Lula lidera, Bolsonaro cresce rejeição e 3ª via tem espaço

 

(Infográfico: CNT/MDA)

 

Segundo a pesquisa CNT/MDA divulgada hoje, Lula (PT) não ganharia no primeiro turno a eleição presidencial se ela fosse hoje — como chegou a apontar a pesquisa Ipec (confira aqui) da última quinzena de junho — mas ficaria perto. Na consulta estimulada CNT, feita entre 1º e 3 de julho, o ex-presidente petista hoje tem 41,3% das intenções de voto, seguido à distância pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), com 26,6%. Mas a rejeição ao governo federal chegou a 48,2% dos brasileiros, bem próximo aos 50% apontados pelo Ipec.

Nenhuma outra opção apresentada a presidente em 2022 teve dois dígitos de intenções de voto: Ciro Gomes (PDT) e Sergio Moro (sem partido) empataram com os mesmos 5,9%, enquanto João Doria (PSDB) tem 2,1%. Descontados os 8,6% de brancos e nulos, Lula hoje teria 45,2% dos votos válidos. Outros 7,8% se disseram indecisos. A consulta ouviu presencialmente 2.002 eleitores em 137 municípios de 25 unidades da Federação. E tem margem de erro de 2,2 pontos percentuais para mais ou menos.

 

(Infográfico: CNT/MDA)

 

Rejeição ao governo Bolsonaro

Embora não tenha medido a rejeição direta do eleitor aos presidenciáveis, a pesquisa apresentou outros resultados bastante negativos a Bolsonaro. Os 48,2% dos brasileiros que hoje consideram seu governo ruim ou péssimo cresceram relevantes 12,7 pontos sobre os 35,5% registrados pela CNT/MDA de fevereiro. Na de julho, administração federal teve 22,7% de regular e 27,7% de bom ou ótimo, quase o mesmo número de intenções de votos do presidente.

 

(Infográfico: CNT/MDA)

 

Rejeição à condução da pandemia

Outro dado da pesquisa também revela uma causa desse substancial aumento no desgaste do governo federal: 57,2% dos brasileiros desaprovam sua condução da pandemia da Covid-19. É um crescimento negativo de 15,2 pontos em relação aos 42% que desaprovavam em fevereiro. Os que aprovam hoje são 39%. É uma queda de 15,3 pontos na maioria perdida dos 54,3% que aprovava a condução sanitária do país há cinco meses.

 

(Infográfico: CNT/MDA)

 

Estimulada – espontânea = rejeição

Se na corrida presidencial mantém votos para estar no segundo turno, Bolsonaro diminuiu bastante a diferença para Lula na pesquisa espontânea: 21,6% contra 27,8% do petista. Mas, na comparação com a consulta estimulada, Lula cresce 13,5 pontos para chegar aos 41,3% de quando o disco é apresentado. Com ele, o presidente só chega a 26,6%. Este crescimento de 5 pontos é menos da metade do seu principal concorrente. E revela o alto preço da rejeição que hoje o “mito” carrega.

 

Potencial para a terceira via

Por outro lado, a mais de 15 meses das urnas, é alto número de eleitores que se dizem indecisos na pesquisa espontânea a presidente: 38,9%. O que releva potencial para o crescimento de uma terceira via. Dos nomes postos na consulta induzida, Ciro passa de 1,7% para 5,9%, Moro de 0,7% para 5,9%, Doria de 0,7% para 2,1%. E não são os únicos três nomes no jogo para tentar furar a polarização entre Lula e Bolsonaro.

 

(Infográfico: CNT/MDA)

 

Maioria pelo voto eletrônico

Considerada por analistas nacionais e internacionais como tentativa de criar uma atenuante prévia para negar a derrota, a briga de Bolsonaro pelo comprovante impresso dos votos na urna eletrônica (confira aqui) também não tem acolhida da maioria da população. São 32,9% os brasileiros que disseram ter confiança elevada no voto eletrônico, enquanto 30,8% têm confiança moderada — ao todo, 63,7%. Outros 15,8% disseram ter confiança baixa, enquanto 18,7% se disseram sem confiança.

 

Confira aqui a pesquisa CNT/MDA

 

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LGBT, Francisco, Kapi, Wladimir e Brasil no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Joseli Mathias)

 

A partir das 7h da manhã desta terça, o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o bispo diocesano de Campos, Dom Roberto Ferrería Paz. Ele falará das condenações recentes e públicas (confira aqui e aqui) de padres católicos brasileiros à homossexualidade, assim como da posição do Papa Francisco à questão e da cirurgia (confira aqui) a que teve que se submeter ontem (04).

Dom Roberto analisará também a polêmica (confira aqui e aqui) da criação da Praça da Bíblia pela Associação dos Evangélicos de Campos (AEC) em espeço contíguo ao anfiteatro Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi, no Parque Alberto Sampaio, fazendo uma avalição dos seis meses do governo Wladimir Garotinho (PSD). Por fim, o bispo católico falará do uso do nome de Deus na política do Brasil do presidente Jair Messias Bolsonaro (sem partido).

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Vida e obra de um cão chamado Zidane

 

Zidane e Atafona, 10 de novembro de 2018

 

Zidane, o craque francês, se marcou pela elegância. Zidane, o buldogue francês, pela falta dela. Em comum, ambos tinham duas características a priori antagônicas: a preguiça e a determinação. O jogador nunca correu para marcar ninguém, mas conquistou uma Copa e só não levou outra porque perdeu a cabeça. O cão adorava dormir, mas, como todo buldogue, era tenaz quando o jogo era do seu interesse. E conquistou corações com seu charme irresistível. Hoje apertados de tristeza por sua partida repentina na madrugada, a 16 dias de completar seis anos.

Meu filho Ícaro, como de resto todos nós, teve uma fase difícil na adolescência. Que vinha desde a perda do seu avô, meu pai, o jornalista Aluysio Barbosa, em 2012. A relação entre avô e neto extrapolava um amor que já é especial por natureza. Em 2015, ao conversar com um amigo com experiência em crianças, ele me aconselhou a dar um cachorro ao meu filho, que morava com a mãe, a jornalista Dora Paula Paes, em apartamento.

 

Zidane, em sua vida dupla de cão de apartamento, e Aquiles

 

Decidimos por um buldogue francês e fomos comprar um filhote em canil dedicado à raça, eu, meu filho e seu irmão Aquiles Paes, meu afilhado. Como o filhote foi entregue no dia seguinte, sem nunca o pedigree ter sido, até hoje cremos que não foi o escolhido. Mas ele certamente nos escolheu. Seu nome, por óbvio, foi em homenagem ao gênio francês do futebol. Que legou também seu apelido ao cão: Zizou.

Só depois que Zizou passou a morar com meu filho, atentamos à sua data de nascimento: 20 de julho. Nessas coincidências que não há, a mesma data de nascimento do meu pai. Fiquei espantado e passei a encarar como sinal. Que se confirmou não só nos fortes vínculos entre um menino e seu cão, como nas características que este reforçou naquele: responsabilidade, compromisso, cuidado, amor que não se mede.

Atafona, 16 de junho de 2020

Em outra característica que não parecia coincidência, Zizou até gostava da sua vida de cão de apartamento. Mas não escondia de ninguém sua predileção desavexada por Atafona. Era só agitar sua guia e gritar “praia, Zizou!”, que ele brilhava os olhos esbugalhados, escancarava a boca prognata em alegria, com a língua pendendo para fora, dando saltos na direção de quem gritava. Como todo buldogue francês, com tronco largo e pernas curtas, ele não conseguia nadar. Mas, à beira-mar na foz do Paraíba, o “playboy” de apartamento se convertia em malandro atafonense. Inteligente e corajoso, amenizava o calor do sol em mergulhos nas ondas. Entre elas e a areia, parecia um tatuí.

 

 

Atafona, 14 de junho de 2020

Sempre que eu ia à Atafona, mesmo sem Ícaro, levava Zidane. Partilhando da paixão pelo balneário que também fôra legada por meu pai, sempre que ele voltava dos espaços amplos de lá para sua vida de cão de apartamento, ficava em depressão por um ou dois dias. Foi na praia que ocorreria outra estranha coincidência.

Era a madrugada de 2 de abril de 2016, mais feliz que a de hoje, quando eu tirava do gravador uma entrevista com outro gênio do futebol, o ex-zagueiro Aldair, do Flamengo, do Benfica de Portugal, do Roma da Itália e da Seleção Brasileira, com a qual foi tetracampeão e destaque da Copa de 1994. Estavam no mesmo quarto, dormindo, Ícaro e o cão Zidane. E exatamente no ponto do áudio em que Aldair tentava explicar os dois gols do craque Zidane sobre o Brasil, na final da Copa de 1998, seu xará acordou e começou a me lamber.

Zidane no traço de Aquiles Paes

No verão deste ano, poucos meses antes de morrer, o cachorro Zidane alcançou seu apogeu. E superou o algoz do Brasil em 1998 e 2006. Se, nestes dois jogos, o maestro francês marcou dois gols, o buldogue francês matou três ratos. Com seu corpo pequenino e musculoso, superou também o dogo argentino Astor e os rottweilers Bismarck e Manfred. Grandes e imponentes, os três, juntos, só deram cabo de um roedor. No contraste com os cães de guarda, nada mal para um cão considerado de companhia. A partir do seu feito, além de Zizou, ele ganharia outro apelido: El Matador.

Com o menino Lorenzo Abreu, à beira do fogo na noite fria de 26 de junho, Zidane na sua última ida a Atafona

Em um país em que 524 mil vidas humanas foram perdidas para a pandemia da Covid, sob o negacionismo e a corrupção do governo federal, falar de um cão morto pode soar até banal. Mas não é! Sua vida breve e plena não foi um mero número. Como não foi a de cada um desse meio milhão de brasileiros. Todas também deixaram corações apertados de saudade pelos que deixaram de bater.

Já tive vários cachorros, mas Zizou sempre terá um lugar especial. Se não fosse mais nada, por ter entrado na vida de um menino que andava meio perdido. E saído dela deixando um homem feito e centrado, meu único filho. É maior dívida com um cão do que qualquer homem possa pagar.

Abaixo, em relato pungente, um pouco da vida e da obra de um bulgoguinho tigrado chamado Zidane, craque nos campos das nossas vidas:

 

Zidane e Ícaro, Atafona, 9 de fevereiro de 2016

 

Ícaro Abreu Barbosa e Zidane

Adeus e até mais, Zizou

Por Ícaro Abreu Barbosa

 

O Sancho Pança do meu Dom Quixote foi você, meu amigo Zidane. As vibrações da sua felicidade foram minha salvação no momento mais difícil da minha vida até agora — literalmente. A sua partida repentina, no começo da madruga deste domingo (4), ainda está sendo digerida, e a sensação é de um pesadelo que não tem fim. Amigo querido, você foi um marco na minha vida: deixando um Ícaro antes e outro depois da existência de Zidane.

Mas, agora, como fica aquele que ficará sem Zizou? Ele não vai ter os seus resmungos no sofá enquanto estiver trabalhando. Não vai ter seu sono ninado pelos seus roncos de porquinho. Não vai ter uma bolinha de pelo pra aquecer o pé no inverno, uma companhia de soneca para a tarde, um obstáculo para tropeçar enquanto estiver cozinhado ou um parceiro pra caminhar na praia e tomar banho de mar no verão. Ele está aleijado no coração adicto da sua presença, Feijão: que agora, depois de uma noite muito estranha, já não existe mais.

Você, Zizou, era o motivo da partida para o trabalho: pois alguém tinha que ter o prazer de te alimentar com Guabi e medicar com o Bravecto para acabar com os carrapatos que te acompanhavam quando você retornava do seu habitat preferido — a Praia.

Isso tudo para garantir o bem-estar do protetor dos oprimidos em qualquer briga, por mais que fosse um cotoco braquicéfalo de 11kg… mas também existia o seu lado atentado, você não foi um santo. Foi a teimosia e chatice em formato de cachorro. Era o terror da convivência com outros pets, sendo engolido por uns e jurado de morte por outros; mas encantava qualquer ser-humano com seu carisma e prostituição por um cafuné, o que compensava a “feiúra”, te deixando até bonitinho no final das contas.

O que você tinha de útil, e ninguém pode negar, era um talento para a caça de ratos que acabou sendo pouco explorado, olhando em retrospectiva. Seu saldo durante o verão da pandemia de 2021 é motivo de orgulho para mim, além de um murro na cara para aqueles que dizem: “Bulldog Francês é raça de madame e não serve pra nada.”

Sua presença e companhia foi, infelizmente, curta demais; mas teve uma intensidade e importância que vai ser lembrada enquanto aqueles que conviveram com você estiverem por aqui. Suas fotos, caretas e vídeos vão ilustrar nossos momentos juntos; sendo sempre um bunker temporal, aonde você estará vivíssimo, alegre e protegido: um lugar para chamar de seu nas ondas do tempo, meu amiguinho.

Pode deixar, vou lembrar todos os dias de você e ressaltar a importância que teve para quem sou hoje e serei amanhã. Me consola saber e ouvir, principalmente daqueles que te cercara, que você foi um cachorro amado e feliz. Lamento apenas pela força e explosão da sua juventude ter se transformado nessa rigidez, assim como aconteceu com Hemingway e principalmente nos últimos meses, quando você começou a envelhecer.

Peço desculpas por não estar junto de você, ao seu lado — como você sempre esteve comigo — durante sua última luta. Não me foi permitido pela equipe veterinária. Mas acho que até com isso você se preocupou. Aquele último olhar de tchau que você me lançou deitado, quando percebeu que eu estava te olhando pelo vidro, foi seguido por uma lenta levantada e reação de despedida; e depois acabou com virada costas para mim: a encarada que você deu na parede branca do caixotinho de internação significou alguma coisa. Tenho certeza que você queria me poupar da dor de te perder, que sempre comentei com você que iria sentir e talvez reagir mal — enquanto acariciava atrás da sua orelha e deslizava a mão no seu dorso. Resiliente e teimoso como foi durante toda a vida, decidiu segurar sozinho a barra e o caminho que agora está seguindo.

Eu queria fazer mais, mas só posso torcer e rezar por você, além de te agradecer por ter sido um cachorro incrível. Te amo muito e para sempre, meu amigo. Tomara que você seja sempre a sombra que me acompanha e também a luz que ilumina meu caminho.

Desejos de mais beijos, abraços e momentos, além de pedidos de desculpas e agradecimentos, meu filho, resumem tudo o que posso fazer neste momento por você.

Espero que a praia de Atafona, que você tanto amou, seja sempre seu lar e nosso ponto de reencontro para matar as saudades eternas que vamos sentir um do outro. O mar, a areia, a grama e o vento que sopra são seus: agora você é totalmente livre e pertence à PRAIA que te fazia pular de alegria. Só não se esqueça que a casa está sempre em quem te ama muito. E um dia espero que eu te encontre neste passeio incerto pelo fim.

Zidane depois da vida, no traço de Aquiles Paes

 

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Campos, Kapi, Wladimir e Brasil no Folha no Ar desta 2ª

 

 

A partir das 7h da manhã desta segunda (05), quem abrirá a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, será a historiadora Sylvia Paes. Ela falará sobre a polêmica da data de nascimento de Campos dos Goytacazes (confira aqui). Assim como a não menos polêmica proposta de abrigar evangélicos e artistas (confira aqui e aqui) no mesmo espaço público do Parque Alberto Sampaio, com o anfiteatro Antonio Roberto de Góis Cavacanti, o Kapi, além de analisar os seis meses do governo Wladimir Garotinho (PSD).

Por fim, Sylvia tentará colocar o Brasil do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na perspectiva da História. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Adriana Medeiros — Kapi, deus, cozinha de casa e sala de visita

 

Adriana Medeiros em cena (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Kapi, deus, cozinha de casa e sala de visita

Por Adriana Medeiros

 

Costumo chamar Campos dos Goytacazes de Sucupira. Talvez por enxergar nos governantes um perfil demagogo, que eles fazem questão de apresentar, muito próximo ao de Odorico. Quase tudo que fazem é em nome de Deus e da Paz. Risível.

Escrevo isso por que foi criada uma fabulação para transformar o Teatro de Arena, ou Anfiteatro “Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, Kapi”, que fica no Parque Alberto Sampaio, em Praça da Bíblia. Francamente. Isso é desrespeitoso.

Repentinamente, aqueles que imaginaram que a classe não se manifestaria, mudou o discurso, mas não a ideia, logo, pouca coisa muda no contexto.

Não consigo imaginar um “templo” com dois deuses, se é que me entendem.

Acredito que ser artista seja um ato político e ser político é reconhecer a arte como tal. Quando se volta atrás com uma palavra é porque o que falamos reverbera, seja na arte ou na política.  É preciso talento, responsabilidade social e cívica para atuar nesses palcos.

O teatro, a música, as artes plásticas têm uma força social enorme, cheias de energia. A arte, em geral, possui esse poder. Não há gritos para convencer as pessoas, sabe. Há uma mágica, um silêncio que leva a plateia à reflexão. Deve ser por isso que ela é revolucionária, a arte. Não precisamos de histeria, precisamos de espaço, de parcerias, de atitude. Não precisamos de um governo que desconhece o que é laico, que sinaliza desinteresse pela cultura e parece tentar eliminá-la.

Interpretei Dandara no espetáculo “Arena conta Zumbi” de Guarnieri e Boal. Isso foi em 1988, quando foi inaugurado o Anfiteatro do Alberto Sampaio. E quem assinava a direção era Kapi.

O nome do Anfiteatro continuará tecendo homenagem a ele, Kapi, e a Prefeitura cumprirá com a lei n° 8.757, de junho de 2017. Foi o que entendi.

Porém, não vejo sentido em dividir esse espaço com cristãos evangélicos. São muitos os segmentos religiosos que gostariam de usar espaços públicos para suas manifestações, e aí?

O Estado é LAICO. Não se pode transformar em cozinha de casa aquilo que é sala de visita para todos.

Mas dirão que a parceria acontecerá para manter o espaço e que a Prefeitura não pode assumir sozinha, esse compromisso.

Penso que se os governos pararem com essa marginalização da classe artística e se interessarem, verdadeiramente, pelo saber, pelas manifestações artísticas e escutarem a classe para que, juntos, façam uma efervescência cultural, esse espaço poderá abrigar, em sua estrutura oficinas, apresentações, espaço para debates…

Mas a política não parece gostar de seres que pensam no coletivo, que são ingredientes. Preferem a massa feita de dogmas e individualidade.

Continuo comungando da genialidade do Kapi. Ele que declarou, desde sempre, seu amor à arte e aos Campos dos Goytacazes. Ele que sempre viu a cultura como elemento fundamental para a construção do ser. Ele que se sabia deus, porque deus não é uma alegoria. É o que mora dentro da gente, logo não precisa de espaços públicos para acontecer.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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Arte e cultura de Campos analisam Kapi e os evangélicos

 

Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi (Foto: César Ferreira)

 

Wellington Cordeiro, jornalista e presidente da AIC

“Depois de causar a revolta da classe artística de Campos com a notícia do atropelamento da homenagem ao diretor de teatro Antonio Roberto de Góes Cavalcanti, o Kapi, que era nome do anfiteatro do Parque Alberto Sampaio, a Prefeitura de Campos desfez parte do equívoco, mantendo a homenagem prestada em 2017. Porém, manteve a parceria com uma entidade religiosa para manter e utilizar o local. Será possível ter cultos evangélicos no palco batizado de Kapi?”. A pergunta foi feita pelo jornalista Wellington Cordeiro, presidente da Associação de Imprensa Campista (AIC). E resume a dúvida que ficou após o prefeito Wladimir Garotinho (PSD) ter anunciado (confira aqui) na segunda (28) que o Parque Alberto Sampaio passaria a ser administrado pela Associação dos Evangélicos de Campos (AEC), com o nome de Praça da Bíblia. Como o anfiteatro ali instalado já havia sido batizado em 2017 (confira aqui) como Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi, morto em 2015 e que inaugurou aquele espaço em 1988, na direção de uma histórica montagem da peça “Arena conta Zumbi”, a reação da classe artística de Campos (confira aqui) contra a proposta foi forte e rápida. E fez o prefeito recuar parcialmente (confira aqui) na quarta (30), mantendo o nome de Kapi ao anfiteatro e a utilização do resto do Alberto Sampaio pela AEC, para fazer a manutenção de todo o parque sem ônus ao município.

 

Parque Alberto Sampaio (Foto: Luiz Macapá/Supcom)

 

Fábio Ribeiro, presidente da Câmara Municipal de Campos

A contraproposta do prefeito foi formalmente apresentada em reunião virtual extraordinária do Conselho Municipal de Cultura (Comcultura), convocada para tratar do assunto (confira aqui) na noite de ontem (02). Mas seus passos futuros foram projetados (confira aqui) desde quinta (01) pelo vereador Fábio Ribeiro (PSD), presidente da Câmara Municipal, onde será recebida e votada a proposta do governo. “Depois do projeto ser apresentado na reunião do Comcultura, vamos mediar entre os representantes dos artistas e da Associação de Evangélicos como e quando cada um vai usar cada espaço. Penso que terá que ser em dias separados, organizados pela Prefeitura. Temos cerca de um mês para discutir com todos os atores envolvidos, antes de colocar o projeto em votação”. À essa mediação proposta pelo presidente da Câmara, permanece a indagação do presidente da AIC: “Será possível ter cultos evangélicos no palco batizado de Kapi?”.

Lúcia Talabi, atriz

A classe artística e cultural de Campos não teve a unanimidade “burra” do dramaturgo Nelson Rodrigues. Mas a maioria olhou a proposta governista com desconfiança. “O Parque Alberto Sampaio ter a manutenção da Associação Evangélica e ser de uso também dos artistas, como disse o prefeito ao refazer o acordo após a reação contrária da sociedade campista, parece uma boa solução, mas não é! Ter um espaço público, historicamente identificado como de arte e cultura, entregue a uma instituição privada e religiosa com poder de influenciar em legislações e políticas públicas, é uma lógica que não nos serve. Existe aí um projeto político que não é interessante para a promoção cultural em Campos”, denunciou a atriz Lúcia Talabi. Como Kapi, para além do teatro, teve atuação de destaque também como poeta e carnavalesco, representantes de outros setores foram ouvidos pela Folha.

Arlete Sendra, literata e dramaturga
Toninho Shita, compositor de samba

“Fiquei aliviado quando soube que vão manter o nome de Kapi no anfiteatro do Parque Alberto Sampaio, quando não deveriam nem cogitar a retirada do mesmo. O grande Antonio Roberto Kapi nos deixou legados culturais importantes e pessoas com essa genialidade não nascem todos os dias. Me sinto inseguro, mas como os recursos não sairão dos cofres públicos, não posso me opor”, contemporizou o compositor de samba Toninho Shita. “Penso que será ético e respeitoso que não se imponha o convívio de pensares tão radicalmente heterogêneos no mesmo espaço. Quero acreditar que interesses subreptícios não estejam no comando desta estranha proposta. Quero acreditar que outros campos em Campos podem ser visualizados e usados”, propôs a literata e dramaturga Arlete Sendra.

Alexandre Ferram, ator
Sylvia Paes, historiadora

“Não se esperava mais de um descendente de governos que fecharam teatros e abandonaram equipamentos de cultura, mas acreditava ao menos que a proposta fosse analisada previamente com a comunidade e os setores envolvidos. Um palco com nome de Kapi sendo ocupado para realização de cultos evangélicos é no mínimo desonrar a memória do artista que ele foi, que ele é. Neste caso, é melhor tirar o nome dele disso”, sentenciou o ator Alexandre Ferram. “Nós que já temos duas praças como o mesmo nome de Praça da Bíblia, agora uma terceira, e não somos por esse motivo uma sociedade abençoada. O que deu errado? As parcerias público-privadas são importantíssimas, afinal a cidade é de todos, independentemente de questões religiosas, políticas ou sociais, justamente para que não se fragmente em gostos particulares”, advertiu a historiadora Sylvia Paes.

Adriano Moura, literato, poeta e dramaturgo
Graziela Escocard, historiadora

“A arena do Parque Alberto Sampaio permaneceu muito tempo abandonada. Mesmo fazendo uma homenagem ao nosso querido Kapi, não ocuparam devidamente. A falta de cuidado fez o espaço cair no esquecimento. Mas dar outro nome à arena da praça seria uma forma de apagar a memória cultural de nossa cidade”, ponderou a historiadora Graziela Escocard, diretora do Museu Histórico de Campos. “O Parque Alberto Sampaio precisa ser revitalizado e destinado à sua função original: lazer e cultura. O anfiteatro do parque recebeu o nome de Kapi, uma das figuras mais representativas da arte e cultura de Campos. Mudar o nome do local contribui para o apagamento da memória desse grande artista. Destiná-lo à gestão e utilização de eventos evangélicos deveria ser considerado, inclusive, inconstitucional, já que vivemos num Estado laico”, pregou o literato, poeta e dramaturgo Adriano Moura.

Analice Martins, literata e poeta
Sidinho Ramos, carnavalesco e estilista

“O anfiteatro localizado no Jardim de Allah foi uma obra realizada no final do governo do saudoso prefeito Zezé Barbosa, com o espetáculo teatral dirigido por Kapi, ‘Arena conta Zumbi’. A partir daí, Kapi cresceu muito, passando pelas escolas de samba. E foi coordenador de carnaval de Campos, desenvolvendo um excelente trabalho. Teve seu nome reconhecido na homenagem do anfiteatro. Essa história causou uma grande insatisfação na classe artística, foi um rastilho de pólvora que dura até agora”, avaliou o carnavalesco e estilista Sidinho Ramos. “Kapi foi um homem da palavra em ação, em cena, em movimento, em punho, em riste. Como poeta, diretor teatral, como artista, foi um homem que deve ser guardado em nossas memórias, em nossas vidas. Guardado como nos ensinou o poeta e filósofo Antonio Cícero: ‘Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por/ ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,/ isto é, estar por ela ou ser por ela’. Manter o nome, a homenagem, e entregar a gerência exclusiva do espaço à AEC seria desconfigurar o projeto de ter, nas atividades culturais a serem realizadas novamente ali, um sopro de vida, já que a arte reinventa a vida. Mobilizemo-nos, como ele o faria”, convocou a literata e poeta Analice Martins.

 

Capa da Folha Dois de hoje

 

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Kapi une governo e oposição na Câmara de Campos

 

(Fotos: César Ferreira e Divulgação/montagem: Joseli Mathias)

Como seria o convívio entre artistas e evangélicos de Campos na utilização do mesmo espaço público do Parque Alberto Sampaio? Como seria essa separação entre exibições artísticas no anfiteatro Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi, e religiosas no espaço contíguo, a ser batizado Praça da Bíblia? Quem administraria e garantiria a independência dos objetivos muitas vezes conflitantes entre artistas e evangélicos? O que o diretor teatral, poeta, carnavalesco e turismólogo Kapi, morto em 2015, acharia disso tudo?

Todas essas perguntas passaram a ser feitas desde que Wladimir Garotinho (PSD) revelou ontem (confira aqui) seu recuo parcial no projeto de parceria com a Associação Evangélica de Campos (AEC) para manutenção do Parque Alberto Sampaio. Após forte reação da classe artística (confira aqui), o prefeito mudou sua intenção inicial (confira aqui) de destinar todo o espaço aos evangélicos. E garantiu que manteria o nome de Kapi ao anfiteatro, com o qual foi batizado desde 2017 (confira aqui), e sua utilização pelos artistas de Campos. Observador atento do cenário cultural da cidade, o blogueiro Edmundo Siqueira chegou ontem a questionar: “A emenda saiu pior que o soneto!”

Presidente da Câmara Municipal de Campos, para onde o projeto ao Alberto Sampaio terá que ser enviado e votado, o vereador Fábio Ribeiro (PSD) garantiu que não. E que, após a contraproposta de Wladimir ser apresentada oficialmente à categoria na reunião virtual extraordinária do Conselho Municipal de Cultura (Comcultura), marcada para às 19h desta sexta (02), ela será debatida entre os evangélicos da AEC e os representantes dos artistas, com a mediação do Executivo e Legislativo municipais:

— A verdade é que, depois de dar o nome de Kapi ao anfiteatro, o governo municipal passado abandonou Parque Alberto Sampaio. Com a crise financeira que Campos atravessa, o prefeito Wladimir buscou uma parceria com a Associação dos Evangélicos para se recuperar e conservar o espaço, sem ônus ao município. O prefeito reconheceu a importância de Kapi, da manutenção do seu nome ao anfiteatro e seu uso pelos artistas locais. Depois do projeto ser apresentado amanhã na reunião do Comcultura, vamos mediar entre os representantes dos artistas e da Associação de Evangélicos como e quando cada um vai usar cada espaço. Tanto o anfiteatro, quanto a Praça da Bíblia, cuja utilização será ecumênica, não apenas dos evangélicos. Penso que terá que ser em dias separados, organizados pela Prefeitura. Temos cerca de um mês para discutir isso na Câmara, com todos os atores envolvidos, antes de colocar o projeto em votação. A solução do prefeito foi salomônica.

 

Parque Alberto Sampaio (Foto: Luiz Macapá/Supcom)

 

A opinião do presidente governista tem muitos pontos em comum com a bancada de oposição. Que também reconhece o abandono do Parque Alberto Sampaio e a importância da homenagem a Kapi. E comunga da crítica dos artistas de que o diálogo do Executivo teria que ser prévio à apresentação do projeto, não só depois dele ter acendido a polêmica:

— Ainda não recebemos na Câmara o projeto de lei para avaliação da matéria, mas é bem-vinda toda iniciativa do Executivo em buscar parcerias para diminuir custos e recuperar locais degradados, como é o caso do Parque Alberto Sampaio, que está há anos abandonado, gerando conflitos e insegurança para a população. Em relação ao nome, reconheço que foi uma justa homenagem a Kapi. E acredito que a classe artística e cultural de Campos deve se manifestar, sim. Inclusive, o poder público deveria ter dialogado antes de propor a troca do nome. Mas ainda há tempo para isso e encontrar um caminho junto ao poder público municipal. Inclusive, me coloco à disposição nessa interlocução — disse o vereador oposicionista Rogério Matoso (DEM).

Reconhecido por governo e oposição, das perguntas feitas pela classe artística do qual foi e permanece referência, a mais difícil de responder é como Kapi reagiria a todo esse debate em torno do seu nome. Quem o conheceu em vida e arte, porém, tem pouca dúvida de que ele está onde sempre esteve: provocando polêmica e dirigindo o espetáculo.

 

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Governo e setor produtivo negociam Código Tributário

CDL e Prefeitura de Campos (Montagem: Joseli Mathias)

Após o impasse que resultou no engavetamento da proposta do Código Tributário na Câmara Municipal (confira aqui) no último dia 16, as negociações entre governo municipal e entidades do setor representativo de Campos avançaram. Na sede do Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL), uma reunião das lideranças do setor e integrantes do Executivo e Legislativo, incluindo o prefeito Wladimir Garotinho (PSD) e o presidente Fábio Ribeiro (PSD), foi realizada na noite da última terça (29). E, também na CDL, outra está marcada para às 10h da manhã desta sexta (02).

Os governistas estão animados e esperam chegar a um consenso com o setor produtivo, para colocar, nos termos que forem pactuados, a proposta do novo Código novamente em votação na Câmara. A reaproximação com o setor produtivo foi costurada entres os líderes lojistas José Francisco Rodrigues e Marcelo Mérida (PSC). O primeiro é o presidente da CDL-Campos, enquanto Mérida é secretário de Desenvolvimento Econômico de Wladimir e já presidiu a CDL-Campos e a Federação das CDLs no Estado do Rio. Wladimir e Fábio já se comprometeram a buscar o diálogo com os setores da sociedade afetados pelas propostas do governo antes de as apresentarem.

A lição evitaria o desgaste também com a classe artística na proposta de parceria com a Associação Evangélica de Campos (AEC) para manutenção e administração do Parque Alberto Sampaio — entenda a polêmica aqui e aqui. Após forte reação do setor cultural da cidade, a nova proposta do prefeito, assegurando a utilização dos artistas do anfiteatro, assim como seu batismo com o nome do falecido diretor teatral e poeta Antonio Roberto Kapi, será debatido às 19h desta sexta em reunião extraordinária virtual do Conselho Municipal de Cultura (Comcultura). Que também não foi consultado antes.

Para manter o diálogo permanente com o setor produtivo, como Wladimir adiantou (comfira aqui) em entrevista ao programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, em 11 de junho, o Conselho Municipal de Desenvolvimento Sustentável (Comudes) será reativado.

 

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Wladimir vai manter anfiteatro Kapi e Praça da Bíblia

 

Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi, e Wladimir Garotinho (Fotos: César Ferreira e Rodrigo Silveira/ montagem: Joseli Mathias)

“Vamos manter o nome de Kapi no anfiteatro que ele inaugurou e batiza. E manter a parceria com a Associação Evangélica de Campos (AEC), para conservação e manutenção de todo o Parque Alberto Sampaio. No espaço entre o anfiteatro Kapi e onde o Camelódromo funciona provisoriamente, passará a se chamar Praça da Bíblia. Assim todos, artistas e religiosos, poderão usar o Parque, que também continuará a se chamar Alberto Sampaio, garantindo que ele será cuidado, sem ônus ao poder público”. Foi o que garantiu agora ao blog o prefeito Wladimir Garotinho (PSD).

Desde que foi noticiado (confira aqui) na segunda (28), o projeto do governo Wladimir de entregar a administração do Parque Alberto Sampaio à Associação dos Evangélicos de Campos (AEC), passando-a a chamá-la de Praça da Bíblia, o assunto gerou polêmica, que hoje foi abordada com detalhes aqui, pelo blog e pela Folha. Sobretudo porque o espaço público foi batizado desde 2017 (confira aqui) com o nome do diretor teatral, poeta e carnavalesco Antonio Roberto de Góes Cavalcanti, o Kapi, morto em 2015.

 

Parque Alberto Sampaio (Foto: Luiz Macapá/Supcom)

 

Para discutir a questão uma reunião extraordinária virtual do Conselho Municipal de Cultura (Comcultura) de Campos foi convocada para às 19h desta sexta (02). Com o Comcultura presidido pela presidente também da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Auxiliadora Freitas (confira aqui) a nova proposta de Wladimir será apresentada oficialmente à classe artística e cultural do município.

 

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Presidente da FCJOL e Comcultura defende artistas e governo

Desde que foi noticiado (confira aqui) na segunda (28), o projeto do governo Wladimir Garotinho (PSD) de entregar a administração do Parque Alberto Sampaio à Associação dos Evangélicos de Campos (AEC), passando-a a chamá-la de Praça da Bíblia, a polêmica tomou conta das redes sociais de Campos. Sobretudo porque o espaço público foi batizado desde 2017 (confira aqui) com o nome do diretor teatral, poeta e carnavalesco Antonio Roberto de Góes Cavalcanti, o Kapi, morto em 2015. Para discutir a questão, uma reunião extraordinária virtual do Conselho Municipal de Cultura (Comcultura) de Campos foi convocada para às 19h desta sexta (02).

O caso foi hoje abordado aqui na Folha da Manhã e neste Opiniões. Demandas foram geradas pelo blog e o jornal, com atores importantes da cena cultural do município. Entre eles, a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Auxiliadora Freitas. Que deu a posição da Cultura do poder público municipal equilibrada entre a defesa da participação dos artistas na discussão, assim como do projeto “Amigos da Cidade” do governo Wladimir, para “possibilitar a manutenção e o cuidado que todas as nossas praças e equipamentos públicos em geral precisam ter”.

Confira abaixo a íntegra da posição de Auxiliadora como presidente da FCJOL, que também ocupa a presidência do Comcultura:

 

Auxiliadora Freitas, presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima e do Conselho Municipal de Cultura de Campos (Foto: Divulgação)

 

“Meu posicionamento de gestora pública de cultura sempre será a favor da história, da memória e, consequentemente, da cultura do município e do país, ressaltando meu olhar de educadora e fruidora de cultura do município. Penso que, nesta questão do Alberto Sampaio, há que se considerar ser ele um espaço identitário, de pertencimento de artistas de diversas gerações e que, portanto, precisa ser discutida, considerada e preservada dentro de todos os ângulos e aspectos que envolvem os artistas, os fazedores e fazedoras de cultura e o próprio poder público, que nesse momento tenta estabelecer parcerias que venham a possibilitar a manutenção e o cuidado que todas as nossas praças e equipamentos públicos em geral precisam ter.

Caso contrário estaremos fazendo o mesmo que foi feito com a demolição do Cine Teatro Trianon e, mais recentemente, com o Palácio da Cultura, entregue a um projeto de ordem tecnológico com viés econômico e não cultural, que estamos trabalhando para voltar a ter o protagonismo da cultura. Tais legados acabam por comprometer nossos equipamentos culturais. No entanto, afirmo que as praças da cidade não são equipamentos gerenciados pela FCJOL, logo, as informações relativas a projetos de revitalização da Praça Alberto Sampaio e seu anfiteatro devem ser direcionadas às secretarias de Comunicação e de Governo, que têm muito mais elementos sobre estas ações de governo.

Cabe ressaltar que o projeto ‘Amigos da Cidade’, onde a Prefeitura busca parcerias entre o poder público e a iniciativa privada é fundamental para fazer nossa cidade caminhar no resgate de um território de melhor qualidade de vida para seus munícipes, observando os princípios da diversidade, do público e do estado laico”.

 

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Artistas reagem à entrega do anfiteatro Kapi aos evangélicos

 

Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi (Foto: César Ferreira)

 

Kapi aos evangélicos?

“O anfiteatro do Parque Alberto Sampaio não precisa virar outra coisa. Ele já é um espaço cultural com nome e sobrenome: Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, Kapi”. Foi o que disse o ator Alexandre Ferram, entre as várias reações negativas da classe artística ao novo projeto do prefeito Wladimir Garotinho (PSD). Na segunda (28), ele anunciou (confira aqui) que o Parque Alberto Sampaio, cujo anfiteatro foi batizado em 2017 (confira aqui) com o nome de Kapi, tenha sua administração entregue à Associação Evangélica de Campos. E passe a se chamar “Praça da Bíblia”. Morto em 2015, Kapi nunca foi santo. Mas, em seus 59 anos de vida, foi sem favor um profeta da arte e cultura de Campos, como diretor teatral, poeta, carnavalesco e turismólogo.

 

Parque Alberto Sampaio (Foto: Luiz Macapá/Supcom)

 

Opções de Wladimir e dos artistas

Ouvido pela coluna ainda na segunda, o prefeito apresentou uma opção: se a classe artística de Campos quiser, pode sugerir outro espaço público para que receba o nome de Kapi, contando com o apoio do Executivo goitacá. A proposta foi repassada às várias fontes do setor cultural da cidade ouvidas pela coluna. E gerou contrapropostas: “não seria melhor que a Praça do SS. Salvador fosse a Praça da Bíblia? Quem mais sagrado que o Santíssimo, e quem mais próximo da Bíblia que ele? Que visibilidade maior poderíamos ter?”, questionou a historiadora Sylvia Paes. De fato, Campos já tem duas Praças da Bíblia.

 

Da vanguarda ao ostracismo

O Parque Alberto Sampaio teve seu anfiteatro inaugurado por Kapi. Quando ele lá dirigiu a peça “Arena conta Zumbi”, de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, em maio de 1988. Foi no governo Zezé Barbosa, ano em que Anthony Garotinho (hoje, sem partido) se elegeu a primeira vez prefeito de Campos. Kapi participaria também daquele governo, cujo grupo político veio do teatro. Foi um dos jovens de então que lhe deram caráter inovador. As coisas mudaram na eleição de 2008, quando o artista gravou um vídeo de apoio a Arnaldo Vianna (PDT) a prefeito. E foi por isso condenado ao ostracismo nos oito anos de governo Rosinha.

 

Em 9 de maio de 2016, na primeira noite de ocupação do Teatro de Bolso, os artistas não se intimidaram com a pressão da Guarda Civil, que impediu a entrada de água e alimentos para quem estava dentro do teatro (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

“Ocupa TB”

A perseguição política contra um dos maiores artistas da história de Campos fez com que ele entrasse em depressão. Soropositivo de HIV, teve seu sistema imunológico afetado, no que pode ter abreviado sua vida. E não mereceu do poder público municipal nem o velório no Trianon, que ele também inaugurou ainda no esqueleto, em 1995, com a montagem da peça “Gota D’Água”, de Chico Buarque e Paulo Pontes. Morto em 2015, Kapi não viveu para ver o “Ocupa TB” entre maio e junho de 2016, quando o Teatro de Bolso (TB) Procópio Ferreira, então fechado há dois anos, foi ocupado e reaberto (confira aqui e aqui) pelos artistas de Campos.

 

Em 11 de julho de 2013, artistas de Campos protestaram na praça do Santíssimo Salvador e diante do Tatro Trianon contra censura à peça de Nelson Rodrigues em Campos por motivos religiosos do governo municipal (Foto: Valmir Oliveira/Folha da Manhã)

 

“Nelson Censurado”

Embora não tivesse cargo no governo da mãe, Wladimir o acompanhou bem de perto para ver que a classe artística pode não dar voto, mas tira. O garotismo seria apeado da Prefeitura ainda no primeiro turno de 2016, quatro meses após o “Ocupa TB”. Que foi o passo seguinte dos artistas de Campos ao movimento “Nelson Censurado” (confira aqui) de 2013, quando a peça “Bonitinha, mas ordinária” teve uma apresentação cancelada no Trianon. Integrante do grupo carioca que a apresentaria, Rodrigo Vahia externou à época o motivo (confira aqui): “Simplesmente porque a peça de Nelson Rodrigues poderia ofender a prefeita Rosinha Garotinho, que é evangélica”.

 

Da religião à política

Inegável que o espaço do Alberto Sampaio vinha degradado há muito tempo. Sobretudo depois de ser coberto pela Ponte Brizola, inaugurada em 2007 e batizada inicialmente de Rosinha. Como pode não ser ignorado que o apóstolo Renan Siqueira, presidente da Associação Evangélica de Campos na parceria de 2021, é irmão de Renê Siqueira, marido da ex-vereadora Rosilani do Renê (PSC), subsecretária do Idoso de Wladimir. Apoio que, na relação indesejada entre religião e política, se tornou mais necessário após o vereador Anderson de Matos (Republicanos), pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, ter se convertido à oposição.

 

Comércio e artistas

O governo Wladimir sofreu críticas dos comerciantes pelo lockdown entre março e abril, para conter a segunda onda da pandemia da Covid, enquanto permitia que os templos religiosos abrissem com 20% de ocupação. Ali renasceu a força política do setor produtivo goitacá, responsável não só pela abreviação do lockdown, como pelo engavetamento do novo Código Tributário (confira aqui) no último dia 16, após rachar (confira aqui) a base governista na Câmara. O erro do governo tem sido abrir o debate com o principal setor interessado só após fazer suas propostas, não na sua formulação. Deu errado com o comércio. E nada indica que vá ser diferente com os artistas.

 

Sociedade e Bacellar

O prefeito está certo ao pregar que a grave crise financeira de Campos (confira a série de 11 painéis da Folha sobre o tema, de julho a setembro de 2020, publicada aquiaquiaquiaquiaqui, aquiaqui, aqui, aquiaqui e aqui) só será vencida com união. Que só virá com os setores da sociedade chamados para ser parte da solução, não encarados como antagonistas quando a falta de consenso agrava o problema. Este foi o erro também cometido pelo governo Rafael Diniz (Cidadania). Ontem (29), sobre a pacificação de Wladimir com o secretário estadual de Governo Rodrigo Bacellar (SD), o jornal carioca Extra publicou (confira aqui) na nota intitulada “Ironia”: “O prefeito diz esperar pelo rival em seu gabinete — para os dois darem as mãos pela cidade”. Sem nenhuma ironia, a sociedade espera e merece o mesmo convite.

 

Publicado hoje (30) na Folha da Manhã

 

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A história de Artur Xexéo também com o jornalismo de Campos

 

Em 22 de novemrbo de 2018, Aluysio Abreu, Cláudia Eleonora, Cristina Lima, Ocinei Trindade, Wagner Schwartz e Artur Xexéo, nos bastidores da 10ª Bienal do Livro de Campos, antes do seu maior e mais prestigiado evento, a mesa de debate “Fake News: Mentiras Verdadeiras”

 

Conheci o jornalista Artur Xexéo em meados dos anos 1990, quando trabalhei na Agência Jornal do Brasil, no antigo e gigantesco prédio da Av. Brasil, na descida da Ponte Rio/Niterói, onde hoje funciona o Instituto Nacional de Traumato-Ortopedia (Into). Já à época, ele brilhava como jornalista cultural do Jornal do Brasil (JB), que por sua vez ainda rivalizava como maior jornal do Rio de Janeiro com O Globo. Para onde Xexéo depois iria, como vários outros nomes de destaque do velho JB. Dele ao Globo, fui seu leitor assíduo, assim como seu telespectador pela GloboNews, até sua morte por câncer ontem (27), no domingo, aos 69 anos.

Tempos depois, creio que no início dos anos 2000, ao ler uma sua coluna, no Segundo Caderno de O Globo, deparei-me com um erro de Xexéo. Ele disse que o profeta do Velho Testamento Moisés tinha aberto o Mar Morto. Em uma época pré-redes sociais — sim, este mundo já existiu! — enviei a ele um e-mail, dizendo que o mar aberto por Moisés, para os hebreus fugirem do cativeiro e da perseguição do faraó do Egito, foi o Vermelho. Mas não sem dar-lhe uma cutucada: “morto, no caso, se resume ao valor da sua informação”. Sempre aberto ao contraditório, ele escreveu sua coluna seguinte falando do erro que cometera. E, entre as tantas correções que recebeu, abriu com a transcrição da minha.

Em 2018, fui convidado pela então presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Cristina Lima, para participar do debate “Fake News: Mentiras Verdadeiras”. Seria o evento maior da 10ª e última Bienal do Livro de Campos, realizada no IFF em novembro daquele ano. E a mesa composta também de Artur Xexéo, dos jornalistas campistas Cláudia Eleonora e Ocinei Trindade, além do coreógrafo e artista plástico Wagner Schwartz. A presença deste foi questionada por figuras obscuras da extrema-direita de Campos. Que buscaram ganhar evidência ao propor o boicote à Bienal, assumindo sua condição de inimigos dos livros e da cultura, característica do ressentimento intelectual que tanto marca o bolsonarismo.

A resistência da baixa bolsonaria campista se deu porque Schwartz, um ano antes, foi envolvido em uma polêmica nacional. Em 26 de setembro de 2017, em uma performance artística com seu corpo nu, no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, ele foi filmado tendo o pé tocado por uma menina de 4 anos, acompanhada da mãe. As cenas editadas da criança interagindo com o artista viralizaram nas redes sociais, com o segundo sendo linchado moralmente e até dado como morto, sob uma chuva de fake news em associação vil e mentirosa de pedofilia. Em 14 de novembro de 2018, em meio à polêmica na Bienal, oito dias antes do debate, este foi aberto pela Folha Dois. Quando Xexéo falou ao jornalista Matheus Berriel (confira aqui) sobre a questão:

— Me parece, pessoalmente, que é um protesto antigo. Não consigo imaginar o porquê de, em pleno século 21, estar se discutindo uma nudez como performance artística, se ela é adequada ou não. Acho que existe nudez em performances artísticas desde sempre, ou num quadro dos impressionistas, ou como performance mesmo a partir dos anos 1960. Se tivesse uma repercussão nos anos 1960 do século passado, eu entenderia. Hoje, eu não entendo. É um radicalismo até boçal falar nisso. Você protestar contra o ato, protestar contra a manifestação artística, faz parte do jogo da democracia. A democracia tem que ter todos os lados. Mas, até que ponto vale esse protesto? Você tentar impedir que uma pessoa participe de uma mesa de debate porque ela tem essa história no seu currículo artístico, aí não dá para aceitar. Isso não é democrático, é antidemocrático. (…) O mal da fake news, hoje, é que as notícias são desmentidas e o boato continua. Isso que é difícil de aceitar.

 

Sentados no palco, da esquerda à direita: Wagner Schwartz, Aluysio Abreu Barbosa, Ocinei Trindade, Cláudia Eleonora e Artur Xexéo (Foto: Isaias Fernandes/Folha da Manhã)

 

Abrilhantado pela presença de Xexéo, a mesa de debate mediada por Ocinei foi (confira aqui) um sucesso. Lotou o auditório Cristina Bastos, no IFF, na noite daquele 22 de novembro de 2018. E confirmou sua expectativa de maior evento da última Bienal do Livro de Campos. Com a morte ontem de Xexéo, creio falar também em nome da Cláudia Eleonora e do Ocinei, ao afirmar que foi uma página importante do jornalismo goitacá, aliado com o que ele traz como referência nacional, na luta pela liberdade de expressão e pela própria democracia.

Não sem orgulho por, junto a colegas de Campos, ter lutado o “bom combate” ao lado de um grande jornalista brasileiro, fica o desejo sincero: vá em paz, Xexéo! E a certeza: você fará falta!

 

Confira o artigo intitulado “O fato e o fake na Bienal do Livro de Campos”, publicado em 25 de novembro de 2018, sobre a experiência tensa e prazerosa daquele debate com Xexéo.   

 

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