Em 7 de narço de 2020, em Mar-a-Lago, na Flórida, Jair Bolsonaro e o então presidente dos EUA, Donald Trump (Foto: Alan Santos/PR)
Francis Fukuyama, filósofo e economista político nipo-estadunidense, autor do livro “O Fim da História e o Último Homem”, de 1992
Ataque ao Capitólio: O dia em que o mundo se afastou de nós
Por Francis Fukuyama
O ataque de 6 de janeiro de 2021 contra o Capitólio, realizado por uma multidão inspirada pelo ex-presidente Donald Trump, marcou um nefasto precedente na política dos EUA. Desde a Guerra Civil (1861/1865), o país jamais havia fracassado em realizar uma transferência de poder pacífica, e nenhum candidato jamais havia contestado resultados de uma eleição diante de tanta evidência de que a votação fora livre e justa. O evento continua a reverberar, mas seu efeito não é apenas doméstico, ele também teve grande impacto global e sinaliza o declínio do poder e da influência dos EUA.
O 6 de Janeiro precisa ser visto como pano de fundo de uma crise global da democracia liberal. Segundo o relatório Liberdade no Mundo 2021, da Freedom House, a democracia está em declínio há 15 anos, com os maiores percalços enfrentados pelas duas maiores democracias do mundo, EUA e Índia. Desde que o relatório foi publicado, golpes de Estado ocorreram em Mianmar, Tunísia e Sudão, países que antes haviam dado passos promissores na direção da democracia.
O mundo havia testemunhado uma grande expansão no número de democracias, de 35, no início dos anos 70, para mais de 110, na época da crise de 2008. Os EUA foram cruciais para o que foi classificado como a “Terceira Onda” de democratização, garantindo segurança para aliados democráticos na Europa e no Leste da Ásia, liderando uma economia global cada vez mais integrada que quadruplicou sua produção no período.
Mas a democracia global estava alicerçada no sucesso e na durabilidade da democracia dos EUA — o que o cientista político Joseph Nye classifica como “poder brando”. Pessoas de todo o mundo consideravam os EUA um exemplo a ser seguido, dos estudantes da Praça Tiananmen aos manifestantes das “revoluções coloridas”, na Europa e no Oriente Médio.
O declínio da democracia é ocasionado por forças complexas. Globalização e transformação econômica deixaram muita gente para trás, e uma enorme divisão cultural emergiu entre profissionais com alto nível de formação que vivem nas grandes cidades e moradores de localidades menores, com valores mais tradicionais. O advento da internet enfraqueceu o controle das elites sobre a informação — nós sempre discordamos a respeito de valores, mas agora vivemos em universos de fato separados. E o desejo de pertencimento e a afirmação de dignidade própria são com frequência forças mais poderosas do que o autointeresse econômico.
O mundo, desta maneira, parece muito diferente que o de 30 anos atrás, quando a União Soviética acabou. Houve dois fatores-chave que subestimei naquela época — primeiro, a dificuldade de criação não apenas de uma democracia, mas também de um Estado moderno, imparcial e livre de corrupção; e em segundo lugar, a possibilidade da deterioração de democracias avançadas.
O modelo americano está se deteriorando já há algum tempo. Desde meados da década de 90, a política dos EUA tem se polarizado, sujeita a impasses contínuos que impedem o cumprimento de funções governamentais básicas, como a aprovação de orçamentos.
Obstáculos
Havia claros problemas com as instituições americanas — como a influência do dinheiro na política e os efeitos de um sistema eleitoral cada vez mais desalinhado com a escolha democrática. E, ainda assim, o país parecia incapaz de reformar a si mesmo. Períodos anteriores de crise, como a Guerra Civil e a Grande Depressão (1929), produziram líderes perspicazes e criadores de instituições; o que não ocorreu nas primeiras décadas do século 21, que testemunharam formuladores de políticas administrando duas catástrofes — a Guerra do Iraque e a crise do subprime — e, posteriormente, o surgimento de um demagogo de pouca visão encorajando um furioso movimento populista.
Até o 6 de Janeiro, seria possível considerar esses desdobramentos sob as lentes da política americana comum, com seus desentendimentos a respeito de temas como comércio, imigração e aborto. Mas a insurreição marcou o momento em que uma minoria mostrou-se disposta a voltar-se contra a própria democracia e utilizar violência como ferramenta para alcançar seus objetivos.
O impacto do 6 de Janeiro ainda surte efeitos na arena internacional. Ao longo dos anos, líderes autoritários buscaram manipular resultados de eleições e negar a vontade popular, como Vladimir Putin, na Rússia, e Aleksander Lukashenko, em Belarus. Por outro lado, candidatos derrotados fizeram acusações de fraude em eleições livres e justas.
Antes do 6 de Janeiro, esse tipo de artimanha teria sido condenada pelos americanos. Mas agora isso aconteceu nos EUA. A credibilidade do país, decorrente da manutenção de um modelo de boas práticas democráticas, foi despedaçada. Esse precedente já é ruim o suficiente, mas há consequências ainda mais perigosas.
Um fator determinante em qualquer agressão militar será o papel dos EUA, que não concederam garantias claras de segurança nem para Ucrânia nem para Taiwan, mas têm apoiado militarmente e se mostrado ideologicamente alinhados com seus esforços de tornar-se democracias verdadeiras.
Se o ímpeto de repudiar os eventos de 6 de janeiro tivesse se formado no Partido Republicano, de forma semelhante ao seu abandono de Richard Nixon, em 1974, os EUA seriam capazes de deixar para trás a era Trump. Mas isso não aconteceu, e adversários como Rússia e China estão assistindo de perto com satisfação.
Se temas como vacinação e uso de máscara tornaram-se politizados e desagregadores, imagine como uma futura decisão de ampliar o apoio militar para a Ucrânia ou Taiwan seria recebida? Trump minou o consenso que existia desde o fim dos anos 40 a respeito da forte posição dos EUA enquanto defensores da liberdade, e Biden ainda não foi capaz de restabelecê-lo.
Os EUA conservam um enorme poder econômico e militar, mas esse poder não é utilizável na ausência de consenso doméstico a respeito do papel internacional do país. Se os americanos deixarem de acreditar numa sociedade aberta, tolerante e liberal, nossa capacidade de inovar e liderar a mais importante economia do mundo também diminuirá. O 6 de Janeiro aprofundou as divisões internas e terá consequências que ecoarão por todo o planeta nos próximos anos.
Em 6 de janeiro de 2021, protegido por vidro à prova de balas, Trump usou a área externa da Casa Barnca para mugir sua dor de corno pela derrota nas urnas presidenciais. E foi atendido no mesmo dia por quem invadiu o Capitólio, literalmente, a chifradas (Fotos: Mandel Ngan/AFP e Win McNamee/Getty Imagens – montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Hoje, 6 de janeiro de 2022, se completa um ano da invasão do Capitólio dos EUA por militantes do então presidente Donald Trump. Ele os atiçou pessoalmente, em discurso na área externa da Casa Branca, ao atentado contra a mais longeva democracia da Terra. Atendido por quem atacou seu próprio Congresso a chifradas de bisão, Trump mugia sua dor de corno pela derrota acachapante, nas urnas presidenciais de 3 de novembro de 2020, para Joe Biden. Que venceu com a folgada vantagem de mais de 7 milhões de votos populares. E por 306 a 232 votos no colégio eleitoral — resultado que conta lá e foi antecipado aqui, por este blog, um dia antes do resto do mundo.
A invasão do Capitólio se deu no dia em que este, presidido por Mike Pence, vice-presidente de Trump, reconheceu a vitória eleitoral de Biden. Deixou saldo de cinco mortos, entre eles Brian Sicknick, um dos mais de 140 policiais feridos ao tentarem conter os “cidadãos de bem” do lado de cima do Equador. Mestre do jornalismo brasileiro, Elio Gaspari deu ontem (05) o saldo das consequências: “Cinco dias depois da invasão do Capitólio, Steven M. D’Antuono, chefe do escritório de Washington do FBI, avisou: ‘Nossos agentes vão bater na tua porta’. Até agora, bateram numas mil portas e prenderam ou indiciaram 724 pessoas de 45 estados americanos. Abriram 170 investigações e partiram da análise de 100 mil peças de comunicação digital. Sem lavajatismo, quase todo dia havia alguém sendo interrogado”.
Elio Gaspari, jornalista e escritor
Sobre quem atendeu com chifres de bisão ao mugido da dor de corno de Trump, Gaspari emblematicamente acrescentou: “O palhaço que circulou com roupa de bicho e chifres na cabeça foi alcançado três dias depois e tomou até 41 meses de prisão. Queria notoriedade, tornou-se exemplo”. Também descreveu o perfil plural dos invasores e identificou seu líder singular: “Havia de tudo naquela multidão: jovens, velhos, famílias, veteranos, pastores, policiais, alguns pastores policiais, professores e malucos fantasiados, todos movidos pela realidade paralela instigada pelo presidente Donald Trump”.
O jornalista brasileiro ressalvou que ainda falta pegar os “peixes gordos” da tentativa de um golpe de estado nos EUA: “No primeiro aniversário da insurreição, peixe gordo se protege, tentando blindar a documentação da Casa Branca relacionada com o episódio (…) Sabe-se também que Ivanka, filha de Trump, tentou chamá-lo à razão, mas ele passou horas diante dos aparelhos de televisão. Seus advogados pediram à Suprema Corte que preservasse o sigilo das movimentações na Presidência. Deve-se esperar que a Corte se pronuncie, pois o caso é constitucionalmente intrigante. O ex-presidente (Trump) quer manter o sigilo que Joe Biden, seu rival na campanha, dispensou. O FBI brilhou, mas, nos limites de sua investigação, só pegou lambaris”.
Joe Biden discursou hoje no Statuary Hall, no Capitólio, sobre o aniversário de 1 ano da invasão ao Capitólio por militantes de Donald Trump (Foto: Drew Angerer/Poll/Reuters)
Ao discursar hoje no Capitólio há um ano invadido, Biden evitou citar o nome de Trump. Ainda assim, deu nome aos bois:
— Vou dizer o óbvio: um ano atrás, exatamente, neste local sagrado, a democracia foi atacada; simplesmente atacada. A vontade do povo estava sendo ameaçada, a nossa Constituição enfrentou a maior das ameaças (…) Pela primeira vez na nossa história, um presidente não tinha apenas perdido a eleição, ele tentou impedir a transferência pacífica de poder, com uma turba violenta que chegou ao Capitólio. Mas eles falharam, eles falharam. E, neste dia de lembranças, vamos garantir que um ataque como aquele nunca mais aconteça de novo (…) Mesmo durante Guerra Civil (dos EUA, 1861/1865) isso nunca aconteceu; nunca! Mas aconteceu aqui em 2021 (…) Nós vimos um presidente, que tinha acabado de mobilizar aquela massa para atacar, sentado no Salão Oval (da Casa Branca), olhando para tudo aquilo na televisão e fazendo absolutamente nada, por horas (…) Isso foi uma insurreição armada. Eles queriam negar o desejo do povo, eles estavam querem mudar o resultado de uma eleição livre e justa, eles estavam querendo subverter a Constituição (…) O ex-presidente dos EUA criou e espalhou um monte de mentiras sobre o que aconteceu na eleição de 2020. Ele fez isso porque dá mais valor ao poder do que aos princípios (…) Antes mesmo da contagem da primeira urna, o ex-presidente já estava lançando dúvidas sobre o resultado da eleição. Ele construiu essa mentira por meses, sem estar baseado em fato algum. Ele estava só querendo uma desculpa, um pretexto, para esconder a verdade. Ele não é só um ex-presidente; ele é um ex-presidente perdedor”.
Em 7 de narço de 2020, em Mar-a-Lago, na Flórida, Jair Bolsonaro e o então presidente dos EUA, Donald Trump (Foto: Alan Santos/PR)
O dia em que Trump transformou os EUA em república de bananas
Militantes convocados por Donald Trump invadiram o Congresso dos EUA hoje, interrompendo a sessão que reconheceria a vitória do presidente eleito Joe Biden (Foto: Reprodução)
Tenho 48 anos (hoje, já são 49, perto dos 50). Lembro-me dos presidentes dos EUA desde Jimmy Carter. E dos seus seis sucessores na Casa Branca. Incluindo o atual, derrotado por Joe Biden nas urnas de novembro por 306 a 232 votos do colégio eleitoral, e mais de 7 milhões de votos populares.
Vivi para ver o Congresso dos EUA ser hoje invadido por militantes de um caudilho de 5ª categoria. Para transformar a democracia mais longeva do mundo, que há 232 anos elege pelo voto seus representantes, em uma republiqueta de bananas.
Espero viver para ver o responsável ser acusado, julgado e condenado com todo o rigor da lei. Tão logo seja cumprido seu mandado de despejo do poder, daqui a apenas 14 dias. E que sirva de exemplo abaixo do Equador, ao que espera o Brasil em 2022.
Marcha dos camisas negras do líder fascista Benito Mussolini no Palácio Quirinal, residência real em Roma, em 31 de outubro de 1922
Presidente eleito dos EUA, levando também a maioria no Congresso hoje invadido, Biden disse em pronunciamento: “Isso não é protesto, é insurreição”. Qualquer semelhança com um certo putsch em Munique, ou uma marcha dos camisas negras sobre Roma, não é mera coincidência.
Hamilton Garcia, cientista político e professor da Uenf
A crise depois das urnas
Por Hamilton Garcia
As especulações sobre as eleições de 2022 seguem cada dia mais animadas com a estratégia do PT para neutralizar o centro, a entrada em cena de Sergio Moro, a vitória de João Doria no PSDB, a obstinação programática de Ciro Gomes e a aposta dobrada de Bolsonaro em seu próprio isolamento político. Em meio às movimentações, cresce entre alguns setores a crença de que a saída de Bolsonaro teria o poder de superar a crise por si só, como se ela se limitasse a seu desgoverno, o que não é o caso (vide A Crise e Suas Raízes).
A crise da Nova República se desdobra em dois planos pelo menos: a camada mais superficial dela se encontra no âmbito da governabilidade e pode ser sumariamente definida como o descasamento estrutural entre o governo do Executivo e o do Legislativo, em meio à anomia partidária e à sub-representatividade da Câmara Federal (distorção no peso do voto, compra de votos, partidos de aluguel, excessiva mobilidade parlamentar) que o Centrão, político e jurídico, pretende “resolver” com o semi-presidencialismo.
Já sua camada mais profunda, se assenta no esgotamento do bloco histórico financeiro-patrimonial-corporativo e seu programa liberal de incremento do consumo das famílias sem conexão com o desafio do desenvolvimento nacional — que passou a ser considerado um epifenômeno do mercado livre, à moda oitocentista.
Indiferente a ela, o quadro político-eleitoral segue bem segmentado em termos ideológicos, mas também inclinado ao pensamento mágico, o que garante um grau de incerteza muito grande sobre o itinerário da crise, cujas camadas se apoiam mutuamente na sustentação do sistema de dominação. Em outros termos, o programa do bloco histórico em crise seguirá erodindo o país se a neutralização do Legislativo não for revertida por uma reforma política radical, que não encontra espaço na polarização populista atual. A solução parece se insinuar fora dela, mas seu resultado no curto-prazo também promete um bom nível de incerteza, como veremos.
Mas, antes de tentar mapear os rumos da crise a partir de cada virtual vitorioso, é preciso assinalar que a incerteza eleitoral de 2022 terá um forte componente emotivo semeado pelos ódios até aqui cultivados nas bolhas dos respectivos espectros ideológicos. Infelizmente, nada faz crer que o esfaqueador esquerdopata de 2018 não possa reaparecer em versão direitopata, por meio de arma de fogo, não obstante os maus resultados colhidos no primeiro caso — ajudando a eleger quem se queria eliminar da disputa.
Seja como for, a crise que estamos experimentando desde 2013, sob o pano de fundo de uma semi-estagnação econômica desde 1980, parece garantida, se não pelo desnorteamento popular, certamente pela resistência tenaz dos donos do poder no interior de seus bunkers na Nova República.
Comecemos o esboço pelo atual mandatário, apesar de suas exíguas chances eleitorais em função da inflação alta, do péssimo desempenho governamental e da perda significativa de apoio popular e nas elites. Um hipotético novo mandato de Bolsonaro seguiria sendo uma composição militar-fisiológica sob o mando orçamentário do Centrão, que poderia mitigar a direção política do bolsonarismo por meio de um semi-presidencialismo de algibeira; o que, por si só, não afastaria o fantasma de um descontrole social em função do esgotamento do modelo econômico — com o qual o bolsonarismo, no fundo, conta para forçar o fechamento político em benefício próprio e de seus sequazes.
No caso de Lula ser o vitorioso, é possível esperar um melhor grau de estabilização da crise a partir de sua testada fórmula de conciliação pluto-populista, que lhe consagrou grande popularidade e quatro vitórias eleitorais consecutivas à sua coalizão (2002, 2006, 2010 e 2014), distribuindo grande parcela dos recursos orçamentários a banqueiros, empresários e políticos fisiológicos, enquanto, astutamente, atenuava as dificuldades de trabalhadores e marginalizados sem mexer nos alicerces do sistema.
Sabemos que hoje a situação lhe seria mais adversa, pois não apenas os alicerces do sistema estão abalados, como a autonomização parlamentar não cederia facilmente a seus apelos. Neste cenário, o modo lulista de governar dificilmente levaria às reformas necessárias para a reversão da crise, embora haja quem aposte na inteligência intuitiva de Lula e em seu compromisso nacional. As medidas que realmente interessam ao lulopetismo, essencialmente centradas nas necessidades de consumo da grande massa, via importações e não na produção interna com a (re)montagem das cadeias produtivas geradoras de riqueza e bons empregos, não colidem, como se evidenciou no passado, com as que interessam ao sistema parasitário de poder político e econômico.
Isto ocorre porque o programa consumista, na perspectiva petista de consolidação do poder, seria meramente tático, servindo, na verdade, para abrir caminho para a radicalização do processo de distribuição de renda, que, por sua vez, daria início à conquista da hegemonia política que possibilitaria o início do processo de construção do socialismo no Brasil que, como sabemos desde Cuba, de fato, significaria a canibalização do que restou das empresas produtivas do país, rumo à dependência extrema com relação às potências “anti-imperialistas” de plantão — como se vê hoje com a Venezuela em relação à China.
O avanço desta estratégia teria ainda vários nós que não caberiam aqui discutir, todos eles tendentes a abalar nossas já frágeis instituições democráticas, ensejando movimentos revolucionários/contra-revolucionários que, à luz de nossa tradição histórica, tenderiam a levar, em algum momento, à intervenção militar contra o caos e pela manutenção da ordem, sendo provável que tal intervenção assumisse um caráter tópico, como em 1945, embora não se possa afastar a hipótese — a depender do grau de agitação social — de uma refundação à moda de 1930, dificilmente chegando a um 1964 (vide A Questão Militar).
Conscientes disso, setores mais radicais do petismo advogam que tais medidas se articulassem, de partida, à organização de comitês populares de modo a dissuadir a burguesia de derrubar Lula; o que é visto pela cúpula partidária como um convite ao golpe. Tal perspectiva, embora minoritária hoje, poderia ganhar fôlego em meio ao agravamento da crise e das pressões por reformas estruturais que libertassem o país do parasitismo financeiro-neopatrimonial da Nova República.
Já no caso de vitória de um dos azarões da disputa, em especial Moro e Ciro, e talvez Doria, as chances de governabilidade (sem estelionato eleitoral) estariam depositadas na reversão do atual modelo de governança inaugurado pelo PT com o Mensalão e aprofundado por Bolsonaro no “Orçamento Secreto”. Para tanto, precisariam promover acordos políticos à chilena, negociando seus programas governamentais com os opositores ao invés de tentar viabilizá-los pelo rolo compressor da compra de voto parlamentar, o que colocaria parte do Congresso em pé de guerra contra a “perda de prerrogativas”. Neste contexto, no curto-prazo, a crise de governabilidade se sobreporia à crise econômico-social, só podendo ser evitada por meio de um amplo compromisso partidário pela reconstrução nacional nos dois níveis (político e econômico), pacto que a fragmentação partidária e a polarização político-ideológica poderiam inviabilizar.
Supondo que a primeira camada de dificuldades (governabilidade) possa ser transposta pela dramaticidade dos acontecimentos e a força político-moral do vitorioso em 2022 – o que não comporta a vitória de Lula ou de Bolsonaro –, restaria a segunda camada (modelo econômico) e a dificuldade em si da elaboração de alternativas viáveis.
No primeiro caso, as reformas teriam que mirar o poder de veto neopatrimonial do Centrão, cuja força provém da plasticidade política propiciada pelo atual sistema eleitoral (voto proporcional preferencial) e partidário (partidos de aluguel sem responsabilidade política efetiva com a mobilização eleitoral, o autofinanciamento de campanha e a seleção de quadros políticos).
No segundo caso, as medidas necessárias seriam não só mais complexas como atingiriam interesses vitais de grupos econômicos poderosíssimos, para não falar da polarização ideológica, mais antiga e estruturada, opondo liberais e desenvolvimentistas — polarização que só foi quebrada durante a vigência do regime militar, levando liberais ortodoxos como Roberto Campos a promover uma forte política intervencionista do Estado na economia a partir de 1967. Na ausência de tal tutela, a convergência hoje precisaria do reconhecimento, por parte dos liberais, da importância do Estado como planejador de longo-prazo do desenvolvimento nacional, naturalmente com a participação democrática da sociedade e o papel corretor do mercado nas inevitáveis distorções do plano — o que também dependeria fortemente do grau de radicalização adquirido pela crise.
Neste terreno acidentado, Moro poderia tirar proveito de sua moderação, capacidade de diálogo e franqueza de propósitos, enquanto Ciro, deficiente da primeira qualidade, já se prepara exercitando tal diálogo na própria campanha (vide debate com Armínio Fraga), ao passo que Doria parece mais inclinado à plasticidade do marketing do que à solução de problemas — embora nada o impeça de evoluir premido pela crise. É de se salientar que Ciro é o que tem o melhor diagnóstico do problema econômico, uma vantagem não desprezível num quadro carente de alternativas inovadoras, que só poderão medrar a partir de uma reflexão crítica em relação ao desenvolvimento passado — que esquecido e distorcido pelos críticos neoliberais, nos levou de volta ao atraso político e à dependência intelectual-econômica da qual os PNDs dos anos 1970, em parte, nos havia afastado.
Tal estratégia de choque, na largada do mandato transformador, enfrentaria de cara tenaz oposição do sistema de dominação, tendo que vencer o duplo desafio do diversionismo ideológico e da força dos privilégios adquiridos que unem o Centrão às elites econômico-financeiras. Em outros termos, a crise aguda, que com Bolsonaro e Lula — e em certa medida, talvez, com Doria —, pode ser postergada pela pouca disposição de ambos em fazer reformas estruturais, no caso de Ciro e Moro se apresentaria imediatamente, pelo motivo oposto, aumentando a percepção dos custos da mudança.
Contrariamente ao senso-comum predominante hoje no eleitorado, a tradição neopatrimonial-financeira que estiola o país, tem em Lula e, em certa medida, em Bolsonaro, seus candidatos preferidos por suas capacidades ilusionistas. Tais preferências, porém, não só esbarram no esgotamento do modelo, como trazem consigo os perigos da desordem no médio-prazo, enquanto as candidaturas de Ciro e Moro tendem a enfrentar estes desafios no curto-prazo, mantendo consigo a iniciativa de jogo e, portanto, aumentando as chances de solução favorável ao país e à democracia.
Isto não quer dizer que as saídas verdadeiramente republicanas (anti-patrimonial-financeiras) não tenham seus perigos, mas que valem a pena corrê-los diante da possibilidade de nos livrarmos democraticamente do antigo regime, vale dizer, sem recorrer à catástrofe revolucionária/contra-revolucionária. A mobilização popular sobre o Congresso, na tentativa de produzir diálogos/acordos políticos, como se está insinuando no Chile, traz igualmente riscos, sobretudo, como no caso do Brasil, pela fragilidade do sistema partidário e das lideranças sociais comprometida com suas bases.
Todavia, se ao cabo, as eleições fracassarem em apresentar soluções efetivas aos problemas do país, seremos lançados num período de turbulências cujo resultado final pode, mais uma vez, ser a modernização conservadora. Neste caso, teríamos apenas perdido tempo, pois não existe mais espaço para o desenvolvimento sem a superação do hiato que separa o Estado da nação e, assim, mantém o subdesenvolvimento — no qual a corrupção institucionalizada constitui o principal calcanhar de Aquiles.
“Campos é o espelho do Brasil”. A frase é atribuída ao ex-presidente Getúlio Vargas. E, neste ano de 2021, teve eco real no Grupo Folha, em uma série de entrevistas com figuras de proa da política nacional e estadual talvez sem paralelo na secular história da imprensa goitacá. Que serviu para ajudar leitores, ouvintes e telespectadores a formarem suas opiniões diante do ano novo e eleitoral de 2022, que promete estar entre os mais quentes na História de um país que completará seus 200 anos de independência. À altura da tradição de 44 anos da Folha como mais importante veículo de mídia do interior do Estado do Rio, essas entrevistas foram fruto de um trabalho de jornalismo profissional que terá sequência nestes pouco mais de nove meses que nos separam da decisão soberana das urnas de outubro.
Se Campos realmente espelha o Brasil, o reflexo goitacá poderia inspirar o tupiniquim. Após um 2020 em que a cidade mergulhou na sua maior crise financeira desde que os royalties do petróleo começaram a ser pagos em 1986, 2021 registrou um aumento de 97,7% nas receitas petrolíferas. Sem contar outro crescimento de quase 100%, na emissão de notas fiscais pelos CNPJs do município: do R$ 1,6 bilhão de 2020 aos R$ 3,1 bilhões de 2021. Ano no qual os brasileiros voltaram a amargar uma inflação de dois dígitos, o que não acontecia desde 2016, como reflexo do desastre do governo Dilma Rousseff (PT). Que o governo Jair Bolsonaro (PL) busca superar após comprar o Congresso com um Orçamento Secreto de R$ 17 bilhões, para dar o calote nos precatórios — dívidas de pessoas físicas e jurídicas a receber da União — e furar o teto de gastos no ano eleitoral de 2022. E que, segundo todos os economistas, afundará o país ainda mais na crise econômica.
Entrevistados nacionais e estaduais do Grupo Folha em 2021: Cristovam Buarque, Eduardo Paes, Francisco Mamede de Brito Filho, Paulo Ganime, Rodrigo Neves, Marina Silva, Alessandro Molon, Marcelo Freixo, Ciro Gomes, Vinicius Farah, João Amoêdo. Fernando Gabeira, Anthony Garotinho, André Ceciliano, Ricardo Rangel, Pedro Doria, Alberto Aggio, Luiz Carlos Bresser-Pereira, Cláudio Castro e César Maia (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr,)
Qualquer que seja o resultado das urnas de 2022, a deputado estadual, federal, senador, governador e presidente da República, o país só sairá da sua grave crise com diálogo. Ao promover o do Brasil com Campos e a região, neste 2021 que não foi fácil para ninguém, o Grupo Folha espelha seu desejo mais sincero por um feliz ano novo!
Capa da Retrospectiva de 2021 da edição de hoje da Folha da Manhã
Nota 7,5. Esta foi a avaliação do primeiro ano do governo Wladimir Garotinho (PSD) em Campos, feita por seis representantes da sua sociedade civil organizada. Em ordem alfabética: o arquiteto e empresário Edvar Júnior, presidente eleito da CDL-Campos; a servidora municipal Elaine Leão, presidente do Siprosep; o cientista político e sociólogo George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos; o especialista em finanças Igor Franco, professor do Uniflu; o professor Jefferson Manhães de Azevedo, reitor do IFF; e o médico infectologista Nélio Artiles, professor da FMC. A análise dos seis passou pelo combate à pandemia da Covid e Saúde Pública, adiamento do Restaurante Popular de Guarus, o desafio do transporte público posto como “o maior”, ruas esburacadas e anúncio de R$ 78 milhões para solução, projeção de novos corredores logísticos ao Porto do Açu, crescimento das receitas petrolíferas, retomada da vocação agropecuária, adoção do pregão eletrônico nas compras públicas, parceria do município com suas universidades, a cidade nas rotas aéreas comerciais internacionais e o processo de metropolização da região da Bacia de Campos, aumento da geração de dividas a partir das notas ficais emitidas pelos CNPJs do município, abono ao servidor e incapacidade aritmética de pagar sua folha com receita própria, racha na base governista na Câmara de Vereadores e retomada do poder político do setor produtivo, além das eleições de outubro a deputado estadual, federal, governador e presidente.
Edvar Júnior, Elaine Leão, Geroge Gomes Coutinho, Igor Franco, Jefferson Manhães de Azevedo e Nélio Artiles (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Folha da Manhã – Como avalia o enfrentamento à pandemia da Covid-19 em Campos no governo Wladimir? Além de ter as vacinas, com que a gestão Rafael Diniz (Cidadania) não contou, e da descentralização do atendimento antes concentrado no Centro de Controle e Combate ao Coronavírus (CCC), na Beneficência Portuguesa, destacaria alguma outra diferença?
Edvar Júnior – Foi muito bem-vindo o Gabinete de Crise, com reuniões pertinentes e não tanto prolixas. Visto que estamos diante de uma situação epidemiológica inédita, difícil citar um governo totalmente certeiro. Destaque para a participação do setor produtivo, que pode opinar e sugerir, e para atuação muito profissional de Drª Vera Cardoso de Melo. Obviamente temos que ressaltar todos da linha de frente.
Elaine Leão – O governo Wladimir começou com a vacinação já anunciada em todo Brasil. O fato de descentralizar o atendimento para a Covid foi, sim, uma excelente decisão do setor de Vigilância Epidemiológica. A vacinação no início estava muito desorganizada. Os profissionais sem suporte e a população sofrendo nas enormes filas. Destacaria como ponto positivo o agendamento e vacinação noturna, bem como o setor de comunicação das redes sociais da Prefeitura, que foi importante na divulgação do calendário, assim como os pontos de vacinação diários, evitando assim a propagação do vírus.
George Gomes Coutinho – A gestão não incorreu, assim como no caso da gestão Diniz, no pior erro possível na pandemia: o populismo negacionista genocida. Tentou administrar os grupos de pressão, especialmente os comerciantes, tanto quando possível, fazendo gestão acompanhada dos números e do que, na média, são os parâmetros definidos pelas autoridades sanitárias. Ressalto que justamente a obtenção das vacinas, a ampla cobertura de imunização em Campos, é absolutamente relevante. Há cidades que não conseguiram vacinas ou a cobertura que a gestão alcançou. A ausência neste tópico: políticas mais amplas de assistência social para a população.
Igor Franco – Acredito que a gestão municipal em ambos os governos foi uma surpresa muito positiva quanto ao aspecto técnico das decisões e procedimentos. Campos, com deslizes toleráveis, tomou medidas pautadas pela ciência, visando o bem-estar da população e rejeitando aderir à polarização ideológica que transformou certos políticos em aliados do vírus. Talvez uma diferença a ser levantada tenha sido a articulação política do atual prefeito com outros entes da Federação que, no pico da pandemia, garantiu o envio de leitos adicionais de UTI para a cidade, quando enfrentávamos um momento delicado da pandemia.
Jefferson Manhães de Azevedo – Não há dúvida alguma de que o advento da vacina contra Covid-19, aliada à cultura de adesão à vacinação da população brasileira mudaram, definitivamente, o perfil da pandemia no Brasil. O declínio da necessidade de hospitalizações e da gravidade dos casos de Covid em Campos permitiu uma nova abordagem de descentralização, que me pareceu muito acertada. Destacaria, também, o número de pontos de vacinação e sua dispersão no município, além do comprometimento dos profissionais de saúde ao longo de todo o processo pandêmico e de vacinação, que têm se mostrado muito eficientes no atendimento aos munícipes.
Nélio Artiles – O enfrentamento à pandemia de Covid neste ano foi adequado e dentro dos limites conhecidos de nosso sistema de saúde local. Nestes dois anos observamos situações diferentes, tendo inicialmente um impacto do início, onde foi importante a mobilização inicial no governo Rafael Diniz com a necessária criação do CCC, que cumpriu de forma relevante a demanda inicial. No segundo momento, foram possíveis e necessárias a descentralização e a implantação de um programa de vacinação competente e eficaz. Vejo em ambos gestores, ações de responsabilidade frente ao grande desafio, apesar dos limites de nossa estrutura de saúde.
Folha – Em entrevistas ao Folha no Ar, respectivamente, nos últimos dias 16 e 17, o subsecretário de Atenção Básica Charbell Kury e Wladimir disseram que o retorno às aulas até o início de fevereiro é irreversível na rede municipal, com a exigência aos pais da vacinação contra Covid dos alunos. E, no último domingo, o prefeito anunciou que não cobrará prescrição médica para vacinar as crianças, como quer o governo federal Jair Bolsonaro (PL). Como você vê?
Edvar – O risco a saúde física que a Covid e variantes trazem as crianças é muito menor que os danos mental e educacional ao mantermos as escolas fechadas. Quanto ao fato de não exigir avaliação médica para vacinação das crianças, penso que tais decisões têm de ser centralizadas, sendo o ministério da Saúde a autoridade máxima quanto a isso.
Elaine – Vacinas salvam vidas. A decisão de não exigir prescrição médica é muito importante. Primeiro porque o governo Bolsonaro mostra o quanto é negacionista. Segundo, mostra o fato de não conhecer a realidade do Brasil, pois a maioria das famílias não tem acesso ao médico pediatra com facilidade; e aqui em Campos não é diferente. Terceiro, isso nunca foi necessário para nenhuma vacina: sarampo, catapora, caxumba, gripe, HPV e tantas outras; então, simplesmente, não faz sentido! Quanto a volta às aulas, com o cenário decrescente na doença, é importante buscarmos voltar à normalidade e retomar as rotinas, mas sempre nos cuidando.
George – A decisão do prefeito de se recusar a colocar mais uma etapa para a imunização das crianças é plenamente acertada. É notório que, neste caso, ao se colocar um procedimento prévio para a vacina, o que se pretende é diminuir a cobertura, o quantitativo de crianças vacinadas. O objetivo não é tornar a vacina mais segura para faixa etária indicada. O objetivo é sabotar a política de Saúde Pública. Já sobre o retorno das aulas, considero ainda temerário ser tão assertivo em termos de data. A pandemia se demonstrou inegavelmente dinâmica e pode trazer cenários não previstos neste momento.
Igor – A notícia é extremamente positiva. A maior aliança do Governo Federal não é com o Centrão, militares ou qualquer outro campo político, mas com o coronavírus. É extremamente importante a sinalização de governos estaduais e municipais, independentemente do apoio ao Governo Federal, de posicionarem-se contra às incompreensíveis decisões de Bolsonaro em relação à pandemia. Reforçando o ponto anterior, a postura estritamente técnica da Saúde de Campos, desde o ano passado, deve ser comemorada e reconhecida.
Jefferson – Com a dose de reforço e a iminente ampliação para as crianças de 5 a 11 anos, apesar do alto grau de transmissibilidade da nova variante Ômicron, tudo indica que os casos graves e letais continuarão em patamares baixos e decrescente. Portanto, não há, do ponto de vista científico, justificativa para o não retorno presencial às atividades letivas nas escolas, desde que observados os protocolos de biossegurança e a preparação dos profissionais da educação, assim como a obrigatoriedade de toda a comunidade escolar estar vacinada. A exigência da prescrição médica para a vacinação das crianças, infelizmente, é parte do rol das protelações.
Nélio – Vejo com acertada essa proposição, considerando que o prejuízo já instalado às nossas crianças precisa ser mitigado, após um tempo muito longo de ausência escolar, promovendo verdadeiras sequelas, não só na esfera educacional, mas também social e psicológica. A vacinação de crianças já é uma obrigação em território nacional, pois há muito que se exige um cartão vacinal completo para as matrículas escolares, devendo ser com a vacinação de Covid e Influenza. É um verdadeiro absurdo cobrar uma prescrição médica para uma vacina segura, eficaz e já aprovada por todos os órgãos de regulação, nacionais e internacionais.
Wladimir e governador Cláudio Castro formalizam parceria para a reforma do HGG
Folha – E na Saúde Pública em termos gerais? A relação com os hospitais contratualizados melhorou? No Folha no Ar no último dia 17, Wladimir fez o balanço do seu primeiro ano de governo. E destacou o fim dos pacientes nos corredores dos hospitais municipais, além da reforma do Hospital Geral de Guarus (HGG), com aporte de recursos estaduais, cuja nova ala prometeu entregar em abril. Qual a sua avaliação?
Edvar – Estamos observando essa evolução. Quanto ao Hospital Geral de Guarus, acho fundamental sua manutenção e abastecimento, mantê-lo equipado e com atendimento pleno, para contribuir na descentralização. E gostaria muito que todos os investimentos na saúde se mantivessem mesmo com o controle da pandemia, com o setor se mostrando relativamente mais eficaz a cada dia. Afinal a Covid-19 escancarou o sucateamento do setor de saúde do nosso país.
Elaine – Os hospitais contratualizados não estão oferecendo vagas necessárias para zerar a fila. Agora, a fila é virtual. As pessoas estão há meses esperando a marcação de cardiologista, reumatologista e outros. Quanto aos corredores vazios, de fato estão. Porém, os pacientes foram realocados em espaços mínimos e macas desconfortáveis, muitas sem manutenção, gerando esforço do servidor para movimentá-las. Como representante sindical e servidora do HGG, desejo muito que de fato os recursos sejam destinados para a reforma do hospital. A população e os servidores de Campos merecem um hospital com condições humanas.
George – Neste caso eu não tenho como avaliar e uma perspectiva sóbria sobre o tema pode contar, sem maiores dificuldades, com a comparação entre os dados da atual gestão e a anterior. Mas, na hipótese de comprovação tanto do cenário descrito pelo prefeito, quanto na confirmação da promessa para abril, há avanços; limitados, mas há avanços. De todo modo, sem incrementos de gestão, recursos humanos e dotações financeiras, não há milagre na Saúde Pública.
Igor – Tenho a percepção de que a Saúde tem melhorado com o aporte de recursos. Esse setor, inclusive, é praticamente dependente da contínua injeção de capital, dada a utilização de insumos, manutenção de equipamentos, alto custo da mão de obra. A articulação por aportes de outros entes e de emendas vem sendo um traço distintivo deste governo, que também é ajudado pela melhor substancial no caixa estadual. Esse alívio de caixa permitirá descomprimir as pressões por melhorias no setor. Mas, sem uma mudança mais ampla na produtividade e nos processos de todo o serviço público municipal, permaneceremos dependentes de períodos de bonança financeira.
Jefferson – O sistema de saúde sempre é desafiador para as gestões públicas, especialmente com tantas assimetrias, mazelas de infraestruturas de moradia e saneamento, e com qualidade de vida e alimentação inadequadas. A rede hospitalar (contratualizada) é muito importante para os casos de maior complexidade, especialmente em uma cidade polo como Campos, que atende à região. Porém, a política de saúde deve privilegiar a atenção básica e preventiva, evitando a sobrecarga da rede hospitalar, além de ser pensada articulada a outras ações de bem-estar e que estimulem uma vida saudável, como o esporte e uma política de segurança alimentar, por exemplo.
Nélio – A minha avaliação é que, apesar de toda crise ainda presente em nossa estrutura de atendimento público, foi possível sair de uma situação de estagnação que vínhamos presenciando e sofrendo. Vejo como positiva as ações do governo municipal no sentido de uma boa articulação política, trazendo novos aportes financeiros para pequenas e importantes correções. Sou testemunha da diminuição do indigno acúmulo de pacientes em corredores das emergências. Há muito que melhorar, seja em insumos ou medicamentos, mas houve sem dúvida uma sinalização de esperança.
Edvar – Essa burocracia em que o poder público muitas vezes esbarra é uma tortura para nós, da iniciativa privada. Sou favorável ao Restaurante Popular, pois fome é uma das piores condições em que um ser humano pode se encontrar. Fico feliz por ser mais um projeto em parceria com o Governo do Estado. Só gostaria que os projetos assistenciais fossem mais amplos e completos.
Elaine – Gosto muito de falar no sindicato, para os meus pares, que não prometa o que não pode cumprir. A situação do país está drástica e a de Campos não está diferente. A fome voltou a assombrar as pessoas; isso nos revolta: fome! É muito cruel, desumano. Vai abrir Restaurante Popular, legal, mas está longe de resolver o problema. Precisamos gerar mais empregos em Campos, trazer dignidade às pessoas, levar condição de sustento às famílias, ampliar o comércio e a indústria. Esse será nosso desafio em 2022. Escolher direito para termos comida, emprego, dignidade e, onde for necessário, ação social de verdade.
George – Em sua primeira pergunta eu assinalei que, no escopo pandêmico, faltam políticas sociais e de assistência de maior abrangência no município. A pobreza aumentou dramaticamente no Brasil e em Campos. Isto implica o aumento importante da insegurança alimentar. Há dados que indicam que mais de metade das famílias em nosso país passaram por esse flagelo ano passado. Então, sim, é urgente. O Restaurante (Romilton Bárbara) jamais deveria ter sido fechado (no governo Rafael). Sobre o atraso, é desesperador. Mas, vale averiguar se é derivado de razões licitatórias que se justifiquem. E, caso sejam, não economizar nos esforços para saná-las.
Igor – No Brasil, nos habituamos a nos admirar por entregas públicas no prazo e de qualidade, quando isso deveria ser o padrão. O adiamento, infelizmente, é parte da paisagem na execução de obras e projetos públicos. Quando ao impacto social, no curto prazo, entendo como positivo, considerando a degradação econômica e social da população mais pobres, após a eclosão da pandemia. Porém, ter o Estado administrando um Restaurante Popular não me parece uma boa política pública no longo prazo.
Jefferson – Em um país que voltou para o mapa da fome e em uma região com tantas fragilidades sociais, a retomada do Restaurante Popular e a ampliação de ações que visem à garantia de uma alimentação mais adequada à população tornam-se imperativas. No entanto, a administração pública tem ritos necessários que, muitas vezes, dificultam a celeridade das ações.
Nélio – O maior empobrecimento de nossa gente tem sido notado, não só em Campos e região, mas em todo país. Enquanto a classe política mobiliza cifras milionárias para projetos pessoais e eleitoreiros, vejo em minha atividade diária doenças da fome, como o aumento impressionante da tuberculose, desnutrição adulta e infantil. Ações de políticas públicas no sentido de mais emprego, maior distribuição de renda, deveriam ser uma prioridade, sem desfocar da importância de ações sociais de cuidado e assistência aos necessitados.
Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã
Folha – Ao Folha no Ar, Wladimir disse que “o maior desafio atual de Campos é o transporte público”. Concorda? Em que o governo municipal agiu para superar esse desafio? E o que, em seu entender, teria que fazer e não fez?
Edvar – Urge pensar em uma integração: ônibus, micro-ônibus e vans com bilhete único, ou cartão recarregável, promovendo uma união entre os meios de transporte e uma maior cobertura da nossa malha viária, diminuindo as distâncias neste extenso município. O transporte coletivo bem resolvido e de acesso a todos é fundamental para redução da poluição e auxílio no controle do aquecimento global. Como sugestão: implementar políticas que incentivem o uso da bicicleta, com benefícios na aquisição, uma boa malha de ciclovias e Bike Parking, proporcionando segurança e conforto ao usuário deste meio de transporte.
Elaine – Concordo que é um grande desafio, mas o maior acredito ser a Saúde Pública. Eu acredito que pela extensão territorial e pelo valor do combustível, necessitamos de um bom plano viário com excelente fiscalização. Há muitos anos o transporte em Campos não funciona. Entra governo e sai governo e isso não melhora. Acredito na integração como existe em Macaé, com terminais bem estruturados e respeito à população. Temos também como exemplo a cidade de Maricá, que não se preocupa em de lucrar muito sobre o trabalhador que usa transporte público.
George – Eu e o prefeito discordamos parcialmente. O transporte público é uma face setorial de uma questão outra, o problema da desigualdade de oportunidades em nossa cidade, onde o transporte público se apresenta como uma expressão. Eu particularmente não trabalho com a questão urbana, ou com o que podemos resumir como o debate acerca do “direito à cidade”, o que inclui o deslocamento dos cidadãos. Mas, intuo que uma via seria buscar em outras cidades de médio porte latino-americanas soluções viáveis tecnologicamente e financeiramente para uma cidade que ainda goza da boa fortuna de estar em uma planície.
Igor – Discordo (do prefeito). O alívio momentâneo de caixa não pode tirar de vista que o maior desafio da cidade é a sustentabilidade de suas contas no longo prazo. Dito isso, o transporte público é uma dor para a população há muito tempo. O governo anterior teve um plano ambicioso que não funcionou e, parece-me, o resultado acabou sendo pior que o modelo anterior. Não sou especialista no setor, mas, do ponto de vista econômico, o problema de transporte público parece muito maior que a logística. Temos informalidade, denúncias de parte do setor dominada por forças paralelas ao Estado, empresas em estado falimentar, problemas de segurança pública etc.
Jefferson – Um transporte público eficiente e adequado às necessidades da população em um município extenso como o nosso, com uma grande aglomeração urbana e uma dispersão geográfica dos distritos e localidades, é muito complexo. É um bom indicador à ciência dos desafios, mas não o suficiente. Vejo grande fragilidade do governo nas respostas urgentes a esta questão, porém não há soluções simples para problemas complexos. Há muito por fazer.
Nélio – Este tem sido um grande desafio para os gestores, sem uma solução que possa melhorar o deslocamento das pessoas na cidade. Há necessidade de um estudo profundo na logística do transporte em Campos, não só no Centro da cidade, como no entorno, além de melhorar o acesso de tantos trabalhadores que precisam disso para sobreviver. Não vejo projetos voltados para o incentivo do uso de bicicletas, patins ou patinetes, com poucas ciclovias, e as que têm, faltando iluminação adequada, segurança e manutenção. Estas ações promovem não só uma melhoria no transporte urbano, como levam a um estímulo à atividade física da população.
Folha – Desde o governo Rafael, os buracos se multiplicam em quase todas as ruas e avenidas da cidade. Wladimir admitiu à Folha FM ser algo que o incomoda pessoalmente, mas alegou que a Prefeitura tem atuado. E prometeu R$ 78 milhões em 2022 para esse fim, R$ 70 milhões de verba estadual, mais R$ 8 milhões de uma emenda do senador Carlos Portinho (PL). Vê o município trabalhando para enfrentar o problema? Como projeta a entrada desses recursos?
Edvar – Sempre cito que o governo tem que fazer o “dever de casa”, tipo ruas e avenidas com qualidade, sem buracos, limpas, bem sinalizadas e iluminadas. Campos é uma cidade onde o capim nasce no asfalto. Mas 2022 bate na porta e já temos 78 milhões de motivos para resolver esses problemas.
Elaine – É um valor expressivo para reparo das vias públicas. Campos é uma cidade linda por natureza, com cachoeiras, lagoas, morros, prédios históricos e fora do roteiro cultural devido à péssima qualidade das vias de acesso. Para o cidadão comum, escutar que vão gastar 78 milhões para tapar buracos parece piada, pois é muito dinheiro. O Governo Estadual tem projetado esses valores absurdos num processo de pré-campanha escancarada, a partir dos recursos da venda da Cedae, que foi criminosa. A gente quer ver a cidade andar para frente, asfalto, rua bonita, bairro limpo, sem lixo na rua, praças arrumadas, espaços públicos funcionando.
George – Sou morador da cidade. Igualmente me incomoda a deterioração das vias públicas campistas. Incluo aí a ciclovia que também conta com buracos. Em uma destas, em parte da avenida Arthur Bernardes, próximo da Uenf, até mesmo tampas de ferro foram roubadas. Bem, há urgências apresentadas que se impõe. De todo modo, em termos de sustentabilidade, essas vias urbanas precisam de manutenção rotineiramente. A questão é sobre o orçamento municipal. Não há receitas suficientes e constantes que tornem sustentável cuidar desta demanda? Qual a justificativa da busca por recursos de fora do município?
Igor – Dentre todas as melhorias possibilitadas pela melhor situação financeira, a situação de diversas ruas da área central da cidade é a que parece ter recebido menor atenção. Pessoalmente, a percepção é de que as operações “tapa-buracos” são insuficientes, de longe, para corrigir os buracos que se multiplicam pela cidade. Porém, a emergência de resolver essa situação não pode afastar a necessidade de um planejamento para impedir que as novas obras se deteriorem rapidamente, como sempre ocorreu na cidade em outras ações do tipo.
Jefferson – Os últimos anos sacrificaram muito a infraestrutura de nossa cidade. O Brasil tem experimentado uma crise econômica aguda, sendo no Estado do Rio, especialmente na cidade de Campos, o que impossibilitou investimentos na infraestrutura viária e de mobilidade urbana e sua consequente manutenção. Apesar de a crise nacional não apresentar melhoras significativas, o orçamento público do Estado do Rio e o de nossa cidade apontam em uma direção diferente, a curto prazo pelo menos, especialmente com a melhora do preço internacional do petróleo e a venda da Cedae. Que não desperdicemos, mais uma vez, essa “oportunidade orçamentária”.
Nélio – As nossas vias públicas estão bem danificadas e precisam não só de consertos, mas de algo mais estrutural. A crise econômica que assola nosso município talvez tenha impedido uma ação mais consistente nessas reformas, já que o foco tem sido o enfrentamento da pandemia. É sem dúvida uma boa quantia de recursos, que poderá ser aplicada em melhorias e em algumas novas propostas, para uma melhor mobilidade urbana.
Wladimir em entrevista ao Folha no Ar (Foto: Folha da Manhã)
Folha – Também no Folha no Ar do último dia 17, Wladimir anunciou o desvio, fora da cidade de Campos, do fluxo de caminhões ao Porto do Açu, em obra estadual de R$ 400 milhões. E também garantiu que “em breve” será anunciado o início da EF 118, também com destino ao Porto do Açu. Como Campos e São João da Barra devem cobrar e acompanhar essas promessas? Como o próprio Porto, que impacto elas terão aos dois municípios e à região?
Edvar – Sem dúvida essas são duas obras muito importantes para melhorar o trânsito da nossa cidade. Seus impactos serão muito positivos, fortalecendo cada vez mais a realidade do Porto em nossa região. Essa logística é essencial, mas continuo achando o acesso rodoviário ao Porto muito tímido.
Elaine – Quero saber de geração de emprego na cidade, isso é o que nos importa de verdade. Se esses projetos estiverem em um planejamento que aponte a curto, médio e longo prazo para ações de geração de emprego e desenvolvimento industrial, tirar o fluxo de caminhões e grandes carretas da área urbana é de fato uma urgência. Como representante sindical, torço para que os recursos entrem nos cofres públicos o quanto antes, com isso teremos mais impostos e logo, reposição salarial, que estamos há quase sete anos esperando.
George – As obras são complexas, se desenvolvem em etapas e agregam atores em diferentes níveis de tomada de decisão. Seria preciso ter acompanhamento do cronograma, dos processos licitatórios e seria algo que caberia ao poder local e à sociedade civil campista. A EF 118 mesmo é projeto que nasce ainda no governo Dilma, em 2015, e tem encontrado diversas dificuldades de implementação, até mesmo de aporte de recursos. De todo modo, são importantes iniciativas de natureza logística e podem trazer ganhos diretos para os setores envolvidos, com impactos negativos que precisam ser mitigados.
Igor – Os corredores logísticos são uma carência urgente da cidade. Fluxo de caminhões e cargas por dentro da cidade reduz enormemente a eficiência da operação e causa transtornos aos cidadãos. Mas uma ressalva precisa ser feita. Os caixas estaduais estão irrigados, por diversos motivos, como há muito tempo não se via. A multiplicação de obras anunciadas precisa ser acompanhada de perto. Há menos de 10 anos, tivemos o Estado do Rio transformado em grande canteiro de obras por ocasião da euforia com a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Parte dos canteiros jamais foi desfeito, o dinheiro secou e as obras ficaram pela metade.
Jefferson – O complexo portuário do Açu traz inúmeras possibilidades e desafios à nossa região, sendo um vetor econômico de primeira grandeza. Infelizmente, os benefícios, historicamente, são partilhados por poucos e suas mazelas democratizadas. O que não é intransponível quando se busca um diálogo dos diferentes atores sociais para um desenvolvimento sustentável. É notório a todos que se deslocam de Campos ao litoral sanjoanense o crescente fluxo de caminhões e, pelas projeções, haverá intensificação. As duas propostas são essenciais, pois potencializarão o empreendimento, diminuindo os impactos negativos na mobilidade urbana.
Nélio – Em meu olhar de cidadão, vejo como um grande avanço este desvio do fluxo pesado de veículos do centro da cidade, que vem trazendo lentidão, riscos maiores de danos nas vias públicas e possibilidades maior de acidentes urbanos. A construção de uma Estrada de Ferro para desaguar no Porto do Açu será de grande importância para o avanço da infraestrutura e economia dos dois municípios, desde que não seja apenas para “desaguar” produtos provenientes de outros estados.
Folha – Em série da Folha com 11 painéis sobre a crise econômica de Campos, feita com 34 representantes da sociedade civil entre julho a setembro de 2020, a projeção para 2021 não era boa. Expectativa que se reverteu, sobretudo, por conta do aumento de 97,7% nas receitas de royalties e Participações Especiais (PEs) do petróleo, no comparativo dos 12 meses entre 2020 e 2021, fruto da conjuntura internacional. Wladimir deu sorte? Está sabendo aproveitá-la?
Edvar – Acredito em arauto de boas novas. Da mesma forma que acredito que o desejo de todos é que o prefeito arrume a casa e saiba aproveitar esses benefícios que nosso município pode no momento usufruir. Esperamos por obras importantes e de impacto em nossa cidade.
Elaine – Em 2021, o barril de petróleo subiu, as Participações Especiais tiveram uma crescente, com aporte do Governo do Estado, além da autorização do TAG (Termo de Ajustamento de Gestão do município) pelo Tribunal de Contas (do Estado, TCE) para o uso dos royalties para pagamento com os servidores. Isso tudo favoreceu muito à gestão de Wladimir; sorte ou não, ele conseguiu surfar essa onda. Ao longo de um ano anunciou que o pagamento dos servidores “está em dia”, fato que não condiz com a realidade, pois apenas efetuou três pagamentos no mês. Os demais nove pagamentos foram efetuados depois do quinto dia útil.
George – Temos aí uma questão muito interessante. A Prefeitura pode contar com o aumento expressivo deste tipo de receita e isto implica boa fortuna. Mas, é o mesmo petróleo que apresenta impactos macro e microeconômicos absolutamente negativos para a economia brasileira. Para a maioria da população, premida por pressões inflacionárias, talvez seja jogo de soma zero. De todo modo, é importante avaliarmos se estes recursos implicam de fato investimentos, inclusive no próprio pessoal da Prefeitura, ou se este excedente é dragado por embaraços fiscais.
Igor – No geral, acho que a postura do governo municipal vem sendo positiva frente ao aumento de receitas. A situação do caixa estadual e a aliança do prefeito com o governador também vem potencializando em esse bom momento de caixa. Mas o alívio não pode tirar de vista a necessidade de um ajuste de longo prazo, principalmente no crescimento da folha de pagamento. Como frisei em outras oportunidades, uma Reforma Administrativa em âmbito federal seria de grande ajuda, mas, a esta altura do mandato do Executivo, ninguém espera que isso aconteça.
Jefferson – Prefiro, ao termo sorte, a perspectiva de que estamos vivenciando, em nosso estado e em nosso município, uma conjuntura orçamentária pública muito positiva, porém com lastros de curto e, no máximo, de médio prazo. Espero que saibamos estender de maneira menos provisional os seus benefícios e sua longevidade. O prefeito tem se mostrado muito habilidoso na relação com o Governo do Estado, o Governo Federal e os parlamentares.
Nélio – Vejo que a competência de um gestor envolve muitos aspectos, entre eles suas relações internas e externas. Percebo que o governo Wladimir tem sido feliz na articulação política global, permitindo uma injeção maior de verbas para o município. A crise econômica é mundial e tem sido agravada por uma política nacional equivocada. Porém, alguns aspectos ocorrem a favor, contra a corrente da desvalorização de nossa moeda e da imagem de nosso país, que se bem aproveitados, serão muito positivos para a nossa região.
Página 11 da edição de 5 de setembro 2020 da Folha da Manhã
Folha – Naquela mesma série de 11 painéis da Folha, a despeito das muitas diferenças de formação e interesse entre os 34 representantes da sociedade ouvidos (confira aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), três alternativas foram consensuais para Campos sair da crise: retomada da sua secular vocação agropecuária, parceria do poder público com as universidades e adoção integral do pregão eletrônico nas compras do município. Passado um ano, como o governo Wladimir avançou nelas?
Edvar – Não consigo dimensionar o avanço, mas posso afirmar a grande importância da adoção das três alternativas, que devem ser consideradas com total atenção. Para não dizer que não falei das “frutas”, gosto da volta do Ceasa e não posso esquecer de insistir no turismo.
Elaine – As parcerias com as universidades ainda são tímidas, podemos mais, visto que somos uma cidade universitária. Temos o IFF, a UENF, e a UFF com reconhecimento nacional e não exploramos todo o nosso potencial. Gostaria muito de ver parceria das escolas públicas municipais com os laboratórios das universidades. Quanto à questão agropecuária, também foi tímido o avanço. Acredito que tenha a ver com a falta de manutenção das estradas vicinais e limpeza dos canais. Campos têm muito potencial agrícola e tecnológico, precisamos usar de todos os recursos possíveis para sair da dependência dos royalties.
George – Na primeira questão vejo com bons olhos a atuação do professor Almy Junior que, da parte da pasta que ocupa (Agricultura), detém expertise para a tarefa. Sobre o “agro realmente existente” a questão é bem outra e envolve as práticas do setor, setor este bastante heterogêneo e dotado de inúmeras contradições, não obstante a sua inegável importância. Quanto ao pregão, há a implementação, que parece gradual e vale já uma primeira avaliação sobre os seus resultados. Com as universidades vejo boa vontade, incluindo o Legislativo local, o que pode redundar em um conjunto de medidas benéficas nos próximos tempos. A conferir.
Igor –No último painel, em (23 de) outubro, frisei a necessidade de publicidade de medidas nesse sentido, dada a relevância do assunto e o consenso a respeito dos temas. No primeiro ano de gestão, o governo parece ter dado mais foco a questões urgentes de curto prazo. E, dado a pandemia, não poderia ser diferente. Os assuntos em tela parecem ter sido colocados, até aqui, em segundo plano. Mas a nossa cidade carece de soluções de longo prazo, que possam elevar a produtividade da nossa economia e reduzir a dependência dos influxos de dinheiro de royalties. Todas as iniciativas elencadas caminham nesse sentido e precisam de atenção e planejamento.
Jefferson – Há crescente diálogo e estabelecimento de parcerias com as instituições de educação superior e de educação profissional e tecnológica de nossa cidade, nas diferentes pastas do governo. Creio que seus resultados vão se mostrar muito profícuos em breve. Vejo também com esperança as ações na área agrícola. Quanto ao pregão eletrônico, tenho percebido avanços do seu uso nas diferentes secretarias. Porém, no estágio atual da governança e das ferramentas tecnológicas, é possível avançar muito mais. Vejo essa motivação e esforço nas secretarias com que dialogo, como, por exemplo, a de Educação, Ciência e Tecnologia.
Nélio – Não percebi o avanço nestas áreas neste primeiro ano. Mas creio que são alternativas fundamentais, considerando nossa vocação, tendo em vista um crescimento de nossa economia, uma maior geração de empregos e melhoria de nossa infraestrutura. Podemos nos tornar uma das maiores economias do país, pois temos extensão territorial, riquezas naturais, um ensino superior consistente, história e cultura fortes e ricas, e, particularmente gente muito trabalhadora.
Edvar – Quanto mais modais de transporte avançarem e se qualificarem, melhor para o desenvolvimento regional. O transporte aéreo urge por crescimento. Recentemente, recebemos na CDL a deputada Alana Passos (PSL), que preside a comissão de Turismo da Assembleia Legislativa, e ficamos muito confiantes em uma nova revitalização da malha aérea.
Elaine – Nossa cidade está entre as maiores do estado e, nas regiões Norte e Noroeste, é referência. Crescer é preciso, mas esse crescimento precisa vir da base da pirâmide social para cima, e não o inverso. Não adianta ter voo direto para os EUA e para a Europa com o desemprego assolando a cidade, falta de atendimento adequado em hospitais, famílias morando embaixo de marquises, fome, ruas esburacadas e sem asfalto, violência, saneamento precário e caro, transporte público ruim e custo de vida absurdo. Vamos olhar as pessoas, olhar a nossa comunidade, nossa sociedade, o espaço onde nossos filhos estudam e crescem.
George – Concordo com o colega William. Campos parece já entrar em fase de metropolização e isto, em uma sociedade local com amplos problemas de inclusão, deve ser mais sinal de preocupação do que de comemoração. Me guio pela perspectiva da qualidade do desenvolvimento e se o mesmo é capaz de incluir sua população em seus benefícios ou não. Afinal, vale lembrar que diversas cidades mantêm voos regulares internacionais e, ao mesmo tempo, toleram condições sub-humanas para suas maiorias.
Igor – A notícia me parece menos importante que à primeira vista. A Azul, operadora que atua na cidade, possibilita a realização de conexões para a Europa em praticamente todos os aeroportos onde opera, de pequenas a grandes cidades, passando pelas de médio porte, como Campo e Macaé. O que, obviamente, não significa dizer que nossa região não seja estrategicamente importante para o estado ou para o país.
Jefferson – Os modais de transporte são fundamentais e estratégicos para o desenvolvimento dos territórios. Com o fortalecimento da malha aérea nacional e internacional em nossa região, aliada ao transporte marítimo, nacional e internacional, pelo Porto do Açu, e à ampliação das malhas rodoviária e ferroviária como previstos, esperanças de dias melhores se renovam.
Nélio – Nossa região é potencialmente forte, em vários setores, sendo natural essa possibilidade de conexões aéreas entre grandes centros nacionais e internacionais. Hoje em dia a globalização é uma realidade, principalmente em uma cidade onde a ciência e a academia são destacadas e atuantes, apesar de atualmente enfraquecidas pela falta de estímulos, em nível federal e estadual.
Edvar – Prefiro dizer que é um bom gerador de energia que irá converter em luz além do túnel. Com a pandemia vencida pela vacinação em 2022, se desenha uma saída do túnel, clareando um resultado bem melhor que o ano de 2021. Quem sabe chegaremos a Pasárgada, nossa cidade dos sonhos.
Elaine – É preciso alimentar o comércio local, fazer o dinheiro circular, gerar renda. E isso só se faz com emprego! Uma cidade deste tamanho tem capacidade de reação diante crise, mas precisamos compreender que isso passa por implantar a política certa, ter objetivos planejados e concretos, e ter uma política nacional que atenda os interesses do estado e da cidade. Hoje não temos, mas podemos mudar isso em 2022 e voltar a crescer como país.
George – Concordo com o diagnóstico feito por você, embora que de maneira moderada. Há um avanço importante neste âmbito e não temos sociedade civilizada sem que se tenha algum tipo de sofisticação tributária, o que inclui eficiência, eficácia e efetividade deste aparato. Agora precisamos ver a mesma sofisticação no lado redistributivo do poder local, se o mesmo vai conseguir entregar serviços e investimentos com a mesma sofisticação e pautado por critérios objetivos de justiça. É bom sinal, sim. Vai jogar mais bonito ainda ampliando transparência, diminuindo nossas desigualdades sociais e apresentando a sustentabilidade de seu aparato.
Igor – A principal arrecadação de atividade econômica feita pelos municípios vem da cobrança do ISS, que incide sobre serviços. No ano passado, a pandemia praticamente paralisou esse setor, fazendo com que o volume de notas fiscais emitidas despencasse. O aumento exponencial na comparação anual é efeito da retomada da normalidade. Além disso, tivemos um impacto inflacionário muito alto em 2021. Uma análise técnica mais adequada precisaria analisar uma série histórica mais longa e, preferencialmente, em valores reais, descontada a inflação.
Jefferson – O ano de 2020 não é uma boa referência para comparações econômicas, pois nele estão contidos os maiores impactos da grande recessão das economias regional, nacional e mundial, em virtude da pandemia. Acredito que a nitidez e precisão da análise dos avanços e/ou retrocessos de nossa economia se darão a partir dos resultados de 2022. É certo que houve um aquecimento do mercado de trabalho em nossa cidade, de janeiro a outubro, porém ainda é cedo para saber sua densidade e longevidade.
Nélio – Sou otimista e prefiro, ao invés de apenas esperar, trazer a mensagem do educador Paulo Freire, que falava em esperançar por um tempo melhor. Temos um enorme potencial de crescimento em todos os setores de produção e serviços. Este aumento de receitas só nos dá um sinal de que os tempos irão mudar. Se soubermos aproveitar nossas vocações, Campos terá um futuro promissor.
Folha – Uma questão polêmica no final deste ano foi o abono de R$ 2 mil a cada servidor municipal na ativa, que os da educação entendiam ser apenas deles. Wladimir também admitiu as perdas salariais do servidor com a volta da inflação de dois dígitos, mas projetou que só em 2023 poderá debater reajuste. Ele também deu outro alerta: as receitas próprias de Campos não pagam a folha. E o limite para adequar isso é 2025. Como resolver esse dilema?
Edvar – Se não é possível dar um aumento, diante do momento que passamos, um abono ajuda a amenizar as perdas salariais dos servidores. Quanto ao fato das receitas próprias não pagarem a folha, Reforma Administrativa urgente.
Elaine – Os profissionais da educação reconhecem a importância e defendem o abono para todos, o que eles não entendem é o cancelamento do auxílio tecnológico, que tem caráter compensatório diferente da natureza do abono, bem como fontes de custeios diferentes. Os servidores necessitam de reposição inflacionária e é preciso lembrar que os servidores trazem verba federal para a cidade. É preciso sair do discurso e mostrar as contas e a abrir a caixa preta, além de tornar o Portal da Transparência acessível a todos.
George – Vale verificar a origem das verbas do abono, se a verba era de fato destinada aos servidores da educação, ou, se estamos falando de verba sem restrição orçamentária. De todo modo, tocando no cerne de sua questão, os mais de 5000 municípios brasileiros lidam com o problema de lidarem na ponta com as demandas de políticas públicas e nem sempre terem aporte próprio para tal. A descentralização está prevista na CF 88. Não é problema só de Campos. E, apontando para algo que vale também para os outros municípios, a saída envolve eficiência tributária com eficácia redistributiva da aplicação dos tributos. Não vejo outra saída.
Igor – A demanda por reajustes em todas as categorias vai se intensificar nos próximos meses. A carestia intensifica ainda mais a percepção da perda de padrão de vida observada por grande parte da população. Em contrapartida, temos um problema crônico da folha de pagamento da cidade, que consome recursos vultosos e comprime outras despesas, gerando um ciclo vicioso difícil de ser equacionado. Dado que a política é, ou deveria ser, a arte de compatibilizar o desejável com o possível, a bonificação alivia, por ora, as pressões por aumentos salariais que seriam extremamente preocupantes para as contas públicas.
Jefferson – O abono dado não é o ideal, mas, com certeza, é um reconhecimento ao importante trabalho desenvolvido pelos servidores públicos municipais. O ideal é ter carreiras bem definidas e estruturadas e uma política salarial adequada. Entretanto, as realidades econômica e orçamentária do município impõem limites e as demandas sociais pressionam os investimentos públicos. Não é uma equação fácil de se resolver, caso não haja uma expansão das receitas municipais a partir de uma ampliação da atividade produtiva e um olhar criterioso das prioridades da aplicação e otimização do orçamento municipal.
Nélio – Este é um dos maiores desafios de um gestor público, visto que um passado político tradicional, costuma insuflar a folha de pagamento, a partir de promessas de campanhas, com contratações sem justificativas técnicas, ultrapassando o limite tolerável para a saúde financeira do município. E sem, portanto, projetar uma boa estrutura previdenciária. Infelizmente, a única forma de assegurar o balanço positivo para investimentos e ampliação de serviços e empregos é racionalizar o número de servidores, fazendo um estudo profundo e técnico.
Folha – Wladimir iniciou 2021 com 22 dos 25 vereadores. Mas após o envio da proposta do novo Código Tributário, na sessão da Câmara de 25 de maio, teve um racha em sua base, que de lá até hoje oscila entre 14 e 15 edis. Como o novo Código acabou não passando, valeu a pena? E como vê a retomada da força política do setor produtivo da cidade, que foi considerada fundamental para a derrota do governo, aliado a vereadores que também são empresários?
Edvar – No caso do novo Código Tributário, não é questão de vitória ou derrota, mas uma questão de crise financeira, em que venceu a população. Quanto a força política, eu quero o crescimento de Campos e região com a união de políticos, empresários e entidades.
Elaine – Há tempo a Câmara dos Vereadores é considerada um puxadinho do Executivo, e as pautas de interesse da população não são votadas e fiscalizadas. O Código Tributário só não passou devido à pressão das entidades comerciais e dos comerciantes. Os vereadores entenderam o recado das ruas e, em sábia decisão, votaram contra. Assim como a mudança na Lei Orgânica que estão tentando aprovar. A Prefeitura deveria se atentar e diminuir a carga tributária para gerar mais emprego, trazer mais empresas e com isso arrecadar mais.
George – Eu também penso que se coloca a reformulação da questão tributária com urgência urgentíssima nos diferentes níveis de governo. É preciso corrigir as deficiências e injustiças de nosso conjunto de opções de tributação. Contudo, creio que concordo com um diagnóstico implícito na sua pergunta. É preciso timing e processos de legitimação para enfrentar os lobbies e demais grupos de pressão e impetrar as mudanças. A proposta tributária do governo tem, sim, seus méritos. Mas careceu de habilidade política para ser vitoriosa e produziu debandada importante no Legislativo. Debandada que não foi mortal. Mas, sim, foi importante.
Igor – Dado o esfriamento do tema derivado da melhora no caixa do município, é provável que os vereadores que se afastaram mantenham a coesão na votação dos interesses do governo. Quanto ao setor produtivo, é importante haver coesão e entendimento entre eles, dado que a economia de qualquer local só sobrevive pelo dinamismo da iniciativa privada; só é preciso o cuidado para que a atuação não favoreça apenas interesses corporativistas, mas o interesse pelo desenvolvimento econômico da região. O protagonismo de novas lideranças, com da CDL Jovem, por exemplo, parece trazer ares modernos à visão do empresariado local.
Jefferson – Wladimir vem mostrando sua capacidade de escuta, qualidade pouco observada em gestores que preferem o falar e, não poucas vezes, o se impor. Governar exige a competência do decidir, optar e priorizar, mas a partir da escuta dos diversos atores sociais. É natural a discordância nos interesses e demandas dos diferentes atores sociais. O diálogo pressupõe a autonomia dos que dialogam, pois, caso contrário, é um monólogo. A Câmara dos Vereadores deve ecoar as diferentes vozes da sociedade. É legítimo e necessário esse processo de convergências e divergências. Mostra que nossos parlamentares estão exercendo seu papel.
Nélio – O prefeito Wladimir, apesar da idade, tem um bom histórico parlamentar. E com isto fez uma boa articulação no Legislativo no início, bem favorável à sua administração. Porém, em um regime democrático, a oposição de ideias é fundamental e necessária, abrindo novas visões e novos caminhos. A taxação de impostos é bem antipática em todos os setores e certamente discutível no atual cenário. Esse enfraquecimento de apoio político era uma questão de tempo, mas creio que a cidade precisa agora, mais que nunca, aproveitando o sopro do vento das oportunidades, de união para voltarmos ao esperado crescimento e estabilização econômica.
Edvar – Primeiro queremos a real indicação dos candidatos para depois fazer as avaliações. Mas, como sou bairrista, vejo como salutar votar em candidatos locais para melhor acesso e interlocução, vide Rodrigo Bacellar (SD), que vem fazendo um belo trabalho.
Elaine – Na minha visão, isso se chama continuísmo. Será que isso é o melhor para nossa cidade? Penso que necessitamos de gente com coragem, de sangue novo, de gente com vontade de construir de verdade. A política de Campos precisa de uma boa arejada, é o filho de um contra o filho de outro, famílias que se intercalam no poder. Campos precisa de um respiro de modernidade política, precisa de povo na política, precisa de gente pensando em gente, precisa humanizar essa discussão.
George – O pleito de 2022 lida com mudanças nas regras do jogo que ainda não foram testadas, o que se traduz nas federações partidárias e mudanças nas cotas dos legislativos. Por esta perspectiva eu considero uma ousadia o prefeito cravar números tão precisos para um pleito com novidades nas regras do jogo. Já sobre a saída local proposta por Frederico Paes, ela me parece desconsiderar a complexidade da formulação de preferências do eleitorado. Em suma, me parecem propostas de negociação dura com a realidade.
Igor – Desejável seria se conseguíssemos eleger o máximo de candidatos oriundos da região, independentemente do grupo político de origem. Porém, dado o contexto atual, com uma boa gestão municipal até aqui e o conforto momentâneo no caixa municipal e estadual, é provável que o prefeito consiga eleger os deputados apoiados por ele no ano que vem.
Jefferson – Pela avaliação do primeiro ano de gestão, acredito que o grupo político do prefeito ampliará sua base eleitoral. Comungo com aqueles que reconhecem a necessidade de uma representação parlamentar regional. Naturalmente, nosso município, pela sua densidade demográfica e importância no território, deve ter representações locais, com visão de representação regional, assim como será salutar ter representações políticas de outros municípios que compõe nosso espaço territorial, comungando com esse olhar regional. A atuação política conjunta nos fortalece.
Nélio – A sugestão do vice-prefeito Frederico Paes é bem interessante, pois precisamos neste momento de assentos no Legislativo estadual e federal para carregar a bandeira de nossa região, tão importante no cenário produtivo de nosso estado e país. A voz do interior costuma se perder no cenário político nacional. Com deputados locais eleitos, teremos essa oportunidade de levar nossas importantes demandas com mais forças e possibilidades.
Cláudio Castro e Wladimir na reinauguração do Restaurante Popular Romilton Bárbara (Foto: Supcom)
Folha – Na eleição a governador, Wladimir endossou ao Folha no Ar do dia 17 seu compromisso com o governador Cláudio Castro para 2022. Já sobre a eleição presidencial, ficou em cima do muro entre os dois principais pré-candidatos em todas as pesquisas, o ex-presidente Lula (PT) e o presidente Bolsonaro. O prefeito só deu uma certeza: “não apoiaria (Sergio) Moro (Podemos)”. Como projeta o município e a região nesses dois pleitos?
Edvar – Enquanto representante de entidade de classe, me reservo a não opinar. Mas continuo na torcida pelo surgimento de uma nova liderança.
Elaine – Não só a região, mas o Brasil não aguenta ficar mais quatro anos sem presidente. Espero que possamos fugir da polarização e dos discursos vazios, para discutir uma política que atenda às necessidades das pessoas, que gere emprego, acabe com a fome, que valorize a vida, a qualidade de vida, que traga o sorriso no rosto do povo. O governo Bolsonaro tem sido cruel com o serviço público, vide a PEC 32 (da Reforma Administrativa, parada desde setembro na Câmara Federal), com as universidades, com pesquisas, com vacinação, com investimento, com o crescimento do país. E isso reflete diretamente na vida de todos.
George – Eu realmente prefiro aguardar as pesquisas dos próximos meses. Campos, se pegarmos os dois (pré-)candidatos que neste momento estão no topo das pesquisas nacionais, apresentou votação relevante tanto para Lula quanto para Bolsonaro em duas conjunturas francamente diferentes. Sobre a opção do prefeito em apoiar de maneira explícita o projeto do governador Cláudio Castro, penso que pode ser uma boa ocasião para vermos se há transferência de voto de Wladimir para Castro. Para apoiadores ou adversários, eis aí um experimento interessante para vermos a quantas anda o capital político do prefeito.
Igor – O desejável é que qualquer posição do prefeito resguardasse os interesses do município. Do ponto de vista prático, importa que consigamos direcionar emendas, verbas federais e incluir a cidade nos planos de investimento de outros entes da Federação. Assim, manter o apoio “em aberto” pode ser estratégico e interessante politicamente para o prefeito, mas também para os cidadãos. Porém, aos olhos do interesse nacional e de uma visão mais ampla, que não necessariamente atende aos interesses imediatos da municipalidade, é trágico que caminhemos para uma disputa entre o saque sistemático aos cofres públicos e o desprezo pela vida.
Jefferson – É compreensível seu alinhamento com o governador e institucional sua relação na esfera federal. Pela sua condição de prefeito e diante das necessidades municipais, vejo como razoáveis seus posicionamentos.
Nélio – Será sem dúvida um ano difícil, com uma disputa acirrada entre dois polos políticos nacionais. Todas as prioridades e necessidades do país entrarão em estagnação, e nosso município deve se cuidar para que possamos continuar nossa caminhada para a recuperação fiscal, de produção e de serviços. Espero que o prefeito tenha esse cuidado especial com a nossa cidade. Este país precisa sair urgente do marasmo em que entramos, deixando para trás de vez o negacionismo, não só na ciência, mas também na falta de percepção da realidade de miséria do nosso povo.
Folha – De 0 a 10, que nota daria ao primeiro ano do governo Wladimir? Por quê?
Presidente da Alerj, André Ceciliano; reitor da Uenf, Raul Palacio; e o prefeito de Campos, Wladimir Garotinho, em parceria pela restauração do Arquivo Público de Campos (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Elaine – Como cidadã, gostaria de dar nota maior, pela abertura das UBS, abertura do Restaurante Popular, abertura de alguns polos esportivos, pela construção da reestruturação da cidade, mas dou nota 7, pois, como presidente do Siprosep, não vejo avanço nas pautas dos servidores. Precisamos de calendário de pagamento ao menos respeitando a sumula nº 381 do TST, necessitamos de reposição inflacionária, mais transparência nas verbas federais, como Fundeb e verbas da Saúde, mais estrutura na Segurança Pública e valorização dos nossos aposentados, que tanto fizeram por esta cidade.
George – Dou nota 7. Em termos comparativos com o governo anterior, a gestão tem se demonstrado maior capacidade e até mesmo nos entregou boas notícias. Mesmo imprevistos, vide a questão do petróleo, sopraram a favor. Também a busca por “dinheiro de fora” tem sido bem-sucedida na formação de parcerias, algo que eu considerava crível ainda pelo candidato a prefeito em campanha. Mas, acho que há espaço avanços em termos estruturantes e minha nota fica como incentivo. Pelo bem da população eu realmente gostaria de dar pontuação máxima em futuras análises. Torço que o estafe consiga e nos surpreenda positivamente.
Igor – O governo começou com um ímpeto muito grande, lembrando os mutirões popularizados por João Doria na capital e, posteriormente, no estado de São Paulo. A boa articulação política é um traço distintivo e vem gerando benefícios concretos à população. Sem dúvidas, o governo foi ajudado por circunstâncias econômicas alheias, mas há méritos na gestão municipal. A perda da urgência no ajuste das contas, a situação das ruas e o transporte público são, sem dúvidas, temas que precisam de um endereçamento mais urgente, assim como um choque de ordem no trânsito campista. “Tudo somado e subtraído”, o resultado é positivo. Atribuo nota 8 ao primeiro ano.
Jefferson – Repetirei a que dei nos 100 dias de governo: nota 8. Porém, o primeiro 8 foi na aposta de futuro. A nota 8 atual já tem bases mais sólidas a partir do que percebi, mas ainda na expectativa do que virá. Espero que em seu segundo ano a administração pública municipal possa consolidar tais expectativas e, como sugestão, priorize o transporte público de nossa cidade, para além, é claro, e não poderia ser diferente, fortaleça nosso tecido educacional.
Nélio – Minha nota para o prefeito Wladimir é 7,5. Continuo vendo como positiva sua administração, tendo muito ainda que melhorar, mas demonstrando sua vontade e energia para levar Campos dos Goytacazes para um tempo melhor.
A partir das 7h da manhã desta quinta (30), o convidado para fechar o ano de 2021 do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o jornalista, estudante de História e novo diretor do Grupo Folha, Ícaro Abreu Barbosa. No primeiro bloco, ele falará sobre o seu trabalho, dedicado às redes sociais do maior grupo de comunicação do interior do Estado do Rio.
O segundo e terceiro blocos do programa serão dedicados a analisar os fatos mais importantes de 2021, bem como tentar projetar os de 2022, em Campos, na região, no estado e no Brasil. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
“Na verdade, não tem perda direta, mas muita perda indireta, porque essa lei cria uma tributação para as empresas de petróleo, de 16 milhões de Ufirs (Unidade Fiscal de Referência) por ano. Cada Ufir está a R$ 3,00, daria cerca de R$ 50 milhões para cada empresa. Isso gera desinvestimento na Bacia de Campos. As empresas vão ter que tirar esse dinheiro de algum lugar, e vão tirar do investimento. Isso vai gerar menos receita e menos empregos. É uma cadeia perigosa, um ciclo muito perverso para toda a região”, explicou Wladimir à coluna. Segundo o prefeito, o governador se comprometeu a vetar.
Ano de sorte petrolífera
No que se refere a petróleo, Campos também fecha 2021 com motivos para comemorar. Após ter duas Participações Especiais (PEs) zeradas em 2020, fato inédito nos 20 anos anteriores, Campos teve crescimento de 97,7% nas suas receitas petrolíferas — royalties + PEs. Em 2020, foram R$ 284.565.976,11 de royalties e R$ 6.987.268,69 de PEs, no total de R$ 291.553.244,80. Em 2021, foram R$ 460.502.071,62 de royalties e R$ 115.795.881,32 de PEs, no total de R$ 576.297.952,94. Fruto de uma commodity internacional, fixada em dólar, Wladimir teve sorte em seu primeiro ano de governo.
A partir das 7h da manhã desta quarta (29), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o médico infectologista Nélio Artiles. Ele falará sobre a pandemia da Covid-19 no mundo, no Brasil e em Campos, com a nova variante Ômicron, e sobre a vacinação infantil adiada pelo governo Jair Bolsonaro (PL), que condena crianças brasileiras entre 5 e 11 anos à morte. Falará também sobre o surto de gripe com o novo subtipo H3N2 do vírus Influenza A.
Por fim, Nélio avaliará o primeiro ano do governo Wladimir Garotinho (PSD), sobretudo no combate à pandemia e na Saúde Pública de maneira geral, além de dar a sua projeção para as urnas de outubro de 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Prefeitos da região reunidos hoje para agenda com o governador Cláudio Castro, contra lei que cria nova tributação para as empresas na Bacia de Campos (Foto: Divulgação)
Vários prefeitos da região da Bacia de Campos, entre eles Wladimir Garotinho (PSD), se reuniram na manhã de hoje em agenda com o governador Cláudio Castro (PL). Na pauta, o pedido dos alcaides para Castro vetar a lei 5190/2021, de autoria do deputado estadual Luiz Paulo Corrêa da Rocha (Cidadania) e aprovada na Alerj, que cria nova tributação sobre empresas de petróleo. E, se passar a valer, vai gerar desinvestimento das empresas na Bacia de Campos. Segundo Wladimir, o governador se comprometeu a vetar.
— A lei passou de passagem, sem nenhum deputado da região contestar ou fazer emenda. Na verdade, não tem perda direta, mas tem muita perda indireta, porque cria uma tributação nova para as empresas operadores de petróleo, de 16 milhões de Ufirs (Unidade Fiscal de Referência) por ano. Cada Ufir está a R$ 3,00, daria R$ 50 milhões, mais ou menos, para cada empresa. Isso gera desinvestimento na Bacia de Campos. As empresas vão ter que tirar esse dinheiro de algum lugar, e vão tirar do investimento. Isso vai gerar menos receita, em virtude da diminuição do investimento, e menos empregos. É uma cadeia perigosa, um ciclo muito perverso para toda a região, além de gerar insegurança jurídica — alertou Wladimir.
Por fim, Felício falará do União Brasil, na fusão do seu PSL com o DEM. E tentará projetar as eleições para deputado, governador do RJ e presidente da República, nas urnas de outubro de 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Fui criado como católico romano, frequentei adolescente a Igreja Batista, fui casado com uma neopentecostal e caminhei entre a colunata das várias fés que juntas sustentam a Mesquita de Córdoba. Orei como muçulmano com meu filho na grande Mesquita Azul de Istambul, como católico ortodoxo nas igrejas da Grécia e como anglicano nas da Inglaterra, incluindo a Holy Trinity onde repousa Shakespeare. Caí em prantos agarrado ao pé de Camões no Mosteiro dos Jerônimos e ajoelhado diante de onde Sócrates morreu, nas ruínas da prisão da Ágora de Atenas. Renasci das entranhas dos Andes em Cusco, dado à luz pela vagina de pedra de PachaMama. Tive experiências místicas no templo sufista onde está o túmulo de Rumi, no meio da Ásia; e na capela onde está incrustrada em pedra a ossada de Francesco di Assisi, elevada sobre as nuvens de chuva da Úmbria. Li a Bíblia e o Corão, Agostinho, Al Farabi e Tomás de Aquino. Mas não tenho prática religiosa, que não orar o Pai Nosso a Jesus e o Santo Anjo a Miguel Arcanjo, para pedir orientação e proteção; ou sussurrar que Deus é grande, em árabe, toda vez que entro no mar, antes de nele mergulhar para agradecer a Iemanjá pela graça de penetrá-la.
Na dúvida judia como Jesus e meus antepassados cristãos novos, não sei se creio em Yeshua Ben Youssef, como a personagem histórica era chamada em vida, como meu Messias. Mas sou profundamente grato a ele por uma dívida que nunca terei como pagar. De quem sofreu o que ele sofreu por pregar o Amor entre os homens e por sua crença inumana de entregar o próprio corpo em holocausto para salvar ao meu semelhante e a mim. De quem morreu na fé de que o fazia pelos pecados dos meus pais, do meu filho e meus. Incapaz dessa mesma fé, não acredito em milagres e gostaria sinceramente de acreditar em vida após a morte. Mas creio sempre na possibilidade de estar errado. Como creio que minha vida é melhor com a ideia de Deus, aglutinadora e civilizatória, a despeito de todos os pecados humanos cometidos em Seu nome. Que são sempre mais lembrados por homens e mulheres que não têm nada melhor a oferecer, com suas religiões seculares igualmente dogmáticas e mal travestidas de ideologias laicas. Homem da planície, acredito sobre todas as coisas na humanidade expressa por um simples carpinteiro e rabi da Galileia no Sermão da Montanha. E isso me basta!
Assim, na véspera do dia em que se celebra o nascimento de Jesus, transcrevo abaixo o seu Sermão da Montanha. Não em sua versão mais compacta em Lucas (6:17-36), mas na mais extensa em Mateus (5-7). Que nos adverte sobre os “falsos profetas, que vêm a vós disfarçados em ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores” (7:15), tão em voga nos dias de hoje, como já eram no tempo dos fariseus. Que nos lega o Pai Nosso (6:9-13) e condena o histrionismo na oração que nada tem a ver com o cristianismo do Cristo: “E, quando orardes, não sejais como os hipócritas; pois gostam de orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens (…) Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (6:5-6). E que, sempre muito lembrado pela dificuldade humana do “a qualquer que te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (5:39), é muito esquecido na proposição de dificuldade ainda maior: “Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti” (5:29).
Por fim, antes da sua transcrição integral em Mateus, a lição talvez definitiva do Sermão da Montanha: “Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgais, sereis julgados; e com a medida com que medis vos medirão a vós” (7:1-2). E, no exemplo da vida curta e da grande obra de Jesus, um Feliz Natal!
Sermão da Montanha
Evangelho segundo Mateus – Capítulo 5
Jesus, pois, vendo as multidões, subiu ao monte; e, tendo se assentado, aproximaram-se os seus discípulos,
e ele se pôs a ensiná-los, dizendo:
Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque eles serão fartos.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.
Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa.
Alegrai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram aos profetas que foram antes de vós.
Vós sois o sal da terra; mas se o sal se tornar insípido, com que se há de restaurar-lhe o sabor? Para nada mais presta, senão para ser lançado fora, e ser pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte;
nem os que acendem uma candeia a colocam debaixo do alqueire, mas no velador, e assim ilumina a todos que estão na casa.
Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.
Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir.
Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só jota ou um só til, até que tudo seja cumprido.
Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus.
Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.
Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e, Quem matar será réu de juízo.
Eu, porém, vos digo que todo aquele que se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e quem disser a seu irmão: Raca, será réu diante do sinédrio; e quem lhe disser: Tolo, será réu do fogo do inferno.
Portanto, se estiveres apresentando a tua oferta no altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti,
deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai conciliar-te primeiro com teu irmão, e depois vem apresentar a tua oferta.
Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele; para que não aconteça que o adversário te entregue ao guarda, e sejas lançado na prisão.
Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto não pagares o último centavo.
Ouvistes que foi dito: Não adulterarás.
Eu, porém, vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela.
Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno.
E, se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que vá todo o teu corpo para o inferno.
Também foi dito: Quem repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio.
Eu, porém, vos digo que todo aquele que repudia sua mulher, a não ser por causa de infidelidade, a faz adúltera; e quem casar com a repudiada, comete adultério.
Outrossim, ouvistes que foi dito aos antigos: Não jurarás falso, mas cumprirás para com o Senhor os teus juramentos.
Eu, porém, vos digo que de maneira nenhuma jureis; nem pelo céu, porque é o trono de Deus;
nem pela terra, porque é o escabelo de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei;
nem jures pela tua cabeça, porque não podes tornar um só cabelo branco ou preto.
Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; não, não; pois o que passa daí, vem do Maligno.
Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.
Eu, porém, vos digo que não resistais ao homem mau; mas a qualquer que te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;
e ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa;
e, se qualquer te obrigar a caminhar mil passos, vai com ele dois mil.
Dá a quem te pedir, e não voltes as costas ao que quiser que lhe emprestes.
Ouvistes que foi dito: Amarás ao teu próximo, e odiarás ao teu inimigo.
Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem;
para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos.
Pois, se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo?
E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis demais? Não fazem os gentios também o mesmo?
Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial.
Evangelho segundo Mateus – Capítulo 6
Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles; de outra sorte não tereis recompensa junto de vosso Pai, que está nos céus.
Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa.
Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita;
para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
E, quando orardes, não sejais como os hipócritas; pois gostam de orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa.
Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque pensam que pelo seu muito falar serão ouvidos.
Não vos assemelheis, pois, a eles; porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedirdes.
Portanto, orai vós deste modo: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome;
venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu;
o pão nosso de cada dia nos dá hoje;
e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também temos perdoado aos nossos devedores;
e não nos deixes entrar em tentação; mas livra-nos do mal. [Porque teu é o reino e o poder, e a glória, para sempre, Amém.]
Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós;
se, porém, não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai perdoará vossas ofensas.
Quando jejuardes, não vos mostreis tristes como os hipócritas; porque eles desfiguram os seus rostos, para que os homens vejam que estão jejuando. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa.
Tu, porém, quando jejuares, unge a tua cabeça, e lava o teu rosto,
para não mostrar aos homens que estás jejuando, mas a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
Não ajunteis para vós tesouros na terra; onde a traça e a ferrugem os consomem, e onde os ladrões minam e roubam;
mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem os consumem, e onde os ladrões não minam nem roubam.
Porque onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração.
A luz do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo teu corpo terá luz;
se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes são tais trevas!
Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.
Por isso vos digo: Não estejais ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer, ou pelo que haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário?
Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas?
Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?
E pelo que haveis de vestir, por que andais ansiosos? Olhai para os lírios do campo, como crescem; não trabalham nem fiam;
contudo vos digo que nem mesmo Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles.
Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé?
Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que nos havemos de vestir?
(Pois a todas estas coisas os gentios procuram.) Porque vosso Pai celestial sabe que precisais de tudo isso.
Buscai, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas de acréscimo.
Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. A cada dia basta o seu cuidado.
Evangelho segundo Mateus – Capítulo 7
Não julgueis, para que não sejais julgados.
Porque com o juízo com que julgais, sereis julgados; e com a medida com que medis vos medirão a vós.
E por que vês o argueiro no olho do teu irmão, e não reparas na trave que está no teu olho?
Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu?
Hipócrita! tira primeiro a trave do teu olho; e então verás bem para tirar o argueiro do olho do teu irmão.
Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para não acontecer que as calquem aos pés e, voltando-se, vos despedacem.
Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei e abrir-se-vos-á.
Pois todo o que pede, recebe; e quem busca, acha; e ao que bate, abrir-se-lhe-á.
Ou qual dentre vós é o homem que, se seu filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra?
Ou, se lhe pedir peixe, lhe dará uma serpente?
Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas dádivas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhas pedirem?
Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles; porque esta é a lei e os profetas.
Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela;
e porque estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos são os que a encontram.
Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados em ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores.
Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos?
Assim, toda árvore boa produz bons frutos; porém a árvore má produz frutos maus.
Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má dar frutos bons.
Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada no fogo.
Portanto, pelos seus frutos os conhecereis.
Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.
Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitos milagres?
Então lhes direi claramente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.
Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática, será comparado a um homem prudente, que edificou a casa sobre a rocha.
E desceu a chuva, correram as torrentes, sopraram os ventos, e bateram com ímpeto contra aquela casa; contudo não caiu, porque estava fundada sobre a rocha.
Mas todo aquele que ouve estas minhas palavras, e não as põe em prática, será comparado a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia.
E desceu a chuva, correram as torrentes, sopraram os ventos, e bateram com ímpeto contra aquela casa, e ela caiu; e grande foi a sua queda.
Ao concluir Jesus este discurso, as multidões se maravilhavam da sua doutrina;
porque as ensinava como tendo autoridade, e não como os escribas.
“O grande inimigo de São João da Barra é o próprio poder público municipal”. A afirmação é do eco historiador Arthur Soffiati, professor da UFF-Campos. E encontra justificativa na constatação do economista Alcimar Chagas, residente em SJB e professor da Uenf: “o aumento das receitas não é mérito dos gestores. O Imposto Sobre Serviços (ISS) proveniente do Porto do Açu, sem fiscalização, contribuiu com 19,6%. E as rendas petrolíferas contribuíram com 33,5% do total (…) uma arrecadação que o poder público não sabe como gastar com êxito (…) para planejar e operar serviços públicos de qualidade”. Outro residente em SJB, o cientista político Hamilton Garcia, também professor da Uenf, não eximiu de culpa o eleitor: “A população paga o preço de seu vício por ‘benefícios’ e falta de espírito público; neste quesito, o sanjoanense não pode simplesmente apontar o dedo para a prefeita sem assumir sua parcela de culpa”.
Hamilton, Arthur e Alcimar, assim como Cristiano Sampaio, advogado com especialidade em Direito Público e presidente do tradicional Grussaí Praia Clube, analisaram em seus muitos aspectos o primeiro ano do quarto governo Carla Machado (PP). Talvez o mais criticado dos 17 anos de domínio do movimento conhecido como “carlismo” em SJB. Onde a grande arrecadação do município — proporcionalmente, 3,6 maior que a de Campos — não se traduz na oferta de serviços e geração de empregos à população. Na nota de 0 a 10 para o governo pedida aos quatro especialistas, Alcimar preferiu deixar a avaliação aos sanjoanenses. Já entre as dadas por Arthur, Cristiano e Hamilton, a média de Carla foi uma nota 4. Se será sufuciente para passar, e ultrapassar os 20 anos do carlismo no poder, só as urnas de 2024 dirão. Baseado no passado e no presente, Cristiano, no entanto, apostou: “Creio que o carlismo se esgotou”.
Sâo João da Barra na análise do economista Alcimar Chagas, do eco historiador Arthur Soffiati, do adogado Cristiano Sampaio e do cientista político Hamilton Garcia (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Folha da Manhã – Como vê o recorde de arrecadação de São João da Barra em 2021, com receita orçamentária realizada de R$ 464,3 milhões nos 10 primeiros meses do ano, contrastando com má qualidade dos serviços públicos oferecidos pelo município?
Alcimar Chagas – Primeiro dizer que o aumento das receitas não é mérito dos gestores. O Imposto Sobre Serviços (ISS) proveniente do Porto do Açu, sem fiscalização, contribuiu com 19,6%. E as rendas petrolíferas contribuíram com 33,5% do total arrecadado. Podemos considerar que o ambiente favorável, com operações portuárias, preço elevado do petróleo e dólar valorizado, potencializou uma arrecadação que o poder público não sabe como gastar com êxito. Notamos a ausência de quadros técnicos capazes para formular e implementar políticas públicas de longo prazo, assim como, para planejar e operar serviços públicos de qualidade para a coletividade.
Arthur Soffiati – A meu ver, a Prefeitura tem uma excelente estrutura para arrecadar e uma deficiente capacidade de retornar recursos públicos para o contribuinte na forma de serviços essenciais, como educação, saúde, saneamento na parte que cabe ao município, transporte interdistrital, cultura, lazer e outros deveres do poder público. Ou o desejo inconfesso de não retornar o dinheiro do contribuinte na forma de bens serviços.
Cristiano Sampaio – Penso que SJB segue a mesma prática de Campos, se comparado a um passado não muito distante. No governo Arnaldo Vianna (PDT) ocorreu uma arrecadação esplêndida em razão das receitas da exploração do petróleo. A SJB de hoje representa um modelo idêntico a essa Campos de ontem. Receitas fartas, porém, não direcionadas para o que de fato fará o município grande para os próximos anos. Rios de dinheiro escoados para um transporte público gratuito. Ação puramente populista e já fracassada na região.
Hamilton Garcia – São fenômenos que se devem aos ciclos eleitorais e ao modo como se obtém sucesso com a maioria do eleitorado: geralmente acumulando recursos para serem ofertados em prendas e prebendas às vésperas das eleições. É uma receita que Carla Machado conhece e tem praticado com muita competência em sua vitoriosa carreira. Naturalmente, em desproveito da cidade.
Folha – Saúde, educação, administração e gestão ambiental concentraram 83% das despesas liquidadas de SJB, enquanto apenas 0,13% foram gastos em investimento. O município poupou quase 40% das receitas realizadas, enquanto metade da sua população não tem água tratada e saneamento básico. A educação tem avaliação inferior a municípios do Noroeste Fluminense e a saúde é socorrida por Campos em todas as demandas de alta complexidade. Se dinheiro não falta, o que explica esse estado de coisas?
Alcimar – Isso confirma a negação do planejamento municipal. Os gestores gastam mal e de forma concentrada parte importante dos recursos em custeio. E ignoram a necessidade de investimento em projetos de longo prazo. Preferem os superávits elevados. Os gastos concentrados na saúde não protegem os que mais precisam, os gastos em educação não inibem o comprometimento profissional dos jovens e crianças e os gastos em gestão ambiental não inibem os esgotamentos a céu aberto. Outras funções importantes como agricultura e ciência e tecnologia não tem qualquer importância no orçamento.
Arthur – Sem dúvida, existe uma disparidade entre a receita e a despesa. Vejamos a gestão ambiental. São João da Barra solicitou ao Inea que levantasse pontos merecedores de proteção no município. Eu mesmo fui contactado pelo Inea no sentido de colaborar. Nada aconteceu. O município pretende agora criar uma Área de Proteção Ambiental (APA) para a parte norte da Lagoa Salgada, quando o correto seria integrar a lagoa toda no Parque do Açu. Sei como isso funciona: sanciona-se um diploma legal e nada mais se faz. Não parece que saúde e educação estejam sendo devidamente atendidas. Parece que o dinheiro arrecadado está sendo guardado para o momento eleitoral.
Cristiano – Para além da óbvia preocupação com a falta de investimentos, o que por si só representa a total ausência de um projeto para o futuro de SJB, o que é incompreensível como um município com uma crescente arrecadação, mesmo diante de uma pandemia, com desembolso significativo de valores, tem resultados pífios na educação, bem como, a evidente falta de estrutura da rede de saúde.
Hamilton – De novo, o sucesso eleitoral, que significa a aprovação tácita da população a este tipo de governo. O paradoxo se resolve na percepção egoísta da maioria, que anseia benefícios para si, sem pensar na cidade, imaginando que possa progredir independente dela, sem perceber que o progresso da cidade abre novos horizontes para todos, sobretudo para as gerações em formação.
Folha – Promessas de obras de infraestrutura para o Porto do Açu, como um novo acesso rodoviário estadual, passando por fora da cidade de Campos, mais a federal da EF 118, dão a dimensão do impacto desse empreendimento na região. Que, no entanto, absorve muito pouco da mão de obra sanjoanense. Caberia ao município investir na qualificação profissional da sua população economicamente ativa? Por que isso não foi feito?
Alcimar – São quase 50 anos da Bacia de Campos e 15 anos do porto do Açu com muitos discursos sobre emprego e desenvolvimento. Os resultados estão aí! Na verdade, o município não se insere no fornecimento de mão-de-obra e insumos. O conceito de “capacidade de absorção” explica essa situação. É necessário planejar habilidades e negócios inovativos de acordo com os grandes investimentos que chegam. Como a sociedade não tem um padrão razoável de organização e o poder público é omisso e incompetente, as externalidades positivas fogem e somente as externalidades negativas são fixadas localmente.
Arthur – O complexo do Açu não emprega mão-de-obra de sanjoanenses ou porque prescinde dela na medida em que dispõe da sua, já devidamente qualificada, ou porque não encontra, no município, mão-de-obra adequada. A Prefeitura poderia, sim, qualificar mão-de-obra para o Porto. Por que não isso não é feito? Creio tratar-se de uma pergunta a ser dirigida à prefeita. Talvez a auto-outorga do título de baronesa de São João da Barra tenha lhe bastado. Seja qual for a resposta, a verdade é que o município poderia contribuir muito na redução do desemprego em seu território.
Cristiano – Tenho a convicção que o empreendimento Porto do Açu é um polo de oportunidades regional. Deste modo, há que se ter uma coordenação do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Creio que a tão esperada Ponte da Integração, assim como a ferrovia para escoar a produção pelo Porto, são fundamentais para garantir uma logística de expansão. De fato, a qualificação das pessoas é pedra fundamental para o desenvolvimento de uma cidade, e assim sendo, a meu sentir, é dever que recai sobre o município qualificar os seus.
Hamilton – Tudo gira em torno de ganhar as eleições por meio de prendas e prebendas: esta é a dinâmica dos municípios empoderados em petróleo. Política pública é o programa acessório, também pensado em termos puramente eleitorais. É claro que formação profissional é um programa atraente em tese, mas se você pode obtiver renda com menor esforço, então ele vira uma bandeira mais retórica. Ademais, políticas públicas bem estruturadas dão um bocado de trabalho e o secretariado, nestes casos, costuma ser formado dentro de outro espírito.
Folha – Também em parceria com o Governo do Estado, foram anunciadas obras como a conclusão da entrada da cidade e a revitalização do Porto São Pedro. Da oposição, o deputado estadual Bruno Dauaire (PSC) tem feitos críticas à falta de investimentos de recursos do próprio município. Como você vê?
Alcimar – Realmente o esforço de investimento é extremamente baixo no município. De 2017 a 2020 o investimento médio foi de 1,28% ano sobre as receitas correntes realizadas. E, em 2021, foi ainda pior. Quanto à parceria com o estado, tenho lá minhas preocupações já que o munícipio tem dificuldades de formalizar projetos, o que é um elemento limitador. É bom lembrar que o TCE-RJ vai cobrar responsabilidade no uso dos recursos do estado transferidos para municípios, ainda mais que as eleições estão na porta. Isso exige a formulação de projetos técnicos que justifiquem a alocação desses recursos para o bem-estar social da população.
Arthur – De fato, com a arrecadação do município, pelo menos o Porto São Pedro poderia e deveria ser revitalizado na medida da sua importância. A reclamação quanto à falta de investimento não parte apenas do deputado Bruno Dauaire, mas também de muitos munícipes. São João da Barra parece a caixa de Pandora da qual até a esperança fugiu.
Cristiano – Reconheço o trabalho do deputado Bruno Dauaire e ratifico suas críticas, até em razão da coerência que devo manter com minhas convicções. Muito embora as conquistas sejam importantes para SJB, na minha avaliação não têm a força para impactar em desenvolvimento a longo prazo. É certo que aos prefeitos ou prefeitas, os agentes políticos que estão não ponta, próximos aos problemas e soluções, têm que assumir devidamente o encargo de promover um crescimento sustentável.
Hamilton – O governo estadual parece disposto e empoderado para fazer investimentos com a mesma motivação imediatista e eleitoreira; portanto, temos a fome com a vontade de comer produzindo os mesmos resultados, entra eleição, sai eleição: o fortalecimento de oligarquias eleitorais às expensas do desenvolvimento da cidade, que se dá por iniciativas externas, quase sempre mal aproveitadas. Curioso é que a família Dauaire se mostrou virtualmente ausente em todo este período.
Folha – São João da Barra é um dos poucos municípios fluminenses que ainda não aderiu a nenhum dos grupos da venda de Cedae. Isso, aliado aos problemas já antigos de captação com o avanço da língua salina sobre o rio Paraíba, pode comprometer o abastecimento de água do município?
Alcimar – O abastecimento de água pela Cedae já é um problema há muito tempo no município. Tanto é verdade que o plano de governo da prefeita Carla Machado para 2017 a 2020 considerava a necessidade de conclusão das obras de saneamento em Atafona-sede e a do Telê Santana em Grussaí, que estão estavam e continuam abandonadas. Segundo estimativas dos mesmos governantes que estão no poder hoje, essas obras terminadas teriam a capacidade para atender 20 mil pessoas, o que nos permite concluir que hoje somente 1/3 da população é atendida dignamente com o abastecimento de água pela Cedae.
Arthur – Embora defensor do serviço público, que considero um dever do Estado, vejo que a questão do abastecimento de água em São João da Barra teria dois caminhos: municipalizar o abastecimento ou transferi-lo à iniciativa privada. Manter a captação em local atingido pela língua salina mostra o desinteresse em resolver o problema de imediato. A solução é transferi-la para local mais seguro. A Prefeitura deve exigir essa mudança, o que deve acontecer com outra empresa. De longa data, a Cedae vem se mostrando preguiçosa em resolver problemas.
Cristiano – De fato, é uma incógnita a inércia das administrações que se sucederam a frente do município de São João da Barra nas últimas duas décadas. Note-se que tal temática sequer é abordada como proposta de campanha. Vejo como uma criminosa omissão do município em não cobrar investimentos nessa área. A falta de alternativa quanto a uma nova fonte de captação de água corrobora a afirmativa da falta de investimentos. A língua salina é um fenômeno recorrente, ou seja, não é razoável postergar uma solução.
Hamilton – Até poucos anos atrás a PMSJB sequer tinha contrato com a Cedae e quem conhece seus procedimentos afirma que o tratamento da água é bem precário. O fato é que boa parte da população não confia na qualidade do fornecimento e se tornou consumidora de água de galão faz alguns anos. O curioso é que este não é um tema eleitoral; a água ainda foi objeto de certa reclamação nos momentos de maior escassez, no verão, mas sem comprometer a força eleitoral de Carla Machado.
Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã
Folha – O avanço da língua salina é um dos efeitos do avanço do mar sobre o litoral sanjoanense, que já levou muitas casas e ruas de Atafona. Parece consenso que o processo se agravou a partir da construção da Barragem de Santa Cecília, em 1951, que desvia 2/3 da vazão do Paraíba para atender ao Grande Rio no Sistema Guandu. E, nestes últimos 70 anos, nada foi feito. Como se explica essa passividade?
Alcimar – Segundo especialistas a construção da barragem tem papel preponderante no processo de enfraquecimento do rio Paraíba. Nesse caso vejo que a busca de solução para os problemas decorrentes extrapola os limites da política municipal. Porém a responsabilidade continua nas mãos dos governantes que precisam reunir habilidades e competências necessárias para sensibilizar as esferas estaduais e federais sobre os problemas de dimensões substantivas. Ao contrário, o que se observa é uma total passividade desses governantes que preferem “jogar para a galera” com visitas a Brasília visando a autopromoção, sem nenhum efeito real.
Arthur – A Prefeitura tem usado o argumento de que a praia artificial proposta por um setor da população, a exemplo do que foi feito em Marataízes, apresenta alto custo para o município. Sendo verdade, cabe trazer à tona, mais uma vez, que o geógrafo Eduardo Bulhões, da UFF, apresentou uma solução muito mais barata, que consiste em criar uma praia artificial usando apenas areia. Essa praia seria reconstituída periodicamente. A Prefeitura também não se movimentou em relação a essa proposta mais barata e viável para ela. Parece que a falta de resposta mostra o desinteresse por uma solução, qualquer que seja ela.
Cristiano – Em verdade existem estudos sobre o avanço do mar no pontal de Atafona, sendo que uma corrente aponta que a instalação da barragem do Sistema Guandu é a causa desse mal. Recentemente tivemos conhecimento de estudo que avalia o fenômeno do aquecimento global, como uma causa a mais do problema. A solução do rio Paraíba passa necessariamente por uma articulação política em nível nacional. Porém, como quem mais sofre é São João da Barra, cabe ao município provocar tal debate.
Hamilton – Primeiro pela fragilidade do próprio Estado do Rio de Janeiro à época que a cidade do Rio era a capital do país e depois se tornou o Estado da Guanabara. Depois, pelo fato de que a cidade se esvaziou econômica e politicamente, limitando seu poder de pressão. Mas nada é mais significativo do que sua própria incapacidade de auto-organização em defesa própria: mesmo parcialmente revertido o esvaziamento econômico, com a implantação do Porto do Açu, a questão da proteção de sua costa restaria marginal na política local, embora alguma reação tenha se esboçado nos últimos anos.
Folha – Com a perda de força de oposição do rio ao mar, desde outubro de 2019 a foz do Paraíba fechou entre Atafona e a antiga ilha da Convivência. E o mar continua avançando, com a ressaca de novembro deste ano ameaçando cerca de 20 casas da rua Beira-Mar, no que restou do antigo Pontal, além do fim da avenida Nossa Senhora da Penha. O governo Carla respondeu com paliativo de auxílio de R$ 1,2 mil para as famílias atingidas e promessa de casas populares. Isso não é enxugar gelo?
Alcimar – Sim, são ações paliativas para acalmar momentaneamente as pessoas atingidas que vão acabar ampliando o grupo dos desprotegidos posteriormente. A velha prática da política populista, cuja estratégia é fugir da solução definitiva dos problemas para criar “facilidades” imediatas que não se sustentam. Assim esses políticos vão ampliando os grupos dos desalentados, aqueles indivíduos sem as condições básicas e fundamentais de sobrevivência. Um verdadeiro exército de dependentes em total condição de subordinação aos grupos de poder. É dessa forma que essas figuras se perpetuam na política.
Arthur – O auxílio financeiro é enxugar gelo até que ele seque. Já a transferência de pessoas que perderam suas casas para lugar mais seguro com uma política habitacional responsável seria o adequado. Uma política responsável consiste em dialogar com os afetados, encontrar área segura para construção de casas e desenvolver novos bairros. Nada parecido com o programa Morar Feliz, de Campos. Mas tudo indica que nada será feito em termos de política habitacional responsável por parte da Prefeitura.
Cristiano – Não vejo como assistencialismo ou enxugar gelo. Se há pessoas desabrigadas ou desalojadas, cabe ao município de São João da Barra amparar essas famílias. Mas não com promessas e, sim, com ações emergenciais. Esse problema já vem de longa data, esse tema já deveria constar do plano de governo. Contudo, estamos tratando os sintomas e não a causa. O rio Paraíba, como corta três estados da federação é de competência privativa da União, ou seja, demanda um projeto a nível nacional.
Hamilton – É o que se tem feito para remediar a omissão de todos estes anos e a perda da oportunidade com a instalação do Porto do Açu e suas condicionantes ambientais, além da disponibilidade de materiais de contenção marítima que foram utilizados na construção dos píer e embarcadouros do próprio Porto. Enfim, uma janela excepcional, que contava com a participação do Estado e da União inclusive.
Folha – Além da nítida impressão de que lavou as mãos na questão do avanço do mar, o governo Carla tem sido muito criticado, até pelos sete vereadores da sua base em uma Câmara com nove cadeiras, pelos buracos espalhados em todas as ruas do município, além da péssima conservação da iluminação pública. Política popular, a prefeita tem este seu quarto mandato bastante criticado pela população. Como você analisa?
Alcimar – Vejo que esse grupo politico fez muito mal à população de São João da Barra. Usou a estratégia populista a que me referi anteriormente e foi jogando os problemas para frente. A incompetência técnica, enquanto se busca de materializar um projeto de poder, fez com que os mesmos se perpetuassem como governantes por um longo tempo. E acabaram atingindo um desgaste natural que é da natureza desse formato de governo. Neste processo, o conhecimento cientifico foi ignorado. E as ações de governo beneficiaram grupos de interesse financiadores de campanhas que acumulam riqueza em detrimento do conjunto da população.
Arthur – Quatro mandatos é tempo mais que suficiente para um prefeito mostrar a que veio. Se a Câmara Municipal e os cidadãos criticam a prefeita no seu quarto mandato, alguma coisa está errada. É de se perguntar como a prefeita tem sido reconduzida ao cargo tantas vezes. Até mesmo explicações recorrendo ao aquecimento global e à elevação do nível do mar, ela poderia usar. Mas nem a isso se dá ao trabalho. Quanto à conservação das vias e da iluminação públicas, trata-se de algo elementar que poderia ser verificado por uma pequena equipe de funcionários que percorresse a cidade periodicamente para ouvir as queixas dos munícipes e atendê-los.
Cristiano – Creio que antes de avançar na resposta, é importante uma reflexão. Se a prefeita Carla Machado logrou ser eleita para quatro mandatos, ela só alcançou tal feito através do voto do cidadão sanjoanense. De fato, o município aparenta um abandono na área de infraestrutura, porém, tal carência decorre do próprio orçamento, quando se verifica uma dotação orçamentária pífia em investimentos. Temos então a realidade de que os recursos existem. Mas há carência de vontade política ou competência.
Hamilton – A população paga o preço de seu vício por “benefícios” e falta de espírito público; neste quesito, o sanjoanense não pode simplesmente apontar o dedo para a prefeita sem assumir sua parcela de culpa, ao incentivar esse tipo de comportamento político eleitoreiro em reiteradas eleições.
Folha – O debate à sucessão de 2024 já começou em SJB. Nomes de oposição, como o deputado Bruno e o empresário Márcio Nogueira (PDT), segundo colocado na eleição a prefeito de 2020, são ventilados. Entre os governistas, o nome da vice-prefeita Carla Caputi (DC), apesar da inexperiência eleitoral, surge com força. Como projeta esse tabuleiro? E, se Carla conseguir emplacar sua vice e xará, ou outro aliado a prefeito, como não terminar como foi com Neco (MDB), que ela elegeu para depois romper?
Alcimar – Esse grupo político ainda exerce um forte poder sobre parte importante da população. A grande dependência financeira das famílias e de grupos acomodados, que não conseguem viver de forma independente, continua alimentando esse processo. Por mais que núcleos com independência se movimentem no sentido de mostrar o quanto esse governo é perverso para a população, somente o tempo vai indicar as reais possibilidades para o próximo pleito. Particularmente entendo que políticos de carreira não mudarão o rumo do municipio. Acredito em novas forças sem vícios e com comprometimento efetivo com as transformações.
Arthur – Trata-se agora de uma questão que cabe aos eleitores. Cada presente tem futuros prováveis. Existe um passado próximo que deve ser levado em conta. Não se pede à população que recorde de gestores do século XVIII, mas que estão no poder há muito tempo num passado recente. Já se conhece essa história. Ela pode se repetir, não na forma de comédia, mas de tragédia mesmo. A Carla xará ou outro candidato apoiado pela atual prefeita corre o risco de desgaste.
Cristiano – Constato que de fato as articulações para a eleição de 2024 já movimentam o tabuleiro político, entendendo que isso deriva da inevitável impossibilidade de Carla Machado em concorrer a um novo mandato. Todavia, vejo como muito precipitado tal movimento. Percebo que a um nome não elencado acima merece atenção. Trata-se de Elísio Rodrigues (PL), presidente do Legislativo sanjoanense. Inclusive, em manifestações públicas, ele coloca seu nome à disposição para concorrer em 2024.
Hamilton – Tudo indica que a fidelidade dos sanjoanenses a Carla pode ser renovada às vésperas das eleições, com o festival de empreguismo e benefícios de sempre. Mas pode acontecer também que isto se dê apenas de modo parcial, por exemplo, sem contemplar sua candidata à Prefeitura, caso esta não seja capaz de infundir o mesmo sentimento de cumplicidade que Carla tão bem soube construir em sua vitoriosa carreira.
Folha – Política e gestora experiente, Carla quase sempre se marcou como prefeita por segurar despesas nos dois primeiros anos, para acelerar o ritmo governo nos dois últimos anos. Essa pode ser a explicação para a atual má fase da sua gestão?
Alcimar – Acredito que a população está mais bem informada e a pressão dos grupos independentes tem se mostrado mais presente. Com as redes socias mais democratizadas não dá para esconder nada. Nesse aspecto, as críticas têm se espraiado mais velozmente e análises mais confiáveis têm chegado às pessoas que antes ficam somente com os agrumemos dos gestores. Até mesmo o Legislativo dependia das informações cedidas pelo Executivo, que muitas vezes se negava a passá-las. Hoje, os instrumentos de transparência facilitaram o acesso à informação e, consequentemente, o acesso às arbitrariedades praticadas pelos gestores.
Arthur – Pode, e deve ser isso. Ela não é marinheira de primeira viagem. O que cabe discutir é se esse tipo de política não é usar os eleitores. O eleitor é responsável por esse tipo de política. Vale a pena passar por dificuldades durante dois anos para viver com certo conforto durante os outros dois? Cabe continuar nessa política antiga de brincar de gangorra? Dirijo as perguntas não apenas aos eleitores, mas à prefeita e aos candidatos.
Cristiano – Creio que essa dinâmica adotada por ocupantes de cargo do executivo, investindo pouco na primeira metade do mandato, com uma aceleração na metade final, é uma prática comum na política brasileira. Talvez isso se dê em razão do senso comum que o eleitor tem memória curta. Outro ingrediente apto a explicar esse marasmo, digamos assim, deve-se ao esgotamento de uma forma de administrar a coisa pública, calcado em um modelo já ultrapassando de fazer política, fundando no clientelismo e no populismo.
Hamilton – Tem sido uma fórmula de sucesso e, não obstante o desgaste verificado, pode tranquilamente continuar sendo, com a ressalva já apontada e até mesmo com uma improvável guinada radical do eleitorado, a depender do poder de mobilização e convencimento de quem a queira substituir no próximo pleito municipal.
Folha – De 0 a 10, que nota daria ao primeiro ano do quarto governo Carla Machado? Por quê? E, contando os três mandatos e um ano da prefeita, mais o criticado governo Neco, que saldo você faz de São João da Barra após 17 anos do carlismo? Em sua visão, em que o município avançou, no que estagnou e no que regrediu? Por quê?
Alcimar – Temos um município gerido há quase 20 anos por um grupo político que se beneficiou do “boom” das rendas petrolíferas na primeira década e da chegada do porto do Açu com investimentos de mais de R$ 15 bilhões. Como resultado esses mesmos gestores não conseguiram eliminar gargalos como a falta de água potável para 2/3 da população, a ausência de 55% de esgotamento sanitário, a limitação de renda de 38% da população que vivem com até 1/2 salário-mínimo, desemprego, aumento da miséria, segurança precária, baixo padrão de educação e de saúde pública. Que nota esses gestores merecem? Prefiro deixar para avaliação dos leitores!
Arthur – Difícil atribuir uma nota depois de 17 anos, mas exatamente por entender que uma pessoa que exerce o quarto mandato não é mais uma inexperiente, atribuo nota 3. Na verdade, essa nota oscila de 0 a 3 porque percebo claramente que o município regrediu, apesar de um grande empreendimento convencional atuar em seu território. O mar e o rio não são os principais inimigos da população, porque são forças irracionais. O grande inimigo de São João da Barra é o próprio poder público municipal.
Cristiano – Devo ser coerente com minha avaliação crítica do primeiro ano do mandato de Carla Machado. Deste modo, a meu sentir, a nota 4 representa fielmente o desempenho de sua administração. Justifico minha nota ao constatar que recursos têm, mas faltam projetos. Assim não vislumbro um futuro melhor, até em razão da falta de investimento em infraestrutura. Minha opinião é ácida, pois não vejo avanços. O “carlismo” nas sucessivas gestões foi mais do mesmo. Creio que o “carlismo” se esgotou.
Hamilton – Daria 5, pois o avanço visto na cidade foi mais vegetativo, pelo impacto do crescimento verificado em Campos e a externalidade do Açu, do que fruto de uma estratégia posta em prática por suas lideranças políticas. Macaé inaugurou, este ano, um movimento que projeta o município para 2030, buscando reunir gestores, pesquisadores e a sociedade, para elaborar estratégias de crescimento sustentável, inclusive incorporando o momento pós-petróleo: não se vê nada parecido com isso em SJB, infelizmente.