgência da proposta. Que seria o principal alvo da arguição da sua inconstitucionalidade na Justiça, caso fosse aprovada.
Após a postagem, nova demanda foi gerada ao vereador Maicon Cruz, que desta vez retornou ao blog. Ele negou a influência de Bacellar em sua posição. Em respeito ao contraditório, confira abaixo:
— Diferente da narrativa da matéria, meu posicionamento já era claro desde quando a matéria chegou à Casa, e, inclusive, me pronunciei dias antes em uma entrevista de rádio. Com as alterações feitas no projeto que foi reencaminhado para a pauta, fiz uma nova avaliação para que meu voto pudesse ser com base no texto da PL complementar 00097/2021 e nos anseios da população, de forma consciente, sem qualquer interferência política. Não tenho ligação com o deputado (atual secretário estadual de Governo) Rodrigo Barcellar, não caminhamos juntos no último pleito, não faço parte de seu grupo político e, na Câmara, o meu compromisso é com a população campista.
Atualizado às 18h15 para incluir a posição do vereador Maicon.
Witzel disse hoje na CPI da Covid que Rodrigo Bacellar, Cláudio Castro e André Ceciliano teriam sido pressionados pelo MPF no seu processo de impeachment (Montagem: Matheus Berriel)
Em depoimento hoje na CPI da Covid no Senado, o ex-governador Wilson Witzel (PSC) citou o secretário estadual de Governo Rodrigo Bacellar (SD). Quando o político de Campos exerceu a relatoria do seu pedido de impeachment, segundo Witzel, teria sido pressionado a trabalhar para consumá-lo por um pedido de busca e apreensão do Ministério Público Federal (MPF). O ex-governador disse que também seu vice e sucessor, o governador Cláudio Castro (PL), e o presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), deputado André Ceciliano (PT), teriam sido pressionados da mesma maneira:
— Na medida que o Ministério Público Federal pede a busca e apreensão na casa do vice-governador, a busca e apreensão na casa do presidente da Alerj, a busca e apreensão na casa do relator do relator do meu processo de impeachment, o deputado estadual Bacellar, todos foram colocados com a corda no pescoço (…) Essas pessoas, o presidente da Assembleia Legislativa, o vice-governador, o relator do meu processo de impeachment na Alerj, todos investigados, com a corda no pescoço. E, ao final, quando eu sou cassado, isso aqui simplesmente acabou, morreu, não tem mais investigação — disse Witzel aos senadores da República.
Confira no vídeo abaixo:
Ao blog do jornalista Octavio Guedes, no G1, Cláudio Castro respondeu (confira aqui) ao ex-companheiro de chapa, que também acusou o atual governador de ter colocado em “banho-maria” a investigação do assassinato da ex-vereador Marielle Franco (Psol), executada a tiros em março de 2018 por milicanos do Escritório do Crime:
— Witzel é um coitado. Ele é inimputável pelo que fala, mas não pelo que fez — disse Castro.
Demandas de posição sobre o que Witzel disse hoje à CPI da Covid também geradas a Rodrigo Bacellar, André Ceciliano e ao MPF do Rio Janeiro.
Helinho Nahim, Rogério Matoso e Wladimir Garotinho (Montagem: Joseli Mathias)
Criticados (confira aqui) pelo prefeito Wladimir Garotinho (PSD), o ex-vereador Thiago Virgílio (Pros) e o ex-governador Anthony Garotinho (sem partido), alguns ex-secretários do governo Rafael Diniz (Cidadania) e hoje vereadores contrários ao novo Código Tributário, que será votado e (confira aqui) deve ser aprovado hoje, reagiram antes da votação aos ataques:
— A pior coisa é as pessoas não admitirem que erram. E aí começam a atacar, mentindo para tentar esconder todos os erros que cometeram. Erros estes que foram mexer em gratificação de médico, deixar de pagar a insalubridade a um grande número de pessoas, retirar o vale alimentação a mais de três mil servidores e aumentar os impostos, como eles querem e vão tentar ainda hoje. Sobre o governo Rafael, eu trabalhei no Entretenimento e Lazer. Tudo que for ligado a esta pasta e que quiserem me questionar, não só o atual governo, como qualquer cidadão, têm total direito de fazer isso. Agora, querer falar sobre outras pastas do governo Rafael, não poso responder, porque não tive nenhuma participação em qualquer setor, que não o Entretenimento e Lazer — explicou o vereador Helinho Nahim (PTC), primo de Wladimir e ex-secretário de Entretenimento e Lazer de Rafael.
— Estão falando coisas que não têm nexo. Fiz parte do governo Rafael e fui julgado pelas urnas, que me elegeram novamente vereador. Apoiei Bruno Calil (SD, ex-candidato a prefeito) no primeiro turno e subi no palanque de Wladimir no segundo turno, quando ele teve mais 7.400 votos na “pedra”. E torço para que seu governo dê certo. Só sou contra essa proposta de novo Código Tributário. Basta olhar o passado recente, quando Garotinho, Rosinha (Pros), Cabral (MDB) e Pezão (MDB) estavam no mesmo palanque. E, no governo, todos aumentaram tributos, quando o Estado do Rio perdeu muito investimentos. Campos é um município limítrofe do Espírito Santo, que tem metade do ICMS e estimula lá o setor produtivo, inclusive com empresas que estavam antes instaladas em território fluminense. Quando a tributação é menor, isso aumenta os investimentos, cria empregos e fluxo no caixa da Prefeitura. Aumentar os impostos, sobretudo em um momento de grave crise econômica, por conta da pandemia da Covid, aumenta a inadimplência, as portas de comércio fechadas, como já vemos em Campos — alertou o edil Rogério Matoso (DEM), ex-superintendente de Trabalho e Renda de Rafael.
Outros três outros ex-sceretários de Rafael, criticados pelos Garotinho pela posição contrária à proposta do Código Tributário, os vereadores Abdu Neme (Avante), Nildo Cardoso (DEM) e Raphael Thuin (Cidadania) não retornaram os contatos.
Os vereadores Maicon Cruz (PSC) e Marcione da Farmácia (DEM) também podem votar na sessão de hoje, da Câmara Municipal, pela aprovação do novo Código Tributário proposto pelo governo Wladimir Garotinho (PSD). Se a dúvida da posição de Marcione já era conhecida, a de Maicon passou a existir hoje. E são fruto do trabalho de articulação do presidente do Legislativo goitacá, o governista Fábio Ribeiro (PSD). Caso se confirme em votos, o projeto polêmico seria aprovado por 14 votos a 10. Marcione assinou emendas ao projeto de alteração do Código, junto aos 12 vereadores que votarão pela aprovação, mas não garantiu seu voto.
O mínimo de 12 votos à aprovação, com o desempate no voto de minerva do presidente, havia sido garantido com o vereador Thiago Rangel (Pros), como adiantou ontem aqui, em primeira mão, o Blog do Arnaldo Neto. A mudança de posição do edil se deu a partir da nomeação de nomes ligados a ele, também ontem, para a Empresa Municipal de Habitação (Emhab). No início das negociações, ele queria o Instituto Municipal de Trânsito e Transporte (IMTT).
“Mordido” com a grande resistência ao novo Código por parte dos setores produtivos da cidade e dos vereadores de oposição, Fábio teria chamado para si o papel de articulador da aprovação. Wladimir precisa dela para ter mais chances de firmar, nesta quinta (17), um Termo de Ajustamento de Gestão (TAG) do município com o Tribunal de Contas do Estado (TCE).
Mas, Se for aprovado, é certo que o Código Tributário será questionado na Justiça pelo setor produtivo de Campos. Alguns dos melhores juristas da cidade, que já se debruçam sobre a questão, julgam ser razoáveis as chances de derrubar o Código por inconstitucionalidade.
Atualização às 16h53: O blog gerou demanda ao vereador Maicon às 11h36 de hoje, que não retornou. Quando sua aparente indefinição da manhã se transformou em certeza à tarde, ele anunciou (confira aqui) seu voto contrário ao Código Tributário.
A proposta do governo Wladimir Garotinho (PSD) do novo Código Tributário de Campos será votada hoje (16) na Câmara Municipal. E, tudo indica, aprovado pela maioria mínima, caso as nomeações ontem (15) de seus cabos eleitorais à Empresa Municipal de Habitação (Emhab) se confirmem no voto favorável do vereador Thiago Rangel (Pros). Com ele, o placar ficaria em 12 a 12 e seria desempatado pelo voto de minerva do presidente do Legislativo, o governista Fábio Ribeiro (PSD). Mas este pode nem ser necessário, caso as negociações de bastidores consigam também garantir o voto de Marcione da Farmácia (DEM).
Na Justiça e no TCE
Se passar na Câmara, o Código Tributário será questionado na Justiça pelo setor produtivo de Campos. Alguns dos melhores juristas da comarca já se encontram debruçados sobre a questão. E julgam razoáveis as chances de conseguir derrubá-lo por inconstitucionalidade. Por sua vez, como Wladimir revelou ao programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, na última sexta (11), que seu objetivo é sinalizar o esforço para diminuir despesas e aumentar receita ao Tribunal de Contas do Estado (TCE), para firmar um Termo de Ajustamento de Gestão (TAG). O que ele tentará nesta quinta (17), independente do resultado da votação na Câmara.
Histórico
O Código Tributário seria votado em 26 de maio, outra quarta-feira. Foi o dia seguinte à sessão em que o governo aprovou, na terça (25), 12 dos 13 projetos do pacote de austeridade de Wladimir, três deles com cortes a benefícios de servidores. Com seus 11 vereadores mais fiéis, entre eles os três do PDT que ignoram as diretrizes em contrário de Caio Vianna, presidente do partido em Campos, o governo contou também com os votos dos edis Raphael Thuin (PTB), Fred Machado (Cidadania) e Bruno Vianna (PSL). Mas os três anunciaram que não votariam contra o setor produtivo, fazendo com que o Código Tributário fosse retirado de pauta.
Wladimir, Garotinho, Rodrigo, Marcos Bacellar e a Câmara de Campos, que vota hoje a proposta do novo Código Tributário (Montagem: Joseli Mathias)
Garotinho ataca Rodrigo
Aquela semana de maio tinha sido o momento mais tenso dos cinco primeiros meses do governo Wladimir. Esta também prometia, após o ex-governador Anthony Garotinho apontar na quinta (10) sua velha metralhadora giratória a Rodrigo Bacellar (SD), novo secretário estadual de Governo. E, sem nominá-lo, disparou: “Tem um deputado que está tentando armar para o meu filho, para tentar me atingir, e atingir o meu filho, que ainda não tem a experiência que eu tenho (…) Eu sei que você está armando aí, com essa turma de canalhas e ladrões da política, se escorando em gente grande, para tentar prejudicar meu filho”.
Paz de Castro
Pai de Rodrigo, conhecido pelo espírito combativo, com o qual já confrontou Garotinho no auge, chamando-o de “pilantra” em programa de rádio ao vivo no qual entrou incógnito, o ex-vereador Marcos Bacellar (SD) ficou sabendo dos ataques do ex-governador ao seu filho. E consta que teve que ser contido pelos mais próximos para não usar suas redes sociais na quinta, em uma resposta a Garotinho no estilo Bacellar. Mais sensato que o pai, Wladimir baixou a corda no Folha no Ar do dia seguinte, revelando que o governador Cláudio Castro (PL) pediu a ele e a Rodrigo, ambos seus aliados, que pacificassem sua relação em Campos.
Hora de desacelerar
Chamado de inexperiente pelo pai na quinta, Wladimir falou de Garotinho na sexta. E disse ao microfone da Folha FM: “Meus pais estão em outra fase de vida, fizeram muito pelo Estado, por Campos, sofreram muita coisa. Meu pai é um cara de muito embate, muito confronto. Meu pai está com 61 anos, está na hora de dar uma desacelerada. Ele não é candidato a governador (em 2022). Meu pai, se for candidato, é a deputado, ou estadual, ou federal. Eu até prefiro que seja a federal, para ele poder me ajudar em Brasília, porque ele é uma pessoa que tem muito acesso e influência lá. É uma decisão política e familiar também”.
Rafael e vereadores viram alvo
Se Wladimir deu a ordem de cessar o fogo aberta pelo pai contra os Bacellar, o grupo dos Garotinho não poupou munição contra outros adversários. Incomodado com a força da campanha contra o Código Tributário, graças à mobilização dos comerciantes e dos vereadores contrários, os ataques foram dirigidos a estes e ao ex-prefeito Rafael Diniz (Cidadania). Em suas redes sociais, o ex-vereador Thiago Virgílio disparou na segunda (15): “Estão dizendo aí que Wladimir enviou um projeto de lei para aumentar IPTU e taxa de iluminação pública. Quem fez isso foi o ex-prefeito Rafael Diniz. E os que foram seus secretários hoje querem posar como arautos da moralidade”.
Ironia rafaelista
Na noite de segunda, o próprio Wladimir disse em suas redes sociais: “Estão fazendo um movimento, alegando que a Prefeitura quer aumentar abusivamente os impostos. Isso não é verdade. Quem está por trás são pessoas que participaram ativamente do governo Rafael”. O prefeito e Thiago não nominaram, mas se referiram aos edis Adbu Neme (Avante), Rogério Matoso (DEM), Helinho Nahim (PTC), Nildo Cardoso (PSL) e Thuin, todos ex-secretários de Rafael. Este, ouvido pela coluna, preferiu não comentar. Mas um seu ex-assessor ironizou: “Eles não faziam o que a gente queria nem quando eram secretários. Por que fariam agora?”
O homem e Deus se tocam em afresco de Michelangelo no teto da Capela Sistina, pintado entre 1508 e 1512, no Vaticano
“Assim falou Zaratustra” foi lançado pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche em 1883. De lá para cá, a sentença “Deus está morto”, proferida no livro, foi tirada de contexto para ser muito mal usada e interpretada, inclusive pela maioria que nunca leu a obra. Quem, embora de filosofia, foi escrita em linguagem profética.
Antes de terminar a vida falando com cavalo, Nietzsche retomou a figura do profeta persa Zaratustra. Que viveu no séc. VII a.C. e foi primeiro a fundamentar um sistema de valores e crença baseado nos conceitos bem e mal. Sendo por isso chamado pelo grego Platão de “o primeiro filósofo”.
Primeiro império do mundo, a influência da Pérsia se enraizou na religião judaica e, depois, em suas variações cristã e islâmica. O filósofo alemão reconhecia essa contribuição à humanidade. Mas pregou que só a partir da superação do bem e do mal, o homem se faria super-homem, indivíduo adequado às novas prerrogativas morais da civilização industrial.
Atentado às Torre Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, em 11 de setembro de 2001
Após o 11 de setembro de 2001, em que militantes islâmicos da Al Qaeda sequestraram e atiraram jatos comerciais contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, levando-as abaixo, e o Pentágono, o cineasta e jornalista Arnaldo Jabor escreveu, em diálogo com o Zaratustra de Nietzsche: “Deus está vivo. E se chama Alá”.
Curiosamente, o presidente dos EUA naquele episódio era George W. Bush. Que trazia o apoio político dos neopentecostais, outro grupo fundamentalista religioso. E liderou uma suposta nova Cruzada entre Ocidente e Oriente, cristianismo x islamismo, com as invasões do Iraque e do Afeganistão.
Acossado na Casa Branca pelos protestos do “Black Lives Matter”, o então presidente dos EUA Donald Trump saiu às ruas de Washington, em 1º de junho de 2020, para posar uma Bíblia de cabeça para baixo nas mãos, em frente a Igreja Episcopal St. John (Foto: Tom Brenner/Reuters)
Donald Trump nunca foi religioso. Mas também soube apostar no fundamentalismo cristão dos neopentecostais para fazer deles importantes aliados políticos nos EUA. E, em nova roupagem à Cruzada entre Ocidente e Oriente, deixou o fundamentalismo islâmico em segundo plano para eleger como novo “Grande Satã” o capitalismo de Estado ateu da China.
Patriarca Cirilo I, líder da Igreja Ortodoxa Russa, com Vladimir Putin, ex-agente da KGB na União Soviética comunista e ateia
Católico praticante, Joe Biden também assumiu o antagonismo com Pequim. Mas, em moldes laicos, o fez resgatando os laços entre EUA e Europa na Organização do Atlântico Norte (Otan). Que tinham sido abandonados por Trump, a mando do presidente vitalício da Rússia, Vladimir Putin. Este, popular em seu país pela reaproximação do Kremlin com a Igreja Ortodoxa Russa.
No Brasil, Jair Bolsonaro trocou sua formação católica pelo filão eleitoral neopentecostal, ao ser batizado no rio Jordão, em 2016, pelo Pastor Everaldo, preso por corrupção em agosto de 2020. No meio do caminho, o batizado se elegeu presidente em 2018, reduzindo Deus a slogan de campanha: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.
Com apoio da irmã de Nietzsche, o nazismo chegou ao poder pelo voto na Alemanha e, depois, pelas armas na Europa, nos anos 30 e 40 do séc. 20. E corrompeu racialmente o conceito de super-homem do filósofo morto em 1900, creditando-o ao ariano puro. Mesmo que a maioria dos alemães se mantivesse luterana e católica romana.
Soldados alemães da SS, que exterminaram 6 milhões de judeus em campos de concentração na Europa, levavam incrito na fivela dos seus cintos: “Gott mit uns” (“Deus conosco”)
Eram, portanto, cristãos todos os nazistas que mataram 6 milhões de judeus em campos de extermínio durante a II Guerra (1939/1945). Sufocando-os com gás e depois queimando seus corpos em fornos. Semelhante ao slogan bolsonarista, os soldados da SS que praticaram o Holocausto levavam escrito nas fivelas do seu cinto: “Gott mit uns” (“Deus conosco”).
ׅ“Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” é um conselho de Cristo presente em três dos quatro Evangelhos: Marcos 12:13-17, Mateus 22:15-22 e Lucas 20:20-26. Que pareceu ser seguido pelo bispo católico auxiliar de Belo Horizonte, Dom Vicente de Paula Ferreira. No domingo (13), dia santo aos cristãos, ele usou sua conta no Twitter para clamar a Deus:
— Senhor, tu que fugiste de jegue para o Egito, mostra-nos um meio de nos livrar desse fascista brasileiro. Tu que entraste em Jerusalém montado num jumento, dá-nos a coragem de enfrentar o tirano que mata nossa gente. Livra-nos, Senhor, do desgoverno da morte. Está pesado demais.
Castro Alves
Conhecido pelo seu trabalho em Brumadinho, Dom Vicente é doutor em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com estágio pós-doutoral em Teologia, na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pela UFJF e em Teologia pela FAJE e integrante da Sociedade de Estudos Psicanalíticos de Juiz de Fora.
Poeta maior do nosso Romantismo, não é difícil supor como o baiano Castro Alves seria hoje tratado ao escrever: “Quebre-se o cetro do Papa./ Faça-se dele — uma cruz!/ A púrpura sirva ao povo/ P’ra cobrir os ombros nus”. Ou nos versos ecoados por Dom Vicente: “Senhor Deus dos desgraçados!/ Dizei-me vós, Senhor Deus!/ Se é loucura… se é verdade/ Tanto horror perante os céus…”
Câmara Municipal de Campos, que já foi o Fórum da cidade (Foto: Genilson Pessanha/Folha da Manhã)
As alterações propostas pelo governo Wladimir Garotinho (PSD) ao Código Tributário de Campos devem ser votadas na sessão desta quarta (16) na Câmara Municipal. Enfrentam forte resistência do setor produtivo da cidade, em briga encampada por vereadores que deixaram a base governista para passar à oposição. Mas se, como o Arnaldo Neto noticiou aqui, em primeira mão, o apoio do vereador Thiago Rangel (Pros) for confirmado, o governo chega aos 12 votos necessários para a aprovação. Com 25 vereadores, em caso de empate em 12 a 12, o voto de minerva é do presidente do Legislativo, o governista Fábio Ribeiro (PSD).
O governo tem como garantidos os votos de 11 vereadores: Álvaro Oliveira (PSD), Bruno Pezão (PL), Dandinho Rio Preto (PSD), Jô de Ururaí (Podemos), Juninho Virgílio (Pros), Kassiano Tavares (PSD), Leon Gomes (PDT), Luciano Rio Lu (PDT), Marquinho do Transporte (PDT), Pastor Marcos Elias (PSC) e Silvinho Martins (MDB). Se confirmar Thiago Rangel, que hoje teve vários apoiadores nomeados em Diário Oficial à Empresa Municipal de Habitação (Emhab), chega a 12. O governo também trabalha nos bastidores junto a Marcione da Farmácia (DEM), para ter uma folga de 13, sem precisar contar com o desempate de Fábio Ribeiro, até a votação de amanhã.
Todavia, mesmo se o governo Wladimir for vitorioso amanhã, é praticamente certo que a questão será judicializada pelas entidades representativas do setor produtivo da cidade. Alguns dos melhores juristas de Campos já se debruçam sobre o tema. E apostam que, se for aprovado na Câmara, o novo Código Tributário cairá lá na frente por inconstitucionalidade. A ver…
Em 2018, vários eleitores de Bolsonaro registraram e compartilharam nas redes sociais a imagem das suas reais intenções ao votarem a presidente do Brasil (Foto: Reprodução)
Dorrit Harazim, jornalista
Com máscara
Por Dorrit Harazim
Terça-feira, dia 8, já noite. Na papelaria Kalunga abrigada num shopping na Enseada do Suá, em Vitória, ocorre um diálogo carregado. Tipo pano rápido, porém eloquente.
1) Funcionário solicita a um cliente o uso de máscara facial de proteção para poder atendê-lo.
2) Cliente diz “não”.
3) Funcionário explica ser lei.
4) Cliente responde: “Eu faço a minha lei, não cumpro leis”. Saca uma arma e a aponta para o rosto do funcionário.
5) Cliente conclui a compra com outra vendedora, sai da loja rindo. Sem máscara.
Segundo o repórter Caíque Verli, da TV Gazeta, o funcionário ameaçado registrou a ocorrência em delegacia, e a pessoa que testemunhou o ocorrido preferiu não se identificar. Compreende-se. Estamos num país onde o recurso a armas para “cidadãos de bem” é incentivado e facilitado a canetadas pelo chefe da nação.
O cliente do shopping de Vitória é apenas mais um espécime do Brasil gestado por Jair Bolsonaro — antecipou-se sem saber à clara intenção presidencial de erradicar a obrigatoriedade do uso de máscara. O anúncio feito por Bolsonaro de forma oblíqua, porém oficial, sugeriu o caminho: caso queira permanecer no cargo, “um tal de Queiroga” — designação usada pelo presidente para seu quarto ministro da Saúde, Marcelo Queiroga — deveria fazer um “estudo” sobre a inutilidade da proteção facial para quem já foi vacinado ou infectado. “Vamos ficar reféns de máscaras até quando?”, pergunta o mandante, sem esconder o asco do exemplar entre os dedos. Pelo fato de o vírus ser invisível e estar naufragando seu governo, Bolsonaro parece ter transferido à singela máscara o papel de inimigo mais detestável — ela é física e insultuosa, pois explicita a morte que ronda o país. É preciso varrê-la de cena, portanto. Sumir com este que é, além da vacina, nosso melhor escudo para não chegarmos tão depressa às 500 mil vidas varridas pela Covid-19.
Como previsto, e foi intencional, o proclama oficial injetou fervor nos mais crédulos, confundiu e atordoou os menos informados e exasperou a repulsa de quem se esforça para não perder a sanidade. Vale conferir o semblante de alarme represado do doutor Drauzio Varella ao ser entrevistado no programa “Em pauta”, da GloboNews. Havia inabitual angústia na fala e no olhar de quem, há décadas, nos explica com serenidade e saber as mazelas da saúde pública nacional. Por honrado, ele não fugiu a uma pergunta sobre o que o doutor Queiroga deveria fazer para honrar a profissão, se instado a produzir um relatório nos moldes pedidos. “Pedir demissão”, respondeu.
Existem inúmeros vocábulos para definir um chefe de nação que necessita ser idolatrado como “mito” por um rebanho. Difícil é encontrar linguagem publicável, em qualquer idioma, para retratar um presidente que se autodefine como “imorrível”, “imbrochável”, “incomível”. Voltemos, portanto, a nosso personagem do shopping.
“Eu faço a minha lei, não cumpro leis”, arrostou o valentão de arma em punho de Vitória. Palavras ainda não pronunciadas ipsis litteris pelo presidente do Brasil, embora pareçam estar na raiz de seus movimentos — em três anos no poder, Bolsonaro já domesticou a Procuradoria-Geral da República, a Advocacia-Geral da União, as Forças Armadas, o Coaf e quase consegue fazer estrago no Tribunal de Contas da União. No seu governo impera a teia do “paralelo” no lugar do oficial, desdenha-se o valor de instituições, da ciência, da cultura, das gentes múltiplas que compõem o Brasil. Tudo a céu aberto e cada vez mais desenvergonhado, com foco único no embate eleitoral de 2022. Ou antes, se preciso.
A edição mais recente da revista “Cult” abriga um sólido artigo do desembargador Marcelo Semer. Convém lê-lo na íntegra, embora o título já aponte para a tese central: “Os negacionistas somos nós”. O autor nos faz percorrer quanto instituições que vão da grande imprensa ao STF, dos partidos de oposição à opinião pública, uma a uma, acabaram aceitando o que professavam ser inadmissível. “O que as instituições funcionando não perceberam”, escreve o autor, “é que o governo é sua própria sombra, ele funciona no paralelo porque ele é o negativo das instituições. Ele não tem um ‘gabinete do ódio’; ele é um gabinete de ódio, porque o ódio é essencial para a política de destruição que nunca escondeu. Dizem que eles [o mandatário e seus operadores] são negacionistas, mas não é verdade. Negacionistas são os que se recusam a ver. Ou veem e se recusam a aceitar o que veem…”.
Em outras palavras, nós. Sabemos ser no escuro que os olhos começam a enxergar. Estamos no escuro, começando a enxergar — de máscara e com a ajuda da CPI.
No pensamento binário em que o Brasil chafurda desde a eleição presidencial de 2014, qualquer crítico aos erros dos 13 anos dos governos do PT, sobretudo à corrupção sistêmica nele implantada, era chamado por sua seita de “golpista” ou “coxinha”. Como nunca há nada tão ruim que não possa piorar, em 2018 veio a eleição de Jair Bolsonaro. Além de superar a incompetência administrativa de Dilma Rousseff, o bolsonarismo no poder trouxe uma versão ainda mais tosca na cópia carbono do lulopetismo: qualquer crítico ao “mito” é classificado por sua seita como “esquerdopata” ou “mortadela”. A morte hoje de Marco Maciel (DEM/PE), aos 80 anos, em Brasília, é uma chance de inflexão ao que houve antes, durante e depois do período de estabilidade econômica, normalidade institucional e relativa paz política em que ele foi vice-presidente nos dois governos do tucano Fernando Henrique Cardoso (1995/2003).
Para quem não viveu a efervescência do período de redemocratização do país, com o fim da última ditadura militar brasileira (1964/1985) e o caos na hiperinflação do seu legado aos civis, difícil explicar a delícia e a dor do que foram aqueles anos de incerteza e esperança, em que o dinheiro de hoje não comprava a mesma coisa no sábado seguinte. Até que o governo Itamar Franco, fruto da coalizão após o impeachment em 1992 do ex-presidente Fernando Collor de Mello, pôs fim à inflação — hoje de volta ao Brasil — em 1994, com o Plano Real. Que capitaneado politicamente no Congresso pelo senador licenciado como ministro da Fazenda, elegeu FHC presidente ainda no primeiro turno daquele mesmo ano, com Marco Maciel como vice. Dupla bisada em 1998, nas duas únicas vezes em que uma chapa presidencial foi eleita em um só comparecimento às urnas dos brasileiros, desde que a instituição do segundo turno foi adotada pela Constituição de 1988.
Fundado no mesmo ano de 1988 da promulgação da Carta Magna, o PSDB era uma defecção de alguns notáveis do PMDB, cansados do fisiologismo que até hoje marca este partido. Guardadas as distinções ideológicas devidas, foi fruto de um processo semelhante ao que fez alguns lulopetistas, desiludidos com a corrupção do Mensalão, saírem do PT em 2004 para fundar o Psol. No lugar do socialismo com liberdade individual — conjugação inédita de exemplo prático, que não as precocemente sufocadas pelos tanques da ex-União Soviética na Hungria de 1956 e na ex-Tchecoslováquia de 1968 — e a sempre polêmica pauta identitária dos psolistas, os tucanos hastearam duas décadas antes a bandeira da socialdemocracia, impressa no nome do seu partido, no cenário político brasileiro.
Um ano antes da queda de Muro de Berlim, a fundação do PSDB parecia de certa maneira antever a vitória do capitalismo sobre o “socialismo real” na Europa, aceitando antes a realidade do vencedor. Mas em um país com gritantes diferenças sociais e onde as conquistas da CLT vinham de 1943 com a cópia da fascista Carta del Lavoro pela ditadura do Estado Novo (1937/1946) de Getúlio Vargas, a intenção tucana também era adaptar o welfare state (Estado de bem-estar social) de um exemplo melhor da Europa, após a derrota do nazi-fascismo na II Guerra (1939/1945), entre os brasileiros daquele final de séc. 20. Após a derrota com Mário Covas na eleição presidencial de 1989 — na qual ficou no primeiro turno e, como Ciro Gomes (PDT) em 2018, era o candidato progressista com melhor chance de bater o representante da direita no segundo —, o PSDB se aliou à direita para chegar ao poder em 1994.
Marco Maciel foi o nome da direita para compor a chapa com o sociólogo FHC. Era do PFL (que mudaria em 2007 a DEM), defecção do antigo PDS, antes Arena, partido dos militares na ditadura. Em 1994, o PFL cumpria também um papel estratégico: forte em São Paulo, cuja política domina até hoje, o PSDB era fraco no Nordeste. E lá foi compensado pelos coronéis das famílias tradicionais da política, geralmente egressos da aristocracia rural, que tinham se aliado aos militares na ditadura. Curiosamente, Marco era parente distante de Antônio Vicente Mendes Maciel, que passaria à história como Antônio Conselheiro, líder religioso de um movimento popular armado que resistiu ao poder dos coronéis e do Exército Brasileiro na Guerra de Canudos (1896/1897), maior guerra civil brasileira, no sertão da Bahia.
Formado em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco, Marco Maciel militou no movimento estudantil de direita, em oposição à esquerdista União Nacional dos Estudantes (UNE). Em 1963 se elegeu presidente da União dos Estudantes Metropolitanos de Pernambuco (UME). Já filiado à Arena dos militares, foi eleito deputado estadual em 1967 e, em sequência, duas vezes deputado federal. Em 1977, presidente da Câmara Federal, embora fosse contrário, não protestou quando o então presidente Ernesto Geisel decretou o recesso do Congresso Nacional para aprovar reformas do judiciário e política, criando nesta os chamados senadores biônicos. E, em reconhecimento à sua postura passiva como líder parlamentar, foi indicado governador biônico de Pernambuco por Geisel em 1978, seu primeiro cargo no Executivo.
Eleito senador em 1982 já pelo PDS, dois anos depois seria um dos líderes da defecção do partido para fundar o PFL. Se sempre foi fiel aos coronéis, pulou quando o barco dos generais afundava. Quando o bote salva-vidas do PDS passou ao controle de um populista de direita, Paulo Maluf, para a disputa da última eleição indireta a presidente do Brasil, Marco Maciel chegou a ser cogitado na chapa encabeçada por Tancredo Neves (PMDB). Que venceu nos votos do colégio eleitoral em 1985, mas morreu antes de assumir. Vice que acabou sendo indicado pelo PFL, assumiu o maranhense José Sarney. A quem o senador pernambucano serviu como ministro da Educação e, depois, da Casa Civil.
Se pulou na canoa furada de Maluf em 1985, o PFL embarcou na aventura de outro populista de direita: Fernando Collor, vitorioso em 1989 no segundo turno contra Lula e primeiro presidente eleito do Brasil desde Jânio Quadros, quase 30 anos antes, em 1960. Marco Maciel foi líder de Collor no Senado, que só abandonou quando o impeachment se tornou inevitável. O vice do governo socialdemocrata de FHC, como foi o de Lula hoje acusado de “comunista”, pôde observar a evolução da qualidade de vida do brasileiro mais pobre. Quem votava nos coronéis aliados da ditadura em troca de um açude para ter água de beber, passou a comer frango com o PSDB no poder e picanha, da qual Lula tanto se orgulha, com o PT. O mesmo brasileiro que, com a volta da inflação, hoje tem dificuldade para comer ovo.
Apesar do seu passado pró-ditadura, o político alto, esguio, culto e discreto foi um articulador fundamental para o seu fim. E, como o que veio depois de Lula foi Dilma, não dá para ter medo de errar: Marco Maciel foi o vice do único governo da redemocratização brasileira que passou a faixa com uma base sólida ao sucessor, pensando mais no país do que em um projeto de poder. Foi um conservador do diálogo que, sobretudo na radicalidade bipolar de hoje, fará falta. E, entre erros e acertos, deixa na construção de pontes o seu maior legado.
“A cidade espera mais competência, maturidade, e menos birra”. Foi assim que o secretário de Ciência e Tecnologia de Niterói, Caio Vianna (PDT), reagiu às críticas de ausência que lhe foram feitas pelo prefeito de Campos, Wladimir Garotinho (PSD), no programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, na manhã de ontem (11). A entrevista gerou a manchete de hoje (confira aqui) da Folha da Manhã.
Caio disputou com Wladimir o segundo turno da eleição a prefeito de Campos mais disputado da história do município, no qual o representante do clã dos Garotinho venceu por 52,4% a 47,6% dos votos válidos. Em respeito ao contraditório, sem a qual não existem jornalismo ou democracia, segue abaixo a íntegra da resposta do representante do clã Vianna aos questionamentos do prefeito campista:
Caio Vianna e Wladimir Garotinho (Montagem: Joseli Mathias)
“O prefeito Wladimir Garotinho deveria entender que a campanha acabou, e que sua prioridade tem que ser a de enfrentar os grandes desafios que a cidade tem, ao invés de ficar atacando seus adversários políticos.
Os interesses pessoais não podem prevalecer sobre os interesses do povo.
Na campanha ele disse que tinha uma equipe com mais de 100 técnicos e soluções para os problemas da cidade. Agora, aumenta impostos, prejudica servidores, não dialoga com os segmentos e tenta desviar o foco. Sem falar na manobra para limpar o nome da ex-prefeita Rosinha Garotinho.
A cidade espera mais competência, maturidade, e menos birra”.
Também criticados nominalmente por Wladimir em sua entrevista ao Folha no Ar, o ex-prefeito de Campos Rafael Diniz (Cidadania) e o ex-vereador e ex-secretário municipal Marcão Gomes (PL) foram contactados pelo blog, mas preferiram não se manifestar.