Petistas Godofredo Pinto, Wadih Damous, Waldeck Carneiro, mais o socialista Alessandro Molon, apoiam Caio Vianna a prefeito de Campos (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Se estava perdendo de 7 a 1 (confira aqui) na disputa pelos apoios de vereadores eleitos por grupos políticos que ficaram fora do segundo turno na eleição majoritária, Caio Vianna (PDT) vem tentando tirar a vantagem na briga por apoios fora de Campos, inclusive de campistas que fizeram carreira política em outra cidade. É o caso do campista e ex-prefeito de Niterói, Godofredo Pinto, que declarou apoio ao pedetista em vídeo.
A despeito da declaração do PT goitacá (confira aqui) do último sábado (21), de neutralidade no segundo turno entre Caio e Wladimir Garotinho (PSD), outros nomes do PT se somaram a Godofredo, como já havia feito no domingo (22) o ex-ministro de Lula Tarso Genro (confira aqui) no apoio ao nome do PDT pela Prefeitura de Campos. Foram os casos do ex-deputado federal do PT Wadih Damous e do atual deputado estadual do partido Waldeck Carneiro. Líder da oposição na Câmara Federal, o deputado Alessandro Molon, cujo PSB local fechou (confira aqui) no segundo turno com Caio, também se manifestou.
Assista abaixo aos vídeos com as declarações de apoio dos petistas Godofredo Pinto, Wadih Damous e Waldeck Carneiro, e do socialista Alessandro Molon, à candidatura de Caio a prefeito de Campos:
Wladimir Garotinho e seu vice Frederico Paes, que teve paracecer favorável da Procuradoria-Geral Eleitoral ao indeferimento da sua candidatura a vice, que será julgado no Tribunal Superior Eleitoral, talvez ainda esta semana (Foto: Divulgação)
O aguardado parecer da Procuradoria Geral Eleitoral, assinado pelo vice-procurador-geral Renato Brill de Góes e datado de sábado (21). foi pelo indeferimento do recurso da defesa do empresário Frederico Paes (MDB), como candidato a vice na chapa de Wladimir Garotinho (PSD) a prefeito de Campos. Foi por conta da pendência jurídica que Wladimir teve a votação de 106.526 eleitores (42,94%) contabilizada e divulgada no primeiro turno de 15 de novembro como “Anulado Sub Judice”. A partir do parecer da PGE, o julgamento da ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que tem como relator o ministro Luís Felipe Salomão, deve acontecer amanhã (24) ou na quinta (26). A decisão, se for mantido o indeferimento do vice, colocará em questão a unicidade da chapa: isso afetaria ou não a candidatura a prefeito de Wladimir?
A ação se deu por desincompatibilização fora do prazo de Frederico como diretor do Hospital Plantadores de Cana (HPC) e da presidência do Sindicato dos Hospitais, Clínicas, Casas de Saúde e Estabelecimentos de Serviços de Saúde da Região Norte Fluminense (Sindhnorte). E foi movida pela coligação Nova Força (SD, DEM, PTC e PV), que teve como candidato Dr. Bruno Calil, terceiro colocado na disputa, com 32.673 votos (13,17%), sob a coordenação do deputado estadual Rodrigo Bacellar (SD), que é advogado.
Em 14 de outubro, o indeferimento teve manifestação contrária do Ministério Público Eleitoral (relembre aqui), que foi seguida dois dias depois (16) no deferimento da candidatura (relembre aqui) pelo juízo da 76ª Zona Eleitoral (ZE) de Campos. Após a candidatura de Bruno recorrer à segunda instância, Frederico teve outro parecer favorável da Procuradoria Regional Eleitoral (relembre aqui) em 24 de outubro. Ainda assim, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) indeferiu a candidatura do vice (relembre aqui) no dia 30 daquele mês, por 5 votos a 1. E ratificou a decisão a decisão por unanimidade em 12 de novembro (relembre aqui), no julgamento dos embargos. O que teria mudado o entendimento no TRE foi o fato de o HPC receber verbas públicas do Sistema Único de Saúde (SUS).
— Desse modo, tendo em vista que a premissa jurídica adotada é a exigência de desincompatibilização de presidente de entidade privada que é mantida ou subvencionada pelo poder público e que a premissa fática aponta que o recorrente não se afastou da presidência da entidade que recebe mais da metade dos recursos para sua manutenção do poder público, a decisão regional (do TRE, pelo indeferimento) deve ser mantida. Ante o exposto, o Ministério Público Eleitoral manifesta-se pelo improvimento do recurso especial — foi o que concluiu no sábado, em desfavor da candidatura a vice de Frederico, o vice-procurador-geral eleitoral Brill de Góes.
— O Ministério Público Eleitoral apresentou parecer no meu processo admitindo que a jurisprudência mais recente do TSE é favorável, como eu sempre disse. Apesar disso, sustentaram que o Tribunal precisa voltar atrás. Meus advogados estão muito confiantes e acreditamos que em Brasília vão reestabelecer o deferimento do registro de minha candidatura com base na jurisprudência mais recente do Tribunal — disse Frederico.
— A jurisprudência é sólida com relação ao impedimento nesse caso, tendo uma única decisão mais recente admitindo o registro. Teremos que aguardar a decisão do TSE. Com relação à unicidade me parece claro que, em não podendo mais ter a substituição do vice (cujo prazo se encerrou em 26 de outubro, quando a candidatura de Frederico estava deferida pelo juízo da 76ª ZE de Campos, antes da reversão no TRE) a chapa toda fica contaminada, como ocorre nesse caso. Entendo que essa questão é pacífica, até porque se trata de fato pretérito. Tornando o vice inelegível a cabeça de chapa também ficará — analisou uma fonte da Justiça Eleitoral goitacá que preferiu não se identificar.
— Já dá mesmo para antever o alongamento da discussão sobre a unicidade da chapa, se o indeferimento do vice se mantiver. E isso se fará num ambiente ilustrado pelo resultado das urnas no próximo domingo. Compreensível que não queiram antecipar a discussão. Tudo isso, muito embora o indeferimento da chapa toda seja uma consequência normal. A não ser que o TSE admita uma chapa sem vice — observou uma fonte do Ministério Público Eleitoral local, que também preferiu ficar no anonimato.
— Na manifestação pelo não-provimento do recurso, o Ministério Público Eleitoral confirma a divergência de entendimentos judiciais dentro o próprio TSE acerca de estar ou não a entidade privada equiparada às públicas para efeito de desincompatibilização de seus dirigentes, tanto que o MP conclama o TSE a afastar definitivamente essa contradição. A unicidade da chapa também é tema controvertido, o que assegura que o debate no TSE será empolgante — antecipou o advgado Andral Tavares Filho, com experiência em Justiça Eleitoral e ex-presidente da OAB-Campos.
A partir das 7h15 da manhã desta segunda (23), o programa Folha no Ar, carro-chefe da Folha FM 98,3, abre a semana da eleição do segundo turno a prefeito de Campos com quem foi considerada a grande revelação do primeiro: Professora Natália (Psol). Ela falará sobre o crescimento do partido em Campos, que ultrapassou na eleição majoritária siglas mais tradicionais da esquerda como o PT e o PCdoB, e no Brasil, no qual disputará em São Paulo a Prefeitura mais importante do país.
Natália também analisará sua condição de revelação no primeiro turno do pleito goitacá. E falará sobre a neutralidade (confira aqui) que seu partido adotou para o segundo turno, sem poupar críticas a Wladimir Garotinho (PSD) e a Caio Vianna (PDT), como aos grupos políticos de ambos.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Antes da decisão soberana do eleitor campista nas urnas de 29 de novembro, daqui a exatos sete dias, esquenta a disputa de apoios entre os dois candidatos a prefeito que passaram ao segundo turno: Wladimir Garotinho (PSD) e Caio Vianna (PDT). Prefeita reeleita de Quissamã, com 52,19% dos votos válidos, ou 7.829 eleitores, Fátima Pacheco (DEM) vai de Wladimir. E apontou para formar sua decisão na atuação do prefeitável como deputado federal, considerada boa, independentemente da torcida política. O DEM, em Campos, apoiou e integrou a chapa do candidato Dr. Bruno Calil (SD), terceiro colocado na disputa, que também já se manifestou (confira aqui) sobre o segundo turno.
Assista abaixo ao vídeo em que Fátima declarou seu apoio a Wladimir no segundo turno a prefeito de Campos:
O Psol de Campos divulgou hoje a sua posição ao segundo turno de 29 de novembro, entre os candidatos Wladimir Garotinho (PSD) e Caio Vianna (PDT): “Não aos Garotinho!” e “Não aos Vianna!”. Partido que sai dessas eleições municipais brasileiras ameaçando a condição do PT como legenda de esquerda do país, como na cidade de São Paulo, onde Guilherme Boulos disputa o segundo turno a prefeito com o atual, Bruno Covas (PSDB), O Psol produziu em Campos a grande revelação da eleição a prefeito no primeiro turno. A Professora Natália ultrapassou as candidaturas do PT e do PCdoB para ser a 5ª colocada da disputa, com 4,68% dos votos válidos, ou 11.622 eleitores, apenas 1.728 votos que o atual prefeito Rafael Diniz (Cidadania). Considerado que foi a primeira candidatura da jovem e articulada professora, não é pouca coisa.
Natália Soares, revelação da eleição de primeiro turno a prefeito de Campos (Foto: Divulgação)
Confira abaixo a manifestação do Psol sobre a posição do partido para o segundo turno a prefeito de Campos, na disputa entre os clãs políticos dos Garotinho e dos Vianna, que sofreram pesadas críticas:
Nota Partido Socialismo e Liberdade Segundo turno eleições em Campos dos Goytacazes
Hoje é dia 21 de novembro de 2020, temos um comunicado muito importante para vocês.
Iniciamos agradecendo aos 11 mil 622 votos de confiança na campanha de esperança por uma Campos do bem viver e do poder popular, feita pela professora Natália e Bruna Machel . Da mesma forma, agradecemos aos 1.728 votos de credibilidade, depositados na primeira candidatura coletiva e feminina de Campos, a Vamos Juntas, além dos 124 votos do companheiro Cristiano da Matta, o Papel.
Nossa campanha foi feita por voluntárias e voluntários que acreditaram que uma real mudança pode acontecer na nossa cidade e no nosso país. E sim, o resultado das urnas nos mostra que a mudança está cada vez mais perto! Na verdade, ela já começou a se construir, a partida está dada para a transformação desta cidade. Somos a 5º candidatura mais votada, uma das 5 que obteve mais de 10 mil votos, e a única que conseguiu tal expressividade sem aceitar dinheiro de empresários. Sabemos, se a história nos ensina alguma coisa, que essas contas são cobradas depois da eleição. Nossos adversários tiveram para suas campanhas centenas de milhares e até milhões de reais e nós, mesmo com poucos recursos, trouxemos enorme riqueza de ideias e força militante.
E é por essas ideias, por essa fé em mudar o mundo, que move quem acredita no projeto que nós defendemos, que viemos aqui colocar um posicionamento sobre o segundo turno das eleições em Campos dos Goytacazes.
Sei que muita gente tem perguntado por nossa posição, e não poderíamos deixar de expressá- la. Nunca fugimos de debate e não vamos aqui deixar de nos expressar.
NÃO APOIAREMOS NENHUMA OLIGARQUIA POLÍTICA QUE CONCORRE AO SEGUNDO TURNO NAS ELEIÇÕES MUNICIPAIS
NEM GAROTINHO, NEM VIANNA.
DE AGORA EM DIANTE, QUALQUER QUE SEJA O GOVERNO ELEITO, SEREMOS OPOSIÇÃO, NÃO NOS VENDEREMOS POR CARGOS OU VANTAGENS POLÍTICAS.
É importante que explique nossa posição.
Wladimir Garotinho é representação de um projeto familiar do endividamento da nossa cidade, sua dinastia política vendeu nosso futuro, comprometendo o orçamento da cidade. Além disso, o rombo da PreviCampos, que é um verdadeiro atentado aos nossos aposentados e a marcante corrupção na gestão pública também são características de seu grupo político. Podemos destacar aqui, entre outras, a Operação Chequinho, que fez jogada política e clientelismo com a vulnerabilidade da população mais pobre do município. Não podemos indicar voto em quem destruiu a nossa cidade e vendeu nosso futuro, ou em quem explora e mantém a miséria de forma vil e mesquinha. Não aos Garotinhos!
Caio Vianna, por sua vez, é representação de outro projeto familiar. De um grupo político que governou a nossa cidade nos tempos das chamadas “vacas gordas”, o tempo da bonança financeira dos royalties;e participações especiais. E desse período não fizeram nenhuma reserva, torraram indiscriminadamente o dinheiro público em gastos mal executados e corrupção. E não esqueçamos do Mocaiber, o prefeito que compete com Rafael Diniz ao título de ‘pior prefeito da história de Campos’. Mocaiber era afilhado político de Arnaldo, indicado por ele para sucessão. Arnaldo Vianna é parte responsável da tragédia social que nos encontramos. Caio Vianna, que começou a carreira política sem apoio do próprio pai, buscou para sua vice- prefeitura o PSL, partido vinculado ao bolsonarismo que tem sangue do povo negro, periférico, dos indígenas, dos quilombolas nas mãos. Não faremos coalizão com genocidas. O legado de Brizola é maculado por essa aliança espúria. Não aos Vianna!
Reiteramos que nosso plano de governo é público, construído em conjunto com a população campista e, portanto, representa não uma propriedade do PSOL/UP, mas às demandas e necessidades do povo. Deste modo, convidamos a população campista a conhecer e se apropriar do programa vocalizado pelo PSOL/UP nestas eleições, cobrando ativamente a sua implementação não só ao futuro prefeito eleito, mas sempre que a gestão pública municipal estiver em desacordo com essas demandas.
A democracia permite a liberdade nas urnas, garante o livre voto individual. A população irá decidir como votar no segundo turno, acataremos qualquer decisão popular. Porém, reafirmamos que permaneceremos na oposição a qualquer governo eleito, sempre que este contrariar os interesses da população. Estaremos na linha de frente defendendo a classe trabalhadora, os mais vulneráveis e os direitos sociais aos excluídos das políticas públicas.
Pelo Socialismo e a Liberdade, em memória de Marielle Franco, nem um passo atrás na luta pelo poder popular!
Ao povo de Campos, vamos à luta. Nas ruas que a gente se encontra.
Confira aqui, a posição de neutralidade também adotada pelo prefeito Rafael ao segundo turno de Campos, divulgada na quinta (18), e aqui a do PT de Odisséia, divulgada na noite de sábado (21).
Tarso Genro e Caio Vianna (Montagem: Joseli Mathias)
Se o PT de Campos, através da sua presidente e prefeitável em 15 de novembro, Odisséia Carvalho, declarou na noite de ontem (confira aqui) a neutralidade do partido para o segundo turno que será disputado daqui a 7 dias, entre Wladimir Garotinho (PSD) e Caio Vianna (PDT), o mesmo não se deu entre uma das maiores lideranças petistas em âmbito nacional. Ex-governador do Rio Grande do Sul, prefeito da capital Porto Alegre duas vezes e ministro do governo Lula nas pastas da Educação, Relações Institucionais e Justiça, Tarso Genro gravou dois vídeos de apoio à candidatura de Caio Vianna a prefeito de Campos.
Se, para o PT de Campos “Caio Vianna busca usar a imagem do governo de seu pai para fazer promessas, ainda que não demonstre embasamento de suas propostas, dentro da atual realidade do município. Além disso, a candidatura é apoiada por grupos da extrema direita de Campos (PSL, com a vice na chapa), favoráveis ao bolsonarismo, e que se associam a projetos retrógrados que em nada contribuem para o desenvolvimento do município”, Tarso Genro teve visão diferente para declarar seu apoio ao filho do ex-prefeito Arnaldo Vianna (PDT). O que deve gerar dúvida entre os 4.664 eleitores que votaram no PT a prefeito no primeiro turno.
Assista abaixo aos dois vídeos com a declaração do apoio de Tarso Genro a Caio:
O PT de Campos ficará neutro no segundo turno a prefeito, disputado no dia 29 entre Wladimir Garotinho (PSD) e Caio Vianna (PDT). A informação veio por WhatsApp da presidente municipal e prefeitável do partido até o dia 15, Odisséia Carvalho. Educadora, tive a chance de acompanhá-la como sindicalista, vereadora, candidata a prefeita e mãe. Naquilo que pensa, Odisséia está entre as políticas mais coerentes.
Ela terminou em 7º lugar na disputa do primeiro turno, com 1,88% dos votos válidos, ou 4.664 eleitores. Que teve ao assumir uma missão pelo seu partido. Antes de Odisséia, o PT deu outro belo mandato ao Legislativo goitacá, com a vereadora Ivete Marins. Na prática, o partido hoje libera seus militantes para apoiar um, outro ou nenhum. Confira abaixo o manifesto petista sobre o segundo turno da eleição a prefeito de Campos:
Odisséia Carvalho, Wladimir Garotinho e Caio Vianna (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
MANIFESTO PARTIDO DOS TRABALHADORES CAMPOS DOS GOYTACAZES
A Direção Municipal do Partido dos Trabalhadores de Campos dos Goytacazes, em respeito a todos que votaram e construíram nossas candidaturas nas eleições deste ano, vem, por meio desta, se posicionar perante as opções colocadas para concorrer à Prefeitura de nossa cidade no segundo turno das eleições 2020.
Campos vive uma situação extremamente delicada para seus habitantes, na qual é preciso escolher entre o retorno de dois grupos políticos/familiares que já governaram a cidade.
De um lado temos o Wladimir Garotinho, cuja família, durante muitos anos, protagonizou manchetes em casos de corrupção e lançou Campos a uma crise sem precedentes, mesmo após repasses bilionários de royalties durante suas gestões. Um rosto jovem que retrata a velha política coronelista da cidade. Do outro lado, Caio Vianna busca usar a imagem do governo de seu pai para fazer promessas, ainda que não demonstre embasamento de suas propostas, dentro da atual realidade do município. Além disso, a candidatura de Caio Vianna é apoiada por grupos da extrema direita de Campos, favoráveis ao bolsonarismo, e que se associam a projetos retrógrados que em nada contribuem para o desenvolvimento do município.
O Partido dos Trabalhadores disputou as eleições municipais por entender que cumpre ao papel de ser uma opção de renovação e que nenhum dos candidatos colocados representa nosso projeto político. Projeto esse, que visa o bem estar dos campistas e busca melhor atendê los através de políticas públicas para toda a sociedade, em especial, a classe trabalhadora. Diante disso, não existe a possibilidade de abrir mão dessas pautas para apoiar candidatos que prometem em tempos de eleições, mas servem de base para aprovar projetos contra os trabalhadores depois de eleitos.
Por isso, reforçamos nossas principais bandeiras de luta e nelas continuaremos a atuar. Seguiremos combatendo o fascismo, a não-aliança de partidos progressistas com a direita e extrema direita, o combate à privatização dos órgãos, empresas, fundações e entidades públicas, a geração de empregos, o fortalecimento da Petrobrás na bacia de Campos, capacitação e espaços de convivência para a juventude, o fortalecimento da cultura, transporte, investimento na agricultura familiar, plano municipal de resíduos sólidos, economia solidária, moeda social, desenvolvimento econômico com justiça social, investimentos para educação e saúde pública, gratuita e de qualidade, bem como as políticas públicas para o combate ao racismo, a proteção à mulher, quilombolas e a comunidade LGBTQ+.
Qualquer candidato que não compartilhe dessas bandeiras de luta não terá o apoio do Partido dos Trabalhadores. Seguimos na luta por uma política que respeite e valorize a inclusão de toda a nossa população e promova o merecido reconhecimento da classe trabalhadora que move, dia-a-dia, essa cidade. Fora Bolsonaro, fora Mourão, seus admiradores e suas políticas contra a classe trabalhadora.
“Medidas restritivas vão ter que voltar a ser tomadas com o aumento nos casos de Covid em Campos. Nós vamos nos sentar com o prefeito Rafael (Diniz, Cidadania) e o comércio da cidade, para evitar prejudicá-lo. Mas aquela projeção inicial de definirmos se sairíamos ou não da fase Verde, não existe mais. Tudo indica que nós vamos ter que voltar à fase Amarela”. Foi o que revelou agora a comandante do combate à pandemia do novo coronavírus em Campos, a médica infectologista Andreya Moreira, chefe da Vigilância em Saúde do município.
Comandante do enfrentamento à Covid em Campos, a médica infectologista Andreya Moreira, chefe da Vigilância em Saúde (Foto: Folha da Manhã)
A revelação surgiu depois que o blog teve notícia de um aumento exponencial de casos no Centro de Controle e Combate ao Coronavírus (CCC), que começou a operar (confira aqui) em 30 de março, em parceria do governo Rafael com a Beneficência Portuguesa. Na quinta (19), após o registro de aumento de procura e internações por Covid registrado na Santa Casa e no Dr. Beda (confira aqui) no dia anterior (18), Andreya disse (confira aqui) que a decisão da mudança de fase diante de uma aparente segunda onda da pandemia, ou recrudescimento da primeira, seria tomada na semana que vem. Mas, segundo a chefe da Vigilância em Saúde revelou hoje, na própria quinta houve um aumento no número de internações no CCC.
Abertura do CCC em 30 de março, fruto da parceria do governo Rafael Diniz com a Beneficência Portuguesa (Foto: Divulgação)
Com a diminuição do número de casos entre setembro e outubro, algumas equipes foram desmobilizadas para atender outras demandas da saúde. O que reduziu o número de 29 leitos de UTI do CCC para 24, assim como os leitos clínicos, de 60 para 40. Só que os casos voltaram a crescer em novembro, em virtude do relaxamento das pessoas e dos contatos físicos e aglomerações do período eleitoral. Primeiro na rede privada do Dr. Beda e do Hospital da Unimed, chegando à rede conveniada, como a Santa Casa, e esta semana ao CCC. Hoje, dos seus atuais 24 leitos de UTI, a referência do município no atendimento à Covid tem 17 ocupados. Já entre os leitos 40 clínicos do CCC, a taxa de ocupação atual é de 30.
Se o CCC colapsar com o novo crescimento da pandemia no município, toda sua rede pública, conveniada e privada viria a reboque. Mas, segundo Andreya, isso ainda não está para acontecer. Na rede pública, o Hospital Geral de Guarus (HGG) tem quatro leitos de UTI para Covid, com um ocupado; e quatro leitos clínicos, com dois ainda vagos. No Hospital São José, que atende à Baixada, há 10 leitos clínicos reservados aos infectados pela doença, todos ainda vagos, e mais 10 leitos de UTI, com apenas um ocupado. Na rede conveniada, mista o atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e privado, o Hospital Álvaro Alvim conta com quatro leitos de UTI, com dois ocupados, mais 10 leitos clínicos, sete deles ocupados. Sem adotar novas medidas de restrição diante do aumento de casos, a rede correria o risco de colapsar, como ocorreu na Itália e na Espanha.
Na quarta, dia anterior ao aumento na procura no CCC, o médico infectologista Nélio Artiles, entre os mais respeitados na região em sua área, tinha advertido: “A volta da fase Verde para a Amarela em Campos, com adoção do lockdown parcial, é inevitável, vai acontecer”.
Campos e seus três candidatos a prefeito mais votados em 15 de novembro, Wladimir Garotinho, Caio Vianna e Dr. Bruno Calil (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Com o apoio de sete vereadores eleitos por outros grupos políticos para Wladimir Garotinho (PSD), no segundo turno a prefeito de Campos, e um para Caio Vianna (PDT), a disputa também se dá entre as legendas. O PSDB local, presidido por Lesley Beethoven, como já era esperado, declarou seu apoio a Wladimir. E o PSB goitacá, que chegou a namorar Caio, antes de fechar apoio no primeiro turno à candidatura do prefeito Rafael Diniz (Cidadania), selou novo matrimônio eleitoral com o pedetista. Que na madrugada de hoje sofreu duras críticas do candidato terceiro colocado nas urnas de 15 de novembro. Por WhatsApp, Dr. Bruno Calil (SD), que teve 13,77% dos votos válidos no primeiro turno, questionou a residência, a disposição de trabalho e a lealdade política de Caio, desmentindo qualquer aliança do seu partido com o filho do ex-prefeito Arnaldo Vianna (PDT):
— O candidato Caio Vianna mais uma vez vem tentar enganar a população de Campos falando que o Solidariedade está com ele. Ele deva estar achando que ele é candidato no Rio de Janeiro cidade na qual ele reside. Isso é a velha política que eu tanto combatia. Não é acordando meio-dia que vamos conseguir reerguer nossa cidade. Não adianta ser bom de discurso e fraco de aperto de mão. Campos tem cura mas passa muito longe de Caio Vianna. Do dia que eu fui lançado candidato, até o pleito, deu 57 dias. Quando aceitei o desafio sabia que Campos precisava de trabalho e trabalho é com trabalhador.
(Clique na imagem para ver a postagem do PSB de apoio a Caio no Instagram)
Como Campos dos Goytacazes saiu das urnas a prefeito de 15 de novembro para a decisão final do dia 29 (Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Caio líder em empate com Wladimir? Ibope dirá!
Eleições, por vezes, são marcadas por surpresas. Esta eleição de Campos, atípica pela pandemia da Covid, ainda não havia trazido nenhuma. A passagem de Wladimir Garotinho (PSD) e Caio Vianna (PDT) pelo primeiro turno de 15 de novembro foi adiantada neste mesmo espaço semanal de análise (confira aqui) desde 10 de outubro, ainda sem nenhuma pesquisa registrada na disputa pela Prefeitura de Campos. Assim como foram aqui adiantadas a revelação que seria a Professora Natália (Psol) e a votação consistente de Dr. Bruno Calil (SD), fruto da força da campanha coordenada pelo deputado estadual Rodrigo Bacellar (SD) e responsável pela existência do segundo turno daqui a oito dias. Mas, na manhã de ontem, uma pesquisa do instituto Paraná divulgou (confira aqui) que o clã Vianna, além dos Bacellar, teria ultrapassado também o clã Garotinho. O que surpreendeu muita gente. Sobretudo a quem ficou desatento ao empate técnico entre os 52,6% de intenções de votos válido atribuídos a Caio e os 47,4%, a Wladimir. Na margem de erro de 3,5 pontos, ganhe quem ganhe no dia 29, o instituto “acertará”.
Liderança de Caio em empate técnico com Wladimir, segundo a pesquisa Paraná divulgada ontem (Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Não se deve entrar na negação de pesquisas, como faz a baixa bolsonaria, fingindo ignorar que a DataFolha registrou (confira aqui) entre 27 e 28 de setembro de 2017, mais de um ano antes do primeiro turno presidencial de 2018, que Jair Bolsonaro era o favorito no cenário sem Lula. Nem se deve apelar ao serviço baixo de desinformação, como os lacaios a soldo do garotismo, que passaram ontem a divulgar que a pesquisa Paraná com a liderança em empate técnico de Caio teria sido impugnada pela Justiça. Quando, na verdade, o instituto teve uma outra pesquisa barrada pelo juízo da 76ª Zona Eleitoral de Campos, por tirar Wladimir das duas opções de segundo turno, poder que só tem o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Que, com o ministro Luís Felipe Salomão como relator, julgará talvez na quinta (26) a condição de “Anulado Sub Judice” (entenda o caso aqui) da votação de Wladimir, por conta da desincompatibilização fora do prazo do seu vice, Frederico Paes (MDB), da direção do Hospital Plantadores de Cana (HPC).
No TSE, o ministro Luís Felipe Salomão é o relator do recurso contra o indeferimento de Frederico Paes como candidato a vice-prefeito na chapa de Wladimir (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
O que se pode e se deve fazer, para saber como de fato está a disputa pela Prefeitura de Campos, é comparar a Paraná do segundo turno com a Paraná do primeiro. Neste, o instituto projetou (relembre aqui) 28,1% de intenções de voto (ou 36,4% dos votos válidos) a Wladimir. E ele teve nas urnas 42,94% dos votos válidos — 6,54 pontos percentuais a mais. Já Caio, recebeu da Paraná no primeiro turno 23,5% das intenções de voto (30,5% dos votos válidos). E ele teve de fato 27,71% dos votos válidos — 2,7 pontos percentuais a menos. A margem de erro daquela Paraná do primeiro turno eram os mesmos 3,5 pontos da sua pesquisa divulgada ontem, para o segundo. Em 15 de novembro, a projeção do instituto ultrapassou esta margem ao errar com Wladimir, para baixo. Com Caio, dentro da margem, errou para cima.
Contrastes entre a Paraná e as urnas do 1º turno: erro fora da margem com Wladimir para baixo; e erro dentro da margem com Caio para cima (Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Carlos Alexandre de Azevedo Campos, advogado e professor da Uerj e Isecensa
Ao ser divulgada ontem pelo blog Opiniões e na manchete do site Folha1, a pesquisa Paraná que apontou a liderança de Caio em empate técnico com Wladimir gerou muita repercussão, comentários e análises. Inclusive no grupo de WhtasApp do blog e do programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3:
— Esse segundo turno é um desafio à alma e à mente do campista. Já disse que acho que o governo de Arnaldo foi o pior para mim por conta do seu legado aos gastos públicos. Mas, como movimento político, o garotismo é um mal pior. Mas acredito que os filhos não, necessariamente, devem ser punidos por seus pais. Mas isso está em jogo nas eleições. No quesito experiência, Wladimir ganha, em razão de sua boa passagem pela Câmara Federal. Mas pode ser que o passado dos pais defina o nosso presente, a favor ou contra Garotinho — disse o advogado Carlos Alexandre de Azevedo Campos, professor da Uerj, do Isecensa e ex-assessor do Supremo Tribunal Federal (STF).
Hamilton Garcia, cientista político e professor da Uenf
— Se eles (do instituto Paraná) estiverem certos, e observe que na pesquisa anterior eles acertaram na ordem de colocação dos candidatos, talvez isso se explique pela rejeição ao garotismo e ao perfil da oligarquia Vianna, mais descentralizada e agregadora, ao contrário da oligarquia Garotinho, mais centralizadora e exclusivista. É claro que para enfrentar a crise atual, mais vale uma centralização racionalizante do que uma descentralização irracional, mas é tudo muito especulativo, à luz da história dessas oligarquias — analisou o cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf.
Wellington Cordeiro, presidente da AIC
— Independente de quem vença o segundo turno, o município perde de lavada. A gastança desenfreada dessas duas famílias, que disputam o segundo turno, colocou a cidade em estado de coma. Veremos o que farão sem a fartura de dinheiro de outrora — ressaltou o jornalista Wellington Cordeiro, presidente da Associação de Imprensa Campista (AIC).
Fora do grupo, em seu próprio blog, o empresário Christiano Abreu Barbosa, diretor do Grupo Folha, deteve sua análise (confira aqui) sobre a própria pesquisa. E, noves fora qualquer fraternidade de sangue e espírito, ele está entre os melhores analistas de pesquisa e apuração eleitorais de Campos, ao lado do também empresário e colunista da Folha Murillo Dieguez, cujo instituto Pro4 faz tanta falta para acompanhar as eleições municipais deste ano:
Farol que iluminou a eleição a prefeito de 2016, com sua série histórica de pesquisas, o instituto local Pro4 faz falta em 2020
Christiano Abreu Barbosa, blogueiro, empresário e diretor do Grupo Folha
— Os novos números do Paraná corroboram a tese de alguns analistas políticos e de aliados de Caio, de que Wladimir repetiria candidaturas anteriores dos Garotinhos, chegando próximo ao teto já no primeiro turno, fato ocorrido duas vezes com Pudim. Porém, isto não ocorreu com Rosinha, parte pela bem sucedida estratégia de não mostrar Garotinho na campanha, tática repetida agora. Também não era o que indicavam os números de rejeição de Wladimir e Caio nas pesquisas, mesmo os do próprio Paraná. Wladimir sempre teve uma rejeição maior que Caio nas pesquisas, mas jamais na proporção de 5 para 1 — questionou Christiano.
Para um analista de menor capacidade, mas que ainda assim antecipou em um dia a vitória de Joe Biden (confira aqui) na eleição presidencial dos EUA, assim como antecipou o próprio TSE na noite longa de 15 de novembro, confirmando (confira aqui) o segundo turno entre Wladimir e Caio com apenas 43,7% das urnas do primeiro apuradas, a resposta está no que estas mostraram em suas quatro Zonas Eleitorais. Wladimir ganhou Caio em todas. Entre elas, apenas a diferença na 98ª ZE, na chamada “pedra”, foi e é desprezível: 28,35% a 28,32%. Nas 76ª e 129ª ZEs, o candidato dos Garotinho levaria já no primeiro turno: respectivamente, por 50,37% a 25,39% e por 53,98% a 25,37%. Já na 75ª, a diferença foi menor: 41,24% contra os 30,62% do candidato dos Vianna. A ZE da mítica “Baixada da Égua” deve definir a eleição. Onde a vantagem de Wladimir para Caio foi de 10,62 pontos percentuais. É mais que os 6,54 pontos da diferença entre os votos que a Paraná disse que o primeiro teria e os que de fato ele teve em 15 de novembro.
Como a eleição do 1º turno ficou divida entre Wladimir e Caio nas quatro Zonas Eleitorais de Campos (Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Alguém que conhece como poucos a Prefeitura de Campos e nutre igual antipatia pelos dois nomes que a disputam, confidenciou após a divulgação da Paraná: “No voto, acho difícil Wladimir não levar”. Se a definição fosse pelos vereadores eleitos por outros grupos políticos e atraídos por uma das duas candidaturas a prefeito no segundo turno, o placar seria 7 a 1 contra Caio. Que, no entanto, tem neste “1” o campeão de votos nas eleição legislativa: Abdu Neme (Avante), que teve 5.574 eleitores. Do outro lado, Anderson de Matos (Republicanos, 4.905 votos), Igor Pereira (SD, 3.271 votos), Rogério Matoso (DEM, 3.086 votos), Marcione da Farmácia (DEM, 2.278 votos), Silvinho Martins (MDB, 2.194 votos), Helinh Nahim (PTC, 2.171 votos) e Raphael Thuin (PTB, 1.738 votos), que declararam apoio a Wladimir após o primeiro turno, tiveram nele, somados, 19.643 eleitores.
Placar do apoio dos vereadores eleitos por outros grupos políticos, até ontem, estava Wladimir 7×1 Caio, (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Quase sinônimo de pesquisas eleitorais no Brasil, o Ibope tem uma no forno sobre a disputa do governo dos mais de 507 mil campistas, mais de 360 mil deles aptos a votar daqui a oito dias. Com divulgação prevista para esta quarta-feira (25), a quatro dias das urnas, veremos o que dirá. A Paraná registrou ontem que trará uma nova pesquisa para o dia seguinte, na quinta (26). Como garoto mimado, o instituto tentará dar a última palavra. Mas não terá o mesmo peso.
Campos dividida no segundo turno a prefeito entre Wladimir Garotinho e Caio Vianna (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
“Campos é o espelho do Brasil”? Na afirmativa, a frase é atribuída ao ex-presidente Getúlio Vargas, cujo legado ainda hoje divide cientistas sociais e cidadãos comuns. Como a cidade se dividiu, além do rio Paraíba do Sul que a formou, entre duas candidaturas na disputa do segundo turno a prefeito de Campos: Wladimir Garotinho (PSD) e Caio Vianna (PDT). Para saber o que esperar caso um ou outro vença o pleito final de 29 de novembro, a Folha ouviu, em ordem alfabética, o antropólogo Carlos Abraão de Moura Valpassos, professor da UFF-Campos; o advogado Carlos Alexandre de Azevedo Campos, professor da Uerj e Isecensa; a assistente social Erica Almeida, professora da UFF-Campos, a historiadora Guiomar Valdez, professora do IFF; e o cientista político Marcio Malta, professor da UFF. Além dos dois protagonistas do pleito, outros atores também estiveram sob análise, como sua revelação, a Professora Natália (Psol), e o atual prefeito, Rafael Diniz (Cidadania). Assim como a judicialização das urnas campistas de 15 de novembro, o monopólio masculino da nova Câmara Municipal “renovada” e o principal problema da cidade: sua grave crise financeira, em contraste com a miséria entre campistas que ela já gera. A partir de Campos, os cinco entrevistados deste painel também refletiram sobre a política do Brasil e do mundo.
Antropólogo Carlos Abraão Moura Valpassos, advogado Carlos Alexandre de Azevedo Campos, assistente social Erica Almeida, historiadora Guiomar Valdez e cientista político Marcio Malta (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Ex-presidente Getúlio Vargas
Folha da Manhã – É atribuída ao ex-presidente Getúlio Vargas a frase: “Campos é o espelho do Brasil”. Considerando as três últimas eleições, isso parece realmente ter se dado, com a busca do “novo” no pleito local a prefeito de 2016 e no presidencial, de 2018, para se refletir em 2020 no movimento de retorno à aparente segurança de nomes e grupos políticos tradicionais. Como você enxerga esse movimento na cidade e no país? Quais seriam suas causas?
Carlos Abraão Moura Valpassos – A frase sugere a ideia de que é possível pensar a questão “macro” através da análise do “micro”. Campos é influenciada pelo contexto nacional e, nesse sentido, reflete o Brasil, país que sofreu uma crise econômica e política ao longo da década de 2010, que resultou em um aumento drástico das taxas de desemprego e pobreza. Quando somamos a crise econômica às denúncias de corrupção e sua exploração coordenada através da internet, observamos uma forte rejeição aos mandatários do poder, novos atores foram então eleitos, não superaram a crise e prepararam o retorno de seus opositores.
Carlos Alexandre de Azevedo Campos – Acho as causas relativamente parecidas, nunca idênticas. Em Campos, além dos problemas jurídicos com Garotinho e Rosinha, tivemos problemas de gestão mesmo, de descontentamento. Rafael apareceu como uma nova política, mas não teve o sucesso esperado na gestão, não obstante eu entendo que tenha se empenhado. Problemas de gestão não permitiram a sua reeleição. No Brasil, Bolsonaro também apareceu como nova política, mas não só isso. Bolsonaro fez com que todo tipo de reacionarismo saísse do armário, ou seja, também representou uma virada ideológica. Hoje, acho que seus exageros ideológicos e sua falta de gestão fazem com que ele perca votos com o grande grupo não extremista que votou nele anteriormente, e isso pode fazer com que ele tenha o mesmo destino de Rafael. Os ciclos podem vir a ser os mesmos, mas as causas são só parecidas.
Erica Almeida – Não é sempre que a conjuntura nacional interfere nas eleições municipais. Todavia, as últimas eleições, para presidente e governador, em 2018, e para prefeito em 2016 e neste ano, não podem ser pensadas sem considerarmos as ações da Lava Jato e seus desdobramentos na política, particularmente, contra o PT e o impeachment da presidente Dilma. Além disso, também tivemos neste período a prisão do Cabral, as denúncias contra Pezão, Witzel e contra a gestão da prefeita Rosinha. Como se vê, foi um contexto marcado pela retórica contra a corrupção e que, de modo geral, teve um impacto nas escolhas dos eleitores, relegando as trajetórias e as pautas políticas.
Guiomar Valdez – Do ponto de vista da História não temos respostas ainda consistentes nesta conjuntura destacada. Entretanto é possível que suas causas estejam na convergência da crise do capitalismo a partir de 2008, perene, e não mais cíclica, com uma crise terminal da Nova República, abrindo uma transição com os infortúnios da insegurança. Assim, compreendo no Brasil e em Campos, que o “novo” confunde com o passado como segurança; que o “novo” se confunde com monstruosidades políticas. Situações típicas de períodos de transição, onde o “novo” não nasceu e o “velho” ainda não morreu. Daí…
Marcio Malta – As eleições de 2018 foram impulsionadas por muita fake news e uso indevidos das redes sociais, com impulsionamentos pagos indevidos. O fenômeno na verdade foi mundial e deu margem para aventureiros chegarem ao poder. A sociedade aprendeu com a experiência negativa e rechaçou esse campo nas eleições de domingo. Além do bolsonarismo, o neoliberalismo e seus desastres na economia, com sua prática de ajuste fiscal, também não tiveram vez.
Advertência feita em 5 de setembro, no painel com os gestores universitários de Campos, e repetida por vários outros
Folha – Em uma série de 11 painéis (confira-os aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), entre 18 de julho a 26 de setembro, a Folha ouviu 34 representantes da sociedade civil organizada, entre especialistas em economia, finanças, ciência política, sociologia e antropologia, além de gestores universitários, sindicalistas, empresários e juristas, sobre a crise financeira do município. Que pode ser resumida em um orçamento para 2021 entre R$ 1,5 bilhão a R$ 1,7 bilhão, com previsão total de gastos de quase R$ 2 bilhões, sendo R$ 1,1 bilhão só com folha de pagamento de servidor. Como fechar essa conta?
Abraão – A conta não fecha e não vai fechar. A cidade precisa criar receitas e para isso atrair a instalação de fábricas e indústrias, estimular o comércio, favorecer a agricultura familiar, incentivar a pesca artesanal e atacar em todas as frentes possíveis, em uma movimentação em diferentes multifacetada. É importante destacar o papel crucial desempenhado pelos servidores públicos em Campos, pois eles prestam serviços essenciais e também possuem autonomia em uma cidade marcada pelo clientelismo. O ataque aos servidores pode proporcionar ainda mais manipulação política.
Alexandre – Como disse anteriormente, mesmo com cortes de gastos de pessoal terceirizado e com algum aumento de arrecadação tributária, o novo governo vai precisar contrair empréstimos públicos. Buscar verbas federais também será fundamental. Salvo essas medidas, a conta não fechará.
Erica – Em entrevista, o prefeito eleito de Cabo Frio (PDT) disse que o servidor público não pode ser penalizado, nem com cortes de salário, nem com atrasos, porque são eles que realizam o governo. Penso que ele está certíssimo e que nós precisamos refutar as teses neoliberais sobre Estado mínimo, ajuste fiscal e avanço das privatizações. Somos um município com muitos problemas no que se refere ao emprego, à renda, aos direitos sociais fundamentais como infraestrutura urbana, mobilidade, saúde e educação. Defendo que o governo local se volte prioritariamente para estas questões revendo contratos abusivos, a dívida ativa e os excessos com relação aos terceirizados.
Guiomar – Vou responder sem muito entusiasmo sobre esse desafio. Porque a superação passaria por uma radical ação de transparência e honestidade do Executivo com a população e seus servidores, tratando do histórico da crise de forma clara e objetiva, do atual déficit orçamentário, bem como, organizá-los pedagogicamente em busca do consenso e de proposições juntamente com o quadro de especialistas. Novos investimentos e atividades econômicas e a articulação com as universidades estariam neste horizonte. O segundo turno, “é o novo que é passado”, logo, incapacitados para ousar novas formas de gestão pública.
Marcio – A questão não se resume a contas matemáticas. É preciso responsabilidade, mas não necessariamente com austeridade fiscal. É fundamental impulsionar a economia local, com uma perspectiva desenvolvimentista, pautada na inclusão de setores que passaram ao largo da história. A criação de uma moeda local, do turismo, fortalecer o comércio e indústria são algumas das medidas que poderiam estar no horizonte. Os temidos programas sociais podem auxiliar a roda da economia campista. Outro aspecto fundamental é não depender exclusivamente do petróleo, pois o preço dessa commodity é extremamente volátil.
Na face mais cruel da crise financeira de Campos, moradores de ruas se acumulam nas esquinas da cidade (Foto: Genilson Pessanha)
Folha – No lado mais cruel da crise, Campos tem mais de 40 mil famílias na extrema pobreza. Condição que se acentuou com as crises sanitária e econômica da Covid-19, e pode ser vista no grande número moradores de rua em todos os pontos da cidade. Com déficit municipal estimado para 2021 em R$ 17 milhões/mês, como dar assistência social a essas pessoas, mantendo a atual folha de pagamento de pessoal e número de equipamentos municipais?
Abraão – Acho necessário levantar questões: alguém, conhecendo o histórico de nossa cidade e de nosso país, acredita, sinceramente, que o corte na folha de pagamento de pessoal e de equipamentos municipais vai, de fato, ser revertido em assistência social? Quando tivemos fartura, investimos em assistência social sólida e equipamentos municipais relevantes, que se converteriam em legados para as próximas gerações, ou assistimos ao gasto em serviços que se desmancharam rapidamente e em equipamentos “cruciais” como o Cepop e os arcos da Beira-Valão? Campos precisa de administração séria e novas receitas; não de novos bodes expiatórios.
Alexandre – Penso ser essencial que o novo governo reserve parte do orçamento para retirar essas pessoas das ruas, o que pode ser feito mediante aluguel social. Alimentação e tratamento de saúde também serão essenciais. Deve também buscar parcerias privadas para oferta de empregos mediante a criação de novas atividades. Deve priorizar gastos com essas pessoas, seja por razões de dignidade, seja pelos benefícios sociais em geral, inclusive no campo da redução de violência. Penso ser uma prioridade orçamentária. Uma opção política quase obrigatória ante os efeitos nefastos da Covid. Remanejar gastos orçamentários para tanto será necessário.
Erica – O governo atual foi o que menos gastou em Assistência Social, ainda que o município atravessasse uma das suas mais graves crises sociais desde os anos de 1980. Em março de 2020, estima-se, que os extremamente pobres, ou seja, aqueles que vivem com uma renda familiar mensal de até R$ 89,00 por cabeça, atingiram 21,43% da população de Campos. Em 2010, eles eram apenas 3,67%. Isso é motivo suficiente, para que o novo governo junto com a sociedade civil estabeleça um pacto político que privilegia a vida, a segurança alimentar, a saúde e a educação das nossas crianças e jovens e não o inverso. É preciso hierarquizar as prioridades e proteger os mais vulneráveis.
Guiomar – O pano de fundo seria uma política de honestidade e de transparência “dos números” de forma qualitativa estabelecendo as prioridades. É importante desmistificar a Lei de Responsabilidade Fiscal e outras legislações que estabelecem o limite de gastos com pessoal. Para cortes não bastariam os números dos gastos “em si e isolados”, isso que caracterizaria a qualidade nas decisões. Ter o desafio orçamentário e o programa do eleito como referência na Assistência Social e os servidores públicos concursados da área como consultores e propositores das prioridades, dos gastos e até dos cortes.
Marcio – No tocante à folha atual de pagamento é preciso acabar com os RPAs e estabelecer concursos públicos. Os equipamentos municipais quando bem administrados não são um problema em si. O Palácio da Cultura é um exemplo, foi reformado recentemente e poderia estar em pleno uso da população. Parece ser uma lógica invertida, onde não é priorizado o bem-estar da população. A pobreza em Campos é estrutural, mas foi agravada com a gestão neoliberal da atual Prefeitura, que fechou espaços fundamentais no combate à fome, como o Restaurante Popular. É preciso gerar emprego e incentivar mecanismos de transferência de renda.
Na página 3 da Folha da Manhã de 16 de novembro, a nova Câmara Municipal de Campos, com 21 vereadores homens e nenhuma mulher
Folha – De volta à questão político/eleitoral, como analisa a renovação de 80% da Câmara Municipal? Foi um movimento inverso, no pleito proporcional, do eleitor que na majoritária optou pelo retorno das duas principais oligarquias políticas da cidade? Olhando as 21 caras da nova Câmara, à exceção dos quatro reeleitos, há outros quatro que já foram vereadores e cinco nomes novos que representam velhos ocupantes, além da cadeira cativa em rodízio entre pastores da Igreja Universal. Esse novo é tão novo assim?
Abraão – É preciso destacar que existe uma prática, já antiga, de os vereadores indicarem seus aliados políticos para ocuparem postos de trabalho na Prefeitura. Desse modo, cada vereador acaba por “empregar” na Prefeitura um contingente de pessoas. Entendo que a eleição de vereadores acaba por colocar em oposição pessoas que possuem perspectiva de terem seus interesses atendidos por seus candidatos. E que os candidatos que apresentam maior capacidade de retribuição, de modo personalista, do apoio político recebido, acabam obtendo maior apoio e, consequentemente, sendo eleitos. Não observei mudança significativa nos atores dessa antiga peça.
Alexandre – Não vejo assim que o campista escolheu voltar ao velho na eleição majoritária. Não sou tão cruel assim com o fator hereditário. Filhos não devem carregar para as suas vidas os erros dos pais, nem serem punidos para tanto se não colaboraram com os erros. Não gostei do governo de Arnaldo; já disse aqui que, para mim, foi o pior de todos. Mas não culpo o seu filho por isso. De Caio, sei apenas que ele não possui qualquer experiência. Também não gostei dos governos de Garotinho e Rosinha, já os derrotei algumas vezes no Judiciário. Mas não atribuo a Wladimir qualquer culpa por eles. Ao contrário, acompanhei com grata surpresa o ótimo desempenho dele como deputado federal. Acho que o segundo turno é meio que uma renovação que fora desenhada desde a eleição passada, e que se firmou por conta dos problemas de gestão de Rafael. Sobre a Câmara, concordo que não há tanta novidade. Na realidade, muito pouca novidade. Acho que houve a dança das cadeiras natural, própria de Campos.
Erica – Parece que esse movimento de pulverização das siglas partidárias se deu em todo o país e, mais uma vez, eu penso que ele tem uma relação direta com as novas coalisões políticas que se desenharam a partir do impeachment da Dilma. Embora os acordos locais tenham uma certa autonomia, eles não são completamente descolados das alianças políticas nas escalas estaduais e nacional. E mesmo que o eleitor tenha escolhido nomes novos no cenário político local, os partidos não o são e muito menos as suas plataformas, basta observar a ausência das mulheres e de outros segmentos.
Guiomar – É fato o movimento inverso entre proporcional e majoritária. Nem sempre renovar, mudar, significam avanços qualitativos, superação de uma política para melhor, social e eticamente mais justa. Volto ao meu ponto de vista de que vivemos uma transição e à afirmação de Vargas acima citada: “Campos é o espelho do Brasil”. Ora, uma avaliação lúcida do pleito eleitoral local e nacional permite indicar o “retorno da política tradicional” com rostos novos e o crescimento dos partidos de direita e de centro-direita. Não é isso que está posto em nossa Câmara? Esse “novo” é “uma roupa que não se veste mais”!
Marcio – Esse é o paradoxo da tão apregoada renovação. Muitas vezes o novo já nasce velho. Campos perdeu uma oportunidade de renovar de verdade, tirando figurões tradicionais da Câmara Municipal. O sistema eleitoral possui barreiras difíceis de serem suplantadas, como a dificuldade do financiamento das campanhas, que ainda convivem com práticas clientelistas como a compra dos votos. E por último, é necessária uma mudança de mentalidade, saber da importância do Legislativo em fiscalizar o Executivo e propor leis que engrandeçam a cidade.
Precursoras como primeiras vereadoras de Campos, no início dos anos 1970, o exemplo das vidas de Hermeny Coutinho e Antônia Leitão não terá representação na Câmara Municipal, meio século depois (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Folha – Outro questionamento na nova Câmara é a ausência de mulheres. Para uma cidade que tem Benta Pereira como heroína histórica e uma Casa do Povo cuja participação feminina foi inaugurada por uma negra, Hermeny Coutinho, em 1971, seguida de Antônia Leitão, eleita em 1972, passando em tempo mais recente por edis também atuantes, como Ivete Marins, Beth Couto e Odisséia Carvalho, entre outras, o monopólio masculino é um retrocesso? Por quê?
Abraão – A política em Campos reflete aspectos clientelistas, patrimonialistas e personalistas que estão no Brasil desde o nascimento de nossa República. Nesse contexto, esquecemos que a administração pública é… pública… e por isso deveria atender a diferentes interesses e necessidades presentes na população. Quando não temos mulheres na Câmara, questões importantes relativas às demandas femininas deixam de ser vislumbradas. O monopólio masculino na Câmara significa que demandas sociais legítimas, de parcelas significativas da população, não serão contempladas. A perda de diversidade representativa é a perda de diversidade em serviços e leis.
Alexandre – Um baita retrocesso. Acho que faltaram candidatas mais novas, com boa expressão política como a Professora Natália, candidata a prefeita. E isso é fatal em uma sociedade majoritariamente conservadora e machista como a campista. Mas veja um lado positivo: me impressionei muito com a Professora Natália; penso que ela tem um ótimo futuro político pela frente. Esse já é um ganho para a população feminina de Campos advindo destas eleições.
Erica – Em uma sociedade marcada pelas desigualdades socioespaciais e pelas opressões de gênero e étnico-racial, em um contexto de avanço do feminicídio, da violência doméstica e sexual, toda a forma de monopólio é um retrocesso. O monopólio feminino também seria. A proposta é que o Legislativo seja o mais representativo possível e isso demanda legisladores que representem as pautas e os interesses dos trabalhadores, de modo geral, e, também, de algumas particularidades vinculadas ao gênero, à etnia, à opção sexual… O Legislativo não pode ignorar as demandas apresentadas por esses grupos sociais, organizados em inúmeros movimentos e organizações.
Guiomar – Na vida política representativa não aprecio monopólio de qualquer tipo. Entretanto defendo que ser homem, mulher, negro, branco, indígena, pobre, lgbt, idoso, jovem, religioso, etc, em si, não significa, para mim, ser progressista, digno, honesto, responsável, solidário com quem vive-do-trabalho, etc. E é isso que busco em termos ético-humanistas, por exemplo, numa Câmara Municipal. O monopólio masculino e não progressista instalado que é um retrocesso. Pois tende a manutenção do injusto status quo para a maioria, bem como, a obstaculizar o avanço dos direitos humanos e do trabalho.
Marcio – Com certeza configura um retrocesso. Afinal Campos historicamente se marca pelo patriarcalismo. E entrou na pauta nacional com um caso como das “Meninas de Guarus”. Faz falta para a cidade não ter representatividade feminina, que em termos numéricos é a maior parte da população de acordo com dados censitários. Existiam diversas candidaturas femininas, o triste é o fato delas não terem sido contempladas nas urnas.
Prefeitas eleitas da região Norte Fluminense, Carla Machado, Fátima Pacheco, Francimara Barbosa Lemos, Cristiane Cordeiro e Geane, mais a ex-governadora e ex-prefeita Rosinha Garotinho e a ex-presidente Dilma Rousseff (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Folha – Em oposição à nova Câmara de Campos, quatro prefeitas foram reeleitas e uma eleita na região: Carla Machado (PP) em São João da Barra; Fátima Pacheco (DEM), em Quissamã; Francimara (SD), em São Francisco; Cristiane Cordeiro (PP), sub judice em Carapebus; e Geane (PSD), em Cardoso Moreira. Campos e RJ tiveram Rosinha Garotinho (hoje Pros) no Executivo. Assim como o Brasil teve Dilma Rousseff (PT). E os governos e legados das duas últimas foram e permanecem muito questionados. Como você vê? Há algo comum ao gênero no poder?
Abraão – Quando Rosinha foi prefeita e governadora, as pessoas acreditavam que quem governava, de fato, era seu marido. Quando a gasolina passou dos R$ 2,50 no governo Dilma, várias pessoas imprimiram um famigerado adesivo de uma mulher de pernas abertas, com o rosto de Dilma, e colaram na boca dos tanques de seus carros. Então surgem as perguntas: quando Garotinho foi prefeito e governador, diziam que era Rosinha a governante? Quando a gasolina passou dos R$ 5,00 no governo Temer e assim permaneceu com Bolsonaro, fizeram adesivos deles? Onde existem pessoas, existem questões de gênero; e na política isso é bastante explicitado.
Alexandre – Não correlaciono o desempenho ao gênero, não mesmo. Carla é um fenômeno muito positivo, uma campeã, já a Dilma, um desastre, que presenciei quando vivi em Brasília. Se eu fosse apontar algo comum, seria apenas a força representativa, o símbolo positivo da chegada de uma mulher ao poder em um país dominado por homens na política. Mas é necessário mostrar gestão, e Dilma não o fez.
Erica – O fato de ser um(a) politico(a) do sexo feminino, do sexto masculino ou transexual não dá conta de toda diversidade cultural e identitária e nem das divergências no campo ideológico. Nesse sentido, nem toda mulher pode ser considerada um avanço para a agenda feminista. A ministra Damares é um exemplo; ela é a contra agenda feminista. Infelizmente, além das múltiplas violências contra a mulher, o país tem sido marcado por ataques machistas e desqualificadores às candidatas, em especial, às mulheres negras e trans. A boa notícia é que há resistência e, muitas delas foram eleitas, mesmo neste cenário de regressão dos direitos.
Guiomar – Não! A questão de gênero não define tendências políticas no poder. O que define é a visão de mundo traduzida em opções partidárias. Um país cuja a história política de mais de 500 anos, que possui no máximo 50 anos, com interrupções, de exercício democrático, as heranças do autoritarismo, clientelismo, patrimonialismo, machismo, independem do gênero. Sem falar nas permanências econômicas e culturais. Por isso ter mulheres no poder, em si, não significa ruptura com essas heranças. Observem os partidos que elas representam. Tem, sim, densidade simbólica para o histórico das lutas feministas.
Marcio – A representatividade feminina é importante, mas não basta. Essas mulheres têm que possuir uma conduta política ilibada, que combatam a corrupção e representem os anseios femininos nas políticas públicas. Uma perspectiva de conduta justa é fundamental. A região de fato elegeu muitas mulheres e algumas se contrapõem ao bolsonarismo, como o caso de Carla Machado e Fátima Pacheco, que derrotaram setores conservadores de suas cidades. Mas é preciso aprofundar conquistas sociais e ter uma perspectiva de incluir setores pobres da sociedade.
Professora Natália e Rafael Diniz (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr)
Folha – Sem sair da participação feminina na política, é unânime reconhecer que a Professora Natália (Psol) foi a grande revelação da eleição majoritária. Candidata pela primeira vez, ela teve 11.622 votos (4,68%), apenas 1.728 a menos do que os 13.350 (5,45%) dados ao prefeito Rafael Diniz (Cidadania), com a máquina municipal na mão. Como vê o desempenho de uma e do outro, eleito ainda no primeiro turno de 2016 com 151.462 votos (55,19% daquele pleito)?
Abraão – Em 2016 Rafael Diniz foi eleito no primeiro turno, em uma manifestação clara de insatisfação com os governos anteriores. Ao longo de seu governo, a população não observou melhoras na cidade e isso levou ao resultado da eleição. Muita gente insatisfeita com a gestão de Rafael e contrária ao que representam os outros candidatos, viram na Professora Natália uma candidata bem articulada, inteligente e com uma pauta progressista. Por isso votaram nela, mesmo sabendo de suas parcas chances de ser eleita. A Professora Natália chegou como desconhecida e saiu fortalecida do pleito, ao contrário de Rafael, que viu nas urnas a reprovação de sua gestão.
Alexandre – Como eu disse acima, fiquei encantado com o discurso da Professora Natália e a firmeza de suas exposições. Ela mereceu os votos. Quanto a Rafael, tenho uma enorme simpatia pessoal por ele, o considero um prefeito que buscou o melhor, mas esbarrou em limitações que não soube contornar, ou mesmo eram impossíveis de contornar. Enfim, teve problemas de gestão que resultaram na fraca votação, o que já me parecia previsível.
Erica – Natália chama atenção para essa outra Campos. Seus eleitores querem um governo parametrado por outras métricas, por outra lógica que não aquela vinculada aos interesses econômicos e corporativos. Esse movimento também foi vitorioso nessas eleições. O país não elegeu só os candidatos dos partidos liberais e conservadores; foram eleitos também, vereadores e prefeitos de esquerda e centro-esquerda, transsexuais, mulheres negras, quilombolas e indígenas, demonstrando a necessidade de inclusão das pautas feministas e de gênero, antirracistas e socioambientais.
Guiomar – Concordo com este reconhecimento. O Psol em Campos refletiu positivamente a performance nacional do partido nesta eleição, um avanço localizado nos seus passos para consolidar-se no campo progressista. Exemplo maior é sua presença no segundo turno na cidade de São Paulo, independente do lulismo. Quanto ao desempenho pífio do prefeito de Campos, dentre outras razões, destaco o seu “ensimesmamento” no poder, impedindo um diálogo com a população organizada sobre a profunda crise financeira que herdou e suas consequências para todas as áreas. Inclusive na divulgação dos seus feitos neste contexto.
Marcio – De fato, a figura da Professora Natália foi saudada por muitos especialistas como o principal fato novo destas eleições. Oxigenou o cenário e trouxe um posicionamento propositivo e embasado. O resultado mostra que existem setores da cidade que anseiam por essa renovação e se enxergam nessa candidatura que reivindicou o respeito à educação, aos negros e a orientação socialista. Por outro lado, a derrota estrondosa de Rafael Diniz é fruto de sua política neoliberal, de esvaziamento dos programas sociais. Não mostrou a que veio. E venceu em 2016 tão somente por um desgaste da família Garotinho na época.
No Folha no Ar de 24 de maio de 2019, Makhoul Moussallem teve na eleição de 2012, pelo PT, a maior votação de um candidato a prefeito da esquerda em Campos (Foto: Folha da Manhã)
Folha – Entre os militantes de Natália, houve queixa do resultado das urnas. O fato é que a esquerda goitacá sempre fez, no máximo, uma cadeira na Câmara, este ano ausente. Para prefeito, o melhor desempenho foi em 2012, com o segundo lugar do saudoso Makhoul Moussallem. Não impediu a reeleição de Rosinha Garotinho (hoje, Pros) no primeiro turno, mas fez 61.143 votos (25,52%). Que o médico conquistou por ter excedido pessoalmente o PT. Qual o caminho à esquerda em Campos? O Psol assume nele o protagonismo? E no Brasil?
Abraão – Aqui vale recordar a frase da primeira pergunta: “Campos é o espelho do Brasil”. No cenário atual, o Psol se destaca como partido progressista, defensor de uma política preocupada com os trabalhadores e as parcelas mais pobres do país. A esquerda imaculada hoje está no Psol, pois o PT foi estigmatizado ao longo dos últimos anos. Apesar de relevante, a esquerda no país, e em Campos, é marcada por muitas fissuras. São muitas disputas internas que prejudicam a formulação de estratégias de articulação para o sucesso no pleito eleitoral. A criação de alianças e a formulação de estratégias, para além das divergências, parece ser crucial para a esquerda.
Alexandre – Esses conceitos são complicados. Garotinho, em 1988, quando eleito pela primeira vez, no PDT, não era o “candidato da esquerda” contra a direita liberal e conservadora que governou Campos por tantos anos? Penso que sim. Depois, infelizmente, descambou para o populismo puro. Acho que o caminho da esquerda no Brasil é levantar alto a bandeira do antibolsonarismo, mas sem flertar com o mesmo extremismo de Bolsonaro. Se o Psol souber fazer isso, poderá ganhar ainda mais espaço, o espaço que já foi do PT em todo o Brasil.
Erica – Eu só posso responder como uma eleitora da esquerda. Antes de pensar na hegemonia deste ou daquele partido, me interessa o avanço das pautas da esquerda: emprego, direitos civis, proteção social, direitos humanos, proteção ambiental, ou seja, tudo aquilo que a sociedade brasileira construiu na Constituição de 1988 e que vem sendo destruído pelos representantes do ultraneoliberalismo desde 2016. Penso que as alianças serão fundamentais, não só entre os partidos de centro-esquerda, mas, também, com os movimentos sociais e as organizações da sociedade civil que não podem ser desprezados na reconstrução deste país.
Guiomar – A tarefa da esquerda em Campos, como a nível nacional, será árdua! O resultado dessa eleição mostrou também em números o aprofundamento da sua crise, iniciada já no primeiro governo Lula, escancarada em 2013, anunciando um definhamento em 2016 e em 2018. Vai exigir coragem, resiliência, a prática radical dos valores ético-humanistas para a superação das amarras históricas do autoritarismo, populismo e personalismos, que estruturalmente permaneceram nos partidos de esquerda. Acho cedo demais historicamente para afirmar neste momento que o Psol aqui ou nacionalmente assumirá o protagonismo na esquerda.
Marcio – Em termos nacionais o Psol tem ocupado esse vácuo deixado pelo PT, que caminhou ao centro, compondo alianças muitas vezes questionáveis. Em Campos não foi diferente e o Psol tanto na eleição de 2018, quanto nessa, soube aproveitar e defender esse legado da resistência a projetos excludentes. Ao que tudo indica tem grandes chances de conquista frutos no legislativo em uma próxima eleição, à medida que é um partido que reorganizou recentemente seu diretório municipal. A própria Professora Natália parece ter futuro promissor.
Com a vitória de Joe Biden na eleição presidencial dos EUA e as derrotas dos candidatos apoiados pelo presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Lula nas eleições municipais brasileiras de 2020, mundo político pende ao centro (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Folha – A eleição presidencial de Joe Biden nos EUA e o primeiro turno nos municípios brasileiros parecem marcar a derrota da extrema-direita, mas com inflexão ao centro, não à esquerda. Como você vê? Em Campos, o segundo turno entre Wladimir Garotinho (PSD) e Caio Vianna (PDT, mas com vice do PSL) reflete isso? Jair Bolsonaro foi o grande perdedor das urnas de 15 de novembro? E o PT, fora do turno final em todas as capitais brasileiras, à exceção do Recife?
Abraão – A eleição de Campos constitui uma alternância de poder entre famílias de antigos governantes e parece não possuir as marcas da oposição entre esquerda e direita que caracteriza a polarização nacional. Políticos de centro ocupam o poder há décadas por aqui. Bolsonaro, por sua vez, não foi um sucesso como cabo eleitoral, mas é preciso lembrar que as eleições municipais são diferentes das eleições presidenciais; sentimentos e interesses distintos caracterizam os pleitos. Nesse sentido, observar o fracasso dos candidatos bolsonaristas não é uma garantia de que o próprio Bolsonaro vá fracassar em sua reeleição, ainda mais com a estigmatização do PT.
Alexandre – Concordo com você. A eleição de Biden e os resultados de nossa eleição refletem um refluxo, e rápido, de políticas como o trumpismo e o bolsonarismo. Esse modo extremo de pensar a política, para alguns, de não fazer política, não vai acabar, mesmo perdendo eleições, mas vai se enfraquecendo. Bolsonaro não tem partido, mas a sua forma de fazer política saiu derrotada nas eleições. Ele tem que ser muito burro ou arrogante para não enxergar a derrota pessoal. Os seus eleitores preferem falar na “diminuição do PT”, como se o contraponto sempre fosse o crescimento de Bolsonaro. Esquecem que existe a virada ao centro, seja mais à direita, seja mais à esquerda. O segundo turno de Campos reflete isso. E mais: candidata do Psol, Natália deu uma surra nos dois candidatos, juntos, que se declararam bolsonaristas, Tadeu e Jonathan Paes. Isso diz muito.
Erica – Concordo com as análises que identificam a derrota da extrema-direita, do negacionismo e da política do ódio representada pelo presidente da República. Sobre os partidos liberais, chefiados pelos “velhos” políticos ligados às oligarquias regionais, o seu crescimento tem relação com os episódios recentes na política. É preciso lembrar que quem comandou o impeachment de 2016 não foi Bolsonaro. Portanto, o protagonismo destas forças políticas hoje já era esperado. Mas, vale ressaltar que além do PT saíram dessa eleição de primeiro turno com menos prefeituras: PSB, PSDB e MDB. O que mostra a rearticulação dos partidos mais à direita.
Guiomar – A vitória de Joe Biden na eleição presidencial, de fato, é um “respiro civilizatório” diante das vitórias da irracionalidade na política, mas, sem nenhum romantismo de mudança de lugar do nosso país no mundo. É também fato que neste momento podemos constatar a derrota eleitoral da extrema-direita, do bolsonarismo. Entretanto, não dá ainda para termos esperanças em 2022, já que a mudança na correlação de forças caminhou para a centro-direita. O segundo turno em Campos reflete isso, sem dúvidas. O PT lulista pós-eleição talvez esteja vivendo uma “junção de epílogo e posfácio”, se nada acontecer de novo.
Marcio – O ciclo neoliberal dá sinais de esgotamento por todo o mundo. Para além dos Estados Unidos, o mesmo ocorreu na Bolívia, Argentina, dentre outros países. Parece que no Brasil o mesmo ocorreu no último domingo. Mais um rechaço plebiscitário contra essas políticas públicas de Estado mínimo que um crescimento real da esquerda, por isso o crescimento do centro e um não avanço do PT. Ainda é cedo para falarmos de fim do bolsonarismo, afinal os próximos dois anos são essenciais na disputa de horizontes a serem construídos.
Resultado das urnas do primeiro turno a prefeito, com o segundo entre Wladimir e Caio (Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Folha – Dos espectros políticos à realidade dos números, Wladimir teve 42,94% (105.526 votos) no primeiro turno, contra 27,71% (68.732 eleitores) de Caio. Para que este consiga tirar essa grande diferença e se eleger prefeito, teria que conquistar pelo menos três em cada quatro dos 72.817 votos dados a outros candidatos no primeiro turno, sem abstenção, branco ou nulo no segundo. Matematicamente, é possível. E eleitoralmente? Por quê?
Abraão – Caio e Wladimir, apesar de adversários no pleito, se assemelham em diferentes aspectos. Ambos são jovens, filhos de ex-prefeitos e não possuem uma identidade política com inclinação de esquerda ou direita. Assim, dificilmente os eleitores da Professora Natália vão aderir a um dos candidatos, por exemplo. Imagino que, a não ser que algo muito extraordinário ocorra, a tendência seja de um aumento nas abstenções, nos votos brancos e nulos. O desafio de Caio é atrair os votos de um eleitorado que não se sente representado por ele, e isso em um intervalo de tempo muito curto.
Alexandre – Em política, quase tudo é possível, né? Acho que tudo vai depender das alianças. Só que a campanha de Wladimir teve algo inusitado para mim: muitas pessoas que conheço, que não suportam politicamente os seus pais, votaram nele porque enxergaram algo diferente, além de considerá-lo o mais preparado. Acho que ele aproveitou bem a sua passagem na Câmara dos Deputados, e isso foi decisivo para ele convencer esse grupo de pessoas, que não acredita no garotismo, mas confia em Wladimir. Se Rafael tivesse obtido os resultados de gestão que a maioria esperava, ele seria o favorito. Sem Rafael no páreo, penso que Wladimir é o favorito.
Erica – Penso que o primeiro desafio de ambos será convencer os eleitores a irem votar, particularmente aqueles que parecem não se identificar com nenhum dos dois projetos. Por outro lado, a votação nos demais candidatos derrotados no primeiro turno, indica, ao meu ver, uma dificuldade dos eleitores em reconhecer o Caio como uma liderança política. Mas, segundo turno é uma outra conversa, com novas alianças, negociações e perspectivas. Talvez, a novidade esteja em se desvencilhar das experiencias passadas e oferecer um outro modo de governo, mais transparente, menos clientelista e mais abertos às demandas populares.
Guiomar – Mesmo diante dos dados explicitados na pergunta, nada é impossível de acontecer eleitoralmente. A história da política brasileira mostra isso, inclusive, recentemente. Agora, é improvável que Caio Viana vença este segundo turno. Considerando o perfil partidário/eleitoral de centro-direita da nova Câmara e de outros candidatos que perderam, lembro que este espectro político tem em sua natureza o fisiologismo e o pragmatismo. O velho clientelismo não resistirá às chances dos 42,94%. A ver.
Marcio – A política não se resume em matemática. A eleição do segundo turno é uma outra composição. Nesse ano em específico, Caio teria que correr atrás daqueles que se abstiveram e tentar estabelecer composições com os derrotados, que muitas das vezes é difícil por conta da disputa no primeiro turno.
TSE irá determinar o destino eleitoral de Campos (Foto: Divulgação)
Folha – Wladimir talvez tenha seu maior obstáculo na Justiça Eleitoral. Não pela “Chequinho” dos seus pais, mas pela desincompatibilização fora do prazo do seu vice, Frederico Paes (MDB), do Hospital Plantadores de Cana (HPC). Que teve a candidatura indeferida no Tribunal Regional Eleitoral (TRE), fazendo com que os votos da chapa fossem divulgados como “Anulado Sub Judice”. A decisão final caberá ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). E parece dividida em dois juízos de mérito: a condição do vice e a contaminação, ou não, da chapa. Como você projeta?
Abraão – As regras do processo eleitoral são as mesmas para todos os candidatos. É espantoso que um erro dessa natureza aconteça na formação de uma chapa com grande potencial de sucesso em uma cidade do porte de Campos. E, uma vez constatada a irregularidade, as instituições competentes passam a atuar. Agora, cabe ao Tribunal Superior Eleitoral cumprir seu papel de analisar e julgar. Infelizmente tudo isso se dá em um contexto de grande questionamento e insegurança em relação às instituições. Mais uma vez o processo eleitoral em Campos é marcado por irregularidades e incertezas.
Alexandre – Há diversos precedentes do TSE no sentido de não haver a contaminação, ou seja, de as condições de elegibilidade serem pessoais, do vice e do prefeito, de forma que a chapa não seja contaminada pela ausência em relação a um desses integrantes. Na chapa, o problema foi com o vice, o que pode acarretar o indeferimento do seu registro, sem que isso importe em anular o registro da chapa toda. Muitos desses precedentes envolveram casos de improbidade administrativa, inclusive. No caso da chapa de Wladimir, o problema foi só o do tempo de desincompatibilização, o que pode ajudar. Em casos análogos, o ministro Barroso, hoje presidente do TSE, entende que só em casos muito extremos não deva prevalecer a vontade das urnas, caso o verdadeiro cabeça da chapa for o candidato a prefeito, de forma que a impugnação do vice não deve contaminar toda a chapa eleita pela maioria dos votos. Este é caso em Campos, ao menos no primeiro turno. A briga vai ser boa, mas vejo boas chances para o deferimento, ao menos, para Wladimir.
Erica – Mais recentemente, o Brasil tem experimentado sentenças inusitadas e, muitas vezes, ao gosto do freguês, geralmente as elites. O protagonismo político de alguns juízes tem sido duramente criticado pelos próprios pares. A judicialização da política é um caminho perigoso e extremamente nocivo à democratização. Por mais que a democracia apresente problemas, e a democracia brasileira tem muitos limites, ela é a melhor opção às ditaduras militares e ao fascismo. Quanto à questão da chapa em particular, não saberia analisar. No entanto, penso que a Justiça deva se esforçar sempre para respeitar a vontade do eleitor, ela deve ser soberana sempre.
Guiomar – Dado o atual perfil dos magistrados do TSE, para mim, judicialistas, em especial, o presidente desta Corte, Luís Roberto Barroso, existe uma probabilidade alta de indeferimento da chapa.
Marcio – Existe jurisprudência favorável à aprovação da chapa. O jogo ainda não está decidido. Caberá também ao posicionamento dos juízes em questão. Foi um erro infantil a não desincompatibilização do vice em tempo hábil, mas pode ser ainda ser revertido. O lado negativo é que traz uma insegurança institucional para o pleito, mesmo depois do mesmo decorrido.
Folha – A depender do resultado e do tempo da decisão do TSE, não se descarta nem o adiamento do segundo turno para reinseminação das urnas, ou a anulação do pleito. Tudo isso cai por terra se o TSE deferir a candidatura de Frederico, ou se entender que um indeferimento não afetaria Wladimir. De qualquer maneira, como vê o fato do processo eleitoral de Campos ser mais uma vez definido pelo Judiciário?
Abraão – O tempo do Direito não é igual ao tempo da política. O TSE foi acionado em função de uma irregularidade no processo e agora precisa definir as consequências disso. A decisão sobre o processo, no entanto, pode não se dar em consonância com o calendário político, o que cria uma grande incerteza. E mesmo com essa indefinição e a possibilidade de anulação da candidatura, a chapa questionada foi a mais votada na cidade, com ampla maioria de votos. A população, que foi a Zonas Eleitorais muitas vezes lotadas em pleno contexto de pandemia e aumento do número de casos, continua sem saber sobre a validade de seus votos. Situação muito ruim.
Alexandre – Muito ruim, mas infelizmente parece que naturalizamos, no Brasil todo, a judicialização não apenas da política, mas das crises políticas e dos resultados eleitorais. Isso tem ocorrido nos três níveis federativos. Nesse caso, acho que o Brasil se tornou o espelho de Campos.
Erica – Como já disse na questão anterior, o Judiciário existe para cumprir a lei que não é construída por ele e sim pelo Legislativo. Nesse sentido, penso que ele deve sempre se ater à Constituição de 1988 e às demais legislações. Não vejo com bons olhos a politização nem do Judiciário, nem do MP.
Guiomar – Vejo a judicialização da política, não apenas no âmbito eleitoral, como um fenômeno da crise final da Nova República, do esgotamento do seu modus operandi traçado e levado às últimas consequências da velha forma de se fazer política. É frustrante esse processo. Nosso município, afirmado em pergunta anterior, é, segundo Vargas, “o espelho do Brasil”, não me estranha as constantes judicializações dos pleitos e dos candidatos eleitos já empossados. Repito, é frustrante a naturalização deste fenômeno. Como ainda o “novo não nasceu”… haja paciência histórica!
Marcio – A judicialização da política não é salutar, pois traz incertezas e esvazia a importância do sufrágio e da vontade popular. Porém, nesse caso específico não é por si só uma discussão política, mas muito mais técnica, que acaba por se revestir em última instância em uma discussão também de ideias, afinal os juízes não vivem apartados da sociedade.
Entre ontem, hoje e o amanhã, Campos, Wladimir, Caio e Rafael (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Folha – Como avalia as candidaturas de Wladimir e Caio? Quais são, em seu entender, a maior virtude e defeito de ambos? O que projeta para Campos no governo de um e do outro? Vê o risco de qualquer um deles, se eleito, sair da Prefeitura em 1º de janeiro de 2025 com tanta ou mais rejeição popular que Rafael? Se isso acontecer, o atual prefeito, que antes foi vereador de brilho na oposição, pode ser popularmente redimido?
Abraão – A futurologia é muito arriscada, por isso é mais fácil falar sobre o que já aconteceu ou sobre o que está acontecendo. Wladimir e Caio carregam nas costas o fardo de serem descendentes de famílias que fizeram administrações desastrosas de nossa cidade. Ao mesmo tempo, como aqueles foram tempos de fartura, suas famílias estiveram à frente do governo em tempos de melhores condições de assistência social, emprego e renda. O destaque que recebem decorre desses “tempos melhores”, ainda lembrados pela população. A questão é: serão eles capazes de promover o crescimento da cidade e do bem-estar social com os recursos atuais?
Alexandre – Acho que ambos possuem uma carga negativa de seus pais como administradores, políticos cassados, com problemas de gestões acusadas de fraude e corrupção. Quanto à virtude, no campo político, acho que Wladimir pode se orgulhar do ótimo desempenho que teve como deputado federal, inclusive ajudando Campos em diferentes momentos com verbas federais. Quanto ao Caio, não conheço, sinceramente, acerca de seu desempenho político. Projeto dificuldades para ambos, ante a falta de recursos que tanto prejudicou Rafael. Claro que podem sair desgastados, como podem sair consagrados por conseguirem contornar os problemas. Vão precisar buscar parcerias públicas e privadas, fazer surgirem receitas novas. Sobre Rafael Diniz, penso, sim, que sua história ainda não acabou como político de Campos, seu valor ainda pode ser reconhecido no futuro. Ele merece isso.
Erica – Acredito que ambos tenham qualidades pessoais e políticas, senão não chegariam onde chegaram. Mas, fazer política é administrar conflitos e escolher prioridades sobre onde utilizar o recurso público. Nesse sentido, penso que ambos podem resgatar os acertos do seu grupo político e deixar de lado a velha política clientelista que tanto machuca a cidadania. As pessoas rejeitam o clientelismo, mesmo tendo que recorrer a ele na ausência de políticas públicas universais. Eles querem ser tratados como cidadãos de direito e como protagonistas da vida pública. Penso que sempre é hora para começar a conduzir o governo local com a participação popular. Por que não?
Guiomar – As duas candidaturas têm gêneses de rompimento com o “coronelismo e personalismo de velho tipo”, portanto, se autoproclamavam o “novo e moderno” neste município. A História mostrou uma nova versão do populismo conservador e um escancaramento da apropriação privada da coisa pública. Ambos cresceram imersos nesta cultura. Por isso não tenho condições de falar das suas virtudes políticas, são frágeis as experiências de ambos. A não reeleição é sempre possível, e, nestes tempos de transição, se nada for feito de redistributivo na área social com ajuste fiscal, a “redenção” em 2025 passa a ser um cenário viável!
Marcio – A candidatura de Wladimir traz como grande peso e ao mesmo tempo benefício a trajetória de seus pais. Por si só o deputado federal representa um polo sadio ao tentar estabelecer um comportamento por vezes republicano, como no caso da emenda para a construção dos novos prédios da UFF-Campos, onde teve atitude suprapartidária. Por vezes seu destempero, como no caso da tentativa de agredir um cidadão que insultou seus pais, pode atrapalhar. Ou por ter faltado aos debates e não demonstrar compromisso cívico. Por sua vez, Caio Vianna também traz esse legado da família tradicional de Campos, o que também lhe prejudica e ao mesmo tempo beneficia ao ganhar votos por conta da herança. Mas também faltou aos debates e parece sempre agir na espreita ao tentar costurar apoios como do PSL e não parece fazer um debate público de peso e de grandes projetos. Ambos terão que se comportar com a grandeza e responsabilidade que o cargo exige e precisam amadurecer muito ainda. Por último, vejo poucas chances de Rafael Diniz ser redimido. Sua gestão ficará marcada na história como um traço negativo.
Campos, Abdu, Thuin, Caio e Wladimir (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Independente das pesquisas eleitorais, cuja Paraná, divulgada hoje (confira aqui), apontou a liderança de Caio Vianna (PDT, com 52,6% nas intenções dos votos válidos), em empate técnico com Wladimir Garotinho (PSD, 47,4%) na margem de erro de 3,5 pontos percentuais para mais ou menos, segue forte a disputa pelos apoios políticos entre os vereadores eleitos nas urnas de 15 de novembro. Na manhã de hoje, no programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, o vereador reeleito Abdu Neme (Avante), campeão de votos (5.574) na eleição proporcional goitacá, declarou (confira aqui) seu apoio a Caio. No início da tarde, o vereador eleito Raphael Thuin (PTB, 1.738 votos), ex-presidente da Fundação Municipal dos Esportes na gestão Rafael Diniz (Cidadania), declarou em vídeo seu apoio a Wladimir.
O representante do clã dos Garotinho na corrida pela Prefeitura de Campos agora soma o apoio de Thuin aos dos vereadores eleitos (confira aqui) Helinho Nahim (PTC, 2.171 votos), Rogério Matoso (DEM, 3.086 votos), Igor Pereira (SD, 3.271 votos), Silvinho Martins (MDB, 2.194 votos), do grupo do deputado estadual Rodrigo Bacellar (SD). Além do apoio do pastor Anderson de Matos (Republicanos), segundo mais votado, com 4.905 eleitores, do grupo da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). Confira abaixo as manifestações de apoio de Abdu, para Caio; e de Thuin, para Wladimir: