Sérgio revelou estar escrevendo um livro a seis mãos sobre o período inicial do garotismo, em que foi o segundo prefeito eleito pelo movimento, governando Campos entre 1993 e 1996. Seus parceiros no livro compuseram sua gestão, como tinham participado do primeiro governo municipal Garotinho, entre 1989 e 1992: o empresário, líder lojista e colunista da Folha, Murillo Dieguez; e o jornalista, servidor federal e advogado Ricardo André Vasconcelos. Os dois se mantiveram leais a Sérgio, quando Garotinho rompeu com quem elegeu prefeito, para voltar a ocupar ele mesmo a Prefeitura em 1997. E, no ano seguinte, se eleger governador.
Auge do movimento
Após governar o estado do Rio entre 1999 e 2002, Garotinho deixou o cargo para se lançar candidato a presidente da República. Chegou a ultrapassar Ciro Gomes (então, PPS) e ficar próximo a José Serra (PSDB), que fez e perdeu o segundo turno para Lula (PT), na primeira vez que este chegou ao poder. Apesar da derrota, o político da Lapa fez mais de 15 milhões de votos a presidente. E elegeu a esposa, Rosinha (então, PSB), governadora ainda no primeiro turno. Como o próprio Garotinho admitiu no Folha no Ar de sexta, foi o seu auge. Desde então, só conquistaria mais um mandato nas urnas, de deputado federal, em 2010.
“Página virada”?
O ex-prefeito reconheceu que Garotinho, se tiver condições jurídicas de se candidatar em 2022, não teria dificuldade eleitoral para voltar à Câmara Federal. Mas, em contraste com o auge que conheceu do ex-aliado transformado em desafeto, Sérgio destacou o presente: “O Folha no Ar tem duas horas? Garotinho passou 40 minutos explicando processos, prisões, se ele está elegível, se está inelegível. Antigamente, ele falava das suas realizações. Agora ele precisa, em toda a entrevista, levar quase metade explicando seus problemas na Justiça. Acho que é uma página virada. Garotinho deu uma contribuição à cidade, mas ele errou muito”.
A história da Uenf
Entre as afirmações de Garotinho que deverá contestar em seu livro com Murillo e Ricardo, Sérgio também refutou que o ex-governador seja o “pai” da Uenf. E, por conseguinte, da condição de polo universitário que Campos ganhou com a implantação do projeto do antropólogo Darcy Ribeiro. “Dia 7 de janeiro (de 1993), na primeira semana do meu governo, o professor Darcy veio a Campos. Ele me levou (à área onde está a Uenf) e falou: ‘prefeito, eu preciso que o senhor desaproprie aqui 500 mil metros quadrados. O governador Brizola vai construir a universidade, mas só se o senhor doar a área’”, lembrou Sérgio na Folha FM.
“Como era início de governo, fui a Garotinho, que estava saindo. Disse a ele o que Darcy queria, para saber se seria para valer. Sabe o que ele me disse? ‘Sérgio, não desapropria, que isso aí é devaneio de Darcy’. Eu fui à professora Ana Lúcia Boynard, que fazia essa interface do governo municipal na questão da universidade. E falei que Garotinho disse que não iria dar em nada. Ela me disse, lembro que com lágrimas nos olhos: ‘Prefeito, a universidade é a redenção de Campos e toda a região’. Naquele mesmo ano de 1993, desapropriei e doei a área. E, em agosto, o governador Brizola inaugurou a Uenf”, contou Sérgio ontem ao Folha no Ar.
Confira abaixo o vídeo do primeiro bloco da entrevista do ex-prefeito de Campos Sérgio Mendes ao Folha no Ar da manhã de ontem. Que em parte responde à entrevista do ex-governador Anthony Garotinho à Folha FM na sexta, e passa a limpo a história da Uenf e de Campos, do final dos anos 1980 ao presente:
Publicado hoje, na coluna Ponto Final, da Folha da Manhã.
A partir das 7h da manhã desta quarta (20), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é Helinho Nahim, empresário e vereador de Campos pelo PTC. Ele falará sobre o rompimento com o governo do primo Wladimir Garotinho (PSD), da vitória na não aprovação do Código Tributário e do IPTU. Falará também do seu compromisso pessoal com a aprovação das contas de 2016 da tia e ex-prefeita Rosinha Garotinho (Pros) e da eleição à Mesa Diretora da Câmara no próximo ano.
Por fim, Helinho dará sua projeção das eleições de 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
A partir das 7h da manhã desta terça, o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é Sérgio Mendes, ex-prefeito de Campos e coordenador do Cidadania no Norte Fluminense. Ele falará sobre o legado do seu governo, entre 1993 e 1996, e do processo de ruptura com o ex-governador Anthony Garotinho (sem partido), seu ex-aliado e que lhe dirigiu críticas no Folha no Ar da última sexta. Correligionário de Rafael Diniz, ele analisará a trajetória do também ex-prefeito, dos 151,4 mil votos de 2016 aos 13,5 mil que teve em 2020.
Por fim, Sérgio analisará o governo Wladimir Garotinho (PSD), além de dar sua projeção para as eleições de 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
“Valentes” contra uma mulher assassinada a tiros por milicianos, Rodrigo Amorim, com sua paixão estampada no peito, e Daniel Silveira sorriem enquanto quebram a placa de Marielle Franco
Por seus ataques contra mulheres vivas e mortas, Rodrigo Amorim ontem foi vaiado e expulso do bairro carioca de Santa Teresa. Ele acompanhava o governador Cláudio Castro (PL) no evento de lançamento do programa Bairro Seguro. O parlamentar bolsonarista tentou afrontar os manifestantes, mas foi obrigado a deixar o local acompanhado da polícia e sob vaias e gritos que o chamavam de “assassino”. No Twitter, o deputado disse que encontrou uma “matilha de maconheiros” e “zumbis”.
Amorim também tentou alegar que não foi expulso do espaço público: “Está pra nascer o homem que vai me expulsar de qualquer lugar nessa cidade. Não tem sujeito homem pra isso”. Bravatas à parte, o deputado parece não ter faltado integralmente com a verdade. Como o vídeo abaixo deixa claro, o “valente” bolsonarista não foi expulso de Santa Teresa por homens. Na verdade, foi enxotado por mulheres.
Morreu hoje Astor, dogo argentino branco, pirata pela mancha negra em seu olho esquerdo. Foi o cão mais belo, forte, bruto, agressivo com estranhos e carente de carinho com os da casa, que já vi em meus 49 anos de vida. Os últimos sete em sua companhia, em Atafona, onde foi enterrado e sempre morou desde que o escolhi já com uns seis meses, em canil dedicado à raça. Foi um presente da minha mãe, Diva, que ironicamente padece de cinofobia, o medo irracional de cachorros. Superado no ato de amor por seu filho mais velho, que adora cães.
O dogo argentino foi uma raça criada nos anos 1920 por dois irmãos argentinos, médicos e caçadores, da região de Córdoba, província da região dos pampas daquele país. Foi desenvolvida a partir da cruza seletiva entre outras raças, como o bull terrier, o mastim dos pirineus, o boxer, o pointer inglês, o dogue de bordeaux, o buldogue inglês, o dogue alemão (ou dinamarquês), o irish wolfhound e o cão de luta cordobês — esta, já extinta. O dogo foi feito para ser o cão de combate perfeito e para caça de animais de grande porte, como onças e javalis. Para abatê-los, o caçador não leva arma de fogo, mas um ou mais dogos.
Sob minha criação, Astor nunca combateu, nem caçou nada, além dos desafortunados gambás que cruzassem seu caminho no quintal de Atafona. Seu nome foi em homenagem ao músico Astor Piazzolla, gênio do bandoneón e espécie de Tom Jobim argentino. Que mesclou a melodia e o ritmo do tango com a harmonia do jazz, exatamente como seu par brasileiro fez com o samba. Como o cão, Piazzolla também se marcou pelo equilibro entre grande sensibilidade e explosões de fúria, seja na música, ou na vida.
Extremamente dominante com outros cães, mesmo rottweilers machos que, apesar de fortes, nunca lhe foram fisicamente parelhos, Astor era docilíssimo com as pessoas da casa. Mesmo crianças, como meu afilhado Aquiles, hoje com 12 anos, mas que sempre foi respeitado pelo titã canídeo, desde que tinha só 5 anos. O único porém de Astor era, quando ele estava solto e nós de pé, termos o cuidado de ficar com um à frente do outro, em base. Com os dois pés abertos lateralmente e distraído, se corria o risco de ser atirado no chão pelo fortíssimo e explosivo cão, em suas estabanadas demonstrações de afeto.
Sobretudo mais jovem, Astor também tinha um incômodo instinto destruidor. Certa vez, comeu os dois paralamas das rodas traseiras da minha picape. Fui aconselhado a passar pimenta malagueta nas partes externas do carro a que o cão tinha acesso. Fiz, mas o efeito foi ainda pior. Ele pareceu ter gostado do tempero e comeu o parachoque traseiro, de metal, e minha câmera de ré.
Astor também fazia coisas que nunca vi em nenhum outro cão. Comeu e derrubou uma árvore do quintal, demonstrando que sua boca era, literalmente, uma motosserra. E sobre o piso de cimento do quintal, seco há anos, deixou fincados os sulcos das suas garras. Se alguém me contasse isso, diria que era coisa de filme de terror de lobisomem. Mas as marcas das suas garras continuam impressas no piso de concreto, para evidenciar a realidade.
Atafona, 12 de junho de 2017 (Foto: Diomarcelo Pessanha)
Quando caminhávamos à beira-mar, com guia e enforcador, também ficavam patentes suas diferenças para os rottweilers. Tenho um macho, Bismarck, que mesmo sendo do mesmo tamanho de Astor, só faz força na parte inicial do trajeto. Mesmo se caminhássemos duas horas sob o sol e na areia, Astor continuava fazendo a mesma força, sem jamais baixar a tensão da guia, até voltar à casa. Não se cansava, ao contrário do ombro do seu condutor. Também tinha resistência impressionante à dor física. Uma vez, no veterinário, tomou pontos a seco, sem anestesia, como se nada fosse. Além da força, sua resistência e insensibilidade à dor eram características de um cão feito para matar onças e javalis a dentadas.
Apesar de tudo isso, Astor não foi páreo para o câncer que o matou. Como nenhum de nós é. Forte, grande e longilíneo, sempre disse que ele parecia um Muhammad Ali branco. Seu porte poderoso e altivo evocava a estátua grega de um cachorro. Se dogos argentinos existissem na Grécia Antiga de Fídias, tenho certeza que um hoje estaria imortalizado em mármore em algum museu, como estão os cavalos do escultor.
Escrevo diante da mesa da área externa de Atafona, sentado na mesma cadeira em que, tantas vezes, Astor enfiava sua cabeça poderosa de molosso em meu colo, pedindo carinho. E olho ao lado sua cova recém coberta, ao lado do buldogue francês Zidane, que tinha a mesma idade e também nos deixou precocemente neste ano de tantas perdas, ao Brasil e ao mundo.
Já tive vários cães. Três, os rottweilers Bismarck e Manfred, além do american bully Dempsey, estão nos canis, onde hoje Astor amanheceu morto. Os sobreviventes estão quietos. Acho que sentirão muita falta do macho alfa da matilha, que à noite lhes puxava o coro em uivos de lobo. Entre os cachorros que passaram por minha vida e os que ainda nela estão, tenho certeza que Astor foi um dos que mais me amou. Talvez ao lado dos rottweillers Rommel e Lutero, além do buldogue inglês Moe, todos também falecidos.
Atafona, 12 de junho de 2017 (Foto: Diomarcelo Pessanha)
Quem ama cães sabe que o amor deles, por quem escolhem como donos, é incondicional. Como o de um fiel a Deus. Mesmo um tão imperfeito como eu. Astor era diferente. Não só fisicamente, como em seu espírito que vive agora em mim, ele foi um cão perfeito.
Para lembrar de você, ouvirei minha música preferida nesta vida, “Adiós Nonino”, obra prima do seu xará que agora ganha ainda mais significado:
Folha traz Brasil e RJ a Campos. E, de Campos, fala ao mundo
Grupo Folha, Folha FM 98,3, Folha da Manhã. Folha1, Plena TV, Antonhy Garotinho, João Amoêdo, Fernando Gabeira, Vinicius Farah, Ciro Gomes, Marcelo Freixo, Alessandro Molon, Marina Silva, Rodrigo Neves, Paulo Ganime, Francisco Mamede de Britto Filho, Eduardo Paes, Cristovam Buarque, Cesar Maia, Cláudio Castro e Luiz Carlos Bresser-Pereira (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Ontem, o programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3 fechou a semana entrevistando Anthony Garotinho (sem partido). Pelo histórico de polarização entre o ex-governador do estado do Rio e ex-prefeito de Campos com o principal grupo de comunicação do município e do interior fluminense, a entrevista gerou muita expectativa. E teve grande audiência, como interação nas redes sociais.
Só não dá para saber se a entrevista de Garotinho superará outras em envolvimento. Já que o Folha no Ar tem levado semanalmente, aos ouvintes, telespectadores e leitores de Campos e região, encontros diretos com outros protagonistas da política do Brasil e do RJ. A com João Amoêdo (Novo), por exemplo, empresário e candidato a presidente da República em 2018, foi feita em 1º de outubro na Folha FM. E publicada dia 2 no jornal Folha da Manhã e no blog Opiniões, hospedado no Folha1. Onde registrou mais de 10 mil likes só no Facebook.
William Passos, geógrafo e consultor especializado em estatístca e desenvolvimento regional
São fatos que comprovam o processo de metrolopolização da Bacia de Campos, e o papel protagonista da região na encomia fluminense, alvos da tese de doutorado do geógrafo William Passos, consultor especializado em estatística e desenvolvimento regional. Que apontou as declarações de vários desses líderes políticos, ouvidos na série de entrevistas da Folha, ressaltando publicamente a importância política e econômica de Campos no estado do Rio. Seria a mera constatação, por parte deles, do que é projetado como irreversível no estudo do jovem acadêmico. Este, fruto do polo universitário em que se constituiu o município.
O êxito não é de um articulista. Mas do trabalho sério e sempre coletivo no qual se consiste o jornalismo. Ao trazer protagonistas do Brasil e do estado do Rio para falarem diretamente a Campos e região. E, ao falar a partir destas, é capaz de alcançar o mundo.
Circularam, no último fim de semana, ao menos duas falas barbarizantes de Marcelo Queiroga, ministro da Saúde e médico. E ressentido. É um governo de ressentidos. De ressentidos e oportunistas, não raro também incompetentes. Tudo previsível. Este perigo: o ressentido de súbito com — o que supõe ser — poder. O perigo: este tipo — o ressentido empoderado, ademais incompetente, um agente grato, mostrador de serviço — sob a gestão do bolsonarismo; sob o controle da máquina de genuflexão bolsonarista. E então as falas de Queiroga, previsíveis.
Numa, comparou a exigência do uso de máscaras — como medida de contenção da peste, um vírus transmitido por via aérea — ao de preservativos contra doenças sexualmente transmissíveis. Decerto se tendo por mui esperto, perguntou se, por esse motivo, deveríamos obrigar as pessoas a usar camisinha. Na outra, confrontado com a marca de 600 mil mortes, sentiu-se autorizado — estava irritadinho — a relativizar o volume: seriam, afinal, 380 mil os que morrem do coração anualmente no Brasil, outros muitos de câncer.
Terá faltado somente um “e daí?” — talvez um “não sou coveiro” — para que fosse Jair Bolsonaro absolutamente. Nunca será. Mas precisa — pode e deve — se esforçar. É estimulado a se esforçar, a se humilhar. Pelo poder. Estimulado — desafiado — a debulhar seu ressentimento. Pela existência.
Nunca será. Nunca terá. Mas não por falta de entrega. É o ciclo de uma submissão infinita, cuja humilhação jamais será o bastante. E que resulta em mortos-vivos. Mortos-vivos pelo poder. Mortos-vivos que se julgam com poder.
É a chance da vida. O homem, ressentido fundamental, luta por — ao mesmo tempo — existir e sobreviver. Não existe. Nem sobreviverá. Mas peleja. É a chance da vida do morto-vivo.
A rápida radicalização bolsonarista da linguagem de Queiroga demonstra como um indivíduo fraco — e deslumbrado pela cadeira — reage quando sob pressão. Nunca será um bolsonarista puro-sangue. Jamais um admitido. Será sempre um útil perseguidor da condição de aceito no bolsonarismo, o que equivalerá a ser algo — a continuar ministro. Uau! O que equivale a descartável.
Nunca será, mas por que não iludi-lo, manipulá-lo? Por que não iludi-lo — atraí-lo — com a oferta de perenidade do que pensa lhe dar existência?
A estrutura do jogo de subjugação tem fartos exemplos de dinâmica. Na semana passada, a rádio CBN, por meio dos repórteres Cézar Feitosa e Isa Stacciarini, informou que o chefe de gabinete do ministro da Saúde acusava Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho no ministério (na prática, a divulgadora-mor da cloroquina desde dentro da pasta), de conspirar — em parceria com Onyx Lorenzoni, o ministério de si mesmo — para derrubar Queiroga; alguém cujo poder, pelo qual vai apaixonado, nem sequer o alça a lugar de conseguir demitir a subordinada.
Fraco e dependente do cargo, refém do cargo, para ser alguém, para ser alguém e ao mesmo tempo sobreviver sendo o que é, ao ministro só restou — só resta — se defender radicalizando. Padrão. E então o vimos, de novo segundo reportagem de Feitosa, mobilizar-se, sob ordem de Bolsonaro, para que a Conitec alterasse a pauta de sua reunião e não analisasse — não votasse a favor de — um relatório que se manifesta contrariamente ao tratamento precoce.
Assim será doravante, até a lata de lixo em que o chefe o jogará. Para quê? Para ser ministro, mais um cavalo do presidente. Para ser nada; para sobreviver — até o descarte — sendo o que é. Nem sequer um Onyx, cuja radicalização — a inexistência — mira o governo do Rio Grande do Sul. O que mira Queiroga? Ser, acima de Pazuello, o ministro da Saúde de Jair Bolsonaro?
À pressão bolsonarista, carga por submissão total, reage Queiroga com mais demonstrações de bolsonarismo. Chamado de vacinista, acusado de vacilante em defender a queda das máscaras, o ministro da Saúde, médico e ressentido, mais ressentido que médico, produz e multiplica, em busca de pontos no mercado interno reacionário, a oferta de dedos médios à população brasileira, conforme visto em Nova York.
Quer existir. Mal sobrevive.
O sujeito não seria — jamais será — suficientemente bolsonarista, por isso tem a cabeça pedida, porque nunca será suficientemente bolsonarista; e a isso, a esse desafio, responde, porque quer provar que pode, com mais bolsonarismo, e não pode; e por isso perderá a cabeça, cedo ou tarde, de qualquer modo. Os dedos ficarão. Eis o ciclo.
Não existe. Não sobreviverá. Neste governo captador de moralidades corrompidas: é entrar e então morrer.
Queiroga: o ressentido consciente de que só poderia chegar a ministro num governo disfuncional como o de Bolsonaro; e que, sob pressão para inexistir ainda mais, consciente de que sua permanência — que toma por existência — dependerá de se extremar, radicaliza na linguagem progressivamente, para agradar ao chefe e a seus sectários. Para sobreviver, o morto-vivo. É uma descida sem fim.
Entrar e então morrer. Na história: Marcelo Queiroga, o ministro da Saúde de Bolsonaro.
Ana Costa, pela UFF-Campos; Jefferson Manhães de Azevedo, pelo IFF; e Raul Palacio, pela Uenf, foram convocados pelo deputado Chico D’Ângelo ao debate sobre a metropolização da região da Bacia de Campos (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
— Em função da complexidade desse debate sobre a metropolização e a reprodução do espaço no mundo contemporâneo em que ocorre o aprofundamento da contradição entre o processo de produção social do espaço e sua apropriação privada; momento em que os processos de trabalho e das condições de vida das pessoas são muito precarizados, necessário se faz ampliar esse debate, junto às universidades, faculdades e demais instituições de pesquisa, movimentos populares, sindicais e setores da sociedade que pensam e se envolvem, no sentido da redução das desigualdades e injustiças sociais, como apontou o deputado Chico D’Ângelo. O volume e a forma de incorporação de novas áreas pelos grandes projetos mostram como a terra ainda é um dos recursos naturais fundamentais de apropriação privada com fins de acumulação — ressaltou Ana Costa, diretora da UFF-Campos.
— Sabemos que esse processo de metropolização pode trazer consequências danosas para nossa região, tais como a urbanização descontrolada e a falta de infraestrutura e equipamentos públicos para a população, problemas de impactos ambientais, entre outros. Nesse sentido, temos que nos organizar para pensarmos, planejarmos e criarmos soluções para os diversos problemas que possam surgir. Todos os atores que compõem a chamada Bacia de Campos, o parque universitário de toda a região, os poderes públicos locais, as entidades classistas e as da sociedade civil organizada, deverão participar desse grande debate. Que, em defesa da região, deve ser inclusivo, sem acentuar a exclusão já exacerbada. O compromisso do IFF é o de colaborar para minimizar, pelo diálogo, os efeitos negativos; bem como maximizar as oportunidades desse fenômeno que, ao que tudo indica, é irreversível — projetou Jefferson Manhães de Azevedo, reitor do IFF.
— Temos que diferenciar entre crescimento e desenvolvimento. O crescimento metropolitano será uma realidade. Mas esse crescimento será no sentido do desenvolvimento sustentável, com aumento da qualidade de vida e criando um forte capital social? Para desenvolver, precisamos que sejam implementadas políticas públicas que tenham como figura central a liberdade do ser humano. O deputado Chico D’Ângelo está certo, pois a participação das universidades é fundamental. Só a modo de exemplo, na sexta, estávamos, representantes da Uenf, UFF, IFF e o presidente da Câmara Municipal (vereador Fábio Ribeiro, do PSD, que também já se posicinou ao blog sobre o processo de metropolização da região da Bacia de Campos), trabalhando na solução do assentamento Cícero Guedes e as necessidades das suas 260 famílias. Deixar o crescimento à espontaneidade do momento vai piorar a desordem que já temos hoje. Onde o sono dos moradores da Pelinca é atrapalhado pelo som que vem dos bares — exemplificou Raul Palacio, reitor da Uenf.
O que mais tornaria Bolsonaro “inaceitável” e Lula “indesejável”? A incapacidade de ambos de criar maiorias legítimas no Congresso é patente. Lula assumiu à frente de um partido forte que fundou, o PT, querendo distância do PMDB, que em 2002 representava a política fisiológica, a ponto de ter vetado um acordo do então poderoso José Dirceu com o partido.
Já Bolsonaro assumiu levando um partido nanico, o PSL, a ser a maior bancada da Câmara, querendo impor seu voluntarismo aos partidos políticos. Acabou se entregando de corpo e alma ao Centrão, e hoje é seu refém. Lula resolveu comprar o apoio dos partidos, para que não atrapalhassem seu governo. Deu no mensalão e no petrolão.
Apesar desses ataques à democracia representativa, Lula entende melhor a democracia do que Bolsonaro, que a rejeita. Mas o ex-presidente tem compreensão maior pelas ditaduras de esquerda, enquanto Bolsonaro gosta das de direita. A política externa brasileira saiu fortalecida nos governos petistas, embora tivesse um viés esquerdista que a limitava e distorcia. A agenda do meio-ambiente, por exemplo, foi exemplar até que a ministra Marina Silva pediu demissão justamente pela tendência do governo de aceitar uma visão desenvolvimentista do então ministro Mangabeira Unger e da chefe do gabinete civil, Dilma Rousseff.
A política externa de Bolsonaro é um desastre completo, tornando o país um pária internacional, especialmente na área de meio-ambiente, a agenda internacional mais importante no momento. Não há dúvida de que se Lula estivesse no governo durante a pandemia, a teríamos enfrentado com mais eficiência e humanismo, com um presidente que tentaria unir o povo no momento dramático que vivemos. Temos hoje um governo inoperante, insensível e envolvido em corrupção na compra de vacinas e equipamentos médicos em plena pandemia.
O aparelhamento do Estado foi tão forte nos governos do PT quanto está sendo agora no bolsonarismo. Como a visão cultural e humanista é mais contemporânea no lulismo do que no bolsonarismo, o país viveu período mais dinâmico e criativo sob Lula. Hoje, há uma política de desmonte cultural.
A intervenção governamental, no entanto, foi tentada diversas vezes, e de diversas formas, no petismo, com uma política de financiamento estatal considerada na ocasião como de “dirigismo cultural”, ou quando tentou, de várias maneiras, instituir o chamado “controle social da mídia”, sinônimo de controle governamental da informação, que, aliás, Lula ameaça retomar se eleito. Bolsonaro é menos sutil, quer simplesmente acabar com os órgãos independentes.
Na questão de valores, os governos petistas foram sempre mais próximos do que é consensual no mundo ocidental, enquanto Bolsonaro defende valores retrógrados e reacionários, fazendo o país regredir nos costumes. O populismo econômico teve seu lugar no segundo governo Lula, e seu ápice no último ano, quando a economia cresceu artificialmente a 7,5% para eleger Dilma sua sucessora. Daí para a debacle econômica foi uma tendência inevitável, até que Mantega resolveu adotar “a nova matriz econômica”, levando o país à bancarrota. O desgoverno Bolsonaro vai pelo mesmo caminho.
Em 2018, o receio de que o PT voltasse ao poder fez com que a votação de Bolsonaro inchasse circunstancialmente. Entre outros, havia o receio de que a vitória petista significasse o fim do combate à corrupção e a desmoralização da Justiça. Foi o que aconteceu, no entanto, no governo Bolsonaro. Hoje, Centrão, petistas, bolsonaristas estão todos unidos no desmonte da estrutura de combate à corrupção organizada depois da descoberta do mensalão e do petrolão. Situação inaceitável e indesejável.
Edmundo Siqueira, servidor do Banco do Brasil; Aluysio Abreu Barbosa, jornalista; Hanania Monjin, advogado; e João Monteiro Pessôa, professor de História do IFF-Guarus (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Reflexo de Picasso no copo de cerveja
Por Edmundo Siqueira, Aluysio Abreu Barbosa, Hanania Monjin e João Monteiro Pessôa
— E fusão do DEM com PSL na quarta? Escolheram o número 44, do PRP, e o nome de União Brasil para a nova sigla. Fundador do PRP em 1945, quando o nazifascismo foi derrotado na 2ª Guerra, Plínio Salgado tinha fundado o integralismo no Brasil dos anos 1930, inspirado no nazismo e no fascismo. Com direito até a encontro com Mussolini. O símbolo do movimento integralista é o Sigma, que significa soma, união. Para virar integralista, só faltam as camisas verdes ao tal União Brasil? — questionou Eduardo, antes de molhar o verde da palavra com o líquido amarelo da cerveja, em cruza “patriótica” involuntária na mesa do bar.
Ao centro, Plínio Salgado em manifestação “patriótica” do integralismo, no Brasil dos anos 1930
— Acho forçosa essa sua analogia da fusão entre DEM e PSL com os integralistas. Que tiveram 17 integrantes mortos no tiroteio, com outras centenas de feridos, na praça do Santíssimo Salvador. Era 15 de agosto de agosto 1937, vermelho de sangue na história goitacá. O PSL serviu para a vitória em 2018 do clã Bolsonaro, que saiu da legenda numa briga mesquinha pelo fundo partidário. Mas a sua analogia com os “galinhas verdes” se prestaria mais aos dois arregos públicos de Bolsonaro, após sua tentativa desastrada de golpe no 7 de setembro — respondeu Aníbal, não sem disfarçar o riso, enquanto tomava um gole de cerveja. E lembrava da imitação do Marcelo Adnet do áudio de um Bolsonaro acovardado, suplicando que os caminhoneiros bolsonaristas liberassem as estradas fechadas após os protestos bolsonaristas.
— Mas o DEM nasceu da Arena, partido que sustentou a ditadura militar brasileira. Com a redemocratização, passou a se chamar PFL. E, nos anos 2000, DEM — argumentou Eduardo.
— E, entre Arena e PFL, também foi PDS até a eleição de Tancredo a presidente, pelo Colégio Eleitoral em 1985. Hoje, a fusão visa abrir vantagem sobre o PSD de Kassab, Eduardo Paes e Wladimir, formando a legenda de maior força na direita e centro-direita do país. Que terá três alternativas na eleição presidencial de 2022. Uma é apoiar Bolsonaro, cuja reeleição hoje seria matematicamente impossível. Como pode ser encarnar ou apoiar uma opção da terceira via, que não Ciro. A última opção não é ruim. Será a maior força de oposição no Congresso a Lula, caso ele chegue de novo ao poder, como apontam todas as pesquisas. Neste caso, o petista pode ter cobrada a fatura de quando era presidente e disse em comício para eleger Dilma em 2010: “Precisamos extirpar o DEM da política brasileira” — lembrou Aníbal.
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— Estou estudando o tema integralismo e pode ser que eu tenha forçado a analogia, Aníbal. Mas faço a ressalva que não se trata de comparar, pelo menos por enquanto, um movimento e outro. Mas foi irresistível a comparação quando eles escolhem o número do PRP e, principalmente, União Brasil como novo nome. Além do DEM ter um histórico ligado à ditadura. Se for um bloco de direita e centro-direita, ótimo, nada mais saudável à democracia. Mas se apoiarem Bolsonaro, mesmo em um eventual segundo turno, se aliarão a um protofascismo muito próximo do integralismo, evidenciado no “Deus, Pátria e Família” e em tantas outras semelhanças nefastas — sustentou Eduardo.
— Já que vocês estão falando de integralismo e nazifascismo, e como é que ficam essas matérias sobre a operação da polícia que prendeu um pedófilo no Rio, na terça? Todas vêm repetindo que as SS eram uma tropa paramilitar ligada ao Partido Nazista. Eu acho que essa definição cabia às SA. Que foram desmobilizadas por ordem de Hitler. As SS, em muitos sentidos, deram origem às tropas de elite das Forças Armadas depois da 2ª Guerra — entrou no papo Hans, que tinha acabado de chegar e sentar à mesa do bar.
— A SS cumpria múltiplas funções na Alemanha Nazista. Era a polícia política com a Gestapo, controlava os campos de concentração e também tinha as unidades militares, as Waffen-SS. E a qualidade dessas tropas era bastante heterogênea. Nas mais de 50 divisões da Waffen-SS, só um punhado se encaixa como tropa de elite. A maioria era de tropas paramilitares, mal treinadas e armadas, compostas por homens mais velhos ou adolescentes. Era uma organização separada da estrutura regular das forças armadas alemães, e subordinada diretamente ao Partido Nazista. Era como a SA, só em maior escala. A semente das atuais forças especiais, nos dois lados da 2ª Guerra, eram as forças de elite aerotransportadas. Na Alemanha, os paraquedistas do exército. Nos Aliados, a famosa SAS britânica — disse Jean, que completara o quarto lugar na mesa do bar. E já entrou em campo fazendo embaixadinha.
— Você está certo nisso, mas existiam comandos especiais da Waffen-SS que também podem ser incluídos aí, em especial a tropa comandada por Otto Skorzeny — armou Hans sua Linha Maginot na defesa da área.
Tenente-coronel da SS Otto Skorzeny, homem de ação preferido de Adolf Hitler
— Skorzeny era da SS, mas paraquedista. E me referi à própria Waffen-SS, cuja maioria das unidades foi formada após 1943, quando a Alemanha já sofria déficit de homens aptos ao serviço militar. Curioso é que cerca de 250 mil prisioneiros de guerra soviéticos acabaram fazendo parte dos efetivos da Waffen-SS, por conta dessa carência de soldados — explicou Jean.
— Li em algum lugar que as Waffen-SS eram as tropas alemãs com maior número de estrangeiros voluntários. Eram muitos franceses, nórdicos em geral, holandeses e belgas, fora os espanhóis que migraram em peso. Se não me engano, até tropas indianas eles tinham — globalizou Hans, antes de molhar a garganta com cerveja.
— Verdade, e algumas das melhores unidades eram compostas por esses estrangeiros. Outro fato curioso, a última unidade combatendo pelos nazistas na batalha de Berlim foi a divisão Carlos Magno, composta por franceses. A realidade às vezes é mais improvável do que qualquer ficção — vaticinou Jean, batendo continência com o copo à boca, em gole longo.
(Clique na imagem e assista ao documentário “O Homem Mais Perigoso da Europa: Otto Skorzeny na Espanha”, na Netflix)
— O Otto Skorzeny era oficial da SS e considerado pelos EUA o homem mais perigoso da Europa. Ele ganhou fama por salvar Mussolini. Está rolando na Netflix um bom documentário espanhol sobre sua vida. Relata a Espanha de Franco, aliado de Hitler que sobreviveu à queda do nazismo e abrigou o nazista Skorzeny, onde ele fez fortuna e trabalhou para o Mossad, serviço secreto de Israel — retornou Eduardo ao papo.
— Ia indicar o filme da Netflix quando o Hans citou o tenente-coronel da SS Otto Skorzeny. Mas sua blitzkrieg, Eduardo, foi mais rápida. Também assisti. Mesmo a quem já acumulou alguma leitura sobre a 2ª Guerra, o documentário é capaz de ensinar coisas novas. Inclusive que o homem de ação favorito de Hitler, que resgatou Mussolini dos Apeninos, mesmo se mantendo um nazista orgulhoso e convicto depois da II Guerra, seria colaborador do Mossad, para proteger Israel. É como sentenciou o Jean: “A realidade às vezes é mais improvável que qualquer ficção” — endossou Aníbal, também de volta ao jogo.
— Eu assisti. É muito bom. Também li o livro dele. Tem uma passagem sobre como Skorzeny meio que assumiu o controle da capital Berlim e frustrou os planos da resistência alemã, no episódio do atentado a Hitler — complementou Hans.
— E Skorzeny aliado ao Mossad, para resguardar Israel do Egito, me fez lembrar que o DEM, após pular fora da ditadura para dar sustentação à eleição de Tancredo em 1985, substituiu este por morte no desastroso governo Sarney. O DEM depois comporia chapa com FHC em seus governos, os primeiros sociais-democratas do Brasil. Como também seriam os de Lula. Os dois sob os mesmos princípios macroeconômicos do liberalismo. O diabo, certamente, não são os outros — finalizou Aníbal, enquanto encarava seu reflexo de Picasso no copo de cerveja.
Com Arnaldo Neto, Cláudio Nogueira e Matheus Berriel
“Bolsonaro se apresenta como uma nostalgia do período militar (…) Lula tem falado muito na necessidade de voltar àqueles bons tempos em que ele era presidente da República. Na minha opinião pessoal, não existe nem volta ao período militar, como Bolsonaro sonha, nem existe volta aos bons tempos com os quais o Lula sonha. São, na verdade, duas nostalgias”. No Folha no Ar da manhã de ontem, na Folha FM 98,3, foi a avaliação que Fernando Gabeira, jornalista da Globo News e deputado federal por quatro mandatos consecutivos, fez do atual presidente da República e do seu antecessor. Ambos favoritos em todas as pesquisas presidenciais às urnas de 2022, daqui a menos de um ano. Defensor de uma opção “olhando para frente, para um projeto de futuro do Brasil”, o ex-candidato a presidente pelo PV na eleição de 1989 acha que o caminho para a terceira via é apostar na decadência popular de Bolsonaro, que “não chegou ainda ao seu limite”. Gabeira também falou sobre jornalismo, fake news, crise econômica do país, meio ambiente, crise hídrica, energias alternativas, pandemia e CPI da Covid, que considera estar cumprindo seu papel, ainda que não acredite no impeachment do atual ocupante do Palácio do Planalto, enquanto Arthur Lira (PP/AL) ocupar a presidência da Câmara Federal. Gabeira também analisou pragmaticamente, mesmo admitindo relativo desinteresse, a disputa do governo do estado do Rio.
(Foto: Divulgação)
Jornalismo sob ataque – Trata-se não só de um problema brasileiro, mas um problema que aconteceu também nos Estados Unidos, com características muito semelhantes à nossa quando surgiu o Donald Trump. São candidatos de extrema direita, com uma visão muito especial e que precisam, de uma certa maneira, se colocar artificialmente. É uma colocação especial contra o sistema. Então eles chamam de sistema não só o sistema político ou as instituições, como também a grande imprensa. Eles precisam se colocar como vítimas da grande imprensa e precisam utilizá-la também como um instrumento de trabalho. Como eles utilizam como instrumento de trabalho? Dizendo barbaridades, fazendo provocações, ainda que sejam aparentemente absurdas, mas eles se colocam numa situação em que forçam a grande mídia a falar deles. Existe essa preocupação permanente de criar esse conflito com a grande imprensa, porque esse conflito é um conflito que interessa a eles. Ao mesmo tempo, eles procuram estabelecer um sistema de informação próprio, que são as bolhas onde eles circulam, e tratam de apresentar as notícias, às vezes e quase sempre, de uma forma muito parcial. Portanto, é uma tática utilizada por ele, copiada do Trump nos Estados Unidos, que só foi e é possível com o advento da internet, com a possibilidade de você criar canais próprios, se colocar como vítima da imprensa, falar o que quiser nos seus canais e utilizar a grande imprensa como um mecanismo de provocação para que o seu nome continue sendo difundido.
Reação – Evidentemente, esta tentativa, tanto do Trump quanto do Bolsonaro, sofreu alguns problemas com o advento da pandemia. Foi necessário, de uma certa maneira, acreditar na imprensa, que prestou um serviço extraordinário, e a imprensa se colocando também como aliada da ciência. Imprensa e ciência se colocaram de uma forma mais ou menos uniforme, integrada, compacta, oferecendo uma interpretação da pandemia e indicações para sobreviver à pandemia, que é entrar em confronto, lá nos Estados Unidos, com a primeira visão inicial negacionista do Trump, não era tão forte, e com a visão negacionista do Bolsonaro aqui no Brasil. Então, você teve: de um lado, o Trump foi derrotado nas eleições americanas praticamente por isso também, é um grande fator na derrota dele. Outro elemento dessa tática é o descredenciamento, que é deslegitimação das eleições. Nos Estados Unidos, esse processo passou por uma denúncia de fraude nas eleições a partir dos votos pelo correio. Aqui no Brasil, a deslegitimação foi tentada a partir de um questionamento dos votos eletrônicos, mas ambas com a mesma intenção de se posicionar, em caso de derrota, com uma denúncia mais ou menos estabelecida de que as eleições foram fraudulentas.
Fake news – Eu diria que é uma coisa até mais longa na história da humanidade. Você vê que eu fui candidato no Rio de Janeiro, e eles faziam panfletos, fizeram um milhão de panfletos dizendo que eu ia acabar com o feriado de Nossa Senhora, umas coisas desse tipo. Existe um livro de um grande intelectual alemão, Hans Magnus Enzensberger, que chama “Política e crime”. Então, ele levanta, ao longo da história da humanidade, a quantidade de governos que caíram por causa de boatos. Os boatos eram, na Idade Antiga, as fake news de hoje: eram informações falsas que corriam de boca em boca em certos momentos, até derrubarem o governo. Quer dizer, é uma tática antiga, mas que foi evidentemente potencializada pela internet. Por quê? Primeiro, porque a internet multiplica essas informações. Segundo, porque, através da internet também, você pode criar bolhas em que as pessoas vivem encerradas e só acreditam naquelas informações que saem de determinadas fontes. Então, você pode ter uma bolha de pessoas que acreditam que a Terra é plana e recebem informações fortalecendo a sua convicção de que a Terra é plana. Todas as notícias que vêm para elas são notícias dentro do contexto e da visão de um mundo, segundo qual a Terra é plana.
Futuro do jornalismo – Essa destruição das fake news foi uma espécie de necessidade. Mas, dentro do jornalismo, da indústria jornalística, sempre se dedicou uma parte do orçamento para justificar as notícias que se publica. Há empresas jornalísticas do mundo que produzem notícias e gastam 30% do seu orçamento de produção das notícias só na checagem. Então, esse trabalho de checagem é um trabalho específico da indústria que dá a ela mais respeitabilidade, porque, para você ganhar, de uma certa maneira, a confiança de tomadores de decisão, tanto no campo econômico como no campo político, você precisa ter informações checadas na base. Portanto, esse trabalho de desfazer as fake news é apenas um trabalho secundário. O principal é o trabalho que a imprensa utiliza para checar as suas próprias notícias, para evitar que as próprias notícias não sejam falsas, a ponto de as pessoas, com o tempo, passarem a confiar naqueles organismos que publicam notícias verdadeiras.
Aliança com a ciência – No caso da pandemia, foi preciso definir qual é o campo em que você vai atuar. Se nós vamos tratar de uma pandemia, qual é o nosso aliado? Qual é a nossa fonte? A fonte é a ciência. São cientistas. Então, vamos estabelecer com eles uma associação e vamos tentar popularizar e divulgar as teses científicas reconhecidas e aprovadas na pandemia. Eu acho que o futuro do jornalismo ficou bastante evidenciado aí, também na necessidade de você, cada vez mais, se associar àquelas fontes que são fontes legítimas e poderosas em cada tema, para poder continuar ganhando a confiança das pessoas. Se você examinar bem, a produção da notícia custa dinheiro. Fazer a notícia custa dinheiro. Eu estou aqui fazendo um trabalho sobre a crise hídrica, mas estou consumindo, usando um hotel, num quarto de um hotel, eu almoço, alugo carro, e isso tudo é importante. De um modo geral, grande parte dos comentários da internet são a partir de notícias que nós produzimos, que a empresa produz.
Crise econômica do Brasil – Nós já estávamos com dificuldades econômicas no Brasil antes da pandemia. Que, de uma certa maneira, aprofundou bastante essa crise. Ela reduziu a atividade econômica, ela aumentou o número de desempregados, ela inibiu o investimento, e nós tivemos o comportamento do presidente da República também muito negativo em relação a isso. Ele hesitou em iniciar o processo de vacinação, a compra das vacinas.
Alternativa ambiental – Quando você olha a crise econômica também em outros países, quase todos eles, pelo menos os países europeus, eles procuram determinar algumas linhas para sair dela. Uma das linhas que a Europa define, e que poderia estar presente no Brasil, é a compreensão da importância do meio ambiente. Na Europa, um dos pontos da retomada é exatamente a retomada verde. E o Brasil está, nessas circunstâncias históricas, diante de um mundo que vê a questão ambiental de uma outra maneira. Ela está presente na agenda dos principais líderes mundiais, inclusive no programa do Biden. Ela um ponto decisivo, ela está presente na Europa, ela está presente no plano quinquenal chinês, em 10 dos 13 pontos. E o Brasil, como potência ambiental, deveria estar exatamente compreendendo que grande parte do seu potencial está exatamente em valorizar a natureza e utilizar esse instrumento para projetos de crescimento. Mas, o que o governo brasileiro faz? Ele ainda está ancorado numa visão de crescimento antiga, que não se inibe na destruição do meio ambiente. E, com isso, afasta investimento. As empresas, hoje, são regidas por uma linha de trabalho chamado ESG (Environmental, Social and corporate Governance, ou melhores práticas ambientais, sociais e de governança). Os fundos de pensão passam a ser muito cobrados nos investimentos se eles escapam dessa compreensão da importância do meio ambiente. Então, você tem grandes países do mundo colocando o meio ambiente como o centro da sua agenda. Você tem as empresas internacionais determinando que o meio ambiente é muito importante.
Brasil dá as costas ao mundo – O Brasil dá as costas para essas possibilidades. A primeira decisão do presidente da República foi uma decisão de romper com um fundo amazônico da Noruega e da Alemanha, que era um investimento a fundo perdido, exatamente para proteger a Amazônia, exatamente para dar condições de você proteger a Amazônia. E, nesse contexto, o Brasil poderia avançar até para poder tirar algum proveito do carbono que a própria Amazônia consegue reter, e também tirar proveito da possibilidade de explorações científicas da floresta, de unir o conhecimento à floresta e de buscar daí os caminhos também de crescimento. O governo brasileiro dá as costas para isso. Essa é uma visão tão estreita, que dificulta a retomada a ponto de você ter, por exemplo, um leilão, como o leilão de petróleo desta semana, que foi um fracasso. Você vai leiloar áreas ambientalmente sensíveis, não há mais empresa internacional que queira investir nisso, entende? Então, é uma é uma contradição entre a visão do Governo e a visão da realidade mundial.
Gasolina a R$ 7,00 o litro – Compreendo o sentimento de indignação com o preço da gasolina, mas não é um mecanismo que a gente possa controlar com facilidade. Não só a gasolina é cara, como ela é extremamente cara para o nosso futuro. Ela é um combustível condenado historicamente. Então, nós vemos hoje, por exemplo, que o Brasil já deveria ter avançado numa série de campos que ficaram para trás. As nossas fábricas de automóvel, como a Ford, foram embora porque não compreenderam que está havendo uma mudança ao elétrico. Com todo o mundo em modificação, o Brasil tinha que perceber e tentar se adaptar a ele. Existe agora um esforço de baixar a gasolina por intervenção do governo. Eu acho que conseguir com redução de imposto, tudo muito bem, mas eu acho que você criar um fundo para financiar a gasolina, acho que vai acabar entrando numa luta contra um adversário mais forte do que os governos podem imaginar, entende? Porque eles não têm recursos para segurar uma situação internacional desse tipo internamente, eles não conseguem segurar esse ponto.
Brasileiros passando fome – É preciso que haja realmente uma política decidida sobre a fome, é preciso reconhecer isso e ter uma política decidida sobre isso. Agora, para isso, também é preciso liberar recurso. Você vê o que se passou na pandemia: milhares e milhares de pessoas desempregadas, 14,5 milhões. Mas você viu algum nível de sacrifício que o Estado resolveu fazer, algum nível de admissão entre governadores, deputados, senadores, juízes, desembargadores de reduzir uma parcela do seu salário nessas circunstâncias? Você não viu. Nem falam nisso. E, na verdade, era preciso uma resposta nacional solidária para esse tipo de situação que a gente viveu. Você viu na sociedade, sim, alguns movimentos, mas veio de baixo para cima. De cima para baixo, não houve nenhum gesto de solidariedade. Eles continuam se comportando como se nada tivesse acontecido. Então, eu acho muito difícil, diante de um mundo em transição, diante de uma pandemia com essas dimensões, e as pessoas continuarem achando no poder que tudo será como antes, que houve apenas uma interrupçãozinha porque passou um vírus por aí.
Discurso de Bolsonaro em setembro na ONU – A passagem dele pela ONU foi uma passagem em que ele se transformou para o mundo numa figura exótica. A credibilidade nacional, no que depender dele, ficou muito abalado. Os investimentos, no meu entender, tendem a cair também, porque ele não somente mentiu, não, ele foi também o dínamo de uma instabilidade muito grande no país. Então, é difícil você pensar em investir num país onde há perigo de um golpe, onde o presidente participa de manifestações em que se fala de intervenção militar. Todos eles sentem a instabilidade no ar. Então, esse discurso dele na ONU marcou uma situação muito difícil, porque você já tem a questão ambiental, que isolou muito o país, e acrescentou uma outra questão, que é a questão da pandemia. Ele rompeu o código de honra da ONU, ele foi o único não vacinado a participar do encontro. Ele desafiou, praticamente, a perspectiva da vacinação. E ele se transformou também num símbolo internacional do negacionismo. Então, embora o Brasil tenha avançado no nível da vacinação, independente dele, tem avançado, mas como é que você pode também acreditar num país liderado uma pessoa que nega duas realidades acachapantes? Uma é a pandemia, que só no Brasil já matou 600 mil pessoas, e outra é o aquecimento global, que é um ponto de referência dos eventos extremos (na natureza) que estão produzindo grandes estragos no mundo. Se você parte da negação de dois fenômenos dessa natureza, quem que vai acreditar em você para investir no seu país? É um país em que a liderança nacional está afastada das realidades mais elementares, em um universo próprio, entende? Um universo paralelo.
Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã
Crise hídrica – Quando você observa o Brasil no conjunto, o país está secando. Em três décadas nós perdemos 15,9% da nossa superfície de água. O Pantanal perdeu 29% das águas. Então, tudo isso mostra que nós estamos vivendo um processo cada vez mais difícil. E isso se acrescenta também ou é potencializado pelo fenômeno do aquecimento global. Então, o Brasil precisa se adaptar a essa nova situação. Por isso que eu estou tentando até evitar esse conceito de seca, e tentando trabalhar com conceito mais de estiagem, não é um relâmpago no céu azul. Quando a gente fala em seca, se chover, resolve. Não resolve mais. E até pode chover, tem chovido, mas não está chovendo mais o necessário. Então, eu acho que, primeiro aspecto, a gente tem que tentar romper um pouco a dependência da produção de energia hidrelétrica. A gente tem que avançar um pouco mais na eólica, na solar, em todas as formas de energia chamadas alternativas. Na eólica, por exemplo, o Nordeste hoje não tem grandes problemas energéticos, porque grande parte da matriz no Nordeste já foi alterada. O outro aspecto fundamental é: nós vamos aceitar perder a nossa água? O que nós vamos fazer com as nascentes? Vamos protegê-las ou deixar que elas continuem sendo destruídas? O que nós vamos fazer com as matas ciliares? Nós vamos protegê-las, replantá-las ou deixar que elas não existam mais? Isso tudo precipita o caminho do país para um deserto. Não no deserto completo, mas um país já empobrecido em recursos hídricos. E você sabe que sem a água, além do problema essencial que nós temos de energia, outros setores da economia vão degringolar. Por exemplo, a agricultura, que depende enormemente da água. É preciso mudar completamente o comportamento em relação à defesa das nascentes, à proteção, a um consumo mais racional, entende? O governo foi incapaz de fazer campanhas para consumo mais racional da água. Você pode até chegar ao racionamento, mas em São Paulo já se começa a ver desabastecimento. E o que o Bolsonaro fez foi dizer: “Não tomem banho de chuveiro quente”. Ou então: “Não andem de elevador, andem de escada”.
Termelétrica GNA no Porto do Açu e energia solar em Campos – Eu acho que não só tem que aproveitar para ajudar o país, como para ajudar a própria Campos. Ela pode ser uma cidade muito mais rica, muito mais próspera, se ela tomar esse caminho. Se o caminho dela é por uma energia mais limpa, ela está colocando um pé no futuro. Então, é necessário que ela se disponha a isso. Não sei qual é a posição da política dominante na cidade, se ela vai ter capacidade de compreender isso. Agora, quanto ao solar, eu acho que esse potencial também pode ser visto no caminho da descentralização. Em muitos lugares do mundo, o solar é visto também como um espaço onde a produção de energia não é mais centralizada. Cada um dentro dos seus limites, cada grupo, vai produzindo sua energia. O próprio George Bush (ex-presidente dos EUA), num determinado momento do governo dele, financiou a energia solar em residências das pessoas. Anteontem, eu estava andando pelas ruas de Chapecó (em Santa Catarina) e vi um anúncio: “Compre energia solar, instale energia solar na sua casa; você vai pagar por prestação o mesmo que paga na conta de luz hoje, e em três anos você vai, de uma certa maneira, amortizar, acabar com essa dívida”. Em três anos, passa a ter a energia de graça, e durante três anos você paga exatamente o que paga na conta de luz. E é muito melhor, porque você descentraliza, entende? Agora, se Campos tem esse potencial, era preciso que o Governo do Estado, o próprio Governo Federal, o BNDES, tivessem essa visão e abrissem uma linha de financiamento para as pessoas terem a sua energia solar instalada.
Saldo da CPI da Covid perto do fim – Essa CPI tem uma característica um pouco diferente das outras. Ela tratou inicialmente de um tema que todos já sabiam, que era a maneira como o governo conduziu o combate à pandemia. Ela denunciou o negacionismo do presidente da República em várias etapas, até o negacionismo que foi o mais importante para o momento da CPI, que em torno da compra de vacina. Ele resistia à compra de vacinas, resistiu à compra de vacinas do Butantã (Coronavac), e a CPI funcionou como instrumento de pressão para que ele apressasse o processo de imunizar a população brasileira. Eu acho que, nesse sentido, ela teve um papel importante. Ao longo do caminho também, ao denunciar esse processo de negação do presidente da República, processo de negação que tem várias etapas. Ele negava a importância da pandemia, em determinado momento uns bolsonaristas negavam até a existência dos mortos. Eu vi uma mulher, por exemplo, uma vez dizendo que estavam enterrando os corpos com tijolos dentro, que não havia morto por Covid. Depois, começaram a admitir os mortos, mas passaram a questionar o número dos mortos: “Ah, existem mortos, mas vocês estão aumentando o número, eles estão dando como morte por Covid gente que morreu de outra coisa”. E progressivamente. Depois, a vacina. E como o presidente precisava negar a pandemia, porque ele achava que a pandemia ameaçava o governo dele, ao invés de compreender que era uma realidade e tratá-la, ele procurou uma bala de prata, que era a hidroxicloroquina. É uma forma de negar também a pandemia: “Eu tenho um remédio que resolve isso”. Na verdade, nós sabemos que não existia, não existe remédio que resolve isso. Todo nosso investimento teria que estar voltado, todo investimento emocional, político, até financeiro, para a vacina. Era a única maneira que existia de deter o processo de pandemia. Com todas as limitações, era a única maneira. E o presidente da República não aceitou isso. Então, a CPI serviu, até esse ponto.
“Quadrilhas” na compra de vacinas – Quando a CPI começou a denunciar as hesitações no campo da vacina, ela começou a denunciar também as dificuldades que o presidente da República teve em negociar com empresas estabelecidas internacionalmente e com capacidade de negociação regular, como a Pfizer, por exemplo, e as várias quadrilhas que estavam tentando vender outras vacinas por mecanismos completamente diferentes. Então, foi um outro aspecto que a CPI revelou.
Prevent Senior “levou à morte de muita gente” – Finalmente, a CPI chegou a um aspecto também importante, que está associado ao negacionismo e à busca de uma bala de prata: o caso da Prevent Senior, que foi a tentativa de levar a tese de que era possível resolver essa questão com um remédio, um kit especial que acabaria com a doença. Isso é um problema sério, levou à morte de muita gente, levou à demissão de alguns médicos, levou ao desespero de muitas famílias. Então, eu acho que a CPI tem condições de denunciar o presidente por crime de responsabilidade e outros crimes comuns. Neste sentido, a CPI cumpriu o seu papel.
Arthur Lira segura impeachment, mas quer Bolsonaro frágil – Acho muito difícil. Eu acho que ele (Lira, presidente da Câmara Federal) quer, na maior parte do tempo, manter o Bolsonaro frágil. Quanto mais ameaças de impeachment houver, mais ele valoriza o poder que ele tem de pedir ou não o impeachment. E ele vai tentar valorizar esse poder obtendo do presidente uma série de vantagens, obtendo do próprio poder uma série de vantagens. Uma dessas vantagens é o chamado orçamento secreto. Na verdade, é a emenda de relator, alguns milhões, talvez até mais, bilhões, que eles possam distribuir entre o grupo que não só apoia o governo, como apoia o Artur Lira. A possibilidade de ter dinheiro para distribuir e fazer as próprias campanhas, as próprias políticas, é tudo o que eles querem, entende? E, simultaneamente, na medida em que o governo se enfraquece, ocupar mais espaço na administração para fazer também a sua política. A eles (do Centrão) interessa um Bolsonaro fraco na maior parte do tempo, para eles poderem realmente realizar a sua política, que é uma política, evidentemente, de interesse fisiológico. Que só pode ser negada quando eles sentirem que existe uma pressão irresistível contra o Bolsonaro nas ruas e no próprio meio político. Então, aí eles abandonam o barco e diz que nunca apoiaram ele realmente, entende? Eles são Lula ou eles são aquele outro que virá para o poder.
Nostalgias de Bolsonaro e Lula – A polarização representa, na verdade, algo muito diferente de supor que sejam dois polos idênticos. São muito diferentes em qualidade. Eu acho que o Bolsonaro é inigualável na sua incapacidade de governar o país. Agora, eu vejo os dois como duas nostalgias. O Bolsonaro se apresenta como uma nostalgia do período militar. Ele sempre sonhou com aquele período militar, sempre sonhou com aquele tempo mais tranquilo do governo militar, ele sempre sonhou em recuperar aquele momento. Ele olha muito para aquele momento. Uma retropia (retorno a um passado mitificado, que nunca existiu de fato, do qual se selecionam só algumas partes), entende? Ele olha aquele passado como se aquele momento da ditadura fosse um momento em que tudo ocorria muito bem. Por seu lado, o Lula, não sei como ele vai se apresentar como candidato. Até o momento, ele tem falado muito na necessidade de voltar aos tempos em que ele era presidente da República, aqueles bons tempos em que ele era presidente da República. Na minha opinião pessoal, não existe nem volta ao período militar, como Bolsonaro sonha, nem existe volta aqui aos bons tempos com os quais o Lula sonha. São, na verdade, duas nostalgias. Uma, um pouco mais atrasada que a outra; mas duas nostalgias. Seria interessante que o próximo presidente da República ou que as eleições brasileiras tivessem olhando para frente, para um projeto de futuro do Brasil. E quando eu digo um projeto de futuro, que levasse em conta essas alterações que houve no mundo nesses últimos anos. Alterações que escaparam completamente do Bolsonaro, que é obtuso. Mas escapam também ao Lula de uma certa maneira.
O que seria o novo governo Lula, 13 anos depois, com o país em crise e sem contexto internacional favorável? — Eu sou um pouco distante dele, eu leio algumas coisas e consigo ver, até o momento, que ele apresenta para a sociedade uma espécie de volta àqueles tempos. Mas, as conjunturas nacionais não dependem da vontade de um homem, elas são produtos de processos históricos mais profundos e muito mais complexos. Portanto você vai viver uma conjuntura que eu diria basicamente diferente daquela. E como, até o momento, ele promete aquilo que aconteceu no passado, eu fico sem saber como ele vai fazer, o que ele vai fazer diante dessa nova realidade. Primeiro, eu prefiro esperar que ele tome contato com essa nova realidade e fale qual é o programa dele em função dessa nova realidade, entende? Por exemplo, o meio ambiente. Será que ele tem consciência de que a importância da questão ambiental aumentou muito em relação àquele período em que ele foi presidente? Ele estaria disposto a aceitar? Ele sempre teve um certo pé atrás com esse tema. Não tanto quanto Bolsonaro, evidentemente. Bolsonaro é inigualável. Mas, será que ele está mudado?
Lula e o mundo digital – Por exemplo, esse mundo digital, essas transformações digitais, que são importantíssimas. No governo dele (de Lula), eu mesmo combati o projeto deles de inclusão digital, levado pelo PSB, na época, que era um projeto esdrúxulo: levar ônibus aos bairros, ônibus comprados a um preço exorbitante, para mostrar computador às pessoas. Esse tipo de inclusão digital era uma balela. Qual é a visão que existe de colocação no Brasil nesse mundo digital? Eu não sei como, porque a experiência que eu tenho com o PT nesse particular de comunicações, foi negativa. Eu era chamado de traidor, porque eu fui um dos defensores da quebra do monopólio das telecomunicações. Me lembro que, num congresso do PT que eu fui, as pessoas falavam: “E o meu telefone? Você está prometendo telefone para as pessoas”. E parecia uma coisa leviana você dizer que a quebra das telecomunicações traria telefone para um número maior de pessoas. Hoje, eu te diria que até eu, que era favorável, fico surpreso com o número de pessoas que têm telefones no Brasil e com o avanço dessa tecnologia.
Decadência de Bolsonaro como caminho à terceira via – O processo de decadência do Bolsonaro, eleitoral, não chegou ainda ao seu limite. Limite que eu diria, por exemplo, é acontecer o que aconteceu com o Crivella (ex-prefeito do Rio, que perdeu a reeleição no segundo turno para Eduardo Paes). É a pessoa se desmoralizar completamente como governante e talvez ficar arriscado no segundo turno. Então, uma grande possibilidade da terceira via existir e competir é precisamente a decadência do Bolsonaro. Crivella foi ao segundo turno, mas era facilmente derrotável. Qualquer pessoa que fosse ao segundo turno com Crivella, venceria. Eu tenho a impressão de que pode acontecer com o Bolsonaro, de ele não ir ao segundo turno, porque as crises que sucedem no Governo Federal são mais complexas, não é? São mais duras. Por exemplo: a situação econômica, pega mais. Então, existe uma possibilidade de o Bolsonaro perder energia nesse processo, progressivamente. Responsável que ele é pela condução do país e incapaz como ele é de dar solução a esses problemas todos que nós estamos vendo, é possível que um outro candidato possa ameaçá-lo. E, ameaçando, possa derrotá-lo, indo para o segundo turno. E, uma vez indo ao segundo turno o Lula contra um candidato que não seja o Bolsonaro, pode acontecer alguma coisa também.
Eleição a governador do Rio – Na verdade, em relação ao Rio, eu ando meio defasado. Eu acompanho menos o Rio do que eu deveria acompanhar. O governador (Cláudio Castro), eu não o acompanho muito. Sei que existe, tem um nome, deve estar fazendo uma campanha típica dos governadores, de conquistar prefeitos, de fazer seus votos. Mas, eu não eu não acompanho o momento, não me interesso, eu não consigo ler nada sobre ele, porque, nas coisas que eu leio, o nome dele não aparece. Eu não vejo nada a respeito dele, entende? Eu tenho visto a movimentação do Marcelo Freixo (pré-candidato a governador pelo PSB). A minha experiência em eleições no Rio de Janeiro é de que, para sermos candidatos ligados à opinião pública, que dependem da opinião pública, a candidatura a prefeito no Rio é sempre muito mais promissora que a candidatura a governador. Eu acho que a capacidade de você tornar governador no Rio de Janeiro, estado com as características que tem, é muito difícil para um candidato urbano com um apoio dos setores mais esclarecidos da opinião pública, exceto quando ele consegue romper um pouco essas limitações e consegue ser um candidato não só popular na cidade do Rio de Janeiro, como consegue também avançar muito na Baixada Fluminense, na área metropolitana do Rio de Janeiro. Quando há essa presença forte e popular na área metropolitana, é possível confrontar um candidato tradicional. E candidato tradicional, para mim, é o clientelista, que utiliza o apoio dos prefeitos para poder se eleger.
Apoio dos Bolsonaro a Castro e o 7 de setembro – Olha, eu acho que um peso sempre tem. Mas esse peso vai depender também das circunstâncias. Hoje, eu te diria que tem um peso. Hoje, o Bolsonaro, efetivamente, leva mais gente para a rua do que todos os outros, tanto no Rio como no Brasil inteiro. Bolsonaro, por exemplo fez aquela manifestação do 7 de setembro, que foi uma manifestação, em termos de público, muito superior a qualquer outra que a esquerda faz ou até que a frente de oposição a ele faz. Agora, ele já não faria hoje a mesma manifestação que fez no 7 de setembro. Daquela manifestação para frente, ele já perdeu um nível de apoio, mesmo porque ele sugeriu, naquela manifestação, um desfecho que ele não podia dar. Ele teve que recuar, entende? E esse recuo já o isolou de um certo setor. Então, eu não sei. Eu acho que a condução da pandemia, a condução da economia, a crise se agravando no Brasil, a crise social se agravando, e um presidente tão insensível como ele, né? O Bolsonaro, ontem, vetou ajuda às mulheres pobres para suas necessidades mais elementares de higiene (de absorventes íntimos). Não se sabe até onde ele pode chegar em termos de isolamento. Eu diria que o apoio dele tem um peso, mas não sei como será no ano que vem. No momento, eu acho que ele ainda consegue contribuir com um candidato. Mas, eu não sei se essa contribuição vai se estender ao longo do tempo, depende do prestígio dele.
Apoio de Lula na eleição a governador – Eu acho que o Lula vai observar as chances de cada um. Ele vai ver como cada um cria sua própria força, e, dependendo disso, ele vai tomando as posições. Eu acho que, inicialmente, em termos mais abertos e tal, ele tende a apoiar o Freixo. E faz parte também de um entendimento nacional que envolve o PSB. Eu acho que, inicialmente, ele pode apoiar o Freixo. Agora, o que pode acontecer no futuro, é difícil dizer. Ele pode apoiar o Freixo, mas, num determinado momento, se ele sentir que existe uma correlação de forças diferente e que ele, como candidato a presidente da República, precisa assumir posições mais realistas, pode ser que ele assuma.
O que seria o governo Gabeira na cidade do Rio, quando perdeu a eleição de prefeito de 2008 para Paes, no segundo turno, por apenas 1,6% dos votos? – Olha, naquela época era uma projeção de um conjunto de pessoas, não é? Havia uma discussão, primeiro porque a campanha partiu de grupos discutindo programas. Então, surgiu um grupo discutindo saúde, um grupo discutindo educação, outro grupo discutindo urbanismo, outro grupo discutindo meio ambiente. Havia não só uma disposição na sociedade, como um conjunto de pessoas decididas a participar do governo. Eu tenho a impressão de que era possível fazer um bom governo ali, de acordo com o programa que a gente imaginava de transformar o Rio numa cidade mais habitável, de avançar no meio ambiente, na posição internacional das cidades, avançar no desenvolvimento da cultura, avançar no desenvolvimento da inteligência, um instrumento também econômico na cidade, abrir a cidade para processos de criação, trazer até gente do mundo inteiro. Naquela época já, e hoje mais agudamente, não importa muito certas empresas onde elas estão, desde que você tenha boas comunicações. Certas empresas de criação poderiam estar no Rio também. Então, era uma visão de uma cidade integrada ao mundo a partir do próprio prestígio que o Rio tem, e uma tentativa de solucionar os problemas sociais da cidade. Não sei se hoje eu conseguiria reunir uma equipe com aquela dimensão e perspectiva. E também não sei se veria na classe média e em vários setores do povo a mesma expectativa com a política que havia naquele momento. A política se degradou mais ainda.
Vida política encerrada? – Olha, se você entender a política como política eleitoral, sim. Mas se você entender a política como a participação nas questões coletivas, a crítica ou a aprovação de governos e de políticas de governo, a discussão dos temas nacionais, não. Eu permaneço, eu escrevo em dois importantes jornais brasileiros toda semana: uma vez por semana em “O Globo”, e de 15 em 15 dias no “O Estado de S. Paulo”. Escrevo sobre temas políticos. Da mesma maneira, o fato de eu ser, pela circunstância da pandemia, comentarista da Globo News, me coloca também como uma pessoa que fala sobre política. A própria resenha dos 25 anos da Globo News, no campo da política, eu apresentei. E, no ano que vem, é possível até que eu faça trabalho de jornalismo ligado à eleição. É possível.
Página 3 da edição de hoje da Folha da Manhã
Confira abaixo em vídeo a íntegra da entrevista de Fernando Gabeira ao Folha no Ar da manhã de sexta:
Prefeito Wladimir Garotinho, deputados federais Chico D‘Ângelo e Felício Laterça, e a região da Bacia de Campos no mapa (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
“Campos tem liderança natural na região, até porque todos os municípios da região usam nossos serviços e quase nenhum paga por isso. Daí vem o grande dilema do nosso orçamento municipal, que mesmo robusto não atende somente à nossa cidade. Com a metropolização da região da Bacia de Campos serão necessários investimentos de todos os entes federativos por aqui. Os executivos municipais, por si sós, não terão condições de acompanhar a celeridade do processo em curso. Neste caso, o relacionando político atrelado a bons projetos é o que fará toda a diferença, principalmente no setor de mobilidade”. Foi o que disse o prefeito de Campos, Wladimir Garotinho (PSD), sobre processo de metropolização da região da Bacia de Campos, que tem como polo o município que a batiza. E que teve impulso na inédita abertura de voos comerciais regulares, pela Azul, de Campos e Macaé para a Europa.
William Passos, geógrafo e consultor especializado em estatística e desenvolvimento
— Como campista, considero importante que políticos e intelectuais influentes do nosso estado se mobilizem para defender um processo de metropolização da região Norte/Noroeste, tendo a cidade de Campos como seu polo. Tenho acompanhado com entusiasmo que vários pré-candidatos ao governo do estado já se manifestaram sobre o tema, afirmando que, caso sejam eleitos, farão de Campos uma segunda capital do estado. Muito me orgulha saber que Rodrigo Neves (ex-prefeito de Niterói e pré-candidato do PDT a governador) assumiu esse compromisso que, certamente, irá trazer grandes benefícios para o desenvolvimento de nossa empobrecida região. Um dos fatos que contribuem para a viabilização dessa proposta é o excelente parque universitário existente em Campos com três reconhecidas instituições públicas de ensino: o IFF, a UFF e a Uenf. Sugiro que esse núcleo de dirigentes dê partida na reflexão sobre a tese da metropolização e incorpore colaborações de diversos atores sociais relacionados ao tema. Somos muitos os que acreditamos que esse é um caminho promissor. Está na hora de acreditar na força de nossa Campos e região —convocou o parlamentar Chico D’Ângelo.
(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
— Li o artigo do William, com base no estudo que ele fez sobre o processo de metropolização da região da Bacia de Campos. Nós vamos tentar resgatar 50 anos da nossa Campos dos Goytacazes. Nas décadas de 50 e 60 do século 20, Campos alcançou uma pujança que foi se perdendo, por uma série de fatores. Mas o que a gente vê hoje, com o Porto do Açu, com as rotas de gás de Macaé e Campos, nós vamos voltar a ter uma grande pujança. E temos trabalhado muito, no nosso mandato de deputado federal, para fazer a questão da mobilidade acontecer. Então o término da duplicação da rodovia BR 101, dentro do trecho em que corta Campos, e a questão da Estrada de Ferro (EF) 118, são necessárias para de fato alavancar a nossa região. Nós temos as termelétricas que estão sendo inauguradas, a primeira da GNA, no Porto de Açu, com a segunda prevista. Nós temos as termelétricas de Macaé, várias já licenciadas, uma já para terminar. A rota do gás é uma realidade. Nós temos que trazer as indústrias que vão se beneficiar do gás, próximas à sua produção, na Bacia de Campos, não só como fonte de energia, mas também insumo. Temos a questão das cerâmicas, das indústrias de fertilizantes. Então esse é o nosso papel como deputado federal: ajudar a alavancar a nossa região. Que agora se torne mais fácil com a abertura de voos regulares, dos aeroportos de Campos e Macaé, para o exterior — constatou o deputado Felício Laterça.