A partir das 7h da manhã desta segunda (05), quem abrirá a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, será a historiadora Sylvia Paes. Ela falará sobre a polêmica da data de nascimento de Campos dos Goytacazes (confira aqui). Assim como a não menos polêmica proposta de abrigar evangélicos e artistas (confira aqui e aqui) no mesmo espaço público do Parque Alberto Sampaio, com o anfiteatro Antonio Roberto de Góis Cavacanti, o Kapi, além de analisar os seis meses do governo Wladimir Garotinho (PSD).
Por fim, Sylvia tentará colocar o Brasil do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na perspectiva da História. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Costumo chamar Campos dos Goytacazes de Sucupira. Talvez por enxergar nos governantes um perfil demagogo, que eles fazem questão de apresentar, muito próximo ao de Odorico. Quase tudo que fazem é em nome de Deus e da Paz. Risível.
Escrevo isso por que foi criada uma fabulação para transformar o Teatro de Arena, ou Anfiteatro “Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, Kapi”, que fica no Parque Alberto Sampaio, em Praça da Bíblia. Francamente. Isso é desrespeitoso.
Repentinamente, aqueles que imaginaram que a classe não se manifestaria, mudou o discurso, mas não a ideia, logo, pouca coisa muda no contexto.
Não consigo imaginar um “templo” com dois deuses, se é que me entendem.
Acredito que ser artista seja um ato político e ser político é reconhecer a arte como tal. Quando se volta atrás com uma palavra é porque o que falamos reverbera, seja na arte ou na política. É preciso talento, responsabilidade social e cívica para atuar nesses palcos.
O teatro, a música, as artes plásticas têm uma força social enorme, cheias de energia. A arte, em geral, possui esse poder. Não há gritos para convencer as pessoas, sabe. Há uma mágica, um silêncio que leva a plateia à reflexão. Deve ser por isso que ela é revolucionária, a arte. Não precisamos de histeria, precisamos de espaço, de parcerias, de atitude. Não precisamos de um governo que desconhece o que é laico, que sinaliza desinteresse pela cultura e parece tentar eliminá-la.
Interpretei Dandara no espetáculo “Arena conta Zumbi” de Guarnieri e Boal. Isso foi em 1988, quando foi inaugurado o Anfiteatro do Alberto Sampaio. E quem assinava a direção era Kapi.
O nome do Anfiteatro continuará tecendo homenagem a ele, Kapi, e a Prefeitura cumprirá com a lei n° 8.757, de junho de 2017. Foi o que entendi.
Porém, não vejo sentido em dividir esse espaço com cristãos evangélicos. São muitos os segmentos religiosos que gostariam de usar espaços públicos para suas manifestações, e aí?
O Estado é LAICO. Não se pode transformar em cozinha de casa aquilo que é sala de visita para todos.
Mas dirão que a parceria acontecerá para manter o espaço e que a Prefeitura não pode assumir sozinha, esse compromisso.
Penso que se os governos pararem com essa marginalização da classe artística e se interessarem, verdadeiramente, pelo saber, pelas manifestações artísticas e escutarem a classe para que, juntos, façam uma efervescência cultural, esse espaço poderá abrigar, em sua estrutura oficinas, apresentações, espaço para debates…
Mas a política não parece gostar de seres que pensam no coletivo, que são ingredientes. Preferem a massa feita de dogmas e individualidade.
Continuo comungando da genialidade do Kapi. Ele que declarou, desde sempre, seu amor à arte e aos Campos dos Goytacazes. Ele que sempre viu a cultura como elemento fundamental para a construção do ser. Ele que se sabia deus, porque deus não é uma alegoria. É o que mora dentro da gente, logo não precisa de espaços públicos para acontecer.
Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi (Foto: César Ferreira)
Wellington Cordeiro, jornalista e presidente da AIC
“Depois de causar a revolta da classe artística de Campos com a notícia do atropelamento da homenagem ao diretor de teatro Antonio Roberto de Góes Cavalcanti, o Kapi, que era nome do anfiteatro do Parque Alberto Sampaio, a Prefeitura de Campos desfez parte do equívoco, mantendo a homenagem prestada em 2017. Porém, manteve a parceria com uma entidade religiosa para manter e utilizar o local. Será possível ter cultos evangélicos no palco batizado de Kapi?”. A pergunta foi feita pelo jornalista Wellington Cordeiro, presidente da Associação de Imprensa Campista (AIC). E resume a dúvida que ficou após o prefeito Wladimir Garotinho (PSD) ter anunciado (confira aqui) na segunda (28) que o Parque Alberto Sampaio passaria a ser administrado pela Associação dos Evangélicos de Campos (AEC), com o nome de Praça da Bíblia. Como o anfiteatro ali instalado já havia sido batizado em 2017 (confira aqui) como Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi, morto em 2015 e que inaugurou aquele espaço em 1988, na direção de uma histórica montagem da peça “Arena conta Zumbi”, a reação da classe artística de Campos (confira aqui) contra a proposta foi forte e rápida. E fez o prefeito recuar parcialmente (confira aqui) na quarta (30), mantendo o nome de Kapi ao anfiteatro e a utilização do resto do Alberto Sampaio pela AEC, para fazer a manutenção de todo o parque sem ônus ao município.
Parque Alberto Sampaio (Foto: Luiz Macapá/Supcom)
Fábio Ribeiro, presidente da Câmara Municipal de Campos
A contraproposta do prefeito foi formalmente apresentada em reunião virtual extraordinária do Conselho Municipal de Cultura (Comcultura), convocada para tratar do assunto (confira aqui) na noite de ontem (02). Mas seus passos futuros foram projetados (confira aqui) desde quinta (01) pelo vereador Fábio Ribeiro (PSD), presidente da Câmara Municipal, onde será recebida e votada a proposta do governo. “Depois do projeto ser apresentado na reunião do Comcultura, vamos mediar entre os representantes dos artistas e da Associação de Evangélicos como e quando cada um vai usar cada espaço. Penso que terá que ser em dias separados, organizados pela Prefeitura. Temos cerca de um mês para discutir com todos os atores envolvidos, antes de colocar o projeto em votação”. À essa mediação proposta pelo presidente da Câmara, permanece a indagação do presidente da AIC: “Será possível ter cultos evangélicos no palco batizado de Kapi?”.
Lúcia Talabi, atriz
A classe artística e cultural de Campos não teve a unanimidade “burra” do dramaturgo Nelson Rodrigues. Mas a maioria olhou a proposta governista com desconfiança. “O Parque Alberto Sampaio ter a manutenção da Associação Evangélica e ser de uso também dos artistas, como disse o prefeito ao refazer o acordo após a reação contrária da sociedade campista, parece uma boa solução, mas não é! Ter um espaço público, historicamente identificado como de arte e cultura, entregue a uma instituição privada e religiosa com poder de influenciar em legislações e políticas públicas, é uma lógica que não nos serve. Existe aí um projeto político que não é interessante para a promoção cultural em Campos”, denunciou a atriz Lúcia Talabi. Como Kapi, para além do teatro, teve atuação de destaque também como poeta e carnavalesco, representantes de outros setores foram ouvidos pela Folha.
Arlete Sendra, literata e dramaturgaToninho Shita, compositor de samba
“Fiquei aliviado quando soube que vão manter o nome de Kapi no anfiteatro do Parque Alberto Sampaio, quando não deveriam nem cogitar a retirada do mesmo. O grande Antonio Roberto Kapi nos deixou legados culturais importantes e pessoas com essa genialidade não nascem todos os dias. Me sinto inseguro, mas como os recursos não sairão dos cofres públicos, não posso me opor”, contemporizou o compositor de samba Toninho Shita. “Penso que será ético e respeitoso que não se imponha o convívio de pensares tão radicalmente heterogêneos no mesmo espaço. Quero acreditar que interesses subreptícios não estejam no comando desta estranha proposta. Quero acreditar que outros campos em Campos podem ser visualizados e usados”, propôs a literata e dramaturga Arlete Sendra.
Alexandre Ferram, atorSylvia Paes, historiadora
“Não se esperava mais de um descendente de governos que fecharam teatros e abandonaram equipamentos de cultura, mas acreditava ao menos que a proposta fosse analisada previamente com a comunidade e os setores envolvidos. Um palco com nome de Kapi sendo ocupado para realização de cultos evangélicos é no mínimo desonrar a memória do artista que ele foi, que ele é. Neste caso, é melhor tirar o nome dele disso”, sentenciou o ator Alexandre Ferram. “Nós que já temos duas praças como o mesmo nome de Praça da Bíblia, agora uma terceira, e não somos por esse motivo uma sociedade abençoada. O que deu errado? As parcerias público-privadas são importantíssimas, afinal a cidade é de todos, independentemente de questões religiosas, políticas ou sociais, justamente para que não se fragmente em gostos particulares”, advertiu a historiadora Sylvia Paes.
Adriano Moura, literato, poeta e dramaturgoGraziela Escocard, historiadora
“A arena do Parque Alberto Sampaio permaneceu muito tempo abandonada. Mesmo fazendo uma homenagem ao nosso querido Kapi, não ocuparam devidamente. A falta de cuidado fez o espaço cair no esquecimento. Mas dar outro nome à arena da praça seria uma forma de apagar a memória cultural de nossa cidade”, ponderou a historiadora Graziela Escocard, diretora do Museu Histórico de Campos. “O Parque Alberto Sampaio precisa ser revitalizado e destinado à sua função original: lazer e cultura. O anfiteatro do parque recebeu o nome de Kapi, uma das figuras mais representativas da arte e cultura de Campos. Mudar o nome do local contribui para o apagamento da memória desse grande artista. Destiná-lo à gestão e utilização de eventos evangélicos deveria ser considerado, inclusive, inconstitucional, já que vivemos num Estado laico”, pregou o literato, poeta e dramaturgo Adriano Moura.
Analice Martins, literata e poetaSidinho Ramos, carnavalesco e estilista
“O anfiteatro localizado no Jardim de Allah foi uma obra realizada no final do governo do saudoso prefeito Zezé Barbosa, com o espetáculo teatral dirigido por Kapi, ‘Arena conta Zumbi’. A partir daí, Kapi cresceu muito, passando pelas escolas de samba. E foi coordenador de carnaval de Campos, desenvolvendo um excelente trabalho. Teve seu nome reconhecido na homenagem do anfiteatro. Essa história causou uma grande insatisfação na classe artística, foi um rastilho de pólvora que dura até agora”, avaliou o carnavalesco e estilista Sidinho Ramos. “Kapi foi um homem da palavra em ação, em cena, em movimento, em punho, em riste. Como poeta, diretor teatral, como artista, foi um homem que deve ser guardado em nossas memórias, em nossas vidas. Guardado como nos ensinou o poeta e filósofo Antonio Cícero: ‘Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por/ ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,/ isto é, estar por ela ou ser por ela’. Manter o nome, a homenagem, e entregar a gerência exclusiva do espaço à AEC seria desconfigurar o projeto de ter, nas atividades culturais a serem realizadas novamente ali, um sopro de vida, já que a arte reinventa a vida. Mobilizemo-nos, como ele o faria”, convocou a literata e poeta Analice Martins.
(Fotos: César Ferreira e Divulgação/montagem: Joseli Mathias)
Como seria o convívio entre artistas e evangélicos de Campos na utilização do mesmo espaço público do Parque Alberto Sampaio? Como seria essa separação entre exibições artísticas no anfiteatro Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi, e religiosas no espaço contíguo, a ser batizado Praça da Bíblia? Quem administraria e garantiria a independência dos objetivos muitas vezes conflitantes entre artistas e evangélicos? O que o diretor teatral, poeta, carnavalesco e turismólogo Kapi, morto em 2015, acharia disso tudo?
Todas essas perguntas passaram a ser feitas desde que Wladimir Garotinho (PSD) revelou ontem (confira aqui) seu recuo parcial no projeto de parceria com a Associação Evangélica de Campos (AEC) para manutenção do Parque Alberto Sampaio. Após forte reação da classe artística (confira aqui), o prefeito mudou sua intenção inicial (confira aqui) de destinar todo o espaço aos evangélicos. E garantiu que manteria o nome de Kapi ao anfiteatro, com o qual foi batizado desde 2017 (confira aqui), e sua utilização pelos artistas de Campos. Observador atento do cenário cultural da cidade, o blogueiro Edmundo Siqueira chegou ontem a questionar: “A emenda saiu pior que o soneto!”
Presidente da Câmara Municipal de Campos, para onde o projeto ao Alberto Sampaio terá que ser enviado e votado, o vereador Fábio Ribeiro (PSD) garantiu que não. E que, após a contraproposta de Wladimir ser apresentada oficialmente à categoria na reunião virtual extraordinária do Conselho Municipal de Cultura (Comcultura), marcada para às 19h desta sexta (02), ela será debatida entre os evangélicos da AEC e os representantes dos artistas, com a mediação do Executivo e Legislativo municipais:
— A verdade é que, depois de dar o nome de Kapi ao anfiteatro, o governo municipal passado abandonou Parque Alberto Sampaio. Com a crise financeira que Campos atravessa, o prefeito Wladimir buscou uma parceria com a Associação dos Evangélicos para se recuperar e conservar o espaço, sem ônus ao município. O prefeito reconheceu a importância de Kapi, da manutenção do seu nome ao anfiteatro e seu uso pelos artistas locais. Depois do projeto ser apresentado amanhã na reunião do Comcultura, vamos mediar entre os representantes dos artistas e da Associação de Evangélicos como e quando cada um vai usar cada espaço. Tanto o anfiteatro, quanto a Praça da Bíblia, cuja utilização será ecumênica, não apenas dos evangélicos. Penso que terá que ser em dias separados, organizados pela Prefeitura. Temos cerca de um mês para discutir isso na Câmara, com todos os atores envolvidos, antes de colocar o projeto em votação. A solução do prefeito foi salomônica.
Parque Alberto Sampaio (Foto: Luiz Macapá/Supcom)
A opinião do presidente governista tem muitos pontos em comum com a bancada de oposição. Que também reconhece o abandono do Parque Alberto Sampaio e a importância da homenagem a Kapi. E comunga da crítica dos artistas de que o diálogo do Executivo teria que ser prévio à apresentação do projeto, não só depois dele ter acendido a polêmica:
— Ainda não recebemos na Câmara o projeto de lei para avaliação da matéria, mas é bem-vinda toda iniciativa do Executivo em buscar parcerias para diminuir custos e recuperar locais degradados, como é o caso do Parque Alberto Sampaio, que está há anos abandonado, gerando conflitos e insegurança para a população. Em relação ao nome, reconheço que foi uma justa homenagem a Kapi. E acredito que a classe artística e cultural de Campos deve se manifestar, sim. Inclusive, o poder público deveria ter dialogado antes de propor a troca do nome. Mas ainda há tempo para isso e encontrar um caminho junto ao poder público municipal. Inclusive, me coloco à disposição nessa interlocução — disse o vereador oposicionista Rogério Matoso (DEM).
Reconhecido por governo e oposição, das perguntas feitas pela classe artística do qual foi e permanece referência, a mais difícil de responder é como Kapi reagiria a todo esse debate em torno do seu nome. Quem o conheceu em vida e arte, porém, tem pouca dúvida de que ele está onde sempre esteve: provocando polêmica e dirigindo o espetáculo.
CDL e Prefeitura de Campos (Montagem: Joseli Mathias)
Após o impasse que resultou no engavetamento da proposta do Código Tributário na Câmara Municipal (confira aqui) no último dia 16, as negociações entre governo municipal e entidades do setor representativo de Campos avançaram. Na sede do Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL), uma reunião das lideranças do setor e integrantes do Executivo e Legislativo, incluindo o prefeito Wladimir Garotinho (PSD) e o presidente Fábio Ribeiro (PSD), foi realizada na noite da última terça (29). E, também na CDL, outra está marcada para às 10h da manhã desta sexta (02).
Os governistas estão animados e esperam chegar a um consenso com o setor produtivo, para colocar, nos termos que forem pactuados, a proposta do novo Código novamente em votação na Câmara. A reaproximação com o setor produtivo foi costurada entres os líderes lojistas José Francisco Rodrigues e Marcelo Mérida (PSC). O primeiro é o presidente da CDL-Campos, enquanto Mérida é secretário de Desenvolvimento Econômico de Wladimir e já presidiu a CDL-Campos e a Federação das CDLs no Estado do Rio. Wladimir e Fábio já se comprometeram a buscar o diálogo com os setores da sociedade afetados pelas propostas do governo antes de as apresentarem.
A lição evitaria o desgaste também com a classe artística na proposta de parceria com a Associação Evangélica de Campos (AEC) para manutenção e administração do Parque Alberto Sampaio — entenda a polêmica aqui e aqui. Após forte reação do setor cultural da cidade, a nova proposta do prefeito, assegurando a utilização dos artistas do anfiteatro, assim como seu batismo com o nome do falecido diretor teatral e poeta Antonio Roberto Kapi, será debatido às 19h desta sexta em reunião extraordinária virtual do Conselho Municipal de Cultura (Comcultura). Que também não foi consultado antes.
Para manter o diálogo permanente com o setor produtivo, como Wladimir adiantou (comfira aqui) em entrevista ao programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, em 11 de junho, o Conselho Municipal de Desenvolvimento Sustentável (Comudes) será reativado.
Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi, e Wladimir Garotinho (Fotos: César Ferreira e Rodrigo Silveira/ montagem: Joseli Mathias)
“Vamos manter o nome de Kapi no anfiteatro que ele inaugurou e batiza. E manter a parceria com a Associação Evangélica de Campos (AEC), para conservação e manutenção de todo o Parque Alberto Sampaio. No espaço entre o anfiteatro Kapi e onde o Camelódromo funciona provisoriamente, passará a se chamar Praça da Bíblia. Assim todos, artistas e religiosos, poderão usar o Parque, que também continuará a se chamar Alberto Sampaio, garantindo que ele será cuidado, sem ônus ao poder público”. Foi o que garantiu agora ao blog o prefeito Wladimir Garotinho (PSD).
Desde que foi noticiado (confira aqui) na segunda (28), o projeto do governo Wladimir de entregar a administração do Parque Alberto Sampaio à Associação dos Evangélicos de Campos (AEC), passando-a a chamá-la de Praça da Bíblia, o assunto gerou polêmica, que hoje foi abordada com detalhes aqui, pelo blog e pela Folha. Sobretudo porque o espaço público foi batizado desde 2017 (confira aqui) com o nome do diretor teatral, poeta e carnavalesco Antonio Roberto de Góes Cavalcanti, o Kapi, morto em 2015.
Parque Alberto Sampaio (Foto: Luiz Macapá/Supcom)
Para discutir a questão uma reunião extraordinária virtual do Conselho Municipal de Cultura (Comcultura) de Campos foi convocada para às 19h desta sexta (02). Com o Comcultura presidido pela presidente também da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Auxiliadora Freitas (confira aqui) a nova proposta de Wladimir será apresentada oficialmente à classe artística e cultural do município.
Desde que foi noticiado (confira aqui) na segunda (28), o projeto do governo Wladimir Garotinho (PSD) de entregar a administração do Parque Alberto Sampaio à Associação dos Evangélicos de Campos (AEC), passando-a a chamá-la de Praça da Bíblia, a polêmica tomou conta das redes sociais de Campos. Sobretudo porque o espaço público foi batizado desde 2017 (confira aqui) com o nome do diretor teatral, poeta e carnavalesco Antonio Roberto de Góes Cavalcanti, o Kapi, morto em 2015. Para discutir a questão, uma reunião extraordinária virtual do Conselho Municipal de Cultura (Comcultura) de Campos foi convocada para às 19h desta sexta (02).
O caso foi hoje abordado aqui na Folha da Manhã e neste Opiniões. Demandas foram geradas pelo blog e o jornal, com atores importantes da cena cultural do município. Entre eles, a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Auxiliadora Freitas. Que deu a posição da Cultura do poder público municipal equilibrada entre a defesa da participação dos artistas na discussão, assim como do projeto “Amigos da Cidade” do governo Wladimir, para “possibilitar a manutenção e o cuidado que todas as nossas praças e equipamentos públicos em geral precisam ter”.
Confira abaixo a íntegra da posição de Auxiliadora como presidente da FCJOL, que também ocupa a presidência do Comcultura:
Auxiliadora Freitas, presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima e do Conselho Municipal de Cultura de Campos (Foto: Divulgação)
“Meu posicionamento de gestora pública de cultura sempre será a favor da história, da memória e, consequentemente, da cultura do município e do país, ressaltando meu olhar de educadora e fruidora de cultura do município. Penso que, nesta questão do Alberto Sampaio, há que se considerar ser ele um espaço identitário, de pertencimento de artistas de diversas gerações e que, portanto, precisa ser discutida, considerada e preservada dentro de todos os ângulos e aspectos que envolvem os artistas, os fazedores e fazedoras de cultura e o próprio poder público, que nesse momento tenta estabelecer parcerias que venham a possibilitar a manutenção e o cuidado que todas as nossas praças e equipamentos públicos em geral precisam ter.
Caso contrário estaremos fazendo o mesmo que foi feito com a demolição do Cine Teatro Trianon e, mais recentemente, com o Palácio da Cultura, entregue a um projeto de ordem tecnológico com viés econômico e não cultural, que estamos trabalhando para voltar a ter o protagonismo da cultura. Tais legados acabam por comprometer nossos equipamentos culturais. No entanto, afirmo que as praças da cidade não são equipamentos gerenciados pela FCJOL, logo, as informações relativas a projetos de revitalização da Praça Alberto Sampaio e seu anfiteatro devem ser direcionadas às secretarias de Comunicação e de Governo, que têm muito mais elementos sobre estas ações de governo.
Cabe ressaltar que o projeto ‘Amigos da Cidade’, onde a Prefeitura busca parcerias entre o poder público e a iniciativa privada é fundamental para fazer nossa cidade caminhar no resgate de um território de melhor qualidade de vida para seus munícipes, observando os princípios da diversidade, do público e do estado laico”.
Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi (Foto: César Ferreira)
Kapi aos evangélicos?
“O anfiteatro do Parque Alberto Sampaio não precisa virar outra coisa. Ele já é um espaço cultural com nome e sobrenome: Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, Kapi”. Foi o que disse o ator Alexandre Ferram, entre as várias reações negativas da classe artística ao novo projeto do prefeito Wladimir Garotinho (PSD). Na segunda (28), ele anunciou (confira aqui) que o Parque Alberto Sampaio, cujo anfiteatro foi batizado em 2017 (confira aqui) com o nome de Kapi, tenha sua administração entregue à Associação Evangélica de Campos. E passe a se chamar “Praça da Bíblia”. Morto em 2015, Kapi nunca foi santo. Mas, em seus 59 anos de vida, foi sem favor um profeta da arte e cultura de Campos, como diretor teatral, poeta, carnavalesco e turismólogo.
Parque Alberto Sampaio (Foto: Luiz Macapá/Supcom)
Opções de Wladimir e dos artistas
Ouvido pela coluna ainda na segunda, o prefeito apresentou uma opção: se a classe artística de Campos quiser, pode sugerir outro espaço público para que receba o nome de Kapi, contando com o apoio do Executivo goitacá. A proposta foi repassada às várias fontes do setor cultural da cidade ouvidas pela coluna. E gerou contrapropostas: “não seria melhor que a Praça do SS. Salvador fosse a Praça da Bíblia? Quem mais sagrado que o Santíssimo, e quem mais próximo da Bíblia que ele? Que visibilidade maior poderíamos ter?”, questionou a historiadora Sylvia Paes. De fato, Campos já tem duas Praças da Bíblia.
Da vanguarda ao ostracismo
O Parque Alberto Sampaio teve seu anfiteatro inaugurado por Kapi. Quando ele lá dirigiu a peça “Arena conta Zumbi”, de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, em maio de 1988. Foi no governo Zezé Barbosa, ano em que Anthony Garotinho (hoje, sem partido) se elegeu a primeira vez prefeito de Campos. Kapi participaria também daquele governo, cujo grupo político veio do teatro. Foi um dos jovens de então que lhe deram caráter inovador. As coisas mudaram na eleição de 2008, quando o artista gravou um vídeo de apoio a Arnaldo Vianna (PDT) a prefeito. E foi por isso condenado ao ostracismo nos oito anos de governo Rosinha.
Em 9 de maio de 2016, na primeira noite de ocupação do Teatro de Bolso, os artistas não se intimidaram com a pressão da Guarda Civil, que impediu a entrada de água e alimentos para quem estava dentro do teatro (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)
“Ocupa TB”
A perseguição política contra um dos maiores artistas da história de Campos fez com que ele entrasse em depressão. Soropositivo de HIV, teve seu sistema imunológico afetado, no que pode ter abreviado sua vida. E não mereceu do poder público municipal nem o velório no Trianon, que ele também inaugurou ainda no esqueleto, em 1995, com a montagem da peça “Gota D’Água”, de Chico Buarque e Paulo Pontes. Morto em 2015, Kapi não viveu para ver o “Ocupa TB” entre maio e junho de 2016, quando o Teatro de Bolso (TB) Procópio Ferreira, então fechado há dois anos, foi ocupado e reaberto (confira aqui e aqui) pelos artistas de Campos.
Em 11 de julho de 2013, artistas de Campos protestaram na praça do Santíssimo Salvador e diante do Tatro Trianon contra censura à peça de Nelson Rodrigues em Campos por motivos religiosos do governo municipal (Foto: Valmir Oliveira/Folha da Manhã)
“Nelson Censurado”
Embora não tivesse cargo no governo da mãe, Wladimir o acompanhou bem de perto para ver que a classe artística pode não dar voto, mas tira. O garotismo seria apeado da Prefeitura ainda no primeiro turno de 2016, quatro meses após o “Ocupa TB”. Que foi o passo seguinte dos artistas de Campos ao movimento “Nelson Censurado” (confira aqui) de 2013, quando a peça “Bonitinha, mas ordinária” teve uma apresentação cancelada no Trianon. Integrante do grupo carioca que a apresentaria, Rodrigo Vahia externou à época o motivo (confira aqui): “Simplesmente porque a peça de Nelson Rodrigues poderia ofender a prefeita Rosinha Garotinho, que é evangélica”.
Da religião à política
Inegável que o espaço do Alberto Sampaio vinha degradado há muito tempo. Sobretudo depois de ser coberto pela Ponte Brizola, inaugurada em 2007 e batizada inicialmente de Rosinha. Como pode não ser ignorado que o apóstolo Renan Siqueira, presidente da Associação Evangélica de Campos na parceria de 2021, é irmão de Renê Siqueira, marido da ex-vereadora Rosilani do Renê (PSC), subsecretária do Idoso de Wladimir. Apoio que, na relação indesejada entre religião e política, se tornou mais necessário após o vereador Anderson de Matos (Republicanos), pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, ter se convertido à oposição.
Comércio e artistas
O governo Wladimir sofreu críticas dos comerciantes pelo lockdown entre março e abril, para conter a segunda onda da pandemia da Covid, enquanto permitia que os templos religiosos abrissem com 20% de ocupação. Ali renasceu a força política do setor produtivo goitacá, responsável não só pela abreviação do lockdown, como pelo engavetamento do novo Código Tributário (confira aqui) no último dia 16, após rachar (confira aqui) a base governista na Câmara. O erro do governo tem sido abrir o debate com o principal setor interessado só após fazer suas propostas, não na sua formulação. Deu errado com o comércio. E nada indica que vá ser diferente com os artistas.
Sociedade e Bacellar
O prefeito está certo ao pregar que a grave crise financeira de Campos (confira a série de 11 painéis da Folha sobre o tema, de julho a setembro de 2020, publicada aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) só será vencida com união. Que só virá com os setores da sociedade chamados para ser parte da solução, não encarados como antagonistas quando a falta de consenso agrava o problema. Este foi o erro também cometido pelo governo Rafael Diniz (Cidadania). Ontem (29), sobre a pacificação de Wladimir com o secretário estadual de Governo Rodrigo Bacellar (SD), o jornal carioca Extra publicou (confira aqui) na nota intitulada “Ironia”: “O prefeito diz esperar pelo rival em seu gabinete — para os dois darem as mãos pela cidade”. Sem nenhuma ironia, a sociedade espera e merece o mesmo convite.
Em 22 de novemrbo de 2018, Aluysio Abreu, Cláudia Eleonora, Cristina Lima, Ocinei Trindade, Wagner Schwartz e Artur Xexéo, nos bastidores da 10ª Bienal do Livro de Campos, antes do seu maior e mais prestigiado evento, a mesa de debate “Fake News: Mentiras Verdadeiras”
Conheci o jornalista Artur Xexéo em meados dos anos 1990, quando trabalhei na Agência Jornal do Brasil, no antigo e gigantesco prédio da Av. Brasil, na descida da Ponte Rio/Niterói, onde hoje funciona o Instituto Nacional de Traumato-Ortopedia (Into). Já à época, ele brilhava como jornalista cultural do Jornal do Brasil (JB), que por sua vez ainda rivalizava como maior jornal do Rio de Janeiro com O Globo. Para onde Xexéo depois iria, como vários outros nomes de destaque do velho JB. Dele ao Globo, fui seu leitor assíduo, assim como seu telespectador pela GloboNews, até sua morte por câncer ontem (27), no domingo, aos 69 anos.
Tempos depois, creio que no início dos anos 2000, ao ler uma sua coluna, no Segundo Caderno de O Globo, deparei-me com um erro de Xexéo. Ele disse que o profeta do Velho Testamento Moisés tinha aberto o Mar Morto. Em uma época pré-redes sociais — sim, este mundo já existiu! — enviei a ele um e-mail, dizendo que o mar aberto por Moisés, para os hebreus fugirem do cativeiro e da perseguição do faraó do Egito, foi o Vermelho. Mas não sem dar-lhe uma cutucada: “morto, no caso, se resume ao valor da sua informação”. Sempre aberto ao contraditório, ele escreveu sua coluna seguinte falando do erro que cometera. E, entre as tantas correções que recebeu, abriu com a transcrição da minha.
Em 2018, fui convidado pela então presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Cristina Lima, para participar do debate “Fake News: Mentiras Verdadeiras”. Seria o evento maior da 10ª e última Bienal do Livro de Campos, realizada no IFF em novembro daquele ano. E a mesa composta também de Artur Xexéo, dos jornalistas campistas Cláudia Eleonora e Ocinei Trindade, além do coreógrafo e artista plástico Wagner Schwartz. A presença deste foi questionada por figuras obscuras da extrema-direita de Campos. Que buscaram ganhar evidência ao propor o boicote à Bienal, assumindo sua condição de inimigos dos livros e da cultura, característica do ressentimento intelectual que tanto marca o bolsonarismo.
A resistência da baixa bolsonaria campista se deu porque Schwartz, um ano antes, foi envolvido em uma polêmica nacional. Em 26 de setembro de 2017, em uma performance artística com seu corpo nu, no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, ele foi filmado tendo o pé tocado por uma menina de 4 anos, acompanhada da mãe. As cenas editadas da criança interagindo com o artista viralizaram nas redes sociais, com o segundo sendo linchado moralmente e até dado como morto, sob uma chuva de fake news em associação vil e mentirosa de pedofilia. Em 14 de novembro de 2018, em meio à polêmica na Bienal, oito dias antes do debate, este foi aberto pela Folha Dois. Quando Xexéo falou ao jornalista Matheus Berriel (confira aqui) sobre a questão:
— Me parece, pessoalmente, que é um protesto antigo. Não consigo imaginar o porquê de, em pleno século 21, estar se discutindo uma nudez como performance artística, se ela é adequada ou não. Acho que existe nudez em performances artísticas desde sempre, ou num quadro dos impressionistas, ou como performance mesmo a partir dos anos 1960. Se tivesse uma repercussão nos anos 1960 do século passado, eu entenderia. Hoje, eu não entendo. É um radicalismo até boçal falar nisso. Você protestar contra o ato, protestar contra a manifestação artística, faz parte do jogo da democracia. A democracia tem que ter todos os lados. Mas, até que ponto vale esse protesto? Você tentar impedir que uma pessoa participe de uma mesa de debate porque ela tem essa história no seu currículo artístico, aí não dá para aceitar. Isso não é democrático, é antidemocrático. (…) O mal da fake news, hoje, é que as notícias são desmentidas e o boato continua. Isso que é difícil de aceitar.
Sentados no palco, da esquerda à direita: Wagner Schwartz, Aluysio Abreu Barbosa, Ocinei Trindade, Cláudia Eleonora e Artur Xexéo (Foto: Isaias Fernandes/Folha da Manhã)
Abrilhantado pela presença de Xexéo, a mesa de debate mediada por Ocinei foi (confira aqui) um sucesso. Lotou o auditório Cristina Bastos, no IFF, na noite daquele 22 de novembro de 2018. E confirmou sua expectativa de maior evento da última Bienal do Livro de Campos. Com a morte ontem de Xexéo, creio falar também em nome da Cláudia Eleonora e do Ocinei, ao afirmar que foi uma página importante do jornalismo goitacá, aliado com o que ele traz como referência nacional, na luta pela liberdade de expressão e pela própria democracia.
Não sem orgulho por, junto a colegas de Campos, ter lutado o “bom combate” ao lado de um grande jornalista brasileiro, fica o desejo sincero: vá em paz, Xexéo! E a certeza: você fará falta!
Presidente Jair Bolsonaro e seu líder na Câmara Federal, o deputado do Centrão Ricardo Barros
“Se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”. Era a convenção nacional do PSL, em 22 de julho de 2018, quando o general da reserva do Exército Augusto Heleno cantou sua paródia da música “Se gritar pega ladrão”, do sambista Bezerra da Silva. Em 2018, o bloco fisiológico de partidos de centro-direita e direita, ao qual Jair Bolsonaro (hoje, sem partido) sempre pertenceu em seus 30 anos de vida parlamentar, apoiava o presidenciável Geraldo Alckmin (PSDB). Mas o Centrão pulou para Bolsonaro antes mesmo do primeiro turno, quando as pesquisas deixaram claro que o candidato tucano não iria ao segundo. Como já tinha pulado antes dos governos Fernando Collor de Mello (hoje, Pros) e Dilma Rousseff (PT), que igualmente apoiaram, quando o impeachment de ambos se mostrou inevitável.
Em dois anos e meio de governo, Jair Bolsonaro (sem partido) vive sua pior fase. Que é atestada em todas as pesquisas. A mais recente, do Ipec, montado pela equipe do antigo Ibope, divulgou na madrugada de ontem que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem hoje 49% de intenções de voto, contra 23% do capitão. Como nenhum outro presidenciável chegou a dois dígitos e com 10% de brancos e nulos, mais 3% que não souberam ou quiseram responder, a consulta indica que Lula não é apenas o favorito ao pleito presidencial de 2022. Se fosse hoje, ele o venceria no primeiro turno.
(Infográfico: Poder 360)
Não cabe reproduzir o negacionismo bolsonarista das pesquisas. Até porque, quando elas favorecem o seu “mito”, como foi a pesquisa Datafolha de agosto de 2020, que registrou o aumento da aprovação popular do governo Bolsonaro, então de 37%, o pastor neopentecostal Silas Malafaia comemorou em postagem do Twitter: “A imprensa e os esquerdopatas piram com Bolsonaro! Como pode isso acontecer? Cinco meses de massacre na mídia e Bolsonaro consegue sua maior aprovação, segundo o Datafolha, desde sua eleição”. Depois, em linguagem imprópria a quem se diz “homem de Deus”, mas é reproduzida diariamente na Geena das redes sociais por ditos “cristãos”, arrematou: “Chupa essa manga cambada!”
A IMPRENSA EO ESQUERDOPATAS PIRAM COM BOLSONARO! Como pode isso acontecer ? 5 meses de massacre na mídia e Bolsonaro consegue sua maior aprovação, segundo o DataFolha, desde sua eleição. O POVO NÃO É BOBO E A IMPRENSA PARCIAL PERDEU CREDIBILIDADE. CHUPA ESSA MANGA CAMBADA!
O primeiro turno de 2022 tem data prevista para 2 de outubro. Está pouco mais de 15 meses distante da última pesquisa Ipec, com espaço para muita água passar por baixo da ponte, sob os céus do ex-governador mineiro Magalhães Pinto, famoso pela definição: “Política é como nuvem. Você olha e está de uma maneira. Olha de novo e ela já mudou”. E, para projetar o futuro, é recomendável olhar antes o passado. Desde que a instituição do segundo turno passou a existir nas eleições ao Executivo no Brasil, a partir da Constituição de 1988, apenas um presidente foi eleito em turno único: Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 1994 e 1998, batendo duas vezes Lula. Este, mesmo no auge da sua popularidade, em 2006, só conseguiu se reeleger presidente no segundo turno. Como havia sido eleito em 2002.
Assim como é relevante lembrar que, no encontro entre Fernando Henrique e Lula, promovido no dia 12 de maio por Nelson Jobim (MDB), ex-ministro dos dois ex-presidentes, o tucano disse que votaria no petista em um eventual segundo turno contra Bolsonaro. No que, se ocorrer, poderá ser seguido por aqueles que não acreditam na inocência de Lula. Mas, ainda assim, creem que o Supremo Tribunal Federal (STF) agiu correto ao definir na quarta (23) a parcialidade do ex-juiz federal Sergio Moro no julgamento e condenação do ex-presidente.
Ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, em enconntro promovido por Nelson Jobim, ex-ministro de ambos, em 12 de maio
São os 8,6 milhões de brasileiros que votaram nulo no segundo turno de 2018, entre Bolsonaro e o poste petista Fernando Haddad. Somados aos outros 31,3 milhões de eleitores que sequer apareceram para escolher entre as duas opções. Mas não estão mais dispostos a fazê-lo em 2022, pelo caos em que o eleito transformou o Brasil. Com volta da inflação e queda vertiginosa do poder de compra, desemprego galopante, ministro das Relações Exteriores demitido após se orgulhar por transformar o país em “pária mundial”, ministro do Meio Ambiente demitido por crimes ambientais e, sobretudo, os 509 mil mortos pela condução desastrosa da pandemia da Covid-19. Entre eles, 403.700 vidas perdidas de maneira absolutamente desnecessária, se fôssemos capazes de manter a média de óbitos pela doença no resto do mundo.
Covas abertas em Manaus para enterrar os mortos pela Covid (Foto: AFP)
A quem não é cúmplice do maior assassínio de brasileiros em meio milênio de História do Brasil, a CPI da Covid, longe de ser composta de santos, revelou as causas do inferno: busca dolosa de uma imunidade de rebanho por Bolsonaro, que se consiste em matar os fracos para que fortes sobrevivam assassinando sua humanidade; sua atuação como garoto propaganda de medicamentos comprovadamente ineficazes como a cloroquina, seu combate às medidas de restrição social adotadas por governadores e prefeitos, seu incentivo pessoal à aglomeração, ao não uso de máscara e ao questionamento das vacinas. E, quando finalmente foi obrigado a adotá-las, o fez rendido à corrupção do Centrão, que segura seus 130 pedidos de impeachment na Câmara Federal.
Na sessão tumultuada da CPI que se arrastou pela noite de ontem, só às 22h o deputado federal e bolsonarista raiz Luis Miranda (DEM/DF) revelou o nome por trás do escândalo de corrupção para comprar a vacina indiana Covaxin, não aprovada pela Anvisa: o deputado Ricardo Barros (PP/PR), do Centrão e líder do governo Bolsonaro na Câmara Federal. Velho conhecido do Ministério da Saúde, Barros ocupou a pasta no governo Michel Temer (MDB), quando foi investigado pelo Ministério Público Federal (MPF). Servidores de carreira denunciaram pressão para antecipar o pagamento de R$ 19,9 milhões à empresa Global, por medicamentos que nunca foram entregues.
Ministro da Secretaria Geral Onyx Lorenzoni e o coronel da reserva do Exército Elcio Franco, ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde, em coletiva na quarta (23), ameaçaram uma investigação da Polícia Federal sobre os irmãos Miranda, que denunciaram claros indícios de corrupção na compra da Covaxin. Onyx e Elcio, que pressionava pela compra, foram advertidos por membros da CPI da Covid que tentativa de coação de testemunha é crime passível de prisão
Agora, após o governo Bolsonaro ignorar mais de 100 tentativas da Pfizer para ofertar vacinas mais baratas e eficazes que a Covaxin, o coronel da reserva do Exército Elcio Franco, um dos militares colocados no Ministério da Saúde sob o “mito” da honestidade, pressionava o servidor de carreira Luis Ricardo Miranda para o pagamento antecipado de US$ 45 milhões pela Covaxin. Com sobrepreço de 1000%, em contrato total no valor de R$ 1,6 bilhão. Não direto da fábrica, como ocorrem com todas as demais vacinas no país, mas à atravessadora Madison Biontech, empresa com endereço fictício no paraíso fiscal de Singapura. Em contato intermediado no Brasil pela Precisa Medicamentos, empresa de Francisco Maximiano, sócio da Global investigado com Ricardo Barros no governo Temer. Líder de Bolsonaro na Câmara, Barros foi autor da emenda para a importação da Covaxin sem o aval da Anvisa.
Após receber ameaças de morte de bolsonaristas, o deputado federal bolsonarista Luis Miranda (DEM/DF) chegou ao Congresso para depor na CPI da Covid usando um colete à prova de balas
O servidor Luis Ricardo Miranda, que foi depor ontem na CPI após voltar dos EUA no avião que trouxe as vacinas Jansen ao Brasil, é irmão do deputado Luiz Miranda, que chegou ontem ao Congresso usando colete à prova de balas. Ele tinha proximidade pessoal com Bolsonaro suficiente para ser recebido, junto do irmão servidor, em um sábado, 20 de março, no Palácio Alvorada. Ao ouvir a denúncia, segundo os irmãos Miranda, o presidente informou: “Isso é coisa de Ricardo Barros”. Talvez por saber que não sobrevive politicamente sem o Centrão e que perdeu sua bandeira eleitoral contra a corrupção desde as “rachadinhas” do filho Flávio Bolsonaro (Republicanos), o chefe da nação nada fez. O que configura crime de prevaricação.
Levado pelo irmão deputado para apresentar suas denúncias, o servidor de carreira do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda postou foto com Bolsonaro nas redes sociais
Aos que creem que todo o eleitorado conservador e antipetista ainda é capaz de negar o inegável, como os lulopetistas no Mensalão e Petrolão, interessante observar as divisões dentro do próprio meio militar. Ao usar o Twitter como o “homem de Deus” Malafaia, o general da reserva do Exército Paulo Chagas lembrou do colega de farda Augusto Heleno. E postou em 16 de junho, antes de explodir o escândalo da Covaxin: “‘Se gritar pega Centrão, não fica um’! Independente de qualquer outra opinião, eu continuo acreditando nesta afirmação. O Centrão, hoje no controle geral da gestão pública, está a aprovar o salvo conduto para roubar. Parabéns! Nem no governo de Lula, o Ali Babá, eles foram tão longe!”
"Se gritar pega Centrão, não fica um…"! Independente de qq outra opinião, eu continuo acreditando nesta afirmação. O Centrão, hj no controle geral da gestão pública, está a aprovar o salvo conduto para roubar. Parabéns! Nem no governo de Lula, o Ali Babá, eles foram tão longe!
— General Paulo Chagas (@GenPauloChagas) June 16, 2021
Metade do povo brasileiro, exatos 50%, considera o governo Jair Bolsonaro (sem partido) ruim ou péssimo. A avaliação negativa chega a 66% sobre o jeito do presidente governar. E sobe ainda para os 68% da população que declararam não confiar em Bolsonaro. Os dados são da pesquisa do instituto Ipec, divulgados hoje em toda a mídia nacional. A consulta foi feita de 17 a 21 de junho, ouvindo 2.002 pessoas em 141 municípios, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Bolsonaro ainda mantém 23% de brasileiros que consideram seu governo bom ou ótimo, enquanto 26% acham regular. Já os que aprovam o jeito do capitão de governar são 30%, com 4% que não souberam ou quiseram responder. Os que confiam no presidente são 30%, com 2% que não sabem ou quiseram opinar.
Em todos as avaliações, Bolsonaro apareceu com queda acentuada de popularidade. Na pesquisa anterior do Ipec, feita e divulgada em fevereiro, o presidente tinha 39% de ruim ou péssimo — índice negativo que cresceu significativos 11 pontos nos últimos quatros meses. Os que desaprovavam sua maneira de governar eram 58% em fevereiro, registrando agora o crescimento de oito pontos. Já os que confiavam no capitão eram 61%, subindo 7 pontos até este mês de junho.
Nos pouco mais de 15 meses que separam o eleitor das urnas presidenciais de outubro de 2022, muita coisa pode mudar. E, apesar do sangramento da sua popularidade, apontado em todas as pesquisas, Bolsonaro mantém uma base cristalizada que hoje o levaria ao segundo turno. Provavelmente com o ex-presidente Lula (PT), diante dos índices de intenção de voto abaixo dos dois dígitos dos demais presidenciáveis. Mas, com seu atual nível elevado de desaprovação, o presidente teria dificuldades para se manter pelo voto no Palácio do Planalto.
Ex-ministros bolsonaristas Ernesto Araújo e Ricardo Salles (Foto: Arthur Max/AIG/MRE)
Cada vez mais acuado pela realidade, o bolsonarismo é obrigado mais uma vez a se curvar a ela. A nova vítima, agora à tarde, foi Ricardo Salles. Pelos crimes ambientais dos quais é investigado pela Polícia Federal, com inquérito pedido até pela Procuradoria Geral da República (PGR) de Augusto Aras e autorizado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), Salles foi obrigado a se demitir do cargo de ministério do Meio Ambiente do governo Jair Bolsonaro (sem partido). Desde que a pasta federal foi criada em 19 de novembro de 1992, nunca um ministro do Meio Ambiente no Brasil foi acusado por crimes na área que deveria defender.
Em 6 de novembro de 2020, este blog antecipou em um dia a vitória eleitoral de Joe Biden na eleição presidencial dos EUA, antecipando também o resultado final de 306 delegados contra os 232 do ex-presidente Donald Trump. Na postagem intitulada “Biden é o novo presidente dos EUA, Trump esperneia e Bolsonaro fica mais só”, as consequências foram projetadas abaixo do Equador: “Ao Brasil, cujo presidente Jair Bolsonaro se prestou a ecoar publicamente as denúncias de ‘fraude’ do seu ‘mito’, restam duas alternativas. Ou acerta o passo em sua política externa e na proteção ao meio ambiente, demitindo os ministros olavistas Ernesto Araújo e Ricardo Salles, ou o país se tornará um pária mundial”.
O alerta seria reforçado em outro texto de análise do blog, intitulado “EUA de Joe Biden e o Brasil de Jair Bolsonaro sem Donald Trump”, publicado em 30 de dezembro: “Enquanto comete sucessivos erros que atrasam também a vacinação da população brasileira contra a Covid, que até Trump tentou abreviar nos EUA, Bolsonaro pode ser obrigado a repensar a presença em seu governo de ministros negacionistas como Ernesto Araújo, nas Relações Exteriores, e Ricardo Salles, no Meio Ambiente”.
Pouco mais de quatro meses depois do primeiro aviso, Ernesto Araújo foi obrigado a se demitir do ministério das Relações Exteriores em 29 de março. E hoje, o que foi projetado inicialmente há sete meses, ao antecipar a vitória de Biden nos EUA, se confirma novamente com a demissão de Salles. Desde o último dia 18, Araújo passou à condição de investigado pela CPI da Covid, por sua atuação desastrosa na compra de vacinas contra a Covid-19 para o Brasil. O que, segundo infectologistas e epidemiologistas, pode ter custado a vida de centenas de milhares de brasileiros mortos desnecessariamente pela doença.
Por sua vez, como nem o ministério serviu para lhe dar proteção contra a investigação por ter atuado para facilitar os crimes de madeireiros ilegais no Pará, Ricardo Salles agora poderá ser julgado como cidadão comum. Além da sua atuação no ministério do Meio Ambiente ser considerada pelos ambientalistas tão desastrosa quanto a de Araújo nas Relações Exteriores, Salles se tornou mais conhecido quando foi exposto em vídeo de uma reunião ministerial de 22 de abril de 2020. Que foi denunciada pelo ex-ministro da Justiça Sergio Moro. Na reunião, Salles sugeriu a Bolsonaro que o governo federal aproveitasse a atenção da imprensa à pandemia da Covid para “ir passando a boiada”, alterando regras de proteção ambiental.
Após receber um alerta de “bomba” do STF (confira aqui) do que está para vir contra seu agora ex-ministro, que poderia deixar ainda mais delicada a posição do governo, Bolsonaro foi obrigado a entregar sua cabeça. Foi um dia após o presidente ter elogiado publicamente o demitido de hoje (confira aqui), no lançamento ontem do Plano Safra, no Palácio do Planalto: “O casamento da Agricultura com o Meio Ambiente foi quase perfeito. Parabéns, Ricardo Salles!”
Tentando se segurar no cargo, Ricardo Salles acompanhou Bolsonaro e Michelle em manifestação de 15 de março, em Brasília, mas acabou caindo do cavalo (Foto: Evaristo Sá/AFP)