Abertura de templos, CPI da Covid e 100 dias de Wladimir no Folha no Ar desta 2ª

 

(Arte: Joseli Mathias)

 

A partir das 7h da manhã desta segunda (12), quem abre a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o advogado Carlos Alexandre de Azevedo Campos, ex-assessor do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele falará sobre a manutenção, por 9 a 2 no plenário da instância máxima do Judiciário, da decisão a governadores e prefeitos sobre a abertura, ou não, dos templos religiosos durante a pandemia. Ainda em relação ao STF, também analisará a decisão liminar e encaminhada ao plenário pelo ministro Luís Roberto Barroso, que foi provocado por senadores favoráveis à CPI da Covid no Senado, que já tinha cumprido suas exigências constitucionais, e determinou sua abertura. O que gerou críticas e agressões verbais do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e seus apoiadores nas redes sociais.

Por fim, Carlos Alexandre avaliará os 100 primeiros dias do governo Wladimir Garotinho (PSD) em Campos, que se completaram ontem (10), merecendo um painel de análise na Folha (confira aqui) com outros representantes da sociedade civil goitacá. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

 

Wladimir Garotinho, Jair Bolsonaro e CPIs de Brasília a Campos

 

Prefeito Wladimir Garotinho e presidente Jair Bolsonaro (Montagem: Jiseli Mathias)

 

 

Wladimir, Bolsonaro e CPIs de Brasília a Campos

 

Hoje, 10 de abril, se completam 100 dias da administração Wladimir Garotinho (PSD). Que se dão em meio às consequências locais do momento mais grave da pandemia da Covid no país. Como também da gravidade da crise financeira que é particular ao município e anterior ao vírus, embora agravada por ele. A despeito do contexto desfavorável, se percebe um clima de otimismo com a nova gestão municipal. Que foi refletido no painel de análise publicado (confira aqui) nas páginas 2 e 3 desta edição, com seis representantes da sociedade civil goitacá. Entre as notas indagadas a cada um sobre os 100 dias de Wladimir, a média de avalição da sua administração foi de 7,5. Entre 0 a 10, é uma aprovação inicial com louvor. Lembrado que, à frente, existe o boletim ainda vazio à nota dos 1.360 dias restantes do mandato.

Em outra etapa de tempo, hoje também se completam os primeiros 100 dias da segunda metade do governo Jair Bolsonaro (sem partido). E a data se deu de maneira francamente desfavorável ao presidente. Na quinta (08), no Supremo Tribunal Federal (STF), ele sofreu duas derrotas contundentes: por 9 a 2 contra a liberação dos templos religiosos durante a pandemia, além da decisão liminar do ministro Luís Roberto Barroso, obrigando o Senado a abrir a CPI da Pandemia. Que foi proposta pelo próprio Senado, dentro das regras constitucionais: 31 assinaturas (quatro a mais do que o 1/3 mínimo de 27), com prazo e fato determinado. Mas era barrigada pelo senador Rodrigo Pacheco (DEM/MG), eleito presidente da Câmara Alta com apoio de Bolsonaro.

Como o negacionismo do governo federal se espraia em doentes, mortos e colapso das redes de saúde nos 5.570 municípios do país, a análise dos 100 primeiros dias do prefeito Wladimir buscou ser plural. Mas, por motivo oposto, sem condenar nenhum setor ao sufocamento. Em ordem alfabética, a Folha ouviu a servidora Eliane Leão, presidente do Siprosep; o cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf; o especialista em finanças Igor Franco, professor do Uniflu; o professor Jefferson Manhães de Azevedo, reitor do IFF; o empresário José Francisco Rodrigues, presidente da CDL-Campos; e o médico infectologista Nélio Artiles, professor da FMC. Que avaliaram o novo governo de Campos:

 

Servidora municipal Elaine Leão, presidente do Siprosep; cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf; especialista em finanças Igor Franco, professor do Uniflu; professor Jefferson Manhães de Azevedo, reitor do IFF, empresário José Francisco Rodrigues, presidente da CDL-Campos; e médico infectologista Nélio Artiles, professor da FMC (Montagem: Joseli Mathias)

 

— Pela atual crise (…) sei que diversas reivindicações não serão atendidas. A virtude é o diálogo. E os principais erros a ausência de calendário de pagamento, o não recebimento do 13º. Estes erros frequentes na folha de pagamento adoecem o servidor. Nota 6,5 — avaliou Elaine.

— Nota 7: com uma equipe experiente e especializada (…) imprimiu um perfil técnico ao seu governo (…) O problema é saber se terá temperança para seguir esse caminho, em meio à tradição de loteamento de cargos e apadrinhamento de recursos públicos — pontuou Hamilton.

— Acho que uma nota 8,5 não é excessiva (…) A principal virtude tem sido a comunicação direta com a população; o maior erro foi a injustificável liberação de celebrações religiosas durante o lockdown; a maior dúvida é o nó fiscal que terá que começar a ser desatado — enumerou Igor.

— Apesar de qualquer avaliação neste momento sugerir precocidade e simplificação de análise, vejo o início de um governo que está tentando “apagar incêndios” e buscando dialogar. Por esse esforço, daria uma nota 8 — justificou Jefferson.

— Diante desta questão da pandemia, no tocante ao comércio, tomou decisões acertadas e algumas equivocadas (…) São raros os prefeitos eleitos no passado que alcançariam um grau de satisfação 10 dos diversos segmentos. Dou nota 8 nestes 100 dias — explicou José Francisco.

— Considerando todas as adversidades enfrentadas, vejo que o Wladimir teve uma performance positiva, impedindo uma situação ainda pior (…) vejo com bons olhos o secretariado, tendo a maioria boa competência técnica. Eu daria uma nota 7 — analisou Nélio.

Apesar de contar com menos avaliações positivas a cada nova pesquisa, ainda há substancial número de brasileiros que defendem o governo federal. A despeito da sua desastrosa condução da pandemia ter transformado o país no principal epicentro mundial da pandemia e celeiro de novas cepas do vírus, como a P-1 de Manaus, a P-2 do Rio e a P-4, identificada em Belo Horizonte esta semana. A mesma semana em que o Brasil bateu mais de 4 mil mortos por dia duas vezes, em um total de mais de 325 mil óbitos confirmados. A mesma semana em que Bolsonaro voltou a se calar sobre as vacinas que seu governo se mostra incapaz de adquirir. A mesma semana em que voltou a falar em tratamento precoce, que a ciência já comprovou ineficaz.

Aos olhos do mundo, esse negacionismo diante da pandemia, a ruptura (confira aqui) com a alta cúpula das Forças Armadas Brasileiras e as constantes ameaças à democracia brasileira, mais a volta do ex-presidente Lula (PT) ao tabuleiro eleitoral de 2022, não deixam nenhuma dúvida:

 

 

— O Congresso no Brasil pode propor o impeachment de Bolsonaro por sua péssima gestão da pandemia, incluindo minimizar sua gravidade, resistir às medidas de saúde pública e promover curas charlatanescas. Mas as democracias dos Estados Unidos e da América Latina devem prestar atenção à medida que as eleições do próximo ano se aproximam; e deixar claro para Bolsonaro que uma interrupção da democracia seria intolerável. O presidente brasileiro já contribuiu muito para o agravamento da pandemia Covid-19 em seu próprio país e, por meio da disseminação da variante brasileira, pelo mundo. Ele não deve ter permissão para destruir uma das maiores democracias do mundo também — advertiu (confira aqui) em editorial do último dia 2 o jornal The Washington Post, um dos mais conceituados dos EUA.

 

 

— Ataques violentos do presidente e seus comparsas não conseguiram conter um ambiente vibrante de mídia, intimidar os tribunais ou silenciar os críticos da sociedade civil. Seu tratamento desastroso com a Covid-19 parece estar causando dúvidas entre a elite econômica que antes o abraçava. Algumas partes dos militares aparentemente compartilham desse mal-estar. A possibilidade do retorno de Lula é suficiente para concentrar mentes da direita em encontrar um candidato alternativo, menos extremista do que Bolsonaro. Pode ser irritante ver aqueles que ajudaram sua ascensão se posicionarem como os guardiões da democracia, ao invés de seus próprios interesses. Mas sua partida seria bem-vinda, pelo bem do Brasil e do resto do planeta — pregou (confira aqui) em outro editorial, do dia 6, o influente jornal britânico The Guardian.

Na noite do dia seguinte (07), sobre a abertura da CPI determinada por Barroso, que só reagiu aos senadores que o provocaram judicialmente e teve o cuidado institucional de encaminhar sua decisão liminar ao plenário do STF, Pacheco disse que não vai esperar este para cumpri-la. Como é advogado, ecoou o lugar comum: “decisão judicial se cumpre”. E, se criticou a questão de “conveniência e oportunidade” da CPI, também foi eloquente no que calou. Ao não fazer nenhuma defesa do governo Bolsonaro, fez pensar se, com este acuado, não será mais fácil chupá-lo até o bagaço pelo Centrão — que o presidente do Senado representa. Tanto quanto o presidente da Câmara Federal, deputado Arthur Lira (PP/AL). Que no último dia 24 criticou os “erros primários, erros desnecessários, erros inúteis” na condução da pandemia pelo governo federal, lembrando a este os “remédios amargos” do Legislativo.

Como sua irmã, a deputada federal Clarissa Garotinho (Pros), o ex-deputado e prefeito Wladimir também conta com o enfraquecimento do governo Bolsonaro na proporção exata e inversa ao fortalecimento do Centrão. O objetivo pragmático é conseguir emendas parlamentares que atenuem a crise financeira de Campos. É o tal “dinheiro novo”, expressão criada na campanha municipal de 2020 pelo prefeitável Roberto Henriques (PCdoB). E que foi ecoada pelos demais concorrentes ao antigo Cesec, inclusive quem venceu a eleição em disputado segundo turno.

 

Publicada em Diário Oficial em 5 de março, CPI da Saúde foi instaurada na Câmara Municipal de Campos para investigar ”do início de 2017 em diante” (Reprodução)

 

Ulysses Guimarães e sua grande obra, a Constituição Federal de 1988

Wladimir só deveria atentar a um fato, talvez ainda despercebido. Sem o mesmo alarde da CPI da Pandemia do Senado, a CPI da Saúde aprovada pela maioria garotista na Câmara Municipal começa seu período de investigação em 1º de janeiro de 2017. Mas não termina em 31 de dezembro de 2020, como as CPIs do Transporte e da Educação. Instalada em 8 de março, com prazo de 90 dias, prorrogável por mais 90, a CPI da Saúde pode se estender até o próximo dia 8 de setembro. Neste caso, pegaria além de todo o governo Rafael, mais oito meses do governo atual, em sua pasta financeiramente mais robusta e tradicionalmente mais complicada.

Um dos maiores políticos da história recente do Brasil, a quem o país deve mais que a qualquer outro a Constituição Federal de 1988, promulgada por ele com “ódio e nojo da ditadura”, Ulysses Guimarães também imortalizaria outras sentenças. Uma delas vale aos governos do Planalto Central à planície goitacá: “CPI, a gente sabe como começa, não como termina”.

 

Publicado hoje (10) na Folha da Manhã

 

Wladimir completa 100 dias de governo sob análise da sociedade civil

 

Nota 7,5. De 0 a 10, esta foi média das avaliações feitas pelos seis entrevistados neste painel sobre os 100 primeiros dias do governo Wladimir Garotinho (PSD), completos hoje (10), à frente de Campos dos Goytacazes. Graves e complexos são os problemas que afetam diretamente a realidade diária dos mais de 511 mil campistas. E nenhum deles desconhecido. Tanto a pandemia da Covid-19, que entre abril de 2020 e abril de 2021 já matou oficialmente 910 pessoas na cidade — nos cartórios já superaram os mil óbitos desde o fim de março —; quanto a grave crise financeira do município. Esta foi detalhada na série de 11 painéis promovidos pela Folha sobre o tema, de julho a setembro de 2020 (confira aquiaquiaquiaquiaqui, aquiaqui, aqui, aquiaqui e aqui), com 34 representantes da sociedade civil. Entre eles, cinco voltam aqui para analisar os 100 primeiros dias da gestão Wladimir. Em ordem alfabética: a servidora municipal Elaine Leão, presidente do Siprosep; o cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf; o especialista em finanças Igor Franco, professor do Uniflu; o professor Jefferson Manhães de Azevedo, reitor do IFF; e o empresário José Francisco Rodrigues, presidente da CDL-Campos. Pela gravidade da crise sanitária, aos cinco de juntou o médico infectologista Nélio Artiles, professor da FMC. Se há certo otimismo, natural aos inícios de governo, nenhum dos seis ignorou a grande dificuldade dos problemas presentes. Nem a complexidade daqueles que governo e governados têm pela frente.

 

Servidora municipal Elaine Leão, presidente do Siprosep; cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf; especialista em finanças Igor Franco, professor do Uniflu; professor Jefferson Manhães de Azevedo, reitor do IFF, empresário José Francisco Rodrigues, presidente da CDL-Campos; e médico infectologista Nélio Artiles, professor da FMC (Montagem: Joseli Mathias)

 

Folha da Manhã – Ainda que pouco, 100 dias costuma ser um período emblemático de avaliação de qualquer governo. Que nota de 0 a 10 daria à gestão Wladimir Garotinho? Como a justificaria? Qual a principal virtude, erro e dúvida sobre a administração?

Elaine Leão – Pela atual crise financeira do país, sei que diversas reivindicações não serão atendidas. A virtude é o diálogo. E os principais erros a ausência de calendário de pagamento, o não recebimento do 13º. Estes erros frequentes na folha de pagamento adoecem o servidor. Nota 6,5.

Hamilton Garcia – Nota 7: com uma equipe experiente e especializada, a maioria formada nas faculdades da cidade, o prefeito imprimiu um perfil técnico a seu governo, o que é muito bom diante do histórico da cidade. O problema é saber se ele próprio terá temperança para seguir este caminho, em meio à tradição de loteamento de cargos, apadrinhamento de recursos públicos, entre outras práticas nada republicanas que marcam a política local e nacional. E se terá disposição de enfrentar os privilégios econômicos associados às práticas ilegais de financiamento/enriquecimento político, correntes por aqui.

Igor Franco – Estou positivamente surpreso com a gestão. Acho que uma nota 8,5 não é excessiva. Wladimir vem sendo bem-sucedido na sua estratégia de engajamento nas redes, demonstrando as ações da Prefeitura e “colocando a mão na massa”, num estilo muito parecido com o imposto por João Doria na Prefeitura de São Paulo. A principal virtude tem sido a comunicação direta com a população; o maior erro foi a injustificável liberação de celebrações religiosas durante o lockdown; a maior dúvida é quanto ao nó fiscal que terá que começar a ser desatado nessa gestão.

Jefferson Manhães de Azevedo – Não é possível ser tão cartesiano em um cenário político, econômico e sanitário tão nebuloso e complexo no qual estamos imersos. Como não considerar as dificuldades inerentes de qualquer início de governo, especialmente como consequência de um processo eleitoral postergado, com prejuízos no tempo para a transição de governo e formação de equipe, em um quadro eleitoral disputado e diante da maior crise planetária experimentada nos últimos 100 anos, agravada por uma “desconcertação” nacional? Apesar de qualquer avaliação neste momento sugerir precocidade e simplificação de análise, vejo o início de um governo que está tentando “apagar incêndios” e buscando dialogar. Por esse esforço, daria uma nota 8.

José Francisco Rodrigues – Qualquer avaliação de gestão em um período que estamos vivendo não pode ser exata. Nas condições em que assumiu o cargo, com salários atrasados do funcionalismo e outras pendências, seria impossível uma nota máxima. Diante desta questão da pandemia, no tocante ao comércio, tomou decisões acertadas e algumas equivocadas, mas em um quadro de compreensão. São raros os prefeitos eleitos no passado que alcançariam um grau de satisfação 10 dos diversos segmentos. Dou nota 8 nestes 100 dias.

Nélio Artiles – É muito difícil fazer uma avaliação precisa em um momento tão atípico como estamos vivendo. Porém considerando todas as adversidades enfrentadas, vejo que o Wladimir teve uma performance positiva, impedindo uma situação ainda pior. Muito difícil enfrentar crises, porém vejo com bons olhos o secretariado, tendo a maioria boa competência técnica. Eu daria uma nota 7.

 

Folha – O principal problema de Campos, como de todo o Brasil sob governo Jair Bolsonaro (sem partido), é a pandemia da Covid-19. Apesar das muitas críticas, esse foi um ponto em que o governo Rafael Diniz (Cidadania) foi bem avaliado. No governo Wladimir, como analisa?

Elaine – Em nenhum dos dois governos tivemos o lockdown verdadeiro e necessário nos momentos de pico. Como também nunca temos a fiscalização necessária em relação ao decreto. No tocante ao servidor, há necessidade ainda de aumento percentual do adicional de insalubridade e de melhores condições estruturais.

Hamilton – Até agora o prefeito parece disposto a enfrentar os interesses imediatos para preservar a saúde pública. O problema central da pandemia, todavia, é como educar a população a seguir os protocolos de saúde indicados para o momento, em meio a uma inédita politização dos temas sanitários, a partir de Brasília, mas não restrita à ela. Quanto ao setor saúde, a reestruturação prometida deve levar tempo e, de novo, estará sob teste a temperança governamental para enfrentar os interesses corporativos que, juntos aos patrimoniais, constituem a espinha dorsal da crise brasileira.

Igor – Entendo que Wladimir vem tomando boas medidas para combater a pandemia. Em especial, foi bastante corajosa a postura de manter o lockdown por mais uma semana na cidade. Não há dúvidas de que a situação do comércio é desesperadora e que há um risco relevante para a popularidade do Prefeito. Entretanto, dados os números atuais, medidas mais rigorosas por mais tempo são necessárias para evitarmos um colapso completo do sistema de saúde. E, embora seja tentador pensar o contrário, o descontrole da pandemia vai onerar ainda mais a economia da cidade.

Jefferson – Uno-me àqueles que avaliam como destacada as ações de combate à pandemia do governo Rafael, como também julgo sábia a decisão de manutenção de muitas dessas ações no governo Wladimir. Aprendi em minha vida, como gestor público, que sempre é possível fazer melhor aquilo que estamos fazendo. Além disso, admiro a grandiosidade de gestores que buscam fazer o melhor, sem a necessidade egocêntrica de autoria. O sucesso da gestão pública não é pessoal, mas uma vida melhor para todos.

José Francisco – Antes focaram todos os esforços montando inclusive uma Centro de tratamento para combater pandemia. Wladimir já chegou com uma nova e forte onda da pandemia e uma demanda ainda maior. Conseguiu ampliar o número de leitos de UTIs e está focando nisso. Wladimir está dando continuidade, e temos que compreender equívocos e aplaudir acertos. Visivelmente está fazendo todo o possível para minimizar os efeitos desta tragédia.  Temos que torcer para dar certo.

Nélio – Sem dúvida é preciso reconhecer que a Saúde teve uma condução adequada no governo de Rafael Diniz, frente aos novos desafios postos, sendo capaz de criar o CCC, com um atendimento digno e eficaz, assim como uma atuação da vigilância em saúde competente. Fico feliz que no governo de Wladimir, apesar das mudanças realizadas e considerando estarmos em um novo cenário desafiador, a condução tem sido eficiente, mesmo enfrentando um colapso nesta área, com leitos hospitalares em seu limite máximo.

 

Folha – Rafael fez um lockdown, entre maio e junho de 2000. Wladimir fez dois, um logo em janeiro, e o atual, na fase até aqui mais dura da pandemia. Com o ritmo lento da vacinação no Brasil e 66 pessoas na fila de espera por leito em Campos, vê outra saída? Qual?

Elaine – Vacina é uma dificuldade no país. O lockdown é inevitável diante do descompromisso da população e da falta de fiscalização efetiva do governo. A saída é melhorar a estrutura hospitalar, conscientizar e punir a população que não respeita os decretos.

Hamilton – O confinamento não pode ser panaceia; ele deve ser indicado apenas para as regiões onde ocorrem aglomerações, até para que possa haver fiscalização efetiva. Não adianta de nada bloquear praias que, mesmo no alto verão, não têm densidade alguma, salvo alguns pontos específicos. O que vale nas epidemias é, além de evitar as aglomerações, inclusive no transporte público, mudar a postura do cidadão numa região onde lavar as mãos depois de ir ao banheiro nunca foi um hábito e o respeito ao espaço alheio é ficção; vide a crise recente das descargas das motos.

Igor – A saída definitiva será através da vacina, mesmo que futuramente precisemos de doses de reforço. Enquanto a vacina não chega em número suficiente para controlar a pandemia, provavelmente precisaremos entremear medidas de maior rigor com relaxamento para que a atividade econômica não colapse. Imaginar uma imunização em massa antes do primeiro semestre, hoje, me parece excesso de otimismo.

Jefferson – Como não temos vacinas suficientes, e de acordo com a maioria dos especialistas na área, a única saída possível para enfrentar o estágio da crise sanitária e o colapso dos sistemas de saúde do país é um verdadeiro lockdown nacional. Experimentamos poucos ‘fechamentos’ corretos e eficientes, especialmente no Brasil. Os que de fato ocorreram em algumas poucas cidades brasileiras e em vários países no mundo, sejam eles nacionais ou regionais, tiveram comprovados efeitos em uma drástica diminuição do contágio e das mortes e, por conseguinte, estas cidades e países terão as vantagens econômicas futuras por terem saído primeiro da crise sanitária.

José Francisco – Essa é uma questão delicada. No primeiro lockdown de Wladimir, diante do exposto, pelas autoridades sanitárias e médicas, compreendemos a medida. No segundo, participamos das reuniões, a exemplo da primeira e também apoiamos. Mais um terceiro fechamento na semana seguinte, o comércio não suportaria. A questão como você bem colocou é a vacina. Precisamos apressar e sabemos que o prefeito está fazendo todos os esforços neste sentido. Somos testemunhas disso.

Nélio – Infelizmente a situação é muito complicada, pois há falta de centralização na gestão da saúde pública do país, com o entra e sai de ministros e falta de uma liderança maior. Há inversão nas prioridades, com investimentos em ações distantes da ciência, postergando a aquisição de vacinas e fomentando aglomerações e o não uso de máscaras. Apesar de sofrida, a única forma de melhoria do cenário seria manter a restrição da circulação das pessoas, de uma forma regrada e fiscalizada, já que nosso país não consegue um lockdown total.

 

Folha – Na segunda (05), o governo Wladimir decidiu manter o lockdown. Mas, após protestos do comércio, anunciou na terça (06) a reabertura gradativa a partir do dia 12. Como também na terça o CCC anunciou a incapacidade em atender qualquer novo doente, vê lógica na decisão?

Elaine – Não vejo lógica nessa decisão. Calibrar a balança economia e saúde não é uma tarefa fácil. Porém, diante do descaso da população e da falta de fiscalização efetiva, abrir gradativamente significará mais contaminados e mais mortes na cidade.

Hamilton – O confinamento deve ser imposto onde e quando necessário, e não deve se ater ao centro da cidade. É preciso mapear os subcentros espalhados por todo o território e planejar a fiscalização com base neles. É preciso também que se multem não só os estabelecimentos que infringem as leis sanitárias, mas também o cidadão, quando isto for pertinente, como no caso das festas ilegais, o não uso das máscaras e qualquer forma de aglomeração provocada pela intenção deliberada dos indivíduos.

Igor – Do ponto de vista sanitário, o ideal seria um lockdown mais restrito e por maior prazo. Porém, mais de um ano depois da eclosão da Covid-19, poucos negócios, mesmo os saudáveis, têm capacidade de permanecer fechados. Não se trata, obviamente, de equiparar vidas a empregos, mas simplesmente reconhecer que, a partir de determinado ponto, a própria eficácia do distanciamento mais rigoroso começa a perder tração. O relaxamento à frente pode funcionar com uma espécie de fôlego para a eventual necessidade de um novo fechamento à frente.

Jefferson – Aprendi com Boaventura de Sousa Santos que “desaparecendo a ideia de que há um poder que está injustamente criando injustiça social, as vítimas viram-se contra as vítimas”. Neste momento, todos estão pagando uma conta muito alta pela incompetência na gestão da crise sanitária nacional. É triste e trágico, mas nosso país está sendo considerado um pária e uma ameaça mundial. Somos o “laboratório” do que não se deve fazer em uma crise sanitária.

José Francisco – Eu poderia dizer que o comércio fechado não impediu o colapso, assim como um especialista em saúde diria que se o comércio estivesse aberto o problema seria maior. O comércio não é o vetor do vírus. Trabalhamos seguindo à risca todos os protocolos para proteger nossos colaborados e consumidores. O prefeito está certo em flexibilizar a partir da próxima semana. A curva achatar e o ritmo da vacinação aumentar, a segurança aumenta. Essa reabertura seguirá padrões sanitários. Existe lógica em buscar soluções sim.

Nélio – A situação que enfrentamos, nos leva a um afastamento de uma lógica racional. O colapso da rede de saúde está diretamente relacionado a falta de responsabilidade no comportamento das pessoas, com reuniões e aglomerações indevidas. Campos não está fazendo um lockdown, mas uma restrição parcial à circulação, com o fechamento dos potenciais espaços de aglomeração. Com a inevitável reabertura do comércio, há necessidade de uma fiscalização mais precisa, com limitações efetivas nos espaços públicos e privados.

 

Folha – A crise financeira de Campos vem do final de 2014, na gestão Rosinha, com a queda brusca no preço do barril de petróleo. Arrastou-se durante no governo Rafael e, em consequência da Covid, deve piorar no de Wladimir. Como este a vem enfrentando? Qual a alternativa?

Elaine – A alternativa é aumentar a receita municipal com exploração de outros setores, principalmente agricultura, por ser uma vocação regional, buscando novas fontes diversas à dependência do petróleo. É preciso um bom gestor para fazer a cidade funcionar de verdade.

Hamilton – O preço do petróleo tem oscilações e no momento se verifica certa recuperação. Mas sabemos que seus dias estão contados pela tendência à diminuição da demanda, em função das inovações tecnológicas e das mudanças de hábito das novas gerações. O caminho imediato é voltar a apostar nas vocações locais para a produção, o que deve ser pensado em conjunto com a política de educação/qualificação da mão de obra, que é o que todos o países retardatários, da Alemanha à China, passando pelo Japão e Coreia do Sul, fizeram no século passado. E nós, não.

Igor – Durante o período eleitoral, já afirmei à Folha que a atuação do novo governo municipal seria, a princípio, mera gestão de fluxo de caixa. Parece que o meu diagnóstico estava correto. Desde o início do mandato, a vitória é manter os compromissos mais urgentes em dia, como repasses aos hospitais e as folhas de pagamento. Não vejo ambiente político para a discussão ou proposição de medidas com efeitos estruturais sobre o caixa do município neste momento. Porém, é essencial ter mapeadas as propostas a serem encaminhadas para tratar do problema.

Jefferson – “Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar”, dizia Antonio Machado. É lamentável quando ouvimos vozes que simplificam as complexidades. Provavelmente fruto de imaturidade daqueles que nunca foram testados em processos de gestão. As respostas vão sendo construídas na trajetória de gestão. Algumas acertadas, outras equivocadas. É preciso ter capacidade para analisar os cenários e antecipar ações, assim como a humildade e perseverança para dialogar na construção das respostas, avançando e retrocedendo quando necessário.

José Francisco – Já damos o primeiro semestre deste ano como perdido, mesmo reabrindo na próxima semana. Estimo que mais de 25% das empresas, a maioria micro e pequenas, não terão condições de reabrir. No segundo semestre será possível uma reação com a maioria das pessoas vacinadas, mas definitivamente esse não será um ano econômico bom. Se você pagar a queda dos repasses dos royalties e os custos com a pandemia, você terá o que os americanos chamam de a tempestade perfeita.

Nélio – A crise de município vem há mais tempo, sendo porém, mascarada pela passividade do recebimento dos royalties, que não foram ao meu ver investidos na infraestrutura necessária para um desenvolvimento diversificado nas diversas áreas, como agropecuária, turismo, energia limpa, reciclagem ambiental, etc. Com o déficit atual deve-se buscar novos recursos, seja em parcerias público privadas, novas articulações políticas e na academia, onde mentes pensantes, embasadas nas diversas ciências, mostrem novos caminhos, trazendo principalmente a inovação.

 

Folha – Na série de 11 painéis da Folha sobre a crise financeira, de julho a setembro de 2020, com 34 representantes da sociedade civil, três opções foram consensuais: retomada da vocação agropecuária, parceria com as universidades e pregão eletrônico. Vê elas sendo tentadas?

Elaine – Não, ainda não estão sendo tentadas. Por consequência da crise sanitária ou por falta de tempo, uma vez que se passaram apenas 100 dias. Cabe a gestão um pontapé inicial que não fique somente nos discursos.

Hamilton – As vocações locais terão que ser reinventadas e isto só será possível em parceria com as universidades, que terão que se reinventar também, passando a responder não só às demandas de produtividade da burocracia acadêmica federal, mas se voltando também para a solução dos problemas nacionais/locais, o que parece ser uma vontade latente. Naturalmente, isso leva tempo, pois teremos que vencer muitos obstáculos, inclusive o da primazia da burocracia sobre o trabalho, e das demandas corporativas/patrimoniais sobre os interesses sociais.

Igor – Em linha com a minha última afirmação, por mais desejáveis e urgentes que sejam essas iniciativas, não me parece haver foco em qualquer outra coisa que não seja manter os serviços públicos mais básicos funcionando e tratar as mazelas da pandemia atual. Seria ótimo ser surpreendido por iniciativas como as mencionadas na pergunta, porém, com a escassez de recursos humanos e financeiros agravada pela pandemia, não é possível criticar o governo pela demora em atuar em outras frentes.

Jefferson – Gostei muito da indicação do prof. Almy (Júnior) na liderança da pasta responsável pelas políticas da agropecuária de nosso município, assim como o prof. Marcelo Feres responsável pela Educação, Ciência e Tecnologia. Dois egressos do espaço acadêmicos e com laços fortíssimos nos ambientes de pesquisa e desenvolvimento tecnológico. Acredito que colheremos bons frutos ao longo do tempo. Não sou um profundo conhecedor das ações do governo, porém, pelas informações que tenho, há um esforço para que o pregão eletrônico seja finalmente consolidado.

José Francisco – Certamente a provocação de vocês da Folha, no bom sentido, foi perfeita. No segmento da cana-de-açúcar as duas usinas de Campos produziram R$ 500 milhões, e essa safra deve ser melhor. O agronegócio está salvando o país e poderá em médio prazo salvar Campos. Temos a Uenf e outros órgão de pesquisa para fazer isso virar realidade. No orçamento municipal, a verba para a agricultura aumentou, não o ideal, mas já é um avanço. O pregão eletrônico pós-pandemia terá que ser uma realidade.

Nélio – Não faço parte desse métier, porém como descrito na pergunta anterior, percebo, sim, um atraso no desenvolvimento agropecuário e nas parcerias técnicas. É preciso investir em uma policultura, já que sabemos que nossas terras são ricas e férteis, além de nossa vocação nesta área. As regras de licitação também precisam ser revistas e modificadas, para um uma administração pública mais azeitada, valorizando as diversas áreas de apoio aos negócios.

 

Folha – Não chegou a ser consensual nos painéis da Folha sobre a crise, mas muitos sugeriram o enxugamento da máquina pública municipal, diante da queda irreversível da arrecadação. Como vê a questão, inclusive com a contratação de mais terceirizados pela atual gestão?

Elaine – Discordo com veemência com o desmonte do serviço público. Os servidores já estão há seis anos sem reajuste nenhum, onde muitos ganham salário base, menos de um salário mínimo. Existe, sim, a necessidade de uma gestão eficiente para gerar mais receitas.

Hamilton – A grande revolução é inaugurarmos o recrutamento, em todas as formas, sob a égide do mérito, ou seja, tendo em mente o objetivo do setor a ser suprido pelo corpo técnico e não o inverso, como costumam fazer os corporativistas, sejam do trabalho ou dos negócios, e os patrimonialistas. A máquina pública foi feita para servir ao público, não a determinados grupos privados empoderados, sejam oligárquicos, sindicais ou empresariais. Essa dura lição foi aprendida, alhures, nas revoluções burguesas dos séculos passados, que nós não vivenciamos.

Igor – Também à Folha, já frisei a grande dificuldade dos governos municipais de realizar algum tipo de reforma ampla no funcionalismo que gere efeitos duradouros sobre a folha de pagamento. A contratação de terceirizados, cujo gerenciamento é muito mais flexível que o de servidores, não é um mal por si. Porém, a vigilância da imprensa e dos órgãos de fiscalização sempre é recomendável, de forma que essa ferramenta não vire instrumento eleitoral ou para atendimento de interesses que não sejam o do município.

Jefferson – Há um tempo necessário para avaliar o dimensionamento adequado dos recursos humanos de qualquer organização, especialmente aquelas que atuam intensamente em atividades de serviços, como governos municipais. É preciso especial atenção aos serviços públicos de atendimento à sociedade em um período de crise colossal, onde a população está ainda mais fragilizada e necessitando, urgentemente, de saúde, escola e assistência social com maior efetividade.

José Francisco – É outra questão delicada. Se não estão fazendo cortes, gestores estão pelo menos evitando contratar. A Prefeitura não tem condições de alimentar uma imensa folha de pagamento, enquanto suas receitas despencam. E, desta forma, não existem investimentos. Não vamos cair naquela história de demonizar o funcionalismo, mas a situação é grave. Temos que ter um funcionalismo eficiente e respeitar a Lei de Responsabilidade Fiscal. É preciso fazer cortes em vários segmentos da administração pública, como na folha de pagamento.

Nélio – Temos a ciência que a folha de pagamento de nosso município ultrapassa os valores de segurança, para uma administração pública responsável e efetiva. É preciso recadastramentos, estudos setoriais de serviços e uma avaliação bem conduzida, através de um planejamento estratégico responsável. As terceirizações podem ser soluções, mas não de forma linear, havendo a necessidade de um olhar diferenciado, de acordo com suas atividades fins.

 

Folha – Os terceirizados são uma maneira conhecida do prefeito manter base de apoio parlamentar e governabilidade. Como vê a questão? E a relação entre Wladimir e a Câmara, quase sem oposição e presidida por Fábio Ribeiro, aliado e correligionário do prefeito?

Elaine – A realidade política nacional é proximidade do Executivo com o Legislativo, o que fere a independência dos Poderes. E, por isto, entendo como prejudicial. Na condição de presidente do sindicato dos servidores, não apoio as contratações de terceirizados. Não só por aparentar essa “troca de favores”, mas também pela falta de direitos trabalhistas.

Hamilton – Se o Prefeito tiver a disposição de fazer o que deve ser feito em prol da recuperação da cidade, então o controle sobre a Câmara será uma vantagem. Agora, se ele ceder à tentação imediatista e à tradição, como fez Rafael, isto pode acabar no mesmo atoleiro político anterior. Uma boa maneira de evitar este caminho é apostar num diálogo mais amplo com a sociedade, de modo a dissipar pressões e encontrar suporte para enfrentar os interesses particularistas aninhados na Câmara e na própria sociedade civil.

Igor – A vigilância quanto ao correto uso dos contratos de terceirização é papel da Câmara, do MP, do TCE e da imprensa. A possibilidade de contratar funcionários sem a execução de concursos, que impõem ônus de longo prazo aos cofres públicos, é uma válvula de escape nesse momento delicado das contas públicas em todo o país. Quanto ao relacionamento com a Câmara, me parece que há um peso considerável da mobilização coletiva para combate à pandemia. Não espero que o prefeito passe todo o mandato sem ser cobrado pela oposição.

Jefferson – Construir maiorias nos parlamentos, seja municipal, estadual e federal me parece imperativo no modelo democrático e republicano em que vivemos. Imaturidade é criar a ilusão de que isso não é necessário, como ocorreu nas eleições de 2018. O resultado estamos assistindo em tempo real. A grande questão é a maneira de construir estas maiorias e qual é o “preço” e a “moeda de troca”. O correto deveria ser o diálogo, o convencimento e as maiorias, quem sabe, temáticas. Mas, infelizmente, o mundo real de nossa cultura política é mais complexo e, como dizem, “não é para amadores”. Triste!

José Francisco – Essa questão dos terceirizados, o prefeito tem acenado com a disposição de não incorrer neste erro, pois sabe da necessidade de cortes como disse na resposta anterior. Quanto à questão da falta de oposição na Câmara isso pode ser ótimo, como pode ser horrível. Dentro de um espírito público republicano, governar com maioria é uma dádiva, mas friso que republicanamente, com responsabilidade. E acreditamos que o prefeito Wladimir esteja perseguindo essa linha juntamente com Fábio Ribeiro.

Nélio – O prefeito Wladimir tem um bom histórico parlamentar, apesar da pouca idade e experiência, e com isso tem apresentado boa articulação no Legislativo, levando-se em conta o momento favorável à sua administração. Porém, em um regime democrático, é extremamente importante a oposição de ideias e palavras, pois permitem novas visões e novos caminhos. Os cenários vão se modificando com o passar dos anos, mas o mais importante no momento é estarmos em um mesmo lado, no enfrentamento de um único inimigo, o vírus SarsCoV-2.

 

Folha – Se tivesse, dentro da sua área de especialidade e atuação, que fazer uma pergunta a Wladimir, resumindo-a em três linhas de word como as que lhe foram feitas nesta avaliação dos 100 primeiros dias de governo dele, qual seria?

Elaine – Quais medidas o governo municipal pretende adotar para valorizar o servidor público, ao invés de somente atribuir a eles o peso da folha salarial?

Hamilton – Qual seria sua estratégia para driblar a tradição e perseguir a inovação na sua gestão, tendo em vista as expectativas de seus eleitores e dos seus grupos de sustentação?

Igor – Prefeito, passada a pandemia, que esperamos ocorra tão logo consigamos viabilizar as vacinas em número suficiente, quais são as propostas que o senhor está preparando para tentar mudar o quadro fiscal da cidade de Campos dos Goytacazes?

Jefferson – Quais as estratégias de governo planejadas para os próximos anos, a fim de recuperar as enormes mazelas de aprendizagem impostas neste tempo pandêmico às nossas crianças e adolescentes, somadas as lacunas já tão graves e extensas existentes?

José Francisco – Prefeito, na medida em que os postos de trabalho vão fechando, torna-se necessário abrir outros. O que o senhor está pensando para equacionar esse problema que é prioritário no pós-pandemia?

Nélio – Enfrentamos uma grande crise de saúde pública, que vem expondo um sistema de saúde sucateado e cheio de fragilidades. Qual é o seu planejamento em médio e longo prazo para uma melhoria nesta área, trazendo mais dignidade ao tratamento de nossos munícipes?

 

Página 2 da edição de hoje (10) da Folha da Manhã

 

 

 

Pré-candidaturas dos Garotinho a federal e estadual em 2022 e mudanças no Pros

 

Clarissa, Mérida, Bruno, Fábio e Juninho (Montagem: Joseli Mathias)

 

As eleições de 2022 já movimentam os bastidores da política goitacá. O grupo dos Garotinho, que retomou o poder em Campos com a eleição de Wladimir (PSD) a prefeito em 2020, discute pré-candidaturas e partidos. A deputado federal, se não há muita dúvida da pré-candidatura à reeleição de Clarissa Garotinho (atual Pros), o empresário e secretário municipal de Desenvolvimento Econômico Marcelo Mérida (PSC) também deve tentar novamente uma cadeira em Brasília, à qual se candidatou e perdeu em 2018.

A disputa mais acirrada, como costuma ser, é entre as pré-candidaturas do grupo à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Entre os garotistas, também é considerada certa a tentativa de reeleição de Bruno Dauaire (PSC), atual secretário estadual de Desenvolvimento Humano. Além dele, dois vereadores saem na frente: respectivamente o presidente e o primeiro vice-presidente da Câmara Municipal, Fábio Ribeiro (PSD) e Juninho Virgílio (atual Pros).

Outra novidade é que o Pros deve mudar de mãos, ainda que continuar na base de apoio dos Garotinho. Além da saída de Clarissa, que se cogita há algum tempo, o partido também perderia a ex-governadora Rosinha e o vereador Juninho. Também podem sair o edil Thiago Rangel, assim como o primeiro e a segunda suplentes do Pros no Legislativo goitacá: respectivamente os ex-vereadores Edson Batista, ex-presidente da Câmara; e Josiane Morumbi, atual presidente municipal da legenda e subsecretária de Direitos da Mulher no governo Wladimir.

 

Após EUA, GBR define visão global de Bolsonaro: “um perigo ao Brasil e ao mundo”

 

O perigo das constantes ameaças à democracia brasileira pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), bem como sua condução desastrosa da pandemia da Covid no país, que ameaça os esforços do mundo contra a doença, parecem ser um consenso na opinião pública internacional. No último sábado (02), como registrado aqui, o tradicional jornal The Washington Post ecoou a advertência dos EUA a Bolsonaro: “O presidente brasileiro já contribuiu muito para o agravamento da pandemia Covid-19 em seu próprio país e, por meio da disseminação da variante brasileira, pelo mundo. Ele não deve ter permissão para destruir uma das maiores democracias do mundo também”. Hoje (06), em outro editorial, também tratando das ameaças à democracia brasileira e ao caos da Covid no país, foi a vez do grande jornal britânico The Guardian expressar a visão global sobre Bolsonaro: “um perigo para o Brasil e para o mundo”.

Confira a íntegra do editorial aqui, em sua publicação original em inglês, e na sua tradução em português abaixo:

 

 

 

Ilustração de Vitor Flynn na capa do jornal francês Le Monde, na paródia gráfica do Brasil de Bolsonaro na Covid com uma icônica cena do filme “Dr. Fantásticio” (1964), única comédia do mestre do cinema Stanley Kubrick

A visão do The Guardian sobre Jair Bolsonaro: um perigo para o Brasil e para o mundo

 

A perspectiva do extremista de direita Jair Bolsonaro se tornar presidente do Brasil sempre foi assustadora. Era um homem com histórico de denegrir mulheres, gays e minorias, que elogiava o autoritarismo e a tortura. O pesadelo se revelou ainda pior na realidade. Ele não apenas usou uma lei de segurança nacional da época da ditadura para perseguir os críticos e supervisionou o aumento do desmatamento na Amazônia em 12 anos, mas também permitiu que o coronavírus se alastrasse sem controle, atacando as restrições de movimento, máscaras e vacinas. Mais de 60.000 brasileiros morreram apenas em março. “Bolsonaro conseguiu transformar o Brasil em um gigantesco buraco do inferno”, tuitou recentemente o ex-presidente da Colômbia, Ernesto Samper. A disseminação da variante P1 mais contagiosa está colocando em perigo outros países.

Com uma pesquisa na semana passada mostrando 59% dos eleitores o rejeitando, Bolsonaro parece estar se preparando para um resultado desfavorável nas eleições do próximo ano. Na semana passada, ele demitiu o ministro da Defesa, um general aposentado e amigo de longa data que, no entanto, parece ter feito objeções às tentativas de Bolsonaro de usar as forças armadas como ferramenta política pessoal. Os comandantes do Exército, da Marinha e da Força Aérea também foram demitidos (relembre aqui) — supostamente quando estavam prestes a renunciar.

O gatilho imediato para as demissões foi a bomba no mês passado o retorno do ex-presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva depois que um juiz anulou suas condenações criminais — abrindo a porta para ele concorrer novamente no ano que vem. Os ataques injuriosos de Lula ao presidente são amplamente vistos como o prenúncio de uma nova candidatura ao poder de um político carismático que continua muito popular em alguns setores.

É possível que, inspirado por Donald Trump, o Sr. Bolsonaro pense em se agarrar ao poder pelo uso da força? Não. É provável. As Forças Armadas superaram a vontade do povo antes: o Brasil foi uma ditadura militar de 1964 a 1985. Quando a multidão invadiu o Capitólio dos Estados Unidos em 6 de janeiro, seu filho se opôs não ao ataque, mas à ineficiência: “Foi um movimento desorganizado . É uma pena ”, disse Eduardo Bolsonaro. “Se eles tivessem sido organizados, os invasores teriam se apoderado do Capitólio e feito demandas pré-estabelecidas. Eles teriam poder de fogo suficiente para garantir que nenhum deles morresse e para serem capazes de matar todos os policiais ou os congressistas que eles tanto desprezam ”.

Embora a saída dos chefes das forças armadas possa sugerir resistência a um plano de golpe, também permite ao presidente instalar aqueles que ele julga mais obedientes; os oficiais mais jovens sempre foram mais entusiasmados com Bolsonaro. Os políticos da oposição pressionam pelo impeachment, com um aviso: “Há uma tentativa aqui do presidente de arranjar um golpe — já está em andamento”.

Existe algum motivo para esperança. Ataques violentos do presidente e seus comparsas não conseguiram conter um ambiente vibrante de mídia, intimidar os tribunais ou silenciar os críticos da sociedade civil. Seu tratamento desastroso com a Covid-19 parece estar causando dúvidas entre a elite econômica que anteriormente o abraçava. Algumas partes dos militares aparentemente compartilham desse mal-estar. A possibilidade do retorno de Lula é suficiente para concentrar mentes da direita em encontrar um candidato alternativo, menos extremista do que Bolsonaro. Pode ser irritante ver aqueles que ajudaram sua ascensão se posicionarem como os guardiões da democracia, ao invés de seus próprios interesses. Mas sua partida seria bem-vinda, pelo bem do Brasil e do resto do planeta.

 

Live nacional às 19h desta terça sobre o negacionismo à pandemia em Campos

 

(Arte: Marcos Galinã – Coletivo Todos os Crimes do Presidente)

 

Às 19h desta terça (06), fui convidado e aceitei participar de uma live (confira aqui e aqui) do coletivo nacional “Todos os Crimes do Presidente”, que será exibida simultaneamente nas páginas do Facebook 100 Mil Lives, Ocupa Minc RJ  e Ato Mundial STOP Bolsonaro. O tema do debate será o negaciosnismo da ciência em Campos de Goytacazes, encampado por bolsonaristas e que contribui ao colapso da rede de saúde pública, contratualizada e privada do município pela pandemia da Covid-19. Que até ontem havia tirado a vida de 869 campistas, segundo (confira aqui) as estatísticas do poder público municipal. Mas que, na verdade, chegam a 1.057 mortos pelo coronavírus em Campos, segundo o levantamento feito pela Folha da Manhã (confira aqui) nos cartórios.

 

Deus da morte brasileiro dita mandamentos ao Estado laico e tem apóstolo no STF

 

Kali, deusa da morte do hinduísmo

 

A morte foi personificada em deuses e deusas nas religiões politeístas de várias civilizações. Era Anúbis para os egípcios, Tânatos para os gregos, Plutão para os romanos, Doon para os celtas, Kali para os hindus, Meng Po para os chineses, Shinigami para os japoneses, Hela para os nórdicos, Mictecacihuatl para os astecas, Supay para os incas, Anhangá para os tupis, Iku para os iorubás.

No Brasil, desde a campanha presidencial de 2018, a morte foi personificada no “deus acima de todos”. Que, do Deus do amor pregado por Jesus, não tem nem o branco dos olhos. É o mesmo deus dos templos que preferem contaminar seus fiéis em cultos presenciais, no auge da pandemia da Covid no país, a deixar de engordar os bolsos dos seus pregadores com o dinheiro do dízimo — moedas de prata de Judas, sem arrependimento pela traição.

Na negação de toda a vida e pregação do Cristo, cuja ressurreição hoje se celebra, esse novo deus da morte brasileiro encontra altar no Estado laico. E condena seus próprios crentes à morte pelo sufocamento lento, como era na crucificação, mas sem direito à família ao pé do calvário. Dita mandamentos do Palácio do Planalto e tem como apóstolo no Supremo Tribunal Federal (STF) o ministro Nunes Marques, aonde foi indicado por seu Messias.

Professor de direito constitucional da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e do Centro Universitário Autônomo do Brasil (UniBrasil), frisou o respeitado jurista Clèmerson Merlin Clève: “sua caneta não escreve com tinta, mas com sangue”.

 

 

EUA advertem Bolsonaro: “não terá permissão para destruir a democracia”

 

Em 14 de maio de 2019, em Dallas, no Texas, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro bate continência à bandeira dos EUA (Foto: Reporudução de vídeo)

 

“As democracias dos Estados Unidos e da América Latina devem prestar atenção à medida que as eleições do próximo ano se aproximam — e deixar claro para Bolsonaro que uma interrupção da democracia seria intolerável. O presidente brasileiro já contribuiu muito para o agravamento da pandemia covid-19 em seu próprio país e, por meio da disseminação da variante brasileira, pelo mundo. Ele não deve ter permissão para destruir uma das maiores democracias do mundo também”. Foi a advertência feita ontem (02) ao presidente brasileiro no editorial de um dos principais jornais dos EUA, o Washington Post.

O “sinal amarelo” a Bolsonaro, que já havia sido acendido internamente no último dia 24, em pronunciamento do presidente da Câmara Federal, deputado Arthur Lira (PP/AL), é agora ecoado pelo mundo. O texto é intitulado “Brasil de Bolsonaro falhou em parar a Covid-19. Agora ele pode estar mirando a democracia”. Logo ao primeiro parágrafo do editorial, o jornal que já foi responsável pela queda de Richard Nixon da presidência dos EUA, em 1974, constatou sobre o Brasil de 47 anos depois:

— Graças à espantosa incompetência do presidente Jair Bolsonaro e de seu governo, apenas 2% dos brasileiros foram totalmente vacinados, e as medidas de bloqueio necessárias para retardar novas infecções, inclusive de uma variante virulenta que surgiu no Brasil, são virtualmente inexistentes.

Como o blog advertiu (relembre aqui) em 30 de março, a demissão do ministro da defesa, general Fernando de Azevedo e Silva, seguida da exoneração dos comandantes do Exército, general Edson Pujol; da Marinha, almirante Ilques Barbosa; e da Aeronáutica, brigadeiro Antonio Carlos Moretti Bermudez; provocou uma cisão entre a alta cúpula das Forças Armadas Brasileiras e Bolsonaro. E criou a maior crise militar da República desde a redemocratização do Brasil em 1985, ironicamente provocada agora por um militar da reserva no Palácio do Planalto. O editorial do Washington Post faz menção ao mesmo fato:

— Não foram dadas explicações, mas o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, era conhecido por tratar um presidente que se referiu às Forças Armadas no mês passado como “meus militares”. O Sr. Bolsonaro escolheu seu ex-chefe de gabinete (o general da reserva Walter Braga Netto) para substituir o Sr. Azevedo e Silva (…) “O claro plano de apoio do Bolsonaro”, escreveu o editor-chefe Brian Winter no Americas Quarterly, “é ter tantos homens armados do seu lado quanto possível no caso de um impeachment ou um resultado adverso na eleição de 2022”.

Em 10 de novembro, com a eleição de Joe Biden a presidente dos EUA confirmada oficialmente três dias antes, mas ainda não admitida por Bolsonaro, este disse sobre as ameaças do democrata de sanções comerciais ao Brasil por conta das queimadas criminosas da Amazônia: “Quando acabar a saliva, tem que ter pólvora”. E fez a bravata se dirigindo nominalmente ao seu então ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Que, como Bolsonaro, tinha como “mito” Donald Trump, presidente dos EUA derrotado por Biden no colégio eleitoral e no voto popular do pleito de 3 de novembro.

 

 

Abandonado pela alta cúpula das Forças Armadas Brasileiras, com o “sinal amarelo” aceso pelos próprios aliados no Congresso, que pediram e tiveram a cabeça bitolada de Araújo, e com Trump defenestrado pelas urnas da Casa Branca, Bolsonaro deveria mesmo começar a estocar pólvora. E rezar para que ela surta mais efeito do que a sua cloroquina contra a Covid, caso se meta à besta de tentar levar suas bravatas golpistas à ação.

Aqui, na publicação original em inglês, e na sua tradução abaixo em português, confira o “sinal amarelo” aceso pelos EUA contra as ameaças de Bolsonaro à democracia do Brasil, no editorial do Washington Post:

 

 

Brasil de Bolsonaro falhou em parar a Covid-19. Agora ele pode estar mirando a democracia

 

O Brasil está vivendo um dos piores picos de infecções por Covid-19 que o mundo já viu. Na quarta-feira, ele registrou 3.869 mortes, um recorde que representou quase um terço de todas as mortes por coronavírus no mundo naquele dia. Não há fim para a onda à vista: graças à impressionante incompetência do presidente Jair Bolsonaro e seu governo, apenas 2% dos brasileiros foram totalmente vacinados e as medidas de bloqueio necessárias para retardar novas infecções, incluindo de uma variante virulenta que surgiu no Brasil, são praticamente inexistentes.

Em vez de lutar contra o coronavírus, Bolsonaro parece estar preparando as bases para outro desastre: um golpe político contra os legisladores e eleitores que poderiam removê-lo do cargo. Com alguns no Congresso ameaçando impeachment, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva emergindo como um potente adversário nas eleições do ano que vem, Bolsonaro despediu o ministro da Defesa nesta semana e os principais comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica saíram juntos das suas posições.

Não foram dadas explicações, mas o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, era conhecido por seu tratamento à distância de um presidente que se referiu às Forças Armadas no mês passado como “meus militares”. O Sr. Bolsonaro escolheu seu ex-chefe de gabinete para substituir o Sr. Azevedo e Silva e nomeou um policial próximo à sua família como o novo ministro da Justiça. As medidas foram suficientes para levar seis prováveis ​​candidatos à presidência a emitir uma declaração conjunta alertando que “a democracia do Brasil está ameaçada”. “O claro plano de apoio do Bolsonaro”, escreveu o editor-chefe Brian Winter no Americas Quarterly, “é ter tantos homens armados do seu lado quanto possível no caso de um impeachment ou um resultado adverso na eleição de 2022”.

Embora as instituições democráticas do Brasil sejam relativamente fortes após mais de três décadas de consolidação, há motivos para preocupação. Bolsonaro expressou abertamente sua admiração pela ditadura militar que governou o país nas décadas de 1960 e 1970. Admirador de Donald Trump, ele adotou a tática do ex-presidente dos EUA de alertar sobre fraude nas próximas eleições e exigir que os sistemas de votação eletrônica sejam substituídos por cédulas de papel. Ele apoiou as alegações de Trump sobre fraude eleitoral, e seu filho, um legislador que visitou Washington na véspera de 6 de janeiro, expressou consternação porque o ataque ao Capitólio não teve sucesso.

O Congresso no Brasil pode propor o impeachment de Bolsonaro por sua péssima gestão da pandemia, incluindo minimizar sua gravidade, resistir às medidas de saúde pública e promover curas charlatanescas. Mas as democracias dos Estados Unidos e da América Latina devem prestar atenção à medida que as eleições do próximo ano se aproximam — e deixar claro para Bolsonaro que uma interrupção da democracia seria intolerável. O presidente brasileiro já contribuiu muito para o agravamento da pandemia covid-19 em seu próprio país e, por meio da disseminação da variante brasileira, pelo mundo. Ele não deve ter permissão para destruir uma das maiores democracias do mundo também.

 

Semana santa e Covid — Como Cristo na cruz, mas sem domingo de ressurreição

 

“Cristo de São João da Cruz” (1951), óleo sobre tela de Salvador Dalí, Museu e Galeria de Arte de Kelvingrove, em Glasgow, Escócia (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

Como Cristo na cruz, mas sem domingo de ressurreição

 

Ontem foi a sexta-feira santa. Dia em que a cristandade lembrou da crucificação de Cristo em Jerusalém. Lá, os judeus como ele comemoravam o Pessach (a Páscoa, ou “Passagem” em hebraico), quando quase 1.500 anos antes seu povo saíra do cativeiro no Egito para a Terra Prometida. Ao contrário do que talvez pense a maioria, a morte por crucificação não se dava por hemorragia nos pulsos e pés com que a vítima da pena capital romana era pregada. Todos os crucificados morriam de maneira muito mais sôfrega. Eram lentamente sufocados pelo peso do próprio corpo, que empurrava o diafragma contra os pulmões. É a mesma sensação que tiveram até morrer os mais de 325 mil dizimados pela Covid-19 no Brasil, entre eles 863 campistas, que segundo levantamento em cartório (confira aqui) chegam a 1.057.

Enquanto 49 outros campistas, doentes e lutando pelas próprias vidas, aguardam sem sequer terem direito a um leito de hospital, todos superlotados por pacientes da pandemia, há quem defenda o fim total ou parcial das restrições ao comércio não essencial, assim como à circulação de pessoas. Com as quais circulam o vírus, tornando-o ainda mais mortífero em variantes como o P-1 de Manaus e o P-2 do Rio, já presentes em todas as regiões do Brasil transformado em principal epicentro mundial da doença. Alguns buscam ignorar os fatos pela sobrevivência dos seus negócios e empregos, o que seria legítimo na velha luta de classes, se não fosse contra a preservação da vida humana. Na paródia a quem morreu mergulhado na mesma agonia: quem não tiver perdido um parente, amigo ou conhecido para a Covid, que bata o martelo nos pregos aos pés e pulsos dos que estarão crucificando.

O assunto é sério demais para ser tratado por leigos. Com a mesma pretensão dos 212 milhões de brasileiros que se tornam “especialistas” em futebol de quatro em quatro anos, durante Copas do Mundo. Tampouco pode ser vulgarizado em mais um Fla-Flu apaixonado e acéfalo das redes sociais. Quem deve falar são os especialistas, mulheres e homens da ciência, ao qual o momento de fé deve ser dirigido. Tanto pela razão quanto pela compaixão ao semelhante, que um rabi da Galileia ensinou a amar como a nós mesmos, maior virtude do cristianismo. Foi àqueles que afunilaram anos de estudo e prática no combate à maior pandemia que a humanidade enfrenta nos últimos 100 anos, que a Folha recorreu para tentar alcançar a real dimensão daquilo que todos enfrentamos.

O programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, ouviu na terça, dia 30 (confira aqui), os médicos Patrícia Meirelles e Vitor Carneiro, ela pneumologista e ele intensivista, no mesmo dia em que ambos completavam um ano de dedicação para salvar vidas no Centro de Controle e Combate ao Coronavírus (CCC) de Campos. Na quarta, dia 31 (confira aqui), o convidado foi o biólogo Renato DaMatta, cientista e professor da Uenf, mais importante universidade do município e da região. Já na quinta, dia 1º (confira aqui), foi a vez da médica infectologista Andreya Moreira, que comandou o combate à pandemia em Campos em 2020, como chefe da Vigilância em Saúde do governo Rafael Diniz (Cidadania). E quem ainda alguma dúvida tiver sobre com o que todos estamos lidando, que se vacine em seus testemunhos:

Patrícia Meireles, médica pneumologista

— A gente pede consciência à população. A gente poderia estar completando o ano no CCC em comemoração, mas infelizmente, neste dia, a gente abre o nosso serviço em superlotação. Pela primeira vez, a gente está além dos 100% da ocupação, temos pacientes em todos os lugares possíveis, à espera de uma vaga regular. Este é o nosso cenário atual. O início da vacinação e o fato de essa ser uma população que realmente respeita o isolamento, fez com que os idosos tenham hoje se tornado a exceção entre os internados em leitos clínicos e de UTI do CCC. Então essas são provas da eficiência da vacinação, do distanciamento. E isso trouxe essa faixa etária para baixo — alertou a pneumologista Patrícia.

Vitor Carneiro, médico intensivista

— Está difícil, a gente tem que usar várias alternativas às medicações usuais, não só para entubar o paciente, mas para manter ele entubado, manter ele sedado no respirador. Isso dificulta o manejo do paciente, prejudica o tratamento. Mas isso é uma falta nacional, não só no CCC; os hospitais particulares também estão sofrendo isso. A gente está sempre usando alternativas para manter esse paciente sedado, em ventilação mecânica. É uma situação dificílima para a gente. A gente pede cotação dessas medicações e não tem nem retorno, as empresas não têm como fornecer. A gente vai usando outras drogas, associando e tentando suprir essa necessidade — desabafou o intensivista Vitor.

Renato DaMatta, biólogo da Uenf

— As variantes são extremamente preocupantes e a vacinação lenta atrapalha o processo. Por isso o Brasil é hoje o epicentro da doença no mundo. Porque aqui é onde tem mais gente morrendo e mais gente com o vírus. Quando você tem muito vírus em muita gente, a probabilidade de novas variantes aumenta. Foi isso que aconteceu com o P-1, por exemplo. Ele apareceu em Manaus e tem uma grande capacidade de infecção. Quanto mais rápido você vacina, menos variantes você vai ter. Se você demora, o vírus vai infectar as pessoas durante um longo período. A chance de surgirem novas variantes é enorme. Inclusive, a variante pode ficar tão diferente que você tem que fazer uma nova vacina. A notícia boa é que, até agora, as vacinas estão funcionando contra as novas variantes — explicou o cientista Renato.

Andreya Moreira, médica infectologista

— Com muita tristeza, a gente está vendo esse momento. Colapsou não foi só em Campos, estamos vendo isso no Brasil inteiro. Já era previsto. Lá em dezembro, a gente sabia que as festas de fim de ano iriam ser bastante importantes no número de pacientes que seriam infectados, entre os que precisariam de tratamento intensivo (UTI) e clínico. Mas as pessoas ignoraram isso literalmente. E estamos pagando o preço; um preço alto nas vidas ceifadas. E, apesar disso, as pessoas mantêm a não restrição. Isso é um assassinato! O que vai ser mais preciso para essas pessoas usarem a máscara, fazerem o distanciamento social e evitarem aglomeração? Quantas vidas a mais? — indagou a infectologista Andreya.

Com base em estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Andreya também lembrou que a projeção, mesmo com a rede de saúde pública, contratualizada e privada de Campos já colapsadas, é de que os casos continuem aumentando no país e na cidade até a primeira quinzena de abril. Nesta segunda (05) o gabinete de crise do governo Wladimir Garotinho (PSD), que tem tido a coragem de se pautar pela ciência para salvar a vida dos seus governados, decide se mantém o município na Fase Vermelha.

Com a lentidão das vacinas no Brasil do Messias, se o isolamento não for mantido e respeitado, como o uso correto das máscaras e higienização das mãos, tudo indica que o próximo sistema de Campos a colapsar será o funerário. Certamente alguém que você e eu conhecemos, talvez bem próximo, talvez nós mesmos, estejamos em uma das duas filas por vaga. Ou de leito em hospital, ou de caixão e jazigo. Nestes, após sofrer como Cristo na cruz. Mas sem a chance de despedir da família ao pé do calvário. Nem domingo de ressurreição.

 

Publicado hoje (03) na Folha da Manhã

 

Universitários conservador e socialista debatem direita e esquerda na Folha

 

Na bipolaridade política em que o Brasil se divide desde 2014, com acirramento em 2018, é possível o diálogo civilizado entre direita e esquerda? Após 21 anos de ditadura militar (1964/1985), para que a nossa democracia jovem de 36 anos sobreviva, é necessário que sim. Ainda mais jovens, os universitários Eraldo Duarte, que cursa Ciências Sociais na UFF-Campos, e Gilberto Gomes, estudante de Administração Pública na Uenf e secretário de Comunicação do PT de Campos, provaram que é possível. Se, ao criarem a democracia cinco séculos antes de Cristo, os gregos antigos expunham suas posições e mediavam suas diferenças na ágora, esta teve como palco na manhã de ontem o Folha no Ar, da Folha FM 98,3. No programa da rádio mais ouvida da região, o socialista Gilberto e o conservador Eraldo falaram de Lula e Bolsonaro, de Forças Armadas e perigo de golpe, de pandemia da Covid-19 e sua politização ao custo da vida de centenas de milhares de brasileiros. Em nome da democracia, o bolsonarista e o lulopetista falaram até da possibilidade de convergência. Como grande poeta da música, a despeito das suas posições políticas, Chico Buarque saudaria: “Evoé, jovens à vista”!

 

Socialista Gilberto Gomes e conservador Eraldo Duarte (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Entrevista de Lula a Reinaldo Azevedo

Eraldo Duarte – Vou ter que confessar que não assisti à entrevista, só fiquei sabendo ontem à noite. O Lula é um (pré-)candidato, já foi presidente, é um presidenciável de peso. O encontro dele com um jornalista que já foi muito crítico ao PT, escreveu livros, cunhou o termo “petralha”, como o Reinaldo Azevedo, que até pouco tempo se colocava no espectro político conservador brasileiro, tem a capacidade de gerar interesse, justamente por concentrar indivíduos tão antagônicos; apesar de um ser político e outro, jornalista. Claro que eu quero assistir. De fato, Lula é muito carismático, consegue ter essa comunicação até muito melhor que o Bolsonaro, no sentido de trazer simpatia.

Gilberto Gomes – Eu pude acompanhar quase toda a entrevista. Ela mostrou a disposição de Lula de dialogar de maneira muito franca e honesta com as pretensões do PT nestas eleições. Como o Eraldo destacou, o fato de ser uma entrevista que reúne duas figuras antagônicas tende a chamar a atenção. E o Reinaldo Azevedo tem tido um papel muito importante nos últimos anos em relação à Lava Jato. Ele foi um dos primeiros jornalistas a questionar os métodos da operação, antes mesmo de a gente ter acesso às mensagens que foram reveladas o hacker de Araraquara (Walter Delgatti) e pelo The Intercept, com (o jornalista) Glenn Greenwald. Destacou o fato do Reinaldo Azevedo de fato ter se demonstrado um jornalista ético e conseguiu conduzir uma entrevista em que Lula mandou vários recados: para os empresários, para o centro, rebateu o argumento da polarização, em que tentam colocar em um extremo que ele nunca ocupou.

 

 

 

Bolsonaro e as Forças Armadas

Gilberto – É sem dúvida uma das maiores crises militares dos últimos tempos. Ela destaca que Bolsonaro está disposto, sim, a tensionar a atuação das Forças Armadas nos mais diversos contextos. A gente não tem muita clareza, mas diversos analistas políticos indicam que pode ser mais uma movimentação que ameace a democracia, pode ser uma tomada de posição de Bolsonaro que ameace o lockdown nos estados que estão adotando medidas de restrição. A figura de Bolsonaro não é nem quista por diversos setores das Forças Armadas, pelo alto generalato, que são figuras muito mais intelectuais, que têm alta formação e não estão dispostos a tensionar a democracia, a adotar a posição de golpe neste momento. Eu acredito que eles têm muita confiança na posição do Mourão (PRTB, general da reserva) como vice. Sem poder sobre as Forças Armadas, eu creio, a gente teve agora o caso da Bahia (o PM Wesley Góes teve um aparente surto em Salvador, foi baleado e morreu no último domingo, após atirar contra colegas), as forças das Polícias Militares tendem a ser usadas como massa de manobra em uma eventual crise mais intensa do governo Bolsonaro, inclusive até numa derrota em 2022.

Eraldo – Os militares têm uma centralidade no Brasil que vem desde o fim da Monarquia, que se deu por um golpe do Exército, que logo instalou a República da Espada (1889/1894), com os marechais Deodoro (da Fonseca) e Floriano Peixoto. De lá para cá, os militares sempre foram o fiel da balança na República, como já estavam no final do Império. A História do Brasil é uma história de golpes militares, ou de golpes apoiados pelos militares. Acho isso muito ruim, porque os militares são uma corporação que tem os seus interesses também. Eles exercem pressão sindical e, como não podem fazer greve, eles de algum modo vão entrar na política. O presidente Bolsonaro fez esses acenos aos militares, que o aceitaram e embarcaram com uma série de generais no governo. A saída dos comandantes (das Forças Armadas) é algo ruim de fato, porque passa que houve um desgaste entre o presidente e, em especial, o general (Edson) Pujol (comandante do Exército exonerado junto aos da Marinha, almirante Ilques Barbosa; e da Aeronáutica, brigadeiro Antonio Carlos Moretti Bermudez). É um movimento que acontece no Banco do Brasil também (o presidente do seu Conselho, Hélio Magalhães, apresentou sua carta de demissão na última quinta, por não concordar com as ingerências de Governo Federal na instituição). O presidente Bolsonaro tem essa característica de ficar gerenciando as instituições, tanto o Exército, quanto as empresas de capital misto, Banco do Brasil, Petrobras, que causam um desconforto em suas cúpulas. Eu vejo isso mais como um problema da pessoa do presidente, de querer gerenciar as pautas, e se o indivíduo não o agrada muito, ele tira; do que como um risco à democracia. Bolsonaro não tem consenso para um golpe entre as várias camadas das Forças Armadas.

 

Politização da pandemia no Brasil

Eraldo – De fato, a pandemia foi completamente politizada. E aí, tanto por fatores que independem da ação do presidente da República, quanto pelas ações dele. Bolsonaro chamou muito para si a responsabilidade em algumas falas sobre a questão da vacina, ao chamar de “gripezinha”, na questão da aglomeração, ao falar do uso de máscaras. E como ele é o chefe da União, ele acaba politizando, porque ele é um agente político. E essa politização excessiva acaba escondendo a letalidade do vírus, vidas humanas estão sendo perdidas. E acaba colocando o presidente como principal responsável pela questão, pelas falhas, pelas mortes. Enquanto a gente sabe que há uma pactuação entre os entes federativos, governos estaduais e municipais. As medidas de contenção e relaxamento foram feitas na cidade, tanto pelo (ex-)prefeito Rafael Diniz (Cidadania), quanto pelo atual prefeito Wladimir Garotinho (PSD). Houve em Campos a tentativa de se fazer um Hospital de Campanha (pelo governador Wilson Witzel, PSC, que nunca foi concluído ou entregue, em meio a denúncias de corrupção que levaram ao seu afastamento), que o Tribunal de Contas da União (TCU) vai investigar. Isso aí é um ônus que os outros governantes também têm. Mas pelo presidente Bolsonaro, de maneira desastrada, ficar dando declarações todo o dia, só sai a cara do bendito como o principal responsável. Eu acho que o presidente deveria deixar o ministro da Saúde (o médico cardiologista Marcelo Queiroga, quarto a ocupar o cargo durante a pandemia) falar mais e aparecer mais.

Gilberto – Bolsonaro não somente politizou por acaso, ele politizou de maneira consciente no início da pandemia, vendo ali uma possibilidade clara de afastar diversas crises do governo. Agora, isso tem um custo para a sociedade gigantesco. Quando ele relativiza o uso da máscara, quando ele vai nadar na praia em plena pandemia, aglomerando centenas de pessoas, ele está legitimando as pessoas que querem fazer o mesmo. Quando o Eraldo fala que ele (Bolsonaro) traz para si, não é por acaso. E aí a gente vai pegar desde o começo, quando ele falou que era uma “gripezinha”. E se não fosse o campo progressista, da esquerda, atuando principalmente no Congresso, a situação da pandemia estaria muito pior. A gente não teria um auxílio emergencial no valor de R$ 600 (na verdade, o Governo Federal propôs incialmente em R$ 200, o Congresso aumentou para R$ 500 e Bolsonaro subiu para R$ 600), que atenuou em muito a pandemia e conseguiu deixar algumas pessoas em casa. A gente não teria vacinas se não fosse a pressão do Congresso e das forças de oposição; a gente não teria tido o lockdown, muito provavelmente, porque ele era rechaçado desde o início. Tem a politização do discurso de medicamentos sem comprovação científica, que não só eram, como ainda são estimulados por forças políticas ligadas ao Bolsonaro. O fato do Bolsonaro ser colocado como figura central de todo esse caos que a gente está vivendo, não é só pelo que ele fala, mas é porque o bolsonarismo representa isso. E é representado por diversas outras figuras políticas, ligadas ao Bolsonaro e legitimadas pelo Bolsonaro. A gente tem que observar como essas forças políticas estão politizando desde o início o lockdown, estão politizando os hospitais de campanha que o Eraldo citou. Antes mesmo dos escândalos de corrupção aparecerem sobre os hospitais de campanha, já havia manifestações aqui em Campos pedindo o fechamento do Hospital de Campanha, dizendo que aquilo ali era desperdício de dinheiro. E o Hospital de Campanha estaria hoje ajudando muito a nossa cidade. A própria politização do lockdown é feita por grupos bolsonaristas, dizendo que ele prejudica o trabalhador, que ele vai passar fome, vinda de um grupo que jamais se preocupou com nenhuma política social.

 

Convergência possível entre direita e esquerda

Gilberto – A direita democrática existe no país; eu não tenho dúvida disso. Que pode, sim, convergir com a defesa da democracia. Agora, essa direita precisa estar disposta a romper com o que nós temos aí hoje. Precisa romper com o negacionismo, precisa romper com o bolsonarismo que ameaça muitas vezes a democracia. Pode não fazer isso de maneira objetiva, mas faz em várias falas que colocam a democracia em xeque. A própria família do presidente, ameaçando dissolução do STF, ameaçando fechar Congresso, AI-5. Como eu disse, não é só Bolsonaro, mas é o bolsonarismo com um todo. Essa direita precisa estar disposta a romper com isso, para que possa haver um consenso na defesa da democracia. Nós temos um inimigo em comum, que não é só a figura do Bolsonaro, mas é um projeto político que a gente se opõe dentro da democracia. E a gente tenta utilizar todas as ferramentas possíveis para isso. Eu acho que sim: é possível a direita e a esquerda convergirem na defesa de interesses democráticos para preservar o país, que tem enfrentado tantas crises, como jamais o Brasil viveu desde a redemocratização (em 1985, após 21 anos de ditadura militar).

Eraldo – Sempre que eu vejo para essa questão de direita e esquerda, eu procuro olhar com aquela perspectiva que o Karl Popper (filósofo austro-britânico) coloca no livro “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”: que há dois projetos, tanto de uma sociedade aberta, quanto de uma sociedade fechada. E há franjas na esquerda e há franjas na direita que vão defender um modelo de sociedade fechada, totalitária, autoritária. Como vai ter também uma esquerda e uma direita que vão apoiar a liberdade, a pluralidade. Quando elas apoiam a sociedade aberta, que culmina com a própria questão da democracia, eu imagino que possam, sim, convergir para um projeto mais transparente, no sentido de aparar as arestas do governo Bolsonaro. Isso surge muito, por exemplo, no Centrão, que vem tentando domar essas atitudes que eu acho prejudicais em um certo sentido retórico à democracia. Até pela maneira como ele se estrutura, o Centrão é um defensor da democracia. Não há como ter um Centrão antidemocrático, porque em um regime autoritário não haveria Centrão. Grupos que tem compromisso com uma sociedade aberta, eles devem se unir quando há uma ameaça ao regime democrático. Alguns indivíduos podem defender um misto entre uma sociedade aberta e uma sociedade fechada. Bolsonaro, eu acho que de certa maneira ela pode ter uma perspectiva um pouco mais autoritária. Não acho que ele seja um antidemocrata, mas acho que ele tem uma perspectiva que causa um pouco de estranhamento nos principais players da democracia. Eu às vezes faço críticas, mas espero o Bolsonaro melhore, afinal eu votei nele e provavelmente votarei na próxima eleição. São críticas de alguém que deseja que o presidente se enquadre melhor nas regras do jogo e continue no projeto que é uma cabeça de ponte para uma perspectiva mais tradicional e conservadora do Brasil.

 

Confira abaixo, em três blocos, os vídeos do debate sobre direita e esquerda realizado no Folha no Ar, da Folha FM 98,3, entre os universitários Eraldo Duarte e Gilberto Gomes, no início da manhã de sexta (02):

 

 

 

 

Página 2 da edição de hoje (03) da Folha da Manhã

 

Com caos da Covid por mais duas semanas, não restrição é “assassinato”

 

Médica infectologista Andreya Moreira e o Boulevard de Campos ontem ainda com aglomeração (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

“Com muita tristeza, a gente está vendo esse momento. Colapsou não foi só em Campos, estamos vendo isso no Brasil inteiro. Já era previsto.  Lá em dezembro, a gente sabia que as festas de fim de ano iriam ser bastante importantes no número de pacientes que seriam infectados, entre os que precisariam de tratamento intensivo (UTI) de clínico. Mas as pessoas ignoraram isso literalmente. E estamos pagando o preço; um preço alto nas vidas ceifadas. E, apesar disso, as pessoas mantêm a não restrição. Isso é um assassinato!”. Sem meias palavras, a despeito do tom sempre polido, foi assim que a médica infectologista Andreya Moreira classificou na manhã de hoje o desdém da população às medidas de isolamento social. Que até ontem tinha tirado 843 vidas humanas por Covid só em Campos, entre os mais de 322 mil óbitos da pandemia no país, com o recorde assustador de 66.868 brasileiros mortos no mês de março. Chefe da Vigilância em Saúde no governo Rafael Diniz (Cidadania), quando o Centro de Controle e Combate ao Coronavírus (CCC) de Campos hoje colapsado (confira aqui) foi aberto em 30 de março de 2020, a médica foi a entrevistada do Folha no Ar, na Folha FM 98,3.

— Aqui em Campos, especificamente, não tem o uso de máscara de modo 100%. As pessoas acham que as restrições não são necessárias. Até a doença chegar a um ente querido, a uma pessoa próxima, que se torna acometida, que precisa ficar internada e precisa de uma vaga na UTI. O resultado é este momento de caos, de colapso, em que as pessoas precisam entender o processo. A gente está falando nisso de entendimento há um ano. O que vai ser mais preciso para essas pessoas usarem a máscara, fazerem o distanciamento social e evitarem aglomeração? Quantas vidas a mais? — indagou Andreya à população campista, na rádio mais ouvida da cidade.

A infectologista, com base em estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), projetou pelo menos mais duas semanas muito difíceis da pandemia em Campos e no Brasil, antes do número de infecções e mortes parar de subir para alcançar o chamado platô e depois começar a decair, provavelmente só na segunda quinzena de abril. E, para tentar acelerar esse processo de contenção e queda, fez duas advertências. A primeira, que o lockdown apenas por uma semana não adianta. A segundo é que não faria sentido se fazerem exceções, abrindo só um ou outro setor, como reivindicam músicos (confira aqui), negacionistas bolsonaristas (confira aqui), professores de educação física (confira aqui) e o comércio (confira aqui) da cidade:

— Segundo uma análise da Fiocruz, da semana passada, eles falaram que as próximas três semanas iriam ser extremamente difíceis. E nós estamos na primeira dessas três semanas muito difíceis. Depois delas, provavelmente alcançaríamos o platô, para daí começar a cair. Até abril, a gente vai sofrer bastante, com certeza. Os primeiros 15 dias de abril serão de extremo sofrimento, de pessoas na fila por leito, de pessoas morrendo. E depois isso vai cair. As pessoas precisam entender que lockdown de cinco dias não adianta nada. Você precisa manter pelo menos 10 a 14 dias para ter uma resposta. E não é uma resposta imediata, é um pouco mais para frente. É extremamente necessário entender que as pessoas precisam se isolar, não podem se aglomerar. E não tem como fazer um lockdown restrito: “Ah, eu vou abrir tal setor, eu vou deixar o outro fechado”. A gente tem que fazer o completo.

Andreya citou como exemplo a experiência do primeiro lockdown em Campos por conta da Covid, entre 18 de maio (confira aqui) e 1º de junho (confira aqui), decretado quando comandava o enfrentamento à pandemia no município, no governo Rafael. E o fez eximindo o governo Wladimir Garotinho (PSD) de qualquer culpa pelo agravamento ainda maior, agora, da crise sanitária. A grande culpada, para a infectologista, é a própria população:

— No outro governo, a gente chegou a fazer um lockdown. E a gente chegou a alcançar no início 70% de adesão, com pessoas dentro de casa, com o trânsito diminuído. Mas em alguns dias isso já caiu para 50%, depois para 40%. Então você vê que a população não cooperou. O pouco que eles cooperaram, já teve uma sinalização muito positiva nos leitos. E a situação é ainda mais extrema agora. Há a necessidade de as pessoas ficarem em casa, não se aglomerarem. Abril vai ser muito difícil. A gente já vinha conversando sobre uma piora desde as eleições (de novembro). Daí tiveram as festas de final de ano de dezembro e depois, mesmo sem festa, o carnaval. Não culpo o governo (Wladimir), não tem culpa a Prefeitura, mas a população.

Mas se, mesmo pertencendo a um governo municipal de oposição, Andreya isentou a atual gestão municipal de Campos pelo quadro que classificou como “caos”, ela não fez o mesmo com o governo federal. Para ela, o maior culpado da situação calamitosa do Brasil na pandemia, do qual é hoje o principal epicentro mundial, é a desorganização da administração Jair Bolsonaro (sem partido). Tanto no desmonte de uma tradição de imunização que sempre foi referência para o mundo, como pelo nosso vergonhoso lugar na fila de trás da vacinação em relação a vários outros países, inclusive vizinhos da América do Sul:

— O governo (Bolsonaro) errou muito no programa de vacinação. A gente já era para estar, há mais de três meses, desde o início do ano, vacinando. Isso foi um erro, um erro grave. E por conta disso nós estamos pagando a consequência. O ministério da Saúde sempre foi uma bagunça em relação às estratégias de vacinação. E a gente sempre teve (antes do governo Bolsonaro) um programa de imunização entre os melhores do mundo. E isso foi atrapalhado por jogo de interesses políticos; atrapalhou muito! Porque as vacinas não chegavam e não chegam ainda. A cada momento era uma “aflição da Anvisa para liberar imunizante, que já estavam liberados anteriormente, e se sabia disso, nos Estados Unidos e na Europa. Até ontem, na percentagem imunização total das populações dos países, no 1º lugar está Israel, no 2º lugar o Chile (vizinho sul-americano do Brasil, que comprou boa parte das 70 milhões de doses de vacinas da Pfizer recusadas por Bolsonaro em agosto de 2020) e, no 3º lugar, os Estados Unidos. O Brasil está no 16º lugar, com apenas 2% da população totalmente imunizada. Isso não existe! A gente está em um país que não deu bola para a vacina.

 

Confira abaixo, em três blocos, os vídeos da entrevista da médica infectologista Andreya Moreira ao Folha no Ar na manhã de hoje:

 

 

 

 

Universitários fecham semana do Folha no Ar com debate entre esquerda e direita

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta sexta (02), quem fechará a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, são dois jovens universitários da cidade, que habitam em campos políticos em extremos opostos: o socialista Gilberto Gomes, estudante de Administração Pública na Uenf e secretário de Comunicação do PT de Campos; e o conservador e liberal Eraldo Duarte, estudante de Ciências Sociais na UFF.

Eraldo e Gilberto analisarão a politização da pandemia da Covid-19 no Brasil e a necessidade de diálogo na bipolaridade que cindiu a política nacional desde 2014, com acirramento a partir de 2018. Eles também darão seus testemunhos críticos do que leva um jovem a apoiar ou criticar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que lideram as pesquisas presidenciais a 18 meses das urnas de 2022. E falarão da direita e da esquerda dentro do meio universitário de Campos, quem ambos integram.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.